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domingo, 29 de abril de 2012

Uma caminhada espiritual no Labirinto


Há alguns anos tenho tido a feliz oportunidade de guiar pessoas em sua descoberta da caminhada pelo Labirinto. A própria palavra chega a assustar muitos cristãos – especialmente aqueles que tenham uma herança protestante não-litúrgica, na qual práticas mais tradicionais de oração e meditação não são muito comuns. Minha experiência pessoal com práticas “alternativas” de oração e devoção cristãs, além de minha experiência liderando esses tipos de liturgias, tem se provado um excelente caminho de descoberta e crescimento espiritual.

Para aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de caminhar o Labirinto, deixem-me explicar um pouco sobre o que se trata: o Labirinto é um caminho, geralmente circular, que te leva a um ponto central e, em seguida, para fora novamente. Os labirintos têm sido usados, há séculos, por cristãos e por pessoas de outras tradições como um caminho de oração, meditação e cura. Para aqueles que já visitaram igrejas medievais na Europa (pensem na Catedral de Chartres, na França), por exemplo, talvez seja fácil lembrar desses labirintos nos pisos de pedra dessas igrejas; ou, talvez, lembrem-se daqueles labirintos verdes nos antigos jardins britânicos; ou nos labirintos nos pisos de muitas igrejas (católicas e protestantes) nos Estados Unidos. Aqui mesmo em nossa congregação, contamos com um modelo portátil de Labirinto que utilizamos para nossa prática de caminhada.

Mas o que fazemos enquanto caminhamos pelo Labirinto? Em primeiro lugar, é sempre bom lembrar que a jornada pelo Labirinto é uma prática espiritual que envolve o nosso “todo” – isto é, envolve o nosso corpo; envolve nosso autocontrole (já que não estamos numa corrida, e, sim, numa caminhada lenta); envolve nossa mente, enquanto meditamos e oramos. Muitos, enquanto caminham, repetem uma oração curta; outros, mencionam uma intenção e caminham focando-se nessa intenção. Outros refletem sobre suas vidas e jornadas pessoais. Muitas pessoas, ao alcançarem o centro do Labirinto, permanecem lá por algum tempo – em pé ou sentadas, algumas acendem uma vela – para orar. Podemos fazer tudo isso e, se forem um tanto atrevido como eu, poderão experimentar diferentes práticas todas as vezes que caminharem pelo Labirinto.

Também é importante dizer que não precisamos, necessariamente, dum labirinto físico para praticarmos essas caminhadas espirituais. Para aqueles que não têm a oportunidade de caminhar através dum labirinto, podem, ainda, praticar uma caminhada de meditação e oração num lugar público em horário mais tranquilo – aqui em Recife, por exemplo, contamos com a praia e com parques onde podemos fazer isso.

Muitas orações podem ser utilizadas para nos centrarmos enquanto caminhamos. Se você não se sente à vontade com orações prescritas, pode dizer suas próprias orações, ou pode recitar trechos das Escrituras. (Como minha preocupação aqui é com a caminhado no Labirinto enquanto prática cristã, é óbvio que trato da oração cristã aqui, mas aqueles que não sejam cristãos – ou mesmo aqueles que se vejam como ateus, agnósticos, ou não religiosos – também podem utilizar a caminhada como uma prática de meditação, obviamente, e podem criar um ritual próprio.) Pode também, utilizar trechos de poesia, ou o que quiser como “mantra”, além da meditação pessoal. A seguir gostaria de listar algumas de minhas orações favoritas quando estou fazendo minhas caminhadas, tanto pelo Labirinto quanto na praia ou parques:

“Deus esteja comigo neste dia, todos os dias, e em minha jornada, e que eu possa ser a presença de Deus para aqueles que encontrar em meu caminho, neste dia, e todos os dias.”

“Aqui estou, meu Jesus, ensina-me.”

“Paz entre mim e meu Deus.”

“Em teu caminho, ó meu Deus, e não no meu, sejam todas as minhas jornadas.”

“Ilumina minha escuridão, ó Luz Eterna. Que tua presença afaste a escuridão da noite.”

“Acalma-me, ó Deus, como acalmas as tormentas da vida. Cessa esse tumulto dentro de mim. Abraça-me com tua paz!”

“Que a paz de toda a paz esteja comigo agora!”


Independentemente de como damos voz à nossa busca espiritual, minha experiência, assim como a de muitas outras pessoas, é que a caminhada espiritual – seja no Labirinto ou fora dele – é uma ótima prática de centração espiritual que nos ajuda a encontrarmos novas direções em nossas vidas. Experimente e me conte depois!

+Gibson

domingo, 22 de abril de 2012

A jornada de fé dum herege contemporâneo


Incontáveis vezes ouço aquelas mesmas provocações de ambos os lados do espectro: dos não religiosos, a provocação do como posso ser tão “estúpido” para acreditar em Deus e seguir uma religião – uma das razões para esse seu pensamento é que essas pessoas só conseguem enxergar a busca espiritual e religiosa como uma “necessidade de conforto” –; do outro lado, aqueles religiosos mais “tradicionais” (esse é um termo inapropriado para a ideia aqui, já que me considero muito tradicional, mas deixarei essa discussão semântica para depois!), que me provocam dizendo que não sou cristão por não entender a fé cristã da mesma forma que eles. Ambos os tipos de provocações já se tornaram uma rotina em minha vida ministerial e intelectual, a ponto de me cansarem de tédio!

Honestamente, preferiria que alguém – fora de minha comunidade de fé, isto é – quisesse gastar seu tempo e o meu com uma discussão mais útil sobre fé, vida, e serviço cristãos. Um cristão como eu, que possui um background múltiplo – mergulhado nas tradições unitarista, anglicana, e luterana, além da tradição liberal judaica – está inserido demais num mundo teologicamente diverso para abraçar versões exclusivistas do Cristianismo. Estou muito satisfeito com minha fé elástica, moldada por minha experiência do Divino e do mundo, com a qual minha compreensão daquele Mistério Eterno é moldada a cada novo instante.

Minha fé não é uma fé de certezas e conforto. É, antes, uma jornada de descoberta, ao longo da qual abraço a plenitude do desconhecido e tento ouvir a voz daquele Mistério Tremendo, que chamo pelo nome de “Deus”. Minha fé não me garante que alcançarei um destino certeiro, pois a jornada é o que mais me importa. Quero a presença de Deus – paz, perdão, reconciliação, compaixão, amor, etc – aqui e agora, e não numa suposta glória pós-mortal. Acredito que o Divino se revela a cada momento da caminhada: quando nos acordamos e quando dormimos; quando choramos e quando sorrimos; quando sozinhos ou quando acompanhados; quando nos amamos e quando aborrecemos uns aos outros; quando nos abraçamos e mesmo quando nos ofendemos – em cada um desses momentos, podemos descobrir um aspecto novo da manifestação do Divino.

Mais do que estar preocupado com a crença correta a ser abraçada pelo cristão (não que esta não seja importante, até certo ponto), preocupo-me com a ação correta daquele que se diz discípulo de Jesus. Para mim, é a prática correta – a ortopráxis – que define o verdadeiro cristão; e quando falo nesta “prática correta”, não me refiro à liturgia, mas à eticidade de nossas ações como cristãos para com todas as outras pessoas e para com o todo da Criação.

Todos que discordam de minhas ideias teológicas estão sempre muito dispostos a citar versos e mais versos das Escrituras para provarem que o que acredito é errado e não-cristão. É interessante como nossa prática cristã (especialmente no meio Protestante) tem sido a de tornar a Bíblia cúmplice de nossas concepções dogmáticas (religiosas ou políticas), com todos os lados fazendo uso da mesma coleção de escritos sagrados para legitimarem seus discursos. Não consigo deixar de pensar que a mesma Bíblia que era utilizada para legitimar a escravidão, até o século XIX, era também utilizada para denunciar essa prática como uma abominação diante de Deus; que a mesma Bíblia que era utilizada, por alguns, para legitimar a guerra, era também utilizada, por outros, para advocar o pacifismo; que a mesma Bíblia utilizada para justificar a submissão da mulher ao homem e de pessoas não-brancas a pessoas brancas, era (e ainda é) utilizada por outros para ensinar que o Evangelho proclama o fim dessas distinções diante de Deus.

Apesar de não querer reforçar aqui a ideia de que Bíblia e Cristianismo sejam sinônimos – para mim, não são, pois ambos se complementam: a Escritura surge a partir da Igreja e a Igreja forma seu pensamento a partir do testemunho bíblico –, quero mostrar, nas Escrituras, exemplos (equivocadamente deixados de lado por alguns cristãos) de uma fé que sobrepuja nossa preocupação com dogma, verdade, certeza, exclusivismo; exemplos duma fé extravagantemente graciosa, radicalmente inclusiva, e inflexivelmente compassiva. Exemplos bem diferentes daqueles tão frequente e convenientemente enfatizados pelos dois grupos de pessoas que costumam ter problemas com o pensamento de cristãos liberais como eu. Eis algumas dessas passagens das Escrituras que moldam minha fé cristã:

Não explore o imigrante nem o oprima […]” (Êxodo 22:20)

Quando um imigrante habitar com vocês no país, não o oprimam. O imigrante será para vocês um concidadão: você o amará como a si mesmo […]” (Levítico 19:33-34)

O jejum que quero é este: acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer jugo; repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu, e não se fechar à sua própria gente. Se você fizer isso, a sua luz brilhará como a aurora, suas feridas vão sarar rapidamente, a justiça que você pratica irá à sua frente e a glória do Senhor virá acompanhando você. Então você clamará, e o Senhor responderá: “Estou aqui!” Isso se você tirar do seu meio o jugo, o gesto que ameaça e a linguagem injuriosa; se você der o seu pão ao faminto e matar a fome do oprimido. Então a sua luz brilhará nas trevas e a escuridão será para você como a claridade do meio-dia […]” (Isaías 58:6-10)

Ó homem, já foi explicado o que é bom e o que o Senhor exige de você: praticar a justiça, amar a misericórdia, caminhar humildemente com o seu Deus.” (Miqueias 6:8)

Venham para mim todos vocês que estão cansados de carregar o peso do seu fardo, e eu lhes darei descanso. Carreguem a minha carga e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para suas vidas. Porque a minha carga é suave e o meu fardo é leve.” (Mateus 11:28-30)

Não há distinção entre judeu e grego, pois ele é o Senhor de todos, rico para com todos aqueles que o invocam. Porque todo aquele que invoca o nome do Senhor, será salvo.” (Romanos 10:12-13)

Que o amor de vocês seja sem hipocrisia: detestem o mal e apeguem-se ao bem; no amor fraterno, sejam carinhosos uns com os outros, rivalizando-se na mútua estima. […] Abençoem os que perseguem vocês; abençoem e não amaldiçoem. Alegrem-se com os que se alegram, e chorem com os que choram. Vivam em harmonia uns com os outros. Não se deixem levar pela mania de grandeza, mas se afeiçoem às coisas modestas. Não se considerem sábios. Não paguem a ninguém o mal com o mal; a preocupação de vocês seja fazer o bem a todos os homens. Se for possível, no que depende de vocês, vivam em paz com todos. […] Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber; […] Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem.” (Romanos 12:9-21)

Não fiquem devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo. Pois quem ama o próximo cumpriu plenamente a Lei. De fato, os mandamentos: não cometa adultério, não mate, não roube, não cobice, e todos os outros se resumem nesta sentença: “Ame o próximo como a si mesmo.” O amor não pratica o mal contra o próximo, pois o amor é o pleno cumprimento da Lei.” (Romanos 13:8-10)

Paremos, portanto, de julgar uns aos outros. Ao contrário, preocupem-se em não ser causa de tropeço ou escândalo para o irmão.” (Romanos 14:13)

Se alguém pensa que é religioso e não sabe controlar a língua, está enganando a si mesmo, e sua religião não vale nada. Religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso Pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em aflição, e manter-se livre da corrupção do mundo.” (Tiago 1:26-27)

Assim também é a fé: sem as obras, ela está completamente morta.” (Tiago 2:17)

Amados, amemo-nos uns aos outros, pois o amor vem de Deus. E todo aquele que ama, nasceu de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor.” (1 João 4:7-8)


Essas passagens falam por si mesmas. Àqueles que costumam me acusar de politizar minha fé em excesso, só me resta usar esses poucos exemplos bíblicos como minha defesa e evidência de que as raízes bíblicas da tradição cristã é que tornam a fé uma questão “política” (isto é, uma questão de nossa inter-relação com o todo da Criação de Deus). E é justamente por isso que a fé cristã tem relevância em minha própria experiência – porque Jesus e, consequentemente, o Cristianismo me chamam à ação, me convidam a participar na obra de reconciliação de Deus. Por isso posso acreditar em Jesus e ser seu seguidor!

+Gibson

domingo, 15 de abril de 2012

Em lembrança dos refugiados, migrantes e desenraizados em nosso mundo

Este é aquele dia no qual meus pensamentos, e minhas orações, estão com todos aqueles que foram desenraizados pelas situações da vida: os refugiados das grandes tragédias humanas e naturais, e os migrantes de todo o planeta. Que possamos encarnar a hospitalidade em nossas ações para com outros seres humanos, e um dia sermos capazes de orarmos com sinceridade aquelas palavras da oração de benção que diz:

"[...] e se houver alguém faminto e sedento perambulando nas ruas, possa Deus enviá-lo a nós para que possamos compartilhar com ele nosso alimento [...]".

É minha honesta esperança. É minha fé.

+Gibson

sábado, 7 de abril de 2012

Liberdade de Expressão também para o Silas Malafaia


Hoje recebi uma mensagem que me irritou, por diferentes razões. A mensagem denunciava o pastor evangélico Silas Malafaia como “um agente do ódio contra os cidadãos gays e contra a democracia no Brasil”, especialmente em decorrência de seu ativismo contrário à PL 122/06 (a conhecida “Lei anti-homofobia”).

Como resposta, pedi que meu interlocutor me apresentasse provas de tal ódio “contra os cidadãos gays e contra a democracia” – além das citações e trechos de gravações em áudio e vídeo fora de contexto que ele incluiu em sua mensagem –, e sua contra-resposta foi a de que eu também era “parte do time” do Silas Malafaia.

Para que as coisas fiquem bem claras – se resta alguma dúvida –, devo esclarecer que me encontro num universo teológico, religioso, e social muitíssimo diferente e oposto ao do citado pastor: sou um protestante liberal – e não um evangélico –, e sou gay. Por protestante liberal, entenda-se que creio numa interpretação da tradição cristã que em muito diverge daquela acreditada e defendida pelo pastor Malafaia. Como consequência, minha visão das relações humanas – o que inclui aquelas referentes a orientações emociono-sexuais – também são diferentes das dele, ou das que ele acredita serem aceitas por Deus e pela tradição cristã. Por gay, entenda-se que sempre me considerei emocional e sexualmente atraído por outros homens, e não por mulheres – o que, em hipótese nenhuma, significa que minha vida não seja regida por uma ética sexual baseada em minha compreensão do Evangelho; significa, apenas, que outro homem é o objeto de meu afeto.

Como um fiel cristão liberal e gay, obviamente me sinto muito desconfortável quando ouço outros cristãos, que não partilham de minhas perspectivas teológicas, condenarem o que chamam de “práticas homossexuais”. Tenho a impressão que imaginem que ser “gay” seja uma questão de mecânica sexual apenas, e não envolva afeto e amor para com outra pessoa, e a si mesmo – mas, seja como for, essa é uma outra discussão. Como um unitarista, valorizo, prezo, e trabalho pela liberdade de todas as pessoas – para que possam expressar suas ideias, suas crenças, suas convicções, mesmo que me oponha a elas. Tem sido uma tradição secular de minha corrente teológica não-conformista dizer que “morreria, se necessário, para defender o direito de meu inimigo dizer o que ele pensa” – mesmo se o que ele pensa seja uma afronta às minhas ideias. Mas, não, espero que para defender o bom senso eu não precise morrer, mas apenas dizer o que acredito ser certo.

O pastor Silas Malafaia, enquanto ministro religioso, em minha visão, não é um homofóbico, é apenas um cristão fiel às suas convicções e um pastor aparentemente responsável para com suas ovelhas. Sua noção do que sejam as Boas Novas e sua práxis pastoral podem ser extremamente diferentes das minhas, mas elas são uma materialização clara de suas convicções. O que ele prega, enquanto pastor, não é o ódio aos indivíduos gays, mas, sim, suas convicções do que seja o tipo de vida esperado daquele que deseja ser parte de sua família de fé. Sim, isso inclui – para ele – uma condenação das “práticas homossexuais”, assim como inclui uma condenação das práticas heterossexuais que ele entende como imorais, mas isso não é o mesmo que incitação ao ódio!

Se Silas Malafaia merece ser condenado por defender seus pontos de vista – que até agora não se mostraram como incitação à violência ou ódio contra um grupo de pessoas –, então eu mereço ser também condenado por defender pontos de vista teológicos diferentes dos dele. O que ele parece ser bem vocífero contra é o “ativismo gay” que reina em algumas esferas do cenário público brasileiro – especialmente visível no caso da PL 122/06 (contra a qual tenho me posto publicamente já algum tempo) – e que levam a certos conflitos que têm caracterizado as relações sociais em nossa época. Eu, obviamente, apesar de poder discordar de algumas de suas interpretações, apoio seu direito de poder dizer o que pensa e defender publicamente o que acredita, desde que sob o manto da Constituição Federal (Artigo 5º, IV, VII).

Em minhão visão do que acontece hoje no Brasil, Silas Malafaia é uma vítima da campanha política (pseudo)pró-direitos humanos – se essa fosse uma campanha em prol dos direitos humanos, então defenderiam seu direito a dizer o que pensa. É engraçado como costumamos demonizar a todos aqueles que pensam diferentemente de nós, e como isso tem acontecido comigo (um ministro que também é gay) por me opor ao que a maioria dos ativistas gays pensam, consigo entender o que se passa no caso Malafaia. As acusações feitas contra ele são um absurdo, assim como também é um absurdo a tal PL 122/06!!!

+Gibson

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Minha Mensagem de Páscoa


Frequentemente, quando falamos acerca das grandes tradições religiosas mundiais, tendemos a unificar cada uma delas, como se fossem grandes blocos maciços. Assim, nos referimos ao Cristianismo como se este fosse uma coisa única, como se pudéssemos listar características que definem o Cristianismo e que devem ser subscritas por todos aqueles que desejam ser reconhecidos como cristãos.

Infelizmente, esse não é um equívoco cometido apenas por aqueles que olham para as tradições religiosas – e especificamente para o Cristianismo – a partir de fora, ou apenas em nossas conversas informais. Esse equívoco é cometido dentro do próprio corpo de fiéis cristãos que formam aquilo que chamamos de Igreja (num sentido bem largo e amplo para o termo, o sentido que geralmente dou a ele). Na história cristã encontraremos repetidos esforços para a definição do que vem a ser o “verdadeiro” Cristianismo e de quem são os “verdadeiros” cristãos; e, obviamente, todas as vezes que encontramos declarações do que seria a “verdadeira” fé cristã, necessariamente encontramos lá uma cerca de exclusão – um sistema de renúncia de fraternidade àqueles que pensam diferentemente de nós.

Chamo essa atitude exclusivista para com aqueles cristãos fiéis que pensam de maneira diferente de “equívoco” porque acredito plenamente que isso fere o espírito do Evangelho. Para mim, não há um Cristianismo; há Cristianismos. É só pensar nas várias tradições que formam a Cristandade: a Ortodoxia Oriental, o Catolicismo Romano, o Luteranismo, o Anglicanismo, a tradição Reformada – em suas mais diversas formas, o Anabaptismo, o Quaquerismo, o Unitarismo, o Restauracionismo, e tantas outras formas de Cristianismo. Cada uma dessas peças do grande tabuleiro que forma a tradição cristã tem sua própria compreensão do que é ser cristão e de qual seja a ênfase da mensagem cristã. Cada uma delas e, consequentemente, cada um dos indivíduos que delas são parte, é fiel ao chamado de Cristo de sua própria maneira, e moldados por suas próprias compreensões e convicções.

Para algumas dessas tradições cristãs, é essencial crer que as palavras dos credos históricos da Igreja cristã representem uma verdade factual, objetiva. Assim, quando alcançamos essa época do Ano Cristão, quando celebramos a Páscoa – compreendida pela maioria dos cristãos como uma celebração da vitória de Cristo sobre a morte por meio de sua ressurreição dentre os mortos –, essas tradições enfatizam em suas liturgias o poder transformador da fé intelectual, da fé enquanto assensus (assentimento, aceitação, crença).

Considero esse aspecto da fé – o assensus – como muito importante, especialmente se o aliarmos ao seu lado prático (nossas ações), que a Carta de São Tiago, por exemplo, afirma ser condição essencial para a validade da mesma (Tiago 2:17). Contudo, não compreendo esse aspecto intelectual da fé como sendo mais importante que o espírito de comunhão ensinado, de acordo com os registros dos autores dos Evangelhos, pelo próprio Jesus. Assim, para mim, minha fé só está viva se posso encontrar um assento para meu próximo em minha mesa; só é válida se for capaz de alargar meu círculo de irmandade também para aqueles que acreditam de forma diferente, ou que não acreditam de forma alguma.

Não posso deixar de pensar em Martinho Lutero como uma de minhas primeiras inspirações para essa compreensão. Ele ensinou que a diferença entre a Lei e o Evangelho era a seguinte: a Lei nos diz o que fazer, e o Evangelho nos diz o que Cristo faz. Apesar de eu ter um problema com esse tipo de discurso que parece identificar a tradição hebraica (a Lei) – de onde saiu o “Evangelho”, devo enfatizar –, como uma forma de legalismo incompassivo (noção essa que considero, no mínimo, equivocada), ele esclarece muito aquilo que acredito ser o cerne da mensagem cristã: eu, enquanto ministro cristão, não posso (ou não devo) pregar o que os cristãos devem fazer ou acreditar, já que isso seria pregar a “Lei” – na compreensão de Lutero, sequer devo exigir que se acredite, mesmo no Evangelho; o que posso e devo fazer, é simplesmente proclamar aquilo que Jesus (supostamente) disse e fez, e esperar que essa narrativa se transforme em assensus no coração daquele que ouve.

Como um unitarista, não estou tão preocupado com se meus ouvintes acreditarão ou não em minhas palavras acerca de Jesus. Na verdade, é muito mais comum que, assim como eu, suas mentes sejam um tanto endurecidas para o aspecto assensus da fé. Mesmo assim, vos direi como entendo essa data tão importante para a tradição cristã – a Páscoa:

Em minha compreensão da mensagem de Jesus e de seus discípulos, a morte e a ressurreição desempenham o papel mais importante da linguagem do Evangelho. Esses termos, quando combinados, possuem uma força metafórica inerente à narrativa cristã. Na narrativa sobre o próprio Jesus, ele morre e em seguida volta à vida (de forma gloriosa), e, assim, torna-se o modelo daquilo que acontecerá com os que ouvirem sua voz. Nós também podemos morrer e, em seguida, voltarmos a viver. Devemos morrer para tudo aquilo que nos separa do Divino – o ódio, a cobiça, a não-compaixão, a servidão, o temor, o descuido para com o próximo e para com a criação, a falta de integridade, o exclusivismo, a noção de superioridade espiritual ou seja lá qual for, etc –, e permitir que Jesus (ou qualquer outro ou outra que possa nos ajudar a experienciar o Caminho) nos mostre o Caminho que nos levará de volta à vida – compaixão, caridade, misericórdia, justiça, amor, hospitalidade, etc. Essa nova vida é a Ressurreição que celebro nesta data. A Ressurreição de Cristo, que não posso garantir que tenha ocorrido enquanto evento histórico, é uma metáfora da ressurreição que Deus – aquele Mistério inominável e tremendo – opera em meu coração e mente todas as vezes que me abro para recebê-lo. E essa ressurreição, e a nova vida que ela traz, está aberta a absolutamente todas as pessoas: o que inclui crentes e descrentes, ateus e agnósticos, homens e mulheres, heterossexuais e homossexuais, ortodoxos e hereges (como eu)... essa, para mim, parece ser a mensagem de Cristo; esse, para mim, é o Evangelho; esse é o meu Cristianismo! Não se trata de apenas uma crença intelectual, é uma opção de vida, é um estado de espírito!

Feliz Páscoa! Bençãos a todas e todos!

+Gibson