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terça-feira, 19 de junho de 2012

Mundo pós-cristão ou Igreja anti-cristã?


Será que aqueles que dizem que vivemos num mundo cada vez mais pós-cristão estariam certos? Esse foi o tema duma conversa que tive esta noite com uma amiga à mesa duma sorveteria. Minha amiga trouxe o assunto à tona, citando Michel de Certeau e Bernard Piettre – autores por quem, bem sabe ela, tenho uma certa simpatia.

Obviamente, tenho minhas resistências a esse tipo de afirmação. Primeiro, perguntei-lhe o que se queria dizer com “cristão” para poder entender a expressão “pós-cristão”; afinal de contas, há uma certa relatividade no que esse termo significa para as diferentes tradições cristãs, e para as diferentes formas de olhar para essas tradições a partir de fora da Igreja. Em segundo lugar, não se pode esperar que a visão de autores europeus – baseada em sua própria experiência num universo cultural acadêmico urbano – represente a experiência de toda a população de seu próprio país, muito menos a de todo o mundo. Certamente, teriam de repensar seu discurso se conhecessem a realidade distinta da experiência religiosa aqui no Brasil.

O que sei, por certo, é que mesmo dentro da própria Igreja (em toda a sua variedade teológica e eclesial: católica, protestante, etc) se conhece cada vez menos a narrativa cristã: menos teologia, menos ética cristã, menos história da igreja, menos tradição. As igrejas de nossa terra desperdiçam muito tempo, esforço, e talentos engalfinhando-se em disputas vergonhosas, esquecendo-se de ensinar seus jovens – seu futuro – a mensagem do Evangelho: “Felizes os pobres em espírito, porque deles é o reino do céu. Felizes os aflitos, porque serão consolados. Felizes os mansos, porque possuirão a terra. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Felizes os que são misericordiosos, porque encontrarão misericórdia. Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5:3-9).

O desconhecimento da narrativa cristã pelos próprios cristãos, e a ênfase numa suposta pureza exterior – numa suposta superioridade espiritual (e que não tem nada de “espiritual”, já que só enfatiza o exterior como forma de auto-bajulação) – por parte da Igreja (i.e., daquelas comunidades cristãs variadas) é um testemunho vergonhoso da irrelevância da fé. A fé cristã, se observada na prática daqueles que se identificam como cristãos, torna-se irrelevante para o mundo. Torna-se irrelevante quando se preocupa com detalhes inúteis, como o tamanho da saia que uma mulher usa, ou se um homem tem um brinco na orelha. Torna-se vergonhosamente irrelevante quando não encarna a receptividade que supostamente marcou a vida de Jesus de Nazaré, renunciando a comunhão cristã àqueles(as) que exibam uma orientação emociono-sexual diferente, ou àquelas que se tornaram mães solteiras, por exemplo. Tornando-se ainda irrelevante de tantas outras formas que não consigo pensar agora!

Então, não é o mundo que tem se tornado pós-cristão, é a Igreja (cristã) que se tem tornado, não pós-cristã, mas anti-cristã em sua práxis comunal. Talvez esteja na hora de (re)descobrir o caminho de volta!

+Gibson

segunda-feira, 18 de junho de 2012

O que um grupo de jovens me ensinou sobre "salvação"

Como sempre ocorre, começamos nossa pequena reunião informal com uma canção e uma afirmação. Ele demonstrava mais confiança do que o usual: tocou em seu violão a melodia duma canção conhecida da banda Kid Abelha, que todos nós acompanhamos com nossas vozes; seu amigo, aparentemente destemido, rezou palavras extremamente maduras para alguém de sua idade. Foi o início de mais uma reunião dum grupo de jovens que coordeno, e no qual os participantes têm a oportunidade de discutir suas experiências pessoais e refletir sobre sua espiritualidade sem a formalidade usualmente esperado duma igreja ou algo semelhante.

Ele contou-nos que havia sido expulso de casa na semana passada. Dezoito anos, estudante universitário, o caçula de três filhos. Seu pai enfurecera-se ao descobrir que seu filho mais novo era gay. Ambos trocaram acusações. Ambos se ofenderam. Seu pai ofereceu-lhe a porta de saída como solução. Agora estava na casa de seu irmão mais velho que, apesar de não estar muito confortável com a ideia de ter um irmão caçula gay, não lhe fechara a porta.

Essa é a história de muitos daqueles jovens que conheço e com quem passo algumas horas todas as semanas. Jovens gays que buscam um tipo de meio social no qual possam explorar outras atividades além daquelas geralmente oferecidas ao nosso redor. Nossa aliança é que não temeremos uns aos outros, mas, em vez disso, construiremos pontes de confiança, amizades persistentes. Isso envolve conversas sobre qualquer coisa – família, amor, sexo, Deus, religião, espiritualidade, política, entretenimento etc; envolve diversões sadias, como o cinema, esportes, música, uma noite de sábado na pizzaria ou sorveteria, ou na praia de Boa Viagem com um violão – como fizemos naquele nosso último encontro; envolve companheirismo, amizade, honestidade.

Os demais membros do grupo ofereceram seu apoio àquele nosso amigo. A conversa, de lágrimas, transformou-se numa sessão de risadas e canções alegres. Alguém leu umas palavras de Machado de Assis, outro leu um trecho duma sutra budista, outro leu uns versículos do evangelho de Mateus. Talvez, por alguns instantes, nosso amigo tenha esquecido o que estava acontecendo em sua vida. As canções, as conversas, as latas de Coca-Cola e a areia da Praia de Boa Viagem ajudaram meus amigos a se sentirem bem-vindos e benquistos entre si. Aquele era um processo de “salvação” se revelando diante de meus olhos. Salvação como a entendo.

Ainda não sei ao certo como comecei a me envolver com grupos de jovens. Na verdade, esse envolvimento é parte de meu chamado ministerial, mas também é parte de meu trabalho como professor, como também é parte integrante de ser humano. Alguém poderia achar que me sinto muito satisfeito por fazer algo para ajudar jovens, mas, na verdade, o que acontece é que sinto-me imensamente grato por ser ajudado e ensinado por eles. Aqueles jovens, de sua própria forma, me ensinam coisas novas todas as vezes que os ouço. Gostaria que não precisássemos de um grupo “de apoio” para que eles tivessem uma experiência segura do mundo. Gostaria que tivessem um espaço onde pudessem crescer como pessoas de forma segura, entre seus amigos e família – onde não precisassem mentir, nem se esconder, nem temer. Gostaria que tivessem adultos que pudessem conversar com eles, sem que essas conversas terminassem em acusações. Isso seria bem melhor, especialmente se encontrassem isso em seus lares, suas igrejas, suas escolas, seus círculos de amizade. Isso seria “salvação”. Essa é a salvação que esses jovens se oferecem mutuamente todas as semanas, e sou eternamente grato por ser testemunha desse círculo de amizade que eles construíram. Sou muito grato por isso!

+Gibson

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Sobre Deus


Tenho certeza que muitas pessoas gostariam que eu fosse mais objetivo em minhas respostas a certas perguntas que me fazem, especialmente quando o assunto tratado diz respeito à fé, a Deus, a certezas etc. A conversa se inicia mais ou menos assim:

Alguém: Você acredita em Deus?
Eu: Isso depende!
Alguém: Como assim? A resposta é simples: sim ou não!
Eu: A resposta depende do que exatamente você queira dizer com a palavra “Deus”.
Alguém: Não tente se esquivar da resposta. Você sabe o que quero dizer. Deus é Deus.
Eu: Não. Não sei o que você quer dizer. Você se refere a um Deus pessoal ou impessoal; a Deus enquanto um indivíduo ou a uma ideia; a um Deus distinto da criação ou a um Deus que se confunde com a criação; a um Deus que pode ser plenamente compreendido por teorias humanas, como credos ou declarações teológicas, ou a Deus que está além de nossa compreensão plena. Não, eu realmente não sei o que você quer dizer exatamente com a palavra ou nome “Deus”, logo, não posso dizer se acredito em Deus ou não...

E a conversa segue um caminho distinto, dependendo de com quem eu esteja conversando.

Claro que esse tipo de diálogo pode funcionar com aqueles que tenham uma mente um pouco mais inquisitiva e que não se sintam ameaçados quando defrontados com um desafio teológico/semântico; também, é óbvio que esse tipo de brincadeira provavelmente não funcionaria com a maioria das pessoas. Esse é o tipo de jogo que faço com jovens unitaristas, ou com meus alunos de Teologia, ou, ainda, com amigos mais próximos. Raramente costumo fazer joguinhos semânticos como esse com outras pessoas, por razões tão óbvias que não preciso explicar aqui.

A verdade é que posso soar, para algumas pessoas, como alguém obcecado com o uso (ou não) de certos termos para falar acerca de minha fé. No exemplo acima, temos dois termos problemáticos (no sentido de poderem representar diferentes coisas para diferentes pessoas, a ponto de mudarem por completo a impressão final em nossa conversa): acreditar e Deus.

O que exatamente as pessoas querem dizer quando me perguntam se acredito em Deus? Que sentido dão ao verbo acreditar, neste caso? O sentido é o de uma operação intelectual com a qual construiria ou abraçaria uma compreensão lógica do Divino? Ou se referem exclusivamente a minha própria experiência do Divino?

E o que dizer sobre o uso que fazem do nome Deus? Esse termo, em nossa língua, tem tantos diferentes sentidos que preciso de uma pista mais clara sobre o que se quer dizer com ele.

Não tentem me classificar como adepto desta ou daquela escola de pensamento simplesmente por dizer isso, mas – em se tratando do Divino – não acredito que tenhamos a capacidade de compreender plenamente uma Realidade que esteja além de nosso mundo objetivo. É óbvio que enquanto parte duma tradição que se define através de afirmações lógicas – como o Cristianismo –, faço uso das mesmas para articular minhas noções teológicas; isso é, em parte, o que estou tentando fazer agora. Entretanto, articular gnomas teológicas para discutir o Divino não é o mesmo que tentar definir a Deus em termos objetivos. Deus não é um objeto que possa ser colocado sob um microscópio, e que possa ser analisado como analisaríamos o interior duma célula. Deus é uma Realidade inesgotável dentro da qual somos (Atos 17:28). Na realidade, mesmo essa gnoma é problemática, pois se eu digo que Deus é, estou, na verdade, construindo limites existenciais para uma Realidade que supera minha capacidade de observação e, consequentemente, de compreensão. Aí reside o problema para se falar sobre Deus: nossos substantivos, nossos adjetivos e nossos verbos não são capazes de lidar com a abrangência de tal Realidade.

Deus não é uma propriedade desta ou daquela tradição teológica, religiosa ou espiritual. Deus não é judeu, nem cristão, nem muçulmano; Deus não é teísta, nem liberal, nem conservador, nem fundamentalista; Deus não é tradicional, nem pós-modernista. Deus sequer é. Talvez a melhor maneira que posso pensar agora para falar sobre o Divino seja: Deus [ ] Real. Os colchetes substituem a incompletude do verbo ser. O nome “Deus” simplesmente representa aquela Realidade que está além de minha compreensão. O próprio nome “Deus” se tornou problemático, já que é incompleto e questionável. Por isso, prefiro utilizar “Realidade” – já reconhecendo sua limitação, enquanto substantivo.

Não. Não posso acreditar em Deus. Não posso encarcerar o Divino a minhas concepções teológicas. Só posso confiar e ser leal. Acreditar, ou mesmo crer, é algo que está além de minha capacidade intelectual humana. Confiar me basta.

+Gibson

sábado, 2 de junho de 2012

Lex orandi lex credendi


Tenho aprendido com minhas três diferentes tradições cristãs – o anglicanismo, o luteranismo, e o unitarismo – a amar e a viver uma vida litúrgica que enriquece e alimenta minha fé. Como minha fé não está acorrentada a definições dogmáticas tão estritas como a de alguns outros cristãos, essa vida litúrgica tornou-se a declaração de fé mais audível que posso fazer aos céus, à terra, e a mim mesmo. Lex orandi lex credendi, como tem dito a Igreja historicamente, e como uma de minhas heranças cristãs (o anglicanismo) tem enfatizado – a lei da oração é a lei da crença, ou seja, aquilo que oramos/rezamos é nossa declaração de fé.

Como um Ministro da Palavra e Sacramento, tenho a oportunidade de declarar minha fé todas as vezes que oficio uma celebração da Comunhão e todas as vezes que ensino do púlpito. Quando, na celebração da Comunhão, convido a todos os presentes a partilharem dos elementos eucarísticos – independentemente de quem sejam, do que creiam, de onde tenham estado, ou de serem membros de nossa congregação ou não – estou, na verdade, fazendo uma declaração explícita de minha fé no amor incondicional de Deus por absolutamente todos e na receptividade da comunidade dos seguidores de Jesus de Nazaré. Quando rezo a Oração de Despedida, ao fim de nossas celebrações eucarísticas, estou fazendo uma declaração explícita de minha fé na vida e ressurreição de Cristo. Estou unindo minha voz à voz de outros cristãos unitaristas no mundo (sim, pouquíssimos, talvez) que compartilham com cristãos de outras famílias uma fé menos preocupada com definições dogmáticas muito claras, mas uma fé viva, preocupada em testificar o poder do amor transformador ensinado por Jesus em nossas ações do dia a dia (mesmo que, infelizmente, sejamos tão falhos em ser bons modelos de “amor cristão”). As palavras dessa Oração de Despedida formam um credo ao qual não tenho nenhuma objeção de juntar minha voz:

Cristo nasce em nós quando abrimos nossos corações à inocência e ao amor. Cristo vive em nós quando caminhamos a senda do perdão, reconciliação e compaixão. Cristo morre em nós quando nos rendemos à nossa própria arrogância, egoísmo e ódio. Cristo ressuscita em nós quando nossas almas se despertam da morte espiritual para se unirem à comunidade de amor, para entrar no reino divino aqui mesmo neste mundo. Saiamos em paz. Amém.

Além dessa oração, também sinto fazer uma declaração audível de minha fé quando pronuncio as palavras de nossa Aliança Batismal. Não deveria ser assim, mas essas são as palavras – a Oração de Despedida e a Aliança Batismal – que mais amo rezar em toda a liturgia de nossa igreja, e esse amor surge porque me sinto desafiado por elas. Essas são orações que sempre me esbofeteiam, exigindo que me desperte do sono no qual permanentemente pareço cair. Essas são as palavras mais estremecedoras que rezo junto com a igreja. Os votos que fazemos, como membros desta comunidade cristã, dizem o seguinte:

Você continuará nos ensinamentos e comunhão dos apóstolos, na partilha do pão e nas orações?
Sim, com a ajuda de Deus.

Você perseverará na resistência ao mal, e, sempre que pecar, se arrependerá e retornará ao Senhor?
Sim, com a ajuda de Deus.

Você proclamará as boas novas por meio de palavras e ações, servindo a todas as pessoas?
Sim, com a ajuda de Deus.

Você defenderá a justiça e a paz dentre todas as pessoas, e respeitará a dignidade e o valor de todos os seres humanos?
Sim, com a ajuda de Deus.

Essas palavras são um resumo esclarecedor da fé que abraço e partilho com outros cristãos. Oxalá possamos transformá-las em ação em nossas vidas diárias – é minha esperança.

+Gibson