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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Jesus e a manjedoura: o Natal como lembrete do espírito de hospitalidade

Uma das partes mais interessantes da narrativa natalina parece ser sempre esquecida por todos nós. Sempre nos lembramos da manjedoura, da estrela, dos reis magos, dos animais, dos presentes, dos anjos, mas, por alguma razão, nos esquecemos da falta de alojamento!

Na narrativa do Natal, no Evangelho de Lucas 2:6-7, o detalhe de os pais de Jesus não terem encontrado abrigo numa hospedaria é tão importante – ou, talvez, até mais – quanto os demais detalhes narrativos. Jesus nasce numa manjedoura por seus pais não terem encontrado abrigo dentro da hospedaria.

Uma mulher grávida, em trabalho de parto, é deixada do lado de fora, no abrigo dos animais, e lá dá luz a seu filho. A gravidade disso, na lei judaica, é incompreensível para a maioria dos cristãos. A Bíblia hebraica, e, mais tarde, a literatura rabínica, apontam o comportamento esperado de alguém que recebe um hóspede: mesmo antes de obter quaisquer informações sobre seu hóspede, como o seu nome, por exemplo, o anfitrião deveria cuidar das necessidades daquele – como descarregar sua bagagem, alimentar e dar de beber a seus animais, oferecer água para que o hóspede e seus criados lavassem os pés, e alimentá-los (Gênesis 18:2-5; 19:2-3; 24:31-33); durante a estadia, o anfitrião deveria se sentir pessoalmente responsável por qualquer mal que ocorresse a seu hóspede (Gênesis 19:8); na despedida, outro banquete deveria ser servido (Gênesis 26:30; Juízes 19:3-5); o hóspede e o anfitrião poderiam fazer uma aliança (Gênesis 26:31), e o anfitrião deveria acompanhar o hóspede para a despedida (Gênesis 18:16); por sua vez, o hóspede deveria abençoar seu anfitrião antes de partir (Gênesis 18:10), e deveria perguntar-lhe se ele (o anfitrião) precisava de algo (2 Reis 4:13); se o hóspede quisesse permanecer com o clã ou na localidade, era-lhe permitido escolher uma moradia (Gênesis 20:15). Essa era a prática da hospitalidade como estabelecida na cultura do povo de Jesus.

Curiosamente, e, na verdade, essa parece ser a intenção da narrativa – pelas mais variadas razões –, aqueles que deram abrigo à “sagrada família” não seguiram esse ritual da hospitalidade. A recepção – ou seria despedida? – hospitaleira é recebida dos pastores que vão visitar o “messias” recém-nascido, após serem avisados por anjos!

Tantas pessoas se importam com os detalhes miraculosos desse relato evangélico, enfatizando os adereços narrativos, e se esquecem daquilo que parece-me ser o mais importante: não havia abrigo para aquela mãe prestes a dar à luz! Seu bebê nasceu dentre os animais, porque seus anfitriões não cumpriram o mandamento de serem hospitaleiros! E fico me perguntado se eu mesmo, tão preocupado com meus compromissos festivos – nesta data na qual celebramos o nascimento daquele bebê –, não ignoro a hospitalidade para com aqueles para os quais deveria ser um anfitrião.

É minha sincera oração que possamos, antes de mais nada, desenvolver o sentimento de hospitalidade – abrindo nossos corações, mentes e braços para nossos semelhantes.

Feliz Natal!!!

+Gibson

sábado, 15 de dezembro de 2012

sábado, 8 de dezembro de 2012

Calendário religioso, literacia religiosa e intelectuais antirreligiosos

Este é um daqueles períodos do ano que possuem um sentido especial para, pelo menos, duas grandes tradições religiosas mundiais – o Judaísmo e o Cristianismo. Para a tradição cristã, (o Advento e) o Natal; para a tradição judaica, Hanukkah. Mesmo aqueles que se identificam como não religiosos, ou mesmo como ateus, no mundo judaico-cristão, essa temporada não passa despercebidamente, já que nossa cultura (além de nossa economia!) nos relembra que “há algo no ar”.

Como um indivíduo religioso, é óbvio que esta época é especialmente relevante para mim. Ela possui um sentido metafórico enraizado naquela tradição judaico-cristã que molda minha visão de mundo – aquela cultura que funciona como a janela através da qual aprecio a imagem lá fora. Mesmo aquelas pessoas que não participam de minha comunidade de fé, ou que não apreciam ou compreendem a metáfora religiosa, percebem a importância simbólica dessas datas para mim.

Em épocas como esta, entretanto, sou lembrado acerca de algo que está além do imaginário religioso individual dum devoto, englobando questões intelectuais muito básicas. Frequentemente, percebo a ausência de fluência religiosa – ou literacia religiosa, como geralmente chamo – daqueles que supostamente se ocupam em pensar acerca do social (por exemplo, jornalistas, sociólogos, antropólogos, historiadores, estudantes em geral etc). Nossa sociedade urbana mediocremente educada, que se orgulha em copiar os moldes do secularismo europeu – “ingenuamente” crendo que isso seja sinônimo de superioridade intelectual –, comporta-se como se possuir um certo nível de compreensão duma parte tão importante de sua cultura fosse algo supérfluo, dispensável, ou mesmo selvagem.

A ignorância voluntária acerca do domínio da fé é tão gritante que já fui testemunha de muitas afirmações grosseiramente equivocadas, advindas de “intelectuais” que formam outros “intelectuais”, que foram aceitas como “verdade factual” por seus ouvintes (“verdades” essas que, para o nível esperado do público presente, seriam facilmente questionadas por uma simples leitura de bons guias básicos de religião!). Pode parecer algo irrelevante para aqueles “intelectuais”, mas, para mim, é uma questão de integridade intelectual.

Para citar um exemplo desse problema de ausência de literacia/fluência religiosa, penso em algo que li no livro de Sociologia dum grupo de alunos meus, que vieram me pedir informações sobre o que leram lá. Este livro (para o Ensino Médio) reproduzia um artigo de revista sobre uma comunidade Amish no Paraguai, chamando-os de puritanos e fundamentalistas. Claro que isso fez com que meus alunos e eu nos engajássemos numa prolongada discussão sobre o que aqueles adjetivos significavam teologicamente, e a diferença entre esse sentido e aquele que (supúnhamos) era dado pelo autor do artigo. [Devo confessar que o maior problema que tive com essa experiência foi o fato de não haver, no livro de Sociologia, nenhuma discussão sobre as escolhas semânticas feitas pelo jornalista – o que me levava a acreditar que o autor do livro concordava com a opinião do jornalista –, e não muito o uso feito pelo próprio jornalista!]

Mais recentemente, as discussões sobre “homofobia” (seja lá o que queiram dizer exatamente com este termo!) e aborto, que parecem ser os novos queridinhos dos meios politiqueiros brasileiros que se engajam em copiar a semântica política d'alhures, entram pelo mesmo caminho. “Intelectuais” supostamente respeitáveis fazem afirmações deselegantes sobre a fé de diferentes tradições, e seus comentários só mostram que, talvez, devessem se informar um pouco mais, se quisessem que seus argumentos soassem mais maduros. Para alguns “intelectuais”, ser religioso é sinônimo de ser “puritano”, “fundamentalista”, e “homofóbico”; enquanto ser sofisticado é não se opor ao aborto, às drogas, e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo! Mais uma vez, o problema da falta de literacia religiosa; e mais, o problema da falta de literacia cultural!

Aprendi desde muito jovem que, mais importante do que minha opinião, eram meus argumentos em defesa dessa opinião que realmente faziam diferença. Não posso ter bons argumentos em favor de ou contra algo que não conheço. Como os antigos filósofos chineses, pais da teoria do jogo, já ensinavam: só podemos vencer uma guerra quando conhecemos aos nossos inimigos. Como, regra geral, não acredito em guerras, prefiro mudar isso para algo como: só podemos viver bem com outros seres humanos quando aprendemos sobre eles, e descobrimos coisas a seu respeito que podemos apreciar. Talvez já seja hora dos “intelectuais” belicosamente antirreligiosos aprenderem um pouco sobre religião, e descobrirem algo que possam apreciar entre aqueles que abraçam uma fé. Quem sabe, não acabarão ensinando algo positivo aos “puritanos, “fundamentalistas e “homofóbicos”!