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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Verdade e Cristianismo


“[...] Se vocês guardarem a minha palavra, vocês de fato serão meus discípulos; conhecerão a verdade, e a verdade libertará vocês.
(João 8:31-32)


Quando penso em minha própria experiência de fé, percebo que tenho, de diversas maneiras, nadado contra duas grandes correntezas: primeiro, aquela no meio cristão que insiste que haja apenas uma leitura válida do todo da tradição cristã; segundo, aquela no meio secular que zomba daqueles que, como eu, confiam na realidade de Deus e da experiência cristã. Essas duas correntezas – com suas mais variadas manifestações – parecem tentar sabotar uma sabedoria que sobrepuja a simplificação exagerada das categorias que utilizamos para organizar o mundo, uma sabedoria que emerge de nossa (i.e., minha e sua) experiência do Divino. Aqui, me referirei apenas à primeira dessas correntes, aquela formada por compreensões exclusivistas da verdade cristã.

Como sempre tenho dito, confio em Deus. Confio na realidade de Deus. Sinto a presença divina em minha vida e no mundo do qual sou parte. Tenho, contudo, problemas para utilizar verbos como “acreditar” ou “crer” quando me refiro a Deus, pois creio que a fé não seja uma mera ação intelectual, mas uma “rendição” à graça de Deus. Sim, eu acredito/creio em Deus – já que exerço um esforço intelectual em minha fé –, mas penso que os verbos “acreditar” e “crer” sejam limitados demais para lidarem com a realidade divina. Por essa razão, prefiro utilizar o verbo “confiar”. Minha compreensão de Deus muda com o passar dos anos, mas a realidade de Deus é permanente.

Dizer coisas como essas pode parecer uma contradição para alguns. Tenho a impressão, a julgar pelos comentários feitos por alguns de meus ouvintes ou leitores, que pensem ser eu um absoluto relativista – o que, definitivamente, não sou. Meu relativismo é seletivo. Para mim, em se tratando da fé cristã, há verdades absolutas. O que não há, é, talvez, a capacidade de plenamente apreendermos essas verdades. Para mim, por exemplo, Deus é uma verdade absoluta; Jesus é uma verdade absoluta; o mandamento de amar ao meu próximo é uma verdade absoluta. Como apreendo cada uma dessas verdades, entretanto, é uma outra questão. Dizer que Deus é uma verdade absoluta, por exemplo, significa dizer que ele seja uma pessoa que vive sobre um trono, num reino em algum lugar espacial? E se minha compreensão de Deus não for essa? E se eu tiver diferentes compreensões de Deus em diferentes épocas de minha vida? Significaria que não tenho fé em Deus?…

É por essa razão que enfatizo tanto a diferença entre “verdade” e “factualidade”. Algo não precisa ser factual – i.e., objetivamente verificável – para que seja verdadeiro; assim como nem tudo que é factual é verdadeiro para todos. E nem tudo que é verdadeiro para alguém numa determinada época de sua vida, continuará a sê-lo para sempre. Há não muito tempo atrás, uma criança, por exemplo, poderia acreditar que o Papai Noel trouxera seu presente de Natal. Para ela, naquela época de sua vida, aquela crença era uma verdade. Com o passar dos anos, entretanto, ela deixou de confiar no Papai Noel, e aquela deixou de ser uma verdade para si. Ela, talvez, tenha se dado conta do fato de que seu pai ou sua mãe – ou outra pessoa – perguntara-lhe o que ela queria de presente e fizera compras um pouco antes do Natal. A factualidade, assim, contribuiu para um ajuste da percepção de verdade.

A noção com a qual me preocupo, no tocante à fé, é a de “verdade”, e não “factualidade”. A verdade religiosa não precisa ser mensurada, pesada, observada sob um microscópio. Ela simplesmente é. Em minha experiência, especificamente, ela é mais uma prática que propriamente uma noção. Quando articulamos essa verdade por meio de nossos artefatos linguísticos e, tolamente, elevamos essa articulação à posição de asserção dogmática – ou seja, quando “factualizamos” a verdade –, então arrogantemente supomos que sejamos maiores que a verdade que dizemos proclamar. Deus, assim, deixa de ser, metaforicamente, aquele Pai de amor e passa a ser acorrentado por nossa interpretação da metáfora original. Jesus deixa de ser o Mestre que deveríamos ouvir e emular, e passa a ser um “cristão” – i.e., apenas um seguidor da interpretação específica que fizemos de sua suposta mensagem.

Com isso não quero, em absoluto, dizer que não haja necessidade de articularmos nossa fé num corpo doutrinário. Mesmo tendo a antipatia que tenho pela maneira como muitos apreendem o conceito de “dogma” na vida da Igreja cristã, minha fé se articula num edifício dogmático (i.e., doutrinário). O que importa, entretanto, é que sei que minha compreensão da fé cristã não é a única válida ou verdadeira. Como acredito que o Espírito continua a se mover na Igreja hoje, confio que possamos “descobrir” diferentes formas de sermos fiéis ao que compreendemos ser o caminho de Cristo, mesmo se discordarmos em nossas compreensões. É assim, ao menos, que leio as Escrituras e a tradição da Igreja. É com esse espírito que me esforço para celebrar a Presença Divina no seio da comunidade de fé. Todos somos diferentes, pensamos de formas diferentes, mas assumimos o compromisso de tomarmos sobre nós o nome de Cristo. Isso, para mim, basta para chamá-los de “irmãos” na fé.

Assim, rejeito asserções exclusivistas da verdade como propriedade desta ou daquela tradição cristã. Deus, Jesus, as Escrituras, a Tradição, a fé etc, não são propriedades duma instituição eclesiástica, duma tradição teológica ou duma mente individual. Em minha experiência e compreensão, a verdade cristã é encontrada num cristianismo vivido no dia a dia em nossas relações conosco mesmos, com outras pessoas, com o todo da criação e, consequentemente, com o Divino. É no caminho dessa verdade – sim, porque a verdade cristã, para mim, é uma senda e não um destino – que encontro minha liberdade. E é assim que experiencio mais proximamente Jesus como meu Salvador: tentando ouvir os ensinamentos que lhes foram atribuídos e emular seus supostos exemplos.

+Gibson