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quarta-feira, 12 de março de 2014

Judeu ou cristão: a herança duma família inter-religiosa - resposta a uma mensagem

Caro Prof. A. Toffer,

Gostei muito de saber sobre sua experiência e de sua esposa como uma família interreligiosa. Tenho a impressão de que uma grande parcela das famílias de hoje saibam o que significa ter um pai, uma mãe, e, talvez, mesmo filhos, que professem religiões distintas umas das outras – e os desafios que podem advir dessa diversidade, quando há uma preocupação com a educação religiosa dos filhos. Minha própria experiência de conviver entre o Judaísmo e o Cristianismo me ensinou a lidar com isso, e foi o que me guiou no projeto que deu origem ao livro “Building Bridges: Jews and Christians in Interfaith Marriages” [Construindo Pontes: judeus e cristãos em casamentos interreligiosos].

Escrevi aquele livro em 2004, e lancei apenas uma edição limitada on demand – cerca de duas mil cópias, se me recordo bem. Ele se baseou em palestras que proferi numa paróquia da Igreja Episcopal e num templo judaico Reformista, nos Estados Unidos, endereçadas a famílias formadas por pais cristãos e judeus. As discussões centravam-se na construção dum ambiente de respeito e honra pela diferença e em como lidar com a educação religiosa dos filhos. Os exemplos incluídos no livro eram de pessoas reais, que compartilharam suas experiências nas palestras, além de minha própria experiência. A publicação foi distribuída, posteriormente, apenas aos participantes das palestras, e o que restou foi doado a interessados. Não o fiz para ser vendido em livrarias. Acho surpreendente que você tenha conseguido uma cópia num sebo – muito legal!

É bom que eu esclareça, entretanto, que eu era muito jovem quando escrevi aquilo – tinha 26 anos – e, portanto, algumas de minhas perspectivas mudaram. Então, se reescrevesse aquele livro, teria quase uma década de experiência para enriquecê-lo!

Nunca pensei em traduzir o livro para português, porque não acho que aquele tema seja tão recorrente no Brasil como o é nos Estados Unidos ou em outros países anglófonos. Em minha comunidade de fé, por exemplo, há algumas famílias formadas por judeus e cristãos, mas, como eles já são parte duma comunidade extremamente aberta para essas diferenças, suas questões são respondidas no dia a dia de sua vida com outros membros da comunidade.

Para que fique clara minha posição, não sou um “messiânico”. Não sou um judeu que se tornou um seguidor de Jesus como o Moschiah; nem sou um cristão que resolveu se “judaizar” – i.e., que resolveu seguir certos aspectos da Halachah. Sou um judeu cristão ou um cristão judeu (quão herético não é isso?!): até certo ponto vivi simultaneamente as duas tradições, até ter maturidade suficiente para decidir o que era minha fé pessoal – o Cristianismo –; sem, no entanto, completamente abandonar a mentalidade e certos aspectos culturais judaicos. Assim, costumo dizer que sou religiosamente um cristão compromissado e devoto, e intelectual e culturalmente um judeu questionador e “encrenqueiro”. Minha fé é o Cristianismo, mas esse é moldado pela herança do Talmud e do debate que herdei da tradição judaica.

Esse reconhecimento de minhas múltiplas heranças de fé – o Reformismo e o Reconstrucionismo, pelo lado judaico; e o Anglicanismo e o Unitarismo, pelo lado cristão – é extremamente difícil de ser compreendido e/ou apreciado por outras pessoas, especialmente aquelas que não me conhecem. As pessoas, sejam judias ou cristãs, se sentem desconfortáveis e desafiadas por isso. E essa é uma das razões pelas quais falo muito pouco sobre isso em público hoje em dia (apesar de, geralmente, falar sobre algumas de minhas experiências pessoais, para que possa haver uma ligação humana entre eu e meus ouvintes ou leitores). Se falar sobre minhas múltiplas heranças cristãs já cria um certo desconforto para alguns, imagine quando incluo o Judaísmo nessa equação! E entre os judeus, reconhecer qualquer ligação com o Cristianismo já me tornaria um “herege”!

Para mim, as reações que a maioria dos fiéis demonstra são compreensíveis. Afinal de contas, há um importante aspecto identitário na religião, especialmente quando se trata duma religião “étnica” como o Judaísmo. O sentido identitário das tradições judaicas estão atreladas à própria experiência histórica do chamado “povo judeu” (uma expressão que não aprecio muito, por carregar em si uma noção essencialista de identidade) com a Igreja cristã ao longo dos séculos, e é isso que torna algo aparentemente tão simples como uma árvore de natal uma afronta tão dolorosa para muitos judeus. Entretanto, não custa lembrar que a questão da identidade judaica não é tão simples quanto professar um credo religioso. E isso é muito importante para famílias como as nossas.

A pergunta é: quem é judeu, afinal de contas? E a resposta depende de a quem, onde e quando você pergunta. Dizer que judeus são aqueles que professam o Judaísmo é uma meia verdade, já que não há um “Judaísmo” único, e as divisões religiosas entre os judeus são tão graves quanto a que há – na imaginação judaica – entre judeus e não-judeus. Na realidade, é razoável dizer que, se pensássemos nos judeus como um “povo”, o que mais os dividiria seria os “judaísmos” (i.e., as diferentes expressões da fé judaica). A religião, assim, é, para a maioria daqueles judeus que cresceram expostos à sua tradição, um aspecto secundário da identidade judaica.

O senso identitário judaico emerge muito mais do nascimento do que dum compromisso pessoal com um credo religioso. É da história familiar que se constrói uma ligação com os demais judeus, e essa ligação se estende através das gerações passadas até os patriarcas. E isso é parte do senso identitário não apenas de judeus comprometidos com as tradições religiosas propriamente judaicas, mas também daqueles que não se veem como religiosos e – em minha experiência – daqueles que professam outra fé que não o(s) Judaísmo(s).

A lei judaica oferece uma resposta simples à questão identitária. A identidade judaica define-se por meio do nascimento ou da conversão. No que concerne à sua experiência, e também à minha, as tradições ortodoxas definem como judeu aquele que tenha nascido de pai e mãe judeus, ou, de uma mãe judia e de um pai não-judeu (as tradições liberais consideram o filho duma mãe não-judia como judeu, desde que o pai seja judeu e o filho tenha sido criado como judeu). Essa identidade atrelada à ligação histórica familiar é – para a maioria dos intérpretes da lei judaica – inapagável, mesmo que você não pratique ou professe o Judaísmo. Assim, para mim, não deixo de ser judeu apenas por não praticar o Judaísmo como religião, já que minha ligação com outros judeus ser de outra natureza.

Você me pergunta como lido com isso enquanto um ministro religioso, e como creio que conheça bem a obra de Immanuel Kant, utilizá-lo-ei para dar-lhe uma ideia de minha solução ao problema. Kant, no texto “O que é a Ilustração?” [Was ist Aufklärung?], escreve:

“[…] Do mesmo modo também o sacerdote está obrigado a fazer seu sermão aos discípulos do catecismo ou à comunidade, de conformidade com o credo da Igreja a que serve, pois foi admitido com esta condição. Mas, enquanto sábio, tem completa liberdade, e até mesmo o dever, de dar conhecimento ao público de todas as suas ideias, cuidadosamente examinadas e bem intencionadas, sobre o que há de errôneo naquele credo, e expor suas propostas no sentido da melhor instituição da essência da religião e da Igreja. Nada existe aqui que possa constituir um peso na consciência. Pois aquilo que ensina em decorrência de seu cargo como funcionário da Igreja, expõe-no como algo em relação ao qual não tem o livre poder de ensinar como melhor lhe pareça, mas está obrigado a expor segundo a prescrição de um outro e em nome deste. Poderá dizer: nossa igreja ensina isto ou aquilo; estes são os fundamentos comprobatórios de que ela se serve. […]”

Nesse pequeno trecho, ele compartilha uma ideia que tenho abraçado em meu compromisso com a Igreja. Enquanto um ministro ordenado duma comunidade de fé, quando ensino ou celebro liturgias no contexto daquela comunidade, estou limitado aos compromissos que assumi com ela. Em minha espiritualidade pessoal, não devo explicações a outros. Logo, se escolhesse seguir as regras de cashrut, acender velas de shabat, manter mezuzot às portas de minha casa, etc, ao mesmo tempo em que mantenho todas as minhas tradições cristãs, esse seria um problema apenas meu, já que não interferiria em nada com a vida de outras pessoas. Escolho apenas ser honesto sobre minha compreensão de fé com meus paroquianos e amigos. Qualquer um que conheça minhas perspectivas teológicas, não verá nenhuma contradição nisso. Ademais, é também uma questão de integridade intelectual, no que tange ao meu lidar comigo mesmo.

No final das contas é muito semelhante à maneira como cristãos e judeus, por exemplo, lidam com sua tradição de fé e a cultura da qual são parte. Sempre há uma mescla das duas, mesmo para aqueles que acreditam estar à parte do chamado “mundo secular”. Isso é semelhante ao que pode ocorrer num lar onde há mais de uma tradição cultural (o que inclui a religião). Se todos cederem um pouco, criando um espaço de diálogo e apreciação pela diferença, a família é fortalecida. No caso duma família judaico-cristã, por exemplo, pode haver o cuidado para não se criar ofensas por meio de símbolos religiosos, pode-se alterar expressões utilizadas em orações judaicas e cristãs para haver uma inclusão e não exclusão, etc – mas essas sugestões você pode encontrar no livro. É tudo uma questão atitudinal. Minha experiência é que, de qualquer jeito, uma família religiosamente mista já não é “ortodoxa” (nem para a perspectiva judaica nem cristã), então não estará fazendo mal nenhum se ajustar certas tradições para manter-se unida. O fato é que isso não é nem um pouco fácil e exige um grande esforço não só por parte dos pais, como também de seus familiares – que afetarão a maneira como os filhos compreenderão sua identidade familiar.

Seja como for, se eu puder ajudar com algo mais específico, conte comigo – só não esqueça de deixar um e-mail para contato, ou, melhor, escreva-me por meio de meu e-mail (que você pode encontrar no meu perfil ao lado). Há comunidades judaicas em São Paulo que podem ajudá-los com questões referentes à educação judaica de seus filhos, e onde o fato de serem uma família religiosamente mista não será um empecilho para encontrarem apoio pastoral. Mas, se tiver interesse nos contatos, me escreva em privado.

Um grande abraço, e saiba que manterei você e sua família em minhas orações e pensamentos.


+Gibson

Sobre ser cristão e "homossexual"

[De vez em quando, recebo um ou outro e-mail, ou uma ou outra mensagem aqui no blog, que me deixa acordado durante a madrugada, pensando sobre a pessoa que me escreveu e como ajudá-la. Isso aconteceu na noite passada. Recebi uma mensagem através do blog e meu correspondente (que se identificou como “R”, um batista formado em teologia num seminário “evangélico” e, hoje, distanciado de sua igreja por ser homossexual) não deixou um e-mail para contato, então tentarei respondê-lo aqui mesmo. O que segue é uma resposta a cada um dos pontos levantados por “R”.]

Caro “R”:

Não, você não está sozinho! Há inúmeras pessoas, homens e mulheres, na Igreja cristã como um todo, que se reconhecem como “homossexuais” e como cristãs ao mesmo tempo. E por que deveria ser diferente? Por que elas deveriam separar uma coisa da outra?

Você me relatou sobre a conversa que teve com o ministro da igreja que costumava frequentar. Tenho certeza que ele acreditava estar lhe dando os melhores conselhos, e que aquilo o ajudaria a ser mais feliz. Mas, ao que parece, ele confundiu homossexualidade com crime – e isso é, no mínimo, uma opinião teológica, filosófica, sociológica, psicológica e juridicamente desinformada.

Os seres humanos são extremamente complexos. Somos, no que tange aos aspectos biológicos, muito semelhantes aos outros mamíferos; mas, em outros aspectos – ao menos aparentemente –, somos muito diferentes. Nós temos a capacidade – supostamente, única entre os seres deste planeta – de refletir criticamente sobre nós mesmos e sobre nossa relação com o visível e o invisível. Temos a capacidade de aprender diferentes tipos de linguagens, técnicas, métodos, ideias, etc, etc, etc. Somos seres espirituais, que buscam sentido para nossa existência e ações. Somos, em minha compreensão cristã, “filhos de Deus” – ou seja, mantemos uma ligação com uma Realidade que ultrapassa nossa compreensão racional.

Mas além de tudo isso que somos, somos – todos nós – seres sexuais. Mesmo monges que vivam celibatariamente em mosteiros nos Montes Athos ou no Himalaia, são seres sexuais. Isso quer dizer que nossos corpos e nossas mentes lidam, no mínimo, com atrações, desejos, interesses, etc, de “natureza” sexual – mesmo que esses não sejam materializados em ações voluntárias.

Não posso dizer o que seja certo ou errado na compreensão que outras pessoas, ou outras tradições cristãs, tenham da fé cristã. Acredito na verdade relativa das diferentes tradições teológicas – ou seja, o que uma comunidade pentecostal, por exemplo, aceita como “verdade” cristã será, para eles, verdade, da mesma forma como o que outra comunidade cristã veria como sendo verdade para si mesma. Logo, o que penso ser certo ou errado é válido apenas para mim mesmo ou, no máximo (e apenas em certos pontos, talvez), para aqueles que compartilhem de [parte de] minha visão teológica.

Discordo do que aquele ministro lhe disse quando falou que ser homossexual é uma escolha, por, pelo menos, duas razões. A primeira razão é que não sei até que ponto se possa dizer que se “é homossexual”, e não que se “está homossexual”. Não sei se o “ser” homossexual – que me parece referir-se a algo permanente – acontece com todos, ou se podemos dizer que alguns “estejam” homossexuais em algum período de sua vida e em outros não. Essa é uma questão muito complexa para discutirmos aqui, mas creio que algumas pessoas possam não se sentir num estado de permanência, e sim, num estado de questionamento de sua orientação emociono-sexual – converso com muitos jovens que passam por esse questionamento.

A segunda razão, e a mais importante, é que, em minha experiência, você não escolhe ter uma determinada orientação emociono-sexual – seja esta heterossexual, homossexual ou bissexual. Você pode escolher o que faz, uma vez se dê conta dela, mas não pode escolher a orientação em si. Ao menos, essa tem sido minha experiência. Desde muito jovem já sabia que me sentia emocional e sexualmente atraído por rapazes, e não por moças. Isso foi algo que descobri, e não que escolhi. Não me acordei, numa manhã de verão, e decidi que a partir dali me interessaria por outros rapazes. Isso foi algo que fui descobrindo a meu respeito com o passar dos anos, desde a infância. Só na adolescência me dei conta do que aqueles sentimentos significavam. Não escolhi me sentir daquele jeito, nem aprendi a ser assim de outra pessoa. O que escolhi foi apenas a forma como lidaria com aqueles sentimentos.

Para mim, é importante não falar apenas em “orientação sexual”, mas em “orientação emociono-sexual”. Por isso, sinto um grande desconforto com o uso dos termos “homossexual” ou “heterossexual”, etc, já que esses apontam para esse aspecto humano como sendo apenas algo mecânico. Quando você diz que ama seu companheiro – um outro homem –, você não está dizendo que apenas tem um interesse sexual por ele; você está dizendo muito mais que isso – acredito que o aspecto sexual seja apenas um elemento do que você sente por ele. Isso vale para pessoas de todas as orientações emociono-sexuais. Um homem que ame sua companheira – uma mulher –, sente muito mais que apenas atração sexual por ela; novamente, o componente sexual é apenas uma parte de seus sentimentos por ela. Amar romanticamente é estar ligado a outra pessoa de forma muito mais complexa e profunda do que apenas sentir-se atraído física ou sexualmente por ela. Qualquer pessoa que ame ou já tenha amado outra, romanticamente, sabe disso. [À propósito, falo em amor romântico pois acredito haver diferentes tipos de amor – o amor que sinto pelos meus pais ou irmãos não envolve todos os elementos que o amor que sentiria por meu cônjuge envolveria, por exemplo.]

Assim, quando alguém se refere ao amor entre dois homens ou duas mulheres como sendo algo apenas físico ou sexual, está, em minha opinião, sendo intelectualmente desonesto – ao menos, supondo que essa pessoa já tenha experienciado o amor romântico em sua vida. Qualquer pessoa, heterossexual ou homossexual, que já tenha amado romanticamente alguém sabe quão complexa é a ligação que sente pelo objeto de seu afeto. Obviamente, há relacionamentos que não envolvem amor mútuo, envolvimentos entre pessoas que não passam de parceiras sexuais – e isso, à propósito, acontece com pessoas de toda e qualquer orientação emociono-sexual –, mas esse tipo de relacionamentos não é o objeto de nossa conversa! Entendo que sexualizar a conversa sobre relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo seja um instrumento discursivo dos que querem desmoralizar tais relacionamentos – levando em consideração sua compreensão do que seja pecado e sua noção de moralidade, é muito fácil convencer que a relação entre pessoas do mesmo sexo seja uma “abominação” –; mas, por outro lado, a sexualização do debate também por parte daqueles que se apresentam ou são vistos como “representantes” de todos os outros “homossexuais” só reforça essa visão distorcida e intelectualmente desonesta.

Em se tratando da questão mais explicitamente teológica sobre esse tema, é importante que eu reafirme o que já é notório aqui: não sou um protestante evangelical, ou seja, não afirmo encontrar minhas justificativas teológicas exclusivamente nas Escrituras. Ademais, também não faço uma leitura supostamente literal das Escrituras. Como um protestante liberal, faço uso conjunto das Escrituras (a Bíblia), da Tradição, da razão, da experiência pessoal, de certos princípios teológicos específicos, etc, como instrumentos para minha compreensão teológica. Minha leitura das Escrituras é moldada por aqueles outros elementos. E, na verdade, não acredito que absolutamente ninguém faça uma leitura literal das Escrituras. Nenhuma igreja, nenhum teólogo, nenhum ministro cristão, que afirme fazer uma leitura literal da Bíblia, conseguiria inquestionavelmente harmonizar todas as afirmações, interditos etc, bíblicos, já que o conjunto desses textos se contradiria se fosse lido literalmente e de forma comparativa.

Outra coisa importante é que não tenho interesse algum em me envolver em discussões sobre passagens específicas na Bíblia – especialmente na Bíblia Hebraica – que, supostamente, fariam referência à homossexualidade. Meu conhecimento das Escrituras, em hebraico e grego, e meu conhecimento das discussões teológicas e eclesiásticas que envolvem esses escritos, é suficiente para me convencer de que, pastoralmente, discuti-los é irrelevante para a vida cristã da maioria das pessoas. A compreensão linguística, histórica e teológica que tenho daquelas passagens é extremamente distinta das que você aprendeu no seminário onde se formou e na comunidade da qual era parte. Logo, penso que discutir o sentido desta ou daquela palavra, deste ou daquele hábito cultural da antiga Israel ou da Igreja primitiva, etc, etc, etc, provavelmente não fará nenhuma diferença na maneira como você se sente sobre você mesmo e sua relação com o Divino e com outras pessoas; e, não fará nenhuma diferença sobre a forma como sua antiga comunidade compreende a sexualidade humana. Considero mais importante refletir sobre sua vida à luz de sua própria compreensão de sua fé, construindo uma autonomia espiritual em relação ao que outras pessoas lhe digam ser certo ou errado – essa é, devo enfatizar, uma das características históricas do Protestantismo, especialmente de sua própria tradição batista.

O Cristianismo, em minha opinião é – e não apenas o Cristianismo – uma fé ética, uma fé que enfatiza as relações humanas com outros humanos, com o todo da Criação e com Deus. E é com base nessas relações que se estabelecem, na tradição cristã, as noções de pecado e retidão. Assim, pecado é aquilo que agride ao próprio indivíduo, aos demais seres humanos, ao resto da Criação e a Deus. Pecar é violar o valor e a dignidade do ser humano e da criação, já que todos fomos, metaforicamente, “feitos à imagem de Deus”. É assim que compreendo o sentido de “pecado”. Logo, amar, respeitar, honrar, valorizar, apreciar outro ser humano, e se relacionar com alguém que, voluntária e legalmente, entre num relacionamento com outra não pode ser descrito como pecado, apenas porque os parceiros são pessoas do mesmo sexo. [Falo em “legalmente”, já que as leis brasileiras atuais estabelecem tipos de relacionamentos que são abusivos, como, por exemplo, a pedofilia – na qual um adulto pode estar se aproveitando da inexperiência ou desvantagem dum menor, mesmo que o menor em questão pense estar envolvido por sua própria escolha.]

Em se tratando da classificação de relacionamentos como sendo “morais” ou “imorais”, me preocuparia com outros detalhes. Quão “moral” seria a relação entre um homem e uma mulher casados, se entre eles houvesse desrespeito, desonra ou agressão? Quão “imoral” seria a relação entre dois homens ou duas mulheres, se entre eles houvesse respeito, honra e cuidado? Contrapor dois casos extremos assim pode parecer uma comparação injusta – e é –, mas é essa a lógica utilizada na conversa que você me relatou. Prefiro pensar que, em termos da moralidade cristã, a preocupação se centre na presença do “amor” naquela relação – i.e., amor como respeito, devoção, cuidado, atenção, honra, lealdade etc. Acredito numa ética do relacionamento, na honra e no valor do compromisso mútuo.

Se estivéssemos tendo uma conversa acadêmica sobre este tema, faria questão de apontar as origens históricas das variadas opiniões teológicas cristãs sobre o tema – inclusive das opiniões teológicas que defendo –, mas, como escrevi antes, você saber como essas opiniões se desenvolveram, no fim das contas, não alteraria a maneira como outros compreenderão a questão. Você não pode mudar a forma como os outros sentem o mundo. O que você pode mudar é a si mesmo: a forma como você enxerga a si mesmo; como se relaciona consigo mesmo, com outras pessoas e com o resto do mundo.

Para finalizar, se você realmente quer saber o que penso sobre cada uma daquelas coisas sobre as quais escreveu, deixe-me dizer que minha fé me ensina que cada um de nós, você inclusive, é imensuravelmente importante. Cada um de nós nasce com a capacidade de fazer tanto o bem quanto o mal, de amar e odiar, de ser feliz ou infeliz. Eu, pessoalmente, não acredito na noção de que o ser humano seja depravado e mau por natureza. Acredito, sim, que certos relacionamentos sejam inapropriados, mas o status moral dum relacionamento romântico não advém do sexo daqueles que se relacionam. Esse tipo de discussão, entretanto, sempre causará conflitos entre diferentes pessoas ou grupos – e não apenas entre aqueles que professem uma religião. Também não acredito que grupos religiosos devam mudar suas doutrinas para que pessoas sintam-se bem-vindas; afinal de contas, a filiação a uma comunidade de fé é voluntária, e aqueles que escolhem ser parte de qualquer uma supostamente estão cientes (ou deveriam estar) dos compromissos que estão assumindo com aquela comunidade e consigo mesmos. Então, não posso dizer muita coisa que possa ajudá-lo a lidar com os conflitos com a disciplina duma outra comunidade de fé, mas posso garantir como há igrejas protestantes aí em São Paulo onde seria muito bem-vindo independentemente de sua orientação emociono-sexual e de seu relacionamento conjugal com outro homem. Se tiver interesse em contatar tais comunidades, envie-me seu endereço de e-mail ou me escreva diretamente por meio do e-mail de contato em meu perfil.

Grande abraço!


+Gibson