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sexta-feira, 16 de maio de 2014

Uma inaceitável ameaça à liberdade religiosa

Lendo o Globo online hoje, me deparei com a absurda notícia – que desconhecia até hoje – de que um juiz do Tribunal Regional Federal havia decidido que “as manifestações religiosas afro-brasileiras não se constituem religião”. Mais um desrespeito ultrajante aos princípios constitucionais que estabelecem, no art. 5 da Constituição Federal, a liberdade religiosa, mas também a proteção aos locais de culto e as suas liturgias. Lá não se encontra nenhuma definição do que seja uma religião, até porque não é papel do Estado, o que inclui as cortes, intrometer-se na definição do que uma tradição religiosa deva ter ou fazer para ser considerada uma “religião”.

Como um cristão, como um ministro religioso, e como um cidadão comprometido com a liberdade, não aceito essa discriminação contra outras tradições de fé. E você que lê minhas palavras também não deveria aceitá-la.

Deixo aqui de lado, por hora, a questão que causou todo esse absurdo – vídeos de cristãos evangelicais que faziam comentários sobre religiões afro-brasileiras –, já que, como sabem, sou um radical em termos de liberdade de expressão, ou seja, não acredito que alguém que expresse uma opinião deva ser punido simplesmente por sua opinião ser impopular (a não ser que haja ameaça, impulsionamento à violência, etc). O que me interessa é protestar aqui contra a ignorância e intromissão indevida de quem deveria proteger o cidadão de abusos contra os seus direitos constitucionais e humanos. E isso não pode ser aceito pela sociedade, e muito menos pelos cristãos.

Ninguém pode estar livre para viver a sua fé, a não ser que toda a sociedade – independentemente do que acredite – também esteja livre para crer ou descrer no que quer que seja. Juiz algum, sob as leis que possuímos hoje, pode definir o que seja uma religião ou não. A lei tem o poder de limitar o que pode ser feito num culto religioso, se o que é feito viola outros aspectos da legislação (por exemplo, uma religião não poderia fazer sacrifícios humanos), mas não pode definir o que é uma religião ou não – essa definição é dada pelos seguidores da mesma, e apenas eles.

Isso necessariamente me leva a afirmar que a liberdade religiosa é uma espada de dois gumes – você tem liberdade para crer e praticar, mas outros têm a liberdade de criticar suas crenças e práticas nos limites da lei.

Seja como for, essa decisão não pode ser aceita por uma sociedade onde somos, constitucionalmente livres para crer e praticar nossa fé religiosa, e termos essa mesma fé reconhecida como uma “religião”.

+Gibson

sábado, 10 de maio de 2014

Pela liberdade de expressão de opinião e pela liberdade de imprensa!


Cada vez mais me aborreço com a intolerância à diversidade de opinião que tem se manifestado em nossa sociedade pretensamente democrática. Vivemos numa sociedade na qual aqueles que pensam duma forma distinta são, perdoem-me a expressão, “diabolizados”, desvalorizados. Um exemplo disso exibe-se no caso dos militantes de determinados movimentos sociopolíticos venderem-se como os defensores da democracia, ao mesmo tempo em que demonstram suas intenções de cercear a liberdade de expressão de opiniões que diferem das suas. Isso é, para mim, algo vergonhoso.

Provavelmente discordo das opiniões teológicas e políticas de muitos de meus irmãos cristãos. A maioria dos outros cristãos que conheço, por exemplo, também discordam de minhas compreensões. Partilhamos a confiança no mesmo Deus e no mesmo Salvador, mas, provavelmente, com compreensões teológicas nem sempre absolutamente idênticas. Partilhamos a fé nas palavras das mesmas Escrituras, mas, provavelmente, com bases hermenêuticas nem sempre absolutamente idênticas. Mas, em minha limitada compreensão, essa diversidade sempre foi parte da história do Cristianismo, e, em uma sociedade democrática – como quero acreditar que a brasileira seja –, ela não me ameça em absolutamente nada. Podemos viver numa mesma sociedade, sob as mesmas leis democráticas, tendo, todos nós, a liberdade de acreditar em coisas diferentes e expressar nossas opiniões divergentes em segurança. Ao menos, isso é o que espero numa democracia.

Se democracia é liberdade, então essa liberdade deve ser uma via de mão dupla. É impossível haver liberdade democrática se essa liberdade for garantida apenas àqueles que são vistos como “politicamente corretos” (seja lá o que isso queira dizer!). Assim, todos devem poder expressar suas opiniões numa democracia.

Os exemplos brasileiros de intolerância à manifestação de opinião, nos últimos anos, são assustadores para alguém como eu – que confio na liberdade de expressão do pensamento, mesmo se o pensamento exposto for oposto ao meu. Os exemplos mais recentes dos quais consigo recordar-me agora são aqueles de Silas Malafaia e de Rachel Sheherazade.

Silas Malafaia, um pastor evangélico (com uma visão teológica muito diferente daquela que abraço), tem sido alvo de ataques de políticos, “ativistas”, blogueiros, jornalistas, apresentadores de televisão etc, pelo simples fato de expressar sua opinião “politicamente incorreta” – com suas palavras sendo, frequentemente, manipuladas para serem revestidas dum sentido que, claramente, não foi o que ele quis dar.

Rachel Sheherazade, uma jornalista que expõe suas opiniões há muito, tem sido ridicularizada e ameaçada, inclusive por seus próprios “colegas” de profissão, pelo simples fato de expor suas convicções “politicamente incorretas” – também com suas palavras sendo distorcidas por outros jornalistas e politiqueiros de plantão para se revestirem dum sentido distinto daquele que ela originalmente as deu.

No caso desses dois personagens, encontramos uma séria ameaça à democracia e à liberdade. Os supostos “democratas” – isto é, aqueles que perseguem o Malafaia e a Sheherazade por dizerem o que não agrada àqueles primeiros – são as reais ameaças à democracia. São eles a real ameaça à liberdade de expressão do pensamento em nossa sociedade.

O mais interessante é que a maioria das ideias defendidas por Malafaia e Sheherazade é, provavelmente, o que a maioria dos brasileiros pensa!

Seja como for, minha intenção não é dizer sobre o que concordo ou discordo das ideias de meus dois personagens aqui. Minha intenção é, simplesmente, a de manifestar o meu apoio à sua liberdade de expressão de pensamento.

Política e religiosamente, acredito na liberdade. A Providência nos abençoou com a liberdade de escolher nossas crenças e de expressá-las. E as leis formuladas por nossa sociedade nos garantem esses direitos. Nossas leis nos garantem o direito de termos opiniões contrárias àquelas da maioria (real ou fictícia) e de poder expressá-las de acordo com a lei. Malafaia e Sheherazade, assim como todos nós, devem ter seus direitos à expressão de opinião garantidos. Pode-se concordar ou discordar do que dizem, mas, numa sociedade livre e democrática como esta constitucionalmente é, não se pode retirar deles seu direito democrático sem agredir a todos nós.

Seja lá quem tenha dito aquelas palavras, geralmente atribuídas a Voltaire, construiu um mote que tem sido parte de minha compreensão liberal democrata:

Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las.

Isso, para mim, é o sentido da liberdade e da democracia.

Pela liberdade de expressão de opinião e pela liberdade de imprensa! Para mim, uma causa política, filosófica e religiosa.

+Gibson

domingo, 4 de maio de 2014

Não esqueçamos da hospitalidade


Não explore o imigrante nem o oprima, porque vocês foram imigrantes no Egito.” (Êxodo 22:20)

Quando um imigrante habitar com vocês no país, não o oprimam. O imigrante será para vocês um concidadão: você o amará como a si mesmo, porque vocês foram imigrantes na terra do Egito...” (Levítico 19:33-34)

Portanto, amem o imigrante, porque vocês foram imigrantes no Egito.” (Deuteronômio 10:19)

O imigrante nunca teve que dormir na rua, porque eu abria minhas portas ao viajante.” (Jó 31:32)

Sejam solidários com os cristãos em suas necessidades e se aperfeiçoem na prática da hospitalidade.” (Romanos 12:13)

Não se esqueçam da hospitalidade, pois algumas pessoas, graças a ela, sem saber acolheram anjos.” (Hebreus 13:2)


Todos vocês conhecem essas passagens bíblicas. Elas sempre tiveram uma grande importância na formação de minha compreensão teológica. Sempre tiveram, também, uma grande importância para nossa tradição, pois apontam para uma das maiores obrigações daquele que intenta seguir os ensinamentos atribuídos a Jesus: a hospitalidade.

No Novo Testamento grego, a palavra usada para se referir à hospitalidade é “filoxenos”, ou seja, amor ao estrangeiro. Em minha compreensão, esse princípio, um verdadeiro mandamento cristão, nunca foi tão importante quanto em nossos dias. Os milhões de seres humanos que cruzam fronteiras em busca duma nova vida aumentam a cada dia. E muitos desses seres humanos desenraizados encontram uma recepção desumana de muitos de nós.

Não, não estou me referindo a seres metafóricos que habitam as páginas de livros sagrados ou poéticos. Me refiro às centenas, talvez milhares, de haitianos que vendem produtos nas calçadas do Recife para que possam sobreviver. Me refiro aos milhares de seus compatriotas que têm cruzado as fronteiras do Acre nos dois últimos anos. Me refiro aos milhares de bolivianos semi-escravizados em fábricas de São Paulo. E, também, às centenas de nordestinos explorados em trabalhos de baixa qualificação em outras partes do país, e olhados como menos dignos de respeito. Acredito que é sobre essas pessoas que aquelas passagens fazem referência, e sobre todas as outras que são desrespeitadas, maltratadas, e negligenciadas por terem vindo de outro lugar.

Por razões muito pessoais, narrativas migratórias sempre foram muito importantes para mim: os patriarcas e matriarcas bíblicos, Medeia em Corinto, Jesus em Jerusalém, os brasileiros na América do Norte e Europa, e tantas outras histórias de movimentação humana – e sua consequente alegria e dor. Mas ontem, depois de conhecer uma pessoa muito especial numa esquina do centro da cidade, percebi o quão importante é por tudo aquilo no qual dizemos acreditar ao teste, para que nossa fé se materialize em nossas ações.

Sei o quanto vocês já colaboram com o “Projeto Santuário” de nossa congregação. Tenho testemunhado o esforço que alguns de vocês têm feito para ajudar famílias e indivíduos a recomeçarem suas vidas em nosso país. Todos eles são muito gratos por isso. Mas o que temos feito não é suficiente! Precisamos fazer muito mais.

Como cristãos, somos chamados a estender nossas mãos, abrir nossas portas e compartilhar nossas mesas com todo estrangeiro. Precisamos ajudar essas irmãs e irmãos a vencerem seus obstáculos e a construírem uma vida digna, mesmo que para isso tenhamos de desafiar o mundo. Esse é o sentido do termo “santuário”, oferecer proteção, trazer para sob as asas da compaixão, amor e respeito esses nossos irmãos e irmãs.

Uma fé que não seja um desafio a nossas próprias limitações, preconceitos e medos, uma fé que não seja uma forma de trazer o Divino a esse mundo caótico, não é relevante. O amor ao estrangeiro – a hospitalidade que afirmamos professar como princípio de fé – pode significar muitas coisas diferentes, mas o cuidado para com o imigrante é, definitivamente, seu sentido mais básico. Por isso, estendo a todos a convocação divina ao filoxenos, testemunhada por nossa aliança congregacional que reza:

O amor é a doutrina desta igreja,
E o serviço é a sua oração.
Habitar juntos em justiça e paz,
Buscar a verdade com liberdade,
Respeitar o valor e dignidade de todas as pessoas,
E servir a humanidade juntos,
A fim de que todas as almas
Possam crescer em harmonia com o divino,
Esta é a aliança que fazemos uns com os outros.

+Gibson