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terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Novamente, a verdade


Para responder, de forma muito breve, a uma pergunta que me foi feita:

Como alguém que trabalha nos campos da História, da Teologia e da Filosofia, realmente não acredito que a História, a Teologia ou a Filosofia nos ajudem a encontrar a “verdade”. O que elas podem fazer é nos ajudar a compreender a “mudança” e a elaborar e organizar “conceitos”. Mas nem a “mudança” nem os “conceitos” são “a verdade”. Se é “a verdade” que buscamos, é muito mais provável que a encontremos na poesia, na ficção, nas artes em geral e nas relações com outros seres humanos (que chamo de “espiritualidade”) – expressões essas que transcendem as limitações de nossa humanidade. A “verdade” sobre a dimensão misteriosa de nossa existência, sobre o Sagrado, assim, não se encontra nos conceitos humanos – nesses conceitos encontramos apenas pistas que apontam para um caminho, e não a “verdade” em si.

+Gibson

domingo, 22 de janeiro de 2017

Professando minha "fé"


Assim também é a fé: sem as obras, ela está completamente morta. […] Mostre-me a sua fé sem as obras, e eu, com as minhas obras, lhe mostrarei a minha fé.” (Tiago 2:17-18)

Frequentemente, as pessoas demonstram uma enorme preocupação com a “crença” enquanto cerne da fé religiosa. Para eles, a “” consiste numa função intelectual de aceitação duma formulação de crença correta (a “ortodoxia”). Sua “fé” define-se pelas coisas nas quais declaram acreditar – e mesmo que não tenham consciência disso, enfatizam aquele aspecto da fé chamado em latim, na tradição teológica luterana, de “assensus” (que se refere ao ato de assentir, concordar, aprovar). Isso é demonstrável, por exemplo, nas inúmeras vezes que outras pessoas me perguntam no que creio. Elas esperam que eu professe uma lista de declarações fixas sobre diferentes aspectos teológicos, para que, assim, possam avaliar minha “fé” como “ortodoxa” ou “herética”.

Esperar que eu professe uma compreensão intelectual acabada da Realidade de Deus, da dimensão misteriosa ou dum porvir eterno não funciona para minha fé pessoal. Sou um cristão moldado por diferentes tradições cristãs, ordenado ao sacerdócio/ministério de cinco diferentes comunhões cristãs, e minha teologia pessoal é cada vez mais abençoada pela influência de outras tradições – cristãs ou não. Minha relação com amigos de outras tradições religiosas me ensina o quanto temos em comum e me faz compreender a “verdade” religiosa como algo que se encontra além de qualquer função intelectual.

Gosto de pensar que minha fé é multitradicional, isto é, bebe duma catolicidade mais extensa do que os limites de qualquer comunhão denominacional. Assim, meu unitarismo se entrelaça ao meu anglicanismo que aprende com meu luteranismo que se ilumina com meu restauracionismo que se pacifica com meu quakerismo que se integram à minha herança judaica liberal. De todos eles, e de minha herança cultural, emerge minha compreensão do Sagrado – que inclui não apenas Deus, mas também a humanidade e o todo da criação. Assim, o aspecto intelectual de minha fé não pode ser descrito como algo acabado, imutável; minha compreensão de fé, minha teologia, é, antes, um processo, um caminho, uma via.

Acredito em revelação, que “Deus ainda está falando”, como diz o slogan de uma de minhas denominações. Só que isso pode significar algo totalmente diferente do que alguns poderiam pensar. Nunca ouvi, literalmente, a “voz de Deus” – ou seja, nunca ouvi uma voz mensurável falando comigo, vinda do céu. Mas, ainda assim, julgo ouvir a voz divina: a ouço quando me sinto compelido a ouvir alguém que precisa ser ouvida(o); a ouço quando escuto uma música que me inspira ou consola; a ouço quando sou inspirado por alguém a fazer o que certo; a ouço quando alguém me oferece o consolo que eu preciso. Esse tipo de audição é o que chamo de “influência divina” ou “presença do Espírito Santo”. Essa Presença divina é aquela influência que me convida a participar do “Tikkun olam” (a restauração, reparo, cura do mundo), ensinado por minha herança judaica liberal, ou da construção de “Sião” (comunidade de compaixão, solidariedade e honra do valor e dignidade de todas as pessoas), como ensina minha tradição cristã restauracionista.

É isso que prefiro enxergar como minha fé. Menos uma crença, e mais uma esperança que me compele a tornar o aqui e agora no templo para a habitação do Divino. Menos uma lista de declarações sobre o desconhecido, e mais um desafio para tornar toda a minha vida uma manifestação de minha “fé”. E confesso publicamente, aqui, que essa é a coisa mais difícil que se pode tentar – mas é um desafio transformador!

Como um unitarista, é óbvio que me ocupo da intelectualização de minha “fé”. Essa é também, a propósito, parte de minha ocupação no ministério religioso e no ensino teológico. Mas me preocupo muito mais em viver minha “fé” do que em articulá-la intelectualmente. Em minha tradição anglicana, temos uma expressão para isso: “lex orandi lex credendi” – a lei da oração [é] a lei da crença – ou seja, é na oração que expressamos nossa crença; e como nossa própria vida deve ser uma oração, é na forma como vivemos nossas vidas que expressamos nossa crença teológica (como bem afirma o autor da Carta de Tiago).

+Gibson

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Jesus, Cristianismo e Política: um protesto


Eu confesso que cada vez mais me escandalizo com a incoerência e irrelevância do “testemunho” explicitado por aqueles que se apresentam como “verdadeiros cristãos”, “crentes bíblicos”, “católicos devotos” nas redes sociais. Essa legião de gritadores de refrões políticos – com máscaras de devoção religiosa – sequestram o vocabulário cristão a fim de legitimar seu fanatismo político reacionário, e acabam fazendo o contrário do que dizem defender: transformam seu suposto Deus, seu suposto Cristo e sua suposta fé num artefato de violência, de egoísmo, de maldade e de subserviência aos “poderes deste mundo”.

Isso fica claro, por exemplo, no caso da bajulação patética à figura do novo Presidente eleito dos Estados Unidos por parte desses tolos brasileiros. Os autoproclamados “servos de Deus” defendem a figura de Donald Trump – o grande idiota que utiliza impropérios e agressividade contra a dignidade humana como baluarte padrão de sua relação com o público – como se fora um novo messias enviado para salvá-los dos anjos do mal. Da mesma maneira, defendem o idiota nacional da mesma estirpe (i)moral, Jair Bolsonaro, como se o mesmo fosse uma espécie de retorno a uma “moralidade” que nunca existiu.

É vergonhoso! Faz-me pensar nas palavras atribuídas a Jesus, pelos autores do Evangelho de Mateus: “[...] Pois eu garanto a vocês: os cobradores de impostos e as prostitutas vão entrar antes de vocês no Reino do Céu.” (Mateus 21:31b)

O que teria a mensagem atribuída a Jesus de Nazaré pelos autores dos Evangelhos a ver com as mensagens de Donald Trump ou Jair Bolsonaro? Ou melhor ainda, o que teria o Jesus daqueles textos a ver com qualquer um dos políticos do mundo?

O que Jesus tem a ver com pena de morte e posse de armas? Sim, aquele Jesus que supostamente ensinou que deveríamos amar aos nossos inimigos; o mesmo Jesus que ensinou que seu reino não era deste mundo.

Querem defender suas ideias de reação à cultura liberal? Façam-no explicitando que suas ideias saem de seus próprios medos e preconceitos, dos manuais políticos dos séculos XVIII e XIX que acabaram de descobrir, dos ideários de simpatizantes da ditadura pelos quais nutrem simpatia, dos vídeos de pseudofilósofos emigrados e dos blogs de gente que lê pouco. Não falsifiquem sua proclamada fé – ao fazê-lo, vocês, além de desqualificarem sua visão política, sabotam a mensagem política da tradição cristã.

O Jesus refugiado, que exaltou “estrangeiros” em sua prédica; o Jesus que quebrou uma tradição androcêntrica ao mencionar o mundo e as relações femininas em seus ensinamentos; o Jesus que, como judeu, preocupa-se em seus ensinamentos com o pobre, o fraco e o oprimido; o Jesus que transforma a criança no símbolo daquilo que seus seguidores devem ser; o Jesus que rejeita a revolução sanguinolenta, a violência e os poderes deste mundo. Esta é a figura “política” que se pode extrair das narrativas sobre Jesus: não a imagem de alguém que defende o capitalismo ou o socialismo; a homofobia ou o movimento LGBT; o machismo ou o feminismo. As palavras atribuídas a Jesus proclamam o amor à humanidade e a Deus: não o amor ao capital, ao ódio e às armas!

+Gibson