[Para responder ao questionamento que me foi feito hoje por uma leitora, decidi postar aqui um capítulo dum pequeno livro que publiquei recentemente sobre o mesmo tema. Espero que possa, assim, esclarecer as dúvidas de minha correspondente.]
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“[…]
Foi em Antioquia que os
discípulos foram primeiramente chamados de cristãos.”1
É
impossível compreender a complexidade das várias tradições
cristãs se não nos dermos conta de que o Cristianismo é,
fundamentalmente, uma fé comunitária. A exemplo da própria
humanidade, que forma uma comunidade que se entrelaça por meio de
relacionamentos de interdependência, a fé cristã, para que seja
vivida, depende do convívio comunitário. Assim, para sermos
cristãos, temos de nos juntar a outras pessoas. E “Igreja”2
é o nome que se dá, no vocabulário cristão, a esse ajuntamento de
pessoas que se engajam como discípulas de Jesus Cristo.
Dar uma definição do que é o Cristianismo e quem é cristão,
entretanto, nem sempre é tão fácil quanto parece. Na maioria das
vezes, por exemplo, pode-se definir como cristão qualquer pessoa que
professe uma crença em Jesus Cristo e que siga seus ensinamentos;
nesse caso, o Cristianismo é a fé professada por essa pessoa. Essa
definição simplificada pode parecer útil, mas, na verdade, ela não
nos diz muito. Nossos irmãos muçulmanos, por exemplo, aceitam e
honram Jesus como um profeta de Deus e acreditam seguir seus
ensinamentos; isso, entretanto, nem para eles nem para os cristãos,
seria suficiente para identificá-los como “cristãos”.
Quando
tratamos teologicamente do Cristianismo – assim como de qualquer
outra fé com o mesmo nível de complexidade teológica (por exemplo,
o Judaísmo, o Islã, o Budismo etc) –, normalmente utilizamos
definições mais elaboradas. No Cristianismo isso ocorre
principalmente por conta de sua complexa história, na qual foram
criados conceitos de ortodoxia
e heresia – ou
seja, de crenças e práticas que poderiam ser aceitas ou não como
autênticas (novamente, essa não é uma exclusividade cristã,
apesar de, por questões históricas importantes, a ênfase cristã
em tais conceitos ser maior do que a de outras tradições
monoteístas)3.
Nas diferentes tradições cristãs há diferentes interpretações
teológicas, baseadas em sua leitura da Bíblia e da tradição da
Igreja, sobre o que é o Cristianismo e quem é um verdadeiro
cristão. Inúmeras vezes, essas interpretações entram em conflito
umas com as outras e se contradizem mutuamente, e esse conflito pode
gerar desentendimentos entre cristãos de diferentes tradições.
Na
introdução deste livro, já esclareci que minha definição para os
termos “Cristianismo” e, consequentemente, “cristão” aqui é
deveras simplificada e explicitamente não-ortodoxa. Ou seja,
enquanto a maioria das igrejas cristãs – especificamente aquelas
comunhões protestantes e ortodoxas associadas ao Conselho
Mundial de Igrejas, e a Igreja
Católica Romana – define estritamente a natureza da fé cristã e,
consequentemente, quem é um verdadeiro cristão por meio de
critérios teológicos ortodoxos, esses critérios não podem ser
utilizados por mim aqui para alcançar as finalidades às quais me
prepus4.
Para efeitos de minhas definições aos termos “Cristianismo” e
“cristão” – quando os mesmos são utilizados especificamente
para identificar uma tradição ou comunidade (e não um indivíduo)
–, utilizo como padrão dois critérios básicos:
a relação da tradição ou comunidade em questão com o todo da
Igreja cristã:
a presença dos elementos (físicos, pictóricos ou discursivos)
universalmente aceitos pela Igreja cristã – independentemente da
interpretação dada aos mesmos –, por exemplo: Deus, Jesus, a
Bíblia, a liturgia cristã;
e o senso de continuidade identitária com o todo da Igreja cristã;
a auto-identificação comunitária
como um corpo de discípulos de Jesus Cristo, isto é, como uma
igreja cristã.
Devo confessar que reconheço as claras limitações desses
critérios, tanto no que tange ao seu afastamento das concepções
ortodoxas de Igreja e fé cristã, quanto no que tange à sua
discriminação contra grupos que não se encaixem nesses critérios
que aqui utilizo.
Você
poderia me dizer, por exemplo, que minha definição é muito larga,
chegando a colocar sob a mesma identificação a tradição das
igrejas ortodoxas orientais
e aquela de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos
Dias. Ninguém, razoavelmente
esclarecido, duvidaria que as igrejas ortodoxas “orientais” sejam
cristãs – a favor de sua identidade cristã contam, pelo menos, a
teologia de sua tradição e sua história. No caso dos santos
dos últimos dias (conhecidos
como “mórmons”), entretanto, há, teologicamente, uma clara
separação entre sua tradição e as concepções majoritariamente
aceitas pela Igreja cristã, e o consequente fato de não serem
aceitos como cristãos pela maioria dos demais cristãos (católicos,
ortodoxos, e protestantes).
Entretanto, se observarmos a tradição dos “santos dos últimos
dias”, sob os dois critérios que enumerei, veremos que há, de sua
parte: (1) uma relação identitária com o todo do Cristianismo (o
movimento utiliza aqueles elementos cristãos aceitos por todas as
tradições cristãs – mesmo que não os interpretando da mesma
forma que os demais cristãos, e suplementando-os com novos elementos
–, e está imerso num senso de continuidade histórica e
identitária com o Cristianismo); e essa tradição (2) identifica-se
explicitamente como uma igreja cristã.
Minha
identificação de grupos não-ortodoxos (alguns diriam “heréticos5”)
como cristãos – citei como exemplo a tradição “mórmon”, mas
poderia ter citado os “testemunhas de Jeová” ou minha própria
tradição unitarista – tem uma ligação com a maneira como
entendo a fé cristã. Essa minha forma muito particular de definição
do sentido desses termos – Cristianismo e cristão –, entretanto,
não é a maneira como a maioria das tradições cristãs
(especialmente o Catolicismo Romano, a Ortodoxia Oriental, e a
maioria das tradições protestantes) os definiria.
A
definição dada ao Cristianismo e, consequentemente, à identidade
cristã pelas maiores e mais influentes comunhões6
cristãs tem uma ligação necessária com a noção de ortodoxia
teológica. Para definir o que é o Cristianismo e quem é cristão,
essas comunidades buscam a autenticidade das crenças e práticas
presentes nas demais comunhões. Isso influencia, por exemplo, as
relações entre igrejas cristãs, e possui consequências para os
membros dessas tradições.
Permita-me
esticar minha imaginação para citar um exemplo prático: imagine um
batista praticante que nunca tivesse sido batizado no ritual católico
(ou num ritual de batismo aceito pela Igreja Católica Apostólica
Romana), e que, por alguma razão hipotética (ele poderia, por
exemplo, estar vivendo longe de uma comunidade batista e sentir a
necessidade de partilhar da Comunhão7!),
desejasse receber o sacramento da Eucaristia numa missa católica –
ele poderia ou não recebê-lo?
Por
um lado, a tradição católica possui critérios específicos para
definir quem, quando e como pode ministrar e receber os sacramentos8
da Igreja; por outro lado, a tradição batista não partilha da
compreensão sacramental da tradição católica, e também possui
critérios específicos sobre quem, quando e como pode ministrar e
receber a “ordenança da Ceia do Senhor”. O padrão no
Catolicismo é que, para receber o sacramento da Eucaristia, o
candidato deve já ter recebido os sacramentos do Batismo e da
Confirmação – e esses devem ter sido recebidos de forma válida9.
Já no que tange a muitas comunidades batistas, pode haver
consequências para um membro que participe de ritos em outras
comunidades de fé – para muitos batistas brasileiros, o
Catolicismo é uma outra religião, e não uma expressão válida do
Cristianismo –, logo, poderia não ser aceitável a prática de ele
receber a Eucaristia numa missa católica (isto é, se ele assim
pudesse fazê-lo numa igreja católica)!
Logo,
como se vê, a questão de definições é muito complexa e possui
consequências para a vida prática, tanto no interior de comunidades
cristãs quanto na relação entre diferentes comunidades cristãs.
Entretanto, vale enfatizar que essa não é uma exclusividade cristã.
No Judaísmo, por exemplo, há a recorrente discussão sobre quem é
judeu, e a consequente validade dos rituais oferecidos por
comunidades judaicas que não sejam ortodoxas10.
As diferenças entre as variadas tradições cristãs tornam-se
muito óbvias quando pensamos na forma em que igrejas de diferentes
tradições cristãs recebem a novos membros. O padrão para que
alguém seja aceito como membro da Igreja cristã é que tenha sido
batizado, mas o que ocorre quando um cristão vindo de uma outra
igreja cristã deseja juntar-se a uma tradição cristã diferente?
Para facilitar a compreensão, utilizemos o exemplo anterior na
direção contrária: e, se por algum motivo, um católico romano
quisesse juntar-se a uma igreja batista, o que seria exigido dele?
Ele teria de ser batizado? Mas ele não já foi batizado antes? Por
que teria de ser rebatizado? … As respostas a questões como essas
podem parecer irrelevantes, mas elas dizem muito sobre nossa teologia
– isto é, sobre o que pensamos sobre Deus, sobre Jesus, sobre a
Bíblia, sobre a Tradição, sobre a Igreja etc –, além de terem
um impacto real sobre a vida dos indivíduos cristãos, de suas
famílias e da Igreja como um todo.
Há
muitas razões históricas para que existam conflitos entre
diferentes expressões da Igreja cristã, mas apontarei aqui pelo
menos duas: [1] razões
teológicas, ou seja,
diferenças entre compreensões acerca da fé cristã; e [2] razões
práticas – frequentemente litúrgicas –,
ou seja, diferenças entre as formas como determinadas coisas são
feitas na Igreja11.
Assim,
se, no nosso exemplo, o batismo anterior dum cristão não é aceito
para que ele se torne membro duma outra comunidade cristã –
exigindo-se que ele seja rebatizado –, isso pode ser causado: [1]
porque há diferenças claras entre compreensões sobre autoridade
eclesiástica, ou sobre noções litúrgicas, ou sobre o sentido da
fé cristã, ou sobre o papel da consciência no processo de se
tornar um seguidor de Jesus Cristo etc; e, [2] frequentemente porque
requisitos rituais não foram cumpridos para a comunidade receptora
etc. Essas diferenças são reais e, infelizmente, criam barreiras
para o cumprimento daquela oração atribuída a Jesus: “para que
todos sejam um”12.
Levando em consideração essas questões teológicas que formam a
base da discussão da identidade cristã, e meu próprio compromisso
com o espírito ecumênico, identificarei como cristãs aqui todas
aquelas tradições que se identificam explicitamente como igrejas
cristãs. Incluirei nessa definição mesmo aquelas comunhões ou
denominações que, geralmente, não são aceitas como cristãs pelas
maiores igrejas cristãs – ou vice versa –, desde que preencham
os requisitos mínimos que estabeleci no início deste capítulo.
Assim,
aqui, o movimento dos “Santos dos Últimos Dias” (que inclui não
apenas a Igreja de Jesus
Cristo dos Santos dos Últimos Dias,
mas também a Comunidade
de Cristo e outros
grupos menores), e o movimento dos “Estudantes da Bíblia” (que
inclui os testemunhas de
Jeová), por exemplo,
encaixam-se na definição geral de igrejas cristãs. E, quando
possível, darei informações sobre diferenças existentes na
compreensão de diferentes grupos cristãos.
O que intenciono com isso é simplesmente enfatizar a diversidade
daquilo que chamamos de Cristianismo – mas que prefiro pluralizar e
chamar de “Cristianismos”. Para mim, a diversidade cristã é
fonte de beleza e inspiração, e a Igreja seria espiritualmente mais
pobre se em seu meio não se ouvissem vozes tão distintas. Como um
cristão, minha oração é que, um dia, possamos todos sobrepujar
nossas diferenças, podendo enxergarmo-nos mutuamente como membros
duma mesma família de fé. Assim, apesar de poder discordar de
muitas das perspectivas de outros cristãos, abraço-os como irmãos
em Cristo e como co-andarilhos na senda cristã.
É importante, ademais, que eu esclareça algo relativo à minha
própria experiência de fé. Por conta de minhas múltiplas heranças
cristãs – sobre às quais falei no prefácio deste livro –,
tendo a me ver religiosamente muito mais como “cristão” (isto é,
de forma muito ampla) do que como membro duma tradição específica.
Abraço as diferentes tradições que formaram minha compreensão da
fé cristã como minhas, extraindo de cada uma delas aquilo que
julgue me aproximar mais do Divino. Além disso, meu ministério
eclesiástico é exercido no contexto duma “igreja unida”, isto
é, duma comunidade que mantém laços com diferentes tradições
cristãs. Assim, em minha experiência, é insuficiente dizer que sou
um unitarista, um anglicano, um luterano, um restauracionista, ou
mesmo protestante. Prefiro identificar-me simplesmente como um
cristão, abrindo a possibilidade de agregar outros aprendizados
àqueles que herdei de minhas múltiplas tradições cristãs.
NOTAS: