.

.
Mostrando postagens com marcador Cristo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cristo. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Nesta Páscoa, experienciemos uma ressurreição!


"Ele ressuscitou, como havia dito!" (Mateus 28:6)


A Páscoa carrega consigo múltiplos sentidos que, associados ao Natal, completam a linguagem metafórica do nascimento, morte e ressurreição na tradição cristã. Por isso mesmo, independentemente da interpretação que lhe associemos, ela é essencial à narrativa cristã.

Pessoalmente, rejeito as noções de sacrifício expiatório, de substituição penal, de resgate etc. Elas são irreconciliáveis com minha compreensão de Deus e de Jesus. O que quero dizer com isso é que, para mim, Jesus não morreu para que eu pudesse ser perdoado por Deus. Mas, mesmo rejeitando essa compreensão visceralmente violenta da divindade, a linguagem pascoal ainda é fundamentalmente bela e inspiradora.

A linguagem pascoal é uma linguagem sacramental, uma linguagem que aponta para aliança entre a humanidade e a Divindade, e entre a humanidade e ela mesma. Essa aliança se constrói no processo de nascimento, morte e ressurreição. Como discípulos de Cristo, somos metaforicamente convidados a morrer para aquilo que nos separa de Deus e ressuscitar para uma nova vida em Cristo. E esse é o chamado mais difícil que podemos aceitar.

Essa ressurreição à qual somos convocados é uma vida que revele e respeite a presença e a atividade reconciliadora de Deus na criação. É uma vida de afirmação e respeito à dignidade das pessoas, de proteção à sacralidade da criação, e de alívio ao sofrimento físico e espiritual daqueles ao nosso redor – não importando quem sejam ou onde estejam. Quando nossa vida se torna partícipe desse processo divino, aí podemos dizer que conhecemos o espírito da Páscoa, pois então Jesus terá verdadeiramente ressuscitado em nosso coração.

Que nesta Páscoa possamos experienciar nós mesmos uma ressurreição em nosso interior. É minha oração.

Feliz Páscoa!

+Gibson

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Cristianismos e Cristãos

[Para responder ao questionamento que me foi feito hoje por uma leitora, decidi postar aqui um capítulo dum pequeno livro que publiquei recentemente sobre o mesmo tema. Espero que possa, assim, esclarecer as dúvidas de minha correspondente.]
___________________________________________________



“[…] Foi em Antioquia que os discípulos foram primeiramente chamados de cristãos.”1



É impossível compreender a complexidade das várias tradições cristãs se não nos dermos conta de que o Cristianismo é, fundamentalmente, uma fé comunitária. A exemplo da própria humanidade, que forma uma comunidade que se entrelaça por meio de relacionamentos de interdependência, a fé cristã, para que seja vivida, depende do convívio comunitário. Assim, para sermos cristãos, temos de nos juntar a outras pessoas. E “Igreja”2 é o nome que se dá, no vocabulário cristão, a esse ajuntamento de pessoas que se engajam como discípulas de Jesus Cristo.


Dar uma definição do que é o Cristianismo e quem é cristão, entretanto, nem sempre é tão fácil quanto parece. Na maioria das vezes, por exemplo, pode-se definir como cristão qualquer pessoa que professe uma crença em Jesus Cristo e que siga seus ensinamentos; nesse caso, o Cristianismo é a fé professada por essa pessoa. Essa definição simplificada pode parecer útil, mas, na verdade, ela não nos diz muito. Nossos irmãos muçulmanos, por exemplo, aceitam e honram Jesus como um profeta de Deus e acreditam seguir seus ensinamentos; isso, entretanto, nem para eles nem para os cristãos, seria suficiente para identificá-los como “cristãos”.


Quando tratamos teologicamente do Cristianismo – assim como de qualquer outra fé com o mesmo nível de complexidade teológica (por exemplo, o Judaísmo, o Islã, o Budismo etc) –, normalmente utilizamos definições mais elaboradas. No Cristianismo isso ocorre principalmente por conta de sua complexa história, na qual foram criados conceitos de ortodoxia e heresia – ou seja, de crenças e práticas que poderiam ser aceitas ou não como autênticas (novamente, essa não é uma exclusividade cristã, apesar de, por questões históricas importantes, a ênfase cristã em tais conceitos ser maior do que a de outras tradições monoteístas)3.


Nas diferentes tradições cristãs há diferentes interpretações teológicas, baseadas em sua leitura da Bíblia e da tradição da Igreja, sobre o que é o Cristianismo e quem é um verdadeiro cristão. Inúmeras vezes, essas interpretações entram em conflito umas com as outras e se contradizem mutuamente, e esse conflito pode gerar desentendimentos entre cristãos de diferentes tradições.


Na introdução deste livro, já esclareci que minha definição para os termos “Cristianismo” e, consequentemente, “cristão” aqui é deveras simplificada e explicitamente não-ortodoxa. Ou seja, enquanto a maioria das igrejas cristãs – especificamente aquelas comunhões protestantes e ortodoxas associadas ao Conselho Mundial de Igrejas, e a Igreja Católica Romana – define estritamente a natureza da fé cristã e, consequentemente, quem é um verdadeiro cristão por meio de critérios teológicos ortodoxos, esses critérios não podem ser utilizados por mim aqui para alcançar as finalidades às quais me prepus4.


Para efeitos de minhas definições aos termos “Cristianismo” e “cristão” – quando os mesmos são utilizados especificamente para identificar uma tradição ou comunidade (e não um indivíduo) –, utilizo como padrão dois critérios básicos:
  1. a relação da tradição ou comunidade em questão com o todo da Igreja cristã:
    • a presença dos elementos (físicos, pictóricos ou discursivos) universalmente aceitos pela Igreja cristã – independentemente da interpretação dada aos mesmos –, por exemplo: Deus, Jesus, a Bíblia, a liturgia cristã;
    • e o senso de continuidade identitária com o todo da Igreja cristã;
  1. a auto-identificação comunitária como um corpo de discípulos de Jesus Cristo, isto é, como uma igreja cristã.


Devo confessar que reconheço as claras limitações desses critérios, tanto no que tange ao seu afastamento das concepções ortodoxas de Igreja e fé cristã, quanto no que tange à sua discriminação contra grupos que não se encaixem nesses critérios que aqui utilizo.


Você poderia me dizer, por exemplo, que minha definição é muito larga, chegando a colocar sob a mesma identificação a tradição das igrejas ortodoxas orientais e aquela de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Ninguém, razoavelmente esclarecido, duvidaria que as igrejas ortodoxas “orientais” sejam cristãs – a favor de sua identidade cristã contam, pelo menos, a teologia de sua tradição e sua história. No caso dos santos dos últimos dias (conhecidos como “mórmons”), entretanto, há, teologicamente, uma clara separação entre sua tradição e as concepções majoritariamente aceitas pela Igreja cristã, e o consequente fato de não serem aceitos como cristãos pela maioria dos demais cristãos (católicos, ortodoxos, e protestantes).


Entretanto, se observarmos a tradição dos “santos dos últimos dias”, sob os dois critérios que enumerei, veremos que há, de sua parte: (1) uma relação identitária com o todo do Cristianismo (o movimento utiliza aqueles elementos cristãos aceitos por todas as tradições cristãs – mesmo que não os interpretando da mesma forma que os demais cristãos, e suplementando-os com novos elementos –, e está imerso num senso de continuidade histórica e identitária com o Cristianismo); e essa tradição (2) identifica-se explicitamente como uma igreja cristã.


Minha identificação de grupos não-ortodoxos (alguns diriam “heréticos5”) como cristãos – citei como exemplo a tradição “mórmon”, mas poderia ter citado os “testemunhas de Jeová” ou minha própria tradição unitarista – tem uma ligação com a maneira como entendo a fé cristã. Essa minha forma muito particular de definição do sentido desses termos – Cristianismo e cristão –, entretanto, não é a maneira como a maioria das tradições cristãs (especialmente o Catolicismo Romano, a Ortodoxia Oriental, e a maioria das tradições protestantes) os definiria.


A definição dada ao Cristianismo e, consequentemente, à identidade cristã pelas maiores e mais influentes comunhões6 cristãs tem uma ligação necessária com a noção de ortodoxia teológica. Para definir o que é o Cristianismo e quem é cristão, essas comunidades buscam a autenticidade das crenças e práticas presentes nas demais comunhões. Isso influencia, por exemplo, as relações entre igrejas cristãs, e possui consequências para os membros dessas tradições.


Permita-me esticar minha imaginação para citar um exemplo prático: imagine um batista praticante que nunca tivesse sido batizado no ritual católico (ou num ritual de batismo aceito pela Igreja Católica Apostólica Romana), e que, por alguma razão hipotética (ele poderia, por exemplo, estar vivendo longe de uma comunidade batista e sentir a necessidade de partilhar da Comunhão7!), desejasse receber o sacramento da Eucaristia numa missa católica – ele poderia ou não recebê-lo?


Por um lado, a tradição católica possui critérios específicos para definir quem, quando e como pode ministrar e receber os sacramentos8 da Igreja; por outro lado, a tradição batista não partilha da compreensão sacramental da tradição católica, e também possui critérios específicos sobre quem, quando e como pode ministrar e receber a “ordenança da Ceia do Senhor”. O padrão no Catolicismo é que, para receber o sacramento da Eucaristia, o candidato deve já ter recebido os sacramentos do Batismo e da Confirmação – e esses devem ter sido recebidos de forma válida9.


Já no que tange a muitas comunidades batistas, pode haver consequências para um membro que participe de ritos em outras comunidades de fé – para muitos batistas brasileiros, o Catolicismo é uma outra religião, e não uma expressão válida do Cristianismo –, logo, poderia não ser aceitável a prática de ele receber a Eucaristia numa missa católica (isto é, se ele assim pudesse fazê-lo numa igreja católica)!


Logo, como se vê, a questão de definições é muito complexa e possui consequências para a vida prática, tanto no interior de comunidades cristãs quanto na relação entre diferentes comunidades cristãs. Entretanto, vale enfatizar que essa não é uma exclusividade cristã. No Judaísmo, por exemplo, há a recorrente discussão sobre quem é judeu, e a consequente validade dos rituais oferecidos por comunidades judaicas que não sejam ortodoxas10.


As diferenças entre as variadas tradições cristãs tornam-se muito óbvias quando pensamos na forma em que igrejas de diferentes tradições cristãs recebem a novos membros. O padrão para que alguém seja aceito como membro da Igreja cristã é que tenha sido batizado, mas o que ocorre quando um cristão vindo de uma outra igreja cristã deseja juntar-se a uma tradição cristã diferente?


Para facilitar a compreensão, utilizemos o exemplo anterior na direção contrária: e, se por algum motivo, um católico romano quisesse juntar-se a uma igreja batista, o que seria exigido dele? Ele teria de ser batizado? Mas ele não já foi batizado antes? Por que teria de ser rebatizado? … As respostas a questões como essas podem parecer irrelevantes, mas elas dizem muito sobre nossa teologia – isto é, sobre o que pensamos sobre Deus, sobre Jesus, sobre a Bíblia, sobre a Tradição, sobre a Igreja etc –, além de terem um impacto real sobre a vida dos indivíduos cristãos, de suas famílias e da Igreja como um todo.


Há muitas razões históricas para que existam conflitos entre diferentes expressões da Igreja cristã, mas apontarei aqui pelo menos duas: [1] razões teológicas, ou seja, diferenças entre compreensões acerca da fé cristã; e [2] razões práticas – frequentemente litúrgicas –, ou seja, diferenças entre as formas como determinadas coisas são feitas na Igreja11.


Assim, se, no nosso exemplo, o batismo anterior dum cristão não é aceito para que ele se torne membro duma outra comunidade cristã – exigindo-se que ele seja rebatizado –, isso pode ser causado: [1] porque há diferenças claras entre compreensões sobre autoridade eclesiástica, ou sobre noções litúrgicas, ou sobre o sentido da fé cristã, ou sobre o papel da consciência no processo de se tornar um seguidor de Jesus Cristo etc; e, [2] frequentemente porque requisitos rituais não foram cumpridos para a comunidade receptora etc. Essas diferenças são reais e, infelizmente, criam barreiras para o cumprimento daquela oração atribuída a Jesus: “para que todos sejam um”12.


Levando em consideração essas questões teológicas que formam a base da discussão da identidade cristã, e meu próprio compromisso com o espírito ecumênico, identificarei como cristãs aqui todas aquelas tradições que se identificam explicitamente como igrejas cristãs. Incluirei nessa definição mesmo aquelas comunhões ou denominações que, geralmente, não são aceitas como cristãs pelas maiores igrejas cristãs – ou vice versa –, desde que preencham os requisitos mínimos que estabeleci no início deste capítulo.


Assim, aqui, o movimento dos “Santos dos Últimos Dias” (que inclui não apenas a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, mas também a Comunidade de Cristo e outros grupos menores), e o movimento dos “Estudantes da Bíblia” (que inclui os testemunhas de Jeová), por exemplo, encaixam-se na definição geral de igrejas cristãs. E, quando possível, darei informações sobre diferenças existentes na compreensão de diferentes grupos cristãos.


O que intenciono com isso é simplesmente enfatizar a diversidade daquilo que chamamos de Cristianismo – mas que prefiro pluralizar e chamar de “Cristianismos”. Para mim, a diversidade cristã é fonte de beleza e inspiração, e a Igreja seria espiritualmente mais pobre se em seu meio não se ouvissem vozes tão distintas. Como um cristão, minha oração é que, um dia, possamos todos sobrepujar nossas diferenças, podendo enxergarmo-nos mutuamente como membros duma mesma família de fé. Assim, apesar de poder discordar de muitas das perspectivas de outros cristãos, abraço-os como irmãos em Cristo e como co-andarilhos na senda cristã.


É importante, ademais, que eu esclareça algo relativo à minha própria experiência de fé. Por conta de minhas múltiplas heranças cristãs – sobre às quais falei no prefácio deste livro –, tendo a me ver religiosamente muito mais como “cristão” (isto é, de forma muito ampla) do que como membro duma tradição específica. Abraço as diferentes tradições que formaram minha compreensão da fé cristã como minhas, extraindo de cada uma delas aquilo que julgue me aproximar mais do Divino. Além disso, meu ministério eclesiástico é exercido no contexto duma “igreja unida”, isto é, duma comunidade que mantém laços com diferentes tradições cristãs. Assim, em minha experiência, é insuficiente dizer que sou um unitarista, um anglicano, um luterano, um restauracionista, ou mesmo protestante. Prefiro identificar-me simplesmente como um cristão, abrindo a possibilidade de agregar outros aprendizados àqueles que herdei de minhas múltiplas tradições cristãs.


NOTAS:



1 Atos dos Apóstolos 11:26b.
2 O termo igreja possui sentidos diferentes no vocabulário cristão. Além do sentido acima, o termo pode se referir, também, ao edifício utilizado por uma comunidade cristã específica como lugar de culto. Para que você compreenda o que quero dizer cada vez que utilizar o termo “igreja”, seguirei as seguintes regras: 1) Quando utilizar aqui o termo Igreja (com inicial maiúscula), estarei me referindo ao todo da comunidade cristã universal, independentemente da tradição ou denominação – a não ser que esteja citando o nome duma denominação cristã específica. Ex.: A Igreja compreende os seguidores de Jesus. (=a comunidade cristã universal) / A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil é a única denominação brasileira filiada à Comunhão Anglicana. (=nome próprio duma igreja específica); 2) Quando utilizar a palavra com inicial minúscula, estarei ou me referindo ao edifício de culto cristão ou a uma congregação cristã de forma mais geral. Ex.: Nesta cidade há muitas igrejas. (=edifícios de culto) / As várias igrejas católicas e protestantes daqui possuem muitos membros. (=congregações/comunidades cristãs).
3 Os termos ortodoxia e ortodoxo(a) possuem, ao menos, dois sentidos mais comuns. No capítulo anterior, apresentei um deles: o sentido de ortodoxia como a “crença correta”, com o adjetivo “ortodoxo(a)” relacionando-se a esse sentido (heresia é o antônimo desse primeiro sentido). Um segundo sentido frequente refere-se às formas de Cristianismo características das igrejas ortodoxas “orientais” da Grécia, da Rússia e de outras nações eslavas, por exemplo.
4 A Constituição, de 1948, do Conselho Mundial de Igrejas, por exemplo, afirma que aquela organização constitui-se das igrejas que “aceitam nosso Senhor Jesus Cristo como Deus e Salvador”. Esse é um tipo de definição ortodoxa muito específica do que seja ser cristão e Igreja ao qual muitos cristãos, e muitas comunidades cristãs, não estão dispostos a se submeter.
5 Como já esclareci antes, o termo heresia – e os adjetivos correlatos: herege e herético – são termos utilizados, na tradição cristã, para se fazer referência àquelas teologias ou práticas que não sejam ortodoxas. Heresia é antônimo de ortodoxia.
6 Ao longo deste livro, utilizo o termo “comunhão” com dois sentidos básicos: 1) para referir-me a um sacramento cristão – utilizando, para tanto, a inicial maiúscula – , ao qual posso referir-me também como “Santa Comunhão” ou “Eucaristia”, e que alguns protestantes chamam “Santa Ceia” ou “Ceia do Senhor”; e, 2) para referir-me a uma tradição cristã específica, por exemplo: A Comunhão Anglicana é formada por todas aquelas igrejas nacionais que mantêm laços com o Arcebispo de Cantuária, líder da Igreja da Inglaterra. / A Federação Luterana Mundial é a maior comunhão de igrejas luteranas no mundo.
7 A maioria, talvez, dos batistas brasileiros chamem-na de Ceia do Senhor ou Santa Ceia. Ademais, na tradição batista não há “sacramentos”, há “ordenanças”.
8 Tratarei sobre os Sacramentos cristãos num outro capítulo, mas vale adiantar que, nas tradições católicas e ortodoxas, eles são sete (o Batismo, a Confirmação, a Eucaristia, a Penitência, a Unção dos Enfermos, a Ordem e o Matrimônio); enquanto para as tradições protestantes sacramentais eles são apenas dois (o Batismo e a Comunhão).
9 A questão de validade ritual é complexa demais para ser tratada aqui, extrapolando as intenções deste livro.
10 O conceito de ortodoxia no Judaísmo, obviamente, segue critérios diferentes daqueles praticados no Cristianismo.
11 Devo ressaltar que alguém que esteja observando a questão a partir duma perspectiva externa à Igreja poderia enfatizar como razão principal para esses conflitos aspectos políticos – questões de “poder” –. Apesar de eu reconhecer o mérito de tal perspectiva (defendida por muitos cientistas sociais, historiadores, filósofos etc), compreendo-a como deveras reducionista, por não levar em consideração o fato de as relações eclesiásticas fundamentarem-se sobre compreensões teológicas, que se revelam muito mais complexas do que disputas por “poder”. Essas compreensões teológicas funcionam como bases identitárias de fé.
12 João 17:21.




FONTE:


COSTA, Gibson da. Redescobrindo o Cristianismo: uma confissão pessoal da fé cristã. New York, EUA: Edição do autor, 2014. p.37-49.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Páscoa 2014: Nascimento, Morte, Ressurreição e a Coreografia Pascoal


A tradição cristã é, para mim, uma multiplicidade de narrativas de nascimento, morte e ressurreição. Isso fica muito claro quando pensamos naquelas duas datas mais importantes do calendário cristão, o Natal e a Páscoa, e como elas moldam o mover da fé cristã na coreografia da relação entre o Divino e nós, e entre nós e o resto da criação. A entrega à linguagem metafórica do nascimento, morte e ressurreição de Cristo em celebrações como o Natal e a Páscoa é um exercício espiritual importante para cristãos liberais como eu, geralmente vistos apenas como questionadores das narrativas cristãs ditas “ortodoxas”.

Em minha compreensão, a jornada cristã é um caminho de nascimento, morte e ressurreição que se repete continuamente na vida daquele que se compromete com o Caminho. E as diferentes interpretações cristológicas, das mais variadas tradições cristãs, incorporam essa metáfora do nascimento, morte e ressurreição em sua linguagem teológica. Em minha própria experiência, nossa jornada cristã pode ser deveras enriquecida se dermos ouvidos a essas diferentes narrativas.

Assim, numa compreensão mais “ortodoxa”, Deus toma sobre si nossa humanidade por meio da Encarnação – na pessoa de Jesus Cristo –, sofre e dá sua vida em favor da Criação, e, em seguida, ressuscita; e esse movimento garante uma companhia salvadora, isto é, o sofrimento de Cristo não elimina o nosso sofrimento, mas torna-se uma via por meio da qual podemos caminhar em meio ao sofrimento, com ele como nosso companheiro. Sua morte e ressurreição, nessa narrativa, torna-se nossa libertação do temor, já que o amor é mais forte que o ódio, e a vida mais poderosa que a morte. É por isso que, nessa narrativa, é tão essencial a afirmação duma ressurreição física do Cristo – ou seja, Jesus Cristo ressuscita dentre os mortos não apenas espiritualmente, mas fisicamente.

Numa outra compreensão, que alguns chamariam “herética”, mais associada à minha própria tradição teológica liberal, a narrativa do nascimento, morte e ressurreição de Cristo tem uma ligação com a própria relação entre a humanidade e o Divino. A Encarnação divina sempre ocorre na vida humana, e o encontro humano com o Divino exige um contínuo ciclo de morte para aquilo que nos separa de Deus – isto é, “nossa própria arrogância, egoísmo e ódio”, como rezamos em nossa celebração eucarística –, e a ressurreição ocorre “quando nossas almas despertam da morte espiritual para se unirem à comunidade de amor, para entrar no reino divino aqui mesmo neste mundo”.

Essas duas narrativas apontam para dois aspectos do Caminho cristão. O próprio Deus ensinou-nos a coreografia da existência, rendendo-se à sua própria trajetória de vir, ir-se e levar-nos consigo. Nós, seguindo seu caminho, adentramos o mundo, trazendo conosco a centelha divina; somos chamados a sepultar aquelas coisas que impedem o movimento divino em nossa própria vida (nossa “arrogância, egoísmo, e ódio”); e somos revividos para uma vida na qual possamos trazer o divino para o nosso relacionamento conosco mesmos, com outras pessoas e com o todo da Criação. E o ciclo de repetições do calendário cristão nos ajuda a lembrarmos que precisamos, metaforicamente, morrer novamente para que um novo “eu” ressurja. E essa é uma dança que não podemos dançar sozinhos. Precisamos da companhia de Deus e de outras pessoas nessa coreografia.

Portanto, minha oração nesta Páscoa é que possamos nos lembrar que não podemos dançar com Deus solitariamente. A Trindade pascoal, para mim, consiste na relação entre o Divino, nosso próximo e nós mesmos. A coreografia pascoal é dançada em trio: Deus, a Criação e a humanidade.

As celebrações pascoais na Igreja e em nossas casas é bela e doce, mas não está completa se houver pessoas solitárias e famintas lá fora. Não estaremos dançando a coreografia pascoal se conscientemente não convidarmos à nossa dança outras pessoas; se não encarnarmos em nossas ações aquela hospitalidade ensinada por Jesus de Nazaré. E hospitalidade não significa esperar que outros se tornem como nós para que se sentem à nossa mesa – ou seja, não significa que outras pessoas devam se converter à minha fé, ou falar minha língua/sotaque, ter minha nacionalidade ou cor, professar minhas crenças filosóficas ou políticas, ter as mesmas (des)vantagens socioeconômicas que eu, etc; hospitalidade cristã significa, simplesmente, estar com nossa mentes, mãos e corações abertos para absolutamente todos.

Que possamos, metaforicamente, morrer e ressuscitar nesta Páscoa, e que o novo “eu” que ressurgir de nossas cinzas possa encarnar o espírito de Jesus, com seu amor incondicional a todos, absolutamente todos, como nos ensina a tradição.

+Gibson

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Minha Mensagem de Páscoa


Frequentemente, quando falamos acerca das grandes tradições religiosas mundiais, tendemos a unificar cada uma delas, como se fossem grandes blocos maciços. Assim, nos referimos ao Cristianismo como se este fosse uma coisa única, como se pudéssemos listar características que definem o Cristianismo e que devem ser subscritas por todos aqueles que desejam ser reconhecidos como cristãos.

Infelizmente, esse não é um equívoco cometido apenas por aqueles que olham para as tradições religiosas – e especificamente para o Cristianismo – a partir de fora, ou apenas em nossas conversas informais. Esse equívoco é cometido dentro do próprio corpo de fiéis cristãos que formam aquilo que chamamos de Igreja (num sentido bem largo e amplo para o termo, o sentido que geralmente dou a ele). Na história cristã encontraremos repetidos esforços para a definição do que vem a ser o “verdadeiro” Cristianismo e de quem são os “verdadeiros” cristãos; e, obviamente, todas as vezes que encontramos declarações do que seria a “verdadeira” fé cristã, necessariamente encontramos lá uma cerca de exclusão – um sistema de renúncia de fraternidade àqueles que pensam diferentemente de nós.

Chamo essa atitude exclusivista para com aqueles cristãos fiéis que pensam de maneira diferente de “equívoco” porque acredito plenamente que isso fere o espírito do Evangelho. Para mim, não há um Cristianismo; há Cristianismos. É só pensar nas várias tradições que formam a Cristandade: a Ortodoxia Oriental, o Catolicismo Romano, o Luteranismo, o Anglicanismo, a tradição Reformada – em suas mais diversas formas, o Anabaptismo, o Quaquerismo, o Unitarismo, o Restauracionismo, e tantas outras formas de Cristianismo. Cada uma dessas peças do grande tabuleiro que forma a tradição cristã tem sua própria compreensão do que é ser cristão e de qual seja a ênfase da mensagem cristã. Cada uma delas e, consequentemente, cada um dos indivíduos que delas são parte, é fiel ao chamado de Cristo de sua própria maneira, e moldados por suas próprias compreensões e convicções.

Para algumas dessas tradições cristãs, é essencial crer que as palavras dos credos históricos da Igreja cristã representem uma verdade factual, objetiva. Assim, quando alcançamos essa época do Ano Cristão, quando celebramos a Páscoa – compreendida pela maioria dos cristãos como uma celebração da vitória de Cristo sobre a morte por meio de sua ressurreição dentre os mortos –, essas tradições enfatizam em suas liturgias o poder transformador da fé intelectual, da fé enquanto assensus (assentimento, aceitação, crença).

Considero esse aspecto da fé – o assensus – como muito importante, especialmente se o aliarmos ao seu lado prático (nossas ações), que a Carta de São Tiago, por exemplo, afirma ser condição essencial para a validade da mesma (Tiago 2:17). Contudo, não compreendo esse aspecto intelectual da fé como sendo mais importante que o espírito de comunhão ensinado, de acordo com os registros dos autores dos Evangelhos, pelo próprio Jesus. Assim, para mim, minha fé só está viva se posso encontrar um assento para meu próximo em minha mesa; só é válida se for capaz de alargar meu círculo de irmandade também para aqueles que acreditam de forma diferente, ou que não acreditam de forma alguma.

Não posso deixar de pensar em Martinho Lutero como uma de minhas primeiras inspirações para essa compreensão. Ele ensinou que a diferença entre a Lei e o Evangelho era a seguinte: a Lei nos diz o que fazer, e o Evangelho nos diz o que Cristo faz. Apesar de eu ter um problema com esse tipo de discurso que parece identificar a tradição hebraica (a Lei) – de onde saiu o “Evangelho”, devo enfatizar –, como uma forma de legalismo incompassivo (noção essa que considero, no mínimo, equivocada), ele esclarece muito aquilo que acredito ser o cerne da mensagem cristã: eu, enquanto ministro cristão, não posso (ou não devo) pregar o que os cristãos devem fazer ou acreditar, já que isso seria pregar a “Lei” – na compreensão de Lutero, sequer devo exigir que se acredite, mesmo no Evangelho; o que posso e devo fazer, é simplesmente proclamar aquilo que Jesus (supostamente) disse e fez, e esperar que essa narrativa se transforme em assensus no coração daquele que ouve.

Como um unitarista, não estou tão preocupado com se meus ouvintes acreditarão ou não em minhas palavras acerca de Jesus. Na verdade, é muito mais comum que, assim como eu, suas mentes sejam um tanto endurecidas para o aspecto assensus da fé. Mesmo assim, vos direi como entendo essa data tão importante para a tradição cristã – a Páscoa:

Em minha compreensão da mensagem de Jesus e de seus discípulos, a morte e a ressurreição desempenham o papel mais importante da linguagem do Evangelho. Esses termos, quando combinados, possuem uma força metafórica inerente à narrativa cristã. Na narrativa sobre o próprio Jesus, ele morre e em seguida volta à vida (de forma gloriosa), e, assim, torna-se o modelo daquilo que acontecerá com os que ouvirem sua voz. Nós também podemos morrer e, em seguida, voltarmos a viver. Devemos morrer para tudo aquilo que nos separa do Divino – o ódio, a cobiça, a não-compaixão, a servidão, o temor, o descuido para com o próximo e para com a criação, a falta de integridade, o exclusivismo, a noção de superioridade espiritual ou seja lá qual for, etc –, e permitir que Jesus (ou qualquer outro ou outra que possa nos ajudar a experienciar o Caminho) nos mostre o Caminho que nos levará de volta à vida – compaixão, caridade, misericórdia, justiça, amor, hospitalidade, etc. Essa nova vida é a Ressurreição que celebro nesta data. A Ressurreição de Cristo, que não posso garantir que tenha ocorrido enquanto evento histórico, é uma metáfora da ressurreição que Deus – aquele Mistério inominável e tremendo – opera em meu coração e mente todas as vezes que me abro para recebê-lo. E essa ressurreição, e a nova vida que ela traz, está aberta a absolutamente todas as pessoas: o que inclui crentes e descrentes, ateus e agnósticos, homens e mulheres, heterossexuais e homossexuais, ortodoxos e hereges (como eu)... essa, para mim, parece ser a mensagem de Cristo; esse, para mim, é o Evangelho; esse é o meu Cristianismo! Não se trata de apenas uma crença intelectual, é uma opção de vida, é um estado de espírito!

Feliz Páscoa! Bençãos a todas e todos!

+Gibson