.

.
Mostrando postagens com marcador homossexualidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador homossexualidade. Mostrar todas as postagens

domingo, 25 de outubro de 2020

Sexualidade, orientação sexual, identidade e espiritualidade

Nós, seres humanos, somos animais sociais e, ao mesmo tempo, relativamente conscientes de nossa individualidade. Carregamos em nós o peso do que herdamos biológica e socioculturalmente, e – graças ao que aprendemos em nosso meio sociocultural – construímos percepções individuais sobre a realidade da qual somos parte. Assim, não somos nem plenamente resultado do meio, nem plenamente autônomos. Somos seres complexos, resultantes duma combinação de herança e de criatividade.


Por conta dessa complexidade, individualmente, não somos “definíveis” como apenas uma coisa. Somos várias coisas ao mesmo tempo: emotivos, inteligentes, espirituais, sexuais etc. Assim, não penso que possamos ser definidos – porque a definição implica uma limitação/circunscrição – unicamente como heterossexuais, homossexuais, bissexuais etc. Cada um de nós é muito mais do que uma descrição de por quem nos sentimos emocional e sexualmente atraídos ou com quem nos relacionamos.


Pessoalmente, nunca gostei dessas adjetivações identitariamente sexualizadas, não porque me envergonhe de mim mesmo, não porque alimente discriminação contra a sexualidade alheia, mas, simplesmente, porque sou muito mais do que apenas um ser sexual. Minha sexualidade não me define – ela é apenas um dos vários elementos que constituem minha personalidade.


Sempre acreditei que, no caso das minorias – apesar de identidades serem importantes para a construção de laços comunitários –, as identidades impostas também servem como instrumentos de discriminação opressora e, consequentemente, como instrumentos de exclusão. Assim, pessoalmente, ser identificado como mizrahi-sefardi, desi, mestiço, gay, ou sei lá mais o quê, diz mais sobre como outros me enxergam do que como eu mesmo me compreendo.


Muitos adolescentes e adultos jovens gays, quando passam pela experiência de “sair do armário”, frequentemente encaram sua sexualidade como o aspecto mais importante de sua personalidade. E isso ocorre, dentre tantas razões, por conta de sua própria descoberta tanto da sexualidade em si quanto da discriminação socialmente associada à homossexualidade – assim como do senso de pertencimento que uma identidade pode oferecer. À medida que se fica mais velho, e se tem mais experiências na vida, aquele adolescente ou adulto jovem pode perceber que aquela definição identitária sexualizada não é suficiente para “definir” sua personalidade – se é que uma personalidade pode ser definida.


A maturidade pode nos mostrar que, além de sexuais, somos seres políticos, somos seres intelectuais, somos seres emotivos, somos seres artísticos, somos seres que carregam todos esses elementos como pequenos tijolos que dão forma ao edifício que é nossa pessoa individual – pessoa esta que, apesar de individual, é moldada num contexto social/coletivo. Isto é, somos únicos e ao mesmo tempo multidão; e essa unidade-multidão também é moldada pela outra “multidão” a partir da qual surgimos como seres humanos.


Minhas atuações – como Ministro de religião ou como professor – têm estado comprometidas com o dogma básico de minha religião, que é a afirmação do valor e da dignidade de cada ser humano e de toda a humanidade. Esse dogma é o meu padrão filosófico e político para minhas relações sociais. O ser humano – enquanto multidão e enquanto individualidade –, em toda a sua diversidade e complexidade, tem um valor e uma dignidade que devem ser honrados e respeitados. E esse valor e dignidade independem de cor, sexo, gênero, orientação emotiva/sexual, aparência, classe/status social, ocupação, ou qualquer coisa que o indivíduo/coletividade tenha feito.


Minha fé está firmemente enraizada nessa convicção. Não em deuses. Não em entes sobrenaturais. Mas no ser humano – em seu valor e em sua dignidade. É só nesse contexto que ouso utilizar a metáfora “Deus”. Minha eticidade está enraizada na tradição filosófica que afirma o ser humano como fim, não como meio.


Assim, não há lugar, em minha visão de mundo, para [auto-]ódio baseado em orientação emotiva/sexual. Não há lugar para negar a outro ser humano sua humanidade em nome dum fantasioso deus que espelha nossos próprios preconceitos. Dessa forma, a ética sexual tem a ver com a dignidade humana, não com as supostas maldições de deuses. O respeito ao valor, à dignidade e à liberdade (na forma da autonomia consciente) do ser humano e de cada indivíduo é o que, em minha visão, deve guiar a forma como lido com a sexualidade, assim como com qualquer outro tipo de relação entre seres humanos. Pouco importa a cor da pele, a nacionalidade, a língua, a identidade de gênero ou a orientação emociono/sexual.


+Gibson


quinta-feira, 16 de junho de 2016

Cristianismo e violência homofóbica: respondendo a algumas provocações



“… se aperfeiçoem na prática da hospitalidade.” (Romanos 12:13)


Serei duro em minha resposta a algumas provocações que tenho recebido. Em hipótese nenhuma é minha intenção ferir qualquer um de meus leitores ou leitoras. Mas, a honestidade, às vezes, exige um tanto de rigidez.

Sim, é verdade que há muita falta de compaixão por parte de algumas igrejas e alguns fiéis cristãos para com diferentes grupos ou indivíduos que não se encaixem em suas expectativas. Essa falta de compaixão é, em minha compreensão teológica, pecaminosa, já que trai o espírito da mensagem do Evangelho.

Sim, é verdade que muitos indivíduos LGBT se sentem excluídos da comunidade cristã por conta da falta de compaixão de alguns que se declaram cristãos. Isso, para mim, é triste e inaceitável. Não acredito que pessoas tenham de mudar sua personalidade para sentirem-se respeitadas e protegidas enquanto seres humanos. Isso é algo que elas merecem pelo simples fato de serem humanas e de, na tradicional linguagem cristã, serem filhos e filhas de Deus.

Crer nisso, proclamar isso e viver isso, entretanto, não significa dizer que comunidades de fé (igrejas) não possam fazer exigências comportamentais de seus adeptos. Elas têm esse direito. A vida em comunidade só é possível sob acordos entre seus membros e, no caso de comunidades de fé, esses acordos baseiam-se sobre uma tradição teológica comum – partilhada se não por todos, pelo menos pela maioria.

Quando uma comunidade de fé, de qualquer tradição, acredita e ensina uma certa compreensão da sexualidade humana e das relações maritais que declare práticas homoafetivas como “pecaminosas”, ela não está, com base apenas nisso, sendo “homofóbica” ou cúmplice de “homofobia”. Está, apenas, vivendo suas próprias regras.

Em minha compreensão – e todos vocês sabem a partir de que posição falo nesse conflito –, e na compreensão da lei, a vida religiosa baseia-se, dentre tantas outras coisas, na voluntariedade. Em outras palavras, você só faz parte duma comunidade de fé à qual você queira se juntar. E essa – seja lá qual for – só recebe aqueles a quem queira receber. Uma igreja não é uma loja que venda “Deus” ou a “salvação – ou, pelo menos, não deveria ser –, é, antes, uma comunidade de fiéis.

Assim, mesmo eu sendo quem sou, e mesmo eu crendo no que creio no tocante ao valor e à dignidade humanos, não posso aceitar acusações generalizantes e falsas acerca de pessoas que não pensam como eu. Apesar de, para mim e para minha tradição de fé, a homossexualidade não ser um “pecado”, como o ensinam tantos outros cristãos, dizer que seja e exigir um comportamento “moral” que se afaste de “desejos e práticas homossexuais” não é sinônimo de “homofobia” – é, no máximo, sinônimo de ignorância e preconceito; mas se vamos falar sobre “ignorância” e “preconceito”, também deveremos falar sobre esses dois elementos na visão, declarações e comportamentos de certos ativistas.

Não é verdade que “todas as igrejas cristãs condenam a população LGBT ao inferno”. Na verdade, nem todas as igrejas cristãs pregam sobre o mito do “inferno” – algumas estão ocupadas demais pregando as boas novas de Jesus para se preocuparem com “o diabo”. Para nós, Deus é suficiente; não precisamos do diabo ou do inferno para nos preocuparmos com o serviço ao próximo e com a construção do Reino de Deus aqui e agora.

Sim, é verdade que as igrejas e movimentos mais belicosos no tocante a temas “delicados” como esse são as que têm maior audiência nos meios de comunicação. São elas que aparecem nos noticiários, que têm programas de TV, que vendem revistas nas bancas, e que elegem os tipos de legisladores de certas “bancadas” do Congresso. Elas, contudo, não são “o Cristianismo” – elas são uma parte apenas (a mais poderosa no Brasil atual, mas apenas uma parte).

O Cristianismo é multiforme e polifônico, assim, é injusto acusar-nos todos como coparticipantes duma visão teológica específica. Fazê-lo é não apenas reflexo de desinformação deliberada: é uma desonestidade imoral.

Aos que acreditam na retórica da não compaixão absoluta da Igreja cristã para com qualquer tipo de pessoa, convido-os a procurar com mais cuidado e atenção. Se de fato quiserem ser parte duma comunidade de fé onde possam se sentir bem-vindos, tenho certeza que encontrarão esse lugar. Só não se esqueçam de que da mesma forma como querem ser livres e ser respeitados, outras pessoas que, talvez, pensam de forma diferente da sua também o querem. É uma via de mão dupla! É o preço de construir comunidade!

Se precisar de ajuda em sua busca, ficarei feliz em ajudá-lo(a)!

Sinceramente,

Rev. Gibson da Costa

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Deus, Cristianismo, Inferno, Homossexualidade: Uma breve resposta a múltiplas provocações das últimas semanas



Infelizmente, por razões pessoais, tenho tido pouco tempo para responder à maioria das mensagens das últimas semanas. Por essa razão, responderei aqui, de forma breve e conjunta, a algumas das “provocações” de meus correspondentes. Assim que tiver tempo, oferecerei uma resta mais ampla. Perdoem-me pela brevidade.





Deus e Cristianismo



Como um cristão, encontro minha “janela” ou meu “caminho” para Deus na tradição cristã (na comunidade da Igreja, nas Escrituras, na Liturgia, na narrativa cristã, etc). Mas o Cristianismo é a resposta humana à Realidade que chamamos “Deus”, e não o contrário. Eu sou cristão, mas isso não significa que Deus seja cristão!





O Inferno



Não acredito na existência dum lugar objetivo para onde espíritos sejam enviados como condenação por seus pecados. O “inferno”, em minha visão, é uma metáfora para um estado espiritual/mental de alguém. Não se trata dum espaço geográfico no Universo. A crença na existência dum “inferno” físico contradiz minha compreensão acerca do Divino e da natureza do Universo.





Igreja e Homossexualidade



Tenho uma filosofia muito simples para resolver essa questão de compatibilidade: qualquer comunidade de fé é uma sociedade humana, com suas tradições e regras. Se você quiser fazer parte dessa sociedade, terá de se submeter às suas regras. Caso contrário, pode não ser membro de qualquer uma, pode buscar uma outra sociedade ou, quem sabe?, fundar sua própria.



Se uma determinada comunidade de fé ensina que isso ou aquilo é pecaminoso e que a punição pela "desobediência" às regras seja sua exclusão, você tem a escolha de se submeter às regras da mesma ou não – mas não terá poder para escolher as consequências por suas escolhas, no que tange à comunidade em si. Lembre-se que a filiação religiosa é uma associação voluntária, ou seja, ser membro duma comunidade de fé é voluntariamente se submeter às suas regras. Você não pode esperar que uma comunidade mude em função de você se isso contraria à compreensão que ela tem de si mesma. Mas você, por outro lado, pode encontrar uma outra comunidade!... Fazer esse tipo de escolha pode ser complicado e doloroso, mas é uma escolha justa para com os demais membros duma comunidade que não o aceite e íntegra consigo mesmo!





Ainda sobre Homossexualidade



Para mim, as pessoas são “humanas” (e tudo o que isso implica no contexto teológico e sociocultural) antes de serem qualquer outra coisa. As identidades que ou abraçamos ou nos são impostas – sejam as identidades nacionais, religiosas, políticas, ou emotivo-sexuais – são apenas partes dum todo muito maior. Nós somos muito mais do que essas partes separadas – e mais do que sua soma. Assim, tratar de si próprio ou de outra pessoa como se sua orientação emotivo-sexual fosse sua “essência” é negar a si próprio ou a outrem sua humanidade – que, na perspectiva teológica que abraço equivaleria a negar nossa origem na “dança divina” da Criação.





+Gibson