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quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Céu, inferno, vida após a morte?


Um dos problemas mais presentes na vida de qualquer ministro religioso e professor de Teologia, como eu, é o problema da morte. Isso porque a morte, mais até do que o nascimento, se faz presente na vida de qualquer família, de qualquer comunidade, e a religião sempre serviu como uma forma de lidar tanto com o mistério como com a dor da morte.

Frequentemente me perguntam se acredito em vida após a morte – se acredito em "céu" e "inferno" –, e alguns dos que me questionam parecem se perturbar ou surpreender com o fato de eu, mesmo sendo um ministro religioso, dizer que o assunto me é indiferente. Hoje, gostaria de responder a alguns questionamentos feitos por um leitor de São Paulo – que, infelizmente, não assinou sua mensagem, mas indicou sua cidade.

Realmente, não me importo com questões referentes a uma suposta vida após a morte (o que inclui temas como “céu” e “inferno”). Minha tradição religiosa tende a se centrar numa ética [judaico]cristã, e não em dogmas teológicos sobre temas específicos. Assim, minha preocupação religiosa é com a vida, com as relações humanas e com a Criação, relações através das quais encontro o Divino (Deus). Meu Cristianismo está focado na prática duma eticidade ensinada nas Escrituras: amor ao próximo – através do qual se demonstra amor a Deus –, serviço, compaixão, perdão, a construção do “shalom” de Deus aqui e agora.

Tendo a encarar “céu” e “inferno” não como realidades objetivas, mas, antes, como metáforas que apontam para esperanças e/ou desesperos humanos. São parte duma linguagem teológica que reflete uma visão de mundo que não se concilia com minha compreensão do Universo. Por isso, são temas que não me interessam – com os quais não gasto meu tempo (a não ser que seja para discutir a história desses conceitos, como se desenvolveram e se tornaram parte do repertório teológico cristão).

O que ocorre após a morte não pode ser conhecido por nós – pode, apenas, ser especulado. E, entre especular sobre algo que não pode ser desvendado e saber como lidar com o conhecível, prefiro este último. Quando nos centramos em reflexões teológicas acerca da vida em sociedade, acerca de como nos relacionarmos com a Criação, sobre como a prática religiosa pode contribuir para construir paz e justiça no mundo agora, isso é saber lidar com o conhecível (aquilo que temos a capacidade de conhecer).

Portanto, se alguma vez eu falei/escrevi sobre “céu” ou “inferno” – o que não me lembro de ter feito até hoje, a não ser em estudos históricos –, o fiz unicamente em linguagem metafórica, simbólica, provocadora, e não como uma realidade objetiva.

Alguém poderia apontar trechos da Bíblia nos quais são feitas referências ao “céu” ou “inferno”. É verdade, estão lá. Mas, para minha tradição, Bíblia e Cristianismo não são sinônimos. A Bíblia é (apenas) uma das fontes teológicas do Cristianismo; além dela, temos a Razão, a Tradição e a Experiência. Quando analiso o tema na Bíblia à luz das demais fontes teológicas, o considero irrelevante.

Além disso, é importante ressaltar que não há, no Novo Testamento cristão, nenhuma visão coerente e amplamente compartilhada em todos os escritos sobre “céu” ou “inferno”. O que podemos encontrar são apenas pequenos fragmentos duma descrição do que seriam esses dois; não há nenhuma passagem longa onde “céu” ou “inferno” sejam descritos de forma clara e dogmática. A visão cristã da vida pós-mortal se desenvolveu a partir do contato entre o judaísmo rabínico, dos escritos canônicos cristãos, e da cultura greco-romana – e é por isso que é mais ampla a preocupação com o tema por parte dos Padres da Igreja do que dos próprios escritos canônicos do Novo Testamento.

Isso explica porque há compreensões tão distintas sobre o que acontece após a morte em cada uma das tradições cristãs do mundo. Cristãos ortodoxos, católicos romanos, luteranos, reformados, anglicanos, unitaristas, universalistas, restauracionistas, pentecostais, etc, abraçam visões diferentes sobre o que acontece após a morte e como. E essa variação de visões tem existido desde a origem do(s) Cristianismo(s).

Por essas e por outras razões, não posso afirmar absolutamente nada sobre uma suposta vida pós-mortal. Pessoalmente, não me preocupo com isso; não é um tema “essencial”. Isso não me torna uma pessoa “sem esperança” ou “perdido”. Para mim, é suficiente crer que a vida dos que morreram, de alguma forma, continua na terra. É nesse sentido que a vida pós-mortal funciona como uma metáfora. Acreditar que irei para o céu ou o inferno não influenciaria em absolutamente nada a minha vida: minha compreensão de Deus, de ética, da teologia cristã, da minha relação com os demais seres humanos e com a Criação, da dignidade e valor humanos é o que guia minhas ações – não uma [des]crença em punição ou recompensa eternas.

Respeito a opinião dos que aceitam esses aspectos especulativos da teologia cristã, mas, para mim, eles não possuem nenhuma relevância para minha relação com o Divino e/ou com o mundo social.

+Gibson

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A Páscoa e o Caminho de Jesus: o caminho do amor, da justiça, do serviço, do perdão, da compaixão, da paz


Como um cristão, partilho com outros cristãos a centralidade de Jesus para minha compreensão da dimensão espiritual da existência e de minha relação com Deus. Como um cristão liberal, contudo, enfatizo outros aspectos da narrativa cristã acerca da vida de Jesus de Nazaré: para mim, Jesus é Salvador por conta de seus ensinamentos, de seus exemplos e de sua convocação para vivermos uma vida de compaixão, serviço, amor e paz radicais – ou seja, ele é meu Salvador por causa de sua vida, e não por causa de sua morte. É vivendo como ele – independentemente de os relatos a seu respeito serem factuais ou não – que somos salvos, e não apenas fazendo um esforço intelectual para acreditar em certas coisas a seu respeito.

Somos ensinados a encontrar Jesus e servir a Deus no mundo. Esse ensinamento é repetido todas as vezes em que saímos das celebrações da Eucaristia, quando recitamos aquela benção final – que, pessoalmente, levo muito a sério:


Cristo nasce em nós quando abrimos nossos corações à inocência e ao amor. Cristo vive em nós quando caminhamos a senda do perdão, da reconciliação e da compaixão. Cristo morre em nós quando nos rendemos à nossa própria arrogância, egoísmo e ódio. Cristo ressuscita em nós quando nossas almas se despertam da morte espiritual para se juntarem à comunidade de amor, para entrarem no reino divino no meio do mundo. Saiamos em paz. Amém.


Essas palavras sempre tiveram um poder incrível para me fazer refletir sobre o sentido de minha fé. Elas me relembram que minha fé deve ser expressa por meio de minhas ações, em minha vida com outras pessoas. Elas refletem aqueles dois pequenos trechos da Carta de Tiago, que aprendi a amar ainda na adolescência:


Se alguém pensa que é religioso e não sabe controlar a língua, está enganando a si mesmo, e sua religião não vale nada. Religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em aflição, e manter-se livre da corrupção do mundo. (Tiago 1:26-27)

Assim também é a fé: sem as obras, ela está completamente morta. (Tiago 2:17)


A fé dos seguidores de Jesus, o Cristo, é a fé que deve se materializar no mundo real, dentre outros seres humanos e com toda a Criação. Se é verdade que os seres humanos são “imagem” de Deus, então não há como servirmos a Deus sem servirmos aos outros seres humanos; se os seres humanos foram feitos “à imagem e semelhança” de Deus, então não há como amarmos ao Deus invisível sem amarmos aos seres visíveis, como bem nos ensina aquele trecho neotestamentário:


Se alguém diz: “Eu amo a Deus”, e, no entanto, odeia o seu irmão, esse tal é mentiroso; pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê. E este é justamente o mandamento que dele recebemos: quem ama a Deus, ame também o seu irmão. (1 João 4:20-21)


Apesar disso parecer uma simplificação do que é ser um discípulo de Jesus, posso afirmar – por experiência própria – que é o maior desafio que se pode enfrentar. Ser seguidor de Jesus significa, nesse contexto, tomar o seu “hodos” – o seu “caminho”, a sua “via” (em grego). Significa rejeitar tudo e todos os que oferecem um caminho paralelo que nos afaste desse “hodos” de Jesus.

Assim, nossa liturgia, novamente nos mostra que caminho é esse que nos comprometemos a trilhar quando nos tornamos parte da comunidade cristã – a Igreja. As promessas que fazemos na Aliança Batismal rezam:


Você permanecerá nos ensinamentos dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações?
Sim, com a ajuda de Deus.

Você perseverará na resistência ao mal e, sempre que pecar, se arrependerá e retornará ao Senhor?
Sim, com a ajuda de Deus.

Você proclamará, por meio de palavras e exemplo, as Boas Novas de Deus em Cristo?
Sim, com a ajuda de Deus.

Você buscará e servirá Cristo em todas as pessoas, amando o seu próximo como a si mesmo?
Sim, com a ajuda de Deus.

Você defenderá a justiça e a paz para todas as pessoas, e respeitará a dignidade de cada ser humano?
Sim, com a ajuda de Deus.


Com essas palavras, nos comprometemos a seguir o caminho de Jesus, ao mesmo tempo em que reconhecemos que não somos capazes de fazê-lo sozinhos. Afirmar que o faremos “com a ajuda de Deus” é afirmar que essa ajuda nos é concedida em comunidade, na “comunhão” da comunidade de fé – mas também na comunhão de todas aquelas pessoas que igualmente se comprometem a servir, a cuidar e a defender outros seres humanos.

E o que isso significa, no mundo real? Significa muitas coisas. Se olharmos para o mundo ao nosso redor, e nos lembrarmos das promessas que fizemos quando fomos batizados ou confirmados, e que reafirmamos todas as vezes que partilhamos da Eucaristia/Santa Comunhão, saberemos o que devemos escolher.

Será que virar as costas aos desempregados e mais pobres, supostamente em defesa da economia de mercado, está plenamente de acordo com as promessas que fizemos na Aliança Batismal ou com as passagens das Escrituras que falam sobre o amor e o cuidado para com o próximo?

Será que defender o direito ao porte de armas, apoiar guerras, expor ideias racialistas/racistas, fechar as fronteiras aos mais fracos, submeter-se a ideologias nacionalistas, dar voz à xenofobia, manifestar homofobia, ou discriminar pessoas por quaisquer outras razões está de acordo com os ensinamentos de nossa fé e com a Aliança que fizemos com Deus e com nossa comunidade de fé?

A única resposta que posso encontrar para essas perguntas é um retumbante “Não!”. Nenhuma ideologia política, nenhuma nação, nenhum partido, nenhuma organização (incluindo a própria igreja institucional), nenhuma religião, nenhuma etnia, nenhuma cor de pele, nenhuma orientação emotivossexual, nenhum sistema econômico, nenhum interesse corporativista, etc, é mais importante do que o ser humano e a Criação – que são a “imagem” de Deus.

Se isso soa político demais ao seu ouvido, resta-me reafirmar que a fé cristã é uma fé política. Ela só pode ser praticada em comunidade. Por isso ela é política. Os ensinamentos sobre amar ao próximo só podem ser materializados em nossas relações, na Igreja e no mundo. E todos os que ensinam algo que contradiz esse ensinamento básico da fé cristã, de amor e serviço ao próximo, só podem estar errados – ou, do contrário, eles estão certos e as Escrituras e a tradição cristã estão erradas!

Minha oração é que nesta Páscoa nos lembremos do “caminho” de Jesus. Que nos recordemos das promessas que fazemos na Aliança Batismal. Que nos lembremos que não podemos, coerentemente, “servir a dois senhores” opostos.

Deus nos ajude a seguirmos o caminho do Nazareno: o caminho do amor, da justiça, do serviço, do perdão, da compaixão, da paz.

Feliz Páscoa e bençãos a todas e todos!

+Gibson


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Deus, criacionismo e outras polêmicas: uma resposta a provocações recentes – Parte 1



Pensar sobre Deus não é um substituto para a experiência com Deus, e falar sobre Deus não é um substituto para o oferecimento às pessoas de maneiras de experimentar Deus. (Matthew Fox)


Recentemente, tenho recebido, como resposta à prédica “Por que ‘Deus’ não é Deus?”, centenas de mensagens, tanto de pessoas que estavam presentes ao evento quanto de pessoas que simplesmente reagiram ao título (sem, de fato, terem ouvido uma única palavra do que disse). Aqui, tentarei responder, brevemente, a algumas daquelas provocações.


Deus” não é Deus

Tenho repetidamente dito que há, para mim, uma diferença entre a “realidade” e os conceitos que construímos ou abraçamos acerca dela. As generalizações que servem de base para a construção de nossos conceitos não dão conta do todo da realidade que observamos. Assim, quando identificamos uma pessoa, por exemplo, como “religiosa”, tendemos a atribuir a essa pessoa características gerais que imaginamos serem necessárias para que alguém seja “religiosa”. O termo “religiosa”, desta forma, se torna uma etiqueta que desconsidera as possibilidades de variação, que ignora a complexidade da experiência humana. A generalização é tornada um esteriótipo.

Nas teologias das diferentes tradições de fé, “Deus” é uma dessas generalizações. Especialmente no Cristianismo – assim como, talvez em menor grau, em outras tradições jordânicas, como o Judaísmo e o Islã –, há uma preocupação sistemática com a definição da deidade. Assim, no bojo da diversidade da teologia cristã, há diferentes visões teontológicas (i.e., sobre Deus) que, de acordo com o teólogo católico Peter C. Phan, giram em torno da doutrina da Trindade – algumas favoravelmente, outras contrariamente.

O ponto sobre o qual tenho sempre argumentado é que essas noções, doutrinas ou dogmas – ou seja lá como as chamemos – são construções históricas e, como tal, estão socioculturalmente condicionadas. Elas são diferentes da “realidade” que observamos. Assim, “Deus” enquanto noção teológica, enquanto nome, é diferente de Deus enquanto “Realidade”. É nesse sentido que “Deus” (noção) não é Deus (Realidade). O conceito não passa de uma redução instrumental. Ou, como escreveu Gregório de Nissa:


Qualquer um que tente descrever a Luz inefável com a língua é verdadeiramente um mentiroso; não porque odeie a verdade, mas por causa da inadequação de sua descrição.”


Nossas narrativas, metáforas e crenças religiosas são verdadeiras apenas por conta de sua historicidade. Ou seja, elas são verdadeiras apenas em relação às experiências que um indivíduo ou um grupo tem da/com a realidade. Por isso a “verdade” (enquanto conjunto de noções) é relativa: ela se relaciona com a forma como nos relacionamos com o mundo, e essa relação/experiência serve de filtro para a compreensão que construímos da realidade. Assim, nossas compreensões não são produto apenas de nossa razão, assim como também não são produto apenas de nossas experiências, elas resultam da interação entre ambos.

As compreensões que temos de Deus são moldadas conjuntamente pelas ideias que abraçamos e pelas experiências que temos. Mesmo quando alguém pensa que crê apenas no que as Escrituras de sua tradição ensinam, sua “leitura” (a compreensão que constrói) é condicionada por sua experiência de vida (seu background sociocultural, sua história familiar etc). É a isso que os termos “historicidade” e “relatividade” se referem, em meu discurso.

É isso que está “por trás” daquele título!


Os três Cs: Cristianismo, criacionismo, ciência

Nunca existiu e não existe um Cristianismo único, estático, a-histórico. Como bem escreveu o filósofo e historiador unitarista Arthur O. Lovejoy, “...pessoas que igualmente professaram o Cristianismo e chamaram a si mesmas de cristãs mantiveram, no curso da história, toda espécie de crenças distintas e conflitantes agrupadas sob esse nome...”. Assim, não é possível falar no Cristianismo como se fosse uma “verdade” unívoca e imutável. Ele não é, nunca foi e, provavelmente, nunca será.

O Cristianismo não é a religião professada por Jesus de Nazaré – ele era judeu! – e não é a religião de Deus! O Cristianismo é, antes, a resposta que nós cristãos damos à nossa experiência espiritual filtrada pela ótica de nossa herança sociocultural. Enquanto artefato humano, uma religião diz muito mais sobre seus adeptos do que sobre a divindade que dizem honrar. Não seria diferente com o Cristianismo! O Cristianismo somos nós que o professamos, e não Jesus ou Deus!

Não há nada de essencialmente anticientífico no Cristianismo. Também não há nada de científico na fé cristã. No mundo moderno, fé religiosa e ciência expressam preocupações para com dimensões distintas da realidade. A dimensão misteriosa – aquela que diz respeito àquilo que se encontra além do que pode ser objetivado, mensurado – é o objeto da fé religiosa. A dimensão objetiva – que diz respeito a tudo o que pode ser mensurado, analisado por meio de instrumentos científicos – é o objeto da ciência. O suposto conflito entre religião e ciência, enquanto tais, não passa de mito – mito que serve como instrumento para as intenções de certos indivíduos ou grupos.

O Cristianismo não prega o criacionismo. O Cristianismo ensina acerca da criação. Criação e criacionismo não são a mesma coisa. O criacionismo surgiu como uma tentativa, por parte de adeptos do fundamentalismo protestante, de cientificar uma crença tradicional pré-evolucionista.

Para responder diretamente a uma das questões que me foram feitas: Bíblia e Cristianismo não são a mesma coisa. Você teria de desconhecer a história do Cristianismo para imaginar que o mesmo se baseie unicamente nos textos da Bíblia. A maioria das tradições cristãs reconhecem que a própria Bíblia, originalmente, emergiu como um produto da “Tradição” (e não o contrário), e que essa Tradição foi posteriormente instruída pela autoridade bíblica.

Mas mesmo que se pense que a Bíblia seja a única fonte doutrinária cristã (o que não é o caso para as tradições católica romana, ortodoxa, anglicana, luterana, metodista, unitarista e outras), ela não ensina aquilo que ficou conhecido como “criacionismo”! A narrativa da criação, na Bíblia, não é uma teoria científica – até porque os autores daquela coleção de textos não expressavam a mesma preocupação com explicações objetivas das origens do Universo e da vida que nós temos atualmente.

As origens do criacionismo se encontram em outro lugar. Para compreendê-lo, temos de revisitar as origens do “Movimento Fundamentalista”. E faremos isso na segunda parte deste texto.

Até breve!

+Gibson da Costa

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Minha resposta ao “Unitarista Mineiro”


Caro “Unitarista Mineiro”,

Li o que você escreveu e confesso que não sabia exatamente por onde começar. Decidi, então, iniciar minhas observações por definições simples – como se deveria fazer em qualquer debate de ideias.

É importantíssimo deixar claro que a razão para a sua suposta “confusão”, em minha opinião, é possuirmos um background religioso/intelectual/sociocultural bem diferente – o que faz com que mesmo que utilizemos os mesmos termos, atribuamo-lhes sentidos muito distintos.

Você me acusa, por exemplo, de rejeitar “a verdade” sobre Deus, citando alguns textos publicados aqui e em um de meus livros. Mas o que lhe pergunto é: você realmente leu minhas perspectivas sobre “verdade” e sobre “Deus”? Os argumentos que você utiliza como apoio às suas observações sugerem que você não tenha lido atentamente aqueles textos – parece, na verdade, ter apenas lido alguns comentários feitos por outros acerca do que eu supostamente penso (comentários esses que se tornaram comuns em alguns meios ditos “evangélicos”). Para mim, seria muito mais interessante dialogar sobre o que escrevi com alguém que tenha, de fato, lido o que escrevi.

Muitas vezes não escrevo de forma tão direta ou objetiva quanto alguns querem pelo simples fato de Deus e fé, por exemplo, não serem temas objetivos, quantificáveis, metrificáveis. Não acredito num Deus que possa ser pesado, metrificado, analisado sob as lentes dum microscópio, já que Deus não é – em minha experiência e compreensão – um objeto! Se uso uma linguagem provocadora é porque, no meu meio religioso e sociocultural, essa é mais compreensível – além de a mesma ser uma marca de minha personalidade. Por isso posso dizer que “não posso acreditar em Deus” – porque a maioria de meus leitores, provavelmente, compreendem minha escolha da metáfora como instrumento para falar sobre certos conceitos teológicos. Quando digo isso, eles entendem que estou fazendo uma crítica ao uso de certos conceitos acerca de Deus com os quais não concordo plenamente.

Sua tática de atacar minha vida pessoal é a menos merecedora de comentários, mas a comentarei assim mesmo. Não o conheço pessoalmente, o que implica que você também não me conhece pessoalmente – se alguma vez, mesmo que improvavelmente, tenhamos estado fisicamente no mesmo local, isso não significaria que você me conheça. Posso citar exatamente as fontes de seus comentários, onde estão e quem os fez originalmente (pessoas, a propósito, que também não me conhecem e que encontraram em teorias da conspiração uma forma infeliz de lidar com a pluralidade religiosa no mundo!).

O joguete de deslegitimar a opinião dum “oponente” com base em acusações contra sua vida pessoal – em meu caso explícito, com base em minha vida eclesiástica – é tão antigo quanto imoral. Foi usado no meio político romano; foi usado nos primórdios da Igreja cristã; foi usado ao longo das eras; e é, infelizmente, ainda usado em nossas sociedades ditas pós-modernas. Meu apelo é à civilidade: se você discorda de minhas ideias ou das ideias teológicas que defendo, ataque-as e não a mim – é isso que faço e que continuarei a fazer, se discordo de algo ou de alguém (deixo os ataques pessoais para as crianças que ainda estão aprendendo a viver em sociedade, e para aqueles que não se esforçam em percorrer a trilha da compaixão).

Sua mensagem é tão incoerente em termos conceituais que não consegui entender se você tenta se identificar como um “unitarista bíblico” ou como um “unitário-universalista”. Esses dois conceitos são contraditórios, mas você defende a ambos simultaneamente! Eu, pessoalmente, não me identifico como nenhum dos dois! Sou, eclesiasticamente, um unitarista – o que identifico, em minha experiência de fé e prática, como um “cristão liberal” herdeiro da tradição unitarista anglófona. Não tenho o mínimo interesse em definir o que isso seja para qualquer outra pessoa – seja membro de minha própria comunidade de fé, seja para alguém de fora. Assim, se você se diz um “unitarista”, mesmo que seu discurso esteja muito alheio à minha tradição e mesmo que você se mostre desinformado quanto à mesma, esse é seu direito – o que eu teria a ver com isso?… Mas, se você escreve para um Ministro de uma igreja unitarista, tentando ensinar-lhe sobre a tradição que você aparentemente desconhece, então você tem de estar preparado para uma resposta que talvez não lhe agrade muito!

Nunca menti sobre [ou omiti] minha história eclesiástica aos meus leitores (nem, muito menos, aos meus paroquianos!). Sempre deixei claro que tenho uma múltipla herança religiosa, já que venho de família multirreligiosa. Sou um unitarista-anglicano, com ligações também às tradições luterana, congregacional, restauracionista e quaker. Além de herdeiro do Judaísmo Reconstrucionista.

É óbvio que alguém com minha experiência religiosa e minha formação teológica não poderia pensar como você pensa acerca da Divindade. Em nenhuma das tradições que me formaram como ser religioso há o predomínio duma visão de Deus, da Bíblia, de Jesus como a que você afirma ser “a verdadeira”. Logo, eu estou sendo “verdadeiro” e “honesto” para com minha própria tradição de fé – que é, em si mesma, polifônica.

Não direi a você no que deve acreditar. Direi, sim, no que acredito eu. Acredito e confio na Realidade de Deus. Sobre essa Realidade, é dito nas Escrituras que é amor. Quando enfatizo essa definição de Deus, alguns insistem que com isso queira dizer que não há “certo” ou “errado”: estão errados – quando digo isso, apenas enfatizo minha compreensão das Escrituras e tradições judaico-cristãs que apontam Deus como cerne da compaixão capaz de nos tornar “humanos”, como “elemento” indispensável na construção das relações entre os seres humanos (os “filhos/as de Deus”). Meus leitores e ouvintes, incluindo você, podem construir suas próprias interpretações de minhas palavras para si, mas – com todo respeito – não podem querer dizer a mim o que minhas palavras devam significar!

Apesar de nossas discordâncias, continuarei a mantê-lo em minhas orações e, humildemente, peço o mesmo de você.

Respeitosamente,

Rev. Gibson da Costa

sexta-feira, 4 de março de 2016

Escrituras Sagradas: uma resposta a algumas perguntas levantadas por um amigo ao meu sermão de 28 de fevereiro


Permita-me iniciar dizendo que é necessário, muitas vezes, fazer um exercício de mudança de perspectiva para que possamos construir uma compreensão das crenças de outras pessoas – isto é, quando saímos de nossa própria posição e nos esforçamos para observar algo a partir da posição de outra pessoa, podemos compreender melhor sua visão. Quando, por exemplo, disse o que disse sobre o tema em discussão, estava apenas demonstrando minha compreensão de que minha própria perspectiva não é a única possível – afinal, não posso esperar que todas as pessoas pensem da mesma forma que eu, seja sobre religião, seja sobre qualquer outro assunto.

Interpretar as Escrituras de forma metafórica não é “equivalente a se afastar da Tradição cristã”. A visão de que as Escrituras devam ser interpretadas literalmente por terem sido factualmente ditadas por Deus e por serem sinônimo de “história factual” é uma compreensão moderna tanto de “inspiração” quanto de “história”; uma compreensão que emergiu como resposta ao chamado “Iluminismo”. Assim, é essa visão que se afasta da Tradição, quando abandona a possibilidade de interpretações metafóricas dos textos sagrados, engessando, assim, o sentido do texto a uma interpretação rígida – e não o contrário.

Mas já tratei tanto disso tanto na igreja quanto aqui, que seria repetitivo se abordasse a mesma questão mais uma vez. Contudo, posso explicitar mais diretamente minha visão teológica pessoal sobre “Escrituras”, no contexto da discussão sobre canonicidade que abordei naquele sermão.

Como já deve ser bem conhecido, não compreendo a sacralidade/canonicidade das Escrituras como decorrente duma origem divina, mas, sim, como decorrente dum processo humano de legitimidade da Tradição – visão essa, a propósito, que é dominante em nossa comunidade de fé. Assim, a “Bíblia” não é texto sagrado porque suas palavras foram ditadas por Deus a profetas, mas, antes, porque aqueles conjuntos de textos passaram por um processo de “canonização”/”sacralização por parte das comunidades que os aceitaram como texto sagrado.

Esse mesmo processo esteve presente não apenas nas comunidades [proto-]ortodoxas judaicas e cristãs que proclamaram a Bíblia como Escritura. Processos semelhantes também marcaram a origem de textos sagrados de outras tradições de fé, como o [Al]Corão, o Livro de Mórmon, e Doutrina e Convênios – que foram os textos sobre os quais discuti em meu sermão –, assim como os textos sagrados de outras tradições que não abordei. Assim, esses textos são, sim, sagrados; são, sim, Escrituras. Podem não ser Escrituras sagradas para você ou para mim, mas o são para os adeptos das tradições que os consideram sagrados – e isso é suficiente para que eu me refira a eles como “sagrados”.

A Bíblia é, para minha própria compreensão e experiência de fé, um conjunto de textos sagrados. Apesar de não compreendê-la, necessariamente, como relato factual nem da história humana nem divina, ela é a base de minha compreensão de fé. E isso ocorre porque minha fé – uma expressão do(s) Cristianismo(s) – é uma fé “do Livro” (como, a propósito, a ela se refere a tradição islâmica). Isto é, o(s) Cristianismo(s), assim como o(s) Judaísmo(s) e o(s) Islã(s), é uma tradição construído ao redor de textos religiosos que foram sacralizados pela comunidade de fé.

Assim, aqueles textos que abordei em meu sermão – o Livro de Mórmon, Doutrina e Convênios (ambos, como editados pela Comunidade de Cristo); e o [Al]Corão – são Escritura Sagrada, apesar de eu não acreditar que tenham uma origem factualmente divina, se por isso quiser dizer que foram ditados por Deus a seres humanos ou que tenham caído miraculosamente do céu, ou que anjos os tenham depositado em mãos humanas. Também não acredito nisso no que concerne à Bíblia!... Isso, porém, não muda em nada seu status canônico para aqueles que os aceitam como Escritura – não muda, pelo menos, minha aceitação da Bíblia como Escritura Sagrada. Para entender minha posição, você só precisa se lembrar de onde emerge a “sacralidade”, em minha compreensão: da Tradição construída, vivida e transmitida pelo corpo de fiéis – isto é, para mim, a fé religiosa tem uma história; ela é a resposta humana ao seu encontro com o Divino. As Escrituras são a resposta dada por diferentes autores, em diferentes lugares, em diferentes línguas, a partir de diferentes experiências culturais e espirituais ao Mistério que eu chamo de Deus.

Reconhecer e considerar como legítimas as experiências e perspectivas de outras tradições não diminui minha crença em minha própria fé. O que faz é ampliar minha compreensão tanto da humanidade quanto da Divindade. Obviamente, ainda discordo das compreensões de fé que colidem com as minhas próprias – e continuarei a criticá-las, se necessário –, mas isso não significa que me recusarei a reconhecer a “verdade” quando ouvi-la a partir da voz de outra tradição. É uma questão tanto de maturidade quanto de integridade intelectual.

Grande abraço!

+Gibson

sábado, 26 de dezembro de 2015

Um breve resgate da origem judaica do Natal: O mito natalino para um ministro cristão unitarista



[NOTA: Os termos e/ou trechos em grego e hebraico, ao longo do texto, são apenas transliterações.]

Começo com uma afirmação básica necessária: pouquíssimos estudiosos sérios questionam a existência de Jesus como um personagem real da história. São numerosas as fontes romanas, judaicas e cristãs sobre Jesus. Elas, obviamente, afirmam opiniões diversas a seu respeito, mas são aceitas como evidências suficientes de sua historicidade.

Quando Yeshua – o nome de Jesus em sua provável língua nativa, o aramaico (apesar de nenhum dos evangelhos explicitarem a língua falada por Jesus, pouquíssimas pessoas, além da elite dos escribas, podiam, àquela época, falar, ler ou escrever o hebraico bíblico; e os galileus falavam aramaico, não hebraico) – nasceu, seus conterrâneos viviam sob a tirania de conquistadores estrangeiros e sob o que entendiam como uma ameaça à sua identidade israelita advinda da assimilação cultural (uma ameaça recorrente à ideia duma identidade israelita ou judaica). A identidade israelita de seu povo enraizava-se na terra e no “mito” duma aliança que tornara aquela terra sua. Essa aliança mitológica era o escudo e a resistência que aquele povo tinha contra as forças imperiais romanas – uma fortaleza cultural que permaneceu de pé, mesmo depois de todas as instituições políticas e militares de Israel terem sido derrotadas.

A mitológica aliança que ligava aquele povo à sua terra emergira da compreensão que tinha das tradições israelitas. Essa compreensão advinha não do texto escrito da Torá e dos Profetas em hebraico – que pouquíssimos eram capazes de ler, de qualquer forma –, mas de seu “targum” oral. Um “targum” era uma tradução oral do texto das Escrituras que era memorizada e enriquecida por comentários, e recitada pelo “targeman” da comunidade. Essa recitação interpretativa das Escrituras contextualizava a tradição espiritual israelita para as circunstâncias de seu tempo, fazendo um amplo uso de leituras metafóricas. Dentre as muitas imagens enfatizadas por essa tradição interpretativa estava aquela do “Reino/Domínio de Deus” [basileia tou theou, no grego do Novo Testamento], que sobrepujaria todas as outras formas de reino ou domínio humano – uma forma de resistência poderosa para um povo que vivia sob o domínio estrangeiro.

Foi nesse contexto sociocultural que Miriam (Maria, em aramaico) e Yosef (José, em aramaico) conceberam a Yeshua (Jesus).

O texto grego de Mateus afirma:


tou de iesou christou he gennesis houtos en mnesteutheises gar tes metros autou marias to ioseph prin e sunelthein authos heurethe en gastri echousa ek pneumatos hagiou.” [A origem de Jesus, o ungido, foi assim: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José, e, antes de viverem juntos, ela ficou grávida por ação do Espírito Santo.] (Mateus 1:18)


O mito que envolve a narrativa natalina pode obscurecer o sentido histórico das palavras acima, extraídas do Evangelho de Mateus (“...antes de viverem juntos, ela ficou grávida por ação do Espírito Santo”). Em nossa cultura, afinal, a maioria de nós foi condicionada a interpretar aquelas palavras com base nos dogmas da Encarnação e da Trindade desenvolvidos posteriormente. Mas a tradição presente nos diferentes Evangelhos testifica sobre a recorrente acusação de que Jesus fora concebido de forma supostamente ilícita. Em sua vila de origem, de acordo com o autor do Evangelho de Marcos, ela era conhecido não como filho de José, mas como “o filho de Maria” [ho huios marias] (Marcos 6:3) – o que, se factual, seria uma evidência de seu status de ilegitimidade, já que as noções de “encarnação” e “trindade” ainda não haviam sido desenvolvidas. Mesmo longe de sua vila de origem, por exemplo, quando já era um rabino conhecido, Jesus foi ridicularizado, em Jerusalém, por haver nascido como fruto de “porneias” [fornicação] (João 8:41). Os séculos de dogmas acerca duma concepção e nascimento miraculosos obscureceriam dois pontos importantes sobre a narrativa que temos sobre Jesus: 1) Por que Jesus era insultado por supostamente ser filho ilegítimo?; e, 2) Por que se desenvolveu a narrativa de que teria nascido duma mãe virgem?

Aquela pequena frase em Mateus 1:18, enfatizada acima, é uma explicação suficiente para as acusações que marcariam a vida de Jesus de que seu nascimento possuía uma origem irregular. Ao mesmo tempo, também é suficiente para explicar a origem da lendária narrativa de que sua origem era miraculosa. Os seguidores posteriores de Jesus usariam a narrativa atribuída a Mateus como base para afirmar que Maria era biologicamente virgem quando do nascimento de seu filho. E por causa disso, em nossa própria época, os leitores teologicamente não ortodoxos podem se sentir tentados a descartar o valor histórico do Evangelho de Mateus. Mas, apesar de o texto daquele Evangelho e de outros estarem repletos de elementos não factuais, ele não pode ser responsabilizado pela leitura mítica que lhe foi imposta após sua escrita.

Um exemplo da compreensão mitológica posterior do texto encontra-se em Mateus 1:23 – “...he parthenos en gastri exei kai texetai huion...” [a solteira na barriga terá e dará à luz filho] –, quando afirma que uma mulher solteira [parthenos] conceberia um filho. Na tradução daquele texto grego à língua latina, no século II, “parhenos” tornou-se “virgo”, e essa tradução posteriormente alimentou a ideia de que Maria teria sido biologicamente virgem quando concebeu e deu à luz a seu filho Jesus. O problema com esse sentido, contudo, é que os termos “parthenos” e “almah” [“mulher jovem” – o termo hebraico que aparece na referência ao texto de Isaías 7:14] não significavam “virgem” como esse termo é utilizado na tradição cristã – na verdade, nem mesmo “virgo” significava isso exclusivamente; a expressão utilizada pelos romanos para “virgem”, no sentido relativo a “castidade”, era “virgo intacta” (por que não foi utilizado na tradução latina da Bíblia?!).

Uma razão que pode ser apontada para o uso de “parthenos” para referir-se a Maria é o fato de o(s) autor(es) de Mateus querer(em) fazer uma ligação entre Jesus e antigas profecias israelitas, para substanciar a afirmação de que ele seria o Messias esperado. Assim, seu passado é ligado ao passado de Israel. Note que sua mãe se chamava Maria [Miriam, em aramaico], e Maria [ou Miriam] era também o nome da irmã de Moisés, que salvou sua identidade israelita e, consequentemente, seu chamado profético (Êxodo 2:1-10), e que também foi chamada de “profetisa” (Êxodo 15:20). Essa Maria, irmã de Moisés, era descrita também como uma “almah” [parthenos, na tradução grega]. Assim, a mãe de Jesus possuía dois traços em comum com a irmã do libertador do povo de Israel, Moisés: o nome e a condição. Se a mais antiga Maria tivera a missão de assegurar que seu irmão manteria sua identidade como um israelita e, consequentemente, se tornaria o libertador de seu povo – sendo ela mesma uma profetisa –, a mãe de Jesus tinha a missão de trazer o Messias (o Cristo) ao mundo... Pequenos detalhes na narrativa que se tornaram essenciais para a forma como a maioria dos cristãos entenderia o Natal, mas aos quais poucos estão atentos!

Obviamente, a forma como a ortodoxia cristã lidou com isso tem muito mais a ver com as influências das ideias greco-romanas no pensamento da Igreja que emergia – pense, por exemplo, nos dogmas da Encarnação e da Trindade – do que propriamente com o que os textos originais das Escrituras ou a tradição judaica tinham a dizer. Assim, ao longo dos séculos, os cristãos não teriam a mínima necessidade de conciliar algumas afirmações feitas sobre Jesus, nos Evangelhos, com o todo da tradição judaica da qual ele era parte. E a ênfase no sobrenatural, no que tange à história de Jesus de Nazaré, pode ter contribuído para que a tradição cristã perdesse contato tanto com a cultura religiosa da qual emergiu quanto com a poderosa mensagem humana presente nos relatos, mesmo que míticos, sobre sua vida.

A questão sobre a concepção de Jesus – quem era seu pai, afinal de contas? – encontra três explicações diferentes no Novo Testamento (e essas podem se entrelaçar, nas mesmas fontes, com explicações conflitantes):

  • 1) Jesus teria sido concebido através da intervenção do “espírito santo” (ainda não necessariamente entendido como uma “pessoa”), por meio dum mecanismo desconhecido. Sua mãe, assim, não tivera relações sexuais com um homem: Lucas 1:34-35 e Mateus 1:18-25.

  • 2) Jesus era, de fato, filho de José: João 1:46; 6:42; Lucas 4:22; Mateus 1:1-17 e Lucas 3:23-38 (genealogias que só poderiam ter sido desenvolvidas com base nessa suposição) – os ajustes em Mateus 1:16 e Lucas 3:23 parecem ser posteriores. A identidade de Jesus como “filho de Davi” – Mateus 1:1; 9:27; 12:23; 15:22; 20:30-31; 21:9, 15; Marcos 10:47-48; Lucas 18:38-39; Romanos 1:3; 2 Timóteo 2:8; Apocalipse 5:5, e 22:16 – implicitamente invoca essa noção, já que apenas José poderia mediar essa linhagem (Mateus 1:20; Lucas 1:27, 32, e 2:4).

  • 3) Jesus foi acusado, por alguns de seus adversários, de ser fruto de “fornicação” [porneia, no texto grego] – João 8:41 –, e tal acusação é frequentemente vista como a base para a omissão de José na identificação de Jesus em Marcos 6:3, como já apontado anteriormente.


Ou seja, os próprios livros do chamado Novo Testamento – quando compreendemos sua historicidade (a forma como foram compostos e, posteriormente, ajustados para conformarem-se à ortodoxia desenvolvida posteriormente) – oferecem uma multiplicidade de pistas sobre o personagem histórico cuja memória nós cristãos, das mais variadas expressões, honramos no Natal. Essa multiplicidade contraditória, dentre tantas outras razões, resulta do simples fato de esses escritos não terem sido compostos como registros históricos como entendemos “História” e/ou “históricos” em nossos dias. As finalidades que tinham e os públicos aos quais se dirigiam não exigiam a noção de “factualidade”.

Mas, além daqueles escritos, podemos também acessar as pistas deixadas por outros textos importantes para entender a cultura religiosa na qual Jesus cresceu. Aquela pequena e simples frase em Mateus 1:18, assim como as expressões utilizadas nos trechos citados de Marcos e João (“filho de Maria” e “fornicação”) como referência a Jesus, pode(m) ser explicada(s) pela tradição talmúdica israelita. Por “talmúdica”, a propósito, quero me referir ao Talmud, um registro de discussões rabínicas acerca da Lei, exegese, costumes, história e tradições judaicas. O Talmud é composto pela Mishnah e pela Guemara e, apesar de os registros escritos mais antigos serem posteriores ao registro dos Evangelhos, aquela tradição da Torá Oral do judaísmo rabínico já existia antes de Jesus – estando presente em trechos dos Evangelhos.

Se voltarmos à tradição de José como originário duma cidade diferente da da jovem Maria (Lucas 2:4-5) – há, hoje, o conhecimento da existência prévia duma Belém na própria Galileia, próximo a Nazaré, mas evitarei entrar nessa questão aqui –, poderemos compreender um pouco da desconfiança sobre a paternidade de Jesus levantada por seus adversários.

Independentemente de quem tenha sido o pai de Jesus, as condições sob as quais foi concebido, de acordo com o(s) autor(es) do Evangelho de Mateus, o tornariam um “mamzer”, alguém gerado através de relacionamentos proibidos (e seus descendentes até a décima geração) pela lei judaica. A não ser que Maria pudesse apresentar testemunhas de que o pai de seu filho era um parceiro lícito, de acordo com a lei, se consideraria que o pai de sua criança era um “mamzer”, um filho de “mamzer” ou outro tipo de pessoa proibida, o que automaticamente também tornaria Jesus um “mamzer” (Mishnah Ketubot 1:8-9). E isso ocorreria tanto se José fosse o pai – já que, de acordo com o(s) autor(es) de Lucas, ele vinha de outra região e, assim, não poderia haver uma testemunha confiável de sua licitude como não “mamzer” para a comunidade de Maria –, quanto, e especialmente, se o “Espírito Santo” fosse o pai de Jesus – já que não poderia haver uma testemunha da licitude dessa paternidade!

Encontrar uma tradução apropriada para o termo “mamzer”, em português, é difícil. Algumas vezes, utiliza-se “ilícito” ou “ilegítimo(a)”, mas deve-se ter em mente que o termo hebraico não se refere a uma criança nascida fora do casamento – refere-se ao fruto duma relação sexual com a pessoa errada. As relações sexuais entre pessoas não casadas, a propósito, eram toleradas, e não afetavam o status da criança – só afetariam se um dos parceiros fosse “ilícito”. Muitas traduções, em português, da primeira referência ao “mamzerut” (a condição de um[a] “mamzer”) na lei judaica, traduzem “mamzer” como “bastardo”:


Não entrará bastardo na congregação do Eterno, nem ainda a décima geração dele não entrará na congregação do Eterno. [Deuteronômio 23:3 – da tradução da Editora Sêfer]


O Talmud esclarece que essa proibição de entrada na congregação significa a proibição de casamento com um[a] israelita. Os filhos duma união sexual entre um “mamzer” e uma mulher israelita estariam, igualmente, proibidos de se unirem a mulheres israelitas. No caso específico de Jesus, a ausência de provas de que era filho de um pai lícito – fosse seu pai divino ou um forasteiro na Galileia sem referências – o tornava um “mamzer”. O que significaria que, além de ser proibido de unir-se licitamente a uma mulher israelita, estava condenado a não ter voz na comunidade. [Você poderia me questionar sobre que garantias teríamos que José, por exemplo, não teria testemunhas reconhecidas de sua licitude para unir-se a Maria. Realmente não temos. Mas as evidências nos textos apontam para o fato de que Jesus foi acusado de “mamzerut” por seus adversários – e isso, se considerarmos o testemunho dos textos evangélicos, seria uma evidência de que haveria rumores a seu respeito!]

Olhar para os relatos da vida e dos ensinamentos de Jesus considerando as diferentes possibilidades permitidas pelos textos sagrados, cotejados com outras fontes do mesmo contexto sociocultural, pode parecer simples especulação para aqueles que abraçam o mito natalino como um relato factual. Mas, para mim, abre outras portas para compreender a tradição cristã. Ajuda-me, por exemplo, a compreender melhor a ênfase na visão de Deus como “paizinho” com o qual se pode manter relação pessoal – se Jesus foi um mamzer, e sofreu discriminação por isso, seu suposto uso do termo “Abba” para referir-se a Deus teria um impacto muito maior; suas fábulas sobre crianças teriam um peso muito mais profundo.

Assim, em minha experiência espiritual, humanizar Jesus, por meio da análise de possibilidades históricas, não equivale a diminuir sua importância. Muito pelo contrário. Significa alargar o sentido da tradição. Jesus deixa de ser apenas um mito etéreo – o Cristo construído pela ortodoxia –, e se torna o homem real, que iniciou sua vida como “refugiado”, viveu como um “excluído” e, por isso mesmo, sabia do que estava falando!

+Gibson

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

A "Palavra de Deus": uma resposta a Pedro


Caro Pedro,

Você está equivocado quanto à minha compreensão das Escrituras. O problema está na forma como compreendemos certos conceitos que você utilizou. O mais importante deles é o conceito de “Palavra de Deus”. Você, aparentemente, define esse conceito como sendo sinônimo exclusivo de “Bíblia”. Assim, para você, por a Bíblia ser a “Palavra de Deus”, ela teria uma origem divina – de alguma forma, tudo o que esteja escrito naquele conjunto de livros, para você, é originalmente divino. É esse seu sentido de “divindade” original que não abraço. Para mim, a Bíblia é, sim, um conjunto de textos “divinos”, mas não porque os textos tenham sido escritos já como “divinos”. As Escrituras (prefiro chamar a Bíblia de “Escrituras” para reforçar a sua multiplicidade) passaram por um processo de “divinização” – isto é, o texto originariamente humano é reconhecido como “divino” porque, para os ouvintes (a maioria dos primeiros cristãos era de ouvintes, e não de leitores das Escrituras), aquelas palavras os aproximavam do Divino e lhes mostravam o caminho,

Você consegue perceber a diferença em nossa compreensão?

Para mim, a “Palavra de Deus” é Jesus Cristo, e não a Bíblia em si. Obviamente, “Palavra de Deus” é apenas uma metáfora, não uma declaração literal. Por isso, poderia ser aplicada igualmente à Bíblia. Mas eu, pessoalmente, prefiro utilizar a metáfora apenas quando me refiro a Jesus. É por essa razão que você – como me escreveu – possivelmente nunca leu nada que eu tenha escrito se referir à Bíblia como “Palavra de Deus” (bem, você pode nunca ter lido ou ouvido, mas, na verdade, eu já me referi algumas vezes às Escrituras como tal, em contextos muito específicos). A Bíblia não pode dizer ser ela a “Palavra de Deus” por duas razões simples: 1) a Bíblia não diz absolutamente nada, quem diz são seus autores – isso parece ser uma banalidade, mas é essencial para que você desenvolva uma compreensão mais madura de sua leitura; 2) não pode haver uma afirmação na Bíblia de que ela seja a “Palavra de Deus”, no sentido que você dá ao termo, porque os autores da “Bíblia” não sabiam sobre a existência da “Bíblia”! A Bíblia, enquanto livro unitário, no singular, é uma invenção recente. As Escrituras surgiram como um conjunto de textos distintos, escritos em lugares e contextos diversos, por autores diversos, em línguas diversas e até, pelo menos, o século XVI ainda não havia sido estabelecido o cânon definitivo dos livros daquilo que hoje lemos como um livro unitário. E os homens foram não apenas os autores e tradutores dos escritos, mas também aqueles que decidiram quais desses escritos estariam nas traduções que lemos hoje!

E essa é uma das razões mais importantes para que eu não abrace sua perspectiva de origem divina das Escrituras – há muitas outras razões, mas já escrevi sobre elas naqueles textos que você citou em sua mensagem.

Ler é interpretar, e a interpretação é um processo. E nenhum cristão lê a Bíblia por si só – ou seja, o sentido que dá à sua leitura não advém apenas das palavras que encontra impressas sobre as páginas. Todos nós, quando lemos as Escrituras – ou qualquer outro texto escrito –, utilizamos em nossa ação interpretativa as ferramentas que encontramos em nosso próprio “universo cultural”. Dentre essas ferramentas estão os conceitos que já internalizamos – voluntária ou involuntariamente – sobre, por exemplo, Deus, Jesus Cristo, a humanidade, a vida, a morte etc. Assim, um católico romano, um luterano, um presbiteriano, um unitarista, um santo dos últimos dias, ou um pentecostal, podem ler a mesma porção dum texto bíblico e compreendê-lo de formas diferentes e, muitas vezes, conflitantes.

Essa noção de que as Escrituras são interpretadas, ao menos parcialmente, com base naquilo que trazemos em nossa visão de mundo, obviamente, não é geralmente aceita por aqueles que acreditam na Bíblia como tendo uma origem literalmente divina. É por essa razão que, para eles, há apenas uma interpretação válida da coleção de livros que chamamos de Bíblia – e que alguns tratam como se fora um único livro, com uma única mensagem, com uma única intenção, com uma única origem.

A multiplicidade de fontes para a ação de interpretar as Escrituras inclui o próprio texto, a tradição, a razão, e ação divina. Isto é, a maioria das tradições teológicas cristãs reconhece que há no processo de engajamento com o texto bíblico uma multiplicidade de relações. Mesmo você reconheceu isso, quando escreveu sobre a ação do Espírito Santo.

O relato que você me fez de sua experiência de “conversão” já me dá pistas sobre a origem de sua compreensão sobre a Bíblia. Se você fosse um católico romano ou um luterano, por exemplo, suas perguntas seriam diferentes e, possivelmente, as respostas às quais chegaria também seriam diferentes daquelas que abraça hoje. Da mesma forma, eu também tenho perguntas que são muito diferentes das suas quando leio as Escrituras, e, provavelmente, chego a conclusões bem diferentes das suas.

Para mim, isso não significa que você esteja essencialmente errado e eu esteja essencialmente certo em termos das questões levantadas e das conclusões às quais chegamos. Significa, apenas, que partimos de lugares diferentes; lugares que não são melhores ou piores que o do outro, são apenas diferentes. O esforço que eu, pessoalmente, faço, tanto em minha vida ministerial quanto devocional, é tentar entender o lugar de onde as outras pessoas partem. E posso garantir a você que, quando fazemos isso, nós aprendemos que é possível viver com a diferença. É só tentar mudar um pouco a perspectiva e se colocar no lugar do outro – especialmente quando esse outro busca a mesma coisa que você.

Grande abraço!

+Gibson

sábado, 15 de agosto de 2015

O(s) Cristianismo(s) e a contextualização da “verdade”


Se vocês guardarem a minha palavra, vocês de fato serão meus discípulos; conhecerão a verdade, e a verdade libertará vocês.
(João 8:32)



Ao longo de minha vida ministerial e acadêmica, tenho tido o desprazer de lidar com visões deveras estereotipadas do(s) Cristianismo(s). Visões essas que são professadas não apenas por pessoas com baixo nível de instrução escolar formal – que, aparentemente, tendem a abraçar formas mais “estritas” de crenças e práticas religiosas –, mas também por aquelas que, num outro extremo, possuem um alto nível de instrução formal – especialmente aquelas que abraçam formas mais “estritas” duma mentalidade contrária à religião institucionalizada (para os quais, geralmente, o[s] Cristianismo[s] seria[m] o[s] modelo[s] paradigmático[s]).

Obviamente, para mim, há um grande problema com as visões “estritas” de seja lá o que for (especialmente no que tange à fé), porque elas são – na maioria das vezes – contextualmente “desinformadas”.

Compreendo o(s) Cristianismo(s) como um diálogo incessante entre a “tradição” que recebemos do passado e o nosso “contexto” presente (o nosso “hoje”). Os Cristianismos – sim, o Cristianismo é plural demais para que eu utilize um substantivo singular para me referir a ele –, enquanto conjuntos de compreensões, de práticas, de esperanças, e de pessoas, sempre foram esse “diálogo” – para o bem ou para o mal. Assim, ao longo dos séculos, a “tradição” é reformulada para ser capaz de conversar com a experiência do fiel.

Alguns dirão que essa “reformulação” é um abandono daquilo que consideram ser “a verdade”. Isso ocorre, em parte, porque compreendem “a verdade” como uma “substância” mensurável, como algo que pode ser congelado ou petrificado no tempo. Como algo fundamentalmente distinto dos contextos dos quais emerge. Os que pensam assim, obviamente, desconsideram que sua própria visão é uma “reformulação” da herança do passado.

Quando olho para a história do pensamento cristão, isto é, para a forma como as doutrinas cristãs foram (re)formuladas ao longo dos séculos – área na qual me ocupo em minhas atividades teológicas –, esse diálogo entre “tradição” e “contexto”, entre passado e presente, se torna muito claro. E se torna claro, também, que é insensato e contraditório afirmar que a “verdade” teológica seja algo petrificado e imutável.

Quando falo em “verdade”, aqui, me refiro tanto à nossa compreensão teológica quanto à forma como a articulamos em nossas atividades discursivas. A “verdade”, aqui, não inclui o objeto final ou material de nossas reflexões. Assim, toda a Igreja – me refiro não a uma instituição, mas a todas as pessoas que professam a fé cristã – professa fé em Deus e, por isso, Deus é uma verdade inquestionável para qualquer cristão professo. Essa verdade final, entretanto, não é articulada da mesma forma por todos os cristãos. Variadas tradições cristãs, e incontáveis cristãos individuais, articulam uma compreensão sobre Deus que não são aceitas por outros cristãos – ou seja, a verdade “material” (aquilo/aquele com o qual/quem se ocupa) é a mesma, mas a verdade “conceitual” (o que se pensa sobre a “verdade material”) é distinta, dependendo de uma imensa variedade de circunstâncias. E quem poderá dizer que sua verdade conceitual é a única “verdadeira” e aceitável, se sua verdade material é, para nosso contexto cultural, objetivamente imensurável?

Gosto sempre de citar as palavras do grande pensador unitarista, e fundador do campo da História das Ideias, Arthur Oncken Lovejoy, que escreveu:

[…] pessoas que igualmente professaram o Cristianismo e chamaram a si mesmas de cristãs mantiveram, no curso da história, toda a espécie de crenças distintas e conflitantes agrupadas sob esse nome, mas também que qualquer uma dessas pessoas e seitas mantiveram, via de regra, sob esse nome um conjunto de ideias muito variadas, cuja combinação dentro de um conglomerado que traz um único nome e que se supunha constituir uma unidade real foi em geral o resultado de processos históricos de um gênero altamente complicado e curioso. […] i

Obviamente, aqueles que utilizam a proteção dogmática como justificativa para sua própria compreensão, e como artifício para a reprovação daqueles que abraçam outras compreensões teológicas, dirão que essa diversidade seja fruto de “heresias” ou de “apostasias” – a própria utilização desses termos por alguns deles é problemática, já que é descontextualizada. Eu, por outro lado, as vejo como resultado dos próprios contextos nos quais as diversas visões emergiram.

Pensemos, por exemplo, na Cristologia, que é o campo da Teologia cristã que se ocupa do ser e da obra de Cristo. A maioria dos não cristãos imagina que todos os cristãos sempre tenham professado e que todos professem que Deus seja uma Trindade (como o requer a compreensão ortodoxa a partir do Credo de Niceia) e que, consequentemente, Jesus seja Deus. Para a maioria dos cristãos, Deus realmente é uma Trindade: Pai, Filho, e Espírito Santo. Claramente, entretanto, apenas uma ínfima minoria dos cristãos consegue compreender e explicar exatamente o que isso significa, já que o dogma ortodoxo da Trindade se sustenta sob uma série de compreensões filosóficas e sobre uma linguagem estranhos à maioria das pessoas hoje em dia. Ademais, e mais importante, nem todos os cristãos foram ou são “trinitaristas” – ou seja, nem todos os cristãos professaram ou professam o dogma ortodoxo da Trindade.

Na história da Teologia cristã, Jesus nem sempre foi Deus. Na verdade, com frequência, os cristãos se esquecem – se é que se dão conta disso – que Jesus sequer era “cristão”. Sua compreensão de Deus estava enraizada numa tradição que, em muitos aspectos, contradiria aquela das ortodoxias cristãs (sejam as orientais ou as ocidentais). Jesus, de acordo com os registros dos Evangelhos, jamais afirmou explicitamente ser Deus. E se de fato o tivesse feito, isso teria sido um afastamento incalculável de toda a tradição teológica das Escrituras do povo de Israel. Mas, todo estudioso intelectualmente íntegro saberá, hoje, quando e como Jesus se tornou Deus. As compreensões teológicas cristãs se desenvolveram de acordo com os contextos nos quais se encontravam os que professavam a fé em Cristo. Assim, doutrinas como as da Encarnação e da salvação por meio dum sacrifício expiatório – que são necessárias à noção ortodoxa da Trindade –, por exemplo, emergiram a partir do encontro entre a fé dos primeiros “cristãos” e as filosofias greco-romanas.

O que é importante acentuar, contudo, é que o fato de o dogma teológico ser uma construção humana não o torna inválido ou “não verdade”. Muito pelo contrário. A “verdade” (lembre-se que, aqui, me refiro à verdade enquanto o que se pensa sobre um objeto de reflexão, e não ao objeto em si da reflexão teológica) é uma construção da tradição na qual é (re)formulada. Assim, o que é “verdadeiro” ou “falso” para uma comunidade de fé – ao menos em tradições que enfatizam a comunidade enquanto centro de aprendizado e prática, como a Igreja – é definido por aquela própria comunidade. [Uma perspectiva que não deixa de ser paradoxal para protestantes crescidos em culturas individualistas como as nossas.]

A articulação dos conceitos teológicos cristãos acerca de Jesus Cristo e de sua relação com o todo da fé cristã passou por um processo de construção que durou séculos – e que, na verdade, ainda não acabou, ao menos no que tange a alguns grupos não “ortodoxos”. E, infelizmente, muitas das decisões tomadas sobre quem tinha razão nas disputas teológicas, após o(s) Cristianismo(s) se associar(em) ao poder secular, basearam-se mais na força política do que nos argumentos teológicos.

Dessa longa história advém a projeção inconsciente que fazemos quando lemos os textos bíblicos. Sempre gosto de enfatizar que costumamos projetar sobre os textos que lemos visões de mundo que, em si, não estão necessariamente presentes nesses textos. Como exemplo, sempre utilizo a narrativa sobre Adão e Eva e o “fruto proibido” que, em sua interpretação mais inocente, é identificado como uma “maçã” – apesar de o texto bíblico em si não utilizar o termo. O “fruto” foi frequentemente interpretado como “maçã” por conta do contexto exterior à narrativa bíblica. No caso específico da Cristologia, mesmo aqueles que afirmam basear toda a sua fé na leitura da Bíblia, quando leem o texto sagrado, projetam sobre ele a tradição trinitarista ortodoxa que não está necessariamente presente lá de forma explícita. Inconscientemente, apelam a construções filosóficas para a construção de sua teologia, que são inseparáveis dos contextos nos quais tais construções filosóficas emergiram e das razões e formas pelas quais continuaram a fazer sentido para quem as abraçam hoje.

Se pensássemos sobre outros campos teológicos, como a Eclesiologia, por exemplo, veríamos que as três formas mais comuns de administração/organização eclesiástica na Igreja ocidental – o episcopalismo, o presbiterianismo e o congregacionalismo – também dependem duma série de fatores que condicionam a visão de quem lê o texto bíblico. Ou seja, mais uma vez, projetaremos uma visão de mundo não plenamente presente nos textos sagrados em nossa leitura.

Ou seja, gostemos ou não do termo ou da ideia, nossas compreensões teológicas/religiosas são sempre relativas, porque sempre mantêm uma relação com os contextos nos quais emergiram. Nossas tradições de fé emergem num universo cultural particular e fazem uso da língua e dos símbolos daquele universo, ao mesmo tempo em que subvertem os valores desse universo e que, posteriormente, possam construir um universo à parte.

Como tenho sempre afirmado, estar consciente disso não representa uma ameaça à minha fé pessoal – e não deveria representar uma ameaça à fé de ninguém. Muito frequentemente, minha compreensão tem sido atacada por outros fiéis com perguntas como “Como você decide que partes da Bíblia são verdadeiras?”, ou com afirmações como “Você só escolhe o que lhe é mais conveniente!”. Bem, responder a esse tipo de perguntas ou acusações é problemático pelo simples motivo de se basearam em premissas equivocadas. Posso afirmar o que afirmo e manter minha fé porque ela se assenta sobre uma série de perspectivas que são diferentes daquelas abraçadas pelos autores daqueles questionamentos. Nossas visões de autoria, autoridade, liberdade, consciência, comunidade, individualidade, Divindade, humanidade etc, são distintas e, por essa razão, chegamos a considerações bem diferentes. Ou seja, temos visões relativas da realidade e da Realidade! Isso não nos torna mais ou menos “verdadeiros” em relação uns aos outros – no máximo, nos torna mais ou menos conformistas em relação às nossas próprias tradições de fé particulares.


i LOVEJOY, Arthur O. A grande cadeia do ser: um estudo da história de uma ideia. Tradução Aldo Fernando Barbieri. São Paulo: Editora Palíndromo, 2005. p.16.



+Gibson

sábado, 1 de agosto de 2015

Mais uma vez, a Bíblia...


No princípio era a palavra. E a palavra, repetida por lábios tão diversos, escondia, por trás de si, sentidos múltiplos. Essa é a arqueologia do pensamento teológico cristão – e, na verdade, de qualquer pensamento.

É tolice imaginar que nossa devoção e/ou submissão às Escrituras de nossa tradição de fé seja suficiente para atestar uma suposta veracidade de nossas convicções, que seja assentada sobre a universalidade conceitual entre todos os fiéis. Absolutamente todos nós lançamos sobre as Escrituras, quando as lemos e estudamos, nossa própria experiência – ou nosso próprio imaginário – pessoal e coletiva(o).

Quando lemos uma palavra no texto sagrado não atribuímos a ela o mesmo sentido que os antigos o fizeram, nem o mesmo sentido que todos os outros fieis que compartilhem de nossa tradição atribuem. E não o fazemos porque estamos vivos no mundo. Cada um de nós só consegue enxergar o mundo a partir de sua própria perspectiva – mesmo que pensemos que estamos apenas emulando a visão de outros.

Quando ouvimos o nome “Deus”, as palavras “salvação” ou “amor”, o verbo “orar”, etc, não temos os mesmos sentimentos ou os mesmos pensamentos. Podemos até pensar que esses termos tenham ou devam ter os mesmos sentidos igualmente para todos nós, mas não é isso que ocorre – e, para mim, não é isso que deve ocorrer.

Se, como tantos costumam enfatizar, a “palavra de Deus” é viva, então ela deve realmente se tornar viva para o fiel. E só se tornará viva se ele ou ela for capaz de “traduzi-la” para a sua própria alma. Assim, Deus, salvação, amor e orar podem e devem ter sentidos diferentes para pessoas diferentes.

Quando nos debruçamos sobre as Escrituras, nos erguemos “sobre os ombros” de outros para interpretá-la. Isso porque os sentidos que atribuímos aos textos que lemos são moldados, em parte, pelas demais concepções que temos do mundo ao nosso redor. Assim, projetamos nossa herança (chamemos de) cultural sobre o que lemos. Não lemos sozinhos. E, ao mesmo tempo em que fazemos essas projeções culturais (logo, coletivas) sobre o texto, o moldamos à nossa própria percepção do que seja aquela herança cultural. Em outras palavras, a leitura/interpretação é, simultaneamente, coletiva e individual.

Com exceção da afirmação da realidade Divina, não há nenhuma verdade universal que esteja presente ao longo de toda a Bíblia que possa ser imposta a todos os adeptos do “Bom Livro” como um teste de ortodoxia. Para existir, essa ortodoxia tem de ser construída sobre outros elementos, e não o texto bíblico em si. Não importa o quanto se afirme que “minha fé se baseia nas Escrituras; é isso que ela diz e ponto”. Ela diz o que uma determinada visão de mundo quer que ela diga.

Lembro-me dum debate que impus como atividade aos meus alunos no seminário sobre a relação entre o Cristianismo e a guerra. A pequena turma, de treze alunos, foi dividida em dois grupos – um que deveria defender a possibilidade do envolvimento de cristãos com a guerra, e outro que deveria ser contrário a essa visão. Tive o cuidado de pesquisar sua opinião anteriormente, e dividi-los de forma a defenderem mais ou menos a visão que já abraçavam. Os grupos deveriam utilizar a Bíblia Hebraica e o Novo Testamento como fontes básicas para o debate. Tiveram uma semana para se preparar. Minha intenção era exatamente mostrar a eles o quanto nossas leituras dependem do que já carregamos de nosso “conhecimento de mundo”.

O debate foi mediado por outros dois professores e eu.

O debate resultou no esperado. As discussões foram acirradas, tendo se baseado em bons argumentos, nos quais foram utilizados amostras de textos bíblicos que pareciam apoiar a visão de cada grupo. Eles utilizaram o mesmo manual (a Bíblia) e chegaram a considerações muito diferentes! Apesar de terem recorrido ao seu conhecimento histórico e linguístico para sua exegese, a maioria acreditava que estivesse apenas utilizando os argumentos bíblicos.

Fiz uma nova pesquisa de opinião. O tema era a Cristologia (a doutrina acerca da natureza de Cristo) no Novo Testamento. Separei os grupos entre trinitaristas e antitrinitaristas. Só que, desta vez, fiz com que os participantes defendessem uma visão contrária à sua própria. Mais uma vez, tiveram uma semana de preparação.

Dessa vez, contudo, as coisas não foram iguais, ao menos para a maioria dos alunos e alunas. Muitos se mostraram inseguros e menos convincentes na defesa dum ponto de vista contrário ao seu. Os argumentos da maioria eram fracos. Aquela turma de Mestrado, com alunos formados nas mais variadas áreas das humanidades, falava como se tivessem acabado de sair do Ensino Médio.

“O que deu errado?”… Essa foi a discussão que tivemos posteriormente.

Na verdade, não é que algo tenha “dado errado”. O problema é que, ao defender uma ideia que não apreciavam, que desconheciam e na qual não acreditavam, perderam seu “chão”. As fontes textuais que utilizaram não foram convincentemente argumentadas. Tenho certeza que teriam feito um excelente trabalho se tivessem tido a oportunidade de defender, cada grupo, sua própria perspectiva (ou aquela que mais se aproximasse dela).

A atividade ajudou-os a perceber a complexidade da atividade exegética (interpretativa). Após aquela atividade, aparentemente puderam perceber que a interpretação de textos sagrados (em nosso caso, a Bíblia) segue o mesmo padrão de qualquer outro texto: quem somos e o “lugar” onde estamos influencia/molda nossa leitura. É isso que faz com que nossas interpretações não sejam, nem possam ser, as mesmas. Não somos a mesma pessoa, nem ocupamos o mesmo “topos” no mundo – e isso é verdade no que tange a pessoas que professam a mesma tradição e sentam-se uma ao lado da outra na mesma comunidade de fé.

A explicação de Locke não se aplicaria aqui. Não somos uma tabula rasa quando lemos um texto – já temos todo um universo conceitual construído por trás de nossos olhos.

Paz a todos!

+Gibson

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Cristianismo Progressista? Filosofia de vida? – uma resposta aos ouvintes do “Graçacast #69”


Ontem, recebi uma mensagem duma visitante (Rebeca) que me fazia perguntas com base num podcast que acompanha, no qual os apresentadores tratavam sobre o Movimento Progressista cristão e haviam citado coisas que publiquei aqui. Após ouvir a transmissão, respondo a algumas das provocações da visitante sobre o que disseram no programa. Meus comentários não seguem a mesma ordem seguida no podcast, que dura mais de uma hora.

Devo começar dizendo que os apresentadores têm um programa interessantíssimo, apesar de termos visões de mundo bem distintas e/ou até conflitantes. Soam como pessoas relativamente bem informadas e bem intencionadas, e eu respeito o seu ministério online. Penso que seu esforço é louvável. Entretanto, tenho críticas (negativas) a respeito de muitas de suas colocações nesse podcast específico (#69).

Antes de comentar sobre o que disseram, é bom enfatizar que o risco que qualquer um corre quando não se informa suficientemente sobre um tema antes de tratá-lo publicamente é que acaba criando o deslocamento nocional que, em alguns momentos, criaram no programa. Muitas das afirmações feitas pelos apresentadores do programa são fruto duma falta de pesquisa cuidadosa sobre o tema. Os apresentadores, por exemplo, iniciam o programa citando o trecho duma antiga publicação neste blog, e depois misturam os dados daqui com aqueles de um texto escrito pelo Rev. Hal Taussig, e acabam construindo uma informação equivocada sobre o “Cristianismo Progressista”. Para eles, o movimento progressista parece ser, em alguns momentos, uma denominação protestante e, em outros momentos, um movimento teológico uniforme. Eles não poderiam estar mais equivocados.

Num determinado trecho do podcast, um dos apresentadores se refere ao movimento como se esse fosse uma denominação (ele não usa esse termo), dizendo, inclusive, que a primeira “igreja progressista” teria surgido apenas em 2005. Na verdade, esse título – Cristianismo Progressista – é apenas o nome dado a um movimento organizado, nos Estados Unidos, no TCPC (The Center for Progressive Christianity), que foi fundado em 1996 (mil novecentos e noventa e seis) pelo Rev. James Adams – um sacerdote episcopal. O “progressivismo” já existia, no interior de denominações protestantes; o que o nome e o TCPC fizeram foi apenas ajudar a todos aqueles grupos se sentarem juntos e compartilharem sua mensagem. O TCPC é uma rede não-denominacional de igrejas locais (congregações) pertencentes a diferentes denominações cristãs – episcopais, luteranos, congregacionais, unitaristas, universalistas, batistas, metodistas, restauracionistas, presbiterianos, pentecostais, católicos independentes etc. Ou seja, nunca existiu uma “primeira igreja progressista” – se por “igreja” se estiver pensando numa denominação ou numa forma de Cristianismo. Também não se criou mensagem nova nenhuma: o movimento proclama crenças e práticas que estão enraizadas nas diferentes tradições que se juntaram na organização do TCPC e de outras associações semelhantes, que foram organizadas para proclamar publicamente o “progressivismo cristão” – que surgiu ainda no início do século XX. O que as congregações que formam o TCPC fazem é, simplesmente, criar uma rede de colaboração que nunca havia existido fora das denominações específicas.

O movimento não é o mesmo ao redor do mundo. E, na verdade, sequer existe fora do mundo anglófono (os países de língua inglesa e as igrejas de língua inglesa em países onde se falam outras línguas). No Brasil, por exemplo, só quatro congregações colaboram formalmente num movimento brasileiro semelhante – todas elas são igrejas anglófonas (de língua inglesa), incluindo aquela da qual sou Ministro (e essas estão envolvidas com o movimento norte-americano). O movimento norte-americano (nos E.U.A. e Canadá) tem características diferentes dos movimentos britânico, australiano, neozelandês, sul-africano e das igrejas anglófonas da Europa continental – e todos esses são diferentes entre si. As alianças são diferentes, as tradições teológicas são diferentes, as maneiras como se organizam são diferentes, suas declarações são diferentes etc.

O texto que um dos apresentadores cita como se fosse os supostos “cinco pontos” do Movimento Progressista, na realidade, não é uma declaração oficial de nenhuma organização do movimento, logo, não pode ser utilizado como se o fosse. O texto refere-se apenas a uma reflexão pessoal do professor e ministro Rev. Hal Taussig sobre o tema, na qual ele aponta o que ele entende ser as cinco principais características do progressivismo cristão – nem todos os cristãos envolvidos com o movimento concordariam com sua visão. Institucionalmente, o movimento americano, com o qual tenho me envolvido nos últimos 15 anos, proclama oito pontos – que estão traduzidas aqui neste blog desde, pelo menos, 7 de outubro de 2007. Se quiser falar sobre o que o Movimento, oficial e institucionalmente, afirma, deve-se citar aquele documento.

Quando levantam suposições sobre o sentido do termo “progressista”, por exemplo, alguém afirma que “o progressista sugere que, como a própria palavra diz, ela sugere um progresso, significa que você avançou na interpretação da Bíblia, na interpretação das Escrituras, e sobre aquilo que elas diziam…”. Essa é outra afirmação descontextualizada, para alguém que não seja membro duma igreja fundamentalista do Bible Belt dos Estados Unidos (o que não é o caso deles!). E ela é descontextualizada teológica e historicamente (dois fatores que se correlacionam aqui). Vejamos.

TEOLOGICAMENTE: Para dizer o que ele disse, você teria de supor que a única fonte teológica do Cristianismo seja a Bíblia. Ora, as denominações nas quais há congregações ou indivíduos envolvidos com movimentos como o Cristianismo Progressista não são tradições que preguem ser a Bíblia a única fonte teológica cristã. Na verdade, apenas uma ínfima minoria das tradições protestantes ensina isso oficialmente. Por exemplo, para anglicanos/episcopais, luteranos, presbiterianos, metodistas, congregacionais, unitaristas, universalistas, restauracionistas, quakers, e mesmo batistas, a Bíblia não é a única fonte para se entender o Cristianismo – eu, a propósito, discuti isso aqui nos dois textos anteriores a este. Os protestantes mais tradicionais utilizam como recurso para a reflexão teológica a Bíblia, a Tradição, a Razão e, especialmente os herdeiros do Metodismo, a Experiência pessoal. Mesmo o antigo Movimento Fundamentalista fazia menção a essas fontes teológicas. Só grupos minoritários afirmam que a Bíblia seja a única fonte teológica cristã. E, se você atentar cuidadosamente, observará que as congregações que se envolvem com o Movimento Progressista são, geralmente (pode haver, talvez, uma ou outra exceção), parte daquelas tradições que citei. Logo, a ideia de que se refiram, com o adjetivo “progressista”, a um suposto avanço na interpretação das Escrituras não faz absolutamente nenhum sentido!

HISTORICAMENTE: Pessoalmente, também não simpatizo com o termo “progressista”, já que penso ser ele inapropriado em português; mas seu uso deve ser contextualizado no ambiente cultural onde emergiu e é utilizado. O termo, em nosso meio, não se iniciou – como se disse no programa – por conta daqueles movimentos políticos de liberação da década de 1960. Ele também não tem origem no “pós-modernismo” filosófico. O problema com essa interpretação é que ela se baseia unicamente no uso do adjetivo “progressista”, já que, comumente, os movimentos de esquerda – especialmente herdeiros de tradições socialistas – são chamados de “progressistas”. O Progressismo cristão americano está enraizado na tradição do Evangelho Social. Desde o início do século XX já se usava, em inglês, o termo “progressista” para se falar sobre uma perspectiva na qual o trabalho pelo estabelecimento do Reino de Deus na Terra hoje mesmo é uma forma de proclamar o Evangelho e se preparar para a Segunda Vinda. [A soteriologia universalista, que serviu de base ao movimento do Evangelho Social, falava da “salvação” como um “progresso” rumo à construção do Reino de Deus aqui na Terra, antes que Cristo retornasse e completasse o processo de salvação. Essa ideia, por sua vez, fundamentava-se numa compreensão escatológica pós-milenarista, que fora dominante nas igrejas reformadas americanas até o período entre a 1ª e a 2ª Guerras Mundiais. Ou seja, não é olhando para as tradições políticas marxistas que você entenderá o contexto do surgimento do movimento; é, antes, olhando para as tradições teológicas calvinistas!]

Ademais, não foram os adeptos que criaram o termo – o termo foi dado por quem estava de fora. Esses cristãos aceitaram o uso. Quando aceitaram o uso do termo, não pretendiam então, como nossos contemporâneos não pretendem hoje, ver-se como superiores aos demais cristãos. Para entender isso, você tem de compreender o termo em língua inglesa:

“Progressive”, em inglês, não significa, no contexto do movimento, que você “progrediu” mais que outros. O sentido é que você está em movimento rumo a um dado destino. No meio teológico anglófono, como já expliquei, o termo está tradicionalmente associado à herança do Evangelho Social. Quando se fala em “progressista”, uma pessoa teologicamente informada, nos E.U.A., conseguirá fazer a ligação – assim como fará a ligação a uma perspectiva política na história nacional. No Brasil, entretanto, não há essa conexão. Assim, o termo se torna vazio ou até ofensivo. É bom lembrar, contudo, que o mesmo termo é também utilizado por um movimento dentro do Judaísmo desde o início do século XX, exatamente o mesmo momento no qual as teologias do Evangelho Social (no Cristianismo Protestante americano) e do Tikkun Olam (no Judaísmo Reformista) estão se difundindo em igrejas protestantes (unitaristas, universalistas, batistas, congregacionais, presbiterianos, luteranos, anglicanos e metodistas foram os grupos mais influenciados pelo Evangelho Social) e templos judaicos reformistas.

[E você, então, poderia me perguntar a razão de o endereço deste blog ser “cristianismoprogressista”; a razão é simples: em primeiro lugar, iniciei este blog ainda nos E.U.A., para um público de estudantes que falavam português e que frequentava a igreja da qual eu era ministro; em segundo lugar, não havia a disponibilidade do nome que eu queria. Acabei utilizando um título que eu mesmo não apreciava tanto.]

E aí vem a próxima correção que os apresentadores teriam ouvido de mim, se estivéssemos conversando: liberal e progressista não são a mesma coisa! Um protestante evangelical poderia se identificar, sem muito desconforto, como um progressista; mas, talvez, tivesse mais problemas para abraçar uma perspectiva teológica liberal. Mas, sim, é verdade que muitas das ideias abraçadas pelo Movimento Progressista são comuns também aos “liberais” – a mais importante delas, que eles aparentemente não entendem: a soteriologia universalista (isto é, a antiquíssima crença cristã de que Deus, de alguma forma, salvará a todos os seus filhos – ideia defendida por alguns dos Padres da Igreja, como Orígenes e Gregório de Nissa [e eu os cito aqui apenas para demonstrar quão antiga é essa visão dentre alguns cristãos; não se trata de uma invenção recente, de uma novidade!]).

Quando condena o Universalismo, um dos apresentadores diz que isso – isto é, a crença na soteriologia universalista (que ele, obviamente, desconhece) – está expresso nos “cinco pontos” do movimento (ele mais uma vez se equivoca: são oito pontos; os “cinco pontos” sobre os quais fala são apenas as características apontadas pelo Rev. Taussig, que já citei acima), e passa a ideia de que esta seja uma ideia nova. Falando sobre os 8 Pontos (lembre-se que, para ele, são 5), ele diz que “…o principal argumento deles: não tem limite de gênero, não tem ideologia de gênero” [sic]. Ora, a expressão “ideologia de gênero” não aparece no texto, e a noção de “ideologia de gênero” abarca coisas que ultrapassam o que diz o ponto 4, que é o que Taussig discute em seu texto, e que o apresentador cita como se fosse um dos “pontos” defendidos pelo movimento. Reproduzo o texto do “Ponto 4” abaixo:

4) Convidamos todas as pessoas a participarem em nossa comunidade e em nossa vida de adoração, sem insistir que elas se tornem como nós para serem aceitas, incluindo, mas não se limitando a:
* crentes e agnósticos;
* cristãos convencionais e céticos;
* mulheres e homens;
* aqueles de todas as orientações sexuais e identidades de gênero;
* aqueles de todas as raças e culturas;
* aqueles de todas as classes e habilidades;
* aqueles que esperam um mundo melhor e aqueles que perderam a esperança;


Teologicamente, mais uma vez, o que alimenta essa compreensão é a soteriologia universalista abraçada pelo movimento – o termo “soteriologia”, a propósito, é um termo teológico que se refere às doutrinas referentes à “salvação”. Assim, apesar de parecer apenas uma afirmação de ideologias de gênero, trata-se da afirmação duma compreensão teológica milenar entre alguns cristãos. Mas, novamente, quando se fala publicamente de certos temas sem se fazer uma pesquisa séria, é nisso que dá: afirma-se enganos que poderiam ser evitados se conhecessem um pouco mais de teologia e história protestantes.

A questão da relativização. Na realidade, escrevi recentemente sobre isso aqui, então tentarei ser breve. Um dos apresentadores diz que o maior questionamento contra os cristãos progressistas – questionamento que ele partilha – é “não interpretar a Bíblia da forma correta”!… Bem, alguém poderia escrever uma tese a respeito do que está por trás dessa frase. Você tem de perceber a partir de qual perspectivas falam os apresentadores do programa: aparentemente – o que é o caso também de minha leitora, a julgar pelo que me escreveu –, eles acreditam que a Bíblia e o Cristianismo sejam a mesma coisa, e acreditam nas teorias da “infalibilidade” e “inerrância” do texto bíblico. Eu – como a maioria dos protestantes herdeiros de tradições mais antigas do Protestantismo – não partilho nem nunca partilhei dessa ideia.

Essa equalização entre Bíblia e Cristianismo, ou vice versa – o que quer dizer, para quem acredita nisso, que só é cristão aquele que supostamente acredita em/faz absolutamente tudo o que as Escrituras ensinam (ou seja, trata-se da recusa em aplicar o pensamento crítico à Bíblia, ao menos declaradamente) –, e as teorias da “inerrância” e “infalibilidade” têm uma data de nascimento: a segunda e a terceira gerações dos reformadores, que criaram a teoria da inspiração plenária da Bíblia (isto é, que os textos bíblicos foram diretamente inspirados – “ditados” – por Deus).

Johann Quenstedt, um luterano, é o principal nome na origem dessa compreensão de inspiração plenária. Para ele, qualquer coisa presente nas Escrituras deveria ser entendida como verdadeira e inquestionável, fosse a respeito do que fosse. Não haveria espaço para metáforas, por exemplo – algo que a Igreja sempre levou em consideração. Também não haveria espaço para a compreensão ensinada por Martinho Lutero de que a Bíblia se tornava revelação de Deus no momento em que era pregada e ouvida; para Quenstedt, era o que estava escrito que importava.

Assim, essa visão de “inspiração plenária” ignora toda a diversidade de tradições hermenêuticas e exegéticas da Igreja, especialmente aquelas tradições antiquíssimas das escolas alexandrina e antioquina de exegese bíblica – que, respectivamente, fazia uma interpretação literal suplementada por um apelo à metáfora/alegoria, enquanto a outra interpretava a Bíblia com base no exame do contexto histórico das Escrituras. Não estou falando aqui duma novidade “pós-moderna”; essas tradições estavam ativas nos primeiros séculos da história cristã e, de certa forma, continuam vivas ainda hoje nas diferentes tradições cristãs. Mas, obviamente, quando alguém pensa que conhece a única resposta válida, e ignora as histórias e as teologias cristãs, nada disso é relevante!

Essa ideia de “inspiração plenária” retorna com maior força a partir da organização do Movimento Fundamentalista, no século XX, e é essa ideia que adentra o Evangelicalismo brasileiro. É por essa razão que, talvez, a maioria dos evangélicos brasileiros acredite/pregue isso. Suas comunidades de fé herdaram a teologia que emergiu no período de conflito entre liberais e fundamentalistas há cerca de um século atrás. Eles nunca conheceram outra visão. Para eles, isso é o Protestantismo.

Escrevo isso para demonstrar o quão mal fundamentada está a argumentação da “relativização”. Ela faz sentido apenas para quem sempre acreditou que houvesse apenas uma compreensão válida. Se esse fosse realmente o caso, então o próprio meio evangélico teria (ainda mais) sérios problemas: se só há uma interpretação válida, o que dizer sobre todos os outros evangélicos que compreendem as coisas de outra forma? Todos seriam “hereges” (ou sei lá que qualificativo utilizam)?… Pergunto isso porque batistas, presbiterianos, metodistas e assembleianos, por exemplo, não interpretam a Bíblia da mesma forma em todos os aspectos! Quem teria razão, então?… Essa variação de interpretação entre esses grupos, e no interior de cada um deles, é chamada de “relativização” (=contextualização)!… Mas já expliquei muito sobre isso nas duas últimas postagens neste blog, então penso não ser necessário acrescentar mais nada.

Contextualizando ou relativizando a posição dos apresentadores, eles dizem o que disseram no programa porque sua compreensão teológica baseia-se numa visão da Bíblia como sendo plenariamente inspirada e, consequentemente, inerrante e infalível. Ora, apenas uma minoria dos cristãos do mundo acredita nisso; e mesmo se formos nos referir apenas aos grupos protestantes, só aqueles que descendem de igrejas enraizadas na tradição teológica fundamentalista (o termo não é pejorativo – trata-se da tradição que se opunha aos liberais/modernistas/progressistas no início do século XX) ensina isso hoje no mundo (apesar de serem, provavelmente, a maioria no Brasil, por razões históricas específicas).

O que eu quero dizer é: você não pode realmente pensar que alguém que não acredite numa crença minoritária seja um herege! Cristãos liberais e cristãos progressistas tendem a reconhecer sua limitação humana, afirmando que “nós podemos estar errados, então é por isso mesmo que não julgaremos aqueles que não pensam como nós”. Mas os apresentadores do programa, aparentemente, não compartilham desse reconhecimento de suas próprias limitações humanas. Para eles, se você não acredita na inspiração plenária, na inerrância e na infalibilidade da Bíblia, então você é qualquer coisa, menos cristão!

Ah, mas como uma resposta ao que um deles disse, já próximo ao fim do programa: sim, ser tolerante é ser relativista! [Ele dizia o oposto disso.] O problema com o uso que fazem do verbo “relativizar” ou de termo “relativo” é que demonizam a noção de relativização, sem perceber que a relativização faz parte de absolutamente tudo o que fazemos na Igreja e na sociedade. Quando você tem de tomar uma decisão que entre em conflito com o que é habitual, por exemplo, você relativiza: tenho de estar na igreja na manhã de domingo, mas meu vizinho quebra a perna e me pede para levá-lo ao hospital – se eu for, ficarei lá até ele ser atendido –, o que faço? Vou à igreja e não socorro ao meu vizinho? Bem, o próprio Jesus, de acordo com as Escrituras, deu a resposta a isso: Marcos 3:1-6. O que ele faz ali, de acordo com o relato em Marcos, é relativizar um mandamento. Um exemplo que parece tolamente óbvio, mas é um exemplo de relativização nas próprias Escrituras. Quando somos tolerantes, até um certo nível, colocamos o “outro” numa posição maior do que o que pensamos sobre nossas próprias convicções; o que fazemos, então, é relativizar nossas crenças para que possamos construir um outro ambiente. Relativizar é criar uma relação com nossas próprias crenças – assim, você só pode ser tolerante se a tolerância tiver uma relação com sua visão de mundo; é isso que torna possível a tolerância, e é por isso que a tolerância é uma forma de relativização.

É nesse ponto que reside a importância da compreensão da relativização da verdade, sobre a qual eles se debruçaram tanto sem compreender a visão que temos. Quando eu, por exemplo, falo em “verdade relativa” não estou afirmando que não haja uma verdade absoluta. Para mim, há. O que eu não posso dizer, contudo, é que aquilo que entendo como verdade seja a mesma à qual outra pessoa chegará. E seria prepotência e orgulho dizer que eu conheço a verdade que todos devem abraçar – e, em minha fé, o orgulho é um pecado. Por isso falo sempre em “para mim”, “em minha opinião”, “em minha visão” etc. Essa é uma forma de relativizar a verdade – ou seja, afirmo que aquilo é verdade para mim, mas você é livre para acreditar em outra coisa. Tenho uma visão de Deus e de Jesus Cristo que são próprias de minha tradição unitarista. Os argumentos para minha crença se baseiam, em parte, nas Escrituras. Aquela visão é verdade para mim. Um católico romano que segue a doutrina oficial de sua comunhão, contudo, tem uma outra compreensão teontológica e cristológica. Ele é um cristão. Sua crença é majoritária. Não posso esperar que ele deva acreditar no que acredito, ou não será um cristão. O que acredito sobre Deus me faz pensar que Deus está além de nossa compreensão humana finita. Os autores da Bíblia, por exemplo, mesmo inspirados, utilizaram uma língua humana finita. Eu sou um humano finito. Meu vizinho católico também. E aí, o que faço para lidar com isso? Não se pode esperar que eu mude minha crença para ser aceitável ao meu vizinho. Também não posso esperar que ele mude para que eu o aceite… É aí que entra o papel da relativização na convivência humana: a relativização e a tolerância se entrelaçarão, e ele e eu poderemos viver nossa fé em respeito um ao outro. O que eu acredito ser a verdade ainda será, e vice versa. É isso que significa “relativizar a verdade”, no que tange à nossa relação com outras pessoas: não é abandonar nossa verdade, é apenas lembrar que outras pessoas também têm o direito a entender a verdade de sua fé da forma como acharem melhor.

A questão da Filosofia. Num certo momento, um dos apresentadores, falando sobre a suposta influência do “liberalismo teológico” no Cristianismo Progressista, diz que a teologia liberal “relativiza a autoridade da Bíblia, né?, aquilo que a gente já sabe sobre o liberalismo teológico, né?, que mescla filosofia, consciência e religião...” – fazendo seu comentário, obviamente, num tom pejorativo (expressando o característico anti-intelectualismo do evangelicalismo dominante no Brasil, que torna “filosofia” um palavrão), e seguindo os estereótipos típicos construídos por alguns apologistas do meio evangelical brasileiro.

A “psicologia de fila de banco” [a expressão irônica, a propósito, é minha, não deles] – que se relaciona ainda à questão da filosofia – utilizada para explicar a razão porque cristãos abraçariam visões “progressistas” é ridícula. Eu, por exemplo, não sou um liberal e progressista porque me cansei de “legalismo” na Igreja ou porque queira licença para pecar. Minha posição teológica não é de reação. Eu estou enraizado numa tradição teológica que ensina essa visão. Foi essa a visão que aprendi na Igreja, no seminário, em casa e em minha vida cristã. O Cristianismo não é, para mim (como afirmou um dos apresentadores a meu respeito, num característico tom anti-intelectualista) apenas “uma filosofia” – ele é, sim, uma “filosofia”, se com o termo nos referirmos a uma “visão de mundo”: minha relação com o Divino, minha visão religiosa de mundo, meu imaginário religioso, minha linguagem religiosa se assentam no Cristianismo, logo, o Cristianismo é minha “filosofia” de vida. O Cristianismo é minha fé. Novamente, o problema parece ser que compreendemos a noção de “fé” de formas bem distintas. A fé não é uma crença morta; é uma esperança que produz frutos, como bem explicita Tiago 2:14-26. Mas eles, como supostos conhecedores dos textos bíblicos, já devem saber o que uma outra passagem bíblica diz sobre esses frutos, Gálatas 5:22. [A propósito, é bom contextualizar o que escrevi, e que ele cita de forma seletiva que pode desvirtuar o sentido de meu texto; então, leia minha declaração completa, publicado aqui em 12 de maio de 2009 – ela é o trecho de um livro que publiquei em 2003, nos Estados Unidos: O MEU CRISTIANISMO.]

O que uma pessoa informada poderia perguntar a ele, contudo, é se ele realmente pensa que ele mesmo não mescle “filosofia” (=uma visão de mundo) e “consciência”(=razão) em suas visões teológicas(?). Como tratei disso longamente nas duas últimas publicações neste blog, não responderei a esta questão aqui. Mas posso encontrar a gênese do que ele disse em sua visão da natureza e papel da Bíblia no Cristianismo, que já discuti brevemente anteriormente.

Sexualidade. O tema é enfatizado no podcast – novamente, uma característica do Evangelicalismo majoritário brasileiro, isto é, a ênfase em “moralidade sexual” –, mas eu, a não ser que seja uma discussão inteligível sobre o tema, não discuto isso aqui. Logo, não farei comentários sobre o que disseram, a não ser este: querer comparar a aceitação do relacionamento entre duas pessoas do mesmo sexo por um cristão à aceitação do aborto ou do incesto é, no mínimo, de uma desonestidade intelectual incrível!… Por essa e por outras, não perderei meu tempo comentando teologicamente os argumentos que ouvi!

Jesus. Não consigo levar à sério os comentários que fizeram sobre o que os “cristãos progressistas” acreditariam acerca de Jesus. Isso só mostra o quanto leram pouco antes de tratarem o tema em seu programa. A raiz do que disseram encontra-se, como já disse antes, em sua visão da natureza e papel da Bíblia, mas também em sua compreensão de como a teologia protestante tem sido historicamente construída. Falta em seus argumentos, ademais, uma familiarização com a história tanto da teologia cristã quanto da Igreja – sem falar, obviamente, no desconhecimento dos pensamentos teológicos presentes no movimento que tratam em seu programa.

Cristianismo light?... Pensar que viver a fé que cristãos liberais e/ou progressistas comprometidos vivem em suas vidas diárias é light é tolice, já que não considera que nossas diferentes tradições exigem um “processo de conversão contínuo”. No meu caso específico, como um unitarista, mente, coração e ações, metaforicamente falando, se unem no trabalho de compreender a Deus e a lidar com o meu “próximo” aqui e agora. Isso significa pautar minhas ações por uma convicção de que aquilo que faço é – na melhor compreensão que posso ter do que seja verdadeiro e de qual seja a vontade de Deus – certo (sim, porque diferentemente do que se pode pensar, para nós há “certo” e “errado”, nossa fé não é um “vale tudo”). Um dos apresentadores faz um comentário muito certo quando diz que ser cristão é um processo que se estende ao longo da vida – isso é, inclusive, algo que já escrevi aqui muitas vezes. Minha tradição me ensina que “mudar de ideia” é aceitável e natural.

Autoridade. Quando falam sobre autoridade, referem-se, primeiramente ao contexto católico – citando Leonardo Boff –, para discutir o contexto protestante, falando sobre o questionamento da autoridade de líderes eclesiásticos. O que eles, aparentemente, ignoram é que nem todas as tradições protestantes abraçam essa visão de autoridade que eles abraçam. É só lembrarmo-nos dos quakers [ou quacres], por exemplo, para quem o indivíduo é o eixo da autoridade – o cristão se relaciona com Deus por meio da influência direta do Espírito ao seu coração/mente (sem precisar de intermediários, como pastores, sacerdotes etc). Ou, lembrarmo-nos, como exemplo, do movimento batista anglófono não ligado à tradição do sul dos E.U.A. – sim, porque essa tradição tem uma compreensão de autoridade diferente –, a autoridade se centra na consciência do indivíduo (a razão), enquanto recipiente do Espírito Santo em sua leitura das Escrituras. Nas tradições anglicana/episcopal, unitarista, universalista, metodista e congregacional, o indivíduo, mais uma vez, é o eixo dessa autoridade – não seu líder eclesiástico. Então, falar no questionamento da autoridade como se isso fosse uma violação da Bíblia ou da fé cristã é desconhecer a multiplicidade no meio protestante!

A questão do “joio e do trigo”. Isso tem a ver, mais uma vez, com a perspectiva teológica que se abrace. Para os apresentadores do programa, a resposta está em sua visão da Bíblia e seu não reconhecimento de que essa sua visão emerge de uma série de outras “visões de mundo”, concernentes tanto à própria teologia quanto ao dito mundo secular. Assim, eles já sabem que é o “joio” e quem é o “trigo”: o “joio” será sempre aquele que pensa de forma que conflitue com o que eles mesmos acreditam ser a verdade – algo que, de certa forma e infelizmente, é comum a todos nós.

O belicismo ideológico. Sim, é verdade que há muitas pessoas que falam em respeito e tolerância, mas que, na vida real, esperam que todas as pessoas e grupos pensem exatamente como eles. Nos meios ditos “progressistas” e “liberais” protestantes isso acontece. Mas é importante notar que isso não é o que se prega. A generalização de que todos nós – e quando falo em “nós” me refiro apenas àquelas igrejas locais ou indivíduos que estejam, de alguma forma, relacionados ao TCPC, não me refiro a outras coisas que aconteçam entre protestantes brasileiros e que desconheço – sejamos militantes que desrespeitam a fé de outros cristãos é uma acusação inverídica e soa muito mais à mentalidade da vitimização.

Eu, por exemplo, enquanto a sociedade atacava o citado Silas Malafaia por suas posições contrárias à homossexualidade, escrevi aqui mesmo em defesa de seu direito de acreditar no que acreditava e de pregar o que pregava. Deixei claro que discordava de suas posições, mas que não podia acusá-lo de “homofóbico” apenas porque discordava de minha posição. Não fiz isso porque sou bonzinho e perfeito. Fiz porque é isso que minha tradição de fé ensina e o que ensino àqueles a quem ministro – como também o fiz porque a liberdade de opinião e expressão é o cerne de minha tradição política. Aprendi, desde criança, em casa e na Igreja, que não posso ter liberdade de opinião e expressão se outras pessoas não o tiverem. Eu continuo a defender isso, tanto publicamente quanto em minhas atitudes pessoais, seja como cristão ou cidadão. Então, a generalização feita por um dos apresentadores, de que os cristãos progressistas” ou “liberais” não sejam tolerantes para com os cristãos “conservadores”, e de que haja uma perseguição de nossa parte àqueles, não corresponde à realidade – especialmente porque na maioria das igrejas às quais estamos ligados, seja como fiéis ou como Ministros, convivemos com os dois grupos.

Falta apenas mencionar a falta de compreensão que os apresentadores têm sobre o que seja a tradição liberal protestante (estou falando “liberal” agora, e não “progressista”) – que não tem absolutamente nada a ver com as descrições que fizeram. Essa antipatia para com a tradição liberal e a má vontade em compreendê-la tem muito mais a ver com a história das igrejas presbiterianas e batistas em meados do século XX, no Brasil, do que com qualquer outra coisa (refletindo o conflito entre liberais e fundamentalistas nos E.U.A.). E essa herança se estendeu a todo o meio protestante brasileiro até hoje. Mas isso mereceria uma discussão à parte.

Para finalizar, respeitosamente, posso usar as palavras de um dos apresentadores, que podem servir como conselho para seus ouvintes no que tange ao que eles próprios disseram em muitos pontos de seu podcast:

Toda generalização é burra. Toda. Sem exceção!

Paz a todos!

+Rev. Gibson da Costa