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quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Bancada BBB: Os “falsos profetas” da Política cristianizada ou do Cristianismo politizado brasileiro


*Imagem disponível em: http://paraibageral.com.br/wp-content/uploads/2017/12/bbb.jpg


Este é mais um ano de eleições no Brasil. Na verdade, é um ano no qual as disputas políticas se acirraram de maneira tal que ninguém mais parece saber em quem confiar para ocupar um posto eletivo. Afinal, o país se encontra no meio dum furacão político no nível federal, cujos efeitos se fazem sentir nos cenários estaduais e municipais. E toda essa convulsão política tem efeitos na vida moral da sociedade, inclusive, infelizmente, nas compreensões teológicas que se desenvolvem no seio das comunidades cristãs brasileiras.

Muitos dos chamados “evangélicos” brasileiros – e devo enfatizar que, em meu uso, “evangélico” e “protestante” não são necessariamente sinônimos – importaram a teologia e a política belicistas de certos grupos ligados à chamada “direita cristã” dos Estados Unidos, querendo aplicar ao Brasil uma ideologia desenvolvida para o cenário rural, racista e isolacionista do chamado “cinturão da Bíblia” americano. Eles têm, no Congresso Nacional brasileiro, até um nome autoritário para seu grupo político (nome que se repete, com variações, nas Assembleias Legislativas de alguns Estados e nas Câmaras de muitos municípios): “Frente Parlamentar Evangélica” – e chamo de “autoritário” porque se impõem, publicamente, como representantes de todos os “evangélicos” brasileiros (algo que, em si, já deveria tornar-se um motivo de indignação por parte das comunidades evangélicas e protestantes Brasil afora).

Esses senhores e senhoras senadores, deputados e vereadores – muitos dos quais são acusados e/ou processados por corrupção, entre outros crimes – se vendem não apenas como representantes de seus eleitores, mas como representantes de Deus, de Cristo e da família. Seu charlatanismo chega a ser tão explícito que se apresentam como “apóstolos”, “pastores” e “missionários”, e não como simples representantes eleitos por uma parcela do “povo”. E isso porque, assim, podem impor ao seu trabalho legislativo uma imagem de santidade que não poderiam vender se fossem apenas senadores, deputados ou vereadores – seriam representantes da Divindade nos meios legislativos.

A arma utilizada por esses grupos é antiga e bem conhecida: a instrumentalização do medo. Assim, criam em seus eleitores, em seus discípulos, em seus seguidores, em seus fieis o medo de tudo aquilo que possa parecer diferente. O que é diferente é uma ameaça. O que é uma ameaça é um inimigo. E o inimigo deve ser combatido até que não haja mais ameaças. E como a ameaça só existe se houver inimigo, então... bem, faça as contas e entenderá qual seria a solução!

O que essas pessoas fazem vai muito além de apenas criar o medo em seus eleitores para, assim, conseguirem seus votos em épocas eleitorais. Eles deturpam o Evangelho de Cristo, violentam a dignidade da fé e saqueiam a racionalidade teológica para conseguirem o poder para si. Sua imoralidade é tamanha que conseguem transformar, na mentalidade e prática de seus seguidores, o “Príncipe da Paz” em “senhor da guerra”, o Jesus do amor e perdão em defensor do “direito ao porte de armas”.

Pode parecer injusto de minha parte, mas não me sinto nem um pouco culpado ou envergonhado por chamar os membros desse movimento imoral de “falsos profetas” e “enganadores”. Minha generalização impiedosa é mais do que necessária. É muito mais vergonhoso que qualquer pessoa que se identifique como discípulo de Jesus (seja evangélico, protestante, católico ou adepto de qualquer outra forma de Cristianismo) não se sinta nem um pouco incomodada em haver grupos como esses se vendendo como seus representantes políticos.

Esses representantes de si mesmos, em seu esforço para se tornarem porta-vozes duma “Política cristianizada” – ou seria “[Pseudo]Cristianismo politizado”? – identificam a mensagem de paz do Evangelho, o ensinamento cristão do cuidado para com o mais fraco e o faminto, a atenção para com a viúva e o órfão, etc, como mensagem “comunista” ou “marxista”. Assim, esses iletrados na religião cristã, mas também em filosofia política, promovem uma política anti-Jesus em defesa de sua visão dum “novo” velho mundo: um mundo no qual o homem-senhor reina sobre “sua mulher” e filhos, com a Bíblia numa mão e a chibata na outra; um mundo no qual armas são essenciais para a “paz”; um mundo no qual o “cristianismo” é tão frágil que é ameaçado por qualquer crença não “evangelical” (eles não sabem que o Cristianismo não se limita ao Evangelicalismo!).

Quão patológico não é o falso “evangelho” anunciado por esses “profetas” da política brasileira?! E o pior é que seus discípulos, que, em sua maioria, são pessoas honestas e sinceras que apenas caíram nas velhas redes do medo, não percebem isso! Se percebessem, tenho certeza, pensariam dez vezes antes de votar naqueles senhores ou senhoras.

Não, esses falsos profetas no Congresso, nas Assembleias Legislativas estaduais e nas Câmaras municipais não representam a maioria dos evangélicos brasileiros. E por essa razão, não deveriam ser eleitos como seus representantes e não deveriam ser retratados como porta-vozes dos evangélicos ou dos protestantes do Brasil!


P.S.: Texto originalmente publicado, aqui mesmo, em 17 de julho de 2016. Infelizmente, nada mudou na política brasileira!

+Gibson


domingo, 2 de dezembro de 2007

Candidatos oficiais e os escândalos nacionais

“Diante das denúncias na CPI da máfia das ambulâncias, é inadmissível o silêncio de lideranças que proclamam com estardalhaço a presença evangélica em períodos eleitorais”
O Seguinte texto é de autoria de Alexandre Brasil Fonseca, tendo sido publicado em 12/08/2006 em "Teologia Brasileira" (Edições Vida Nova). Por o tema ser de grande importância, resolvi postá-lo aqui.

Dos 72 parlamentares denunciados pela CPI da máfia das ambulâncias, quase 40% (28) se proclamam “deputados evangélicos” e 36% (26) participam da Frente Parlamentar Evangélica, segundo folheto distribuído pelo gabinete de seu presidente, o deputado (também denunciado) Adelor Vieira (PMDB-SC) e que é composta por 60 parlamentares. Quase 15% de todos os deputados foram denunciados, enquanto entre os parlamentares evangélicos – que ocupam cerca de 11% das cadeiras do Congresso Nacional – esta cifra chega a impressionantes 45%. Praticamente a metade da bancada dos evangélicos parece ter se envolvido no escândalo dos sanguessugas.

O problema não reside exatamente na confissão religiosa professada, mas pelo fato de que boa parte deles acionou suas redes e estruturas eclesiásticas em sua atuação político-eleitoral, a qual, desde a bancada evangélica na Constituinte de 1986, tem se tornado cada vez mais significativa no cenário eleitoral e partidário brasileiro.

Ser deputado evangélico representa atuar diretamente com a comunidade religiosa e ter a sua campanha potencializada por intermédio da concentração de mídia vertical que as igrejas possuem. Candidatos oficiais são apoiados pelas lideranças eclesiásticas, e, dessa forma, toda ação eleitoral fica semelhante a uma pescaria no aquário. Isso ocorre pelo acesso facilitado desses candidatos aos eleitores, os quais consideram seriamente a questão de “representante de grupo” para a votação proporcional.

Também merece destaque o fato de que algumas denominações destacam-se nesta lista, especialmente igrejas que criaram coordenações políticas com o objetivo de organizar sua atuação eleitoral e também, espero, na perspectiva de desenvolver um diálogo republicano com o Estado. A Igreja Universal do Reino de Deus é a que mais se destaca. Praticamente todos os parlamentares da denominação se encontram envolvidos. Dos 16 deputados em exercício apoiados pela denominação, 13 figuram na lista de denunciados pela CPI. Soma-se a eles Carlos Rodrigues, ex-deputado e ex-coordenador político da igreja, que, após renunciar devido ao seu envolvimento no mensalão, acabou preso em função deste novo escândalo e é o parlamentar que mais figura como investigado em CPIs nesta legislatura. Cerca da metade dos deputados apoiados pela Assembléia de Deus e pela Igreja Quadrangular são citados, assim como o único deputado da Igreja Internacional da Graça de Deus.

Num fórum da internet no portal da Igreja Universal é possível encontrar tópicos em que fiéis lamentam e se questionam sobre o envolvimento dos parlamentares ligados à igreja. Também se questiona o silêncio da liderança denominacional e são exigidas respostas. É provável que o envolvimento desses evangélicos nos escândalos tenha como conseqüência a diminuição da bancada parlamentar da Universal, a qual tem crescido significativamente a cada legislatura desde o primeiro eleito, em 1986.

Esses parlamentares e as lideranças evangélicas precisam vir a público e expressar posição clara e firme sobre este assunto para o conjunto da sociedade, seja em seus jornais, emissoras de rádio ou TV e na grande imprensa. É preciso apresentar explicações e aproveitar este momento para uma avaliação crítica dos limites e das implicações que representam o fato de uma agremiação religiosa possuir “candidatos oficiais”.

Esses deputados foram eleitos com o apoio oficial dessas lideranças, e, portanto, estas têm parcela de responsabilidade em sua atuação parlamentar. Já os fiéis merecem esclarecimentos ainda maiores. Foram eles os acionados no sentido de apoiar os “candidatos oficiais”. São, além de eleitores, “irmãos de fé” desses parlamentares e de seus líderes religiosos, e é inadmissível que tenhamos o silêncio das tais lideranças que proclamam com estardalhaço a presença evangélica em períodos eleitorais.

O envolvimento dos parlamentares evangélicos neste novo escândalo também parece representar um bom momento para uma revisão da atuação político-eleitoral recentemente disseminada entre as igrejas evangélicas, a qual se inspira no modelo assumido pela Universal, primeiramente. Os últimos acontecimentos parecem indicar que esta não é a postura mais adequada para uma inserção política das igrejas evangélicas. Não há motivo para se negar a importância e a legitimidade de participação deste grupo na vida pública e política nacional. A questão que se coloca é em relação às motivações e ao formato em que se dá esta participação.

As igrejas são importantes atores, e possuem significativa capilaridade social. Uma participação ativa e consciente dos seus fiéis pode representar importante contribuição para a consolidação democrática brasileira. É preciso avançar, tanto nas apurações do Ministério Público como no trabalho desenvolvido na CPI, além de termos maior visibilidade e disseminação de informações sobre estas investigações e seus resultados. Assim, provavelmente, teremos melhores eleitores como também melhores parlamentares, sejam eles evangélicos ou não. Não é tempo para cinismo, mas de maior participação, tanto no voto quanto no acompanhamento dos eleitos. Tal postura deve resultar na intensificação e no aperfeiçoamento do controle social. A democracia é um aprendizado, e mesmo com esses percalços, é o melhor caminho que se pode trilhar.

Alexandre Brasil Fonseca é sociólogo, doutor em Sociologia pela USP e professor do Laboratório de Estudos da Ciência do NUTES na UFRJ. É conselheiro do Conselho Nacional de Políticas Públicas para a Juventude do Governo Federal, assessor do programa “Fé, Economia e Sociedade” do CLAI, coordenador geral do FALE, rede de defesa de direitos, e membro representante da América Latina no comitê diretivo da International Association for the Promotion of Christian Higher Education.