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sábado, 14 de novembro de 2020

Religião e Política nas Eleições – Ou: Como nossa imaginação religiosa influencia nossas escolhas políticas

Minha orientação religiosa secularista não é segredo para absolutamente ninguém. Sou um convicto defensor da estrita separação entre Igreja/religião e Estado. De igual maneira, defendo a estrita separação entre a religião e os palanques eleitorais, e considero a instrumentalização política da religião como algo inaceitável num Estado laico. Minha visão religiosa, entretanto, apesar de secularista – e, em minha própria compreensão, humanista –, não deixa de influenciar a forma como compreendo o mundo social e, consequentemente, minhas escolhas políticas.


A religião, para mim, não é divina nem é sobrenatural. É, sim, uma construção humana, enraizada nas estruturas socioculturais e nos contextos históricos nos quais nos encontremos. Nossa “imaginação religiosa” – para apropriar-me, talvez indevidamente, dum clássico neologismo sociológico de C. Wright Mills – tem muito a dizer sobre nosso lugar social, da mesma forma como nossas visões políticas, e tem, obviamente, um reflexo nas escolhas eleitorais.


Esse elo filosófico entre o que se professa religiosamente e em quem se vota pode, obviamente, passar muito próximo do limite ético daquele conceito de laicidade do Estado – quando, por exemplo, se utiliza a filiação/lealdade religiosa como moeda para o voto (é só pensar nos incontáveis “Pastores/as”, “Missionários/as”, “Irmãos/ãs”, “Padres”, etc, que se candidatam a cargos eletivos!) –, mas todos nós, religiosos ou irreligiosos, somos influenciados pela carga ideológica de nosso meio social, consciente ou inconscientemente. Ou seja, independentemente de quem sejamos, todos nós falamos, ouvimos e votamos a partir dum lugar social.


Em se tratando do Unitarismo, nossa história oferece muitos exemplos dessa relação entre religião e política. Os unitaristas, afinal, sempre viram sua fé como uma fé politicamente orientada. Nossas atitudes para com nosso próprio dogma do valor e dignidade humanos, da liberdade absoluta de opinião, do desafio ao autoritarismo político e religioso, do questionamento ilimitado de nossas próprias crenças, tornam nossa tradição religiosa uma tradição socialmente politizante – apesar de não necessariamente partidária, considerando a relativa diversidade de filiações políticas entre nós (de libertários a comunistas, e toda a diversidade entre as duas).


Quando penso nos exemplos do diálogo positivo entre religião e política, no contexto unitarista, não posso deixar de pensar no radicalismo liberal anticonformista de Joseph Priestley, na Inglaterra do século XVIII; na destemida defesa dos direitos das mulheres por Abigail Adams, no período da Revolução Americana, no século XVIII; no radicalismo antiescravagista de Theodore Parker, no abolicionismo barulhento de Samuel J. May e nos esforços antiescravistas de John Quincy Adams, nos EUA do século XIX; no trabalho de Susan Brownell Anthony para que as mulheres pudessem votar e participar da vida política, também nos EUA do século XIX; na labuta de Sandra Ferreira, no Brasil do século XX, pela proteção das mulheres contra a violência doméstica; no imenso esforço de Margaret Barr para construir pontes de diálogo entre diferentes culturas, na Índia do século XX; na liderança de Ethelred Brown do movimento de Humanismo Negro na Igreja Unitarista do Harlem, nos EUA do século XX.


Todos esses unitaristas materializaram suas perspectivas religiosas em suas ações políticas no mundo, em favor de todas as pessoas e não de si próprios ou de outros unitaristas apenas. É nesse sentido que a relação entre religião e política pode ser positiva, mesmo num contexto de separação entre religião e Estado.


Em se tratando da relação entre religião e eleições, nem sempre é fácil manter uma coerência absoluta entre o que professamos e o que escolhemos eleitoralmente. Pessoalmente, me pergunto sempre como escolher um/a candidato/a a qualquer cargo eletivo que defenda pelo menos a maioria de minhas posições quando essas não são as posições das/os candidatas/os disponíveis?


Pessoalmente, observo alguns aspectos relevantes:


  • Quem é a/o candidata/o? Qual o seu histórico político e o de seu partido? Quem faz parte de sua equipe?

  • Quem patrocina sua campanha? E, mais subjetivamente, que interesses estariam por trás desse patrocínio?

  • Quais as suas propostas específicas?

  • Qual o seu comportamento para com seus oponentes políticos? Como desenvolveu sua campanha?

  • O que diz e como a/o candidata/o lida com os temas que mais me interessam:

    • democracia e o Estado Democrático de Direito;

    • honra e respeito ao valor e dignidade humanas;

    • diversidade sociocultural;

    • combate ao racismo, machismo/chauvinismo, xenofobia, homofobia;

    • proteção das crianças e dos adolescentes;

    • proteção do meio ambiente;

    • educação pública, gratuita e democrática de qualidade para todos;

    • ciência;

    • seguridade social;

    • renda básica universal;

    • internacionalismo;

    • paz.



Esses são alguns dos elementos que levo em consideração em minhas escolhas eleitorais e que se relacionam mais diretamente com minhas perspectivas filosóficas e religiosas. A crença ou descrença religiosa da/o candidata/o, sua religiosidade ou irreligiosidade não a/o faz melhor ou pior candidata/o – da mesma forma que sua cor, sua orientação emociono-sexual ou sua identidade de gênero. Sua história de atuação, suas relações com outros atores políticos, suas propostas e as ideias que defende são o filtro que utilizo para selecionar a/o candidata/o para um cargo eletivo.


Votar é se comprometer com o presente e o futuro de toda a nossa sociedade, em toda a sua diversidade. Quando votamos, assumimos a responsabilidade de decidir o que afetará as vidas de mulheres e homens, jovens e velhos, de todas as cores, de todas as des/crenças, de todas as sexualidades, de todas as classes/status sociais; além do que afetará as nossas próprias vidas e as de nossas famílias e amigos. Por esta razão, independentemente de nossas visões políticas ou lealdades partidárias, é importante votar conscientemente.


Vote com segurança e responsabilidade cidadã neste difícil ano de 2020! O futuro de sua comunidade depende de sua escolha!


+Gibson


quarta-feira, 10 de outubro de 2018

A filosofia política liberal e o segundo turno das eleições presidenciais brasileiras


Um amigo me perguntou se eu votaria no candidato à Presidência que se identifica como “liberal” (Jair Bolsonaro). A lógica por trás de sua pergunta era a de que já que eu me identifico como um “liberal democrata” (de persuasão “social”), e como “religioso liberal”, provavelmente votaria num candidato filiado a um partido com “social liberal” no nome e que diz defender uma política econômica “liberal”. Esse é um equívoco nominalista que gostaria de desfazer.

Liberalismo” é um termo complexo. Refere-se a diferentes conceitos, a depender dos contextos nos quais é utilizado. Há “liberalismos políticos” e “liberalismos econômicos” – a variedade teórica é tão grande que não se pode tratar desses como se fossem uma única forma de abordar a política ou a economia (exatamente como ocorre com conceitos como “socialismo” ou “marxismo”).

Politicamente, o liberalismo possui pelo menos duas faces:

A) Como tradição intelectual – enquanto filosofia moral e política –, o liberalismo representa um conjunto de ideias que têm se desenvolvido ao longo da modernidade. Encontra sua fundamentação inicial no pensamento de Locke e Montesquieu, mas se solidifica como uma filosofia específica apenas após a Revolução Francesa. Possui uma interligação histórica com o Unitarismo e com sua teologia, apesar de isso não significar que todos os unitaristas sejam politicamente liberais. Apresenta três princípios consensuais básicos, criticados por perspectivas mais à direita e/ou à esquerda do espectro político:

I. Ética individualista – isto é, o indivíduo como personagem central dos valores e direitos (por exemplo, a liberdade não é apenas um direito do ser humano, é um direito de cada indivíduo);
II. Respeito equitativo por todos os seres humanos, baseado na crença de que todos são igualmente capazes de se autogovernarem;
III. Liberdade de pensamento e expressão, baseada na confiança na autonomia irrestrita da razão (=capacidade racional do indivíduo) como única e suficiente fonte de verdade objetiva.

Esses princípios, obviamente, são criticados dentro da própria tradição liberal, mas têm servido de guia filosófico para o liberalismo enquanto filosofia moral e política.

B) Como ordenamento político-jurídico, o liberalismo têm se desenvolvido – para o bem ou para o mal – ao redor de três princípios gerais:

I. Liberdade equitativa para todos os cidadãos, o que inclui a liberdade de o indivíduo agir como escolher, desde que se sujeite às leis que protegem os direitos iguais dos outros;
II. A proteção da liberdade de pensamento e expressão desse pensamento;
III. A organização desses princípios num sistema jurídico que garanta a igualdade de cada cidadão perante a lei.

Perceberam que não incluí a noção de “democracia” nos princípios acima? E não o fiz porque a participação democrática do cidadão não esteve sempre presente na filosofia política liberal. É por isso que quando identifiquei meu ideário político o chamei de “liberal democrata” – para afirmar que a minha forma de liberalismo é democrática. Essa junção de “democracia” ao “liberalismo” é mais recente, tendo se desenvolvido apenas no século XX. Os antigos teóricos liberais temiam, muitas vezes, que a democracia irrestrita pudesse sabotar tanto os princípios filosóficos liberais quanto o ordenamento jurídico proposto por eles. [Essa preocupação fica mais clara se examinarem a chamada “psicologia das massas” e a “teoria das elites”.]

Há uma questão importante, entretanto, no que concerne aos princípios filosóficos que listei em [A] III – a razão como única e suficiente fonte de verdade objetiva. Filosoficamente, muitos liberais discordarão das implicações epistemológicas dessa afirmação – especialmente aqueles que, como eu, foram/são influenciados por uma perspectiva dita “pós-moderna”. Esses aceitam o princípio da liberdade de pensamento e expressão, mas podem rejeitar a epistemologia objetivista presente naquele princípio.

O que interessa aqui, entretanto, é refletir até que ponto o candidato do partido chamado “Social Liberal” se encaixaria nos princípios filosóficos que listei acima para o liberalismo [A]:

I. Até que ponto alguém que abertamente ataca indivíduos e/ou grupos sociais dos quais discorda – por exemplo, os identificados como LGBT+ ou como “esquerdistas” –, e cujo discurso cria todo um ambiente de ameaça e amedrontamento, exibe respeito pelo princípio de ética individualista (cada indivíduo tem valor e dignidade como ela/ele é ou está)?

II. Consequentemente, até que ponto esse mesmo candidato se ajusta ao princípio de que cada indivíduo, independentemente de quem seja, deva ser respeitado da mesma forma que os demais. Como exemplo: as(os) cidadã(o)s gays, feministas, comunistas, petistas, etc, não devem ser respeitados e honrados da mesma forma como os tradicionalistas, direitistas, cristãos, etc, o são?

III. Até que ponto alguém que apoia a aprovação de leis que restringem, por exemplo, a liberdade de cátedra, a liberdade de expressão de professores, representaria um ideário político liberal?

Eu poderia tratar aqui a respeito de, por exemplo, “ética distributiva para discutir a questão da Previdência Social ou do programa Bolsa Família. Entretanto, não existe um consenso sobre ela no liberalismo como um todo – existe esse consenso, entretanto, na tradição chamada de “liberalismo social” (que ao menos nomeadamente declara ser a tradição do partido do candidato, e é minha tradição política de origem). Por isso, não importa discuti-la aqui, até porque o candidato se apresenta como economicamente liberal – o que, em outras palavras, significa que ele seria um adepto daquilo que é comumente chamado de “neoliberalismo”: ou seja, uma ideologia político-econômica rígida que enfatiza o livre mercado, um estado pequeno e forte, a iniciativa privada e a responsabilidade individual.

Em outras palavras, enquanto adepto da filosofia política liberal, não posso encontrar razões para votar num candidato como Jair Bolsonaro. Vejo, neste Segundo Turno, uma proximidade muito maior com o candidato do PT – apesar das muitas discordâncias no que concerne ao seu partido e ao seu Plano de Governo original.

Respondendo àquele amigo, digo que meu ideário filosófico liberal democrata e minhas perspectivas religiosas me motivam, de todos os lados, a votar e torcer pela derrota dum candidato que, filosoficamente, representa o contrário duma utopia liberal. Mas, obviamente, isso não significa que espero que os meus leitores aceitem minha posição. Só espero, francamente, que se acreditam naqueles valores que representam nossa tradição religiosa, possam refletir antes do voto, e se escolherem o candidato do PSL, exijam seu compromisso com o respeito daqueles valores.

+Gibson


quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Bancada BBB: Os “falsos profetas” da Política cristianizada ou do Cristianismo politizado brasileiro


*Imagem disponível em: http://paraibageral.com.br/wp-content/uploads/2017/12/bbb.jpg


Este é mais um ano de eleições no Brasil. Na verdade, é um ano no qual as disputas políticas se acirraram de maneira tal que ninguém mais parece saber em quem confiar para ocupar um posto eletivo. Afinal, o país se encontra no meio dum furacão político no nível federal, cujos efeitos se fazem sentir nos cenários estaduais e municipais. E toda essa convulsão política tem efeitos na vida moral da sociedade, inclusive, infelizmente, nas compreensões teológicas que se desenvolvem no seio das comunidades cristãs brasileiras.

Muitos dos chamados “evangélicos” brasileiros – e devo enfatizar que, em meu uso, “evangélico” e “protestante” não são necessariamente sinônimos – importaram a teologia e a política belicistas de certos grupos ligados à chamada “direita cristã” dos Estados Unidos, querendo aplicar ao Brasil uma ideologia desenvolvida para o cenário rural, racista e isolacionista do chamado “cinturão da Bíblia” americano. Eles têm, no Congresso Nacional brasileiro, até um nome autoritário para seu grupo político (nome que se repete, com variações, nas Assembleias Legislativas de alguns Estados e nas Câmaras de muitos municípios): “Frente Parlamentar Evangélica” – e chamo de “autoritário” porque se impõem, publicamente, como representantes de todos os “evangélicos” brasileiros (algo que, em si, já deveria tornar-se um motivo de indignação por parte das comunidades evangélicas e protestantes Brasil afora).

Esses senhores e senhoras senadores, deputados e vereadores – muitos dos quais são acusados e/ou processados por corrupção, entre outros crimes – se vendem não apenas como representantes de seus eleitores, mas como representantes de Deus, de Cristo e da família. Seu charlatanismo chega a ser tão explícito que se apresentam como “apóstolos”, “pastores” e “missionários”, e não como simples representantes eleitos por uma parcela do “povo”. E isso porque, assim, podem impor ao seu trabalho legislativo uma imagem de santidade que não poderiam vender se fossem apenas senadores, deputados ou vereadores – seriam representantes da Divindade nos meios legislativos.

A arma utilizada por esses grupos é antiga e bem conhecida: a instrumentalização do medo. Assim, criam em seus eleitores, em seus discípulos, em seus seguidores, em seus fieis o medo de tudo aquilo que possa parecer diferente. O que é diferente é uma ameaça. O que é uma ameaça é um inimigo. E o inimigo deve ser combatido até que não haja mais ameaças. E como a ameaça só existe se houver inimigo, então... bem, faça as contas e entenderá qual seria a solução!

O que essas pessoas fazem vai muito além de apenas criar o medo em seus eleitores para, assim, conseguirem seus votos em épocas eleitorais. Eles deturpam o Evangelho de Cristo, violentam a dignidade da fé e saqueiam a racionalidade teológica para conseguirem o poder para si. Sua imoralidade é tamanha que conseguem transformar, na mentalidade e prática de seus seguidores, o “Príncipe da Paz” em “senhor da guerra”, o Jesus do amor e perdão em defensor do “direito ao porte de armas”.

Pode parecer injusto de minha parte, mas não me sinto nem um pouco culpado ou envergonhado por chamar os membros desse movimento imoral de “falsos profetas” e “enganadores”. Minha generalização impiedosa é mais do que necessária. É muito mais vergonhoso que qualquer pessoa que se identifique como discípulo de Jesus (seja evangélico, protestante, católico ou adepto de qualquer outra forma de Cristianismo) não se sinta nem um pouco incomodada em haver grupos como esses se vendendo como seus representantes políticos.

Esses representantes de si mesmos, em seu esforço para se tornarem porta-vozes duma “Política cristianizada” – ou seria “[Pseudo]Cristianismo politizado”? – identificam a mensagem de paz do Evangelho, o ensinamento cristão do cuidado para com o mais fraco e o faminto, a atenção para com a viúva e o órfão, etc, como mensagem “comunista” ou “marxista”. Assim, esses iletrados na religião cristã, mas também em filosofia política, promovem uma política anti-Jesus em defesa de sua visão dum “novo” velho mundo: um mundo no qual o homem-senhor reina sobre “sua mulher” e filhos, com a Bíblia numa mão e a chibata na outra; um mundo no qual armas são essenciais para a “paz”; um mundo no qual o “cristianismo” é tão frágil que é ameaçado por qualquer crença não “evangelical” (eles não sabem que o Cristianismo não se limita ao Evangelicalismo!).

Quão patológico não é o falso “evangelho” anunciado por esses “profetas” da política brasileira?! E o pior é que seus discípulos, que, em sua maioria, são pessoas honestas e sinceras que apenas caíram nas velhas redes do medo, não percebem isso! Se percebessem, tenho certeza, pensariam dez vezes antes de votar naqueles senhores ou senhoras.

Não, esses falsos profetas no Congresso, nas Assembleias Legislativas estaduais e nas Câmaras municipais não representam a maioria dos evangélicos brasileiros. E por essa razão, não deveriam ser eleitos como seus representantes e não deveriam ser retratados como porta-vozes dos evangélicos ou dos protestantes do Brasil!


P.S.: Texto originalmente publicado, aqui mesmo, em 17 de julho de 2016. Infelizmente, nada mudou na política brasileira!

+Gibson


domingo, 18 de março de 2018

Uma fé política?!


Esta semana, recebi um e-mail dum leitor furioso do Chronicle, que – dentre palavras que não ousaria repetir aqui – me “acusava” de ser um “esquerdista” que pregava o que ele chamou de “evangelho de Marx”, e não o de Jesus! Seus comentários pouco compassivos obviamente emergiram em decorrência do que eu escrevera sobre o brutal assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes, no Brasil, e do ativismo de estudantes pelo controle de acesso às armas de fogo, nos Estados Unidos.

O que escrevi, anteriormente, mantenho aqui. Nossas autoridades políticas e policiais falharam com Marielle e Anderson, e falham com a sociedade. E agora, mais do que nunca, deveríamos demiti-los. Isso porque não têm cumprido com suas obrigações enquanto agentes do Estado. Igualmente, somos todos culpados por seus crimes, já que deles não cobramos suficientemente por suas faltas e erros. Assim, temos nossas mãos sujas com o sangue de todos os que morrem em nossa sociedade: ou porque escolhemos erroneamente nossos governantes, ou porque não exigimos que façam o trabalho para o qual foram eleitos e pelo qual pagamos.

Foram essas as ideias que compartilhei e que levaram aquele leitor a fazer certas acusações contra mim. E, por educação, farei alguns esclarecimentos:

1. POLITICAMENTE: “Esquerdista”, para mim, não é um termo pejorativo; logo, chamar-me de tal não chega a ser uma ofensa. Na verdade, só evidencia que talvez aquele leitor devesse pesquisar um pouco mais o sentido do termo na teoria política. Politicamente, a propósito, sempre me identifiquei com um ideário “liberal democrata”; sempre fui um ardente partidário das liberdades civis, da separação entre Estado e Igreja, da resistência não violenta, da paz, dos direitos humanos, do respeito à vida de toda a Criação, da proteção àqueles que são agredidos pelos poderes deste mundo – e isso, sim, realmente me localizaria à esquerda no espectro político retilíneo (que, de qualquer forma, não é a maneira como retrato o mundo político ao meu redor). Essas ideias e escolhas que abraço, a propósito, não têm origem nos escritos de Marx – por cujo pensamento “positivista” sempre tive pouquíssima simpatia –; sua origem está em minha teologia política cristã, unitarista, não conformista (deveras “liberal burguesa” para ser caracterizada como “marxista”).

2. TEOLOGICAMENTE: Aquelas características de meu ideário político não advêm dos escritos de Marx ou de cartilhas políticas de partidos de “esquerda”. Elas são provenientes de minha teologia. Elas são a forma como aprendi a interpretar os ensinamentos tanto de minha herança judaica reformista quanto de minha fé cristã liberal. Não são invenção de Marx – apesar de poder encontrar muita proximidade com algumas de suas ideias –, e não são apenas ideários de partidos políticos. São, antes, a soma de séculos de reflexão por parte de pensadores religiosos e políticos, artistas, mães e pais, poetas, professores e tantos outros, cujas palavras e ações influenciaram a forma como compreendo o mundo. São ideias que estão presentes nos escritos sagrados e textos litúrgicos de minhas tradições religiosas, filtrados pelas lentes de meu meio sociocultural.

Os esclarecimentos acima não são uma justificativa para me afastar da visão que compartilho com meus irmãos e irmãs “esquerdistas” (para usar a linguagem daquele interlocutor). São, antes, uma tentativa de ensiná-lo e a outros que o mundo não é uma tela em preto e branco, mas sim uma mistura de diferentes cores em múltiplas tonalidades. Na verdade, fico muitíssimo feliz de encontrar pontos de concórdia com pessoas que, em outros assuntos, possivelmente discordariam de mim – e vice-versa. Fico feliz em misturar minhas cores às delas. Estarei sempre disposto a caminhar ao lado daqueles que buscam um mundo de concórdia, de paz, de compreensão, de compaixão, de vida – independentemente de sua localização em qualquer espectro político ou religioso.

O que realmente importa, em minha compreensão, não é a etiqueta que prendemos às nossas crenças e/ou descrenças. O que importa, o que realmente importa, é o que fazemos no dia a dia, é a forma como tratamos aqueles que compartilham este mundo conosco. Se não encontrarmos um meio de viver com a diferença, acabaremos nos matando uns aos outros e destruindo o que restou deste planeta. E isso seria a derrota definitiva de nossa “humanidade”.

Finalizo esta, compartilhando um trecho da Bíblia cristã que está sempre diante de mim, em meu escritório, para me lembrar de minhas promessas batismais e das promessas que fiz quando de minha ordenação:

Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, que age por meio de todos e está presente em todos.” (Efésios 4:6)

É, enfim, cuidando das pessoas que estão ao nosso redor que podemos encontrar o Divino. Esta é a única maneira de vivificar nossa fé e curar – ou, se preferir, “salvar” – o mundo!

+Gibson

domingo, 21 de maio de 2017

E o Império do czar Putin persegue mais um grupo: as Testemunhas de Jeová na Rússia


Em 20 de abril último, a Suprema Corte da Rússia decidiu favoravelmente à ação aberta pelo Ministério da Justiça contra a organização das Testemunhas de Jeová no país. Desde então, a denominação é considerada um “grupo extremista” no país, o que tem piorado e legitimado a perseguição que o grupo já sofria na Federação Russa. De acordo com relatos da própria Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados da Pensilvânia (a principal organização das Testemunhas de Jeová no mundo), membros da denominação têm sido atacados na rua, suas contas bancárias têm sido bloqueadas e seus salões de culto têm sido dessacralizados.

A acusação contra as Testemunhas de Jeová é a de que quebraram uma lei de 2002, frequentemente usada contra grupos que o governo encara como inimigos. A lei proíbe que grupos religiosos – com exceção da Igreja Ortodoxa Russa – afirmem pregar a única verdade (o que fazem as testemunhas de Jeová, e muitos outros). Além disso, o pacifismo e não envolvimento com a vida eleitoral ensinados pelo grupo é a razão para que seja classificado como “extremista”. Assim, as testemunhas de Jeová estão na mesma classificação da al-Qa'ida e do Estado Islâmico, por exemplo!

Não sou um Testemunha de Jeová e, pessoalmente, não tenho nenhuma simpatia por suas crenças, mas seria inaceitável me calar diante de tamanha violação aos seus direitos humanos básicos. A acusação e a pena contra as Testemunhas de Jeová na Rússia é uma afronta à humanidade de todos nós – assim como o é a perseguição sofrida por todos os grupos religiosos dissidentes na Rússia e em todas as outras partes do mundo, apenas por suas práticas pacíficas e de não participação com a vida “secular” serem percebidas como um desafio ao cetro do poder estabelecido.

O direito humano de acreditar no que quer e de expressar essa crença de forma não violenta é mais importante do que qualquer lei que o subtraia. Essa é a base de minha fé religiosa e de meu credo político. E realmente não importa o quanto eu discorde das ideias defendidas pelos demais: se eles têm seu direito violado, o meu próprio se foi com eles. É uma vergonha que isso ocorra em pleno século XXI.

+Gibson


sábado, 18 de março de 2017

Pela Resistência da Compaixão: um convite aos meus irmãos e irmãs judeus, cristãos e muçulmanos

Nossa época evidencia o quanto nossas tradições de fé têm sido sequestradas pela retórica do medo, da desconfiança, da intolerância, do fanatismo e do ódio. Outro dia, por exemplo, ouvi um pregador falar tão entusiasticamente da “ira de deus” que suas palavras me causaram náusea. Ele proclamava um suposto ódio de seu “deus” a todos aqueles que não abraçavam sua visão teológica – e o mais assustador é que se tratava de um pregador duma tradicional igreja cristã.

A retórica daquele cristão, infelizmente, é compartilhada por muitos outros cristãos, judeus e muçulmanos – além de irmãs e irmãos de outras tradições de fé. O Deus que nossas tradições proclamam como “amor” é substituído por um deus faccioso de ódio, violência e vingança. Abandonamos o Deus do Universo e nos apegamos ao deus nacional; trocamos o Deus do amor e da paz pelo deus das metralhadoras e da guerra.

Como sempre repito, rejeito a ligação entre Igreja/Religião e Estado – justamente porque essa ligação subentende uma deidade e uma fé nacionais, tribalistas. Isso, contudo, não equivale a dizer que minha fé não seja política. Tudo o que se estabelece na convivência entre seres humanos é político – e isso inclui, necessariamente, tanto nossas comunidades de fé quanto as convicções e práticas que os membros dessas comunidades partilham entre si.

Já imaginaram o quão político é o mandamento judaico, cristão e muçulmano de amar e cuidar dos demais humanos? E ele é “político” principalmente porque só pode ser cumprido através de nossa relação com outras pessoas. É convivendo com elas e nos portando de certa maneira para com elas que podemos cumprir o espírito de nossa fé. Essa é uma exigência das tradições de fé judaicas, cristãs e muçulmanas.

Nas Escrituras dessas três tradições, encontramos exemplos claros desses mandamentos. Quando nos voltamos à Bíblia Hebraica, por exemplo, encontramos:

Não explore o imigrante nem o oprima… Não maltrate a viúva nem o órfão… Se você emprestar dinheiro a alguém do meu povo, a um pobre que vive ao seu lado, você não se comportará como agiota: vocês não devem cobrar juros. (Êxodo 22:20-24)

Não faça declarações falsas e não entre em acordo com o culpado para testemunhar em favor de uma injustiça. Não tome o partido dos poderosos para fazer o mal. E, num processo, não preste depoimento inclinando-se em favor dos poderosos, a fim de torcer o direito; nem favoreça o poderoso em seu processo. Se você encontrar, extraviados, o boi ou jumento de seu adversário, leve-os ao dono. … (Êxodo 23:1-4)

No Novo Testamento cristão, encontramos:

Vocês ouviram o que foi dito aos antigos: 'Olho por olho e dente por dente!' Eu porém lhes digo: não se vinguem de quem faz mal a vocês. Pelo contrário: se alguém lhe dá um tapa na face direita, ofereça também a esquerda! Se alguém faz um processo para tomar de você a túnica, deixe também o manto! Se alguém obriga você a andar um quilômetro, caminhe dois quilômetros com ele! Dê a quem lhe pedir, e não vire as costas a quem lhe pedir emprestado. (Mateus 5:38-42)

Não paguem a ninguém o mal com o mal; a preocupação de vocês seja fazer o bem a todos. Se for possível, no que depende de vocês, vivam em paz com todos. … se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber… Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem. (Romanos 12:17-21)

Se alguém pensa que é religioso e não sabe controlar a língua, está enganando a si mesmo, e sua religião não vale nada. Religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em aflição, e manter-se livre da corrupção do mundo. (Tiago 1:26-27)

E se formos até o texto do Alcorão, lemos:

Em nome de Deus, o Compassivo, o Misericordioso. (1:1)

Piedoso é aquele … que dá dos seus pertences... aos parentes, aos órfãos, aos necessitados, aos viajantes, aos mendigos; é aquele que resgata os cativos, que faz suas orações e que paga a contribuição destinada aos pobres, que cumpre com suas obrigações e é resistente nas dificuldades, no infortúnio e no perigo. Esses é que são os crentes e os piedosos. (2:177)

E Deus ordena a justiça, o fazer o bem aos outros e a generosidade para com os parentes; e proíbe a indecência, o ilícito e a opressão. E Ele ordena que vocês se lembrem disso! (16:90)

Deus está com os piedosos e com os que fazem o bem. (16:128)

É hora de nos voltarmos àquela fé proclamada em nossos textos sagrados. A fé do serviço, do amor, da reconciliação, da paz, da compaixão. Essa fé é incompatível com a retórica de ódio e violência que tem se tornado a linguagem política e religiosa mais ouvida nos meios de comunicação. É uma questão de sobrevivência para nossa dignidade comunal.

Se nos calarmos diante do que acontece, nos tornamos cúmplices da insanidade e da imoralidade política deste mundo. Voltar as costas a quem sofre, fechar as portas aos desabrigados e famintos, se aliar aos poderosos, clamar por armas, apoiar guerras e cultuar o poder do dinheiro e das corporações é rejeitar tudo o que nossas tradições nos ensinam sobre o Divino e sobre a compaixão.

É hora de escolhermos que caminho seguiremos: o caminho da paz ou das armas? Do perdão ou da vingança? Da compaixão ou do ódio?

+Gibson


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

O pecado patriótico

Hmmm... Para mim, o patriotismo e o nacionalismo são pecados: eles colocam o Estado-nação à frente do ser humano e, assim, a criação do homem se torna mais digna e mais valorosa do que a "criação divina".

Deus nos salve do patriotismo e do nacionalismo!

+Gibson

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Jesus, Cristianismo e Política: um protesto


Eu confesso que cada vez mais me escandalizo com a incoerência e irrelevância do “testemunho” explicitado por aqueles que se apresentam como “verdadeiros cristãos”, “crentes bíblicos”, “católicos devotos” nas redes sociais. Essa legião de gritadores de refrões políticos – com máscaras de devoção religiosa – sequestram o vocabulário cristão a fim de legitimar seu fanatismo político reacionário, e acabam fazendo o contrário do que dizem defender: transformam seu suposto Deus, seu suposto Cristo e sua suposta fé num artefato de violência, de egoísmo, de maldade e de subserviência aos “poderes deste mundo”.

Isso fica claro, por exemplo, no caso da bajulação patética à figura do novo Presidente eleito dos Estados Unidos por parte desses tolos brasileiros. Os autoproclamados “servos de Deus” defendem a figura de Donald Trump – o grande idiota que utiliza impropérios e agressividade contra a dignidade humana como baluarte padrão de sua relação com o público – como se fora um novo messias enviado para salvá-los dos anjos do mal. Da mesma maneira, defendem o idiota nacional da mesma estirpe (i)moral, Jair Bolsonaro, como se o mesmo fosse uma espécie de retorno a uma “moralidade” que nunca existiu.

É vergonhoso! Faz-me pensar nas palavras atribuídas a Jesus, pelos autores do Evangelho de Mateus: “[...] Pois eu garanto a vocês: os cobradores de impostos e as prostitutas vão entrar antes de vocês no Reino do Céu.” (Mateus 21:31b)

O que teria a mensagem atribuída a Jesus de Nazaré pelos autores dos Evangelhos a ver com as mensagens de Donald Trump ou Jair Bolsonaro? Ou melhor ainda, o que teria o Jesus daqueles textos a ver com qualquer um dos políticos do mundo?

O que Jesus tem a ver com pena de morte e posse de armas? Sim, aquele Jesus que supostamente ensinou que deveríamos amar aos nossos inimigos; o mesmo Jesus que ensinou que seu reino não era deste mundo.

Querem defender suas ideias de reação à cultura liberal? Façam-no explicitando que suas ideias saem de seus próprios medos e preconceitos, dos manuais políticos dos séculos XVIII e XIX que acabaram de descobrir, dos ideários de simpatizantes da ditadura pelos quais nutrem simpatia, dos vídeos de pseudofilósofos emigrados e dos blogs de gente que lê pouco. Não falsifiquem sua proclamada fé – ao fazê-lo, vocês, além de desqualificarem sua visão política, sabotam a mensagem política da tradição cristã.

O Jesus refugiado, que exaltou “estrangeiros” em sua prédica; o Jesus que quebrou uma tradição androcêntrica ao mencionar o mundo e as relações femininas em seus ensinamentos; o Jesus que, como judeu, preocupa-se em seus ensinamentos com o pobre, o fraco e o oprimido; o Jesus que transforma a criança no símbolo daquilo que seus seguidores devem ser; o Jesus que rejeita a revolução sanguinolenta, a violência e os poderes deste mundo. Esta é a figura “política” que se pode extrair das narrativas sobre Jesus: não a imagem de alguém que defende o capitalismo ou o socialismo; a homofobia ou o movimento LGBT; o machismo ou o feminismo. As palavras atribuídas a Jesus proclamam o amor à humanidade e a Deus: não o amor ao capital, ao ódio e às armas!

+Gibson

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Quem nos salvará do Império da Ignorância?!


A receita nunca falha, independentemente da época, independentemente da cultura, independentemente da língua, independentemente do lugar. Adicione hipocrisia a uma forma de autoritarismo, ao iletramento religioso e à ignorância histórica: o resultado é sempre o discurso da vitimização com base no medo, regendo a retórica do ódio e intolerância com vistas a uma idealizada retomada dum “estado” que nunca existiu.

A Igreja latina usou essa receita contra a Igreja grega e as Igrejas orientais ao longo de sua história. A Igreja grega e as Igrejas orientais usaram essa mesma receita contra a Igreja latina e umas contra as outras. Os católicos romanos usaram essa receita contra os diferentes grupos protestantes no início da Reforma. Diferentes grupos protestantes usaram essa mesma receita contra os católicos e uns contra os outros, posteriormente. Os muçulmanos sunitas usaram a receita contra os xiitas e outros grupos. Os xiitas e outros grupos usaram-na contra os sunitas. Cristãos usaram a velha receita contra judeus e muçulmanos. Judeus e muçulmanos usaram-na contra cristãos. Judeus das mais diferentes tradições usaram-na uns contra os outros. E a história continua.

Até que uma legião de hipócritas, autoritários, iletrados em religião e ignorantes em história religiosa conseguem meios gratuitos para manifestarem sua ignorância aos quatro ventos... e voilà: pode-se ler as manifestações mais assustadoramente vergonhosas nas “redes sociais” eletrônicas!

Abaixo, minha resposta a algumas dessas manifestações:

Não, “cristãos” não estão sendo “perseguidos” por “muçulmanos” no Ocidente. Um sacerdote francês foi brutalmente morto por assassinos que agiram – em parte, por conta de sua hipocrisia, seu autoritarismo, seu iletramento religioso e sua ignorância histórica –, usando sua professa religião como desculpa.

Não, “muçulmanos” não estão sendo “perseguidos” por “cristãos” no Ocidente. Os cristãos que manifestam intolerância aos muçulmanos – usando sua professa religião como desculpa –, o fazem, em parte, por conta de sua hipocrisia, seu autoritarismo, seu iletramento religioso e sua ignorância histórica.

Esses professos muçulmanos e cristãos não representam todos os demais muçulmanos e cristãos. E nenhum deles representa, em princípio, uma ameaça à “harmonia original” de uma tradição ou outra. Até porque nunca houve uma “harmonia original”!

Um pouco de estudo histórico mostraria, por exemplo, que os governos “cristãos” do passado agiram por muito mais tempo de forma intolerante e sanguinária contra judeus, muçulmanos e quaisquer outras minorias do que os governos “muçulmanos”. E que os mesmos governos “muçulmanos” do passado demonstraram uma tolerância e proteção a judeus e cristãos incompreensível aos olhos dos cristãos.

Enquanto os governos “cristãos” europeus torturavam, matavam e expulsavam judeus de seus territórios, os “califados muçulmanos” permitiram que uma influente comunidade judaica florescesse em seu meio. E isso ao longo de séculos!

As coisas só mudaram quando a Europa foi laicizada, secularizada. Interessante, não?! Foi justamente o afastamento – mesmo que apenas formal – da religião do poder do Estado que fez com que os crentes/praticantes de outras religiões não fossem mais assassinados ou punidos por conta de sua fé.

Nos países de maioria muçulmana onde se desenvolvem ideias “islamistas jihadistas” – a propósito, “islã” é o nome da religião, “movimento islamista” (ou “islamita”) é um conjunto de movimentos fundamentados numa ideologia política frequentemente chamada de “Islã político”, e “jihadismo” é uma ideologia revolucionária islamista frequentemente belicista, nenhum desses termos é necessariamente sinônimo um do outro –, ideias abraçadas por muitos dos “revolucionários” tornados terroristas, há exatamente o mesmo tipo de reacionarismo contra a secularização e a mesma intolerância a outras tradições religiosas divulgada por grupos cristãos ditos (equivocadamente) “conservadores” no Ocidente. As maiores vítimas desses grupos islamistas jihadistas não são os cristãos, são, na verdade, outros muçulmanos – que são a maioria – que não pensam nem agem como eles.

Atribuir ao Islã e a todos os muçulmanos os crimes praticados por terroristas jihadistas é como imputar os crimes dos terroristas do Exército Republicano Irlandês ao Catolicismo Romano e a todos os católicos do mundo. Só um autoritário, iletrado religioso e ignorante da história o faria.

Quem, afinal, nos salvará do Império da Ignorância?!

+Gibson da Costa

domingo, 17 de julho de 2016

Os “falsos profetas” da Política cristianizada ou do Cristianismo politizado brasileiro

Este é mais um ano de eleições no Brasil. Na verdade, é um ano no qual as disputas políticas se acirraram de maneira tal que ninguém mais parece saber em quem confiar para ocupar um posto eletivo. Afinal, o país se encontra no meio dum furacão político no nível federal, cujos efeitos se fazem sentir nos cenários estaduais e municipais. E toda essa convulsão política tem efeitos na vida moral da sociedade, inclusive, infelizmente, nas compreensões teológicas que se desenvolvem no seio das comunidades cristãs brasileiras.

Muitos dos chamados “evangélicos” brasileiros – e devo enfatizar que, em meu uso, “evangélico” e “protestante” não são necessariamente sinônimos – importaram a teologia e a política belicistas de certos grupos ligados à chamada “direita cristã” dos Estados Unidos, querendo aplicar ao Brasil uma ideologia desenvolvida para o cenário rural, racista e isolacionista do chamado “cinturão da Bíblia” americano. Eles têm, no Congresso Nacional brasileiro, até um nome autoritário para seu grupo político (nome que se repete, com variações, nas Assembleias Legislativas de alguns Estados e nas Câmaras de muitos municípios): “Frente Parlamentar Evangélica” – e chamo de “autoritário” porque se impõem, publicamente, como representantes de todos os “evangélicos” brasileiros (algo que, em si, já deveria tornar-se um motivo de indignação por parte das comunidades evangélicas e protestantes Brasil afora).

Esses senhores e senhoras senadores, deputados e vereadores – muitos dos quais são acusados e/ou processados por corrupção, entre outros crimes – se vendem não apenas como representantes de seus eleitores, mas como representantes de Deus, de Cristo e da família. Seu charlatanismo chega a ser tão explícito que se apresentam como “apóstolos”, “pastores” e “missionários”, e não como simples representantes eleitos por uma parcela do “povo”. E isso porque, assim, podem impor ao seu trabalho legislativo uma imagem de santidade que não poderiam vender se fossem apenas senadores, deputados ou vereadores – seriam representantes da Divindade nos meios legislativos.

A arma utilizada por esses grupos é antiga e bem conhecida: a instrumentalização do medo. Assim, criam em seus eleitores, em seus discípulos, em seus seguidores, em seus fieis o medo de tudo aquilo que possa parecer diferente. O que é diferente é uma ameaça. O que é uma ameaça é um inimigo. E o inimigo deve ser combatido até que não haja mais ameaças. E como a ameaça só existe se houver inimigo, então... bem, faça as contas e entenderá qual seria a solução!

O que essas pessoas fazem vai muito além de apenas criar o medo em seus eleitores para, assim, conseguirem seus votos em épocas eleitorais. Eles deturpam o Evangelho de Cristo, violentam a dignidade da fé e saqueiam a racionalidade teológica para conseguirem o poder para si. Sua imoralidade é tamanha que conseguem transformar, na mentalidade e prática de seus seguidores, o “Príncipe da Paz” em “senhor da guerra”, o Jesus do amor e perdão em defensor do “direito ao porte de armas”.

Pode parecer injusto de minha parte, mas não me sinto nem um pouco culpado ou envergonhado por chamar os membros desse movimento imoral de “falsos profetas” e “enganadores”. Minha generalização impiedosa é mais do que necessária. É muito mais vergonhoso que qualquer pessoa que se identifique como discípulo de Jesus (seja evangélico, protestante, católico ou adepto de qualquer outra forma de Cristianismo) não se sinta nem um pouco incomodada em haver grupos como esses se vendendo como seus representantes políticos.

Esses representantes de si mesmos, em seu esforço para se tornarem porta-vozes duma “Política cristianizada” – ou seria “Cristianismo politizado”? – identificam a mensagem de paz do Evangelho, o ensinamento cristão do cuidado para com o mais fraco e o faminto, a atenção para com a viúva e o órfão, etc, como mensagem “comunista” ou “marxista”. Assim, esses iletrados na religião cristã, mas também em filosofia política, promovem uma política anti-Jesus em defesa de sua visão dum “novo” velho mundo: um mundo no qual o homem-senhor reina sobre “sua mulher” e filhos, com a Bíblia numa mão e a chibata na outra; um mundo no qual armas são essenciais para a “paz”; um mundo no qual o “cristianismo” é tão frágil que é ameaçado por qualquer crença não “evangelical” (eles não sabem que o Cristianismo não se limita ao Evangelicalismo!).

Quão patológico não é o falso “evangelho” anunciado por esses “profetas” da política brasileira?! E o pior é que seus discípulos, que, em sua maioria, são pessoas honestas e sinceras que apenas caíram nas velhas redes do medo, não percebem isso! Se percebessem, tenho certeza, pensariam dez vezes antes de votar naqueles senhores ou senhoras.

Não, esses falsos profetas no Congresso, nas Assembleias Legislativas estaduais e nas Câmaras municipais não representam a maioria dos evangélicos brasileiros. E por essa razão, não deveriam ser eleitos como seus representantes e não deveriam ser retratados como porta-vozes dos evangélicos ou dos protestantes do Brasil!

+Gibson

domingo, 8 de junho de 2014

Política e religião, ou religião e política, na "guerra" pela alma dos brasileiros

Política e religião. Religião e política. Uma combinação que já se mostrou perigosa e corrosiva para sociedades pré-modernas, e que, infelizmente, continua a lançar sombras sobre nosso mundo social contemporâneo, que alguns insistem em chamar de pós-moderno.

Pois bem, a combinação de política e religião, ou religião e política, é para mim um desafio às minhas crenças políticas e teológicas. Eu, que um grande amigo já chamou de “super protestante”, abomino a intromissão do Estado nos domínios da vida de fé e do espírito, e, igualmente, abomino a intromissão da fé e do espírito nos domínios do Estado. Não deixo de reconhecer, entretanto, a limitação desse sentimento, já que sei que nenhum de nós pode separar aspectos de nossa compreensão de mundo em caixinhas incomunicáveis dentro de nossas mentes. Assim, minha visão política se comunica com minha visão religiosa, e ambas se comunicam com minhas visões cultural, social, econômica etc.

Como um protestante liberal, acredito na liberdade de consciência do indivíduo. Acredito que deve haver uma separação entre a religião institucional (a “Igreja”) e o Estado para que o Estado se alicerce sobre a lei democrática, e não sobre a imposição de convicções religiosas particulares ou de ingerências institucionais. Isso, contudo, não significa que acredito que o Estado, chamado de laico, deva ser ativamente ateu. O Estado é, em princípio, um reflexo dos ideais de sua sociedade, e como a sociedade da qual fazemos parte não é ateia, não vejo problema algum em extrairmos aquilo que a maioria dos “crentes” (leia-se, os cidadãos que acreditam na Divindade ou professam uma fé religiosa – que, de acordo com o IBGE, é a maioria esmagadora da sociedade brasileira) compartilham em suas convicções éticas para moldar nossa democracia.

Isso significa, em minha compreensão, que, por exemplo, o “Deus seja louvado” das cédulas de Real ou a regulação do aborto no país não são uma ingerência da “Igreja” no Estado brasileiro. São, sim, um reflexo do ethos da sociedade brasileira; a voz das convicções que moldam nosso ideal social, enquanto entidade política. Essa compreensão das leis como reflexo de convicções éticas majoritárias, entretanto, não significa que não se deva fazer oposição a elas no cenário político; pelo contrário: acredito que se há convicções opostas, seus defensores têm o direito, e talvez o dever, de se organizarem politicamente e tentarem vencer o debate de forma legal e democrática.

Minhas convicções, infelizmente, parecem ser possíveis apenas numa utopia, apenas num “não lugar”. Se atentarmos para o que ocorre neste país, nos sentiremos forçados a fazer uso daquela infeliz expressão belicista: parece que vivemos num ambiente de “guerra cultural”. Uma guerra pelas nossas mentes e votos, travada por dois grandes grupos opostos, que contribuem para o esfacelamento de convicções e o assassínio de nossas almas.

Num extremo, há aquelas forças que, em nome duma suposta “justiça” e duma suposta “igualdade”, violam, em seus esforços, o “espírito” da maioria. Assim, os insatisfeitos com a democracia representativa, com o Estado de Direito, com o direito à propriedade e à livre iniciativa, com noções ditas “tradicionais” de família etc, acreditam poder passar por cima de tudo e de todos para alcançarem seus anseios; sem “perceberem”, muitas vezes (aos menos, os mais “democráticos” entre eles), a incoerência entre seus credos políticos professos e suas ações.

Noutro extremo, há aqueles que se utilizam do discurso dito “religioso” no âmbito político, ou vice versa, para criarem um ambiente reacionário, injetando o medo de tudo aquilo e de todos aqueles que pensem de forma diferente, e sabotando o espírito democrático pluralista, encontrando inimigos onde há apenas discordantes. E o mais triste é que o fazem em nome de “Deus” e da “família”, em nome da “fé” e da “democracia” – só não sei, ao certo, que “Deus”, que “família”, que “fé”, nem que “democracia” eles defendem!

O mal ofertado por esses dois grandes grupos extremistas é que eles sequestram nossa liberdade. Violam nossa consciência coletiva comum, tentando impor sobre nós suas visões distorcidas de liberdade e democracia, visões que não refletem nosso “senso comum” (expressão, aliás, bem diabolizada pelo modismo do politicamente correto), como exposto em nossa Constituição e leis. Esses extremistas, assim, não nos representam; não representam os anseios da maior parte desta sociedade em construção, desta democracia em formação. Eles representam, apenas, seus próprios interesses; nada mais.

Todos os anos eleitorais costumo repetir isso: no mundo político, e dentro da Igreja, há aqueles que se esforçam para politizar o Cristianismo, ou para cristianizar a política. Eles utilizam a linguagem da fé para seduzir aqueles que não estão preparados para o debate de ideias políticas, e utilizam a linguagem da política para seduzir aqueles que não estão ancorados na tradição de fé. A arma pode ser a desmoralização ora da política, ora da fé; com o sequestro das narrativas desses dois âmbitos para que possam manipular seus discípulos e conseguirem seu voto. Como um protestante, compromissado com a separação entre a religião institucional e o Estado, enxergo esse tipo de manipulação como uma ameaça à liberdade e à democracia – e uma ameaça frequentemente feita por outros que também se identificam como “protestantes”.

Obviamente, compreendo como muitos eleitores cristãos, especialmente protestantes, se sentem e, até certo ponto, partilho de seus sentimentos. Em nosso país, defender certos princípios vistos como “tradicionais”, mesmo que de forma democrática e legal, é motivo de chacota por grande parte da chamada “intelligentsia”. Assim, opor-se ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, à legalização do comércio e consumo de drogas, à descriminalização do aborto etc, é visto como ser reacionário, retrógrado, ditatorial – adjetivos, aliás, utilizados por adolescentes imaturos e semiletrados, que não compreendem como se dá a formação do ethos duma sociedade. De minha parte, devo enfatizar, não ouvirão a defesa das perspectivas de nenhum desses dois lados – i.e., nem dos defensores dos princípios ditos “tradicionais”, nem dos “adolescentes imaturos e semiletrados” –, já que defendo uma via media em nossa vida política.

Sou um cidadão compromissado com a democracia representativa liberal, com o Estado Democrático de Direito, com as liberdades e obrigações estabelecidas pela Constituição Federal brasileira de 1988. Sou um cristão protestante compromissado com uma visão não-hierárquica da fé e da Igreja, na qual os cristãos e cristãs são livres para questionar a autoridade eclesiástica se suas consciências assim os impor, e na qual a Igreja e o Estado seguem seus próprios caminhos. Sou um homem de identidade cultural e de orientação emociono-sexual distintas daquelas da maioria das pessoas que me cercam e que, por isso mesmo, exijo as mesmas proteções e benefícios legais que todos os outros possuem, já que cumpro todas as obrigações comuns a todos nós. Não vejo a necessidade de temer a diversidade no mundo, pois acredito que há espaço para todos nós, desde que cumpramos nossa parte no contrato constitucional. Isso me obriga a rejeitar as duas visões extremistas às quais, talvez exageradamente, fiz menção aqui.

Apoiar a extravagância do grupo aparentemente “relativista”, para quem “vale tudo” em nome duma suposta “justiça” e duma suposta “igualdade”, é violar minha própria filosofia moral, por mais que tenha simpatia por algumas das ideias defendidas por eles. É, assim, violar meu credo político e minha fé protestante, que se entrelaçam numa defesa da democracia representativa, do Estado de Direito, e do direito à vida, à liberdade e à propriedade.

Por outro lado, apoiar o barulhento grupo dos “absolutistas morais”, que se protegem sob o rótulo da fé cristã, é escarnecer não só de minhas mais profundas crenças políticas, mas também de meu Deus, de minha fé, e de meus ancestrais de fé. Ademais, é violar o lugar central que o dogma da dignidade humana ocupa em minha fé unitarista. Apoiá-los, por mais que algumas de suas ideias sejam partilhadas por mim, seria violar o todo da minha visão de mundo.

No fim das contas, nenhum desses dois extremos me representam, nem representam, provavelmente, a maioria dos brasileiros. Espero que os eleitores cristãos deste país, especialmente os protestantes, possam entender o perigo que esses extremismos antidemocráticos e anticonstitucionais representam para o Brasil. A disputa ideológica é sadia, útil e deve continuar – assim devem continuar as oposições de ideias no cenário político –; mas a excitação ao ódio e preconceito, que se generalizou entre nós, de todos os lados e em todos os estratos, deve ser rejeitada como uma afronta à dignidade humana, à liberdade e à democracia. O que esses grupos fazem – sejam eles os radicais da “fé” ou do “social” –, quando jogam cidadãos uns contra os outros numa “guerra” artificial, é uma manifestação de sua ignorância, intolerância e inimizade, e deve ser rejeitado nas urnas nas próximas eleições!

Bençãos a todos!
 
+Gibson