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sábado, 15 de junho de 2019

Espiritualidade e Religião sem Deus? – Uma resposta a Eduardo


A bibliografia dum curso que ensino sobre história das religiões inclui um texto que afirma categoricamente que a diferença entre a religião e a ciência está no fato de a primeira exigir “fé submissa” numa divindade e no sobrenatural. Apesar de eu discordar daquela afirmação e de saber, por experiência própria, que há religiões que não se focam numa suposta realidade sobrenatural e que, assim, não exigem uma “fé submissa” numa divindade e no sobrenatural, ainda incluo tal texto em minhas aulas para que meus alunos possam refletir acerca da limitada compreensão que ainda temos sobre a experiência espiritual/religiosa humana.

Não sou um adepto do teísmo sobrenatural. Com isso quero dizer que, em minha compreensão e experiência, a crença/fé em Deus – ou em deuses – não é necessária para que experienciemos o transcendental, o numinoso, o espiritual, o místico, ou seja lá que outro termo utilizemos para nos referirmos àquela “dimensão misteriosa” tradicionalmente tratada pelas religiões. Essa “dimensão misteriosa” pode ser experienciada através das artes, da ciência, dos esportes, da filosofia, do trabalho, da relação com e do serviço aos outros seres deste mundo etc. Assim, se a religião representa um processo de “religação” com algo, esse “algo” pode ser a própria realidade palpável que experienciamos em nosso dia a dia – sem absolutamente nenhuma necessidade de crença no e devoção ao invisível. E, consequentemente, a própria religião pode ser identificada em atividades que não correspondem àquelas tradicionalmente realizadas em templos, igrejas ou outros “lugares sagrados”.

Dizer que não sou adepto do “teísmo sobrenatural” (termo tão usado pelo finado professor Marcus J. Borg) não significa dizer que sou ateu; significa que compreendo “Deus” de formas diferentes daquelas usualmente abraçadas por “teístas” tradicionais; significa também que, para mim, o “sobrenatural” é indiferente, que não é essencial para a forma como encaro o mundo e vivo minha vida. Por exemplo, se e quando faço algo que julgo ser “bom” e “certo”, não o faço porque temo a punição ou espero a recompensa de Deus, faço-o porque – para mim – viver com eticidade é como que o “cerne” da espiritualidade.

Nas culturas influenciadas pelas tradições jordânicas (ou, se preferir, “abraâmicas” – uso “jordânicas” como uma referência geográfica à origem dessas tradições) – especialmente os Judaísmos, os Cristianismos e os Islamismos –, pensar em religião equivale a pensar no(s) Deus(es) jordânico(s) – ou seja, significa pensar no que as formas ortodoxas dessas religiões jordânicas têm ensinado sobre Deus. Assim, as noções de espiritualidade, religião e mesmo Divindade têm sido, em nossa cultura, aprisionadas às compreensões ditas ortodoxas dos Judaísmos, dos Cristianismos e dos Islamismos. Esse aprisionamento é levado a cabo, infelizmente, inclusive pelo próprio discurso acadêmico sobre religião.

Por conta disso, é importante, para mim, enfatizar que as concepções ortodoxas de religião – e estou pensando especificamente nas tradições jordânicas – não são as únicas formas historicamente válidas de compreender Deus, fé, religião, espiritualidade, o numinoso, o transcendental etc. Todas as formas religiosas, ortodoxas ou heréticas – na verdade, todo o conhecimento e práticas humanas – são produtos históricos, condicionados às diferentes circunstâncias nas/das quais emergiram e se desenvolveram. O próprio Deus do teísmo sobrenatural – assim como o do meu tipo de compreensão – é um produto cultural, histórico, uma construção humana.

Como posso ser um religioso e dizer isso? Como ouso me dizer “cristão” e afirmar que Deus é uma construção humana, um produto da cultura?

Isso, obviamente, tem a ver com minhas próprias circunstâncias, com minha própria história e formação. Minha própria tradição religiosa me ensina que duvidar e questionar é necessário para construir uma fé relevante. Por isso, declarar crenças que não se conciliem com tudo o que já sei ou que julgo saber sobre o Universo representaria uma falta de integridade intelectual (=espiritual) de minha parte. Essa é uma das razões básicas pelas quais compreender o domínio numinoso de forma agnóstica, como o faço, não representa um problema para mim.

Como já disse e escrevi antes, creio na Realidade de Deus – apesar de não acreditar na existência dum Deus pessoal que governe monarquicamente o Universo a partir dum ponto específico do cosmos. Deus representa, para mim, uma Realidade com a qual me relaciono, mas que não sei quem/o que é. Essa Realidade pode se fazer ou se faz presente em meus relacionamentos com outras pessoas, em minha relação com o mundo, em meu trabalho, no entretenimento, em minha vida religiosa etc. Não finjo ser capaz de explicar de forma coerente essa Realidade ou a forma como a experiencio. Deus, assim, em minha compreensão e experiência, é uma metáfora – e não uma entidade objetiva.

Ora, metáforas são importantes para a construção do conhecimento, para a interpretação do mundo. Não são, contudo, “essenciais”, indispensáveis. Da mesma forma, se Deus é uma metáfora, e a religião é uma forma de conhecimento, uma forma de interpretação da experiência humana, então Deus não é essencial ou indispensável para a experiência religiosa.

Mas isso, claro, depende de (a) quem, quando e onde perguntar. Essa é minha perspectiva, até hoje pelo menos – a perspectiva dum cristão agnóstico religioso. Se as mesmas questões sobre Deus, espiritualidade e religião forem feitas a outra pessoa, você certamente terá respostas bem diferentes das que lhe ofereço aqui.

Grande abraço!

+Gibson


quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

"Por que odeio religião, mas amo Jesus" - minha resposta ao excelente vídeo de Jefferson Bethke



“E se eu te dissesse que Jesus veio para abolir a religião? E se eu te dissesse que votar nos republicanos não era realmente sua missão? E se eu te dissesse que “republicano” não significa automaticamente “cristão”? […] Quero dizer, se a religião é tão boa, porque ela iniciou tantas guerras? Por que ela constrói igrejas grandes, mas falha em alimentar os pobres? [...]”

Sou um unitarista, logo, já sabem que não acredito que “Jesus tenha morrido para me salvar de meus pecados”. Sim, ele – ou melhor, as representações sobre ele pintadas pelos autores dos Evangelhos – é meu modelo de virtude. É meu Mestre. É meu farol em meio a toda essa confusão do mundo. As narrativas acerca de sua suposta vida e os relatos de suas supostas palavras guiam minha busca pelo Divino – que não é ele mesmo, mas que marca-o como seu “enviado”.

Se Jesus “salva-me”, essa “salvação”, em minha compreensão, ocorre por meio de seus ensinamentos e exemplos (mesmo que ele não tenha factualmente existido, ou que aquelas palavras e ações a ele atribuídas não sejam factuais), e não por meio duma morte expiatória – ideia que soa tremendamente ofensiva para minha sensibilidade espiritual (ou seja, para a maneira como interpreto o mundo e sua relação com o Divino). Também não acredito em exclusividade cristã: Jesus não é o único caminho para Deus. Se “Deus” é real, não precisamos de ponte para alcançá-lo(a) – mas podemos fazer uso de modelos ético-espirituais em nossa vivência da fé, e Jesus é o meu.

Apesar dessa diferença de compreensão, quando comparado ao pensamento expresso por Jefferson Bethke neste vídeo, não posso deixar de apreciar sua perspectiva ética. Não é à toa que este vídeo tem causado o rebuliço que criou nos EUA.

+Gibson

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Fé e Ciência

"Em minha visão, não há nenhuma contradição em ser um cientista rigoroso e uma pessoa que acredita em um Deus que tem um interesse pessoal em cada um de nós. O domínio da ciência é examinar a natureza. O domínio de Deus está no mundo espiritual, um reino que não pode ser examinado com as ferramentas e a linguagem da ciência. Deve ser examinado com o coração, a mente, e a alma."

Francis Collins (diretor do Projeto Genoma Humano). The Language of God: A Scientist Presents Evidence for Belief (p. 6).

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Um cristão agnóstico?

Ontem vi um episódio de um de meus programas favoritos da tevê, que, talvez, muitos de vocês não conheçam: Cara & Coroa, na TV Brasil. Se não conhecem o programa, meu conselho é que tentem assisti-lo um desses dias. É um programa muito inteligente e inspirador, que desconstrói a barreira artificial existente entre gerações etárias, apresentado por João Rocha Lima (o cara) e Milton Coelho da Graça (o coroa).

No episódio de ontem (exibido às 20h00), o tema tratado era a religiosidade, e numa conversa entre um dos apresentadores (Milton Graça) e um dos entrevistados (o profº Gilbraz Aragão, da Unicap), ouvi esta pérola:

Milton Graça: É possível ser religioso sem acreditar em Deus?

Gilbraz – depois de pensar por algum tempo: Acho impossível ser profundamente religioso sem em algum momento desacreditar daquilo que se convencionou chamar Deus.

Com poucas palavras, muita maturidade, e muita sensibilidade, o Professor Gilbraz foi capaz de resumir tudo o que muitos cristãos liberais, tudo o que muitos unitaristas, têm dito há muito. É impossível, em minha experiência, desenvolver uma fé pensada, equilibrada, profunda, sem que se passe por momentos de crise e escuridão, momentos de descrença e, talvez, de desconstrução.

Muitas pessoas podem se confundir quando me ouvem falar a respeito de minha “descrença”. Muitas vezes, para provocar – o que é uma característica muito destacada em minha personalidade -, digo que não acredito em Deus, e alguns que me ouvem pensam que se trate de uma confissão aberta de ateísmo. Isso aconteceu recentemente depois de um sermão meu em minha comunidade religiosa. Entretanto, todas as vezes que faço provocações como essa, ao mesmo tempo reafirmo minha fé na realidade de Deus.

Como acredito que as palavras tenham um peso muito grande no sentido que damos a afirmações teológicas, gosto de enfatizar minha fé na “Realidade de Deus” e não na “existência de Deus”. Em minha teologia pessoal, essas duas expressões têm um sentido completamente diferente.

O que significaria dizer que “Deus existe”? A existência é uma qualidade que atribuímos a pessoas ou coisas; obviamente, podemos atribuí-la a ideias e sentimentos também – por exemplo, poderíamos dizer “existe um sentimento de irmandade entre nós”, e estaríamos nos referindo a algo subjetivo; mas, como tradicionalmente usamos este verbo para falar em Deus como sendo uma “pessoa” separada de nós, com uma “existência objetiva” – ao menos, é a impressão que tenho quando ouço “Deus existe” -, prefiro usar uma expressão que não carregue em si o peso das concepções usuais e que não encerre em si noções muito ligadas a ideias de correção absoluta. É por isso que não digo “Deus existe”, mas “Deus é Real” ou “Deus é uma Realidade”.

Sou um descrente nas concepções a respeito de Deus construídas pela ortodoxia cristã. Não acredito no Deus ensinado pelos grandes teólogos da igreja cristã, e, em alguns casos, não acredito nas concepções de Deus ensinadas por alguns antigos unitaristas. Naquele Deus pessoa, todo-poderoso, que controla a história do mundo, capaz de nos salvar do sofrimento, eu não acredito. Minhas experiências de vida, o que sei acerca do universo do qual sou uma partícula, e tudo o que ocorre no mundo ao meu redor, são uma forte evidência, de que aquele Deus “não existe”. Ou, se preferem que eu seja mais objetivo e menos metafórico, aquelas ideias “ortodoxas” sobre Deus não me tocam, não me movem, e não fazem isso por terem se tornado uma língua muda, uma linguagem usada para convencer.

Apesar disso, entretanto, sou um crente na Realidade de Deus, que se faz presente das mais diferentes maneiras e mais diferentes momentos em minha vida. Não tento explicar Deus a ninguém, já que eu mesmo não tenho essa explicação. Deus deve ser experienciado e compreendido em nossa experiência, e não tratado como se fora objeto de uma observação científica. Deus é Real. Deus é uma Presença em minha vida, uma Presença para a qual não encontro palavras para descrever e uma Presença que me recuso a definir, mas, assim mesmo, uma Presença Real.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Deus... a mais bela metáfora

É quase inevitável. A maioria das pessoas fora de meu universo religioso unitarista pensam que sou ateu (não que isso seja problema para mim). E isso é compreensível, já que a maioria das pessoas pensam haver uma única forma cristã de se pensar a respeito do “sagrado”, e meu discurso não corresponde a esse padrão esperado pela maioria. Por outro lado, para pessoas não religiosas ou que abraçam um pensamento onde não há espaço para um “sagrado”, posso soar como um teísta, independentemente de eu não ser adepto de um teísmo sobrenaturalista.


Devo reconhecer que “Deus” nunca é tema específico de meus textos ou de meus discursos públicos. E por muitas razões. Uma dessas razões é o fato de eu ser um ministro unitarista e, como tal, evitar (?) definir “Deus” para que, assim, o termo (que vejo como metafórico) possa servir de encarnação para diferentes visões acerca do “sagrado”. Se eu falasse acerca de Deus, definindo dogmaticamente o termo, estaria excluindo pessoas que compreendem “Deus” duma maneira diferente da minha. Uma segunda razão para evitar (?) falar especificamente a respeito de Deus é a forma como interpreto minha fé, o mundo ao meu redor (e do qual sou parte) e a relação entre minha fé e o mundo.


É bom esclarecer que quando uso o termo “fé” aqui, me refiro à experiência religiosa – e não a crenças doutrinárias. A experiência religiosa, em minha concepção, é o processo de abraçar o mistério que nos cerca e envolve. É o processo de reconhecer que há algo “sagrado” (outro termo que prefiro deixar aberto a interpretações) nesta vida que vivemos – que há um Mais neste universo imperfeito, incompleto e acidental que nos leva a querer aperfeiçoá-lo (o universo) com nossas próprias criações (científicas, artísticas etc).


Esse “sagrado” reconhecido por nossas experiências religiosas (o fenômeno religioso ou a religião, se preferir) e explicado das maneiras mais diversas possíveis, e chamado de “Deus” pela maioria de nós, é o que chamo de “essência da experiência humana”.


Deus, em minha visão, não é uma pessoa; não é um criador ou um senhor; não é um pai ou um rei celestial que deva ser honrado. Deus é uma metáfora – a mais bela metáfora criada pela experiência humana. Como metáfora, não vejo nenhum problema em nos referirmos a essa Realidade como se fora uma pessoa, atribuindo-lhe características humanas – como amor, cuidado, paternidade, etc. Mas, para mim, tudo isso é apenas parte da bela metáfora criada por nossa experiência.


Deus é um caminho “sagrado” de vida que nos faz mergulhar no interior de nós mesmos para que possamos descobrir o que é ser humano.


Em minha opinião, a humanidade criou a noção de “Deus” não apenas porque precisasse explicar a razão de ser das coisas numa era não-científica (isso também), mas porque precisava de um modelo ideal para o que os seres humanos poderiam ser (amorosos, misericordiosos, hospitaleiros etc), mesmo que com certos traços das distorções humanas (intolerância, violência, autoritarismo etc).


Tudo o que sei a respeito do universo do qual sou parte exclui a perspectiva de um Ser que tenha criado tudo isso com propósito e plano definidos. Aparentemente, somos resultados acidentais de uma desordem cósmica – se você se interessa por física e cosmologia contemporâneas, saberá do que estou falando. Isso, entretanto, de maneira alguma diminui nossa importância e a importância da Metáfora que construímos para dar um sentido ao todo.


O fato de eu não acreditar que esteja aqui por determinação de uma deidade suprema, de não acreditar que haja um Ser controlando nossos destinos, faz com que meu sentimento de reverência pelo desconhecido e meu senso de responsabilidade para com o mundo aumentem ainda mais.


Deus pode não ser mais aquilo no que se acreditava antes de nossas descobertas científicas (que demoliram antigas concepções acerca do nosso universo, tornando, assim, antigas crenças religiosas insustentáveis, mas que também futuramente demolirão muitas crenças científicas que abraçamos agora), mas ainda há espaço para o “mistério”. Alguém, por exemplo, consegue explicar o que é a vida, afinal de contas? Alguém consegue explicar para onde vai a matéria engolida por buracos negros no espaço?... Ainda há espaço para o mistério!


Deus é, no fim de tudo, uma Realidade dentro da qual existimos e somos (Atos 17:28); é a própria Força de Vida que causa explosões estelares e as subsequentes criações que resultarão dessas explosões; é o processo de evolução da vida que tem estado presente há bilhões de anos neste planeta.


Deus é uma Metáfora para o mistério da vida que ainda não desvendamos, e que, certamente, continuará a nos inquietar por muito tempo – talvez, quem sabe, pelo resto da existência dos seres humanos. Prefiro que continue assim, um tremendo mistério que envolva-nos e que nos lembre que não podemos conhecer tudo e ter todas as respostas.




Rev. Gibson da Costa, D.D. - Ministro da Congregação Unitarista de Pernambuco

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Religião em comunidade e salvação

“Desenvolver uma religião nobre em solidão é quase uma impossibilidade. Os homens alcançam uma consciência mais profunda de Deus associando-se uns aos outros em seus melhores momentos.”

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"Os Unitaristas acreditam que a salvação é encontrada no aperfeiçoamento do caráter. Consideramos o 'céu' basicamente como um estado ou condição da alma. Nossa ideia de salvação é, assim, espiritual: consiste não no que temos ou onde estamos, mas no que somos e no que podemos nos tornar. Vendo que ninguém é perfeito aqui, não dizemos que ninguém seja 'salvo'."


Rev. Alfred Hall, As Crenças de um Unitarista (Londres, 1932) – ministro unitarista

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Religião e ciência


Rev. Ralph Waldo Emerson


“A religião que teme a ciência desonra a Deus e comete suicídio. Ela reconhece que não é igual à verdade plena, que legisla e tiraniza sobre uma vila do império de Deus, mas não é a lei imutável universal. Todo influxo de ateísmo, de ceticismo, torna-se, assim, útil como uma pílula de mercúrio a atacar e remover uma religião morta, e a abrir caminho para a verdade.”


Rev. Ralph Waldo Emerson – ministro unitarista do século XIX, teólogo, poeta, filósofo, pensador

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Você é Religioso

"Não concordo com aqueles que dizem que você deva apenas acreditar em Deus ou em Jesus ou Maomé, no Livro de Mórmon ou no Dr. Sun Myung Moon, para ser uma pessoa religiosa. Você é religioso porque você é uma pessoa. Você é religioso porque você é um ser humano consciente e reflexivo. Você é religioso porque sua natureza exige, ou mesmo força, que você molde uma resposta às questões da vida. Não há escapatória! A religião é uma condição herdada de uma espécie singular que necessita de uma estrutura de sentido."

Rev. David Rankin - ministro unitarista

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Por quê se incomodar em pensar em religião?

A religião é uma completa perda de tempo? Suas afirmações são razoáveis ou ridículas? Perguntas importantes – mas como podemos obter respostas? Todo tipo de gente faz todo tipo de afirmações a favor de todo tipo de religião. Eles não podem estar todos certos, mas qualquer um deles está?

Muitas pessoas vêem a religião como um assunto terrivelmente misterioso, que diz respeito a temas tão profundos que lhes tira o fôlego. A religião pode dar a outras pessoas um senso de paz, mas também pode dar-lhes um senso de certeza que pode torná-las surdas a novas idéias e perspectivas. Quando a certeza religiosa é combinada com o zelo religioso, o resultado pode ser o fanatismo e a divisão, e até mesmo a perseguição e o derramamento de sangue.

Apesar de seu papel ter mudado, a religião ainda ocupa um lugar importante em nossa sociedade. Todos, seja qual for sua visão a respeito da religião, devem dar alguma atenção à natureza das afirmações religiosas. O termo geralmente usado para se referir a essa ponderação é “teologia” (literalmente, “conversa a respeito de Deus”). A teologia exige uma disposição para ler, pensar e discutir. Ela também exige que sejamos abertos a novas idéias.

Infelizmente, muitas pessoas religiosas vêem a religião como sua âncora em um mundo de incertezas, e em vez de trabalharem na teologia, se prendem desesperadamente ao que têm. Usam a Bíblia como se fora um livro-texto com regras claras para a vida, que foram estabelecidas pelo próprio Deus. Essas pessoas são muitas vezes chamadas de Fundamentalistas. Seus “fundamentos” da religião cristã surgiram em resposta às descobertas científicas do século dezenove. A ciência parecia minar o que a Bíblia dizia.

Uma maneira óbvia de lidar com esta ameaça era rejeitar as afirmações da ciência. Essa abordagem clara e simples tem sido popular. Quanto mais radicais as afirmações feitas pelos Fundamentalistas, mais pessoas enchiam suas igrejas. Mas ao mesmo tempo, os Fundamentalistas também mostravam que tal abordagem era impossível para pessoas criticamente inteligentes.

Opostos ao Fundamentalismo estão os teologicamente liberais e progressistas que não querem ter nada a ver com qualquer forma de dogmatismo ou autoritarismo. Mas eles têm um problema. Numa era caracterizada pelo barulho, sua relutância em fazer afirmações teológicas definidoras é vista como fraqueza por aqueles incapazes de compreender suas razões.

Generalizações são sempre um risco, mas em termos muito amplos poderíamos dizer que a Igreja é um continuum, com conservadores em uma ponta e liberais em outra.

Os conservadores estão divididos em dois grupos: Evangélicos (incluindo aí os Fundamentalistas) e aqueles que se chamam Católicos ou Ortodoxos. Ambos os tipos de conservadores se opõem a conceder direitos iguais a homossexuais praticantes e mulheres.

Os liberais tentam ver todos os lados e não se opõem a nada, exceto à intolerância e à injustiça. Pode se resumir a uma questão de psicologia. Algumas pessoas têm uma necessidade muito maior de certeza que outros e são religiosos conservadores naturais. Os outros são capazes de respirar um ar mais fino e são investigadores naturais.

Um liberal é tipicamente alguém que enfatiza a necessidade de se viajar livremente e que está feliz em explorar o território por si mesmo, enquanto que um conservador é mais um viajante de pacote que raramente se aventura fora das rotas principais.

Por toda sua história, a Igreja tem sido capaz de acomodar as mais diversas perspectivas teológicas. Os críticos conservadores em seu meio constantemente reclamam a respeito de sua abertura doutrinária, dizendo que os liberais e progressistas não apóiam absolutamente nada. Mas isso simplesmente mostra quão baixa prioridade essas pessoas põem na contínua busca por verdade e quão pouco tempo elas têm para tolerância genuína.

O estudo da teologia ajuda a proteger contra a arrogância religiosa por nos tornar conscientes de quão frágeis são as posições que adotamos. Toda teologia é humana, já que toda conversa a respeito de nós é feita por nós mesmos.