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quarta-feira, 30 de julho de 2014

Sobre o Unitarismo, parte 3


Caro Edgar,

Recebi sua mensagem esta manhã, e aqui tento responder, mais uma vez, aos seus questionamentos – sem esquecer que ainda tenho outras questões que não foram respondidas por falta de tempo.

Se pareço repetitivo, em alguns de meus comentários, é pelo simples fato de minhas respostas serem públicas e por, supostamente, muitos de meus leitores não estarem tão familiarizados assim com a história ou o pensamento teológico unitarista.

Já expliquei, neste blog, a razão pela qual respondo a questões teológicas de forma pública, mas vale repetir aqui. Como todos os questionamentos que frequentemente recebo dos visitantes deste blog se relacionam, majoritariamente, ao que leram aqui, então creio ser razoável supor que outras pessoas poderiam ter questionamentos semelhantes. Ademais, uma comunicação pública ajuda a evitar o alastramento de compreensões errôneas sobre algo que tenha escrito e publicado aqui: alguém poderá sempre se referir ao que escrevi publicamente, e eu não poderei dizer que não escrevi aquilo!

Você me compreende equivocadamente se pensa que tenho uma “antipatia pelo unitário-universalismo”. Não tenho uma “antipatia” pela tradição do Universalismo Unitarista (é assim que traduzo a expressão “Unitarian Universalism”) -, em termos de origens históricas, sou parte dessa tradição. Tenho críticas à maneira como a mesma é compreendida pelos, chamemos, “recém-conversos” à tradição e à maneira como uma tradição de fé se tornou apenas uma ideologia sociopolítica. Minha crítica é de natureza teológica e, especificamente, eclesiológica. No que concerne à fé e à teologia, vejo um grande problema quando se desconstrói demais, e não se constrói nada relevante e duradouro no lugar; quando se faz questão de abrir mão duma identidade própria para fazer com que os “novos” se sintam bem-vindos em nossa própria casa. Novamente, para que você compreenda isso, tem de se dedicar a compreender a história de nossas tradições de fé – assim compreenderia a natureza de minha crítica e de muitos outros.

O termo “Universalismo Unitarista” (ou “unitário-universalismo”, como queira), hoje, se refere a uma tradição desassociada de suas raízes cristãs. O termo Unitarismo, por outro lado, continua a ser – para nós cristãos unitaristas liberais – uma afirmação de nossa lealdade à tradição cristã liberal da qual nossa tradição emergiu. Isso não significa, entretanto, ser adepto de posições teontológicas (sobre Deus) ou cristológicas (sobre Cristo) específicas. O que significa, para mim, é que Universalismo Unitarista é diferente de Unitarismo, e diferente de Universalismo; o fato de haver emergido duma mescla das tradições unitarista e universalista não tornam a tradição “unitário-universalista” sinônimo daquelas duas, que são tradições cristãs. Isso é o que alguns chamariam de “fato” histórico!

Quanto a mim, como já discuti algumas vezes aqui, faço muita pouca questão de me identificar estritamente como membro desta ou daquela tradição cristã – isso em consequência de minhas múltiplas heranças cristãs. Se o faço aqui é para afirmar minha herança teológica. Prefiro reconhecer minha dívida para com todas essas tradições cristãs que moldaram minha fé pessoal (a anglicana, a unitarista, a universalista, a luterana); e, por isso mesmo, me identificar como um cristão livre. E mesmo essa atitude, que marca minha compreensão do Cristianismo, advém da própria tradição unitarista. James Martineau, por exemplo, um teólogo e ministro unitarista inglês do século XIX, usava o termo “cristão livre” com o sentido de ser livre duma imposição de ortodoxia religiosa – ele sugeria que os unitaristas deixassem de usar o adjetivo “unitarista” (que, lembre-se, fora imposto por outros que, equivocadamente, imaginavam que todos os unitaristas fossem adeptos duma compreensão teontológica e cristológica específica) como identificador, em favor da expressão “cristão livre”, que ele acreditava ser mais inclusiva. Assim, as igrejas “unitaristas” poderiam se tornar o lar de cristãos das mais diversas teologias, onde todos seriam bem-vindos. Resta dizer que isso, até certo ponto, realmente aconteceu, mas trouxe consigo um efeito indesejado para os cristãos unitaristas no mundo anglófono: a “descristianização” de nossa tradição. Nos Estados Unidos, especificamente, emergiriam outros movimentos nos meios unitaristas: O Movimento da Religião Livre, e o Movimento Humanista, que influenciariam a união entre as igrejas universalistas e unitaristas, e a formação daquilo que hoje é chamado de Universalismo Unitarista (que não deve ser confundido, em absoluto, com os tradicionais Unitarismo e Universalismo, enquanto tradições cristãs).

Logo, se você perceber, há paralelos entre o que ocorreu com o Movimento do Universalismo Unitarista ("UUismo") e o Unitarismo, um de seus berços. O Unitarismo se esforçou para demolir os edifícios que o separava de outras formas de Cristianismo liberal – assim, podemos ler, por exemplo, um batista como Harry Emerson Fosdick defender, no início do século XX, uma teologia liberal defendida pelos unitaristas há mais de um século, sem, no entanto, se identificar como unitarista; assim, me atrevo a dizer que unitaristas, universalistas, anglicanos, batistas, presbiterianos, e metodistas, por exemplo, ensinavam, na prática, a mesma coisa até meados do século XX (durante o auge da teologia liberal no meio protestante nos Estados Unidos). O “Uuismo”, posteriormente, foi além e derrubou o edifício teológico cristão para tornar-se uma tradição multirreligiosa, na qual, paradoxalmente, a própria identidade religiosa se tornaria sinônimo de quase nada – ou seja, na prática, a tradição do Universalismo Unitarista se fundamenta em negações a, e não em afirmações de. Algo semelhante ao universalismo multirreligioso do (polêmico) Rev. Kirby J. Hensley, fundador da “Igreja da Vida Universal”, cujo dogma era “fazer apenas aquilo que é certo”.

Por isso, faço questão de enfatizar que Universalismo Unitarista e Unitarismo (e Universalismo) não são idênticos. O Cristianismo é a raiz da qual emergiu a tradição unitarista – e também a universalista. Foi daí que emergiu nossa compreensão de Deus, de Jesus, das Escrituras, da dignidade humana, da liberdade espiritual e de consciência, etc. Nossa histórica compreensão de Deus se baseia nos ensinamentos das Escrituras judaico-cristãs sobre a unicidade de Deus. Nosso compromisso com a liberdade espiritual vem da noção de que “onde se encontra o Espírito do Senhor, aí está a liberdade” (2 Coríntios 3:17). Nossa crença na dignidade humana e, consequentemente, nossa história de inclusão radical se assenta sobre o espírito das Escrituras que dizem que “não há mais diferença entre judeu e grego, entre escravo e homem livre, entre homem e mulher, pois todos vocês são um só em Jesus Cristo” (Gálatas 3:28).

Ou seja, as afirmações unitaristas são afirmações cristãs. Nossas compreensões teológicas específicas podem não ser partilhadas por todos os cristãos, mas elas emergem das raízes cristãs. Sua linguagem é cristã, sua narrativa é cristã, sua identidade é cristã. E essa identidade é maior que nossas filiações eclesiásticas particulares – assim, os unitaristas que são membros de igrejas cristãs não-unitaristas não veem isso como um desafio a suas convicções (ao menos no mundo anglófono, já que no Brasil as filiações eclesiásticas tendem a estar atreladas à aceitação de afirmações teológicas específicas, e tendem a não permitir a duplicidade de membresia eclesiástica). Eu, como a maioria dos outros cristãos unitaristas que conheço – sejam eles, nos Estados Unidos, membros de congregações da UUA ou de outras igrejas unitaristas, ou da Igreja Episcopal, da Igreja Unida de Cristo; ou, no Brasil, membros de congregações especificamente unitaristas –, identifico um unitarista como um cristão liberal e livre, mas, mesmo assim, fiel à sua tradição de quase cinco séculos. Não preciso negar essa tradição para ser receptivo a outras pessoas. Prefiro estar aberto e receptivo a todos, ao mesmo tempo em que me mantenho fiel à minha identidade religiosa.

Estero ter conseguido responder à sua mensagem de hoje. Grande abraço!

+Gibson

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Sobre o Unitarismo, parte 2


Caro Edgar,

Continuo aqui, depois de mais de um mês, minha tentativa de responder algumas daquelas várias questões levantadas por você. Em minha mensagem anterior, havia tratado sobre algumas informações históricas que julgo importantes para sua compreensão do Unitarismo, enquanto tradição cristã. Aqui, continuarei a tratar algumas das questões subsequentemente levantadas por você.

A maneira mais fácil de descrever nossa tradição é, simples e imperfeitamente, afirmar que há uma grande diversidade entre nós. Isso, basicamente, significa que os unitaristas, individualmente, abraçam uma ampla gama de perspectivas teológicas e estão ligados a diferentes tipos de igrejas.

Eclesiasticamente, também somos muito diversos. Há igrejas unitaristas de governo episcopal, isto é, igrejas com bispos (como nas igrejas unitaristas da Transilvânia e Hungria); há igrejas unitaristas congregacionais (como a maioria das igrejas unitaristas do mundo anglófono, e no Brasil); e há igrejas unitaristas presbiterianas (como algumas nas Ilhas Britânicas). Contudo, é sempre bom lembrar-se que nem todos os unitaristas são membros duma igreja especificamente unitarista. E há muitos auto-declarados unitaristas, especificamente no mundo anglófono (especialmente nos Estados Unidos), que são membros de outras igrejas cristãs – especialmente a Igreja Unida de Cristo, a Igreja Cristã (Discípulos de Cristo), outras igrejas congregacionais ou a Igreja Episcopal – ou, simultaneamente, membros duma igreja unitarista e de alguma outra igreja cristã (essa é minha experiência pessoal, à propósito), por razões muito específicas à realidade local.

Apesar de nossa diversidade, entretanto, acredito poder apontar convicções que são comuns à maioria dos unitaristas, ao menos da tradição anglófona – o que é o meu caso. Lembre-se, contudo, que entre nós não há a obrigação de se aderir a definições teológicas pormenorizadas, então, os indivíduos são sempre livres para compreenderem a fé de sua maneira. Assim, tradicionalmente, vemos nossa união como sendo mantida por um espírito de simpatia e cooperação, e não pela imposição de fórmulas, de declarações de fé, de credos – nós, entretanto, não rejeitamos essas declarações ou credos necessariamente, rejeitamos apenas sua imposição aos indivíduos como requisito para que sejam parte da mesma comunidade de fé. Essa é a tradição de liberdade de consciência, tão apreciada em nossa tradição.

A tradição unitarista, tradicionalmente, identifica como cristão toda pessoa que se [auto]identifique como um seguidor de Jesus Cristo. Assim, não acreditamos ou ensinamos que alguém tenha de ser um unitarista para ser um cristão “verdadeiro”. Assim como não excluímos ou julgamos pessoas de outras tradições religiosas não cristãs por não serem cristãs ou não serem unitaristas. Não equacionamos o Divino com uma compreensão particular de Deus. Foi dessa compreensão, compartilhada por cristãos unitaristas e universalistas – a seu próprio modo –, aliás, que adveio o espírito de respeito ou “abertura” para com outras tradições de fé que marca a tradição “unitário-universalista” (descendente duma mescla daquelas duas, especialmente do movimento da “Religião Livre” e, posteriormente, do movimento humanista dos unitaristas). Logo, você se equivoca quando afirma que essa atitude seja uma característica originalmente “unitário-universalista” enquanto movimento não cristão, como se diferentes tradições cristãs devessem corresponder a um estereótipo de “fanatismo” ou “fundamentalismo” nascidos de sua própria experiência com o(s) Cristianismo(s) brasileiro(s).

Como cristãos, damos grande ênfase à Bíblia em nossa tradição, mas a maneira como a compreendemos pode soar muito diferente da forma como outras tradições cristãs brasileiras a veem. Nós unitaristas não acreditamos na infalibilidade da Bíblia. Entendemos a Bíblia como um testemunho da relação de certos grupos humanos (a antiga Israel e a “Igreja primitiva”) com Deus; ou seja, a Bíblia é um conjunto de escritos humanos que passou por um processo de canonização até tornar-se Escritura Sagrada. Ou seja, os escritos do apóstolo Paulo, por exemplo, não eram Escritura, não eram textos canônicos, quando ele os escreveu; essa canonização, transformação do texto em Escritura, ocorreu ao longo do tempo e depois de debates e disputas teológicas na Igreja cristã. Nós unitaristas, tradicionalmente, abraçamos essa compreensão histórica em nossa apreciação da Bíblia, que, entretanto, não deixa de ser Escritura sagrada, apesar de sua humanidade!

Para compreender nossa relação de dependência teológica para com a Bíblia, você precisa compreender que, como escrevi na primeira parte desta resposta, as tradições cristãs unitarista e universalista emergiram atreladas ao princípio de “sola scriptura”; ou seja, as compreensões teológicas cristãs, na visão de nossos fundadores, deveriam encontrar sua raison d'être nas Escrituras (Bíblia). O que diferenciava especialmente os primeiros unitaristas de outros protestantes era sua valorização do conhecimento humano e da consciência individual para a leitura das Escrituras – o que, necessariamente, implicaria uma maior diversidade de perspectivas teológicas. Mas o que importa, aqui, é saber que todos os argumentos levantados para as perspectivas teológicas defendidas por unitaristas, e universalistas, advinham de sua leitura professa das Escrituras – obviamente, imersa em certas compreensões filosóficas que marcaram seu próprio tempo, desde o século XVI até hoje.

Logo, apesar de haver princípios comuns aos autores unitaristas ao longo desses séculos, seus argumentos e compreensões mudavam/mudam a depender dos contextos culturais nos quais viviam/vivem. Fausto Sozzini, Joseph Priestley, Thomas Belsham, William Ellery Channing, James Freeman Clarke, Charles Gordon Ames, James Luther Adams, e tantos outros autores de nossa tradição, defendiam visões não plenamente idênticas, mas entrelaçadas na fé cristã que partilhavam. Assim, por exemplo, um cristão liberal unitarista como eu pode não se sentir plenamente confortável com as compreensões esposadas no Catecismo Racoviano (tão influenciado pelas ideias teológicas de Sozzini), ou mesmo abraçar as cristologias de Priestley, Channing ou Clarke, mas reconhecerá que essa diversidade é uma parte essencial de nossa tradição. Apesar da partilha de muitas ideias, os unitaristas poloneses e transilvanos, por exemplo, diferiam em muito de seus correligionários ingleses, que poderiam ser vistos como mais “liberais”. E os unitaristas ingleses, por sua vez, diferiam dos unitaristas americanos em termos teológicos. E, nos Estados Unidos, os unitaristas da Nova Inglaterra diferiam dos unitaristas do Oeste. Todos, entretanto, se viam como coparticipantes da mesma tradição!

À propósito, a diversidade é uma marca necessária das tradições cristãs liberais, sejam elas a unitarista, a universalista, a quaker, a batista geral, a presbiteriana não-subscrevente ou a remonstrante, por exemplo. Como encontrar concordância plena em termos de teologia dogmática é complicado em nosso meio, posso apontar alguns pontos comuns entre nós – e entre nós e outros cristãos (como aqueles grupos citados acima):

1) Para nossas tradições, a união comunitária na Igreja não exige a uniformidade de crenças. Há uma grande valorização do indivíduo, mas o indivíduo transcende seu isolamento por meio do mover do Espírito Santo na comunidade. As posições minoritárias na igreja, em nossas tradições, devem ser protegidas em nome dessa ação do Espírito Santo (que, obviamente, compreendemos de maneiras bem diversas em nossas diferentes tradições). A manutenção da liberdade de consciência individual – talvez a principal bandeira de nossas tradições – era e é vista como uma aliança entre a igreja e Deus, e entre os membros da igreja. Dessa ideia duma aliança particular entre os membros duma igreja, e entre esses e Deus, e o alto grau de autonomia local que dela deriva, vem a essência do que é chamado de “congregacionalismo” – o tipo de eclesiologia mais comum entre nós.

É bom esclarecer, ademais, que a própria democracia política moderna emergiu dessas ideias congregacionalistas, e outras semelhantes. O teólogo unitarista James Luther Adams, por exemplo, chamava esse princípio de “coarquia”, que ele contrapunha à “hierarquia”. Os defensores da autonomia da igreja local consideravam que sua visão de “igreja livre” deveria tornar-se um modelo para um estado democrático. Seus conceitos políticos derivavam, por analogia, de seus conceitos eclesiásticos. O que constituíra, originalmente, elementos duma “eclesiologia” (isto é, duma doutrina sobre a natureza e organização da igreja), era usado agora como ingredientes duma teoria política: o consentimento dos governados, a exigência do sufrágio universal, um executivo sujeito à lei, o princípio da oposição leal. O conceito básico de sociedade democrática, assim, descende do conceito de “igreja livre” defendida pelos nossos ancestrais unitaristas, e de outras tradições cristãs liberais.

2) Uma crença na e afirmação da dignidade humana, e uma confiança na capacidade humana. Isso como uma resposta às noções de natureza humana depravada ou caída características de certos grupos protestantes. Na verdade, essa pode ser apontada como a principal diferença entre os unitaristas e outros cristãos. Apesar de outros cristãos (incluindo os universalistas) terem sempre enfatizado nossas noções mais antigas sobre Deus ou Cristo como sendo nosso principal distintivo, nós unitaristas costumamos apontar nossa visão do ser humano. O Unitarismo rejeita a doutrina do pecado original – e isso, obviamente, tem um enorme impacto sobre como nossa tradição compreende o ser humano. O que isso significa hoje, para nós, é que vemos o ser humano como capaz de fazer tanto o bem quanto o mal, e daí a importância que damos à educação, tanto em nosso meio quanto na sociedade como um todo.

3) Uma valorização e paixão pela racionalidade. A história de nossa tradição é marcada pelo esforço contrário ao tradicionalismo rígido e arbitrário, e contra aquilo que nossos antepassados chamavam de “obscurantismo”. Um encorajamento, apropriação e ênfase de valores da cultura letrada e da ciência, como formas de compreender nossa fé e enriquecê-la em nossas vidas sociais. Assim, a leitura das Escrituras na tradição unitarista foi moldada por essa herança de diálogo entre a fé e a “alta cultura” produzida pelos meios intelectuais, especialmente nos países de língua inglesa.

Esses são apenas alguns dos princípios unitaristas, compartilhados com outros grupos cristãos liberais, que eu poderia apontar. Ainda devo-lhe uma resposta sobre alguns conceitos sobre Deus e Cristo. Mas essa fica para uma próxima mensagem.

Grande abraço e bençãos!

+Gibson

sábado, 21 de junho de 2014

Sobre o Unitarismo, parte 1


[Tentarei aqui responder a algumas questões levantadas por Edgar, um leitor que se identifica como “unitário-universalista”.]

Caro Edgar,

Algumas das questões que você levanta são interessantes, entretanto, sem querer ser ofensivo, algumas das afirmações que você faz demonstram que ainda não conhece muito sobre a história e as ideias da tradição unitarista. Me surpreende, por exemplo, que você pense que ouvir um cristão se identificar como unitarista (que você chama de “unitário”) seja “se apropriar indevidamente do nome de outra religião”! O Unitarismo per se é uma tradição cristã. O fato de nós unitaristas não sermos tão “abertos” (termo que você utiliza) quanto os “unitário-universalistas” para outras crenças e/ou práticas religiosas baseia-se no simples fato de professarmos uma fé específica, i.e., a fé cristã. Na realidade, acredito que como uma tradição de fé somos muito abertos, tolerantes, e respeitosos com outras tradições religiosas, mas isso não significa que tenhamos de negar nossa própria fé para exibirmos esse respeito; não significa que tenhamos de trazer práticas de outras religiões para dentro de nossas liturgias só para que pareçamos “abertos” (sua ideia de abraçar práticas das religiões afro-brasileiras em ofícios unitaristas, para mim, soa a isso).

Ecumenismo, a propósito, é diferente de adotar crenças e práticas de outras religiões. O ecumenismo se refere à busca de união no contexto da própria Igreja cristã; ou seja, diferentes tradições cristãs buscando uma união entre si, apesar de suas diferenças, enquanto discípulos de Jesus Cristo. O caso referido por você poderia ser chamado de pluralismo inter-religioso.

Penso que devo esclarecer que há importantes diferenças teológicas – mesmo que essas não pareçam muito óbvias para quem olha de fora – entre as tradições do Unitarismo, do Universalismo e daquilo que você chama de Unitário-Universalismo. Só quando se compreende as diferenças entre essas tradições, e o contexto histórico no qual elas se desenvolveram, é que se pode chegar a uma resposta às questões que você levanta. E, por conta de sua formação intelectual, creio poder trazer alguns elementos mais complexos ao nosso diálogo. Aqui, tratarei apenas dos aspectos históricos do Unitarismo, em mensagens posteriores, tratarei sobre suas outras questões.

Para que minha posição fique muito clara, sou um unitarista, isto é, um protestante liberal herdeiro da tradição unitarista anglo-americana (ligado, eclesiasticamente, a outras diferentes denominações protestantes). Minha compreensão teológica está enraizada numa lealdade às Escrituras judaico-cristãs (i.e., à Bíblia), e à tradição teológica que se desenvolveu a partir da Reforma do século XVI, mais especialmente aquela nascida dentro da Igreja da Inglaterra e nas igrejas congregacionais da Nova Inglaterra (EUA) no século XVIII. Como um unitarista, os princípios do “sola scriptura” e do “sacerdócio universal dos fiéis” são importantíssimos para mim. Isso distingue minha compreensão daquela da maioria dos que se identificam como unitário-universalistas, já que sua compreensão teológica não se limita ao Cristianismo – não se identificando plenamente com aquilo que historicamente foi/é professo pela maioria dos cristãos unitaristas e universalistas. Também é importante que você compreenda que a Unitarian Universalist Association (UUA) é uma associação de igrejas autônomas, de governo congregacional, e não uma religião – é verdade que a maioria das igrejas associadas se identificam como “humanistas” (utilizando o termo “unitário-universalista” como adjetivo), mas há muitas igrejas cristãs unitaristas e universalistas tradicionais membros da associação. O que mantém essas igrejas unidas é um senso de cooperação, e não de compreensão teológica específica.

Ainda sobre o Unitarismo nos Estados Unidos, a maioria das igrejas cristãs unitaristas, entretanto, desde a formação da UUA e do predomínio de não-cristãos na mesma, se associou a outras denominações como a United Church of Christ (UCC), a Christian Church (Disciples of Christ), ou se tornou independente. É importante notar que mesmo as igrejas cristãs que continuaram na UUA, especialmente aquelas em nosso berço na Nova Inglaterra, se associaram à UCC, como uma forma de auto-identificação explícita como igreja cristã sem, contudo, negar sua lealdade à tradição unitarista ou universalista – o que pode ser visto, também, como uma forma de reconciliação na tradição congregacional americana (lembre-se que a Associação Unitarista Americana, que deu origem à UUA, foi formada depois dos conflitos entre as igrejas congregacionais unitaristas e trinitaristas na Nova Inglaterra no século XIX). Da mesma forma, também há igrejas cristãs universalistas na UUA, que, para manterem sua identidade cristã fizeram o mesmo que as igrejas unitaristas. Ademais, há algumas congregações universalistas em outras denominações protestantes. Também, não se deve esquecer que hoje há, nos Estados Unidos, outras associações unitaristas e universalistas especificamente cristãs (sem citar os exemplos fora dos EUA, como aqui no Brasil).

O Unitarismo brasileiro é descendente direto dessa tradição unitarista congregacional da Nova Inglaterra. Como na comunidade daqui não houve os mesmos desenvolvimentos históricos ocorridos nas comunidades dos Estados Unidos durante o século XX, aqui não houve o que ocorreu por lá. Os grupos existentes continuaram a professar uma fé cristã unitarista tradicional, apesar de, em certos aspectos, serem enriquecidas por algumas das discussões ocorridas na América do Norte – a depender de quem chegava por aqui. A comunidade foi mantida por missionários vindos dos EUA até fins da II Guerra Mundial, quando se tornou plenamente autônoma. Nos EUA, a união dos Unitaristas, Universalistas e Humanistas só ocorre na década de 1960, ou seja, após a autonomia dos unitaristas brasileiros e de outras partes do mundo.

O que torna o Unitarismo difícil de ser compreendido pela maioria dos outros cristãos é o fato de a tradição não poder ser bem definida em termos dogmáticos. Os unitaristas, desde suas primeiras origens no continente europeu, e de seu desenvolvimento nas ilhas britânicas e na América do Norte, sempre foram muito diversos em termos teológicos – dependendo da “comunhão” cristã da qual emergiram. Assim, os primeiros unitaristas da Alemanha, da Itália, da Transilvânia, da Hungria, da Polônia, de diferentes regiões da Inglaterra, da Escócia, da Irlanda e da América do Norte (e aqui utilizo os nomes contemporâneos só para não complicar ainda mais!) abraçavam compreensões teológicas, práticas litúrgicas e organizações eclesiásticas distintas umas das outras.

Na verdade, é importante lembrar que o próprio adjetivo “unitarista” é problemático, já que é um identificador utilizado primeiramente por seus adversários, tanto católicos quanto protestantes, sendo incorporado por esses cristãos apenas depois de algum tempo. Outros termos utilizados para identificar nossa tradição foram os adjetivos “sociniano” e “ariano” (que, individualmente, possuem sentidos teológicos específicos não necessariamente partilhados por todos os “unitaristas”). O termo “unitarista” (em latim) foi utilizado pelo primeira vez num documento da Dieta de Lecfálva, em 1600, para se referir aos antitrinitaristas da Transilvânia (hoje parte da Romênia), cuja igreja se chamaria posteriormente “Igreja Unitarista da Transilvânia” (chamada assim até hoje). Em inglês, o termo começa a ser usado por um sociniano, Henry Hedworth, em 1673 – e se torna o termo padrão utilizado pelos próprios antitrinitaristas, apesar de seus adversários os chamarem de “socinianos”. A única coisa comum a todos esses diferentes grupos de cristãos, em diferentes regiões da Europa e, posteriormente, da América do Norte, era seu aparente “antitrinitarismo” – isto é, sua aparente rejeição do dogma da “Trindade” como definido pelo Credo de Atanásio.

Não posso escrever aqui uma história do Unitarismo, mas, talvez, “cronologizar” certos pontos de seu desenvolvimento histórico ajude um pouco:

  • Tradicionalmente, identifica-se Martinho Borrhaus (alemão), um amigo de Lutero, como o autor da primeira obra publicada que defendia uma teologia antitrinitarista – “De operibus Dei” (1527) –, visão, a propósito, desaprovada por Lutero.

  • Depois dessa obra, é publicada por Miguel Serveto (espanhol) a obra “De Trinitatis Erroribus” (1531), na qual ele trata especificamente do dogma atanasiano da Trindade; e, mais tarde, “Christianismi Restitutio” (1551), sua obra mais importante e a causa apontada para sua morte, queimado na fogueira por heresia, pelos reformados (calvinistas) em Genebra, em 1553. Ele defendia uma visão cristológica (isto é, sobre Cristo) “ariana”, ou seja, Cristo preexistia antes de sua encarnação – uma discussão muito complexa que mereceria uma postagem própria (quando puder, discuto isso aqui no blog). Serveto é considerado a influência teológica mais importante para o início das igrejas antitrinitaristas/unitaristas da Transilvânia e da Polônia, e o primeiro “mártir” unitarista.

  • Em Veneza, a partir de 1550, ocorre o desenvolvimento do movimento antitrinitarista liderado por Matteo Gribaldi Mofa, um teólogo e advogado defensor de Serveto, entre os anabatistas. Mofa tornou-se um importante líder do movimento, sendo o professor de futuros líderes do movimento antitrinitarista em outras áreas da Europa.

  • Na Polônia, já desde fins da década de 1530, se desenvolviam ideias antitrinitaristas entre os membros da Igreja Reformada (calvinista). Em 1565, esses antitrinitaristas poloneses, formados por arianos e unitaristas, e chamados de “Irmãos Poloneses”, foram expulsos do sínodo da Igreja Reformada polonesa (chamada a partir de então de Ecclesia maior = Igreja Maior), formando seu próprio sínodo (chamado de Ecclesia minor = Igreja menor). Esses eram, inicialmente, arianos que se negavam a adorar a Cristo e que praticavam o batismo de adultos (anabatistas). Posteriormente, a teologia do italiano Fausto Sozzini (Socinus, em latim), que se mudou para a Polônia em 1579, tornou-se a visão dominante entre os Irmãos Poloneses, e esses ficaram conhecidos por seus adversários como “socinianos” (aceitavam o nascimento virginal de Jesus, mas negavam a preexistência de Cristo). Em 1602, Jakub Sienienski fundou em Raków a Akademia Rakowska (Academia Racoviana) e uma gráfica, onde o Catecismo Racoviano foi publicado em 1605. Em 1610, os jesuítas lideraram uma reação contra os Irmãos Poloneses, que começaram a ser violentamente perseguidos em diferentes partes da Polônia. Um neto de Sozzini publicou, entre 1665 e 1668, 4 volumes, chamados de “Bibliotheca Fratrum Polonorum quos Unitarios vocant” (Biblioteca dos Irmãos Poloneses chamados de Unitaristas), obra que teve grande influência entre os antitrinitaristas na Inglaterra, e que contribuiu para o uso do adjetivo “unitarista”. Em 1660, a Dieta Polonesa deu aos Irmãos Poloneses as opções de arrependimento ou exílio. Alguns se “arrependeram”, mas a maioria se exilou nos Países Baixos, onde foram recebidos pela Igreja Remonstrante, já que os Irmãos Poloneses aceitavam o Credo Apóstólico. Outros foram para a Prússia, Lituânia e Transilvânia.

  • O caso da Transilvânia e Hungria já é, aparentemente, conhecido por você. Giorgio Biandrata, um médico e teólogo veneziano que vivera entre os Irmãos Poloneses, vai trabalhar na côrte do futuro Rei da Hungria Oriental e Príncipe da Transilvânia Zápolya János Zsigmond em 1563, e influencia Ferenc Dávid, que seria eleito em 1564 como o bispo das igrejas reformadas húngaras na Transilvânia e apontado como pastor do monarca. Posteriormente, o próprio monarca se torna um antitrinitarista e emite o Edito de Torda, em 1568, um edito que garantia a liberdade religiosa para diferentes grupos religiosos em seus domínios. Não preciso escrever muito sobre as Igrejas Unitaristas da Transilvânia e da Hungria, pois elas são muito conhecidas.

  • Na Inglaterra, a história do antitrinitarismo é antiga, com muitos defensores na própria Igreja da Inglaterra. Um exemplo é o do sacerdote John Assheton, na década de 1540. O movimento, entretanto, começa com John Biddle na década de 1640. Após ser repetidamente preso por seus escritos unitaristas, ele foi sentenciado ao exílio na Sicília em 1655, onde morreu em 1662. Até a organização de igrejas explicitamente unitaristas – o que só começou em 1774 –, os unitaristas britânicos estavam tanto na Igreja da Inglaterra quanto em igrejas não-conformistas como presbiterianas, congregacionais e batistas gerais. O primeiro ministro a se identificar explicitamente como “unitarista” foi o presbiteriano Thomas Emlyn, que também foi punido com a prisão por suas ideias, mas organizou uma congregação em Londres, em 1705. A primeira igreja a se chamar explicitamente “unitarista” foi organizada por Theophilus Lindsey, um sacerdote anglicano, e Joseph Priestley, um ministro congregacional, em Londres, em 1774. Em 1791, eles organizam a primeira denominação unitarista britânica. A Inglaterra foi um centro importantíssimo de difusão do Unitarismo desde o século XVII, especialmente para a América do Norte, inclusive através de ministros/sacerdotes da própria Igreja da Inglaterra naquilo que seria conhecido como Estados Unidos. Foram, literalmente, centenas de publicações que tratavam sobre o tema e que alimentavam os leitores não apenas nas ilhas, como também no outro lado do Atlântico. Havia movimentos unitaristas também na Escócia e Irlanda, apesar de esses serem, numericamente, menores que o da Inglaterra.

  • Já no que concerne aos Estados Unidos, e se relaciona diretamente com sua tradição e com a minha, o Unitarismo é inseparável de Boston e região (a Nova Inglaterra) e Harvard College, que seria chamado de Universidade Harvard posteriormente. O pensamento unitarista era muito influente em Harvard durante o século XVIII, onde eram formados os ministros das igrejas congregacionais da Nova Inglaterra, e nas igrejas da região. O desenvolvimento seguiu um pouco o modelo britânico. Os unitaristas eram conhecidos, mas as igrejas não se chamavam “unitaristas”. A primeira igreja a se identificar como “unitarista” foi uma paróquia episcopal (anglicana), a King's Chapel de Boston, em 1782, que chamou James Freeman como ministro e revisou o Livro de Oração Comum para se adequar ao unitarismo da congregação. Outras igrejas começam a se identificar como “unitaristas” em toda a região da Nova Inglaterra e a tensão com outras igrejas congregacionais se intensificou, o que levou à conhecida “Controvérsia Unitarista” em 1815. O ápice da tensão entre os congregacionais trinitaristas e unitaristas ocorre após o histórico sermão de William Ellery Channing, na ordenação de Jared Sparks na Primeira Igreja Independente de Baltimore, em 1819. Em 1825 é formada a Associação Unitarista Americana, que une as igrejas unitaristas americanas e se envolve com o trabalho missionário em várias regiões do mundo – dando origem à comunidade em Recife, por exemplo. Essa associação só deixa de existir em 1961, com a união da Associação Unitarista Americana com a Igreja Universalista da América para formar a Unitarian Universalist Association.

Isso, amigo Edgar, só para que você tenha uma breve ideia da longa história do Unitarismo como expressão cristã. São cinco séculos de história! Historicamente, o que é novidade é a expressão “pós-cristã” do UUismo, e não o Unitarismo (sem, com isso, eu querer desvalorizar o UUismo)!

Grande abraço!

+Gibson