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quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Natal: Jesus, refúgio e a hospitalidade


Todos os anos, durante o período do Advento (as quatro semanas que antecedem o Natal, no calendário cristão), preparo-me para celebrar a data na qual comemoramos o nascimento de Jesus de Nazaré – aquele que a maioria dos cristãos prefere chamar de “Cristo”, e cujo nascimento celebra como aquele dum membro duma família real, com cânticos, árvores iluminadas com luzes coloridas, estrelas que simbolizam sua grandeza cósmica, jantares caros e trocas de presentes.

Apesar de eu gostar muito das tradições natalinas – especialmente das celebrações litúrgicas e das cantatas às quais estou acostumado –, o Natal, para mim, não é a celebração do nascimento dum membro da realeza celestial (ou terrestre). A data é, em minha vida, um memorial à experiência da busca de refúgio – um lembrete da experiência do “êxodo”, que, metaforicamente, pode tornar-se a experiência de toda a humanidade.

Se tivermos de entender a narrativa do “êxodo” de Jesus – em Mateus 2:13-23 – como factual, então a vida do menino começa como a vida dum refugiado em terra estrangeira. Não como a dum príncipe ou rei. É se refugiando em outra terra, para escapar daqueles que o perseguem, que Jesus inicia sua vida.

Isso pode parecer irrelevante para muitos, mas, para mim, é o que há de mais importante na narrativa natalina. E não importa o quão pouco factual seja a narrativa do êxodo de Jesus – considerando que a mesma pode ter sido construída apenas para transformar a figura de Jesus na dum novo Moisés –; o que realmente importa é que ela o proclama como igual às crianças, mulheres e homens que deixam seus lares em busca de segurança e de vida, nas mais diferentes regiões do mundo, sob os mais diversos contextos.

O Jesus que aguardo no Advento, e que celebro no Natal, é um Jesus que sofre e busca refúgio e que, assim, é dependente da hospitalidade e compaixão dos humanos. É o Jesus que diz que quando alimentamos, damos de beber, vestimos, visitamos, somos hospitaleiros com os estrangeiros, é a ele que fazemos essas coisas (Mateus 25:35-45).

Esse é o Jesus que aprendi a celebrar. É o Jesus com a face de Ada, Concepción, Ibrahim, Mahmood, Moji, Alejandro e tantos outros. Para mim, o Natal só é comemorado para que eu me lembre que era deles e delas que Jesus falava, que era eles e elas que deveriam ser “celebrados” em minha vida, nesta data. Só assim eu poderia realmente viver o que Jesus ensinou.

O Natal, para mim, é uma celebração do refúgio – do refúgio que os seres humanos devem encontrar nos braços, corações e casas de seus irmãos e irmãs.

Minha oração é que possamos estar abertos e prontos para receber esse Jesus – esse Jesus que se manifesta nas faces dos seres humanos – neste Natal.

Vem, Mestre galileu!

Feliz Natal!

+Gibson


domingo, 4 de maio de 2014

Não esqueçamos da hospitalidade


Não explore o imigrante nem o oprima, porque vocês foram imigrantes no Egito.” (Êxodo 22:20)

Quando um imigrante habitar com vocês no país, não o oprimam. O imigrante será para vocês um concidadão: você o amará como a si mesmo, porque vocês foram imigrantes na terra do Egito...” (Levítico 19:33-34)

Portanto, amem o imigrante, porque vocês foram imigrantes no Egito.” (Deuteronômio 10:19)

O imigrante nunca teve que dormir na rua, porque eu abria minhas portas ao viajante.” (Jó 31:32)

Sejam solidários com os cristãos em suas necessidades e se aperfeiçoem na prática da hospitalidade.” (Romanos 12:13)

Não se esqueçam da hospitalidade, pois algumas pessoas, graças a ela, sem saber acolheram anjos.” (Hebreus 13:2)


Todos vocês conhecem essas passagens bíblicas. Elas sempre tiveram uma grande importância na formação de minha compreensão teológica. Sempre tiveram, também, uma grande importância para nossa tradição, pois apontam para uma das maiores obrigações daquele que intenta seguir os ensinamentos atribuídos a Jesus: a hospitalidade.

No Novo Testamento grego, a palavra usada para se referir à hospitalidade é “filoxenos”, ou seja, amor ao estrangeiro. Em minha compreensão, esse princípio, um verdadeiro mandamento cristão, nunca foi tão importante quanto em nossos dias. Os milhões de seres humanos que cruzam fronteiras em busca duma nova vida aumentam a cada dia. E muitos desses seres humanos desenraizados encontram uma recepção desumana de muitos de nós.

Não, não estou me referindo a seres metafóricos que habitam as páginas de livros sagrados ou poéticos. Me refiro às centenas, talvez milhares, de haitianos que vendem produtos nas calçadas do Recife para que possam sobreviver. Me refiro aos milhares de seus compatriotas que têm cruzado as fronteiras do Acre nos dois últimos anos. Me refiro aos milhares de bolivianos semi-escravizados em fábricas de São Paulo. E, também, às centenas de nordestinos explorados em trabalhos de baixa qualificação em outras partes do país, e olhados como menos dignos de respeito. Acredito que é sobre essas pessoas que aquelas passagens fazem referência, e sobre todas as outras que são desrespeitadas, maltratadas, e negligenciadas por terem vindo de outro lugar.

Por razões muito pessoais, narrativas migratórias sempre foram muito importantes para mim: os patriarcas e matriarcas bíblicos, Medeia em Corinto, Jesus em Jerusalém, os brasileiros na América do Norte e Europa, e tantas outras histórias de movimentação humana – e sua consequente alegria e dor. Mas ontem, depois de conhecer uma pessoa muito especial numa esquina do centro da cidade, percebi o quão importante é por tudo aquilo no qual dizemos acreditar ao teste, para que nossa fé se materialize em nossas ações.

Sei o quanto vocês já colaboram com o “Projeto Santuário” de nossa congregação. Tenho testemunhado o esforço que alguns de vocês têm feito para ajudar famílias e indivíduos a recomeçarem suas vidas em nosso país. Todos eles são muito gratos por isso. Mas o que temos feito não é suficiente! Precisamos fazer muito mais.

Como cristãos, somos chamados a estender nossas mãos, abrir nossas portas e compartilhar nossas mesas com todo estrangeiro. Precisamos ajudar essas irmãs e irmãos a vencerem seus obstáculos e a construírem uma vida digna, mesmo que para isso tenhamos de desafiar o mundo. Esse é o sentido do termo “santuário”, oferecer proteção, trazer para sob as asas da compaixão, amor e respeito esses nossos irmãos e irmãs.

Uma fé que não seja um desafio a nossas próprias limitações, preconceitos e medos, uma fé que não seja uma forma de trazer o Divino a esse mundo caótico, não é relevante. O amor ao estrangeiro – a hospitalidade que afirmamos professar como princípio de fé – pode significar muitas coisas diferentes, mas o cuidado para com o imigrante é, definitivamente, seu sentido mais básico. Por isso, estendo a todos a convocação divina ao filoxenos, testemunhada por nossa aliança congregacional que reza:

O amor é a doutrina desta igreja,
E o serviço é a sua oração.
Habitar juntos em justiça e paz,
Buscar a verdade com liberdade,
Respeitar o valor e dignidade de todas as pessoas,
E servir a humanidade juntos,
A fim de que todas as almas
Possam crescer em harmonia com o divino,
Esta é a aliança que fazemos uns com os outros.

+Gibson