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domingo, 6 de janeiro de 2008

Orações a Um Deus Além do Teísmo Sobrenatural (2)

A crença no poder da oração continua a ser característico não apenas da prática cristã, mas também do judaísmo e do islã. A vasta maioria dos cristãos, judeus e muçulmanos vêem Deus como um ser sobrenatural – uma entidade toda-poderosa, onisciente, que esteja em algum lugar “lá em cima”. E sejam as orações dirigidas a Adonai, Alá, ou feitas em nome de Cristo, elas são vistas como um canal de comunicação com Deus.


Quando chove tanto que as encostas dos morros chegam a desmoronar, quando a seca atinge o ápice em nossa região, quando a violência atinge índice alarmantes (como agora), as pessoas caem de joelhos para pedir a intervenção de Deus, para suspender as forças da natureza ou para mudar a natureza humana, para efetuar um milagre. Agora, nesse exato momento, pessoas no interior daqui mesmo de Pernambuco, devem estar pedindo por uma solução para o problema da seca; e aqui na capital, devem estar implorando a Deus uma solução para o problema da violência urbana.


Agora, se, mesmo com todas essas orações, as encostas dos morros de algum bairro do Recife desmoronam e vitimam alguém, um avião cheio de passageiros cai, alguém é assassinado por um assaltante, algumas daquelas pessoas que oram começam a se questionar. Se Deus podia intervir, por que não o fez e preveniu o sofrimento? Talvez seja parte dos propósitos de Deus, mas por que os planos de um Deus de amor incluiriam tais sofrimentos? Por que Deus não respondeu as orações?


Alguém que escreveu, em nome de Paulo, uma carta à antiga comunidade cristã em Tessalônica cria profundamente na oração. Ouçam essas palavras que servem como nosso texto hoje:


1 Tessalonicenses 5:14-17

Por favor, irmãos: corrijam os que não fazem nada, encorajem os tímidos, sustentem os fracos e sejam pacientes com todos. Cuidem que ninguém retribua o mal com o mal, mas procurem sempre o bem uns dos outros e de todos. Estejam sempre alegres, orem sem cessar.


Orem sem cessar” foi o mandamento à antiga igreja. Oração constante era o que eu pensava ser essencial ao cristianismo quando eu era criança. Ficar sozinho, fechar os olhos em silêncio. Mas minha mente sempre esteve cheia de perguntas e dúvidas a respeito da oração. Eu sou um ministro, e vocês pensam que eu deveria entender muito de oração. A psiquiatra Ann Ulanov escreveu: “Muitos de nós sentimos que se temos orado por muito tempo, devemos ter progredido de certos estágios. Deve ter havido alguma grande iluminação”. Bem, isso certamente não aconteceu comigo.


Me consolo com a confissão do Bispo John Spong de que ele tem enfrentado o mesmo desafio. Ele já saiu em retiros de oração, fez cursos a respeito de oração, construiu um cantinho de oração em sua casa, leu tudo quanto é manual de oração – tudo sem muito sucesso. Ele disse: “Minha ambição era ser alguém que vivia com uma significante consciência do divino e que pudesse conhecer a paz que vem da comunhão com Deus”. Mas ele não encontrou essa paz.


Nunca me senti confortável com a noção de um Deus sobrenatural, outra confissão incomum para um ministro cristão, então obviamente a oração a esse Deus – ao menos da forma como tradicionalmente o cristianismo tem ensinado - tem sido um problema também. Durante minha adolescência comecei a buscar outras formas de rezar, outras formas de me sentir envolto pela consciência do divino, e como consequência, me afastei ainda mais das antigas noções de Deus.


Depois de sair do seminário e ser ordenado, e me envolver no ministério, eu abandonei completamente a crença em um Deus teístico, a crença num ser divino exterior e este mundo. Comecei a usar a palavra Deus com novos significados, que eu realmente poderia afirmar. Este foi o tema do meu sermão semana passada a respeito de um Deus além do teísmo sobrenatural.


Agora, eu sei que alguns de vocês se sentem confortáveis com as noções tradicionais de Deus como um ser sobrenatural. Não permitam que eu diminua isso. Se esse senso de Deus funciona para você, se compreensões tradicionais de oração faz sentido para você, então agarrem-se a essa fé. Aqui nesta igreja, não temos que concordar a respeito de todas as coisas.


Mas as noções tradicionais deixaram de funcionar para mim, e suponho que para muitos de vocês também. Como indiquei semana passada, penso que as visões tradicionais de Deus exibam um tipo de super-homem; alguém como eu, mas sem minhas limitações. Nesse tipo de imagem, Deus tem o que falta em nós – Deus é todo-poderoso porque nós não somos; Deus é onisciente porque não somos; Deus pode consertar aquilo que não podemos.


Oração a esse tipo de Deus tem se constituído basicamente em pedir aquilo que queremos ou pensamos precisar. Deus se torna Papai Noel a quem vamos com um lista de pedidos, um escravo de nossos caprichos.


Mas como disse semana passada, tenho uma nova compreensão de Deus. Eu reconheço que qualquer compreensão de Deus será envolvida em mistério, porque há tanto que desconhecemos. Entretanto, eu agora vejo Deus, não como um ser, não como uma entidade que resolve todos os problemas, mas como um processo, uma força, como “a” Força de Vida. Considero a linguagem de Paul Tillich de muita ajuda. Deus não é um ser singular, mas em vez disso é a Base de Todo Ser, Deus é o próprio Ser. Deus não está “lá em cima” em algum lugar, em vez disso, está no âmago de tudo que há.


Como disse o filósofo judeu Martin Buber: “Deus é a experiência de unidade que existe antes de nossas percepções serem divididas em categorias como espaço e tempo”. Deus é a energia criadora que possibilita a vida. Deus é o espírito ou presença eterna de amor que interliga todas as coisas vivas.


Mas como se orar à Força de Vida? Como se reza à Base de Todo Ser?


O Bispo John Spong é um dos vários teólogos a articular hoje o sentido de afirmar um Deus além do teísmo sobrenatural. E em minha opinião, ele desenvolveu um sentido novo e significativo do quem vem a ser a oração. Muito do restante deste sermão se desenvolveu a partir de seu livro de 2001, Um Novo Cristianismo Para Um Novo Mundo.


Ele disse: “Na fase mais tradicional e teísta de minha vida, eu desenvolvi um hábito de passar as primeiras duas horas do dia em oração e estudo. À medida que me movia além do teísmo para um entendimento pós-teísta de Deus, descobri que o compromisso de iniciar meu dia com esse período de duas horas não mudou, mas meu entendimento do que eu estava fazendo, sim - e dramaticamente”.


Ele continua: “A primeira mudança foi em relação ao que eu pensava ser a parte do dia dedicada à oração, que deixou de se restringir às primeiras duas horas e passou a incluir todo o resto do dia”.


Agora essa é a parte crítica para mim. Ele disse: “Minhas ações, meus compromissos com pessoas que enfrentavam problemas concretos – tudo passou a ser, para mim, o verdadeiro momento de oração. Minha oração começou a se identificar com meu viver, meu amar, meu existir, meus encontros, meus confrontos, minhas lutas por justiça, meu desejo de ser um agente de transformação do mundo. Era aí que eu me encontrava e comungava com Deus. Deus não me esperava mais nos lugares silenciosos de retiro - agora Deus estava no tumulto de uma vida de muita atividade e, às vezes, preocupação. Deus não estava nas rochas estáveis, mas na rápida correnteza”.


Ele continua: “Se a oração é o ato de me comprometer com Deus, e se Deus é a fonte da vida, então minha oração se tornou o momento de me comprometer com a vida. O modelo de oração criada por um teísmo que colocava Deus fora da vida – conceito que sugeria que deveríamos nos recolher da vida para orar ou alcançar a santidade – foi virado de cabeça para baixo”.


Aqui está a definição de Spong para a oração que eu abraço como minha. Usando suas palavras, é assim que eu entendo a oração. Oração é a maneira como eu vivo, amo, luto e ouso ser.


Spong disse: “O tempo que eu passava em meu escritório a cada manhã tornou-se preparação para oração, uma forma de me lembrar de quem realmente sou, de onde Deus está e como pode ser encontrado”. Percebem? Ele ainda passa aquele tempo de silêncio todos os dias, como eu faço, mas ele vê esse tempo como uma preparação para a oração, e não como a própria oração – e nos próximos dois sermões desta série, olharemos um pouco para a experiência da preparação.


Dorothee Sölle, uma teóloga da libertação alemã pela qual tenho grande respeito – falecida em 2003, escreveu certa vez: “A oração é uma preparação intensiva para a vida”. Não, orar é o viver a vida, e não uma preparação para ela!


John de Gruchy, um teólogo da libertação sul-africano escreveu: “A vida cristã, enquanto intensamente pessoal, é sempre comunal... A privatização da piedade enfraquece a vida cristã”. Ele entendia que a oração não é um ato privado feito em reclusão, mas é o que fazemos quando vivemos nossas vidas em comunidade. A comunidade de voluntários hoje em nosso programa de distribuição de alimentos estará orando ao servirem o alimento.


Dietrich Bonhoeffer, o ministro luterano executado pelos nazistas na Alemanha, disse certa vez: “Apenas aqueles que elevam suas vozes pelos judeus têm o direito de cantar cantos gregorianos”. Ele via a espiritualidade como ligada ao ativismo por justiça. Nós oramos com nossas vidas.


Karl Barth, um teólogo alemão conservador, disse: “Juntar as mãos em oração é o início de um levante contra a desordem do mundo”. Ativismo ligado à oração.


Dag Hammarskjold, um antigo Secretário Geral das Nações Unidas, de quem sempre se falou como sendo um místico moderno, disse: “Em nossa era, o caminho para a santidade passa pelo mundo da ação”. Orar é agir – viver, amar, lutar e ousar ser.


O Rabino Harold Kushner disse: “Enquanto muitos de nós vêem o mundo dividido entre o sagrado e o profano, tudo no mundo de Deus pode ser sagrado se percebermos seu potencial de santidade. Tudo que fazemos pode ser transformado em uma experiência do Sinai, um encontro com o sagrado”. A oração como a maneira como vivemos, amamos, lutamos e ousamos ser é, dessa forma, um encontro com o sagrado, a Força de Vida.


Deixem-me terminar retornando às palavras do Bispo Spong. Ele se vê como “portador de Deus”, dando testemunho de Deus, a Força de Vida, por meio da maneira como vive e age a cada dia. Ele disse: “Meu momento matutino me prepara mais adequadamente para ser portador de Deus... Também atesto que esse momento privado me capacita para realizar tarefas de maneira mais plena, apropriada e completa. Sei que sou modificado, aberto, sensibilizado e fortalecido para agir durante durante esse tempo reservado diariamente. Mas deixei de considerá-lo tempo de oração. Orar para mim é viver. Tempo de preparação é o tempo necessário para descobrir quem sou e quem Deus é dentro de mim, para que eu possa viver minha vida a partir desse conhecimento.


Ele disse: “Quando alguém pressupõe que eu não oro mais, como insistem os críticos religiosos, o que realmente estão querendo dizer é que eu não entendo nem pratico mais a oração da forma como eles o fazem. Não espero mais que uma divindade teísta trabalhe para mim, mas espero passar meus dias trabalhando pela expansão da vida, pela plenitude do amor e pela intensificação do existir. Isto é, espero realizar o trabalho de Deus – um Deus que creio ser real. Não defino esse Deus em termos de uma pessoa sobrenatural. Creio, contudo, que experiencio esse Deus quando sou agente da vida, do amor, e do existir para alguém. Pois o Deus que venero, que vejo em Jesus de Nazaré, é revelado em cada pessoa. Esse Deus é encontrado no existir de todos nós”.


Esse Deus me chama constantemente para ser a encarnação de seu amor, uma testemunha da realidade de sua própria vida. Consigo realizar isso trabalhando para aumentar ou intensificar a humanidade de cada pessoa, para libertar a vida presente em cada pessoa, para aumentar o amor disponível a cada pessoa e para celebrar o ser de cada pessoa. É através desses atos que consigo discernir a presença das pegadas divinas e ter a certeza de que Deus esteve nesse lugar antes de mim e, às vezes, por minha causa”.


Um Deus além do teísmo sobrenatural – Deus como a Força de Vida, como a Presença Eterna do Amor, como a Base de Todo Ser. E a oração, não como uma prática espiritual privada, mas como a maneira como vivo, luto e ouso ser. É virar as coisas de cabeça para baixo; noções radicais para um novo dia. Amém.


(Sermão pregado por mim em 2007, na Congregação Unitarista de Pernambuco)

Orações a Um Deus Além do Teísmo Sobrenatural (1)

Quando faço uma visita a alguém doente, muitas vezes o doente ou um parente me pede para orar pela pessoa que está doente. A esperança é que a oração possa levar à cura – que Deus fará algo a respeito da doença. Obviamente, o indivíduo doente pode orar por isso, mas talvez as orações de um líder religioso sejam mais eficazes. Deus e a oração.


Uma vez fui orador em um ofício de Sábado judaico na Flórida. Quando o ofício terminou, eu ainda estava no bimah quando um membro da sinagoga pediu ao rabino que orasse por ele, já que ele estava saindo em uma longa viagem. O rabino abriu o livro de orações, o mesmo que aquele membro estava segurando, na página de uma oração de viagem e simplesmente leu aquela oração em voz alta – mas ao fazer aquilo trouxe conforto ao viajante quanto à sua viagem. Deus e a oração.


No livro "Um Novo Cristianismo Para Um Novo Mundo", o Bispo John Shelby Spong conta que em uma escola cristã, uma jovem atleta contraiu meningite. Seus colegas entendiam as promessas de Deus que eles tinham lido na Bíblia literalmente. Uma das epístola dizia “orai sem cessar”, então os estudantes organizaram uma vigília de oração de 24 horas para que orações fossem enviadas a Deus todos os minutos do dia em favor de sua jovem amiga. Eles acreditavam no que tinham lido nas escrituras cristãs – todas as coisas são possíveis, a fé pode mover montanhas, peça e Deus proverá.


Entretanto, a doença progrediu. As duas pernas da jovem tiveram de ser amputadas. Uma crise de fé se alastrou no corpo estudantil. Deus e a oração.


Esta manhã eu começo uma série de sermões em quatro partes a respeito da oração a um Deus além do teísmo sobrenatural. Alguns de vocês podem discordar de algumas ou muitas das coisas que eu direi nesta série. Apenas lembrem que nesta congregação afirmamos que todos nós estamos em nossas próprias jornadas individuais de fé, unidos em comunidade, sim, mas livres para desenvolvermos nossas próprias compreensões da verdade religiosa. Encorajo cada um de vocês a chegarem a suas próprias conclusões a respeito de Deus e a oração; deixem que esta série estimule seus pensamentos.


Agora, qualquer discussão a respeito da oração deve começar com uma reflexão a respeito de Deus. Há um Deus? Como é Deus? Deus ouve e responde orações?


Todos os exemplos que dei no início pressupõem um Deus teístico – um ser sobrenatural, um criador, uma entidade onipresente toda-poderosa que está em algum lugar e que intervém na experiência humana.


Mas quero propor uma alternativa àquele ser sobrenatural. Quero levantar a possibilidade de um Deus além do teísmo sobrenatural. Então, apesar de este sermão iniciar uma série a respeito da oração, não falarei mais a respeito de oração até a próxima semana. Esta semana será apenas a respeito de Deus. E muito do que direi a respeito de Deus agora é similar ao que já tinha falado em um discurso que dei em um seminário que tivemos aqui há alguns meses atrás.


Meu texto vem de uma lenda da antiga Israel:


Gênesis 32:23-31


Durante a noite, Jacó se levantou, tomou toda a caravana, e cruzou o rio. Depois de ter atravessado com todos os seus pertences, ele voltou ao acampamento e ficou completamente sozinho. Lá, alguém lutou com Jacó até o amanhecer. Vendo que Jacó não podia ser dominado, o outro golpeou a coxa dele, de modo que o tendão da coxa de Jacó se deslocou enquanto lutava com ele.


Então, o homem disse: “Solte-me, pois a manhã está chegando”. Jacó respondeu: “Não o soltarei, enquanto você não me abençoar”. O homem, então, lhe perguntou: “Qual o seu nome?” Ele respondeu: “Jacó”. O homem continuou: “Você não se chamará Jacó, mas Israel, porque você lutou com Deus e com homens, e você venceu”.


Uma imagem fascinante – Jacó lutando com Deus. De muitas formas, tenho passado toda a minha vida (até agora) lutando com Deus – tentando descobrir se há um Deus e se há, como é esse Deus. Marco Aurélio disse: “A arte de viver se parece mais com a luta do que com a dança”. Em minha vida na igreja, eu tenho mais lutado com Deus do que dançado com Deus.


Desde a adolescência, minha fé em Deus tem sido como uma gangorra: pra cima e pra baixo, lutando com Deus. Eu acredito em Deus, mas Deus para mim conota algo muito diferente do Deus teístico sobrenatural da ortodoxia cristã.


Permitam que eu compartilhe três pensamentos a respeito de Deus. Primeiro, a realidade de Deus está coberta de mistério; nunca podemos completamente entender ou articular a natureza de Deus.


Um professor de literatura na faculdade, disse-me uma vez: “O papel do escritor é aprofundar o mistério”. Eu penso que o papel da igreja é apreciar o mistério.


Escrevendo a respeito da popularidade de Harry Potter e do Senhor dos Anéis, o Arcebispo anglicano David Hope disse que o que as pessoas encontram nesses livros e filmes é um convite a um mundo de maravilha e mistério. Para mim, conversar a respeito de Deus é adentrar um mundo de maravilha e mistério.


Paulo disse aos antigos cristãos: “Agora vemos vagamente num espelho; conhecemos Deus apenas parcialmente”. Hoje, tudo o que temos são reflexões fragmentárias, relances parciais de uma realidade possível.


Nossas mentes funcionam mais como lâmpadas do que como o espelho de Paulo. Um espelho reflete a realidade como ela é; uma lâmpada ilumina diferentemente dependendo onde ela é colocada. Nós obtemos relances da realidade de Deus de várias perspectivas, mas sempre há mistério.


O ministro unitarista Forrest Church diz que o mistério nos alicerça na humildade e abertura. Ele disse: “Aceitar minha pequenez enquanto permaneço aberto ao desconhecido para explorar os mistérios insolúveis, cresço na fé. Ao permanecermos abertos ao desconhecido, ousamos adentrá-lo ainda mais. Crescemos em conhecimento e em ignorância, mas também crescemos em maravilha e em confiança”. E ele continuou: “O poder que eu não posso explicar ou conhecer ou nomear, eu chamo de Deus. Deus não é o nome de Deus. Deus é meu nome para o mistério que aparece gradualmente lá dentro e que arqueia além dos limites do meu ser”.


O rabino Abraham Heschel disse: “A busca pela razão acaba na praia do desconhecido; na imensa expansão além dela apenas um senso do inefável pode passar”.


Meu segundo pensamento: Mesmo em meio ao mistério, devo olhar além do teísmo para entender Deus. O dicionário define o teísmo como a crença em Deus. Então como posso acreditar em Deus se não sou um teísta? Posso fazê-lo se abandonar a noção de que Deus seja um tipo de ser; de que Deus seja sobrenatural. Para mim, Deus é encontrado na malha da própria vida. Deus é processo, talvez mais próximo da “Força” de Star Wars do que das imagens tradicionais de um ser nos céus. Deus é uma presença, uma força de vida.


Eu não posso mais entender Deus como um poder onipotente de controle que interfira nos assuntos humanos como um pássaro mergulhando do céu para salvar uns e assolar outros.


Não posso mais crer em um Deus a quem possa orar por cura e que Deus possa ou não responder com um milagre.


Não posso mais crer em um Deus que salva alguns de um acidente aéreo e incêndios, enquanto outros morrem, ou em um Deus que tome lados em uma guerra.


Deus não é um moralista cósmico que registra ofensas, punindo com o fogo do inferno. Deus não é um absoluto imutável, puramente externo a nós.

As velhas imagens de um Deus teístico, de acordo com o Bispo anglicano John Shelby Spong, são intensamente humanas – Deus fazendo coisas grandiosas, entretanto humanas. É como se projetássemos em um ser divino as coisas que não podemos fazer, assim Deus é imortal, onipotente, onisciente, sobrenatural. Nas palavras de Spong, o Deus teístico se torna “um ser humano sem as limitações humanas”. Deus, o super-herói!


Eu penso que nossas imagens de Deus sejam muito pequenas, muito limitadas. Para mim, o Deus presente nessas imagens, o Deus do teísmo sobrenatural, está morto!


Mas ainda falo de Deus, um Deus além do teísmo sobrenatural. Vários teólogos e líderes cristãos corajosos têm falado e escrito a respeito de tal Deus. Eu pessoalmente tenho tido a oportunidade de conhecer algumas dessas pessoas, especialmente nos Estados Unidos, através de meu envolvimento com o movimento cristão progressista.


Lloyd Geering, acusado e julgado por heresia, e absolvido pela igreja presbiteriana na Nova Zelândia, escreveu um livro chamado “Cristianismo Sem Deus” - ou seja, sem um Deus sobrenatural.


Don Cupitt, um sacerdote e teólogo anglicano britânico, tem escrito extensivamente a respeito de um Deus além do teísmo, querendo substituir a palavra “Deus” pela palavra “Vida”, com um “V” maiúsculo, por ele ver Deus como a própria Força de Vida.


Richard Holloway, antigo Arcebispo de Edimburgo, fala frequentemente de um Deus não-teístico.


E nos Estados Unidos, o Bispo John Spong clama continuamente por um mover além do teísmo.


E estas noções não são novas! Anos atrás, Paul Tillich dizia que Deus não era um ser sobrenatural, mas em vez disso era a “Base de Todo Ser”. Deus é o “Próprio Ser”. Para Tillich, não fazia sentido implorar a um poder externo para suprir as nossas necessidades. Ele dizia que deveríamos substituir imagens externas altas de Deus por imagens profundas internas – Deus no âmago de tudo que é, uma presença mística na qual toda pessoa pode florescer.


Tillich disse essas coisas há mais de meio século atrás. E por muito tempo, teólogos do processo da Escola de Teologia Claremont têm afirmado um Deus além do teísmo. Alfred North Whitehead, um matemático e filósofo iniciou a teologia do processo imaginando Deus como um processo divino que vem a ser dentro da vida deste mundo. Ele via Deus existindo “com” toda a realidade, não anterior a ela.


O teólogo do processo, Schubert Ogden disse: “Deus, relacionado a tudo, está continuamente no processo de auto-criação. Deus é por analogia um Deus vivo, e mesmo crescente”.


Mas pensar em Deus como processo, ver Deus como a Base de todo o Ser, é conceber o divino de uma forma muito diferente. Significa que na igreja, em vez de conectar pessoas a um ser externo, deveríamos ajudar as pessoas a encontrar formas de tocarem o infinito centro de todas as coisas. Como Spong diz: “Deus é a inescapável profundeza e centro de tudo que é”.


entretanto, a maior parte da literatura bíblica eleva uma imagem teísta de Deus, a imagem que fazia sentido no mundo antigo. Mas há, entretanto, imagens bíblicas consistentes com Deus como a Base de Todo Ser.


Os antigos hebreus chamavam o Espírito de Deus de “Ruach”, vento – era como a vozinha calma experimentada por Elias. Uma força vitalizante, o espírito de Deus, sem limites estava em todos os lugares.


A palavra grega para Espírito usada pelos antigos cristãos é “Pneuma”, ar, respiração, fôlego. Deus está presente em toda respiração.


Então, os primeiros dois pensamentos: Toda conversa a respeito de Deus começa com mistério e Deus não é um ser teístico exterior a nós mas é, em vez disso, a força de vida, a Base de todo Ser dentro de cada um de nós.


Agora um pensamento final: Os limites de minha habilidade de conceituar, unidos às limitações da língua, significam que eu frequentemente penso e falo do Deus além do teísmo sobrenatural usando metáforas e imagens humanas.


Em nossa liturgia aqui frequentemente usamos metáforas: Deus como um pai esperando pelo retorno de um filho pródigo, Deus como uma mãe segurando e ninando um bebê, Deus como um pastor cuidadoso. Precisamos de metáforas, mas precisamos também lembrar que é apenas isso que elas são!


O Bispo Spong disse: “Não estamos cientes da sabedoria antiga que sugere que 'se cavalos tivessem deuses eles se pareceriam com cavalos'? Nenhuma criatura pode conceituar além de seus próprios limites ou de seu próprio ser. Um cavalo não pode pensar ou imaginar além da experiência de um cavalo. Independentemente das pretensões humanas, isso é também verdade no que tange aos seres humanos. Nenhum de nós pode ir além disso. Se vamos falar a respeito de Deus, temos que começar reconhecendo esta limitação”.


Bem, eu sei que isso é verdade a meu respeito. Em meus sermões e orações, falo do amor de Deus, do abraço de Deus, do toque de Deus – e não há nenhum problema nisso, desde que me lembre que essas são metáforas ligadas aos limites lingüísticos.


Então, se vou usar metáforas para Deus como a Força de Vida, quais são apropriadas? Se vou personificar o Deus além do teísmo sobrenatural, como faço isso? Bem, é aí que dou um salto de fé. Sei que há muitas formas de se relacionar com a Base de todo Ser. Budistas, muçulmanos, hindus o fazem de maneiras muito significativas. Mas para mim, é através do Jesus histórico que encontro Deus e é onde encontro linguagem metafórica para descrever a presença de Deus em todo fôlego de vida.


Para mim, Deus é como o Jesus humano era. Jesus era perdoador, incondicional em sua misericórdia e amor aos outros, então eu uso metáforas como “misericordioso” e “perdoador” para falar de Deus, a Força de Vida. Jesus aceitava todas as pessoas como elas eram, então eu afirmo, em fé, que Deus, metaforicamente, aceita cada um de nós como nós somos. Deus nos ama e nos aceita com todas as nossas várias habilidades e inabilidades, em nossa variedade de raças e culturas, mesmo quando expressamos nossas sexualidade em uma variedade de formas.


Forrest Church escreveu a respeito das metáforas que ele usa para Deus. Ele disse: “Cada palavra que eu evoco para Deus é um sinônimo de liberal. Deus é munificente e mão-aberta. A criação é exuberante e abundante. Como a Base de nosso ser, Deus é amplo e abundante. Como curador e confortador, Deus é caridoso e benevolente. Deus é generoso e clemente. E Deus tem um coração sangrante que nunca para”. Metáforas para a Base de Todo Ser; metáforas para aquilo que está além de nossa linguagem.


E também precisamos criar novas metáforas para Deus como a Força de Vida. Deus, embutido em mistério e surpresa. Deus além do teísmo sobrenatural como a Força de Vida, a Base de Todo Ser, uma Presença Eterna. E Deus nas metáforas do sempre presente amor, misericórdia e aceitação. Deus, na nova fórmula trinitária proposta pelo Bispo Spong – Deus, o mistério da vida; Deus, o mistério do amor; e Deus, o mistério do ser. E semana que vem, perguntarei o que significa orar a uma Força de Vida. Amém.



(Sermão pregado por mim em 2007, na Congregação Unitarista de Pernambuco)

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

THOMAS MERTON: Contemplação em Ação


Nosso serviço a Deus e à igreja não consiste apenas em falar e fazer. Pode também consistir em períodos de silêncio, ouvir, esperar. Talvez seja muito importante, nesta era de violência e inquietação, redescobrir a meditação, a oração unitiva de silêncio interior, e o silêncio cristão criativo.” - Thomas Merton, “Love and Living”.


O que temos de fazer no presente não é falar tanto de Cristo, mas deixar que ele viva em nós para que as pessoas possam encontrá-lo sentindo como ele vive em nós.” - Thomas Merton



Thomas Merton (1915-1968) era membro de uma comunidade monástica católico-romana que abraçava o silêncio, ainda assim ele falou volumes sobre os assuntos espirituais mais importantes de nossos dias. Ela era um homem enormemente complexo que buscou o silêncio, solidão e contemplação, enquanto, ao mesmo tempo, vivia uma vida ativa que levou-lhe a amizades com centenas de pessoas por todo o mundo. E apesar de seu movimento e comunicação terem sido bem restritos nos 27 anos nos quais ele fora membro da Ordem Cisterciense, ele desempenhou um papel-chave na formação de eventos históricos ao falar sobre assuntos morais importantes em seus dias. Sua liderança o estabeleceu como um modelo de como as pessoas de fé, dos mais diversos estilos de vida, podem mergulhar em uma espiritualidade que naturalmente leva a uma preocupação pelos outros seres humanos e por toda a criação de Deus.


Este monge silencioso falou poderosa e eloqüentemente sobre três aspectos extremamente importantes da vida espiritual: espiritualidade contemplativa, justiça social, e diálogo inter-religioso. Merton reconheceu a importância individual de cada um destes, mas ele entendeu melhor que a maioria das pessoas que o diálogo inter-religioso e a obra de justiça social não estejam separados da espiritualidade e que devam crescer dela de forma orgânica.



Thomas Merton nasceu em 1915, no sul da França. Seus pais eram artistas que viajavam muito, e o jovem Merton era levado de casa em casa, de país a país, de maneira que deu-se-lhe pouca oportunidade de saber o que a palavra “lar” significava. E ficar órfão cedo só aumentou seu sentimento de destituição.


Durante sua adolescência, Merton passou muito tempo em colégios internos na França e na Inglaterra. Ele era extremamente inteligente, e seu brilhantismo em sua escola inglesa fez com que ele recebesse uma bolsa de estudos para a Universidade de Cambridge no início da década de 1930. Infelizmente, ele dedicou mais tempo à beberronia que aos estudos em seu primeiro ano na faculdade, e neste processo engravidou uma jovem. A família de sua mão fez um acordo com a jovem, e enviou Merton para os Estados Unidos onde poderiam vigiar-lhe melhor (apesar de o destino da criança ser desconhecido, Merton fez preparos financeiros para quando ele ou ela aparecesse).


Em 1935 Merton matriculou-se na Universidade de Colúmbia, onde recebeu seu bacharelado e mestrado em inglês. Em Colúmbia ele foi profundamente influenciado pelo poeta e estudioso Mark Van Doren que tornou-se seu mentor. Enquanto ainda era estudante, Merton embarcou numa nascente carreira de escritor, compondo romances, ensaios, resenhas e poesias por uma década. Pouco do que ele escreveu naqueles anos foi publicado. Depois de seu mestrado, ele aceitou um emprego de professor na Saint Bonaventure College no interior do Estado de Nova Iorque, e começou seu doutorado.


Apesar de haver sido um anglicano nominal em sua infância, a religião não havia sido aparentemente algo significante na juventude de Merton. Ele passou por um processo de conversão gradual que o levou ao batismo na Igreja Católica Romana, e o desejo de tornar-se um sacerdote na Ordem Franciscana. Os franciscanos inicialmente aceitaram Merton, mas ao ouvirem a respeito de seus anos em Cambridge, mudaram de idéia. Ele ficou desesperado até que um amigo sugeriu-lhe que fizesse um retiro na Abadia de Nossa Senhora do Getsêmani, um mosteiro trapista nas cercanias da cidade Louisville. Merton fez uma visita durante a Semana Santa de 1941.


Ele sentiu-se tocado pela piedade e estrita disciplina daquele lugar. Os monges de Getsêmani acordavam no meio da noite, e rezavam a cada três horas durante o dia. Eles mantinham o silêncio, a não ser que falar fosse inevitável. Os monges dormiam em um dormitório sem aquecimento, se dedicavam ao duro trabalho agrícola, e mantinham uma escassa dieta vegetariana. Suas vidas pareciam ser completamente dedicadas à oração e penitência.


Merton ficara tão impressionado, que após retornar a Bonaventure fez um requerimento para ser aceito pelo mosteiro, o que aconteceu no outono daquele mesmo ano. Ele doou seus poucos pertences à caridades, queimou alguns de seus manuscritos e confiou outros aos cuidados de seus amigos. Ele foi para Getsêmani com a intenção de completamente abandonar sua velha vida.


Sua Renúncia de Vida de Escritor e Seu Sucesso como Autor


Quando Merton entrou em Getsêmani em 10 de dezembro de 1941, ele acreditava que sua carreira como escritor havia acabado. Ele pensava que a partir de então estava dedicando sua vida completamente à oração. Mas quase que imediatamente após sua entrada ao mosteiro, foi-lhe dado um sem número de atividades que envolviam a escrita. A primeira dessas foi preparar sua auto-biografia, uma tarefa que inicialmente ele não queria realizar. Em obediência, ele aceitou a tarefa, e quando o livro foi publicado no outono de 1948 com o título de “The Seven Storey Mountain”, se tornou um best-seller, com 600.000 cópias vendidas nos primeiros doze meses. E desde então, nunca mais se deixou de publicar esse livro.


No tempo em que sua auto-biografia foi publicada, a maioria dos monges recebiam cartas apenas duas vezes por ano, e mesmo essas cartas (na maioria das vezes limitadas a membros da família) eram censuradas. Os monges não liam jornais ou revistas, e claro, não ouviam rádio. Quanto às notícias, eles eram essencialmente mortos para o mundo.


Para Merton, as coisas eram diferentes. O sucesso fenomenal de sua auto-biografia quase agostiniana tornou-lhe numa celebridade espiritual, e ele começou a receber cartas dos famosos e dos nem tão famosos. Duas coisas resultaram do sucesso entre os leitores e críticos de seu livro (The Seven Storey Mountain). Primeiro, Merton veio a ser visto pelo público como uma autoridade popular da vida espiritual. Segundo, aqueles que se correspondiam com ele começaram a contar-lhe as notícias, que nutriam um interesse por justiça social que ele tinha desenvolvido durante seu tempo como estudante em Nova Iorque.


Contemplação, Silêncio e Solidão


Nos livros e artigos que publicou sobre espiritualidade nos anos 50 e 60, a atenção maior de Merton foi para com a espiritualidade contemplativa, o silêncio e a solidão. Ele ensinou o caminho da oração contemplativa, uma oração de presença muda, convidando os leitores a penetrarem abaixo da mera superfície da existência para viverem o Mistério da vida. Merton usava o termo “contemplação” de duas maneiras: para nomear a oração silenciosa (muda), e para nomear a presença de Deus na oração.


Merton sentia que duas coisas eram essenciais para a prática deste tipo de oração: solidão e silêncio. A solidão removeria as distrações do contato humano e a pressão das exigências do mundo exterior. O silêncio proveria uma poderosa ferramenta para preparar um encontro mudo com Deus para aqueles que o abraçassem. Merton também apontava para o fato de que a oração contemplativa não era um conceito novo. Era, na realidade, um dos mais antigos e reverenciados métodos de oração na comunidade cristã.


Num curioso paradoxo, Merton descobriu que contemplação, silêncio e solidão estavam em falta no mosteiro que ele chamava de lar. Por haver tanto a fazer e tanto tempo dedicado ao Ofício Divino, havia pouco tempo para oração pessoal. Quase não se ouvia falar em solidão. Os monges rezavam juntos, trabalhavam juntos, comiam juntos, e só podiam passar tempo em seus dormitórios em horas específicas do dia ou quando estavam doentes. O silêncio, tão claramente associado à Ordem Cisterciense, tinha sido diminuído pelo uso extensivo de uma elaborada linguagem de sinais. O silêncio foi ainda mais sabotado pela introdução de máquinas de fazenda barulhentas na economia do mosteiro.


Merton trabalhou duro no decorrer de seus quase trinta anos como monge para aumentar a quantidade de tempo de oração, solidão e silêncio disponíveis aos monges em Getsêmani. Hoje os três aspectos da vida espiritual são elementos importantes na vida diária do mosteiro, e muito melhor compreendidos e praticados por muitos dos fiéis fora do mosteiro.


Merton: Instrumental no Despertar Espiritual do Pós II Guerra Mundial


Na década de 1950, quando os americanos começaram a perceber que sua busca por riquezas materiais não estava lhes trazendo satisfação, o patrocínio de Merton da oração contemplativa foi recebido como uma revelação libertadora. Em um tempo no qual os americanos estavam sendo pressionados a acelerarem suas vidas, Merton os convidava a desacelerarem. A mensagem que ele compartilhava era simples: não apenas faça algo, sente-se lá!


Enquanto as pessoas encontravam novos e mais rápidos métodos de comunicação, Merton insistia no silêncio e na reflexão interior. Em um ambiente espiritual que ensinava os americanos que espiritualidade significava ir à igreja no domingo ou usar apenas métodos de oração oficialmente autorizados, Merton guiou uma partida rumo à oração individual livre de fórmulas e palavras pré-fabricadas.


Suas reflexões a respeito da espiritualidade contemplativa logo começaram a apelar àqueles fora da Igreja Católica Romana também. Professores e seminarista dos seminários batista e presbiteriano em Louisville começaram a fazer visitas ao Getsêmani, onde eles dialogavam com Merton a respeito da espiritualidade contemplativa. Seus livros foram comprados por cristãos de virtualmente todas as denominações, além de não-cristãos também.


Em 18 de março de 1958, enquanto estava na esquina de uma rua no centro de Louisville, Merton teve uma revelação que cristalizou para ele o significado da mudança pela qual ele estava passando. Ele finalmente entendeu que apesar de a maioria das pessoas pensarem em monges como sendo santos, eles não eram mais ou menos santos que as pessoas no mundo secular.


Em Louisville, na esquina da Rua 4 com a Walnut, no centro do bairro comercial, eu fui dominado pela compreensão de que eu amava todas essas pessoas, de que eles eram meus e que eu era deles.” (Merton, Thomas. Conjectures of a Guilty Bystander. NY: Doubleday, 1966: 156-157.)


Ao figurativamente quebrar as paredes que separavam os monges dos homens e mulheres leigos, Merton também convidava as pessoas no mundo exterior para tomarem parte em um tipo de espiritualidade contemplativa que ele acreditava estar disponível a todas as pessoas, não apenas a homens e mulheres “santos” em ordens religiosas.


Abraçando Paz e Justiça à Sombra da Guerra e Racismo


Em fins da década de 1950, Merton também começou a ver claramente que se ele realmente amava a Deus da forma profunda e pessoal que ele dizia amar, ele era obrigado a fazer muito mais do que passar seu tempo rezando e escrevendo a respeito de oração.


Ele reconhecia que o amor a Deus deve ser expresso em preocupação por toda a humanidade. Esta noção é central ao Evangelho. Quando se pergunta a Jesus qual é o maior dos mandamentos, ele imediatamente responde que devemos amar a Deus com todo o nosso ser, mas sem pausa, adiciona que é da mesma forma importante que amemos nosso próximo como a nós mesmos. Merton começou a examinar cuidadosamente o que significa amar o seu próximo como a si mesmo.


Ele encontrava-se em um tempo assombrado por medo e revoltas. O advento da bomba de hidrogênio criou a perspectiva de cogumelos atômicos apocalípticos que podiam acabar com a vida na Terra. Os americanos descobriam que os negros no Sul não estavam mais dispostos a aceitar o sistema de apartheid secular que os manteve separados e em situações de desigualdade. Pessoas ao redor do mundo estavam aprendendo a respeito do Holocausto e do fracasso dos cristãos em fazerem algo em seu poder para evitar o que ocorrera na Europa. Um país minúsculo chamado Vietnã do Sul ganhava atenção na imprensa.


Em uma carta a Dorothy Day, co-fundadora do Movimento Trabalhista Católico, Merton escreveu: “Eu não sinto que possa, em uma época como esta, continuar escrevendo apenas sobre coisas como meditação, apesar de isto ter sua importância. Eu penso que eu devo encarar os assuntos importantes, os assuntos de vida e morte” (The Hidden Ground of Love: The Letters of Thomas Merton on Religious Experience and Social Concerns. William H. Shannon, ed. NY: Farrar, Straus and Giroux, 1968: 140.).


Usando a Espiritualidade Para Encarar Assuntos de Vida e Morte


Para Merton o maior de todos os grandes assuntos era a guerra. A guerra ameaçava a santidade da vida. A guerra desumanizava a todos associados com ela. Ele aprendera de suas leituras de Mahatma Gandhi que a verdade transcendente e o poder da não-violência estão associados à fé genuína. O tipo de fé politicamente maculada que a maioria dos americanos conheciam nos anos 50 na realidade representavam uma ameaça à nossa salvação. Merton escreveu:


A fé é um sonho narcótico num mundo de ladrões fortemente armados, ou é um despertar? A fé é um pesadelo conveniente no qual somos atacados e obrigados a destruir os agressores? E se nos dermos conta de que nós é que somos os ladrões, e que nossa destruição vem da raiz de ódio em nós mesmos? (Merton, Thomas. Faith and Violence. Notre Dame, IN: University of Notre Dame Press, 1968:ix-x.)


Ele responde suas próprias perguntas ao escrever:

A Teologia precisa hoje se concentrar cuidadosamente no problema crucial da violência.” (Merton, Thomas. Faith and Violence, Notre Dame, IN: University of Notre Dame Press, 1968: 3) A resposta aos problemas da violência, guerra, e injustiça, escreveu Merton, é a prática da não-violência ativa.


A não-violência busca 'vencer' não destruindo ou mesmo humilhando o adversário, mas convencendo-o de que há um bem comum mais elevado e mais certo do quê pode ser obtido por bombas e sangue. A não-violência, idealmente falando, não tenta sobrepujar o adversário ganhando dele, mas torná-lo de adversário em colaborador, ganhando-o.” (Merton, Thomas. Faith and Violence. Notre Dame, IN: University of Notre Dame Press, 1968: 13.)


O Poder da Liderança Moral


Merton viu claramente que o poder que tinha em suas mãos era aquele da liderança moral, e a liderança que ele melhor poderia prover seria através de seus escritos. Uma das primeiras preocupações a qual ele se dirigiu foi a da guerra nuclear. Ele percebia que o uso de armas nucleares contra populações civis era o mesmo que genocídio, e foi isso que disse. Líderes da Igreja Católica tentaram silenciá-lo por dizer isso, afirmando que não era o trabalho de um monge falar contra a guerra nuclear. Merton lutou contra esta visão míope até que lhe permitissem falar publicamente.


Merton denunciou o racismo e a pobreza. Em um importante ensaio publicado no início da década de 1960, Merton afirmava que se os americanos não resolvessem os problemas do racismo e da pobreza, eles estourariam em violência nas cidades americanas. O famoso teólogo luterano Martin Marty o reprovou por fazer uma predição aparentemente tão precipitada. Depois, quando a violência explodiu com furor mais tarde, Marty teve a sabedoria e decência de publicamente pedir desculpas, e chamar-lhe de profeta.


Enquanto os anos 60 se tornavam uma cascata de guerra e assassinatos, Merton tornou-se de várias maneiras a consciência do movimento de paz que se opunha à Guerra do Vietnã. Ele tornou-se amigo e mentor de indivíduos como Daniel Berrigan, James Forest, e James Douglass, os quais tornaram-se figuras principais em movimentos internacionais de paz. Merton apoiava o Movimento Trabalhista Católico e freqüentemente se correspondia com Dorothy Day. Ele havia planejado hospedar um retiro para o Dr. Martin Luther King Jr e outros líderes do Movimento de Direitos Civis em 1968. Mas seus planos foram terminados pela bala de um assassino em 4 de abril daquele ano.


Busca Por União


Talvez a conquista final na vida contemplativa de Merton tenha sido sua percepção de nossa união com pessoas de todas as crenças e culturas. Merton escreveu que nós já somos um, nós apenas não nos damos conta disso.


Ele disse: “Se eu puder compreender algo sobre mim mesmo e sobre os outros, eu posso começar a compartilhar com eles a obra de construção das fundações da união espiritual.” (Merton, Thomas. Conjectures of a Guilty Bystander: 82.) E disse ainda: “Se eu posso unir em mim mesmo o pensamento e devoção da Cristandade Oriental e Ocidental, os Padres gregos e latinos, os russos com os místicos espanhóis, eu posso preparar em mim mesmo a reunião dos cristãos divididos. Daquela união secreta e não mencionada em mim mesmo pode eventualmente surgir uma união manifesta e visível de todos os cristãos.” (Merton, Thomas. Conjectures of a Guilty Bystander:12.)


Em uma missão relacionada à união no outono de 1968, Merton fez sua primeira viagem prolongada em quase trinta anos, viajando para a Ásia para participar de algumas conferências e para se encontrar com líderes espirituais de outras religiões. Nesta viagem ele teve três encontros amigáveis com o Dalai Lama, que ensinou-lhe os princípios básicos do Budismo Tibetano. Depois de visitar o Dalai Lama, Merton viajou para o Sri Lanka, e depois para a Tailândia, onde sua jornada de vida teve um fim súbito.


Em 10 de dezembro de 1968, na data exata do aniversário de sua entrada no mosteiro de Getsêmani, ele morreu em um estranho acidente elétrico em Bangkok. Numa ironia final, o corpo deste monge que havia elevado sua voz contra a Guerra do Vietnã, foi enviado de volta aos Estados Unidos a bordo de um avião que levava os corpos daqueles mortos naquela guerra.


Merton: Um Modelo de Como Buscar Uma Vida Completamente Espiritual


Talvez o maior desafio que os cristãos devam enfrentar neste novo milênio seja o de como proteger nossas vidas contra a divisão em partes distintamente seculares e espirituais. A pessoa profundamente espiritual logo descobre que é impossível separar espiritualidade de nossas vidas diárias. Como Thomas Merton tão bem compreendeu, o mundo persistentemente nos convida a abandonar nossos princípios fundamentais e nossas práticas espirituais para que abracemos os princípios seculares da eficiência, velocidade, e mais ganhos. Nós não podemos abandonar este mundo secular, mas Merton mesmo nos provê um modelo de como se buscar uma vida que seja completamente espiritual dentro daquele exigente contexto secular.


Deus nos chama a não limitarmos nossa espiritualidade às manhãs de domingo, e aos poucos momentos no dia quando damos graças ou fazemos nossas orações antes de dormir. Deus torna-se nosso(a) amigo(a) com um chamado à vida que é infusa com amor transcendente. Quando devolvemos aquele amor, logo descobrimos que estamos integralmente conectados a todos os outros seres humanos – na realidade, à toda a criação de Deus. E essa visão de conectividade inevitavelmente nos leva a ser o Reino de Deus para o mundo ao nosso redor.


Thomas Merton tentou caminhar numa jornada que o levaria a um destino onde ele poderia completamente integrar à sua vida o amor à Deus, compaixão pelos outros, e união com homens e mulheres de todas as crenças. Ele nunca alcançou aquele nível de integração plena, como nenhum de nós alcançará nesta vida, mas para ele e para nós a jornada é o destino. Ele escreve: “Nossa vocação não é simplesmente de sermos, mas de trabalharmos juntos com Deus na criação de nossa própria vida, nossa própria identidade, nosso próprio destino.” (Merton, Thomas. New Seeds of Contemplation. NY: New Directions, 1962: 30)


Significa muito termos o exemplo de alguém que não apenas tenha dito o que tinha de ser dito, mas que tenha vivido o que tinha de ser vivido. Como Matthew Kelty, um monge da Abadia do Getsêmani, disse sobre Merton no trigésimo aniversário de sua morte: “(Merton) é patrono de todos os que amam a Deus, dos que vão fundo em busca de sua luz e beleza, dos que fazem sua vontade, seja ela qual for ou quando for. Em tal empreendimento, Merton é nosso amigo e advogado. E protetor. E guia.” (Kelty, Matthew. Touched by Fire: An Anniversary Homily – The Merton Seasonal. 24:1, Spring 1999: 17.)


Senhor Meu Deus, não tenho idéia de onde estou indo. Não vejo a estrada diante de mim. Não posso saber ao certo onde ela vai acabar. Nem realmente conheço a mim mesmo, e o fato de que eu penso que estou seguindo a tua vontade não significa que eu realmente esteja. Mas creio que o desejo de te agradar realmente te agrade. E eu espero ter esse desejo em tudo o que faço. Espero nunca fazer nada sem esse desejo. E eu sei que se fizer isso, guiar-me-ás pelo caminho certo, mesmo que não saiba nada sobre ele. Portanto, sempre confiarei em ti, mesmo que pareça estar perdido à sombra da morte. Não temerei, pois sempre estás comigo, e nunca permitirás que eu enfrente meus perigos sozinho. (Merton, Thomas. Thoughts in Solitude. NY: Farrar, Straus and Giroux, 1958: 83.)



Obras Selecionadas Escritas Por e Sobre Thomas Merton (Todas em Inglês):


-Uma excelente breve introdução à Merton em suas próprias palavras:

Thomas Merton: Essential Writings. Christine M. Bochen, ed. Maryknoll, NY: Orbis Books, 2000.


-A Biografia Autorizada:

The Seven Mountains of Thomas Merton. Michael Hott. NY: Harvest Books, 1999.


-O livro mais famoso de Merton:

The Seven Storey Mountain. Harvest Books, 1999.


-Pesquisa sobre Merton, além de ensaios escritos por ele ou inspirados nele:

The Merton Seasonal: A Quarterly Review. (Telefone de contato nos Estados Unidos (502) 452-8187.)


-Uma linda seleção dos escritos de Merton, tirados de seus diários:

The Intimate Merton: His Life from His Journals. Patrick Hart and Jonathan Montaldo, eds. San Francisco: HarperSanFrancisco, 1999.)


-Alguns outros livros importantes escritos por Merton:

Conjectures of a Guilty Bystander. NY: Doubleday, 1966.


Faith and Violence: Christian Teaching and Christian Practice. Notre Dame, IN: University of Notre Dame Press, 1968.


New Seeds of Contemplation. Norfolk, CT: New Directions, 1962.


The Road to Joy: Letters to New and Old Friends. Robert E. Daggy, ed. NY: Farrar, Straus, Giroux, 1989.


Thoughts in Solitude. NY: Farrar, Straus & Cudahy, 1958.


quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

O Contexto Histórico do Subversivo Pai Nosso

O Pai Nosso é uma oração cristã universal. Ela é usada em ofícios de adoração pública no mundo inteiro e é usada nas devoções pessoais de milhões de pessoas. A autoria do Pai Nosso é atribuída a Jesus. Entretanto, parece haver um consenso entre muitos estudiosos de que Jesus não seja a origem desta oração. Alguns consideram a oração como uma modificação do Kadish, uma oração regularmente usada em sinagogas judaicas. Outros afirmam que a forma mais antiga da oração foi composta por uma comunidade de galileus conhecida como o povo Q, entre os anos 40 e 65 da Era Comum. Sua versão do Pai Nosso era algo assim:


Abba/Pai, Teu nome seja reverenciado, que venha a tua basiléia/reino. Dá-nos o pão que precisamos para hoje. E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como perdoamos aqueles que nos devem. E, por favor, não nos submeta a um teste após outro.”


Uma outra versão se encontra no Didaquê, uma coleção de ensinos cristãos de cerca do ano 100 da Era Comum. As duas versões mais familiares estão nos Evangelhos, uma em Mateus 6:9-13 e a outra em Lucas 11:2-4. a versão do Pai Nosso de Mateus é provavelmente a mais usada pelos cristãos, tanto publicamente como individualmente.


A oração começa se dirigindo ao “Pai Nosso que estás no céu”, o que indica ser uma oração de uma comunidade de fé e normalmente usada coletivamente. Quando usada individualmente, o “Pai Nosso” afirma que a pessoa está envolvida com uma comunidade de fé compartilhada. “Santificado seja o teu nome”, que está presente em muitas orações que judeus galileus rezavam regularmente, é uma afirmação de que o nome de Deus deva ser reverenciado como sagrado.


O núcleo da oração é uma série de petições a Deus para fazer o que Jesus proclamou. As primeiras palavras que Jesus falou quando iniciou seu ministério público na Galiléia foram: “O tempo já se cumpriu e o reino de Deus está próximo; arrependam-se e acreditem na boa notícia” (Marcos 1:14). A primeira petição da oração é: “Venha o teu reino, seja feita a tua vontade assim na terra como no céu”. O povo da Palestina sabia a respeito de reis e reinos de sua própria experiência. Em 63 antes de nossa era o país tinha sido conquistado por legiões do império/reino romano cujo imperador/rei era César. Se houvesse qualquer dúvida no tocante a seu status, ele era chamado de “o Filho de Deus” e sua imagem estava nas moedas do império. No tempo de Jesus, a Palestina era regida por um rei cliente, leal a César, chamado Herodes Antipas. O povo da Palestina vivia em um reino que tinha sido imposto a eles e era mantido com violência.


A frase “reino de Deus” não se encontra na Bíblia Hebraica. Mas pode-se encontrar a essência de seu significado lá para se entender como Jesus a usava. Quando as tribos de Israel foram libertas da escravidão no Egito e entraram na “terra prometida”, Yahweh iniciou uma aliança com seu povo de que Yahweh seria seu Deus e eles seriam seu povo, obedecendo seu desejo de justiça e compaixão. Na linguagem de então, Deus seria seu rei e eles seriam seus súditos. Por mil anos as tribos resistiram ao governo de reis como aqueles que dominavam os povos vizinhos, por eles acreditarem que isso violaria a aliança que tinham feito com seu Deus. Entretanto, no século XI antes da Era Comum, para que se unisse a confederação de tribos na resistência à invasão dos filisteus, um rei foi escolhido e ungido por Samuel. Saul foi o primeiro rei de Israel, iniciando uma sucessão de reis que duraram até o tempo de Jesus. Com o passar dos séculos, os reis consistentemente falharam em honrar a aliança com Deus de estabelecer uma ordem social justa. Como resposta a esse fracasso, os profetas, começando por Amós, condenaram os reis e ofereceram uma visão de um rei ideal, um ungido, que viria de Deus em algum dia no futuro para estabelecer o reino de Deus de justiça e paz. Como Jesus declarou que o reino de Deus tinha já se iniciado, no contexto do reino de César e Herodes, isso tinha conotações políticas óbvias. Evocava uma visão de uma ordem política onde Deus governava - “seja feita a tua vontade” - tua vontade de justiça, não a vontade de César e Herodes.


A próxima petição do Pai Nosso é “Dá-nos hoje o pão nosso cotidiano”. O reinado romano trouxera prosperidade à Palestina. A terra, entretanto, que era a base de uma economia agrícola, era propriedade de uma pequena elite urbana, talvez dez porcento da população. Cerca de dois terços de sua renda vinham do aluguel e taxação da terra. Noventa porcento da população era de camponeses que trabalhavam em pequenos loteamentos familiares, usavam terras alugadas das elites ou eram jornaleiros (os trabalhadores que tinham um acordo diário de trabalho). Eles recebiam cerca de um terço do lucro de sua produção agrícola. “Dá-nos hoje o pão nosso cotidiano”. Aqueles que viviam ao nível da subsistência e sofriam exploração econômica pediam a Deus a justiça econômica.


E perdoa-nos as nossas dívidas, como nós perdoamos nossos devedores”. Os camponeses não apenas tinham dificuldades para produzir o suficiente para suas próprias necessidades, eles frequentemente caíam em dívidas quando não podiam pagar o aluguel da terra ou as taxas cobradas. Quando eles não podiam pagar sua dívida, podiam perder sua terra. Além disso, dívidas não pagas podiam resultar em prisão ou em servidão. Esta petição ressoa com as regras do ano sabático no Código de Santidade encontrado em Levítico 25. no sétimo ano a terra “descansa” e se recupera de sua exploração e os débitos são perdoados. O propósito da cancela de débitos era ajudar a prover comida para os camponeses sem terra e oferecer uma oportunidade de recomeço.


E não nos tentes, mas livra-nos do maligno”. Orar a Deus pedindo que não nos tente pode soar estranho aos ouvidos modernos (apesar de a tradução mais corrente no português brasileiro dizer: “não nos deixes cair em tentação”), mas as pessoas no tempo de Jesus pensavam que Deus fosse de alguma forma responsável pelo bem e pelo mal. Há o relato familiar de Jesus seno “conduzido pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo” (Mateus 4:1-11). Não se pode saber se esta petição é geral ou específica. Mas no contexto histórico do Pai Nosso, ao fim das petições, pareceria ser específico. Se o reino de Deus está “entre vós” e a vontade de Deus está sendo feita, os ventos são de mudança. O reino de César está sendo destruído e substituído pelo reino de Deus. Quando César, Herodes e seus colegas descobrissem isso, haveriam uma reação violenta e mortal. Ao confrontar esta força, alguém poderia ser tentado a ou aceitar o status quo da dominação política e da exploração econômica ou se juntar àqueles que estavam respondendo com violência. Se esta interpretação for aceita, estas duas tentações devem ser evitadas. O “maligno” na petição é provavelmente César, já que a oração é concluída com a declaração a Deus “pois teu é o reino e o poder e a glória para sempre. Amém”.


Reis e reinos são palavras arcaicas em nosso mundo. Se rezamos o Pai Nosso e entendemos seu significado subversivo como descrito acima, ele ainda é relevante para nosso mundo? O Professor Dr. Walter Wink parafraseou o Reino de Deus como o “Domínio da Ordem Livre de Deus”. Ele escreve:


Onde está o reino de Deus? Onde quer que a dominação seja vencida, as pessoas libertas, a alma alimentada, a realidade de Deus é conhecida. Quando é o reino de Deus? Toda vez que as pessoas viram as costas aos ídolos do poder e da riqueza e da fama em favor do domínio de Deus em uma sociedade de iguais. O que é o reino de Deus? É a transformação do Sistema de Domínio em um ambiente não-violento, humano, ecologicamente sustentável, habitável, moldado para permitir que as pessoas cresçam e cresçam bem.” (Walter Wink, When The Powers Fall, página 10).



Dado o empenho humano por segurança, status e realização, o Domínio da Ordem Livre de justiça e compaixão proclamado, ensinado e vivido por Jesus existe como uma visão em tensão com todas as ordens políticas, econômicas e sociais de toda sociedade.


Quando rezamos o Pai Nosso, conjuntamente ou como indivíduos, faz bem lembrar que Jesus viveu as afirmações e petições da oração e foi crucificado pela Ordem de Domínio de seu tempo.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

A Teologia Ubuntu

Ubuntu. Você já ouviu esta palavra antes? Ah, já sei! Você está pensando naquela distribuição Linux que se tornou muito popular nos últimos dois anos. Mas não é dela que estou falando – apesar de seu nome vir do conceito que influenciou sua criação na África do Sul.


Ubuntu é uma palavra que descreve uma visão de mundo africana, que se traduz como “Eu sou por causa de você”, e que significa que indivíduos precisam de outras pessoas para serem plenos.


A palavra vem das línguas bantu faladas no sul do continente africano – e se relaciona com um conceito zulu - "umuntu ngumuntu ngabantu" – que significa que uma pessoa é apenas uma pessoa através de seu relacionamento com outros.


Essa palavra também adentrou o vocabulário político por meio das mudanças políticas ocorridas na África do Sul.


O Arcebispo Desmond Tutu, em seu livro “No Future Without Forgiveness”, diz: “Ubuntu é uma palavra muito difícil de se traduzir em uma língua ocidental... É o mesmo que dizer: Minha humanidade está presa, está inextricavelmente ligada, ao que a sua é.”


Em sua definição, ela significa que há uma ligação comum entre as pessoas – e quando as circunstâncias de alguém melhoram, todos ganham e se alguém é torturado ou oprimido, todos são diminuídos.


A identificação do Arcebispo Tutu com ubuntu deu origem à idéia da teologia que abraço, a “teologia ubuntu” - onde a responsabilidade ética vem com uma identidade compartilhada. Se alguém está faminto, a resposta ubuntu é que todos nós somos coletivamente responsáveis.


Há uma dimensão espiritual e prática disso – com ubuntu refletindo a idéia de que somos parte de uma longa corrente de experiência humana, nos ligando a gerações passadas e futuras.


Ubuntu também entrou na linguagem do desenvolvimento e do comércio justo – com campanhas usando a palavra em projetos de ajuda à África de forma a sugerir que aquele seria uma solução africana para problemas africanos.


Infelizmente, enquanto o conceito entra cada vez mais no mundo ocidental, os próprios africanos têm visto o seu declínio entre eles mesmos, com os mais antigos sentindo que as novas gerações africanas não conheçam a palavra e o conceito de ubuntu.


Desde minha época de seminário, tenho considerado o conceito de ubuntu como parte integrante de minha teologia pessoal. Vejo o conceito como algo muito inspirador que podemos aprender com nossos irmãos africanos – que muitos julgam ser capazes apenas de produzirem personagens como o arcebispo anglicano da Nigéria Peter Akinola, que poderia aprender muito com a tradição do sul da África!


Uma pessoa com ubuntu está aberta e disponível a outras, afirmando outras, não se sente ameaçada pelo fato de outras serem capazes e boas, pois ele ou ela tem uma auto-confiança apropriada que vem do conhecimento de que ele ou ela pertence a uma plenitude maior e é diminuída quando outras pessoas são humilhadas ou diminuídas, quando outros são torturados ou oprimidos.” - Arcebispo Desmond Tutu, 1999.

Lecionário Para o Mês de Janeiro de 2008

1º Janeiro de 2008 – Ano Novo (A)

(Branco ou Dourado)

Eclesiastes 3:1-13

Salmo 8

Apocalipse 21:1-6a

Mateus 25:31-46


ou quando se observa como Santo Nome de Jesus (ou Maria, Mãe de Deus)

(A)

Números 6:22-27

Salmo 8

Gálatas 4:4-7 ou Filipenses 2:5-13

Lucas 2:15-21


6 de Janeiro de 2008 – Epifania do Senhor/Domingo de Epifania

(Branco ou Dourado)

Isaías 60:1-6

Salmo 72:1-7, 10-14

Efésios 3:1-12

Mateus 2:1-12


13 de Janeiro de 2008 – Batismo do Senhor

(Branco)

Isaías 42:1-9

Salmo 29

Atos 10:34-43

Mateus 3:13-17


20 de Janeiro de 2008 – Segundo Domingo Depois da Epifania

(Verde)

Isaías 49:1-7

Salmo 40:1-11

1 Coríntios 1:1-9

João 1:29-42


27 de Janeiro de 2008 – Terceiro Domingo Depois da Epifania

(Verde)

Isaías 9:1-4

Salmo 27:1, 4-9

1 Coríntios 1:10-18

Mateus 4:12-23


(Lecionário Comum Revisado - o mesmo usado na maioria das igrejas protestantes de língua inglesa e na Igreja Comunitária Cristã do Recife)