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sexta-feira, 31 de julho de 2015

Cristianismo Progressista? Filosofia de vida? – uma resposta aos ouvintes do “Graçacast #69”


Ontem, recebi uma mensagem duma visitante (Rebeca) que me fazia perguntas com base num podcast que acompanha, no qual os apresentadores tratavam sobre o Movimento Progressista cristão e haviam citado coisas que publiquei aqui. Após ouvir a transmissão, respondo a algumas das provocações da visitante sobre o que disseram no programa. Meus comentários não seguem a mesma ordem seguida no podcast, que dura mais de uma hora.

Devo começar dizendo que os apresentadores têm um programa interessantíssimo, apesar de termos visões de mundo bem distintas e/ou até conflitantes. Soam como pessoas relativamente bem informadas e bem intencionadas, e eu respeito o seu ministério online. Penso que seu esforço é louvável. Entretanto, tenho críticas (negativas) a respeito de muitas de suas colocações nesse podcast específico (#69).

Antes de comentar sobre o que disseram, é bom enfatizar que o risco que qualquer um corre quando não se informa suficientemente sobre um tema antes de tratá-lo publicamente é que acaba criando o deslocamento nocional que, em alguns momentos, criaram no programa. Muitas das afirmações feitas pelos apresentadores do programa são fruto duma falta de pesquisa cuidadosa sobre o tema. Os apresentadores, por exemplo, iniciam o programa citando o trecho duma antiga publicação neste blog, e depois misturam os dados daqui com aqueles de um texto escrito pelo Rev. Hal Taussig, e acabam construindo uma informação equivocada sobre o “Cristianismo Progressista”. Para eles, o movimento progressista parece ser, em alguns momentos, uma denominação protestante e, em outros momentos, um movimento teológico uniforme. Eles não poderiam estar mais equivocados.

Num determinado trecho do podcast, um dos apresentadores se refere ao movimento como se esse fosse uma denominação (ele não usa esse termo), dizendo, inclusive, que a primeira “igreja progressista” teria surgido apenas em 2005. Na verdade, esse título – Cristianismo Progressista – é apenas o nome dado a um movimento organizado, nos Estados Unidos, no TCPC (The Center for Progressive Christianity), que foi fundado em 1996 (mil novecentos e noventa e seis) pelo Rev. James Adams – um sacerdote episcopal. O “progressivismo” já existia, no interior de denominações protestantes; o que o nome e o TCPC fizeram foi apenas ajudar a todos aqueles grupos se sentarem juntos e compartilharem sua mensagem. O TCPC é uma rede não-denominacional de igrejas locais (congregações) pertencentes a diferentes denominações cristãs – episcopais, luteranos, congregacionais, unitaristas, universalistas, batistas, metodistas, restauracionistas, presbiterianos, pentecostais, católicos independentes etc. Ou seja, nunca existiu uma “primeira igreja progressista” – se por “igreja” se estiver pensando numa denominação ou numa forma de Cristianismo. Também não se criou mensagem nova nenhuma: o movimento proclama crenças e práticas que estão enraizadas nas diferentes tradições que se juntaram na organização do TCPC e de outras associações semelhantes, que foram organizadas para proclamar publicamente o “progressivismo cristão” – que surgiu ainda no início do século XX. O que as congregações que formam o TCPC fazem é, simplesmente, criar uma rede de colaboração que nunca havia existido fora das denominações específicas.

O movimento não é o mesmo ao redor do mundo. E, na verdade, sequer existe fora do mundo anglófono (os países de língua inglesa e as igrejas de língua inglesa em países onde se falam outras línguas). No Brasil, por exemplo, só quatro congregações colaboram formalmente num movimento brasileiro semelhante – todas elas são igrejas anglófonas (de língua inglesa), incluindo aquela da qual sou Ministro (e essas estão envolvidas com o movimento norte-americano). O movimento norte-americano (nos E.U.A. e Canadá) tem características diferentes dos movimentos britânico, australiano, neozelandês, sul-africano e das igrejas anglófonas da Europa continental – e todos esses são diferentes entre si. As alianças são diferentes, as tradições teológicas são diferentes, as maneiras como se organizam são diferentes, suas declarações são diferentes etc.

O texto que um dos apresentadores cita como se fosse os supostos “cinco pontos” do Movimento Progressista, na realidade, não é uma declaração oficial de nenhuma organização do movimento, logo, não pode ser utilizado como se o fosse. O texto refere-se apenas a uma reflexão pessoal do professor e ministro Rev. Hal Taussig sobre o tema, na qual ele aponta o que ele entende ser as cinco principais características do progressivismo cristão – nem todos os cristãos envolvidos com o movimento concordariam com sua visão. Institucionalmente, o movimento americano, com o qual tenho me envolvido nos últimos 15 anos, proclama oito pontos – que estão traduzidas aqui neste blog desde, pelo menos, 7 de outubro de 2007. Se quiser falar sobre o que o Movimento, oficial e institucionalmente, afirma, deve-se citar aquele documento.

Quando levantam suposições sobre o sentido do termo “progressista”, por exemplo, alguém afirma que “o progressista sugere que, como a própria palavra diz, ela sugere um progresso, significa que você avançou na interpretação da Bíblia, na interpretação das Escrituras, e sobre aquilo que elas diziam…”. Essa é outra afirmação descontextualizada, para alguém que não seja membro duma igreja fundamentalista do Bible Belt dos Estados Unidos (o que não é o caso deles!). E ela é descontextualizada teológica e historicamente (dois fatores que se correlacionam aqui). Vejamos.

TEOLOGICAMENTE: Para dizer o que ele disse, você teria de supor que a única fonte teológica do Cristianismo seja a Bíblia. Ora, as denominações nas quais há congregações ou indivíduos envolvidos com movimentos como o Cristianismo Progressista não são tradições que preguem ser a Bíblia a única fonte teológica cristã. Na verdade, apenas uma ínfima minoria das tradições protestantes ensina isso oficialmente. Por exemplo, para anglicanos/episcopais, luteranos, presbiterianos, metodistas, congregacionais, unitaristas, universalistas, restauracionistas, quakers, e mesmo batistas, a Bíblia não é a única fonte para se entender o Cristianismo – eu, a propósito, discuti isso aqui nos dois textos anteriores a este. Os protestantes mais tradicionais utilizam como recurso para a reflexão teológica a Bíblia, a Tradição, a Razão e, especialmente os herdeiros do Metodismo, a Experiência pessoal. Mesmo o antigo Movimento Fundamentalista fazia menção a essas fontes teológicas. Só grupos minoritários afirmam que a Bíblia seja a única fonte teológica cristã. E, se você atentar cuidadosamente, observará que as congregações que se envolvem com o Movimento Progressista são, geralmente (pode haver, talvez, uma ou outra exceção), parte daquelas tradições que citei. Logo, a ideia de que se refiram, com o adjetivo “progressista”, a um suposto avanço na interpretação das Escrituras não faz absolutamente nenhum sentido!

HISTORICAMENTE: Pessoalmente, também não simpatizo com o termo “progressista”, já que penso ser ele inapropriado em português; mas seu uso deve ser contextualizado no ambiente cultural onde emergiu e é utilizado. O termo, em nosso meio, não se iniciou – como se disse no programa – por conta daqueles movimentos políticos de liberação da década de 1960. Ele também não tem origem no “pós-modernismo” filosófico. O problema com essa interpretação é que ela se baseia unicamente no uso do adjetivo “progressista”, já que, comumente, os movimentos de esquerda – especialmente herdeiros de tradições socialistas – são chamados de “progressistas”. O Progressismo cristão americano está enraizado na tradição do Evangelho Social. Desde o início do século XX já se usava, em inglês, o termo “progressista” para se falar sobre uma perspectiva na qual o trabalho pelo estabelecimento do Reino de Deus na Terra hoje mesmo é uma forma de proclamar o Evangelho e se preparar para a Segunda Vinda. [A soteriologia universalista, que serviu de base ao movimento do Evangelho Social, falava da “salvação” como um “progresso” rumo à construção do Reino de Deus aqui na Terra, antes que Cristo retornasse e completasse o processo de salvação. Essa ideia, por sua vez, fundamentava-se numa compreensão escatológica pós-milenarista, que fora dominante nas igrejas reformadas americanas até o período entre a 1ª e a 2ª Guerras Mundiais. Ou seja, não é olhando para as tradições políticas marxistas que você entenderá o contexto do surgimento do movimento; é, antes, olhando para as tradições teológicas calvinistas!]

Ademais, não foram os adeptos que criaram o termo – o termo foi dado por quem estava de fora. Esses cristãos aceitaram o uso. Quando aceitaram o uso do termo, não pretendiam então, como nossos contemporâneos não pretendem hoje, ver-se como superiores aos demais cristãos. Para entender isso, você tem de compreender o termo em língua inglesa:

“Progressive”, em inglês, não significa, no contexto do movimento, que você “progrediu” mais que outros. O sentido é que você está em movimento rumo a um dado destino. No meio teológico anglófono, como já expliquei, o termo está tradicionalmente associado à herança do Evangelho Social. Quando se fala em “progressista”, uma pessoa teologicamente informada, nos E.U.A., conseguirá fazer a ligação – assim como fará a ligação a uma perspectiva política na história nacional. No Brasil, entretanto, não há essa conexão. Assim, o termo se torna vazio ou até ofensivo. É bom lembrar, contudo, que o mesmo termo é também utilizado por um movimento dentro do Judaísmo desde o início do século XX, exatamente o mesmo momento no qual as teologias do Evangelho Social (no Cristianismo Protestante americano) e do Tikkun Olam (no Judaísmo Reformista) estão se difundindo em igrejas protestantes (unitaristas, universalistas, batistas, congregacionais, presbiterianos, luteranos, anglicanos e metodistas foram os grupos mais influenciados pelo Evangelho Social) e templos judaicos reformistas.

[E você, então, poderia me perguntar a razão de o endereço deste blog ser “cristianismoprogressista”; a razão é simples: em primeiro lugar, iniciei este blog ainda nos E.U.A., para um público de estudantes que falavam português e que frequentava a igreja da qual eu era ministro; em segundo lugar, não havia a disponibilidade do nome que eu queria. Acabei utilizando um título que eu mesmo não apreciava tanto.]

E aí vem a próxima correção que os apresentadores teriam ouvido de mim, se estivéssemos conversando: liberal e progressista não são a mesma coisa! Um protestante evangelical poderia se identificar, sem muito desconforto, como um progressista; mas, talvez, tivesse mais problemas para abraçar uma perspectiva teológica liberal. Mas, sim, é verdade que muitas das ideias abraçadas pelo Movimento Progressista são comuns também aos “liberais” – a mais importante delas, que eles aparentemente não entendem: a soteriologia universalista (isto é, a antiquíssima crença cristã de que Deus, de alguma forma, salvará a todos os seus filhos – ideia defendida por alguns dos Padres da Igreja, como Orígenes e Gregório de Nissa [e eu os cito aqui apenas para demonstrar quão antiga é essa visão dentre alguns cristãos; não se trata de uma invenção recente, de uma novidade!]).

Quando condena o Universalismo, um dos apresentadores diz que isso – isto é, a crença na soteriologia universalista (que ele, obviamente, desconhece) – está expresso nos “cinco pontos” do movimento (ele mais uma vez se equivoca: são oito pontos; os “cinco pontos” sobre os quais fala são apenas as características apontadas pelo Rev. Taussig, que já citei acima), e passa a ideia de que esta seja uma ideia nova. Falando sobre os 8 Pontos (lembre-se que, para ele, são 5), ele diz que “…o principal argumento deles: não tem limite de gênero, não tem ideologia de gênero” [sic]. Ora, a expressão “ideologia de gênero” não aparece no texto, e a noção de “ideologia de gênero” abarca coisas que ultrapassam o que diz o ponto 4, que é o que Taussig discute em seu texto, e que o apresentador cita como se fosse um dos “pontos” defendidos pelo movimento. Reproduzo o texto do “Ponto 4” abaixo:

4) Convidamos todas as pessoas a participarem em nossa comunidade e em nossa vida de adoração, sem insistir que elas se tornem como nós para serem aceitas, incluindo, mas não se limitando a:
* crentes e agnósticos;
* cristãos convencionais e céticos;
* mulheres e homens;
* aqueles de todas as orientações sexuais e identidades de gênero;
* aqueles de todas as raças e culturas;
* aqueles de todas as classes e habilidades;
* aqueles que esperam um mundo melhor e aqueles que perderam a esperança;


Teologicamente, mais uma vez, o que alimenta essa compreensão é a soteriologia universalista abraçada pelo movimento – o termo “soteriologia”, a propósito, é um termo teológico que se refere às doutrinas referentes à “salvação”. Assim, apesar de parecer apenas uma afirmação de ideologias de gênero, trata-se da afirmação duma compreensão teológica milenar entre alguns cristãos. Mas, novamente, quando se fala publicamente de certos temas sem se fazer uma pesquisa séria, é nisso que dá: afirma-se enganos que poderiam ser evitados se conhecessem um pouco mais de teologia e história protestantes.

A questão da relativização. Na realidade, escrevi recentemente sobre isso aqui, então tentarei ser breve. Um dos apresentadores diz que o maior questionamento contra os cristãos progressistas – questionamento que ele partilha – é “não interpretar a Bíblia da forma correta”!… Bem, alguém poderia escrever uma tese a respeito do que está por trás dessa frase. Você tem de perceber a partir de qual perspectivas falam os apresentadores do programa: aparentemente – o que é o caso também de minha leitora, a julgar pelo que me escreveu –, eles acreditam que a Bíblia e o Cristianismo sejam a mesma coisa, e acreditam nas teorias da “infalibilidade” e “inerrância” do texto bíblico. Eu – como a maioria dos protestantes herdeiros de tradições mais antigas do Protestantismo – não partilho nem nunca partilhei dessa ideia.

Essa equalização entre Bíblia e Cristianismo, ou vice versa – o que quer dizer, para quem acredita nisso, que só é cristão aquele que supostamente acredita em/faz absolutamente tudo o que as Escrituras ensinam (ou seja, trata-se da recusa em aplicar o pensamento crítico à Bíblia, ao menos declaradamente) –, e as teorias da “inerrância” e “infalibilidade” têm uma data de nascimento: a segunda e a terceira gerações dos reformadores, que criaram a teoria da inspiração plenária da Bíblia (isto é, que os textos bíblicos foram diretamente inspirados – “ditados” – por Deus).

Johann Quenstedt, um luterano, é o principal nome na origem dessa compreensão de inspiração plenária. Para ele, qualquer coisa presente nas Escrituras deveria ser entendida como verdadeira e inquestionável, fosse a respeito do que fosse. Não haveria espaço para metáforas, por exemplo – algo que a Igreja sempre levou em consideração. Também não haveria espaço para a compreensão ensinada por Martinho Lutero de que a Bíblia se tornava revelação de Deus no momento em que era pregada e ouvida; para Quenstedt, era o que estava escrito que importava.

Assim, essa visão de “inspiração plenária” ignora toda a diversidade de tradições hermenêuticas e exegéticas da Igreja, especialmente aquelas tradições antiquíssimas das escolas alexandrina e antioquina de exegese bíblica – que, respectivamente, fazia uma interpretação literal suplementada por um apelo à metáfora/alegoria, enquanto a outra interpretava a Bíblia com base no exame do contexto histórico das Escrituras. Não estou falando aqui duma novidade “pós-moderna”; essas tradições estavam ativas nos primeiros séculos da história cristã e, de certa forma, continuam vivas ainda hoje nas diferentes tradições cristãs. Mas, obviamente, quando alguém pensa que conhece a única resposta válida, e ignora as histórias e as teologias cristãs, nada disso é relevante!

Essa ideia de “inspiração plenária” retorna com maior força a partir da organização do Movimento Fundamentalista, no século XX, e é essa ideia que adentra o Evangelicalismo brasileiro. É por essa razão que, talvez, a maioria dos evangélicos brasileiros acredite/pregue isso. Suas comunidades de fé herdaram a teologia que emergiu no período de conflito entre liberais e fundamentalistas há cerca de um século atrás. Eles nunca conheceram outra visão. Para eles, isso é o Protestantismo.

Escrevo isso para demonstrar o quão mal fundamentada está a argumentação da “relativização”. Ela faz sentido apenas para quem sempre acreditou que houvesse apenas uma compreensão válida. Se esse fosse realmente o caso, então o próprio meio evangélico teria (ainda mais) sérios problemas: se só há uma interpretação válida, o que dizer sobre todos os outros evangélicos que compreendem as coisas de outra forma? Todos seriam “hereges” (ou sei lá que qualificativo utilizam)?… Pergunto isso porque batistas, presbiterianos, metodistas e assembleianos, por exemplo, não interpretam a Bíblia da mesma forma em todos os aspectos! Quem teria razão, então?… Essa variação de interpretação entre esses grupos, e no interior de cada um deles, é chamada de “relativização” (=contextualização)!… Mas já expliquei muito sobre isso nas duas últimas postagens neste blog, então penso não ser necessário acrescentar mais nada.

Contextualizando ou relativizando a posição dos apresentadores, eles dizem o que disseram no programa porque sua compreensão teológica baseia-se numa visão da Bíblia como sendo plenariamente inspirada e, consequentemente, inerrante e infalível. Ora, apenas uma minoria dos cristãos do mundo acredita nisso; e mesmo se formos nos referir apenas aos grupos protestantes, só aqueles que descendem de igrejas enraizadas na tradição teológica fundamentalista (o termo não é pejorativo – trata-se da tradição que se opunha aos liberais/modernistas/progressistas no início do século XX) ensina isso hoje no mundo (apesar de serem, provavelmente, a maioria no Brasil, por razões históricas específicas).

O que eu quero dizer é: você não pode realmente pensar que alguém que não acredite numa crença minoritária seja um herege! Cristãos liberais e cristãos progressistas tendem a reconhecer sua limitação humana, afirmando que “nós podemos estar errados, então é por isso mesmo que não julgaremos aqueles que não pensam como nós”. Mas os apresentadores do programa, aparentemente, não compartilham desse reconhecimento de suas próprias limitações humanas. Para eles, se você não acredita na inspiração plenária, na inerrância e na infalibilidade da Bíblia, então você é qualquer coisa, menos cristão!

Ah, mas como uma resposta ao que um deles disse, já próximo ao fim do programa: sim, ser tolerante é ser relativista! [Ele dizia o oposto disso.] O problema com o uso que fazem do verbo “relativizar” ou de termo “relativo” é que demonizam a noção de relativização, sem perceber que a relativização faz parte de absolutamente tudo o que fazemos na Igreja e na sociedade. Quando você tem de tomar uma decisão que entre em conflito com o que é habitual, por exemplo, você relativiza: tenho de estar na igreja na manhã de domingo, mas meu vizinho quebra a perna e me pede para levá-lo ao hospital – se eu for, ficarei lá até ele ser atendido –, o que faço? Vou à igreja e não socorro ao meu vizinho? Bem, o próprio Jesus, de acordo com as Escrituras, deu a resposta a isso: Marcos 3:1-6. O que ele faz ali, de acordo com o relato em Marcos, é relativizar um mandamento. Um exemplo que parece tolamente óbvio, mas é um exemplo de relativização nas próprias Escrituras. Quando somos tolerantes, até um certo nível, colocamos o “outro” numa posição maior do que o que pensamos sobre nossas próprias convicções; o que fazemos, então, é relativizar nossas crenças para que possamos construir um outro ambiente. Relativizar é criar uma relação com nossas próprias crenças – assim, você só pode ser tolerante se a tolerância tiver uma relação com sua visão de mundo; é isso que torna possível a tolerância, e é por isso que a tolerância é uma forma de relativização.

É nesse ponto que reside a importância da compreensão da relativização da verdade, sobre a qual eles se debruçaram tanto sem compreender a visão que temos. Quando eu, por exemplo, falo em “verdade relativa” não estou afirmando que não haja uma verdade absoluta. Para mim, há. O que eu não posso dizer, contudo, é que aquilo que entendo como verdade seja a mesma à qual outra pessoa chegará. E seria prepotência e orgulho dizer que eu conheço a verdade que todos devem abraçar – e, em minha fé, o orgulho é um pecado. Por isso falo sempre em “para mim”, “em minha opinião”, “em minha visão” etc. Essa é uma forma de relativizar a verdade – ou seja, afirmo que aquilo é verdade para mim, mas você é livre para acreditar em outra coisa. Tenho uma visão de Deus e de Jesus Cristo que são próprias de minha tradição unitarista. Os argumentos para minha crença se baseiam, em parte, nas Escrituras. Aquela visão é verdade para mim. Um católico romano que segue a doutrina oficial de sua comunhão, contudo, tem uma outra compreensão teontológica e cristológica. Ele é um cristão. Sua crença é majoritária. Não posso esperar que ele deva acreditar no que acredito, ou não será um cristão. O que acredito sobre Deus me faz pensar que Deus está além de nossa compreensão humana finita. Os autores da Bíblia, por exemplo, mesmo inspirados, utilizaram uma língua humana finita. Eu sou um humano finito. Meu vizinho católico também. E aí, o que faço para lidar com isso? Não se pode esperar que eu mude minha crença para ser aceitável ao meu vizinho. Também não posso esperar que ele mude para que eu o aceite… É aí que entra o papel da relativização na convivência humana: a relativização e a tolerância se entrelaçarão, e ele e eu poderemos viver nossa fé em respeito um ao outro. O que eu acredito ser a verdade ainda será, e vice versa. É isso que significa “relativizar a verdade”, no que tange à nossa relação com outras pessoas: não é abandonar nossa verdade, é apenas lembrar que outras pessoas também têm o direito a entender a verdade de sua fé da forma como acharem melhor.

A questão da Filosofia. Num certo momento, um dos apresentadores, falando sobre a suposta influência do “liberalismo teológico” no Cristianismo Progressista, diz que a teologia liberal “relativiza a autoridade da Bíblia, né?, aquilo que a gente já sabe sobre o liberalismo teológico, né?, que mescla filosofia, consciência e religião...” – fazendo seu comentário, obviamente, num tom pejorativo (expressando o característico anti-intelectualismo do evangelicalismo dominante no Brasil, que torna “filosofia” um palavrão), e seguindo os estereótipos típicos construídos por alguns apologistas do meio evangelical brasileiro.

A “psicologia de fila de banco” [a expressão irônica, a propósito, é minha, não deles] – que se relaciona ainda à questão da filosofia – utilizada para explicar a razão porque cristãos abraçariam visões “progressistas” é ridícula. Eu, por exemplo, não sou um liberal e progressista porque me cansei de “legalismo” na Igreja ou porque queira licença para pecar. Minha posição teológica não é de reação. Eu estou enraizado numa tradição teológica que ensina essa visão. Foi essa a visão que aprendi na Igreja, no seminário, em casa e em minha vida cristã. O Cristianismo não é, para mim (como afirmou um dos apresentadores a meu respeito, num característico tom anti-intelectualista) apenas “uma filosofia” – ele é, sim, uma “filosofia”, se com o termo nos referirmos a uma “visão de mundo”: minha relação com o Divino, minha visão religiosa de mundo, meu imaginário religioso, minha linguagem religiosa se assentam no Cristianismo, logo, o Cristianismo é minha “filosofia” de vida. O Cristianismo é minha fé. Novamente, o problema parece ser que compreendemos a noção de “fé” de formas bem distintas. A fé não é uma crença morta; é uma esperança que produz frutos, como bem explicita Tiago 2:14-26. Mas eles, como supostos conhecedores dos textos bíblicos, já devem saber o que uma outra passagem bíblica diz sobre esses frutos, Gálatas 5:22. [A propósito, é bom contextualizar o que escrevi, e que ele cita de forma seletiva que pode desvirtuar o sentido de meu texto; então, leia minha declaração completa, publicado aqui em 12 de maio de 2009 – ela é o trecho de um livro que publiquei em 2003, nos Estados Unidos: O MEU CRISTIANISMO.]

O que uma pessoa informada poderia perguntar a ele, contudo, é se ele realmente pensa que ele mesmo não mescle “filosofia” (=uma visão de mundo) e “consciência”(=razão) em suas visões teológicas(?). Como tratei disso longamente nas duas últimas publicações neste blog, não responderei a esta questão aqui. Mas posso encontrar a gênese do que ele disse em sua visão da natureza e papel da Bíblia no Cristianismo, que já discuti brevemente anteriormente.

Sexualidade. O tema é enfatizado no podcast – novamente, uma característica do Evangelicalismo majoritário brasileiro, isto é, a ênfase em “moralidade sexual” –, mas eu, a não ser que seja uma discussão inteligível sobre o tema, não discuto isso aqui. Logo, não farei comentários sobre o que disseram, a não ser este: querer comparar a aceitação do relacionamento entre duas pessoas do mesmo sexo por um cristão à aceitação do aborto ou do incesto é, no mínimo, de uma desonestidade intelectual incrível!… Por essa e por outras, não perderei meu tempo comentando teologicamente os argumentos que ouvi!

Jesus. Não consigo levar à sério os comentários que fizeram sobre o que os “cristãos progressistas” acreditariam acerca de Jesus. Isso só mostra o quanto leram pouco antes de tratarem o tema em seu programa. A raiz do que disseram encontra-se, como já disse antes, em sua visão da natureza e papel da Bíblia, mas também em sua compreensão de como a teologia protestante tem sido historicamente construída. Falta em seus argumentos, ademais, uma familiarização com a história tanto da teologia cristã quanto da Igreja – sem falar, obviamente, no desconhecimento dos pensamentos teológicos presentes no movimento que tratam em seu programa.

Cristianismo light?... Pensar que viver a fé que cristãos liberais e/ou progressistas comprometidos vivem em suas vidas diárias é light é tolice, já que não considera que nossas diferentes tradições exigem um “processo de conversão contínuo”. No meu caso específico, como um unitarista, mente, coração e ações, metaforicamente falando, se unem no trabalho de compreender a Deus e a lidar com o meu “próximo” aqui e agora. Isso significa pautar minhas ações por uma convicção de que aquilo que faço é – na melhor compreensão que posso ter do que seja verdadeiro e de qual seja a vontade de Deus – certo (sim, porque diferentemente do que se pode pensar, para nós há “certo” e “errado”, nossa fé não é um “vale tudo”). Um dos apresentadores faz um comentário muito certo quando diz que ser cristão é um processo que se estende ao longo da vida – isso é, inclusive, algo que já escrevi aqui muitas vezes. Minha tradição me ensina que “mudar de ideia” é aceitável e natural.

Autoridade. Quando falam sobre autoridade, referem-se, primeiramente ao contexto católico – citando Leonardo Boff –, para discutir o contexto protestante, falando sobre o questionamento da autoridade de líderes eclesiásticos. O que eles, aparentemente, ignoram é que nem todas as tradições protestantes abraçam essa visão de autoridade que eles abraçam. É só lembrarmo-nos dos quakers [ou quacres], por exemplo, para quem o indivíduo é o eixo da autoridade – o cristão se relaciona com Deus por meio da influência direta do Espírito ao seu coração/mente (sem precisar de intermediários, como pastores, sacerdotes etc). Ou, lembrarmo-nos, como exemplo, do movimento batista anglófono não ligado à tradição do sul dos E.U.A. – sim, porque essa tradição tem uma compreensão de autoridade diferente –, a autoridade se centra na consciência do indivíduo (a razão), enquanto recipiente do Espírito Santo em sua leitura das Escrituras. Nas tradições anglicana/episcopal, unitarista, universalista, metodista e congregacional, o indivíduo, mais uma vez, é o eixo dessa autoridade – não seu líder eclesiástico. Então, falar no questionamento da autoridade como se isso fosse uma violação da Bíblia ou da fé cristã é desconhecer a multiplicidade no meio protestante!

A questão do “joio e do trigo”. Isso tem a ver, mais uma vez, com a perspectiva teológica que se abrace. Para os apresentadores do programa, a resposta está em sua visão da Bíblia e seu não reconhecimento de que essa sua visão emerge de uma série de outras “visões de mundo”, concernentes tanto à própria teologia quanto ao dito mundo secular. Assim, eles já sabem que é o “joio” e quem é o “trigo”: o “joio” será sempre aquele que pensa de forma que conflitue com o que eles mesmos acreditam ser a verdade – algo que, de certa forma e infelizmente, é comum a todos nós.

O belicismo ideológico. Sim, é verdade que há muitas pessoas que falam em respeito e tolerância, mas que, na vida real, esperam que todas as pessoas e grupos pensem exatamente como eles. Nos meios ditos “progressistas” e “liberais” protestantes isso acontece. Mas é importante notar que isso não é o que se prega. A generalização de que todos nós – e quando falo em “nós” me refiro apenas àquelas igrejas locais ou indivíduos que estejam, de alguma forma, relacionados ao TCPC, não me refiro a outras coisas que aconteçam entre protestantes brasileiros e que desconheço – sejamos militantes que desrespeitam a fé de outros cristãos é uma acusação inverídica e soa muito mais à mentalidade da vitimização.

Eu, por exemplo, enquanto a sociedade atacava o citado Silas Malafaia por suas posições contrárias à homossexualidade, escrevi aqui mesmo em defesa de seu direito de acreditar no que acreditava e de pregar o que pregava. Deixei claro que discordava de suas posições, mas que não podia acusá-lo de “homofóbico” apenas porque discordava de minha posição. Não fiz isso porque sou bonzinho e perfeito. Fiz porque é isso que minha tradição de fé ensina e o que ensino àqueles a quem ministro – como também o fiz porque a liberdade de opinião e expressão é o cerne de minha tradição política. Aprendi, desde criança, em casa e na Igreja, que não posso ter liberdade de opinião e expressão se outras pessoas não o tiverem. Eu continuo a defender isso, tanto publicamente quanto em minhas atitudes pessoais, seja como cristão ou cidadão. Então, a generalização feita por um dos apresentadores, de que os cristãos “progressistas” ou “liberais” não sejam tolerantes para com os cristãos “conservadores”, e de que haja uma perseguição de nossa parte àqueles, não corresponde à realidade – especialmente porque na maioria das igrejas às quais estamos ligados, seja como fiéis ou como Ministros, convivemos com os dois grupos.

Falta apenas mencionar a falta de compreensão que os apresentadores têm sobre o que seja a tradição liberal protestante (estou falando “liberal” agora, e não “progressista”) – que não tem absolutamente nada a ver com as descrições que fizeram. Essa antipatia para com a tradição liberal e a má vontade em compreendê-la tem muito mais a ver com a história das igrejas presbiterianas e batistas em meados do século XX, no Brasil, do que com qualquer outra coisa (refletindo o conflito entre liberais e fundamentalistas nos E.U.A.). E essa herança se estendeu a todo o meio protestante brasileiro até hoje. Mas isso mereceria uma discussão à parte.

Para finalizar, respeitosamente, posso usar as palavras de um dos apresentadores, que podem servir como conselho para seus ouvintes no que tange ao que eles próprios disseram em muitos pontos de seu podcast:

“Toda generalização é burra. Toda. Sem exceção!”

Paz a todos!

+Rev. Gibson da Costa

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Para "ler" as Escrituras Sagradas - parte 2


[continuação]

Seria essa projeção de nós mesmos sobre o texto que lemos algo negativo em si?… Não necessariamente; e isso porque, de certa forma, é inevitável. Mesmo quando lemos um texto com um imenso cuidado analítico, tentando fazer uma leitura que contextualize-o histórica e linguisticamente – ou seja, mobilizando amplos conhecimentos hermenêuticos em nossa atividade exegética –, estaremos “nos projetando” sobre o texto.

Dizer isso pode soar como um ataque às crenças de alguns, mas essa compreensão é importante para que possamos reconhecer nossa limitação e para que sejamos capazes de fazer autocríticas. Ademais, também é importante para que possamos conviver com a diferença.

Isso me faz pensar no crescente discurso/comportamento chamado de “islamofobia” em certos meios cristãos. Esse discurso/comportamento se faz presente nas redes sociais, por exemplo, quando pessoas partilham – de forma pouco informada – mensagens que pedem o fim da suposta “islamização” do Ocidente. [Enveredando por um caminho que lembra o discurso antissemita anterior ao período nazista na Europa.]

O que essas pessoas não levam em consideração é que sua percepção do Islã baseia-se numa série de fatores que não dizem respeito ao Islã propriamente – até porque muitas delas pouco sabem sobre a religião.

Quando, por exemplo, veem alguém que se vista da forma como pensam que muçulmanos se vestiriam, especialmente quando se trata de mulheres, o que algumas dessas pessoas podem enxergar é uma ameaça ao seu “modo de vida”. Para elas, ser muçulmano tornou-se, equivocadamente, sinônimo de violência, terrorismo, opressão, intolerância etc.

A informação que recebem, quase todos os dias, da televisão, dos jornais, dos filmes, da internet – e que acaba sendo também refletida, muitas vezes, nos sermões de líderes eclesiásticos – é que o Islã é uma ameaça a todos. E essa informação – juntamente com toda a visão de mundo que essas pessoas já abraçam – será projetada em sua leitura do Islã e dos muçulmanos e, se ela for uma daquelas raras pessoas que já leram uma tradução do Corão, em sua leitura do texto mais sagrado para os muçulmanos (sim, porque a Bíblia também é sagrada no Islã).

Elas encontram passagens violentas no Corão e, prontamente, apontam-nas como evidência de que o Islã seja uma religião violenta. Contudo, não leem as centenas e centenas de outras passagens que falam em amor, tolerância e cuidado. Não percebem as passagens violentas de sua própria Bíblia. Da mesma forma, não se dão ao trabalho de perceber a diversidade de expressões do Islã – isto é, não percebem que há muitas tradições islâmicas, não apenas uma; da mesma forma como há muitos cristianismos, e não apenas um.

Citei acima o exemplo do Islã, mas poderia ter usado qualquer outra comunidade de fé como exemplo. A ideia de projeção de nossos (pre)conceitos sobre nossa leitura daqueles que nos cercam é semelhante àquela que se processa quando lemos nossos textos sagrados.

Duma certa forma, por mais que isso soe perturbador para alguns, quando lemos as Escrituras nos engajamos numa atividade de construção do Divino à nossa imagem e semelhança. Deus é, sim, uma Realidade; mas quando racionalizamos essa Realidade – isto é, quando “lemos” essa Realidade em nossos textos sagrados –, a moldamos de acordo com nossa própria visão de mundo, através da visão de terceiros que escreveram aquelas palavras e de outros que decidiram que aquelas palavras deveriam ser tomadas como sagradas, através de outros que ensinam sobre aquelas palavras, etc…

Ou seja, a leitura é sempre um entrelaçamento que evidencia que não estamos sozinhos. Para mim, como cristão, estão lá o texto sagrado, fonte primária da doutrina cristã (a Escritura); a forma como aquele texto tem sido compreendido na história da Igreja (a Tradição); a minha compreensão de fé por meio de minha própria vida, meu próprio lugar no mundo (a Experiência); e a maneira como minha consciência discernirá essa experiência de leitura (Razão).

A leitura, assim, é sempre um engajamento com o passado e o presente, com o sentido e o vivido, com o profano e o sagrado, com o humano e o divino. Nunca lemos “solitariamente”.

Que possamos, todos nós, estar mais conscientes e atentos à forma como lemos não apenas nossos textos sagrados como também ao mundo ao nosso reder.

+Gibson

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Para “ler” as Escrituras Sagradas – parte 1


Como todos devem saber, as ditas religiões “abraâmicas” – pessoalmente, prefiro chamá-las de “jordânicas” (i.e., os judaísmos, os cristianismos e os islamismos) – têm sido tradicionalmente chamadas de religiões “do Livro”. E isso ocorre por uma óbvia razão: nossas compreensões teológicas emergem, em parte, de textos escritos que consideramos sagrados.

É importante enfatizar um trecho do que escrevi acima: em parte. A parcialidade de nossa dependência teológica de nossas Escrituras Sagradas é relevante aqui. Nenhuma de nossas tradições depende unicamente de seus livros sagrados para a compreensão de sua fé (seja a Bíblia Hebraica, a Bíblia Cristã ou o Corão). Assim, por exemplo, mesmo que alguém lhe fale sobre o Cristianismo, dizendo que a Bíblia é sua única “verdade” ou sua única fonte de “conhecimento sobre Deus” – independentemente de quão sincera seja essa pessoa –, sua afirmação não representa uma “factualidade”.

O Cristianismo ocidental, em suas formas mais tradicionais e mais numerosas – seja nas tradições católica ou protestante, por exemplo –, baseia sua fé em pelo menos três pilares: Escritura, Tradição e Razão – ou, no caso daquelas tradições protestantes que seguem o chamado “Quadrilátero Wesleyano”, Escritura, Tradição, Experiência e Razão. [Permitam-me apenas uma nota sobre o uso da expressão “Quadrilátero Wesleyano”: trata-se duma adjetivação um tanto problemática, já que John Wesley, o fundador do Movimento Metodista, nunca escreveu explicitamente sobre um “quadrilátero” – o nome surgiu como uma tentativa de reconstrução de sua reflexão teológica, por parte do teólogo metodista americano Albert Outler, apenas no século XX.]

Assim, por exemplo, se um protestante evangélico (são duas coisas distintas) – supostamente adepto duma compreensão um tanto equivocada do princípio reformado do sola Scriptura – lhe diz que tudo o que ele acredita vem da Bíblia, sua afirmação, na melhor das hipóteses, provém duma incompreensão do processo de leitura.

Ler é interpretar. Interpretar é selecionar. Selecionar é criticar… E isso é ainda mais verdadeiro quando se trata de textos religiosos. Para ler-interpretar-selecionar-criticar fazemos uma série de conexões entre o que conhecemos (ou o que pensamos conhecer) do/sobre o mundo e o texto que temos diante de nós; nos lançamos sobre o texto, isto é, lançamos (pre)conceitos sobre ele; enfim, lemos através da janela de nossa própria mente. Logo, o que lemos não é o texto baixo – o que está representado graficamente sobre o papel –, mas aquele que foi formatado em nossa mente por nosso contexto.

Mesmo se alguém fizesse referência à chamada “influência do Espírito Santo”, dizendo que sua leitura da Bíblia é guiada divinamente, teríamos um problema. Esse seria um reconhecimento explícito de que sua interpretação não se basearia unicamente no texto em si, mas (também) em algo que está além do texto, numa fonte externa – mesmo se essa fonte fosse divina. Ou seja, no final das contas, estaria reconhecendo que sua compreensão não se baseia unicamente na leitura do texto sobre o papel.

É justamente por isso que diferentes comunidades de fé leem o “mesmo texto” (ou melhor, as mesmas representações gráficas) de formas tão distintas. É justamente por isso que diferentes tradições ouvem a voz de Deus de formas diferentes – como se Deus os tivesse dizendo coisas completamente conflitantes. O problema não está nas Escrituras Sagradas – a Bíblia, no caso cristão. O problema não está em Deus. O problema está na leitura que fazemos, e mesmo na compreensão que temos do que e como estamos lendo.

Alguém afirma – inconscientemente baseado numa série de outros fatores – que lê em Êxodo apenas leis severas, vinganças divinas etc?… Eu – moldado por outras leituras prévias das Escrituras, pela tradição teológica que herdei, por minha história pessoal e pela forma como minha razão lida com tudo isso – leio: “Não explore o imigrante nem o oprima, porque vocês foram imigrantes no Egito. Não maltrate a viúva nem o órfão…” (Êxodo 22:20-21a)

Alguém, supostamente baseado apenas numa leitura do Novo Testamento, impõe uma ortodoxia teológica como requisito para ser cristão? Eu, moldado por outras partes das Escrituras, pela tradição teológica que herdei, por minha experiência e pela razão, leio que “religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso Pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em aflição, e manter-se livre da corrupção do mundo” (Tiago 1:27).

Assim se processa a leitura das Escrituras em minha vida. Assim sempre se processou a leitura das Escrituras pela Igreja cristã. E é também assim que se processa a leitura de textos sagrados por qualquer das outras tradições jordânicas – ou “abraâmicas”, se preferir. Todos nós lemos a partir do lugar onde estamos; isso faz com que sempre ganhemos ou percamos algo, mas ignorar que o façamos é, no mínimo, “ingenuidade”.

Isso significa, contudo, negar a sacralidade das Escrituras? Não… Mas sacralidade é uma qualidade atribuída, ela não é natural. Os textos que fazem parte da Bíblia passaram por um longo processo de canonização – eles não caíram do “céu”. Foram humanos que os escreveram – e mesmo que afirmemos que o tenham feito sob “inspiração do Espírito Santo”, ainda assim foram eles que os escreveram! Para que fossem canonizadas e sacralizados tiveram de adentrar um longo processo bem humano.

Pense em questões como escravidão ou mesmo o apartheid sul-africano, por exemplo. Por um tempo, esses eram justificados com base numa “leitura” supostamente bíblica. Mas o que se escondia por trás daquela leitura supostamente literal era uma série de elementos culturais: história, filosofia, justificativas econômicas e políticas etc.

Mais recentemente, quando alguém condena relações homossexuais baseando-se supostamente em leituras bíblicas – e não percebe que os mesmos livros que usa como apoio condenam algumas de suas próprias práticas culturais –, essa pessoa talvez ignore que sua leitura baseia-se também numa série de elementos socioculturais. Assim, ele lê seu próprio mundo num texto de milênios atrás – como, a propósito, você e eu fazemos.

+Gibson

terça-feira, 7 de julho de 2015

O desvalor da vida e os crimes “hediondos”


Hoje, a Presidente Dilma Rousseff sancionou a lei que transforma em crime hediondo e qualificado o assassinato de policiais civis, militares e federais, incluindo os rodoviários. Para quem se rende ao oba-oba dos grupos de pressão, a lei representa uma valorização dos representantes do Estado – já que, para eles, matá-los é um atentado ao Estado brasileiro. Para mim, contudo, a lei representa duas coisas: [1] um reflexo do quão insignificante e sem valor é a vida humana na “mentalidade” brasileira; e, [2] uma admissão, por parte do Estado, de sua derrota em proteger a vida humana.

Você só precisa ver alguma notícia sobre o assassinato de alguém, no Brasil, para entender meu primeiro ponto: “Ele(a) era um trabalhador(a)”. “Não tinha envolvimento com drogas”. “Era um bom rapaz/moça”. “Era pai/mãe de família”. Opiniões como essas sempre servem de justificativa à injustiça do assassinato de pessoas “inocentes”. São afirmações que parecem não incomodar a absolutamente ninguém. Retratam o imaginário coletivo dos brasileiros acerca do (des)valor da vida humana.

Ora, a vida humana possui valor independentemente de quem seja o personagem do enredo. Para mim, não importa se a pessoa é trabalhadora ou desocupada, abstêmia ou usuária de narcóticos, supostamente boa ou má, com ou sem prole; o que realmente importa, e sempre deveria importar, é que a vida é merecedora de proteção – se não porque queiramos, enquanto sociedade, proteger a vida de assassinos, por exemplo, simplesmente porque é a melhor lição que a sociedade dita civilizada pode ofertar: mostrar ao criminoso que as leis que o condenam são superiores ao caminho de crime que seguiu, e por isso mesmo, ele receberá a proteção que sua vítima não teve.

É justamente por a vida possuir um valor inalienável que torna-se imoral, em minha visão, tratar apenas o assassinato de agentes do Estado como hediondo, enquanto o assassinato de cidadãos comuns – tão humanos quanto os agentes do Estado – enquadra-se numa classificação de menor grau. Mas, olhando para a história da cultura política do Brasil, não é de surpreender tal aberração.

Porque o Estado todo poderoso brasileiro é incapaz de garantir a segurança de seus cidadãos e de seus agentes menores – sim, porque os agentes policiais não podem ser colocados no mesmo nível dos barões do Congresso ou dos Duques do Planalto –, precisa de leis que mascarem sua incompetência para salvaguardar a vida (isso para não citar a propriedade). Assim, encena-se uma proteção àqueles que supostamente deveriam proteger a vida do homem e da mulher comuns, violando qualquer princípio que afirme dever ser a vida de todos igualmente protegida.

O desvalor à vida se explicita, por exemplo, quando se compara a punição imediata a manifestações racistas, a saber a prisão sem direito à fiança, com o direito à fiança em casos que envolvem homicídio.

… Como ofender alguém pode ser mais grave que subtrair a vida de um ser humano? Você não pensa que há uma desproporcionalidade punitiva quando comparamos as consequências?... Bem, os legisladores brasileiros não!

Os barões do Congresso – muitos deles que publicamente se declaram “defensores da vida” – apenas se contradizem ao legalizarem a violência, tão enraizada na cultura nacional… E como “legalizam a violência”? Ao legalmente tornarem a vida dos agentes policiais mais cara que a vida dos cidadãos e cidadãs comuns! Sua lei, simbolicamente, violenta a memória dos homens, mulheres, crianças, e adolescentes que tiveram sua vida subtraída e cujos assassinos ainda não foram reeducados para integrarem à sua persona a ideia de que a vida humana é inerentemente valiosa e que quando matamos uma única pessoa, é como se tivéssemos matado toda a humanidade!

+Gibson

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Uma resposta a Anderson



Acidentalmente, deletei um comentário em vez de publicá-lo. Seu autor – se for uma pessoa real, já que tanto seu perfil quanto comentários me parecem surreais – leu uma das referências que apontei em minha última publicação, e escreveu um comentário. Republico seu comentário abaixo (já que uma cópia foi enviada ao meu e-mail):

Bom com exceção de Jesus ter sido criado (o verbo certo é Gerar, como gerar um filho) e eu acredito que ele foi Gerado antes de tudo e de todas as coisas como ele mesmo disse eu sou o princípio e o fim o primeiro e último o alfa e omega, mas ainda assim ele não existia antes de o pai ter dado vida a ele, e depois eu não acredito em Céu e Inferno Romano mais sim na Eternidade da nova Jerusalém e da Eternidade no fogo do Lago das trevas AP 20:15 diz exatamente claramente a punição daqueles que negaram a salvação por Jesus pois o salário do pecado é a morte Rm 6:23 e a morte é estar longe de Deus que nesse caso será no lago do infern o ou vocês acham que se Deus é Justo não vai julgar aqueles que cuspiram na cara de Jesus e mataram os mártires e morreram blasfemando contra a Deus, cada um receberá o fogo conforme o seu pecado, pois o inferno foi destinado aos anjos caídos e não aos homens que vão entrar la de incheridos mesmo, portanto Deus é amor mas é também um fogo consumidor e Deus é justo e sua justiça não é compreensiva para nós, se há regeneração pós Inferno o único que tem direito de fazer isso é o próprio Deus e não a pessoa que perdeu seu direito de Salvação ou do contrario Jesus não precisaria morrer na Cruz e existira purgatório ao invés de condenação.
Sou Unitário e não pertenço a Eclesiologia Unitária mas a uma Igreja livre de Doutrinas pós-bíblica ou heresias.">>

Autor: Anderson https://www.blogger.com/profile/13898657024110626494



Respondendo a algumas de suas colocações:

Não sou um "Unitário", sou um "Unitarista".

Sua cristologia – isto é, a maneira como você compreende quem é Jesus Cristo ou sua "natureza" – é chamada de ariana; eu não sou um ariano. A maneira como você compreende a Bíblia é também muito diferente da forma como eu a compreendo.

Você diz que pertence a uma igreja livre de doutrinas pós-bíblicas ou de heresias. Há dois grandes problemas em sua afirmação:

1) Seu comentário adveio de sua leitura do “Manual de Crença Unitarista”, publicado em 1884, por James Freeman Clarke, um ministro unitarista americano; o texto é bem “bíblico”, isto é, os argumentos do autor são recheados de citações bíblicas. Não se trata de um texto que proclame uma teologia pós-bíblica. Até porque esse termo começou a ser utilizado após a década de 1960, apontando para a teologia pós-moderna – James Freeman Clarke escreveu quase um século antes, e seus argumentos estão longe de ser “pós-bíblicos”. Ou seja, você não contextualizou o texto; simplesmente transferiu os comentários apologéticos de certos grupos cristãos de hoje para algo escrito há mais de um século atrás.

2) A maioria esmagadora dos cristãos do mundo leria suas afirmações acima como heréticas – mas faria o mesmo com as minhas também. Assim, dizer que sua igreja é livre de heresias é uma questão deveras relativa – depende de quem está olhando para a questão, e a partir de qual perspectiva (?). Sua afirmação soa, no mínimo, nem um pouco humilde – e humildade me parece ser um princípio bíblico!

Para finalizar, não vejo minha fé como uma questão de disputa sobre quem é mais cristão ou quem está mais próximo de Deus etc – como se isso pudesse ser medido, e como se nós pudéssemos receber uma estrelinha colorida na testa por estarmos no caminho que achamos ser certo. Para mim, Deus não é uma exclusividade dos cristãos; muito pelo contrário, a própria Bíblia aponta para um Deus que ultrapassa nossa compreensão, ao mesmo tempo em que, em alguns momentos, fala de um Deus vingativo e ciumento – logo, é uma questão de escolher qual daquelas mensagens são mais importantes para nós. Eu fiz minha escolha há muito tempo.

Quanto aos outros cristãos e, na verdade, a todas as outras tradições de fé, eu os respeito, os amo, e não acredito estar numa situação espiritual supostamente melhor ou pior que da de nenhum deles. Acredito que tanto a Bíblia quanto a tradição cristã nos ensinam que não devamos julgar ao próximo. Mas tenho certeza que você já conhece essas passagens!

Grande abraço!

+Gibson

domingo, 5 de julho de 2015

Unitaristas, Bíblia e Doutrinas: Resposta a João Pedro


Caro João Pedro,

Obrigado pelo seu e-mail. Desde já desculpo-me por haver demorado em respondê-lo. Você me fez muitas perguntas interessantes, e, aqui, tentarei respondê-las de forma breve, considerando que você pode encontrar – ao longo deste blog – respostas para todas essas suas questões em postagens mais antigas.

Em um trecho de sua mensagem, você escreveu:

- Bom, o unitarismo vê a Bíblia de forma bem diferente da qual fui ensinado, eu queria saber da visão que você tem sobre a Bíblia, das passagens que costuma-se relacionar com assuntos que a tua opinião diverge como, por exemplo, a conversa de Cristo na cruz com os outros dois condenados. Aproveito para perguntar a tua opinião e a visão unitarista sobre demônios, e se possível exemplificar a pergunta anterior sobre o uso da Bíblia com esse assunto.
"Marcos, 5:12 - Rogaram-lhe, pois, os demônios, dizendo: Manda-nos para aqueles porcos, para que entremos neles.
Marcos, 5:13 - E ele lho permitiu. Saindo, então, os espíritos imundos, entraram nos porcos; e precipitou-se a manada, que era de uns dois mil, pelo despenhadeiro no mar, onde todos se afogaram."
- Quanto a crença de o encontro com Deus, após a morte, ser universal, como o unitarismo lida com esta situação de "salvação" como os evangélicos dizem?
- Onde está a base no unitarismo levando em conta que, por exemplo, a base do catolicismo está na Bíblia?

Para respondê-lo, permita-me organizar minha resposta em tópicos numerados, seguindo a ordem que você mesmo utilizou.

1) BÍBLIA:

De fato, o Cristianismo Unitarista – mas também as outras tradições cristãs que me formaram conjuntamente, como a ala liberal do Episcopalismo/Anglicanismo, por exemplo – compreende a Bíblia de formas bem diversas daquelas associadas à tradição na qual você cresceu (a tradição teológica da Assembleia de Deus). Para a maioria de nós, a Bíblia é uma coleção de textos que se tornaram sagrados a partir de um processo de canonização – essa compreensão é também partilhada, por exemplo, pelas tradições católicas, reformadas, luteranas, e anglicanas. Nos textos bíblicos podemos encontrar a “Palavra de Deus” não porque, em sua origem, eles sejam divinos, mas porque aqueles textos apontam para a experiência que outros seres humanos como nós tiveram com o Divino. Assim, talvez seja seguro afirmar que não buscamos 100% de compatibilidade entre o que dizem os textos bíblicos e aquilo que entendemos hoje sobre a realidade física ou espiritual – buscamos, sim, “pistas” que nos apontem para aquele Mistério que chamamos de “Deus”.

Pessoalmente, não leio os textos bíblicos isolados uns dos outros, nem isolados das tradições das quais emergiram (a israelita, a dos primeiros seguidores de Jesus, e a da tradição da Igreja cristã). É por isso que, para mim – mas também para a maioria daqueles que compartilham comigo minha tradição de fé –, uma leitura histórico-metafórica das Escrituras é indispensável. Assim, para ler aqueles textos aos quais você se refere, não consigo desassociá-los dos contextos nos quais estão inseridos – ou seja, o que aquelas pessoas acreditavam sobre a relação existente entre o mundo físico e uma suposta realidade espiritual, a dualidade ou divisão do universo entre bem e mal, e, especialmente, os conceitos de “satanás”, “diabo” e “demônio” que abraçavam. Também não posso desassociar minha interpretação do conhecimento contemporâneo no qual fui formado enquanto cristão: hoje, por exemplo, tenho acesso a conhecimentos que os autores dos relatos dos Evangelhos não tinham; eu sei de onde vêm muitos dos conceitos que eles utilizaram em seus relatos, e sei que muitas vezes sua visão entra em conflito com os relatos e conceitos bíblicos mais antigos; eles, entretanto, não sabiam disso! Penso que os autores dos Evangelhos, por exemplo, e eu partilhamos a influência do mesmo Espírito divino guiando nossa fé, mas nem sempre isso significa que partilharíamos a mesma compreensão intelectual se pudéssemos conversar sobre o que eles escreveram. Levando isso em consideração, é relativamente fácil conciliar as Escrituras com minhas compreensões teológicas.

Ou seja, respondendo à sua questão sobre aquelas passagens de forma mais objetiva, posso dizer que não nos preocupamos em oferecer uma interpretação única, válida para todas as pessoas em todos os tempos, sobre o que elas significam. Diferentes pessoas podem compreendê-las de forma diversa. Os unitaristas e outros cristãos liberais respeitam o princípio de que diferentes cristãos, em diferentes contextos, construirão diferentes interpretações sobre um mesmo texto bíblico ou sobre um ponto teológico específico. Entre nós não há uma lista impositiva de crenças ou doutrinas que deva ser inteiramente aceita para que alguém se torne parte da comunidade. Isso é parte do que entendemos ser nossa liberdade de consciência – ou a liberdade do fiel –, o que está ligado à nossa compreensão de que Deus continua a se revelar à mente e ao coração humano – seja por meio do conhecimento “espiritual”, seja por meio do conhecimento “secular”.


2) SALVAÇÃO:

Já tratei, em outros textos destas páginas, muito sobre este tema. Em minha tradição, Deus é amor, e esse amor, que criou a tudo e todos, é capaz de salvar, de regenerar, de reconciliar, de sanar, sem cobrar preço, sem disputar com forças paralelas. Assim, teologicamente, Deus vence o mal e restaura sua criação à forma original. A tradição unitarista, unindo-se à universalista neste aspecto, proclama um Deus de salvação universal que redimirá toda a humanidade e toda a criação. Essa crença está bem enraizada na Tradição da Igreja cristã – Orígenes escreveu sobre isso, assim como Karl Barth, John A. T. Robinson, para não citar autores especificamente ligados às tradições unitarista e universalista – e na Bíblia.


3) O UNITARISMO SE BASEIA NA BÍBLIA?

Onde está a base no unitarismo levando em conta que, por exemplo, a base do catolicismo está na Bíblia?

Deixe-me começar dizendo que discordo da forma como você trata a relação entre o Catolicismo (Romano) e as Escrituras. A maneira como você formulou sua pergunta faz parecer que o Catolicismo (Romano) ensine que a Bíblia seja sua única fonte doutrinária, o que não é o caso. No Catolicismo, há uma explícita relação entre Escritura e Tradição – o que também ocorre, em menor grau, nas formas mais tradicionais de Protestantismo (especialmente o Anglicanismo/Episcopalismo e o Luteranismo). Essa relação, na tradição católica romana, implica que a fé é expressa por meio das Escrituras como interpretada através da Tradição e da autoridade da Igreja. Logo, não é exato dizer que o Catolicismo se baseie nas Escrituras – a chamada “Tradição apostólica” é um elemento-chave para a teologia católica –, assim como também não é correto dizer que o Protestantismo se baseie nas Escrituras (só algumas tradições evangelicais afirmariam isso). Em todas as tradições cristãs, a Bíblia é interpretada a partir dum contexto teológico específico – absolutamente nenhuma tradição pode afirmar que sua tradição leia a Bíblia plenamente de forma literal e que ela seja sua única “regra de fé”.

O Unitarismo, enquanto tradição cristã protestante – também chamado de Cristianismo Unitarista –, tem suas origens na tradição protestante do “sola scriptura”, ou seja, para os primeiros unitaristas a Bíblia era essencial para a forma como compreendiam questões doutrinárias. A grande diferença entre unitaristas e alguns outros grupos protestantes, neste ponto, é o fato de os unitaristas terem emergido, explicitamente, da cultura iluminista, para a qual a “razão” desempenhava uma função importantíssima. É importante destacar, também, que os diferentes grupos unitaristas europeus se desenvolveram em contextos muito diferentes – tendo emergido de tradições distintas. E isso, obviamente, impactaria suas compreensões teológicas. Assim, os unitaristas italianos, alemães, húngaros, transilvanos, poloneses, neerlandeses (ou holandeses, se preferir), ingleses, escoceses, irlandeses, e, posteriormente, aqueles na América do Norte – entre os séculos XVI e XX – desenvolveram compreensões teológicas e/ou práticas muitas vezes distintas umas das outras, em muitos pontos (como ocorreu com todo e qualquer grupo religioso que tenha adeptos em culturas diversas).

Agora, no tocante às Escrituras, qualquer cristão unitarista entenderia que a Bíblia desempenha um papel primordial em sua tradição. É da Bíblia – interpretada a partir de nossa tradição teológica – que emerge nossa compreensão de Deus, de Jesus, da humanidade ou de qualquer outro ponto teológico. Para nós, as Escrituras, a Tradição e a Razão se entrelaçam para dar forma à maneira como entendemos a fé cristã. Em nossa tradição, a razão, obviamente, sempre recebeu um foco especial, e é justamente por isso que o Unitarismo tende a atrair pessoas menos pacientes com formas de “autoritarismo dogmático” (por exemplo, com uma comunidade ou líder que imponha certas crenças como exigência para ser cristão).

Para os que desejam explicações bíblicas para o Unitarismo, a tradição teológica do Cristianismo Unitarista se assenta sobre uma variedade de interpretações da Bíblia que, para alguns de nós, justifica, biblicamente, as razões para acreditarmos ou deixarmos de acreditar em certas coisas. Esse tipo de discussão, entretanto, não é mais visto como necessário entre nós – ou seja, muito raramente um unitarista discutiria com outro cristão suas crenças, tentando “provar” com passagens bíblicas que suas crenças estão certas (eu não faço isso aqui). Já publiquei aqui, antes, textos que tratam especificamente sobre isso. Se você tiver interesse em explorar mais a relação entre os unitaristas e as Escrituras, leia os seguintes textos presentes aqui neste blogue:

Cristianismo Unitarista (1819) – William Ellery Channing
Manual de Crença Unitarista (1884) – de James Freeman Clarke


___________

Bem, espero ter conseguido tirar algumas de suas dúvidas. Grande abraço e paz!

+Gibson

terça-feira, 23 de junho de 2015

Islamabad, Rio e Charleston... Lembretes malditos de nossa desumanização!


Eu estava sentado lá, entre dezenas de outros estrangeiros, quando a Igreja Protestante Internacional de Islamabad foi atacada naquela manhã de domingo. O fato de todos nós, cerca de 80 pessoas, estarmos num culto cristão não nos protegeu da violência motivada por um fanatismo etnocêntrico/religioso. O fato de estarmos a menos de um quilômetro da embaixada dos EUA, o maior aliado do governo paquistanês, e a apenas alguns metros de outras embaixadas estrangeiras, não nos protegeu daquela violência. Talvez, olhando para aquele terror que testemunhei 13 anos atrás, poderia consolar-me afirmando que Deus não nos pôde proteger fisicamente porque a violência é um produto humano, e não divino. Afinal, são os homens que se desrespeitam, odeiam e matam em nome da Divindade e de suas crenças e livros sagrados.

Tenho me esforçado ao longo de todos esses anos para esquecer tudo aquilo que vi, ouvi e senti naquela manhã. O barulho de explosões, os gritos, o pavor, os mortos e feridos – tudo aquilo parecia ser uma peça num processo de desumanização do qual, conscientes ou não, nos tornáramos parte. Meu esforço para esquecer, entretanto, parece violar a aliança que fiz comigo mesmo de transformar aquelas memórias em um lembrete do que eu queria ser: um ser humano – um ser que só pode continuar a ser se os outros ao meu redor também forem, independentemente de eu concordar ou não com o que queiram ser.

Nos últimos dias, entretanto, aqueles velhos fantasmas do passado – que ninguém que não tenha estado em situações semelhantes pode compreender plenamente – parecem ter retornado à memória. Para mim, as notícias sobre a violência contra uma menina candomblecista no Rio de Janeiro, Brasil, e sobre o terror numa igreja de Charleston, EUA, serviram como um lembrete maldito. As razões parecem ter sido diferentes, o número objetivo de vítimas foi diferente, mas a natureza desumanizante em ambos os casos foi a mesma. Parece que para humanos desumanizados, os que são diferentes devem ser varridos da Terra para que apenas aqueles que se pareçam ou sejam como eles possam habitá-la. E isso se faz presente em nossos discursos etnocêntricos – seja na política ou na religião.

No que concerne especificamente ao caso brasileiro, é simplesmente indignante ver a fé e os símbolos cristãos associados a uma violência contra uma criança por ela professar uma fé diferente. Contra essa violência aos símbolos cristãos – já que vejo a utilização da Bíblia ou dos nomes de Deus e Jesus como desculpas para uma violência de intolerância religiosa como um desrespeito aos “símbolos” religiosos do Cristianismo – não vi nenhum manifesto por parte daqueles mesmos que condenaram a encenação da crucificação na Avenida Paulista. Para mim, os que se dizem seguidores de Cristo e semeiam o desrespeito, discórdia e ódio contra aqueles que professam uma fé diferente da sua parecem ter fechado os olhos para aquelas palavras que se atribuem ao próprio Jesus:

“Tudo o que vocês desejam que os outros façam a vocês, façam vocês também a eles. Pois nisso consistem a lei e os profetas.” (Mateus 7:12)

Realmente, é minha oração que um dia possamos – todos nós, inclusive eu – olhar para o outro com o mesmo respeito e amor que nossas múltiplas tradições de fé nos ensinam a ter. Creio que se eu, pessoalmente, for capaz de aprender e praticar isso, poderei finalmente transformar todas aquelas lembranças em sementes – mesmo que dolorosas – para minha própria humanização.

+Gibson

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Sobre a cena de crucificação na Parada Gay de São Paulo: uma resposta aos meus leitores


Recebi cerca de vinte e-mails com comentários irritados sobre a imagem que circula nas redes sociais sobre a pessoa “auto-crucificada” da parada gay de São Paulo, ocorrida ontem. Para todos os que me escreveram, um aviso: vocês provavelmente não ficarão muito felizes com o que tenho a dizer!

Em primeiro lugar, sou uma pessoa de fé. Mas minha fé, como bem sabem, é moldada por uma mentalidade teologicamente liberal. Assim, apesar de ser sensível às minhas próprias convicções teológicas, sou também sensível à diversidade de compreensões que estão e devem estar presentes nas relações humanas. Para mim, é necessário, às vezes, me deslocar de minha posição de conforto, e tentar entender as ações de outras pessoas do lugar onde elas estão. Em minha fé, isso constitui um exercício espiritual.

Não consigo entender por que a imagem de alguém que se figura como Jesus crucificado, com um sinal acima de sua cabeça que indica sua intenção – um protesto contra a homofobia que mata muitas pessoas em todos os rincões do Brasil (e do mundo) –, causaria tanta revolta. Afinal de contas, em culturas majoritariamente católicas, como as brasileiras, a crucificação de Jesus foi sempre utilizada como metáfora para representar aquilo que, na compreensão cristã, o machucaria, o recrucificaria. Qualquer cristão deveria poder facilmente relacionar a lembrança de que pessoas são espancadas, humilhadas e mortas por conta de sua orientação sexual, expressão de gênero, ou qualquer outra razão, com as palavras de Jesus, quando disse que quando não cuidássemos de nossos irmãos, era dele que não estaríamos cuidando (Mateus 25:31-46).

Já imagino a razão pela qual a encenação tem sido tão amargamente criticada: a pessoa que interpretou Jesus e o evento no qual a cena ocorreu!... A pessoa errada, no lugar errado! Essa é a única razão racionalmente justificável. Se a encenação tivesse ocorrido num daqueles festejos carnavalescos, no qual Jesus fosse representado por um homem “macho” bêbado, a reação, provavelmente, teria sido menos revoltosa por parte, especialmente, daqueles que ultimamente se redescobriram como cristãos devotos preocupados com a moralidade sexual do mundo!

Não posso deixar de pensar no mesmo Jesus tendo seus pés lavados por uma mulher duvidosa; o mesmo Jesus comendo com pecadores; o mesmo Jesus sendo tocado por mulheres e defendendo adúlteras; o mesmo Jesus que escolheu como discípulo um cobrador de impostos para os dominadores romanos; o mesmo Jesus que viveu sua vida rabínica a serviço dos doentes espirituais. Eu não tenho nenhuma dúvida de que aquele Jesus dos Evangelhos – não importando o quão historicamente factuais ou não sejam os relatos a seu respeito – compreenderia a mensagem daquela encenação.

Honestamente, me sinto muito mais ofendido quando vejo Jesus ser retratado como um cavaleiro do castigo divino, um general vingativo ou como um rei que precise do dinheiro dos súditos para perdoar pecados!

Christe Eleison!

+Gibson

domingo, 7 de junho de 2015

Para proteger as famílias brasileiras, diga não ao PL-6583/2013!!!

Poucas coisas ainda conseguem me chocar quando acompanho as notícias políticas do Brasil e o fanatismo “partidarista” de grande parcela da sociedade brasileira. Um dos exemplos mais recentes refere-se ao chamado “Estatuto da Família” e a seu apoio por parte de supostos defensores do “Estado mínimo”. A insensatez, incoerência e ignorância teórica desses supostos adeptos das tradições minimalistas (conservadora, liberal ou liberal conservadora no Brasil) é um reflexo do vazio “crítico” – e utilizo “crítico” aqui num senso kantista – do discurso político brasileiro. Assim, aqueles que normalmente reclamam da interferência estatal na vida do cidadão, quando lhes convém, defendem um “Estatuto”, que define o que é uma família, que estabelece “conselhos da família” etc – ou seja, que entrega ao Estado ainda mais poderes no que concerne à vida privada... E o que realmente fazem é atolar-se num lamaçal de incoerências filosóficas!

Não tenho muito tempo para escrever hoje, mas permitam-me esclarecer brevemente porque penso o que penso sobre o tema.

O artigo 2º do PL-6583/2013 (o tal Estatuto da Família), de autoria do Deputado Federal Anderson Ferreira, de Pernambuco, define “entidade familiar como o núcleo social formado a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou união estável, ou ainda por comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes.”

Para o autor do projeto, “a família vem sofrendo com as rápidas mudanças ocorridas em sociedade, cabendo ao Poder Público enfrentar essa realidade, diante dos novos desafios vivenciados pelas famílias brasileiras.”

Em sua justificativa para o projeto, Anderson Ferreira só não cita o óbvio: a verdadeira razão para uma definição do que seja uma entidade familiar é simplesmente excluir as famílias formadas por casais do mesmo sexo. Em sua “cruzada” em favor duma definição “heterossexualizante” da constituição familiar (já que, em sua definição, uma família pode ser formada por apenas um dos genitores e seus filhos – uma constituição, per se, já não mais “tradicional”), o autor acaba por não reconhecer que famílias “tradicionais” podem também ser formadas apenas por irmãos e/ou irmãs (casos já reconhecidos, no Ocidente, desde, pelo menos, o Direito Romano).

A própria definição e o caminho político desse projeto refletem uma ausência de bom senso, tanto por parte dos que o defendem com suposta base em argumentos políticos, quanto por aqueles que o fazem com suposta base em argumentos teológicos (sobre os quais tratarei posteriormente).

Pensemos, por exemplo, naquilo que Adam Smith chamou de sistema de “liberdade natural”. Quando o Estado funciona da forma certa, deve facilitar as interações entre pessoas livres, respeitando e protegendo os direitos de cada indivíduo, independentemente de suas características individuais.

Nossas sociedades passaram, ao longo dos séculos, por transformações concernentes à forma como encaramos certos comportamentos sociais. As leis, como reflexos dessas transformações, também sofreram alterações. Assim, enquanto, há algum tempo, o casamento era visto como indissolúvel – e casais que já não mantinham um relacionamento propriamente conjugal eram forçados a desempenharem o papel social do “casal”, da “boa família” –, hoje há a possibilidade de casais desfazerem seus laços legais e se engajarem em outros relacionamentos. O Estado tem protegido o direito de o indivíduo desfazer suas ligações conjugais com outra parte, mesmo que isso acarrete um custo financeiro a uma das/ambas as partes.

O Estado também reconhece configurações familiares de facto (isto é, aquelas não formalmente jurídicas). De fato, a própria definição de família dada pelo Estatuto em questão o faz, quando diz: “[...] união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou união estável[...]”. Ou seja, o projeto de lei defendido por supostos “tradicionalistas” reconhece outras formas de organização familiar – como uma família constituída por uma mãe solteira, por exemplo. Mas não o faz com um casal formado especialmente por dois homens, porque isso implicaria, para seu autor e defensores, uma “autorização” para a adoção por parte de indivíduos ou casais gays.

O cerne da questão não seria, então, os interesses da sociedade enquanto aglomerado político – que incluiriam, por exemplo, a proteção à propriedade, às liberdades individuais e ao direito de cidadãos livres se engajarem em contratos sociais –, mas, sim, os interesses duma mentalidade moral incoerente.

Que coerência pode haver em pessoas que, em sua visão teológica, são contrários à liderança eclesiástica feminina, mas, em sua vida política, apoiam para a Presidência da República uma mulher? Você consegue acreditar na seriedade/sinceridade deles? Que coerência pode haver quando um grupo é contrário à intervenção estatal na vida econômica, por exemplo, mas é favorável à intervenção estatal na definição das relações humanas para fins de proteção jurídica?...

Esses são apenas alguns dos problemas relacionados a esse tal “Estatuto da Família”. Infelizmente, não tenho tempo para escrever sobre todos os aspectos nos quais tenho pensado. Basta-me enfatizar que sou contrário a essa lei que, maquiando-se de protetora das famílias, presta-se apenas à subtração de proteção legal a famílias específicas!

VOCÊ QUER PROTEGER AS FAMÍLIAS BRASILEIRAS? ENTÃO, DIGA NÃO AO PL-6583/2013!!!

+Gibson

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Malditas as metáforas de "lutas" e "batalhas"!



“O Espírito de Cristo, que nos conduz a toda Verdade, nunca nos moverá a lutar ou guerrear contra qualquer homem com armas exteriores, nem pelo reino de Cristo, nem pelos reinos deste mundo.” (George Fox, em 1661).

As vozes que se erguem ao nosso redor frequentemente nos chamam à “luta”. Assim, quando referem-se ao trabalho, por exemplo, falam da “luta” diária, e não do “esforço”. É uma linguagem à qual todos se acostumam desde cedo, em muitas línguas, e que espelha noções equivocadamente limitadas acerca das possibilidades nas relações humanas. Pode-se pensar que isso seja insignificante, mas, para mim, não é e não deve ser.

Tornou-se “normal” falar em sair às ruas para “lutar” por “direitos”. A suposta demanda política assumiu, há muito, uma máscara belicosa que cobre a vida civil com um manto de animalidade insana. Desta forma, em se tratando dos cidadãos comuns, incendiar, depredar, vandalizar, brigar tornam-se aceitáveis se, com isso, supostamente estejam “lutando” por seus direitos. E os agentes do opressor Estado, quando atacam, espancam, agridem, como se tivessem o direito e a obrigação de fazê-lo, o fazem supostamente em nome daquela cidadania que agridem – a mesma cidadania frequentemente abandonada por manifestantes que “lutam” nas ruas.

Por isso rejeito o uso do verbo “lutar” e do substantivo “luta”. Esses tornaram-se uma afronta à minha sensibilidade teológica, filosófica, política e linguística; tornaram-se uma afronta à noção que abraço da humanidade e do Divino. Não posso “lutar” porque rejeito a violência, especialmente se tratar-se dum ataque. Rejeito a força como linguagem política, logo, não apoio ações belicosas como forma de demanda política por quem quer que seja. Acredito na linguagem verbal como instrumento político primário. Acredito no processo democrático que se realiza por meio do debate e do voto.

A linguagem belicosa foi tão naturalizada ao longo da história humana que até mesmo para falar no Divino – que tantas tradições adjetivam como sinônimo de paz – utiliza-se a metáfora da “guerra”, da “luta”, da “batalha”: assim, o Divino torna-se o “general”, o “capitão”, o “Senhor dos Exércitos”, e a busca por Deus torna-se uma “batalha espiritual”, uma “guerra pela alma”. Um conjunto de metáforas que naturalizam a violência e associam a maior das metáforas humanas (Deus) àquilo que há de pior em nossa mentalidade.

Nossos noticiários estampam a “luta” como aperitivo com o qual se deliciar durante os intervalos do dia. Os brinquedos e jogos eletrônicos que divertem nossas crianças e jovens normalizam e naturalizam as “lutas” e “batalhas” como sinônimo de sagacidade, força e masculinidade. Os filmes exibidos nos cinemas e na televisão entorpecem nossas mentes com “lutas” e “batalhas”, subtraindo de nossos corações o senso de indignação que a retratação gratuita da violência como aceitável deveria causar.

Não! Não! Não! Essa é a resposta que ofereço àqueles que convocam-me à “luta”. Não me interesso por “lutas” ou “batalhas”; interesso-me pelo diálogo, pela negociação, pela diplomacia, pelo trabalho, pelo serviço, pela humanização, pela paz. A violência não pode encerrar a violência – ao menos, é isso que se aprende com a experiência humana.

Os pregadores que falam de um deus guerreiro não podem estar falando sobre um Deus de paz. Os políticos que falam em liberdade para o cidadão utilizar armas indiscriminadamente não podem estar preocupados com a paz. Os manifestantes que saem às ruas prontos para quebrar, incendiar e atacar não podem estar em busca de paz. Os agentes do Estado que atacam, espancam e atiram não podem ser defensores da paz.

Nossa linguagem está doente. Nossas noções estão doentes. Nossas ações estão doentes. Nossa sociedade precisa de cura.

Injetemos paz em nossas mentes e ações. Rejeitemos a violência.

Este é meu testemunho e convocação a quem me ouve.

+Gibson