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sábado, 15 de agosto de 2015

O(s) Cristianismo(s) e a contextualização da “verdade”


Se vocês guardarem a minha palavra, vocês de fato serão meus discípulos; conhecerão a verdade, e a verdade libertará vocês.
(João 8:32)



Ao longo de minha vida ministerial e acadêmica, tenho tido o desprazer de lidar com visões deveras estereotipadas do(s) Cristianismo(s). Visões essas que são professadas não apenas por pessoas com baixo nível de instrução escolar formal – que, aparentemente, tendem a abraçar formas mais “estritas” de crenças e práticas religiosas –, mas também por aquelas que, num outro extremo, possuem um alto nível de instrução formal – especialmente aquelas que abraçam formas mais “estritas” duma mentalidade contrária à religião institucionalizada (para os quais, geralmente, o[s] Cristianismo[s] seria[m] o[s] modelo[s] paradigmático[s]).

Obviamente, para mim, há um grande problema com as visões “estritas” de seja lá o que for (especialmente no que tange à fé), porque elas são – na maioria das vezes – contextualmente “desinformadas”.

Compreendo o(s) Cristianismo(s) como um diálogo incessante entre a “tradição” que recebemos do passado e o nosso “contexto” presente (o nosso “hoje”). Os Cristianismos – sim, o Cristianismo é plural demais para que eu utilize um substantivo singular para me referir a ele –, enquanto conjuntos de compreensões, de práticas, de esperanças, e de pessoas, sempre foram esse “diálogo” – para o bem ou para o mal. Assim, ao longo dos séculos, a “tradição” é reformulada para ser capaz de conversar com a experiência do fiel.

Alguns dirão que essa “reformulação” é um abandono daquilo que consideram ser “a verdade”. Isso ocorre, em parte, porque compreendem “a verdade” como uma “substância” mensurável, como algo que pode ser congelado ou petrificado no tempo. Como algo fundamentalmente distinto dos contextos dos quais emerge. Os que pensam assim, obviamente, desconsideram que sua própria visão é uma “reformulação” da herança do passado.

Quando olho para a história do pensamento cristão, isto é, para a forma como as doutrinas cristãs foram (re)formuladas ao longo dos séculos – área na qual me ocupo em minhas atividades teológicas –, esse diálogo entre “tradição” e “contexto”, entre passado e presente, se torna muito claro. E se torna claro, também, que é insensato e contraditório afirmar que a “verdade” teológica seja algo petrificado e imutável.

Quando falo em “verdade”, aqui, me refiro tanto à nossa compreensão teológica quanto à forma como a articulamos em nossas atividades discursivas. A “verdade”, aqui, não inclui o objeto final ou material de nossas reflexões. Assim, toda a Igreja – me refiro não a uma instituição, mas a todas as pessoas que professam a fé cristã – professa fé em Deus e, por isso, Deus é uma verdade inquestionável para qualquer cristão professo. Essa verdade final, entretanto, não é articulada da mesma forma por todos os cristãos. Variadas tradições cristãs, e incontáveis cristãos individuais, articulam uma compreensão sobre Deus que não são aceitas por outros cristãos – ou seja, a verdade “material” (aquilo/aquele com o qual/quem se ocupa) é a mesma, mas a verdade “conceitual” (o que se pensa sobre a “verdade material”) é distinta, dependendo de uma imensa variedade de circunstâncias. E quem poderá dizer que sua verdade conceitual é a única “verdadeira” e aceitável, se sua verdade material é, para nosso contexto cultural, objetivamente imensurável?

Gosto sempre de citar as palavras do grande pensador unitarista, e fundador do campo da História das Ideias, Arthur Oncken Lovejoy, que escreveu:

[…] pessoas que igualmente professaram o Cristianismo e chamaram a si mesmas de cristãs mantiveram, no curso da história, toda a espécie de crenças distintas e conflitantes agrupadas sob esse nome, mas também que qualquer uma dessas pessoas e seitas mantiveram, via de regra, sob esse nome um conjunto de ideias muito variadas, cuja combinação dentro de um conglomerado que traz um único nome e que se supunha constituir uma unidade real foi em geral o resultado de processos históricos de um gênero altamente complicado e curioso. […] i

Obviamente, aqueles que utilizam a proteção dogmática como justificativa para sua própria compreensão, e como artifício para a reprovação daqueles que abraçam outras compreensões teológicas, dirão que essa diversidade seja fruto de “heresias” ou de “apostasias” – a própria utilização desses termos por alguns deles é problemática, já que é descontextualizada. Eu, por outro lado, as vejo como resultado dos próprios contextos nos quais as diversas visões emergiram.

Pensemos, por exemplo, na Cristologia, que é o campo da Teologia cristã que se ocupa do ser e da obra de Cristo. A maioria dos não cristãos imagina que todos os cristãos sempre tenham professado e que todos professem que Deus seja uma Trindade (como o requer a compreensão ortodoxa a partir do Credo de Niceia) e que, consequentemente, Jesus seja Deus. Para a maioria dos cristãos, Deus realmente é uma Trindade: Pai, Filho, e Espírito Santo. Claramente, entretanto, apenas uma ínfima minoria dos cristãos consegue compreender e explicar exatamente o que isso significa, já que o dogma ortodoxo da Trindade se sustenta sob uma série de compreensões filosóficas e sobre uma linguagem estranhos à maioria das pessoas hoje em dia. Ademais, e mais importante, nem todos os cristãos foram ou são “trinitaristas” – ou seja, nem todos os cristãos professaram ou professam o dogma ortodoxo da Trindade.

Na história da Teologia cristã, Jesus nem sempre foi Deus. Na verdade, com frequência, os cristãos se esquecem – se é que se dão conta disso – que Jesus sequer era “cristão”. Sua compreensão de Deus estava enraizada numa tradição que, em muitos aspectos, contradiria aquela das ortodoxias cristãs (sejam as orientais ou as ocidentais). Jesus, de acordo com os registros dos Evangelhos, jamais afirmou explicitamente ser Deus. E se de fato o tivesse feito, isso teria sido um afastamento incalculável de toda a tradição teológica das Escrituras do povo de Israel. Mas, todo estudioso intelectualmente íntegro saberá, hoje, quando e como Jesus se tornou Deus. As compreensões teológicas cristãs se desenvolveram de acordo com os contextos nos quais se encontravam os que professavam a fé em Cristo. Assim, doutrinas como as da Encarnação e da salvação por meio dum sacrifício expiatório – que são necessárias à noção ortodoxa da Trindade –, por exemplo, emergiram a partir do encontro entre a fé dos primeiros “cristãos” e as filosofias greco-romanas.

O que é importante acentuar, contudo, é que o fato de o dogma teológico ser uma construção humana não o torna inválido ou “não verdade”. Muito pelo contrário. A “verdade” (lembre-se que, aqui, me refiro à verdade enquanto o que se pensa sobre um objeto de reflexão, e não ao objeto em si da reflexão teológica) é uma construção da tradição na qual é (re)formulada. Assim, o que é “verdadeiro” ou “falso” para uma comunidade de fé – ao menos em tradições que enfatizam a comunidade enquanto centro de aprendizado e prática, como a Igreja – é definido por aquela própria comunidade. [Uma perspectiva que não deixa de ser paradoxal para protestantes crescidos em culturas individualistas como as nossas.]

A articulação dos conceitos teológicos cristãos acerca de Jesus Cristo e de sua relação com o todo da fé cristã passou por um processo de construção que durou séculos – e que, na verdade, ainda não acabou, ao menos no que tange a alguns grupos não “ortodoxos”. E, infelizmente, muitas das decisões tomadas sobre quem tinha razão nas disputas teológicas, após o(s) Cristianismo(s) se associar(em) ao poder secular, basearam-se mais na força política do que nos argumentos teológicos.

Dessa longa história advém a projeção inconsciente que fazemos quando lemos os textos bíblicos. Sempre gosto de enfatizar que costumamos projetar sobre os textos que lemos visões de mundo que, em si, não estão necessariamente presentes nesses textos. Como exemplo, sempre utilizo a narrativa sobre Adão e Eva e o “fruto proibido” que, em sua interpretação mais inocente, é identificado como uma “maçã” – apesar de o texto bíblico em si não utilizar o termo. O “fruto” foi frequentemente interpretado como “maçã” por conta do contexto exterior à narrativa bíblica. No caso específico da Cristologia, mesmo aqueles que afirmam basear toda a sua fé na leitura da Bíblia, quando leem o texto sagrado, projetam sobre ele a tradição trinitarista ortodoxa que não está necessariamente presente lá de forma explícita. Inconscientemente, apelam a construções filosóficas para a construção de sua teologia, que são inseparáveis dos contextos nos quais tais construções filosóficas emergiram e das razões e formas pelas quais continuaram a fazer sentido para quem as abraçam hoje.

Se pensássemos sobre outros campos teológicos, como a Eclesiologia, por exemplo, veríamos que as três formas mais comuns de administração/organização eclesiástica na Igreja ocidental – o episcopalismo, o presbiterianismo e o congregacionalismo – também dependem duma série de fatores que condicionam a visão de quem lê o texto bíblico. Ou seja, mais uma vez, projetaremos uma visão de mundo não plenamente presente nos textos sagrados em nossa leitura.

Ou seja, gostemos ou não do termo ou da ideia, nossas compreensões teológicas/religiosas são sempre relativas, porque sempre mantêm uma relação com os contextos nos quais emergiram. Nossas tradições de fé emergem num universo cultural particular e fazem uso da língua e dos símbolos daquele universo, ao mesmo tempo em que subvertem os valores desse universo e que, posteriormente, possam construir um universo à parte.

Como tenho sempre afirmado, estar consciente disso não representa uma ameaça à minha fé pessoal – e não deveria representar uma ameaça à fé de ninguém. Muito frequentemente, minha compreensão tem sido atacada por outros fiéis com perguntas como “Como você decide que partes da Bíblia são verdadeiras?”, ou com afirmações como “Você só escolhe o que lhe é mais conveniente!”. Bem, responder a esse tipo de perguntas ou acusações é problemático pelo simples motivo de se basearam em premissas equivocadas. Posso afirmar o que afirmo e manter minha fé porque ela se assenta sobre uma série de perspectivas que são diferentes daquelas abraçadas pelos autores daqueles questionamentos. Nossas visões de autoria, autoridade, liberdade, consciência, comunidade, individualidade, Divindade, humanidade etc, são distintas e, por essa razão, chegamos a considerações bem diferentes. Ou seja, temos visões relativas da realidade e da Realidade! Isso não nos torna mais ou menos “verdadeiros” em relação uns aos outros – no máximo, nos torna mais ou menos conformistas em relação às nossas próprias tradições de fé particulares.


i LOVEJOY, Arthur O. A grande cadeia do ser: um estudo da história de uma ideia. Tradução Aldo Fernando Barbieri. São Paulo: Editora Palíndromo, 2005. p.16.



+Gibson

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

"O Espírito Santo não é uma pessoa?" - respondendo à questão de E.N.


Um leitor – que chamarei de E.N. – me enviou uma das mensagens/perguntas mais breves e mais complexas que já recebi de um leitor deste blog:

O Espírito Santo não é uma pessoa?”


Minha resposta:

Depende de quem você é e a quem você pergunta!… A maioria dos cristãos, provavelmente, dirá que sim – mas, se perguntados, a explicação sobre o que esse “sim” significaria para eles já é outra questão.

As noções sobre a Divindade, na teologia cristã, tradicionalmente se entrelaçam com outros pontos doutrinários. Assim, para responder a uma pergunta como a sua, teria de falar sobre minha crença a respeito de Deus, a respeito de Jesus, a respeito das Escrituras. Essas compreensões, por sua vez, têm um impacto na forma como entendo o que seja salvação e como essa ocorre. E a lista continua… Tudo está interligado.

Na verdade, a Igreja, em toda a sua diversidade, tem noções muito complexas sobre o Espírito Santo – com todas elas encontrando apoio na Bíblia e na Tradição. Assim, há cristãos que acreditam ser o Espírito Santo uma pessoa, enquanto outros não. E a própria linguagem bíblica abre espaço para a diversidade de opiniões. Algumas vezes a Bíblia fala sobre o Espírito Santo como um vento/sopro, outras vezes como uma influência, enquanto outras vezes como se fosse uma pessoa.

Na história da Igreja, demorou até pelo menos o século IV para que as lideranças cristãs impusessem uma interpretação, que veio com o Credo Niceno. É a partir desse documento da Igreja (e dos credos posteriores) que se exige que os cristãos acreditem que o Espírito Santo seja uma pessoa (hypostasis). Assim, católicos romanos, ortodoxos e muitos protestantes (luteranos, anglicanos, metodistas, presbiterianos etc) abraçam, oficialmente, essa visão. A maioria dos cristãos não-trinitaristas (aqueles que não aceitam a doutrina ortodoxa da Trindade), entretanto, abraçam a visão de que o Espírito Santo seja uma referência ao próprio Deus ou à sua influência.

Assim, a resposta depende de qual seja a sua tradição cristã!

Paz! Grande abraço!

+Gibson

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Joseph, o Vidente: mais um ensaio historiográfico dos “mórmons” de Utah



Gibson da Costa


Para alguém que, como eu, pesquisa a história teológica da tradição do Movimento Restauracionista iniciada por Joseph Smith (tradição popularmente conhecido, para alguns inapropriadamente, como “Mormonismo”), a publicação de mais um ensaio historiográfico por parte de “A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias” (IJCSUD) foi uma relativamente boa “surpresa”.

Como vocês leram aqui, em 24 de outubro de 2014, a IJCSUD já havia publicado uma série de ensaios que lidavam com temas controversos de sua história – especificamente sobre Joseph Smith e o Casamento Plural (poligamia) em sua tradição. Na verdade, nos últimos anos, a denominação tem feito um esforço de lidar com sua história – pense no excelente Projeto “Joseph Smith Papers” [Os Papeis/Documentos de Joseph Smith] –, e a publicação daqueles artigos faz parte desse trabalho de relativa abertura ao mundo externo (obviamente, não se trata duma historiografia desvinculada das visões doutrinárias da denominação). Apesar das limitações decorrentes de os artigos terem sido escritos sob os auspícios da própria denominação, o fato de lidarem com os questionamentos e tratarem do tema foi, em si, um ato corajoso e louvável – independentemente das possíveis intenções políticas por trás disso (afinal de contas, se virmos a questão de forma mais cínica, não esqueceremos que o “Mormonismo”, em geral, e a IJCSUD, em particular, foram alvo de protestos durante a campanha de Mitt Romney à Presidência dos E.U.A., e vir às claras sobre o passado poderia melhorar a percepção pública para com a denominação).

Mas, então, temos o mais novo ensaio historiográfico da Igreja SUD, desta vez lidando com um outro aspecto polêmico para quem não é da tradição: “Joseph the Seer” [Joseph, o Vidente], que estará na edição de outubro da revista oficial da igreja em inglês, Ensign – mas já disponível online.

Gostaria, aqui, apenas de tecer breves observações sobre alguns trechos do ensaio. Lembro aos amigos SUD que minha intenção não é de atacar suas crenças, mas apenas lidar brevemente com um tema que me interessa enquanto pesquisador de Teologia Histórica. Todas as citações são extraídas do texto em discussão – a tradução livre é minha.

Visões” e “videntes” eram parte das culturas americana e da família nas quais Joseph Smith cresceu. Mergulhados na linguagem da Bíblia e numa mistura das culturas anglo-europeias trazidas por imigrantes à América do Norte, algumas pessoas no início do século XIX acreditavam que era possível que indivíduos dotados “vissem”, ou recebessem manifestações espirituais, por meio de objetos materiais como as pedras videntes.

O jovem Joseph Smith aceitou tais costumes populares de sua época, incluindo a ideia de utilizar pedras videntes para encontrar objetos perdidos ou escondidos. Como a narrativa bíblica mostrava que Deus usava objetos físicos para focar a fé das pessoas ou para comunicar-se espiritualmente nos tempos antigos, Joseph e outros presumiam o mesmo quanto ao seu tempo. Os pais de Joseph, Joseph Smith Sr. e Lucy Mack Smith, afirmavam a imersão da família nessa cultura e seu uso de objetos físicos para esses fins, e os habitantes de Palmyra e Manchester, Nova York, onde os Smith viviam, procuravam Joseph para que ele encontrasse objetos perdidos antes de ele se mudar para a Pensilvânia no final de 1827.1


Não há, aí, nenhuma surpresa para qualquer pessoa que tenha mesmo que um conhecimento apenas superficial da história religiosa de populações rurais menos privilegiadas dos E.U.A. naquela época. Na cultura rural de Nova York, especificamente, manifestações “espiritualistas” se mesclavam ao “carismatismo” marcante dos reavivamentos e dos cultos ao ar livre. Isso não é desconhecido de absolutamente ninguém que estude os movimentos religiosos da época. Só que, por conta dos contextos específicos da cultura dos santos dos últimos dias, parece ter sempre havido uma negação velada disso – especialmente quando se considera que isso era uma das acusações utilizadas por grupos cristãos para invalidar a autenticidade e a “irracionalidade” da narrativa de Joseph Smith sobre suas supostas visões e revelações.

O texto prossegue, agora, de forma apologética:

Para aqueles sem uma compreensão de como as pessoas do século XIX, na região de Joseph, viviam sua religião, pedras videntes podem ser coisas com as quais não estão familiarizados, e estudiosos têm, há muito, debatido esse período da vida dele. Em parte, como resultado do Iluminismo […], muitos nos dias de Joseph vieram a sentir que o uso de objetos físicos, como pedras ou varas, fosse supersticioso e inadequado para fins religiosos.

Nos anos posteriores, enquanto Joseph falava sobre sua notável história, ele enfatizou suas visões e outras experiências espirituais. Alguns de seus antigos companheiros focaram-se em seu antigo uso de pedras videntes, num esforço para destruir sua reputação num mundo que, cada vez mais, rejeitava tais práticas. Em seus esforços proselitistas, Joseph e outros dos membros iniciais escolheram não se focar na influência da cultura popular, já que muitos potenciais conversos estavam experienciando uma transformação em como entendiam a religião na Idade da Razão. […]2


Enquanto, no trecho anterior, é especialmente notório o reconhecimento de que Joseph, de fato, procurava objetos perdidos para outras pessoas utilizando pedras videntes (que, a partir de 1833, seriam chamadas de “Urim e Tumim”). Na cultura “mórmon”, os próprios membros da IJCSUD habituaram-se a desconsiderar esse tipo de acusações por vê-la apenas como ataques de inimigos de sua tradição religiosa. Curiosamente, essa visão é exposta no segundo parágrafo do trecho acima, quando afirma que alguns dos antigos companheiros de Joseph Smith falavam sobre seu anterior uso de pedras videntes “para destruir sua reputação”. Os fieis sempre utilizaram essa explicação para desconsiderar esse aspecto da juventude de seu profeta.

Obviamente, há décadas, se escreve entre os próprios “santos” – sejam os membros da IJCSUD, sediada em Salt Lake City (Utah), ou os membros de outros grupos minoritários do movimento, especialmente da Comunidade de Cristo, sediada em Independence (Missouri) [grupo que, há muito, tem abraçado uma visão historiográfica mais crítica sobre o passado de seu próprio movimento] – sobre esse envolvimento de Joseph Smith com tais práticas. Mas esse tipo de estudo historiográfico sempre esteve distante do “mórmon” comum, mesmo considerando o relativo nível de letramento cultural da maioria dos “santos dos últimos dias”.

Permitam-me, a propósito, explicar brevemente um fato ignorado por muitos “não-mórmons” no Brasil: não há apenas um grupo eclesiástico advindo da “Restauração” liderada por Joseph Smith Jr. Há várias denominações dentro do chamado “Movimento dos Santos dos Últimos Dias” – ao todo, cerca de 80 diferentes grupos. Entretanto, as duas maiores expressões são: [1] A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias – conhecida como a Igreja “Mórmon” pelos não-membros (aquela sobre a qual estou falando aqui e que publicou os artigos em questão) –, sendo, praticamente, o único desses grupos conhecido pelos brasileiros; e [2] a Comunidade de Cristo – conhecida, até 2001, como a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias Reorganizada – que mantém muito pouco em comum, doutrinária e socioculturalmente, com a IJCSUD (no Brasil, a denominação está oficialmente presente apenas no Estado de São Paulo e talvez, por isso, seja tão desconhecida para a maioria dos brasileiros). Esses dois principais grupos representam, em minha opinião, as expressões mais extremadamente opostas na tradição que chamo aqui, inadequadamente, de “mórmon”; tendo sempre se visto, mutuamente, como “apóstatas” da Restauração iniciada pelo – para ambos – profeta Joseph Smith. A Comunidade de Cristo, na maioria dos aspectos, está muito próxima a muitas outras igrejas cristãs liberais (com exceção de sua visão acerca das Escrituras e de revelação), e muito distante da IJCSUD.

Quanto à iniciativa da IJCSUD de discutir sua história – mesmo que de forma ainda limitada e institucionalmente enquadrada –, parece ser uma tentativa raquítica e atrasada dum lado, mas também intelectualmente íntegra, de conciliar o corpo de estudos historiográficos dos últimos 30 anos, produzidos por historiadores de seu próprio meio (muitos dos quais sofreram punições por levantarem questionamentos que contrariavam a doutrina oficial da denominação), com as posições oficiais da mesma. Mesmo que limitadamente, talvez seja um indicador das possíveis direções que os ventos estão soprando no Vale do Lago Salgado.

Há outros pontos interessantes no ensaio, mas os discutirei, talvez, numa outra ocasião.

Vejamos o que mais vem por aí!


Referências:

[1] TURLEY JR., Richard E.; JENSEN, Robin S.; ASHURST-MCGEE, Mark. Joseph the Seer. In: ENSIGN, outubro de 2015. Disponível em: . Acesso em: 4 ago 2015.

[2] Ibid.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Nossa página no Facebook, nosso novo fórum de discussões...


https://www.facebook.com/blogcristianismoprogressista
 
Olá, pessoal!

Depois dos incontáveis problemas que tivemos com nosso fórum anterior, resolvi criar uma página no Facebook para servir de fórum aos leitores deste blog e interessados – seguindo o conselho de um de nossos leitores, segui o modelo aqui quanto ao título e o endereço. Sintam-se livres para participar!

Abraço a todos(as)!

+Gibson


domingo, 2 de agosto de 2015

Questionamentos Intelectuais e Moralidade Prática: uma resposta a outra provocação de Rebeca...


Cara Rebeca,

Não tenho nenhuma obrigação em defender minha vida pessoal aqui, mas, talvez seja importante fazer algumas observações sobre seu comentário.

Você comete um grande equívoco quando compra a opinião de outras pessoas de que o que eu faço aqui seja dar aos meus leitores “licença para pecar”. Em primeiro lugar, porque não sou senhor das ações de ninguém. E, em segundo lugar, porque tenho uma enorme preocupação moral/ética – é só você ler cuidadosamente o que publico aqui.

Questionar posições morais, historizando suas origens intelectuais, não é o mesmo que não ter “nenhum princípio moral” ou viver de forma descompromissada com princípios éticos – sejam esses baseados no que for. O questionamento que faço – seja em minha vida pessoal, em minha vida eclesiástica, em minha vida acadêmica ou em espaços mais “públicos”, como este – é, antes, um exercício de minha fé na liberdade de consciência que, em termos de minha fé cristã, equivale à “liberdade do cristão”.

Minha compreensão da liberdade cristã se assenta em minha herança teológica; exatamente da mesma forma como a visão de muitos que discordam de mim. Esses que discordam de minha visão, contudo, não podem condenar-me com base em minha vida pessoal – primeiro, porque as pessoas que você cita não me conhecem; segundo, porque elas, de fato, não têm autoridade para condenar-me.

Eles, e você, podem imaginar que eu leve uma vida “sórdida” “de pecado” (expressões que você utilizou) simplesmente porque não concordam com meus questionamentos acerca de posições morais ditas tradicionais, mas meus questionamentos intelectuais dizem muito pouco a respeito de minha própria vida.

Considerando o contexto da maioria dos que tão prontamente me condenam publicamente, por conta do que discordam em minhas opiniões, imagino que – como um cristão liberal – seja muito mais “conservador” na forma como vivo minha vida do que a maioria dos autoproclamados defensores da "moral conservadora". Questiono a “moral sexual” da Igreja, mas eu mesmo tenho um rígido código de comportamento sexual para minha própria vida. Critico a origem da “moralidade de fronteira” que os evangélicos brasileiros herdaram dos missionários americanos – com a condenação da bebida, do cigarro etc –, mas eu mesmo não faço uso dessas coisas. Como escrevi acima, questionar não é despir-me de minhas próprias regras morais – a diferença é que estou ciente das origens dessas regras e não as imponho a outras pessoas; elas são minhas regras para minha vida pessoal (não são “as regras de Deus” que devo obedecer inquestionavelmente).

Você se engana quando diz que eu seja um defensor do aborto. Por exemplo, não como carne porque sou contrário à ideia de matar um animal para comê-lo, se posso me alimentar de outra coisa – compreendo o consumo desnecessário de carne como um envolvimento num ato de violência não-defensivo. Acredito que a vida seja um dom divino e que, na maioria das circunstâncias, não devemos interferir para encerrá-la. Se tenho esse cuidado com outros seres vivos, como poderia apoiar algo como o aborto?…

Você nunca pode ter lido nenhum texto meu que defendesse o aborto, e aqueles que convivem comigo nunca me ouviram defender o aborto em minha fala. O que você já leu meu a respeito foi um questionamento da origem de nossas ideias sobre o aborto; ademais, pode já ter lido minha defesa política do direito da mulher decidir o que faz com seu corpo – e isso enraíza-se tanto em minha herança teológica quanto política liberais. Questionar a origem de ideias e a natureza das leis não é o mesmo que fazer apologia a algo. Nossas visões sobre o aborto são construções históricas. Mesmo a tradição cristã herda isso, mais objetivamente, de outras fontes, que não a Bíblia. Dizer isso, entretanto, não é dizer que eu seja a favor do aborto.

Seus argumentos, a propósito, falham gravemente quando tenta condenar o que pensa que defendo. Que moralidade, afinal, há em condenar o aborto e ser favorável à pena de morte? A lógica de que “o bebê é inocente” e um “assassino é culpado de morte, por isso pode pagar com sua própria vida” é horrenda para mim, teológica, política e humanamente. E isso, sim, é incoerente, e não o que digo – considerando que seu julgamento a meu respeito se baseia em premissas errôneas a meu respeito.

Bem, seja como for, fico feliz que você tenha me escrito a respeito da resposta que dei anteriormente. Se tiver mais provocações, estou aqui!

Grande abraço! E Paz!

+Gibson

sábado, 1 de agosto de 2015

Mais uma vez, a Bíblia...


No princípio era a palavra. E a palavra, repetida por lábios tão diversos, escondia, por trás de si, sentidos múltiplos. Essa é a arqueologia do pensamento teológico cristão – e, na verdade, de qualquer pensamento.

É tolice imaginar que nossa devoção e/ou submissão às Escrituras de nossa tradição de fé seja suficiente para atestar uma suposta veracidade de nossas convicções, que seja assentada sobre a universalidade conceitual entre todos os fiéis. Absolutamente todos nós lançamos sobre as Escrituras, quando as lemos e estudamos, nossa própria experiência – ou nosso próprio imaginário – pessoal e coletiva(o).

Quando lemos uma palavra no texto sagrado não atribuímos a ela o mesmo sentido que os antigos o fizeram, nem o mesmo sentido que todos os outros fieis que compartilhem de nossa tradição atribuem. E não o fazemos porque estamos vivos no mundo. Cada um de nós só consegue enxergar o mundo a partir de sua própria perspectiva – mesmo que pensemos que estamos apenas emulando a visão de outros.

Quando ouvimos o nome “Deus”, as palavras “salvação” ou “amor”, o verbo “orar”, etc, não temos os mesmos sentimentos ou os mesmos pensamentos. Podemos até pensar que esses termos tenham ou devam ter os mesmos sentidos igualmente para todos nós, mas não é isso que ocorre – e, para mim, não é isso que deve ocorrer.

Se, como tantos costumam enfatizar, a “palavra de Deus” é viva, então ela deve realmente se tornar viva para o fiel. E só se tornará viva se ele ou ela for capaz de “traduzi-la” para a sua própria alma. Assim, Deus, salvação, amor e orar podem e devem ter sentidos diferentes para pessoas diferentes.

Quando nos debruçamos sobre as Escrituras, nos erguemos “sobre os ombros” de outros para interpretá-la. Isso porque os sentidos que atribuímos aos textos que lemos são moldados, em parte, pelas demais concepções que temos do mundo ao nosso redor. Assim, projetamos nossa herança (chamemos de) cultural sobre o que lemos. Não lemos sozinhos. E, ao mesmo tempo em que fazemos essas projeções culturais (logo, coletivas) sobre o texto, o moldamos à nossa própria percepção do que seja aquela herança cultural. Em outras palavras, a leitura/interpretação é, simultaneamente, coletiva e individual.

Com exceção da afirmação da realidade Divina, não há nenhuma verdade universal que esteja presente ao longo de toda a Bíblia que possa ser imposta a todos os adeptos do “Bom Livro” como um teste de ortodoxia. Para existir, essa ortodoxia tem de ser construída sobre outros elementos, e não o texto bíblico em si. Não importa o quanto se afirme que “minha fé se baseia nas Escrituras; é isso que ela diz e ponto”. Ela diz o que uma determinada visão de mundo quer que ela diga.

Lembro-me dum debate que impus como atividade aos meus alunos no seminário sobre a relação entre o Cristianismo e a guerra. A pequena turma, de treze alunos, foi dividida em dois grupos – um que deveria defender a possibilidade do envolvimento de cristãos com a guerra, e outro que deveria ser contrário a essa visão. Tive o cuidado de pesquisar sua opinião anteriormente, e dividi-los de forma a defenderem mais ou menos a visão que já abraçavam. Os grupos deveriam utilizar a Bíblia Hebraica e o Novo Testamento como fontes básicas para o debate. Tiveram uma semana para se preparar. Minha intenção era exatamente mostrar a eles o quanto nossas leituras dependem do que já carregamos de nosso “conhecimento de mundo”.

O debate foi mediado por outros dois professores e eu.

O debate resultou no esperado. As discussões foram acirradas, tendo se baseado em bons argumentos, nos quais foram utilizados amostras de textos bíblicos que pareciam apoiar a visão de cada grupo. Eles utilizaram o mesmo manual (a Bíblia) e chegaram a considerações muito diferentes! Apesar de terem recorrido ao seu conhecimento histórico e linguístico para sua exegese, a maioria acreditava que estivesse apenas utilizando os argumentos bíblicos.

Fiz uma nova pesquisa de opinião. O tema era a Cristologia (a doutrina acerca da natureza de Cristo) no Novo Testamento. Separei os grupos entre trinitaristas e antitrinitaristas. Só que, desta vez, fiz com que os participantes defendessem uma visão contrária à sua própria. Mais uma vez, tiveram uma semana de preparação.

Dessa vez, contudo, as coisas não foram iguais, ao menos para a maioria dos alunos e alunas. Muitos se mostraram inseguros e menos convincentes na defesa dum ponto de vista contrário ao seu. Os argumentos da maioria eram fracos. Aquela turma de Mestrado, com alunos formados nas mais variadas áreas das humanidades, falava como se tivessem acabado de sair do Ensino Médio.

“O que deu errado?”… Essa foi a discussão que tivemos posteriormente.

Na verdade, não é que algo tenha “dado errado”. O problema é que, ao defender uma ideia que não apreciavam, que desconheciam e na qual não acreditavam, perderam seu “chão”. As fontes textuais que utilizaram não foram convincentemente argumentadas. Tenho certeza que teriam feito um excelente trabalho se tivessem tido a oportunidade de defender, cada grupo, sua própria perspectiva (ou aquela que mais se aproximasse dela).

A atividade ajudou-os a perceber a complexidade da atividade exegética (interpretativa). Após aquela atividade, aparentemente puderam perceber que a interpretação de textos sagrados (em nosso caso, a Bíblia) segue o mesmo padrão de qualquer outro texto: quem somos e o “lugar” onde estamos influencia/molda nossa leitura. É isso que faz com que nossas interpretações não sejam, nem possam ser, as mesmas. Não somos a mesma pessoa, nem ocupamos o mesmo “topos” no mundo – e isso é verdade no que tange a pessoas que professam a mesma tradição e sentam-se uma ao lado da outra na mesma comunidade de fé.

A explicação de Locke não se aplicaria aqui. Não somos uma tabula rasa quando lemos um texto – já temos todo um universo conceitual construído por trás de nossos olhos.

Paz a todos!

+Gibson

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Cristianismo Progressista? Filosofia de vida? – uma resposta aos ouvintes do “Graçacast #69”


Ontem, recebi uma mensagem duma visitante (Rebeca) que me fazia perguntas com base num podcast que acompanha, no qual os apresentadores tratavam sobre o Movimento Progressista cristão e haviam citado coisas que publiquei aqui. Após ouvir a transmissão, respondo a algumas das provocações da visitante sobre o que disseram no programa. Meus comentários não seguem a mesma ordem seguida no podcast, que dura mais de uma hora.

Devo começar dizendo que os apresentadores têm um programa interessantíssimo, apesar de termos visões de mundo bem distintas e/ou até conflitantes. Soam como pessoas relativamente bem informadas e bem intencionadas, e eu respeito o seu ministério online. Penso que seu esforço é louvável. Entretanto, tenho críticas (negativas) a respeito de muitas de suas colocações nesse podcast específico (#69).

Antes de comentar sobre o que disseram, é bom enfatizar que o risco que qualquer um corre quando não se informa suficientemente sobre um tema antes de tratá-lo publicamente é que acaba criando o deslocamento nocional que, em alguns momentos, criaram no programa. Muitas das afirmações feitas pelos apresentadores do programa são fruto duma falta de pesquisa cuidadosa sobre o tema. Os apresentadores, por exemplo, iniciam o programa citando o trecho duma antiga publicação neste blog, e depois misturam os dados daqui com aqueles de um texto escrito pelo Rev. Hal Taussig, e acabam construindo uma informação equivocada sobre o “Cristianismo Progressista”. Para eles, o movimento progressista parece ser, em alguns momentos, uma denominação protestante e, em outros momentos, um movimento teológico uniforme. Eles não poderiam estar mais equivocados.

Num determinado trecho do podcast, um dos apresentadores se refere ao movimento como se esse fosse uma denominação (ele não usa esse termo), dizendo, inclusive, que a primeira “igreja progressista” teria surgido apenas em 2005. Na verdade, esse título – Cristianismo Progressista – é apenas o nome dado a um movimento organizado, nos Estados Unidos, no TCPC (The Center for Progressive Christianity), que foi fundado em 1996 (mil novecentos e noventa e seis) pelo Rev. James Adams – um sacerdote episcopal. O “progressivismo” já existia, no interior de denominações protestantes; o que o nome e o TCPC fizeram foi apenas ajudar a todos aqueles grupos se sentarem juntos e compartilharem sua mensagem. O TCPC é uma rede não-denominacional de igrejas locais (congregações) pertencentes a diferentes denominações cristãs – episcopais, luteranos, congregacionais, unitaristas, universalistas, batistas, metodistas, restauracionistas, presbiterianos, pentecostais, católicos independentes etc. Ou seja, nunca existiu uma “primeira igreja progressista” – se por “igreja” se estiver pensando numa denominação ou numa forma de Cristianismo. Também não se criou mensagem nova nenhuma: o movimento proclama crenças e práticas que estão enraizadas nas diferentes tradições que se juntaram na organização do TCPC e de outras associações semelhantes, que foram organizadas para proclamar publicamente o “progressivismo cristão” – que surgiu ainda no início do século XX. O que as congregações que formam o TCPC fazem é, simplesmente, criar uma rede de colaboração que nunca havia existido fora das denominações específicas.

O movimento não é o mesmo ao redor do mundo. E, na verdade, sequer existe fora do mundo anglófono (os países de língua inglesa e as igrejas de língua inglesa em países onde se falam outras línguas). No Brasil, por exemplo, só quatro congregações colaboram formalmente num movimento brasileiro semelhante – todas elas são igrejas anglófonas (de língua inglesa), incluindo aquela da qual sou Ministro (e essas estão envolvidas com o movimento norte-americano). O movimento norte-americano (nos E.U.A. e Canadá) tem características diferentes dos movimentos britânico, australiano, neozelandês, sul-africano e das igrejas anglófonas da Europa continental – e todos esses são diferentes entre si. As alianças são diferentes, as tradições teológicas são diferentes, as maneiras como se organizam são diferentes, suas declarações são diferentes etc.

O texto que um dos apresentadores cita como se fosse os supostos “cinco pontos” do Movimento Progressista, na realidade, não é uma declaração oficial de nenhuma organização do movimento, logo, não pode ser utilizado como se o fosse. O texto refere-se apenas a uma reflexão pessoal do professor e ministro Rev. Hal Taussig sobre o tema, na qual ele aponta o que ele entende ser as cinco principais características do progressivismo cristão – nem todos os cristãos envolvidos com o movimento concordariam com sua visão. Institucionalmente, o movimento americano, com o qual tenho me envolvido nos últimos 15 anos, proclama oito pontos – que estão traduzidas aqui neste blog desde, pelo menos, 7 de outubro de 2007. Se quiser falar sobre o que o Movimento, oficial e institucionalmente, afirma, deve-se citar aquele documento.

Quando levantam suposições sobre o sentido do termo “progressista”, por exemplo, alguém afirma que “o progressista sugere que, como a própria palavra diz, ela sugere um progresso, significa que você avançou na interpretação da Bíblia, na interpretação das Escrituras, e sobre aquilo que elas diziam…”. Essa é outra afirmação descontextualizada, para alguém que não seja membro duma igreja fundamentalista do Bible Belt dos Estados Unidos (o que não é o caso deles!). E ela é descontextualizada teológica e historicamente (dois fatores que se correlacionam aqui). Vejamos.

TEOLOGICAMENTE: Para dizer o que ele disse, você teria de supor que a única fonte teológica do Cristianismo seja a Bíblia. Ora, as denominações nas quais há congregações ou indivíduos envolvidos com movimentos como o Cristianismo Progressista não são tradições que preguem ser a Bíblia a única fonte teológica cristã. Na verdade, apenas uma ínfima minoria das tradições protestantes ensina isso oficialmente. Por exemplo, para anglicanos/episcopais, luteranos, presbiterianos, metodistas, congregacionais, unitaristas, universalistas, restauracionistas, quakers, e mesmo batistas, a Bíblia não é a única fonte para se entender o Cristianismo – eu, a propósito, discuti isso aqui nos dois textos anteriores a este. Os protestantes mais tradicionais utilizam como recurso para a reflexão teológica a Bíblia, a Tradição, a Razão e, especialmente os herdeiros do Metodismo, a Experiência pessoal. Mesmo o antigo Movimento Fundamentalista fazia menção a essas fontes teológicas. Só grupos minoritários afirmam que a Bíblia seja a única fonte teológica cristã. E, se você atentar cuidadosamente, observará que as congregações que se envolvem com o Movimento Progressista são, geralmente (pode haver, talvez, uma ou outra exceção), parte daquelas tradições que citei. Logo, a ideia de que se refiram, com o adjetivo “progressista”, a um suposto avanço na interpretação das Escrituras não faz absolutamente nenhum sentido!

HISTORICAMENTE: Pessoalmente, também não simpatizo com o termo “progressista”, já que penso ser ele inapropriado em português; mas seu uso deve ser contextualizado no ambiente cultural onde emergiu e é utilizado. O termo, em nosso meio, não se iniciou – como se disse no programa – por conta daqueles movimentos políticos de liberação da década de 1960. Ele também não tem origem no “pós-modernismo” filosófico. O problema com essa interpretação é que ela se baseia unicamente no uso do adjetivo “progressista”, já que, comumente, os movimentos de esquerda – especialmente herdeiros de tradições socialistas – são chamados de “progressistas”. O Progressismo cristão americano está enraizado na tradição do Evangelho Social. Desde o início do século XX já se usava, em inglês, o termo “progressista” para se falar sobre uma perspectiva na qual o trabalho pelo estabelecimento do Reino de Deus na Terra hoje mesmo é uma forma de proclamar o Evangelho e se preparar para a Segunda Vinda. [A soteriologia universalista, que serviu de base ao movimento do Evangelho Social, falava da “salvação” como um “progresso” rumo à construção do Reino de Deus aqui na Terra, antes que Cristo retornasse e completasse o processo de salvação. Essa ideia, por sua vez, fundamentava-se numa compreensão escatológica pós-milenarista, que fora dominante nas igrejas reformadas americanas até o período entre a 1ª e a 2ª Guerras Mundiais. Ou seja, não é olhando para as tradições políticas marxistas que você entenderá o contexto do surgimento do movimento; é, antes, olhando para as tradições teológicas calvinistas!]

Ademais, não foram os adeptos que criaram o termo – o termo foi dado por quem estava de fora. Esses cristãos aceitaram o uso. Quando aceitaram o uso do termo, não pretendiam então, como nossos contemporâneos não pretendem hoje, ver-se como superiores aos demais cristãos. Para entender isso, você tem de compreender o termo em língua inglesa:

“Progressive”, em inglês, não significa, no contexto do movimento, que você “progrediu” mais que outros. O sentido é que você está em movimento rumo a um dado destino. No meio teológico anglófono, como já expliquei, o termo está tradicionalmente associado à herança do Evangelho Social. Quando se fala em “progressista”, uma pessoa teologicamente informada, nos E.U.A., conseguirá fazer a ligação – assim como fará a ligação a uma perspectiva política na história nacional. No Brasil, entretanto, não há essa conexão. Assim, o termo se torna vazio ou até ofensivo. É bom lembrar, contudo, que o mesmo termo é também utilizado por um movimento dentro do Judaísmo desde o início do século XX, exatamente o mesmo momento no qual as teologias do Evangelho Social (no Cristianismo Protestante americano) e do Tikkun Olam (no Judaísmo Reformista) estão se difundindo em igrejas protestantes (unitaristas, universalistas, batistas, congregacionais, presbiterianos, luteranos, anglicanos e metodistas foram os grupos mais influenciados pelo Evangelho Social) e templos judaicos reformistas.

[E você, então, poderia me perguntar a razão de o endereço deste blog ser “cristianismoprogressista”; a razão é simples: em primeiro lugar, iniciei este blog ainda nos E.U.A., para um público de estudantes que falavam português e que frequentava a igreja da qual eu era ministro; em segundo lugar, não havia a disponibilidade do nome que eu queria. Acabei utilizando um título que eu mesmo não apreciava tanto.]

E aí vem a próxima correção que os apresentadores teriam ouvido de mim, se estivéssemos conversando: liberal e progressista não são a mesma coisa! Um protestante evangelical poderia se identificar, sem muito desconforto, como um progressista; mas, talvez, tivesse mais problemas para abraçar uma perspectiva teológica liberal. Mas, sim, é verdade que muitas das ideias abraçadas pelo Movimento Progressista são comuns também aos “liberais” – a mais importante delas, que eles aparentemente não entendem: a soteriologia universalista (isto é, a antiquíssima crença cristã de que Deus, de alguma forma, salvará a todos os seus filhos – ideia defendida por alguns dos Padres da Igreja, como Orígenes e Gregório de Nissa [e eu os cito aqui apenas para demonstrar quão antiga é essa visão dentre alguns cristãos; não se trata de uma invenção recente, de uma novidade!]).

Quando condena o Universalismo, um dos apresentadores diz que isso – isto é, a crença na soteriologia universalista (que ele, obviamente, desconhece) – está expresso nos “cinco pontos” do movimento (ele mais uma vez se equivoca: são oito pontos; os “cinco pontos” sobre os quais fala são apenas as características apontadas pelo Rev. Taussig, que já citei acima), e passa a ideia de que esta seja uma ideia nova. Falando sobre os 8 Pontos (lembre-se que, para ele, são 5), ele diz que “…o principal argumento deles: não tem limite de gênero, não tem ideologia de gênero” [sic]. Ora, a expressão “ideologia de gênero” não aparece no texto, e a noção de “ideologia de gênero” abarca coisas que ultrapassam o que diz o ponto 4, que é o que Taussig discute em seu texto, e que o apresentador cita como se fosse um dos “pontos” defendidos pelo movimento. Reproduzo o texto do “Ponto 4” abaixo:

4) Convidamos todas as pessoas a participarem em nossa comunidade e em nossa vida de adoração, sem insistir que elas se tornem como nós para serem aceitas, incluindo, mas não se limitando a:
* crentes e agnósticos;
* cristãos convencionais e céticos;
* mulheres e homens;
* aqueles de todas as orientações sexuais e identidades de gênero;
* aqueles de todas as raças e culturas;
* aqueles de todas as classes e habilidades;
* aqueles que esperam um mundo melhor e aqueles que perderam a esperança;


Teologicamente, mais uma vez, o que alimenta essa compreensão é a soteriologia universalista abraçada pelo movimento – o termo “soteriologia”, a propósito, é um termo teológico que se refere às doutrinas referentes à “salvação”. Assim, apesar de parecer apenas uma afirmação de ideologias de gênero, trata-se da afirmação duma compreensão teológica milenar entre alguns cristãos. Mas, novamente, quando se fala publicamente de certos temas sem se fazer uma pesquisa séria, é nisso que dá: afirma-se enganos que poderiam ser evitados se conhecessem um pouco mais de teologia e história protestantes.

A questão da relativização. Na realidade, escrevi recentemente sobre isso aqui, então tentarei ser breve. Um dos apresentadores diz que o maior questionamento contra os cristãos progressistas – questionamento que ele partilha – é “não interpretar a Bíblia da forma correta”!… Bem, alguém poderia escrever uma tese a respeito do que está por trás dessa frase. Você tem de perceber a partir de qual perspectivas falam os apresentadores do programa: aparentemente – o que é o caso também de minha leitora, a julgar pelo que me escreveu –, eles acreditam que a Bíblia e o Cristianismo sejam a mesma coisa, e acreditam nas teorias da “infalibilidade” e “inerrância” do texto bíblico. Eu – como a maioria dos protestantes herdeiros de tradições mais antigas do Protestantismo – não partilho nem nunca partilhei dessa ideia.

Essa equalização entre Bíblia e Cristianismo, ou vice versa – o que quer dizer, para quem acredita nisso, que só é cristão aquele que supostamente acredita em/faz absolutamente tudo o que as Escrituras ensinam (ou seja, trata-se da recusa em aplicar o pensamento crítico à Bíblia, ao menos declaradamente) –, e as teorias da “inerrância” e “infalibilidade” têm uma data de nascimento: a segunda e a terceira gerações dos reformadores, que criaram a teoria da inspiração plenária da Bíblia (isto é, que os textos bíblicos foram diretamente inspirados – “ditados” – por Deus).

Johann Quenstedt, um luterano, é o principal nome na origem dessa compreensão de inspiração plenária. Para ele, qualquer coisa presente nas Escrituras deveria ser entendida como verdadeira e inquestionável, fosse a respeito do que fosse. Não haveria espaço para metáforas, por exemplo – algo que a Igreja sempre levou em consideração. Também não haveria espaço para a compreensão ensinada por Martinho Lutero de que a Bíblia se tornava revelação de Deus no momento em que era pregada e ouvida; para Quenstedt, era o que estava escrito que importava.

Assim, essa visão de “inspiração plenária” ignora toda a diversidade de tradições hermenêuticas e exegéticas da Igreja, especialmente aquelas tradições antiquíssimas das escolas alexandrina e antioquina de exegese bíblica – que, respectivamente, fazia uma interpretação literal suplementada por um apelo à metáfora/alegoria, enquanto a outra interpretava a Bíblia com base no exame do contexto histórico das Escrituras. Não estou falando aqui duma novidade “pós-moderna”; essas tradições estavam ativas nos primeiros séculos da história cristã e, de certa forma, continuam vivas ainda hoje nas diferentes tradições cristãs. Mas, obviamente, quando alguém pensa que conhece a única resposta válida, e ignora as histórias e as teologias cristãs, nada disso é relevante!

Essa ideia de “inspiração plenária” retorna com maior força a partir da organização do Movimento Fundamentalista, no século XX, e é essa ideia que adentra o Evangelicalismo brasileiro. É por essa razão que, talvez, a maioria dos evangélicos brasileiros acredite/pregue isso. Suas comunidades de fé herdaram a teologia que emergiu no período de conflito entre liberais e fundamentalistas há cerca de um século atrás. Eles nunca conheceram outra visão. Para eles, isso é o Protestantismo.

Escrevo isso para demonstrar o quão mal fundamentada está a argumentação da “relativização”. Ela faz sentido apenas para quem sempre acreditou que houvesse apenas uma compreensão válida. Se esse fosse realmente o caso, então o próprio meio evangélico teria (ainda mais) sérios problemas: se só há uma interpretação válida, o que dizer sobre todos os outros evangélicos que compreendem as coisas de outra forma? Todos seriam “hereges” (ou sei lá que qualificativo utilizam)?… Pergunto isso porque batistas, presbiterianos, metodistas e assembleianos, por exemplo, não interpretam a Bíblia da mesma forma em todos os aspectos! Quem teria razão, então?… Essa variação de interpretação entre esses grupos, e no interior de cada um deles, é chamada de “relativização” (=contextualização)!… Mas já expliquei muito sobre isso nas duas últimas postagens neste blog, então penso não ser necessário acrescentar mais nada.

Contextualizando ou relativizando a posição dos apresentadores, eles dizem o que disseram no programa porque sua compreensão teológica baseia-se numa visão da Bíblia como sendo plenariamente inspirada e, consequentemente, inerrante e infalível. Ora, apenas uma minoria dos cristãos do mundo acredita nisso; e mesmo se formos nos referir apenas aos grupos protestantes, só aqueles que descendem de igrejas enraizadas na tradição teológica fundamentalista (o termo não é pejorativo – trata-se da tradição que se opunha aos liberais/modernistas/progressistas no início do século XX) ensina isso hoje no mundo (apesar de serem, provavelmente, a maioria no Brasil, por razões históricas específicas).

O que eu quero dizer é: você não pode realmente pensar que alguém que não acredite numa crença minoritária seja um herege! Cristãos liberais e cristãos progressistas tendem a reconhecer sua limitação humana, afirmando que “nós podemos estar errados, então é por isso mesmo que não julgaremos aqueles que não pensam como nós”. Mas os apresentadores do programa, aparentemente, não compartilham desse reconhecimento de suas próprias limitações humanas. Para eles, se você não acredita na inspiração plenária, na inerrância e na infalibilidade da Bíblia, então você é qualquer coisa, menos cristão!

Ah, mas como uma resposta ao que um deles disse, já próximo ao fim do programa: sim, ser tolerante é ser relativista! [Ele dizia o oposto disso.] O problema com o uso que fazem do verbo “relativizar” ou de termo “relativo” é que demonizam a noção de relativização, sem perceber que a relativização faz parte de absolutamente tudo o que fazemos na Igreja e na sociedade. Quando você tem de tomar uma decisão que entre em conflito com o que é habitual, por exemplo, você relativiza: tenho de estar na igreja na manhã de domingo, mas meu vizinho quebra a perna e me pede para levá-lo ao hospital – se eu for, ficarei lá até ele ser atendido –, o que faço? Vou à igreja e não socorro ao meu vizinho? Bem, o próprio Jesus, de acordo com as Escrituras, deu a resposta a isso: Marcos 3:1-6. O que ele faz ali, de acordo com o relato em Marcos, é relativizar um mandamento. Um exemplo que parece tolamente óbvio, mas é um exemplo de relativização nas próprias Escrituras. Quando somos tolerantes, até um certo nível, colocamos o “outro” numa posição maior do que o que pensamos sobre nossas próprias convicções; o que fazemos, então, é relativizar nossas crenças para que possamos construir um outro ambiente. Relativizar é criar uma relação com nossas próprias crenças – assim, você só pode ser tolerante se a tolerância tiver uma relação com sua visão de mundo; é isso que torna possível a tolerância, e é por isso que a tolerância é uma forma de relativização.

É nesse ponto que reside a importância da compreensão da relativização da verdade, sobre a qual eles se debruçaram tanto sem compreender a visão que temos. Quando eu, por exemplo, falo em “verdade relativa” não estou afirmando que não haja uma verdade absoluta. Para mim, há. O que eu não posso dizer, contudo, é que aquilo que entendo como verdade seja a mesma à qual outra pessoa chegará. E seria prepotência e orgulho dizer que eu conheço a verdade que todos devem abraçar – e, em minha fé, o orgulho é um pecado. Por isso falo sempre em “para mim”, “em minha opinião”, “em minha visão” etc. Essa é uma forma de relativizar a verdade – ou seja, afirmo que aquilo é verdade para mim, mas você é livre para acreditar em outra coisa. Tenho uma visão de Deus e de Jesus Cristo que são próprias de minha tradição unitarista. Os argumentos para minha crença se baseiam, em parte, nas Escrituras. Aquela visão é verdade para mim. Um católico romano que segue a doutrina oficial de sua comunhão, contudo, tem uma outra compreensão teontológica e cristológica. Ele é um cristão. Sua crença é majoritária. Não posso esperar que ele deva acreditar no que acredito, ou não será um cristão. O que acredito sobre Deus me faz pensar que Deus está além de nossa compreensão humana finita. Os autores da Bíblia, por exemplo, mesmo inspirados, utilizaram uma língua humana finita. Eu sou um humano finito. Meu vizinho católico também. E aí, o que faço para lidar com isso? Não se pode esperar que eu mude minha crença para ser aceitável ao meu vizinho. Também não posso esperar que ele mude para que eu o aceite… É aí que entra o papel da relativização na convivência humana: a relativização e a tolerância se entrelaçarão, e ele e eu poderemos viver nossa fé em respeito um ao outro. O que eu acredito ser a verdade ainda será, e vice versa. É isso que significa “relativizar a verdade”, no que tange à nossa relação com outras pessoas: não é abandonar nossa verdade, é apenas lembrar que outras pessoas também têm o direito a entender a verdade de sua fé da forma como acharem melhor.

A questão da Filosofia. Num certo momento, um dos apresentadores, falando sobre a suposta influência do “liberalismo teológico” no Cristianismo Progressista, diz que a teologia liberal “relativiza a autoridade da Bíblia, né?, aquilo que a gente já sabe sobre o liberalismo teológico, né?, que mescla filosofia, consciência e religião...” – fazendo seu comentário, obviamente, num tom pejorativo (expressando o característico anti-intelectualismo do evangelicalismo dominante no Brasil, que torna “filosofia” um palavrão), e seguindo os estereótipos típicos construídos por alguns apologistas do meio evangelical brasileiro.

A “psicologia de fila de banco” [a expressão irônica, a propósito, é minha, não deles] – que se relaciona ainda à questão da filosofia – utilizada para explicar a razão porque cristãos abraçariam visões “progressistas” é ridícula. Eu, por exemplo, não sou um liberal e progressista porque me cansei de “legalismo” na Igreja ou porque queira licença para pecar. Minha posição teológica não é de reação. Eu estou enraizado numa tradição teológica que ensina essa visão. Foi essa a visão que aprendi na Igreja, no seminário, em casa e em minha vida cristã. O Cristianismo não é, para mim (como afirmou um dos apresentadores a meu respeito, num característico tom anti-intelectualista) apenas “uma filosofia” – ele é, sim, uma “filosofia”, se com o termo nos referirmos a uma “visão de mundo”: minha relação com o Divino, minha visão religiosa de mundo, meu imaginário religioso, minha linguagem religiosa se assentam no Cristianismo, logo, o Cristianismo é minha “filosofia” de vida. O Cristianismo é minha fé. Novamente, o problema parece ser que compreendemos a noção de “fé” de formas bem distintas. A fé não é uma crença morta; é uma esperança que produz frutos, como bem explicita Tiago 2:14-26. Mas eles, como supostos conhecedores dos textos bíblicos, já devem saber o que uma outra passagem bíblica diz sobre esses frutos, Gálatas 5:22. [A propósito, é bom contextualizar o que escrevi, e que ele cita de forma seletiva que pode desvirtuar o sentido de meu texto; então, leia minha declaração completa, publicado aqui em 12 de maio de 2009 – ela é o trecho de um livro que publiquei em 2003, nos Estados Unidos: O MEU CRISTIANISMO.]

O que uma pessoa informada poderia perguntar a ele, contudo, é se ele realmente pensa que ele mesmo não mescle “filosofia” (=uma visão de mundo) e “consciência”(=razão) em suas visões teológicas(?). Como tratei disso longamente nas duas últimas publicações neste blog, não responderei a esta questão aqui. Mas posso encontrar a gênese do que ele disse em sua visão da natureza e papel da Bíblia no Cristianismo, que já discuti brevemente anteriormente.

Sexualidade. O tema é enfatizado no podcast – novamente, uma característica do Evangelicalismo majoritário brasileiro, isto é, a ênfase em “moralidade sexual” –, mas eu, a não ser que seja uma discussão inteligível sobre o tema, não discuto isso aqui. Logo, não farei comentários sobre o que disseram, a não ser este: querer comparar a aceitação do relacionamento entre duas pessoas do mesmo sexo por um cristão à aceitação do aborto ou do incesto é, no mínimo, de uma desonestidade intelectual incrível!… Por essa e por outras, não perderei meu tempo comentando teologicamente os argumentos que ouvi!

Jesus. Não consigo levar à sério os comentários que fizeram sobre o que os “cristãos progressistas” acreditariam acerca de Jesus. Isso só mostra o quanto leram pouco antes de tratarem o tema em seu programa. A raiz do que disseram encontra-se, como já disse antes, em sua visão da natureza e papel da Bíblia, mas também em sua compreensão de como a teologia protestante tem sido historicamente construída. Falta em seus argumentos, ademais, uma familiarização com a história tanto da teologia cristã quanto da Igreja – sem falar, obviamente, no desconhecimento dos pensamentos teológicos presentes no movimento que tratam em seu programa.

Cristianismo light?... Pensar que viver a fé que cristãos liberais e/ou progressistas comprometidos vivem em suas vidas diárias é light é tolice, já que não considera que nossas diferentes tradições exigem um “processo de conversão contínuo”. No meu caso específico, como um unitarista, mente, coração e ações, metaforicamente falando, se unem no trabalho de compreender a Deus e a lidar com o meu “próximo” aqui e agora. Isso significa pautar minhas ações por uma convicção de que aquilo que faço é – na melhor compreensão que posso ter do que seja verdadeiro e de qual seja a vontade de Deus – certo (sim, porque diferentemente do que se pode pensar, para nós há “certo” e “errado”, nossa fé não é um “vale tudo”). Um dos apresentadores faz um comentário muito certo quando diz que ser cristão é um processo que se estende ao longo da vida – isso é, inclusive, algo que já escrevi aqui muitas vezes. Minha tradição me ensina que “mudar de ideia” é aceitável e natural.

Autoridade. Quando falam sobre autoridade, referem-se, primeiramente ao contexto católico – citando Leonardo Boff –, para discutir o contexto protestante, falando sobre o questionamento da autoridade de líderes eclesiásticos. O que eles, aparentemente, ignoram é que nem todas as tradições protestantes abraçam essa visão de autoridade que eles abraçam. É só lembrarmo-nos dos quakers [ou quacres], por exemplo, para quem o indivíduo é o eixo da autoridade – o cristão se relaciona com Deus por meio da influência direta do Espírito ao seu coração/mente (sem precisar de intermediários, como pastores, sacerdotes etc). Ou, lembrarmo-nos, como exemplo, do movimento batista anglófono não ligado à tradição do sul dos E.U.A. – sim, porque essa tradição tem uma compreensão de autoridade diferente –, a autoridade se centra na consciência do indivíduo (a razão), enquanto recipiente do Espírito Santo em sua leitura das Escrituras. Nas tradições anglicana/episcopal, unitarista, universalista, metodista e congregacional, o indivíduo, mais uma vez, é o eixo dessa autoridade – não seu líder eclesiástico. Então, falar no questionamento da autoridade como se isso fosse uma violação da Bíblia ou da fé cristã é desconhecer a multiplicidade no meio protestante!

A questão do “joio e do trigo”. Isso tem a ver, mais uma vez, com a perspectiva teológica que se abrace. Para os apresentadores do programa, a resposta está em sua visão da Bíblia e seu não reconhecimento de que essa sua visão emerge de uma série de outras “visões de mundo”, concernentes tanto à própria teologia quanto ao dito mundo secular. Assim, eles já sabem que é o “joio” e quem é o “trigo”: o “joio” será sempre aquele que pensa de forma que conflitue com o que eles mesmos acreditam ser a verdade – algo que, de certa forma e infelizmente, é comum a todos nós.

O belicismo ideológico. Sim, é verdade que há muitas pessoas que falam em respeito e tolerância, mas que, na vida real, esperam que todas as pessoas e grupos pensem exatamente como eles. Nos meios ditos “progressistas” e “liberais” protestantes isso acontece. Mas é importante notar que isso não é o que se prega. A generalização de que todos nós – e quando falo em “nós” me refiro apenas àquelas igrejas locais ou indivíduos que estejam, de alguma forma, relacionados ao TCPC, não me refiro a outras coisas que aconteçam entre protestantes brasileiros e que desconheço – sejamos militantes que desrespeitam a fé de outros cristãos é uma acusação inverídica e soa muito mais à mentalidade da vitimização.

Eu, por exemplo, enquanto a sociedade atacava o citado Silas Malafaia por suas posições contrárias à homossexualidade, escrevi aqui mesmo em defesa de seu direito de acreditar no que acreditava e de pregar o que pregava. Deixei claro que discordava de suas posições, mas que não podia acusá-lo de “homofóbico” apenas porque discordava de minha posição. Não fiz isso porque sou bonzinho e perfeito. Fiz porque é isso que minha tradição de fé ensina e o que ensino àqueles a quem ministro – como também o fiz porque a liberdade de opinião e expressão é o cerne de minha tradição política. Aprendi, desde criança, em casa e na Igreja, que não posso ter liberdade de opinião e expressão se outras pessoas não o tiverem. Eu continuo a defender isso, tanto publicamente quanto em minhas atitudes pessoais, seja como cristão ou cidadão. Então, a generalização feita por um dos apresentadores, de que os cristãos progressistas” ou “liberais” não sejam tolerantes para com os cristãos “conservadores”, e de que haja uma perseguição de nossa parte àqueles, não corresponde à realidade – especialmente porque na maioria das igrejas às quais estamos ligados, seja como fiéis ou como Ministros, convivemos com os dois grupos.

Falta apenas mencionar a falta de compreensão que os apresentadores têm sobre o que seja a tradição liberal protestante (estou falando “liberal” agora, e não “progressista”) – que não tem absolutamente nada a ver com as descrições que fizeram. Essa antipatia para com a tradição liberal e a má vontade em compreendê-la tem muito mais a ver com a história das igrejas presbiterianas e batistas em meados do século XX, no Brasil, do que com qualquer outra coisa (refletindo o conflito entre liberais e fundamentalistas nos E.U.A.). E essa herança se estendeu a todo o meio protestante brasileiro até hoje. Mas isso mereceria uma discussão à parte.

Para finalizar, respeitosamente, posso usar as palavras de um dos apresentadores, que podem servir como conselho para seus ouvintes no que tange ao que eles próprios disseram em muitos pontos de seu podcast:

Toda generalização é burra. Toda. Sem exceção!

Paz a todos!

+Rev. Gibson da Costa

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Para "ler" as Escrituras Sagradas - parte 2


[continuação]

Seria essa projeção de nós mesmos sobre o texto que lemos algo negativo em si?… Não necessariamente; e isso porque, de certa forma, é inevitável. Mesmo quando lemos um texto com um imenso cuidado analítico, tentando fazer uma leitura que contextualize-o histórica e linguisticamente – ou seja, mobilizando amplos conhecimentos hermenêuticos em nossa atividade exegética –, estaremos “nos projetando” sobre o texto.

Dizer isso pode soar como um ataque às crenças de alguns, mas essa compreensão é importante para que possamos reconhecer nossa limitação e para que sejamos capazes de fazer autocríticas. Ademais, também é importante para que possamos conviver com a diferença.

Isso me faz pensar no crescente discurso/comportamento chamado de “islamofobia” em certos meios cristãos. Esse discurso/comportamento se faz presente nas redes sociais, por exemplo, quando pessoas partilham – de forma pouco informada – mensagens que pedem o fim da suposta “islamização” do Ocidente. [Enveredando por um caminho que lembra o discurso antissemita anterior ao período nazista na Europa.]

O que essas pessoas não levam em consideração é que sua percepção do Islã baseia-se numa série de fatores que não dizem respeito ao Islã propriamente – até porque muitas delas pouco sabem sobre a religião.

Quando, por exemplo, veem alguém que se vista da forma como pensam que muçulmanos se vestiriam, especialmente quando se trata de mulheres, o que algumas dessas pessoas podem enxergar é uma ameaça ao seu “modo de vida”. Para elas, ser muçulmano tornou-se, equivocadamente, sinônimo de violência, terrorismo, opressão, intolerância etc.

A informação que recebem, quase todos os dias, da televisão, dos jornais, dos filmes, da internet – e que acaba sendo também refletida, muitas vezes, nos sermões de líderes eclesiásticos – é que o Islã é uma ameaça a todos. E essa informação – juntamente com toda a visão de mundo que essas pessoas já abraçam – será projetada em sua leitura do Islã e dos muçulmanos e, se ela for uma daquelas raras pessoas que já leram uma tradução do Corão, em sua leitura do texto mais sagrado para os muçulmanos (sim, porque a Bíblia também é sagrada no Islã).

Elas encontram passagens violentas no Corão e, prontamente, apontam-nas como evidência de que o Islã seja uma religião violenta. Contudo, não leem as centenas e centenas de outras passagens que falam em amor, tolerância e cuidado. Não percebem as passagens violentas de sua própria Bíblia. Da mesma forma, não se dão ao trabalho de perceber a diversidade de expressões do Islã – isto é, não percebem que há muitas tradições islâmicas, não apenas uma; da mesma forma como há muitos cristianismos, e não apenas um.

Citei acima o exemplo do Islã, mas poderia ter usado qualquer outra comunidade de fé como exemplo. A ideia de projeção de nossos (pre)conceitos sobre nossa leitura daqueles que nos cercam é semelhante àquela que se processa quando lemos nossos textos sagrados.

Duma certa forma, por mais que isso soe perturbador para alguns, quando lemos as Escrituras nos engajamos numa atividade de construção do Divino à nossa imagem e semelhança. Deus é, sim, uma Realidade; mas quando racionalizamos essa Realidade – isto é, quando “lemos” essa Realidade em nossos textos sagrados –, a moldamos de acordo com nossa própria visão de mundo, através da visão de terceiros que escreveram aquelas palavras e de outros que decidiram que aquelas palavras deveriam ser tomadas como sagradas, através de outros que ensinam sobre aquelas palavras, etc…

Ou seja, a leitura é sempre um entrelaçamento que evidencia que não estamos sozinhos. Para mim, como cristão, estão lá o texto sagrado, fonte primária da doutrina cristã (a Escritura); a forma como aquele texto tem sido compreendido na história da Igreja (a Tradição); a minha compreensão de fé por meio de minha própria vida, meu próprio lugar no mundo (a Experiência); e a maneira como minha consciência discernirá essa experiência de leitura (Razão).

A leitura, assim, é sempre um engajamento com o passado e o presente, com o sentido e o vivido, com o profano e o sagrado, com o humano e o divino. Nunca lemos “solitariamente”.

Que possamos, todos nós, estar mais conscientes e atentos à forma como lemos não apenas nossos textos sagrados como também ao mundo ao nosso reder.

+Gibson