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sábado, 17 de outubro de 2015

Minicurso “O Fim Está Chegando: Dois Milênios de Mitos Escatológicos” – respondendo às provocações que encerraram o minicurso

Esta semana, facilitei um minicurso, no IRWEC, chamado “O Fim Está Chegando: Dois Milênios de Mitos Escatológicos”. Como contamos com a presença de membros de outras instituições teológicas ou outras comunidades de fé, os debates foram acirrados e gratificantes. Para mim, como facilitador e autor daquele minicurso, aquela foi uma excelente oportunidade para discutir aquelas ideias com alunos, participantes e leitores, mesmo que com a aparente limitação de tempo (vinte horas distribuídas ao longo de cinco dias) para a abordagem dum tema tão importante à maioria dos cristãos.

Agradeço a todas e todos pelas provocações, questionamentos e ampla contribuição. Abaixo, responderei, como prometido, àquelas provocações às quais não pude responder, ontem, por falta de tempo.

Sou um cristão liberal. Minhas tradições e comunidades de fé me ensinaram a questionar, a duvidar, a buscar. Não a temer. O questionamento, em minha experiência, não destrói a fé. Muito pelo contrário. O questionamento a fortalece sobre bases sólidas, capazes de enfrentar a experiência da vida adulta.

Creio ser uma infantilização da fé – perdoem-me a linguagem – encará-la como algo que deva ser “defendida”, “protegida”, etc, quanto à sua relação com a cultura contemporânea. Esse tipo de asserção ao mesmo tempo personifica e coisifica a fé. Eu, pessoalmente, rejeito essa atitude. A fé, para mim, é a língua que utilizo e reconheço para articular minha compreensão do Mistério, para participar do diálogo espiritual do qual todos – mesmos os formalmente descrentes – participamos neste mundo. A fé, como as línguas que falamos, possui uma gramática própria, um vocabulário característico, uma melodia poética. Ademais, cada um de seus “falantes” possui seu próprio idioleto.

Obviamente, a comparação é metafórica, mas a metáfora se reveste de verdade para minha experiência humana.

Se alguns veem a “religião” – que chamo de “fé” – como uma “[re]ligação” com o Divino, eu a vejo como a língua através da qual articulamos a compreensão do e nossa relação com esse Divino. E essa língua independe duma ligação formal com uma “comunidade de fé” específica, por exemplo. Da mesma forma como ocorre com falantes de línguas minoritárias em países onde essas línguas não são oficiais ou não são faladas pela maioria.

Em minha relação com a Dimensão Misteriosa – que chamo de Deus –, “falo”, além da “língua” oficial ou majoritária da minha comunidade de fé, meu próprio idioleto espiritual, que pode ser estranho a outros membros daquela comunidade. E creio que isso ocorra com todos nós.

E já que tratamos de Teologia Histórica, é importante enfatizar que aquela atitude – o da “defesa da fé”, nos termos que foram levantados por um dos participantes – tem uma origem histórica específica no pensamento teológico ocidental: a Reforma Protestante. É a partir das diferenças que emergem na Reforma entre os variados grupos “protestantes”, e entre esses e os católicos romanos, que a “fé” passa a ser sinônimo, quase que exclusivo, de “crença”. Ela deixa de ser uma ação divina na alma humana e passa a ser uma ação intelectual do próprio homem. Ter fé, a partir de então, é acreditar na doutrina certa – e, obviamente, o que é “certo” (ortodoxo) para alguns, será “errado” (herético) para outros. Com isso, obviamente, não estou querendo dizer que as noções de “ortodoxia” e “heresia” só passaram a existir a partir da Reforma; o que estou afirmando é que a noção de “fé”, no Cristianismo ocidental, foi reduzida e determinada por aquelas duas outras noções!… É por isso que ouço, por exemplo, pessoas me chamando de “descrente”, “ateu” etc, por não compartilhar de suas compreensões. Como não acredito no que elas acreditam, então – para essas pessoas –, não tenho fé alguma, estou longe de Deus! [Não foi exatamente isso que foi dito pelo participante que me questionou?!]

[O questionamento, a propósito, não me ofendeu por inúmeras razões. A primeira delas é o simples fato de eu acreditar plenamente que o questionamento seja essencial ao aprendizado e que esse só é possível num ambiente de liberdade intelectual – como quero acreditar que tenha sido o nosso ao longo do minicurso. A segunda é o também simples fato de eu saber exatamente a origem daquela dúvida – conhecendo o background do questionador, ficou fácil entender a raison d'être de sua questão, e que eu tinha de respondê-la a partir de sua perspectiva (isto é, colocar-me em seu lugar). Então, por mais que ele pudesse ter sido menos agressivo em suas colocações, entendo suas razões, e por isso não me sinto ofendido!]

O grande problema em se definir a fé como “assensus” – isto é, como “crença” – é o de lidar com o tipo de conhecimento que nos estão disponíveis hoje em dia. Um exemplo: um cristão, do século XXI, lê os relatos da Criação no Gênesis – sim, porque não há apenas um, há dois relatos distintos da Criação (a mais antiga começa em Gênesis 2:4 e se estende até o fim do capítulo 3; a segunda narrativa aparece entre Gênesis 1:1 – 2:3) – e percebe que há um grande “conflito” entre aqueles relatos e o que sabemos sobre a origem de nosso Universo e da vida aqui. O que faz?… Bem, se ele acredita que a Bíblia seja um escrito divino em sua origem, no qual não há erros, sua única opção – de acordo com os que ensinam essa perspectiva – será rejeitar o que a ciência ensina. Ou, como alternativa, poderá abandonar sua “fé”. Mas, novamente, esse é um caso extremo em dois aspectos: sua compreensão do conceito de “fé” é exclusivista; assim como também o é sua compreensão do conceito de “ciência”.

O mais interessante é que isso é defendido não apenas por pessoas religiosas. Muitos “cientistas” também abraçam uma visão exclusivista tanto da fé quanto da ciência! [Correndo o risco de fazer certas asserções equivocadas acerca da fé religiosa como as feitas por Christopher Hitchens num famoso livro seu, “God is not great”.]

Pessoalmente, não penso que haja contradição entre fé e ciência, pela simples razão de as duas lidarem com distintas dimensões da realidade. Deus, espírito, etc, são conceitos que utilizamos para lidar com a dimensão Misteriosa de nossa realidade. Os terremotos, a evolução, os tsunamis, as doenças, etc, são todos temas que dizem respeito à dimensão objetiva de nossa realidade. E há aqueles temas que se dividem entre os dois: o nosso tema de estudo no minicurso a Escatologia – é um exemplo disso.

Preocupações escatológicas, a propósito, não se restringem apenas a tradições religiosas judaicas, cristãs e islâmicas, já que também adentraram, até certo ponto, as filosofias políticas que emergiram entre judeus, cristãos e muçulmanos (Marx e Engels sendo, para alguns, um exemplo disso no Ocidente judaico-cristão; Sayyid Qutb, um exemplo dentre os pensadores muçulmanos); e, se entendermos essa preocupação escatológica de forma mais ampla, ela também se faz presente, de alguma forma, na narrativa cosmológica da ciência contemporânea (por exemplo, na ideia de que vivemos num Universo em evolução, um Universo com uma seta quântica de tempo, cuja direção lhe é transmitida pela assimetria temporal advinda da segunda lei da termodinâmica).

Quanto às questões específicas referentes às Escatologias judaicas e islâmicas, elas foram discutidas em nosso segundo encontro, e estão no material que disponibilizei para vocês. Assim, esclarecerei apenas o ponto sobre o chamado “Mahdismo” islâmico do século XIX – o termo “Messianismo” não é apropriado para nos referirmos a esse movimento no Islã. Um “mahdi” seria alguém divinamente escolhido para livrar uma comunidade do perigo. No século XIX, em decorrência da experiência do imperialismo europeu, muitos “mahdis” surgiram nos países de maioria muçulmana, especialmente na África. Esse movimento, obviamente, criou uma tensão com as formas mais “ortodoxas” de Islã. E isso mantém certas semelhanças com o que ocorreu no próprio Cristianismo, com seus movimentos “proféticos” (o Profetismo)… Mas já discutimos isso, logo não necessito tratar disso aqui novamente.

Para concluir, apesar de ser limitado tratar do desenvolvimento de compreensões escatológicas sem se levar em consideração o contexto sociocultural do lugar onde emergiram, é ainda muito mais limitado pensar que crenças religiosas sejam determinadas pelos contextos políticos ou econômicos nas quais surgiram. Essas crenças – parte da dimensão conceitual envolvem elementos daquela dimensão misteriosa à qual fiz menção, que não se justificariam apenas pela política ou economia. A abordagem interpretativa que abraço envolve as três “dimensões”: a objetiva, a misteriosa e a conceitual – ou seja, do encontro de nossa experiência com a dimensão objetiva com a dimensão misteriosa, participamos na construção da dimensão conceitual (que consiste em muito mais que apenas crença). Assim, a fé (a dimensão conceitual), em minha compreensão, é um processo de relações entre nossa experiência com o mundo, com outras pessoas, conosco mesmos, e desses com o “Mistério”; dessas relações emerge nossa compreensão – nossos conceitos.

Bem, é isso!… Quaisquer comentários, críticas ou dúvidas, é só me escrever.

Grande abraço a todas e todos!

+Gibson

domingo, 27 de setembro de 2015

Religião e Política: Mais uma vez, a incoerência do tal "Estatuto da Família"


Na direção contrária de líderes eclesiásticos protestantes de séculos e décadas passadas – que labutaram pela separação entre Igreja e Estado, pelo fim da escravidão, pelo tratamento digno dos mais pobres, pela igualdade jurídica das mulheres, pela igualdade plena de direitos de grupos sociais minoritários, pela proteção ao meio ambiente, pela construção da paz, etc etc etc –, muitos dos líderes eclesiásticos protestantes ou evangélicos (os dois adjetivos não são necessariamente sinônimos, já que o Evangelicalismo é apenas um movimento dentro do Protestantismo) atuantes no Poder Legislativo brasileiro preferem o caminho da segregação de direitos, por meio da imposição duma visão teológica incoerente. É um grande testemunho contrário àqueles exemplos de mulheres e homens do presente e dum passado nem tão longe assim. Uma vergonha!

Isso me faz pensar em meus irmãos protestantes ou evangélicos no Paquistão, que sofrem uma assombrosa perseguição, e cujos líderes pregam, em retorno, a compaixão, o perdão e o serviço àqueles que os perseguem. No Brasil, um país de relativa liberdade religiosa, os “vingadores de Cristo” (como os identificou um daqueles pregadores de TV) preferem retirar direitos de cidadãos em nome duma obsessão com a dita comunidade LGBT – sim, porque, como já escrevi antes, a raison d'être do “Estatuto da Família” é a guerra antigay, baseada numa moral sexual particular, levada adiante pelas bancadas religiosas no Legislativo brasileiro. Uma vergonha!

+Gibson

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Deus, Cristianismo, Inferno, Homossexualidade: Uma breve resposta a múltiplas provocações das últimas semanas



Infelizmente, por razões pessoais, tenho tido pouco tempo para responder à maioria das mensagens das últimas semanas. Por essa razão, responderei aqui, de forma breve e conjunta, a algumas das “provocações” de meus correspondentes. Assim que tiver tempo, oferecerei uma resta mais ampla. Perdoem-me pela brevidade.





Deus e Cristianismo



Como um cristão, encontro minha “janela” ou meu “caminho” para Deus na tradição cristã (na comunidade da Igreja, nas Escrituras, na Liturgia, na narrativa cristã, etc). Mas o Cristianismo é a resposta humana à Realidade que chamamos “Deus”, e não o contrário. Eu sou cristão, mas isso não significa que Deus seja cristão!





O Inferno



Não acredito na existência dum lugar objetivo para onde espíritos sejam enviados como condenação por seus pecados. O “inferno”, em minha visão, é uma metáfora para um estado espiritual/mental de alguém. Não se trata dum espaço geográfico no Universo. A crença na existência dum “inferno” físico contradiz minha compreensão acerca do Divino e da natureza do Universo.





Igreja e Homossexualidade



Tenho uma filosofia muito simples para resolver essa questão de compatibilidade: qualquer comunidade de fé é uma sociedade humana, com suas tradições e regras. Se você quiser fazer parte dessa sociedade, terá de se submeter às suas regras. Caso contrário, pode não ser membro de qualquer uma, pode buscar uma outra sociedade ou, quem sabe?, fundar sua própria.



Se uma determinada comunidade de fé ensina que isso ou aquilo é pecaminoso e que a punição pela "desobediência" às regras seja sua exclusão, você tem a escolha de se submeter às regras da mesma ou não – mas não terá poder para escolher as consequências por suas escolhas, no que tange à comunidade em si. Lembre-se que a filiação religiosa é uma associação voluntária, ou seja, ser membro duma comunidade de fé é voluntariamente se submeter às suas regras. Você não pode esperar que uma comunidade mude em função de você se isso contraria à compreensão que ela tem de si mesma. Mas você, por outro lado, pode encontrar uma outra comunidade!... Fazer esse tipo de escolha pode ser complicado e doloroso, mas é uma escolha justa para com os demais membros duma comunidade que não o aceite e íntegra consigo mesmo!





Ainda sobre Homossexualidade



Para mim, as pessoas são “humanas” (e tudo o que isso implica no contexto teológico e sociocultural) antes de serem qualquer outra coisa. As identidades que ou abraçamos ou nos são impostas – sejam as identidades nacionais, religiosas, políticas, ou emotivo-sexuais – são apenas partes dum todo muito maior. Nós somos muito mais do que essas partes separadas – e mais do que sua soma. Assim, tratar de si próprio ou de outra pessoa como se sua orientação emotivo-sexual fosse sua “essência” é negar a si próprio ou a outrem sua humanidade – que, na perspectiva teológica que abraço equivaleria a negar nossa origem na “dança divina” da Criação.





+Gibson

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Fé ou preconceito?: uma resposta a Ana


Ó homem, já foi explicado o que é bom e o que o Senhor exige de você: praticar o que é justo, amar a misericórdia, caminhar humildemente com o seu Deus.
(Miqueias 6:8)

Religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso Pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em aflição, e manter-se livre da corrupção do mundo.
(Tiago 1:27)

[…] Tratai com benevolência os vossos pais e parentes, os órfãos, os necessitados, o vizinho próximo, o vizinho estranho, o companheiro de lado, o viajante e os vossos servos, porque Deus não estima arrogante e pretensioso algum.
(Alcorão 4:36)

Cara Ana,

É importante que você perceba que nunca escrevi que não há “verdade”. Muito pelo contrário. Se você ler cuidadosamente o que tenho publicado aqui mesmo, neste blogue, perceberá que apenas enfatizo uma diferença epistemológica entre “verdade” e “factualidade”. Nem toda “verdade” é factualmente/objetivamente verificável: assim, por exemplo, o amor é uma “verdade”, apesar de não ser uma “factualidade” (porque não pode ser mensurado em si). Esse ponto é importantíssimo quando discuto temas concernentes à eticidade. Tendo dito isso, deixe-me responder às suas provocações.

Não. Não acredito que todas as religiões sejam igualmente “verdadeiras” (lembre-se da distinção que faço entre “verdade” e “factualidade”). Há muitas semelhanças entre diferentes tradições de fé, mas há, também, incontáveis diferenças – que podem ser, dependendo das tradições teológicas em questão, irreconciliáveis. Assim, para mim, há certos conceitos/doutrinas e práticas religiosos que não posso aceitar como “verdadeiros” ou “certos”, pois violam princípios teológicos que moldam minha compreensão do sagrado e/ou da “realidade” factual. [Todos esses termos podem parecer apenas um “emaranhado de palavras” para que eu pareça “mais inteligente do que realmente” sou – suas palavras –, mas eu as utilizo para evitar a armadilha da falsa objetivação do que não pode ser mensurado. E o público ao qual destino estas páginas é capaz de compreender os usos que faço.]

Baseada apenas numa lista de links e em uma única postagem aqui, você escreve que devo ser “um muçulmano disfarçado de cristão”. Essa é uma acusação que, no mínimo, segue em direção oposta ao que geralmente sou acusado. A maioria de meus denunciadores me acusam de ser um “ateu” ou “anticristo” disfarçado de cristão! [É bem verdade que já fui acusado de ser um “católico disfarçado de protestante”; “judeu disfarçado de cristão”; “comunista disfarçado de liberal”; etc, etc, etc. Mas, com sua acusação, atinjo um nível recorde de “disfarces”!]

Para esclarecer sua dúvida – ou seria “para desmentir sua certeza”?! –, sou um cristão liberal, com background judaico. Com tal perfil religioso, tenho muito em comum com alguns muçulmanos – com nossa preocupação em viver nossa fé, e não apenas proclamá-la com nossas bocas. Tenho muitos amigos muçulmanos. Já vivi num país de maioria muçulmana. E, em decorrência de minha formação cultural/acadêmica e minha experiência de vida, posso dizer que conheço o Islã razoavelmente bem. Por isso, sei distinguir o que é abraçado pela maioria do que é compreensão minoritária. Esse é um tipo de conhecimento, aliás, disponível a toda pessoa de boa vontade – só é necessário dar um passo para fora da bolha cultural na qual, muitas vezes, as pessoas se escondem e se separam do resto da humanidade. Posso ser fiel à minha própria fé religiosa e à minha própria visão de mundo sem ser desonesto quanto à fé e compreensão alheias – sem erroneamente atribuir-lhes certas compreensões, simplesmente para engrandecer minhas próprias.

Se há terroristas que se apresentam como muçulmanos – e que você, equivocadamente, vê como “representantes autorizados” do Islã –, também há terroristas, assassinos, ladrões, corruptos e corruptores que se apresenta(ra)m como cristãos ou judeus. E, nem por isso, você me escreve dizendo que todos os cristãos ou judeus são terroristas, assassinos, ladrões, corruptos, corruptores etc! Isso não lhe diz nada sobre sua própria visão de mundo? [...ou, ao menos, a visão de mundo que você exibiu em sua provocação?!…] A julgar pela forma como a maioria dos muçulmanos que conheci ou conheço se comportam e vivem suas vidas, tenho certeza que é sua visão de mundo que está equivocada.

Paz!
+Gibson

sábado, 5 de setembro de 2015

As Escrituras e a Declaração Universal dos Direitos Humanos já dizem o que acredito sobre aqueles(as) que buscam refúgio


Não escreverei mais nada sobre a situação de nossos irmãos e irmãs em busca de refúgio nas diferentes partes do mundo. Prefiro que as Escrituras e a Declaração Universal dos Direitos Humanos falem por mim:

"Se um estrangeiro vier habitar convosco na vossa terra, não o oprimireis, mas esteja ele entre vós como um compatriota, e tu o amarás como a ti mesmo, porque fostes já estrangeiros no Egito. Eu sou o Senhor, vosso Deus." (Levíticos 19:33-34)

"Quando o Filho do Homem voltar na sua glória e todos os anjos com ele, sentar-se-á no seu trono glorioso. Todas as nações se reunirão diante dele e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. Colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. Então o Rei dirá aos que estão à direita: - Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo, porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim. Perguntar-lhe-ão os justos: - Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos peregrino e te acolhemos, nu e te vestimos? Quando foi que te vimos enfermo ou na prisão e te fomos visitar? Responderá o Rei: - Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes." (Mateus 25:31-40)

"Jesus então contou: Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos de ladrões, que o despojaram; e depois de o terem maltratado com muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o meio morto. Por acaso desceu pelo mesmo caminho um sacerdote, viu-o e passou adiante. Igualmente um levita, chegando àquele lugar, viu-o e passou também adiante. Mas um samaritano que viajava, chegando àquele lugar, viu-o e moveu-se de compaixão. Aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; colocou-o sobre a sua própria montaria e levou-o a uma hospedaria e tratou dele. No dia seguinte, tirou dois denários e deu-os ao hospedeiro, dizendo-lhe: Trata dele e, quanto gastares a mais, na volta to pagarei. Qual destes três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões? Respondeu o doutor: Aquele que usou de misericórdia para com ele. Então Jesus lhe disse: Vai, e faze tu o mesmo." (Lucas 10:30-37)

"Artigo 13
I) Todo homem tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado.
II) Todo o homem tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio, e a este regressar.

Artigo 14
I) Todo o homem, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países.
II) Este direito não pode ser invocado em casos de perseguição legitimamente motivada por crimes de direito comum ou por atos contrários aos objetivos e princípios das Nações Unidas." (Declaração Universal dos Direitos Humanos)

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Aos “conservadores” políticos e religiosos que insistem em bater sempre na mesma tecla quando me escrevem


Se você pensa que me preocupo com imigrantes, com pessoas mais pobres do que eu, que defendo os direitos civis, levo questões ambientais a sério, sou a favor do controle de armas, renuncio à violência, etc, simplesmente porque seja de determinada persuasão política é porque você não conhece minha fé... Então, se quer realmente apontar um culpado por minha visão de mundo, a culpa é, em grande parte, de minha tradição religiosa, que afirma que Jesus ensinou em suas palavras e ações que só se pode amar a Deus quando se ama ao próximo – e o amor tem de ser demonstrado no cuidado com os seres humanos e com o todo da Criação!

+Gibson


terça-feira, 25 de agosto de 2015

Teologia Liberal ou Ideologia Socialista?


A julgar por algumas mensagens que tenho recebido ultimamente, imagino que algumas pessoas confundam minhas posições teológicas com posições políticas que, pessoalmente, não abraço. Muitos tendem a confundir, por exemplo, a defesa duma teologia “liberal” ou “progressista” como sinônimo da defesa de visões políticas “socialistas” ou “marxistas” de minha parte. Este texto é um esclarecimento pessoal a respeito disso.

Em primeiro lugar, é bom que eu deixe claro, mais uma vez, que sou contrário à mistura de Igreja e Estado – isso, na verdade, é um dogma para mim, no que concerne à vida numa República. Isso significa, inclusive, que sou contrário à utilização do púlpito e das instituições eclesiásticas para a promoção de candidatos a cargos eletivos e de partidos políticos. Levo muitíssimo a sério a advertência evangélica, quando atribui a Jesus as palavras “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” (Mateus 22:21)

Isso, obviamente, não quer dizer que consiga me despir de minhas perspectivas políticas quando lido com temas teológicos – ou vice versa. Mas, estou comprometido em não mesclar institucionalmente, de forma ativa e consciente, minhas perspectivas políticas pessoais e meus compromissos eclesiásticos.

Este blog não é um espaço eclesiástico, per se. Mas está ligado às minhas atividades como um Ministro da Palavra e do Sacramento. Logo, estendo aquele meu compromisso ético a estas páginas. Nunca incentivei voto em candidatos políticos aqui, e estou compromissado em nunca fazê-lo – mesmo que eu tenha minhas próprias convicções eleitorais.

Contudo, para que fiquem claras minhas posições a meus leitores: Não sou um comunista. Não sou um socialista. Não sou um marxista. Não sou um anarquista. O termo progressista – quando o uso, o que é uma raridade, apesar do endereço deste blog – aqui não significa nenhuma dessas posições.

Politicamente, declaro-me como um liberal democrata. Um cidadão politicamente liberal e comprometido com a democracia. Escrevo explicitamente sobre minhas opiniões políticas em outro espaço – no blog chamado “O Farol da Liberdade: A Voz do Liberal Democrata”. Minhas ideias são geralmente vistas pelos ditos “esquerdistas” brasileiros como sendo de “direita”, e pelos ditos “direitistas” como sendo de “esquerda”. Eu as classifico como sendo simplesmente “políticas” – da mesma forma como prefiro, honestamente, classificar minha fé simplesmente como "cristã", como pregava o Rev. James Martineau.

Apesar de minha fé cristã ser “política” – porque não é uma fé vivida apenas individualmente, mas exige a comunidade (a Igreja) para ser praticada –, não a confundo com credos políticos. Assim, mesmo que, eventualmente, trata de temas que envolvam a política eleitoral ou partidária nos textos que publico aqui, tenho o cuidado de não impor minhas visões partidárias aos leitores deste blog.

Se meu liberalismo teológico parece, às vezes, estar associado a ideias socialistas no que tange aos costumes, isso ocorre porque no Brasil a visão de tais temas é mais “conservadora” (um qualificativo inapropriado, considerando que me considero conservador, uma vez tento conservar minhas visões liberais!) que aquelas que braço. Se, por outro lado, posso parecer, às vezes, misturar meus liberalismos – o teológico e o político –, isso ocorre por os dois estarem historicamente ligados em suas origens e desenvolvimento.

Resta apenas enfatizar que este blog trata de teologia, fé, prática religiosa, Igreja, tradições cristãs. Não de “política” partidária ou daquelas ideologias propriamente identificadas como “políticas”. O que há de “político” aqui corresponde à “natureza” social da fé cristã.

Paz!

+Gibson

sábado, 15 de agosto de 2015

O(s) Cristianismo(s) e a contextualização da “verdade”


Se vocês guardarem a minha palavra, vocês de fato serão meus discípulos; conhecerão a verdade, e a verdade libertará vocês.
(João 8:32)



Ao longo de minha vida ministerial e acadêmica, tenho tido o desprazer de lidar com visões deveras estereotipadas do(s) Cristianismo(s). Visões essas que são professadas não apenas por pessoas com baixo nível de instrução escolar formal – que, aparentemente, tendem a abraçar formas mais “estritas” de crenças e práticas religiosas –, mas também por aquelas que, num outro extremo, possuem um alto nível de instrução formal – especialmente aquelas que abraçam formas mais “estritas” duma mentalidade contrária à religião institucionalizada (para os quais, geralmente, o[s] Cristianismo[s] seria[m] o[s] modelo[s] paradigmático[s]).

Obviamente, para mim, há um grande problema com as visões “estritas” de seja lá o que for (especialmente no que tange à fé), porque elas são – na maioria das vezes – contextualmente “desinformadas”.

Compreendo o(s) Cristianismo(s) como um diálogo incessante entre a “tradição” que recebemos do passado e o nosso “contexto” presente (o nosso “hoje”). Os Cristianismos – sim, o Cristianismo é plural demais para que eu utilize um substantivo singular para me referir a ele –, enquanto conjuntos de compreensões, de práticas, de esperanças, e de pessoas, sempre foram esse “diálogo” – para o bem ou para o mal. Assim, ao longo dos séculos, a “tradição” é reformulada para ser capaz de conversar com a experiência do fiel.

Alguns dirão que essa “reformulação” é um abandono daquilo que consideram ser “a verdade”. Isso ocorre, em parte, porque compreendem “a verdade” como uma “substância” mensurável, como algo que pode ser congelado ou petrificado no tempo. Como algo fundamentalmente distinto dos contextos dos quais emerge. Os que pensam assim, obviamente, desconsideram que sua própria visão é uma “reformulação” da herança do passado.

Quando olho para a história do pensamento cristão, isto é, para a forma como as doutrinas cristãs foram (re)formuladas ao longo dos séculos – área na qual me ocupo em minhas atividades teológicas –, esse diálogo entre “tradição” e “contexto”, entre passado e presente, se torna muito claro. E se torna claro, também, que é insensato e contraditório afirmar que a “verdade” teológica seja algo petrificado e imutável.

Quando falo em “verdade”, aqui, me refiro tanto à nossa compreensão teológica quanto à forma como a articulamos em nossas atividades discursivas. A “verdade”, aqui, não inclui o objeto final ou material de nossas reflexões. Assim, toda a Igreja – me refiro não a uma instituição, mas a todas as pessoas que professam a fé cristã – professa fé em Deus e, por isso, Deus é uma verdade inquestionável para qualquer cristão professo. Essa verdade final, entretanto, não é articulada da mesma forma por todos os cristãos. Variadas tradições cristãs, e incontáveis cristãos individuais, articulam uma compreensão sobre Deus que não são aceitas por outros cristãos – ou seja, a verdade “material” (aquilo/aquele com o qual/quem se ocupa) é a mesma, mas a verdade “conceitual” (o que se pensa sobre a “verdade material”) é distinta, dependendo de uma imensa variedade de circunstâncias. E quem poderá dizer que sua verdade conceitual é a única “verdadeira” e aceitável, se sua verdade material é, para nosso contexto cultural, objetivamente imensurável?

Gosto sempre de citar as palavras do grande pensador unitarista, e fundador do campo da História das Ideias, Arthur Oncken Lovejoy, que escreveu:

[…] pessoas que igualmente professaram o Cristianismo e chamaram a si mesmas de cristãs mantiveram, no curso da história, toda a espécie de crenças distintas e conflitantes agrupadas sob esse nome, mas também que qualquer uma dessas pessoas e seitas mantiveram, via de regra, sob esse nome um conjunto de ideias muito variadas, cuja combinação dentro de um conglomerado que traz um único nome e que se supunha constituir uma unidade real foi em geral o resultado de processos históricos de um gênero altamente complicado e curioso. […] i

Obviamente, aqueles que utilizam a proteção dogmática como justificativa para sua própria compreensão, e como artifício para a reprovação daqueles que abraçam outras compreensões teológicas, dirão que essa diversidade seja fruto de “heresias” ou de “apostasias” – a própria utilização desses termos por alguns deles é problemática, já que é descontextualizada. Eu, por outro lado, as vejo como resultado dos próprios contextos nos quais as diversas visões emergiram.

Pensemos, por exemplo, na Cristologia, que é o campo da Teologia cristã que se ocupa do ser e da obra de Cristo. A maioria dos não cristãos imagina que todos os cristãos sempre tenham professado e que todos professem que Deus seja uma Trindade (como o requer a compreensão ortodoxa a partir do Credo de Niceia) e que, consequentemente, Jesus seja Deus. Para a maioria dos cristãos, Deus realmente é uma Trindade: Pai, Filho, e Espírito Santo. Claramente, entretanto, apenas uma ínfima minoria dos cristãos consegue compreender e explicar exatamente o que isso significa, já que o dogma ortodoxo da Trindade se sustenta sob uma série de compreensões filosóficas e sobre uma linguagem estranhos à maioria das pessoas hoje em dia. Ademais, e mais importante, nem todos os cristãos foram ou são “trinitaristas” – ou seja, nem todos os cristãos professaram ou professam o dogma ortodoxo da Trindade.

Na história da Teologia cristã, Jesus nem sempre foi Deus. Na verdade, com frequência, os cristãos se esquecem – se é que se dão conta disso – que Jesus sequer era “cristão”. Sua compreensão de Deus estava enraizada numa tradição que, em muitos aspectos, contradiria aquela das ortodoxias cristãs (sejam as orientais ou as ocidentais). Jesus, de acordo com os registros dos Evangelhos, jamais afirmou explicitamente ser Deus. E se de fato o tivesse feito, isso teria sido um afastamento incalculável de toda a tradição teológica das Escrituras do povo de Israel. Mas, todo estudioso intelectualmente íntegro saberá, hoje, quando e como Jesus se tornou Deus. As compreensões teológicas cristãs se desenvolveram de acordo com os contextos nos quais se encontravam os que professavam a fé em Cristo. Assim, doutrinas como as da Encarnação e da salvação por meio dum sacrifício expiatório – que são necessárias à noção ortodoxa da Trindade –, por exemplo, emergiram a partir do encontro entre a fé dos primeiros “cristãos” e as filosofias greco-romanas.

O que é importante acentuar, contudo, é que o fato de o dogma teológico ser uma construção humana não o torna inválido ou “não verdade”. Muito pelo contrário. A “verdade” (lembre-se que, aqui, me refiro à verdade enquanto o que se pensa sobre um objeto de reflexão, e não ao objeto em si da reflexão teológica) é uma construção da tradição na qual é (re)formulada. Assim, o que é “verdadeiro” ou “falso” para uma comunidade de fé – ao menos em tradições que enfatizam a comunidade enquanto centro de aprendizado e prática, como a Igreja – é definido por aquela própria comunidade. [Uma perspectiva que não deixa de ser paradoxal para protestantes crescidos em culturas individualistas como as nossas.]

A articulação dos conceitos teológicos cristãos acerca de Jesus Cristo e de sua relação com o todo da fé cristã passou por um processo de construção que durou séculos – e que, na verdade, ainda não acabou, ao menos no que tange a alguns grupos não “ortodoxos”. E, infelizmente, muitas das decisões tomadas sobre quem tinha razão nas disputas teológicas, após o(s) Cristianismo(s) se associar(em) ao poder secular, basearam-se mais na força política do que nos argumentos teológicos.

Dessa longa história advém a projeção inconsciente que fazemos quando lemos os textos bíblicos. Sempre gosto de enfatizar que costumamos projetar sobre os textos que lemos visões de mundo que, em si, não estão necessariamente presentes nesses textos. Como exemplo, sempre utilizo a narrativa sobre Adão e Eva e o “fruto proibido” que, em sua interpretação mais inocente, é identificado como uma “maçã” – apesar de o texto bíblico em si não utilizar o termo. O “fruto” foi frequentemente interpretado como “maçã” por conta do contexto exterior à narrativa bíblica. No caso específico da Cristologia, mesmo aqueles que afirmam basear toda a sua fé na leitura da Bíblia, quando leem o texto sagrado, projetam sobre ele a tradição trinitarista ortodoxa que não está necessariamente presente lá de forma explícita. Inconscientemente, apelam a construções filosóficas para a construção de sua teologia, que são inseparáveis dos contextos nos quais tais construções filosóficas emergiram e das razões e formas pelas quais continuaram a fazer sentido para quem as abraçam hoje.

Se pensássemos sobre outros campos teológicos, como a Eclesiologia, por exemplo, veríamos que as três formas mais comuns de administração/organização eclesiástica na Igreja ocidental – o episcopalismo, o presbiterianismo e o congregacionalismo – também dependem duma série de fatores que condicionam a visão de quem lê o texto bíblico. Ou seja, mais uma vez, projetaremos uma visão de mundo não plenamente presente nos textos sagrados em nossa leitura.

Ou seja, gostemos ou não do termo ou da ideia, nossas compreensões teológicas/religiosas são sempre relativas, porque sempre mantêm uma relação com os contextos nos quais emergiram. Nossas tradições de fé emergem num universo cultural particular e fazem uso da língua e dos símbolos daquele universo, ao mesmo tempo em que subvertem os valores desse universo e que, posteriormente, possam construir um universo à parte.

Como tenho sempre afirmado, estar consciente disso não representa uma ameaça à minha fé pessoal – e não deveria representar uma ameaça à fé de ninguém. Muito frequentemente, minha compreensão tem sido atacada por outros fiéis com perguntas como “Como você decide que partes da Bíblia são verdadeiras?”, ou com afirmações como “Você só escolhe o que lhe é mais conveniente!”. Bem, responder a esse tipo de perguntas ou acusações é problemático pelo simples motivo de se basearam em premissas equivocadas. Posso afirmar o que afirmo e manter minha fé porque ela se assenta sobre uma série de perspectivas que são diferentes daquelas abraçadas pelos autores daqueles questionamentos. Nossas visões de autoria, autoridade, liberdade, consciência, comunidade, individualidade, Divindade, humanidade etc, são distintas e, por essa razão, chegamos a considerações bem diferentes. Ou seja, temos visões relativas da realidade e da Realidade! Isso não nos torna mais ou menos “verdadeiros” em relação uns aos outros – no máximo, nos torna mais ou menos conformistas em relação às nossas próprias tradições de fé particulares.


i LOVEJOY, Arthur O. A grande cadeia do ser: um estudo da história de uma ideia. Tradução Aldo Fernando Barbieri. São Paulo: Editora Palíndromo, 2005. p.16.



+Gibson

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

"O Espírito Santo não é uma pessoa?" - respondendo à questão de E.N.


Um leitor – que chamarei de E.N. – me enviou uma das mensagens/perguntas mais breves e mais complexas que já recebi de um leitor deste blog:

O Espírito Santo não é uma pessoa?”


Minha resposta:

Depende de quem você é e a quem você pergunta!… A maioria dos cristãos, provavelmente, dirá que sim – mas, se perguntados, a explicação sobre o que esse “sim” significaria para eles já é outra questão.

As noções sobre a Divindade, na teologia cristã, tradicionalmente se entrelaçam com outros pontos doutrinários. Assim, para responder a uma pergunta como a sua, teria de falar sobre minha crença a respeito de Deus, a respeito de Jesus, a respeito das Escrituras. Essas compreensões, por sua vez, têm um impacto na forma como entendo o que seja salvação e como essa ocorre. E a lista continua… Tudo está interligado.

Na verdade, a Igreja, em toda a sua diversidade, tem noções muito complexas sobre o Espírito Santo – com todas elas encontrando apoio na Bíblia e na Tradição. Assim, há cristãos que acreditam ser o Espírito Santo uma pessoa, enquanto outros não. E a própria linguagem bíblica abre espaço para a diversidade de opiniões. Algumas vezes a Bíblia fala sobre o Espírito Santo como um vento/sopro, outras vezes como uma influência, enquanto outras vezes como se fosse uma pessoa.

Na história da Igreja, demorou até pelo menos o século IV para que as lideranças cristãs impusessem uma interpretação, que veio com o Credo Niceno. É a partir desse documento da Igreja (e dos credos posteriores) que se exige que os cristãos acreditem que o Espírito Santo seja uma pessoa (hypostasis). Assim, católicos romanos, ortodoxos e muitos protestantes (luteranos, anglicanos, metodistas, presbiterianos etc) abraçam, oficialmente, essa visão. A maioria dos cristãos não-trinitaristas (aqueles que não aceitam a doutrina ortodoxa da Trindade), entretanto, abraçam a visão de que o Espírito Santo seja uma referência ao próprio Deus ou à sua influência.

Assim, a resposta depende de qual seja a sua tradição cristã!

Paz! Grande abraço!

+Gibson

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Joseph, o Vidente: mais um ensaio historiográfico dos “mórmons” de Utah



Gibson da Costa


Para alguém que, como eu, pesquisa a história teológica da tradição do Movimento Restauracionista iniciada por Joseph Smith (tradição popularmente conhecido, para alguns inapropriadamente, como “Mormonismo”), a publicação de mais um ensaio historiográfico por parte de “A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias” (IJCSUD) foi uma relativamente boa “surpresa”.

Como vocês leram aqui, em 24 de outubro de 2014, a IJCSUD já havia publicado uma série de ensaios que lidavam com temas controversos de sua história – especificamente sobre Joseph Smith e o Casamento Plural (poligamia) em sua tradição. Na verdade, nos últimos anos, a denominação tem feito um esforço de lidar com sua história – pense no excelente Projeto “Joseph Smith Papers” [Os Papeis/Documentos de Joseph Smith] –, e a publicação daqueles artigos faz parte desse trabalho de relativa abertura ao mundo externo (obviamente, não se trata duma historiografia desvinculada das visões doutrinárias da denominação). Apesar das limitações decorrentes de os artigos terem sido escritos sob os auspícios da própria denominação, o fato de lidarem com os questionamentos e tratarem do tema foi, em si, um ato corajoso e louvável – independentemente das possíveis intenções políticas por trás disso (afinal de contas, se virmos a questão de forma mais cínica, não esqueceremos que o “Mormonismo”, em geral, e a IJCSUD, em particular, foram alvo de protestos durante a campanha de Mitt Romney à Presidência dos E.U.A., e vir às claras sobre o passado poderia melhorar a percepção pública para com a denominação).

Mas, então, temos o mais novo ensaio historiográfico da Igreja SUD, desta vez lidando com um outro aspecto polêmico para quem não é da tradição: “Joseph the Seer” [Joseph, o Vidente], que estará na edição de outubro da revista oficial da igreja em inglês, Ensign – mas já disponível online.

Gostaria, aqui, apenas de tecer breves observações sobre alguns trechos do ensaio. Lembro aos amigos SUD que minha intenção não é de atacar suas crenças, mas apenas lidar brevemente com um tema que me interessa enquanto pesquisador de Teologia Histórica. Todas as citações são extraídas do texto em discussão – a tradução livre é minha.

Visões” e “videntes” eram parte das culturas americana e da família nas quais Joseph Smith cresceu. Mergulhados na linguagem da Bíblia e numa mistura das culturas anglo-europeias trazidas por imigrantes à América do Norte, algumas pessoas no início do século XIX acreditavam que era possível que indivíduos dotados “vissem”, ou recebessem manifestações espirituais, por meio de objetos materiais como as pedras videntes.

O jovem Joseph Smith aceitou tais costumes populares de sua época, incluindo a ideia de utilizar pedras videntes para encontrar objetos perdidos ou escondidos. Como a narrativa bíblica mostrava que Deus usava objetos físicos para focar a fé das pessoas ou para comunicar-se espiritualmente nos tempos antigos, Joseph e outros presumiam o mesmo quanto ao seu tempo. Os pais de Joseph, Joseph Smith Sr. e Lucy Mack Smith, afirmavam a imersão da família nessa cultura e seu uso de objetos físicos para esses fins, e os habitantes de Palmyra e Manchester, Nova York, onde os Smith viviam, procuravam Joseph para que ele encontrasse objetos perdidos antes de ele se mudar para a Pensilvânia no final de 1827.1


Não há, aí, nenhuma surpresa para qualquer pessoa que tenha mesmo que um conhecimento apenas superficial da história religiosa de populações rurais menos privilegiadas dos E.U.A. naquela época. Na cultura rural de Nova York, especificamente, manifestações “espiritualistas” se mesclavam ao “carismatismo” marcante dos reavivamentos e dos cultos ao ar livre. Isso não é desconhecido de absolutamente ninguém que estude os movimentos religiosos da época. Só que, por conta dos contextos específicos da cultura dos santos dos últimos dias, parece ter sempre havido uma negação velada disso – especialmente quando se considera que isso era uma das acusações utilizadas por grupos cristãos para invalidar a autenticidade e a “irracionalidade” da narrativa de Joseph Smith sobre suas supostas visões e revelações.

O texto prossegue, agora, de forma apologética:

Para aqueles sem uma compreensão de como as pessoas do século XIX, na região de Joseph, viviam sua religião, pedras videntes podem ser coisas com as quais não estão familiarizados, e estudiosos têm, há muito, debatido esse período da vida dele. Em parte, como resultado do Iluminismo […], muitos nos dias de Joseph vieram a sentir que o uso de objetos físicos, como pedras ou varas, fosse supersticioso e inadequado para fins religiosos.

Nos anos posteriores, enquanto Joseph falava sobre sua notável história, ele enfatizou suas visões e outras experiências espirituais. Alguns de seus antigos companheiros focaram-se em seu antigo uso de pedras videntes, num esforço para destruir sua reputação num mundo que, cada vez mais, rejeitava tais práticas. Em seus esforços proselitistas, Joseph e outros dos membros iniciais escolheram não se focar na influência da cultura popular, já que muitos potenciais conversos estavam experienciando uma transformação em como entendiam a religião na Idade da Razão. […]2


Enquanto, no trecho anterior, é especialmente notório o reconhecimento de que Joseph, de fato, procurava objetos perdidos para outras pessoas utilizando pedras videntes (que, a partir de 1833, seriam chamadas de “Urim e Tumim”). Na cultura “mórmon”, os próprios membros da IJCSUD habituaram-se a desconsiderar esse tipo de acusações por vê-la apenas como ataques de inimigos de sua tradição religiosa. Curiosamente, essa visão é exposta no segundo parágrafo do trecho acima, quando afirma que alguns dos antigos companheiros de Joseph Smith falavam sobre seu anterior uso de pedras videntes “para destruir sua reputação”. Os fieis sempre utilizaram essa explicação para desconsiderar esse aspecto da juventude de seu profeta.

Obviamente, há décadas, se escreve entre os próprios “santos” – sejam os membros da IJCSUD, sediada em Salt Lake City (Utah), ou os membros de outros grupos minoritários do movimento, especialmente da Comunidade de Cristo, sediada em Independence (Missouri) [grupo que, há muito, tem abraçado uma visão historiográfica mais crítica sobre o passado de seu próprio movimento] – sobre esse envolvimento de Joseph Smith com tais práticas. Mas esse tipo de estudo historiográfico sempre esteve distante do “mórmon” comum, mesmo considerando o relativo nível de letramento cultural da maioria dos “santos dos últimos dias”.

Permitam-me, a propósito, explicar brevemente um fato ignorado por muitos “não-mórmons” no Brasil: não há apenas um grupo eclesiástico advindo da “Restauração” liderada por Joseph Smith Jr. Há várias denominações dentro do chamado “Movimento dos Santos dos Últimos Dias” – ao todo, cerca de 80 diferentes grupos. Entretanto, as duas maiores expressões são: [1] A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias – conhecida como a Igreja “Mórmon” pelos não-membros (aquela sobre a qual estou falando aqui e que publicou os artigos em questão) –, sendo, praticamente, o único desses grupos conhecido pelos brasileiros; e [2] a Comunidade de Cristo – conhecida, até 2001, como a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias Reorganizada – que mantém muito pouco em comum, doutrinária e socioculturalmente, com a IJCSUD (no Brasil, a denominação está oficialmente presente apenas no Estado de São Paulo e talvez, por isso, seja tão desconhecida para a maioria dos brasileiros). Esses dois principais grupos representam, em minha opinião, as expressões mais extremadamente opostas na tradição que chamo aqui, inadequadamente, de “mórmon”; tendo sempre se visto, mutuamente, como “apóstatas” da Restauração iniciada pelo – para ambos – profeta Joseph Smith. A Comunidade de Cristo, na maioria dos aspectos, está muito próxima a muitas outras igrejas cristãs liberais (com exceção de sua visão acerca das Escrituras e de revelação), e muito distante da IJCSUD.

Quanto à iniciativa da IJCSUD de discutir sua história – mesmo que de forma ainda limitada e institucionalmente enquadrada –, parece ser uma tentativa raquítica e atrasada dum lado, mas também intelectualmente íntegra, de conciliar o corpo de estudos historiográficos dos últimos 30 anos, produzidos por historiadores de seu próprio meio (muitos dos quais sofreram punições por levantarem questionamentos que contrariavam a doutrina oficial da denominação), com as posições oficiais da mesma. Mesmo que limitadamente, talvez seja um indicador das possíveis direções que os ventos estão soprando no Vale do Lago Salgado.

Há outros pontos interessantes no ensaio, mas os discutirei, talvez, numa outra ocasião.

Vejamos o que mais vem por aí!


Referências:

[1] TURLEY JR., Richard E.; JENSEN, Robin S.; ASHURST-MCGEE, Mark. Joseph the Seer. In: ENSIGN, outubro de 2015. Disponível em: . Acesso em: 4 ago 2015.

[2] Ibid.