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sábado, 21 de novembro de 2015

Sobre “uma brevíssima explicação acerca da shari'a”



Gibson da Costa

Considerando a aparente “controvérsia” causada por minha última postagem neste blog – na percepção de alguns que me escreveram e-mails nos três últimos dias, isto é –, e considerando que não tenho tempo de responder individualmente a todos eles, permitam-me fazer alguns comentários.

Não vejo muito necessidade para explicar minhas posições no que tange à relação entre “religião” e “política”. Essas já estão por demais explícitas em tudo o que tenho escrito aqui nos últimos anos, em tudo o que tenho ensinado no seminário, em tudo o que tenho publicado, e em todos as minhas prédicas. Sou um “cristão liberal” ocidental (sim, também há um sentido político muito específico nessa expressão). Afirmar isso já deveria ser suficiente para explicitar o que penso acerca da relação entre “Igreja” e “Estado”, seja quanto ao Cristianismo, seja no que tange a quaisquer outras tradições.

Não importa o que penso acerca daquilo que chamei de “Direito Islâmico”, a “shari'a”. Minha opinião sobre se as diferentes interpretações islâmicas são boas ou não, aceitáveis ou não, justas ou não é irrelevante para o que escrevi. Minha intenção ali era outra: intencionava apenas responder a algumas coisas que havia lido e ouvido antes – coisas que julgo, vindas de quem vieram, intelectualmente desonestas (tendo sido dito/escrito por quem foi).

Posso discordar de determinadas ideias, mas isso não pode fazer com que feche os olhos à injustiça de acusações falsas. Discordar de alguém ou de algo não faz com que eu automaticamente me torne inimigo daquele/daquilo, e vice-versa. Alguém não se torna meu inimigo simplesmente por não crer/praticar no/o mesmo que eu. E mesmo que fosse meu inimigo, isso não tornaria justo que eu aceitasse que acusações falsas fossem feitas ao seu respeito.

A comparação acima pode parecer exagerada, mas, em minha percepção de alguns dos comentários que me enviaram, parece que alguns pensam que estou defendendo “o inimigo”!… Minha pergunta a esses leitores é: por que o Islã ou os muçulmanos seriam meus inimigos? Como já escrevi inúmeras vezes, convivi e convivo com muitos muçulmanos. Conviver com pessoas diferentes de você pode fazer com que se aprenda muito sobre os limites dessas diferenças!… E isso, a propósito, vale quanto a todos os aspectos da vida social, e não só religião.

Em nenhum ponto do que publiquei aqui justifiquei a imposição duma lei religiosa àqueles que não a desejassem. Muito pelo contrário. Expliquei que havia uma diversidade de interpretações do Direito Islâmico, e o fiz justamente para me opor à visão dum Islã uniforme – que é defendido tanto por islamitas fanáticos quanto pela retórica dos meios de comunicação “ocidentais”.

A propósito, há uma enorme diferença conceitual entre ser “muçulmano” e ser “islamita” (ou “islamista”). O termo “muçulmano” refere-se a um adepto do Islã. O termo “islamita” (ou “islamista”), por sua vez, refere-se a um adepto duma ideologia política, que politiza a religião muçulmana – aquilo que, em minha vida acadêmica, chamo de Islã Político. Essa ideologia, per se, é uma construção recente. Se quiser saber um pouco mais, pode ler algo que já escrevi a respeito AQUI.

Quanto à acusação de que eu seja um “ignorante manipulado pela esquerda”, feita por uma leitora, cometerei a indelicadeza de responder de forma arrogante: [Na verdade, não entendo por que usaria o adjetivo “esquerda” aqui!] Quantas vezes você já leu o Corão em língua árabe? Quantos livros teológicos islâmicos você já leu? Quantos amigos muçulmanos você tem? Em quantos países com maioria muçulmana você já morou ou já esteve?… Talvez eu não seja tão “ignorante” e “manipulado” quanto você pensa!!… Geralmente, prefiro não escrever acerca de temas sobre os quais não tenha um mínimo de informação!

Há algum tempo, tenho me preocupado com a forma como meus irmãos e irmãs muçulmanos têm sido retratados pelos meios de comunicação, pelos pronunciamentos de personagens do mundo político e, principalmente, pelo discurso religioso de outros grupos – especialmente cristãos. Como um humano e um cristão, me calar enquanto essas irmãs e esses irmãos têm sua fé injustamente retratada como sinônimo de violência e terror é trair à minha própria fé. Continuarei a criticar o que deve ser criticado, mas não participarei do festival de inverdades e discriminação.

Como um cristão, renuncio à islamofobia, doe a quem doer!

+Gibson

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Uma brevíssima explicação acerca da “shari'a”



Gibson da Costa

Fico sempre muito irritado quando ouço ou leio alguns comentários acerca da chamada “shari'a”. A maioria das pessoas, seguindo a retórica dos agentes da imprensa, refere-se à “lei islâmica” como se ela fosse uma “entidade” única e/ou como se fosse uma grande aberração.

…Eles não poderiam estar mais errados!

O Islã, como o Judaísmo e o Cristianismo, tem um código legal religioso. Enquanto o código legal judaico ortodoxo é chamado de “halakhah”, e o cristão é chamado de “direito canônico” (nas tradições católicas) ou “ordem eclesiástica / ordem da Igreja” (em muitas tradições protestantes), o código religioso da Ummah (a comunidade de fiéis muçulmanos) é chamado de “shari'a” (o Direito Islâmico). Nenhum deles, contudo, é estático ou uniforme. Como ocorre com as códigos civis, há espaço para muita diversidade interpretativa no que concerne a esses códigos.

O que importa, aqui, é que não há nada de absolutamente único ou estranho com o fato de haver um código legal religioso no Islã – com base no qual decisões são tomadas sobre a vida em comunidade, a aceitação ou exclusão de “(in)fiéis”, o status de certas pessoas, a aceitação ou não de certas crenças ou comportamentos etc. Isso pode não condizer muito com a mentalidade moderna ocidental, mas está presente em todas as comunidades de fé, em maior ou menor grau. Se você é parte de alguma comunidade de fé (igreja, centro, templo etc) que não possui um código legal explícito, se ela possui o status de Pessoa Jurídica, terá pelo menos um Estatuto Social (que mesmo sendo um documento civil, expõe expectativas que se baseiam nas perspectivas teológicas/religiosas daquela comunidade)!

Uma diferença que influencia na percepção que muitos cristãos ocidentais, especialmente não-católicos, têm da shari'a é o simples fato de o Cristianismo ocidental, de forma geral, enfatizar a “crença correta”, enquanto o Islã – assim como o Judaísmo –, de forma geral, enfatiza as “ações corretas”, o “comportamento correto” do fiel!

É importante tentar entender o próprio sentido do termo. “Shari'a”, em seu sentido não religioso, refere-se a um caminho que leva a um poço de água. Para as populações do deserto, um poço de água era/é a diferença entre a vida e a morte. Assim, aplicada à religião muçulmana, a “shari'a” seria um caminho que leva à vida – caminho esse divinamente revelado no texto sagrado (o Corão/Alcorão) e nas tradições orais atribuídas à Muhammad (que os muçulmanos acreditam ter sido Profeta). É nesse contexto que ela é a “Lei de Deus” – não muito diferente das ideias de “Lei de Deus” no Judaísmo ou no Cristianismo.

O Direito Islâmico não se baseia exclusivamente no Corão – como também ocorre com o Judaísmo/Cristianismo em relação à Bíblia. Isto é, em sentido amplo (no que concerne à teoria e à prática), há uma distinção entre a Lei de Deus (shari'a) – baseada naquilo que os muçulmanos creem ser revelações divinas – e a atividade humana de interpretar essa lei – chamada de “fiqh”. O Direito Islâmico é a combinação desses. De acordo com o fundador do Direito Islâmico, Muhammad ibn Idris al-Shafi'i (séc. VIII-IX d.C.), haveria quatro bases fundamentais para o Direito Islâmico: o Corão; a sunna de Muhammad; o consenso; e a analogia. Além dessas bases, sobre as quais concordam todas as escolas jurídicas islâmicas (madh'habs), há outras a depender da escola (madh'hab) em questão.

O termo “madh'hab” que citei acima, refere-se à cada uma das escolas jurídicas do Direito Islâmico. Essas escolas são tradições jurídicas que guiam a interpretação que um indivíduo ou grupo aceita em questões legais no Islã. Todo muçulmano adere a uma madh'hab específica, independentemente do ramo islâmico do qual seja adepto.

No Islã sunita há, hoje, quatro madh'habs principais: a Hanafi; a Maliki; a Shafi'i (cujo nome vem de Muhammad ibn Idris al-Shafi'i, que citei acima); e a Hanbali (a escola que originou o ramo Salafi, que, por sua vez, influenciou a maioria dos movimentos jihadistas conhecidos – como a Irmandade Muçulmana, o Taliban, a al-Qa'ida, e o chamado Estado Islâmico). Todas elas possuem algumas subdivisões. Ademais, historicamente, possuem adeptos em regiões específicas do mundo – a depender de como o Islã se propagou por aquela região. Há muitas outras madh'habs, mas essas são seguidas por um número muito pequeno de adeptos que se encontram em regiões geográficas muito limitadas.

No Islã xiita, por sua vez, há um número ainda maior de madh'habs, mas as duas principais delas – ou seja, aquelas seguidas por um maior número de adeptos – são a Jaf'ari e a Batiniyyah, ambas com suas subdivisões.

Ou seja, se formos intelectualmente íntegros, nos recusaremos a comprar a retórica ignorante, islamofóbica, e nem um pouco inocente dos que atrelam a noção de “shari'a” ou “lei islâmica” ao terrorismo ou assassínio de “jihadistas radicais” – o próprio termo “jihadista” deve ser utilizado com cuidado, já que “jihad” não significa necessariamente “guerra física”; e ser um “jihadi” nem sempre se refere a fazer guerra física (o termo pode ser usado como uma metáfora duma “batalha espiritual” – noção muito comum a alguns cristãos hoje em dia, especialmente nas tradições pentecostais ou carismáticas). É bom lembrar, ademais, que no Islã não existe a expressão “guerra santa” - essa expressão é uma invenção “cristã”!

+Gibson

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Deus e nossas compreensões a seu respeito


[…] Na vida, na morte, na vida além da morte, Deus está conosco.
Não estamos sozinhos. Graças a Deus.”


Recentemente, fui convidado a participar dum debate promovido por uma emissora de rádio acerca daquilo que chamaram de “fundamentalismo” religioso. Ao aceitar, já imaginava o possível caminho seguido pelo facilitador do debate, uma vez já havia sido entrevistado por ele antes. Assim mesmo, resolvi aceitar.

É engraçado como, em alguns pontos, alguns que se declaram como “ateus” se assemelham a alguns daqueles que se declaram como “crentes bíblicos”. A visão de Cristianismo que defendem ou recusam é exclusivista e engessada – ou seja, para que seus argumentos façam sentido, têm de reprovar e negar todas as outras possíveis expressões da fé cristã, mesmo aquelas com uma longa história.

Tratamos sobre Deus e Jesus, obviamente. Não tenho muita certeza da razão pela qual um cristão unitarista, como eu, seria convidado a um diálogo se os demais participantes, incluindo o próprio facilitador, excluem da identidade cristã aqueles que não abraçam uma visão teontológica (i.e., sobre Deus) e cristológica (i.e., sobre Jesus Cristo) ortodoxa. Para meus companheiros de debate, só seria possível “ser cristão” se você entende Deus como uma entidade pessoal que habita algum lugar no espaço (o “Céu”). E, para ser cristão, eu deveria crer em Jesus como “Deus em carne, que morreu” por mim!

Esse tipo de perspectiva, devo enfatizar, esperaria da maioria dos cristãos – afinal de contas, a maioria dos cristãos se declara “trinitarista”. Mas ela também foi defendida por um “cientista” que se declarou como “ateu”!… Lá estavam eles, talvez sem perceber, coparticipando – no mesmo lado – dum antigo e contínuo conflito epistemológico.

Expliquei aos meus colegas o sentido delimitado que atribuo ao termo “fundamentalismo”. Expliquei que o termo, para mim, não deveria ser utilizado da forma pouco clara e generalizada como o é pela maioria das pessoas que o utilizam. Expliquei que, apesar de eu ser um opositor do “fundamentalismo” (enquanto tradição teológica cristã), não utilizo o termo com um sentido pejorativo. Ser “fundamentalista” não é ser “intolerante” em si; mas, sim, as bases ideológicas daquela tradição são exclusivistas – mas “exclusivismo” e “intolerância” não são necessariamente sinônimos! [O ambiente político é o que tem sinonimizado os termos.]

Sim, também irritei os demais – especialmente o facilitador e o declarado “ateu”. Disse-lhes que era uma incoerência que atacassem o “fundamentalismo” ao mesmo tempo em que utilizassem a base mais importante da tradição para criticar as minhas posições: a ideia de que só há uma forma válida de crer.

Foi, ademais, interessante como se referiam a mim. Os demais – com exceção do “cientista” – eram “pastores” e “padre”. Eu era o “teólogo”.

Essa distinção poderia parecer irrelevante aos leigos, mas sob ela se escondia um preconceito acerca de minha fé. Obviamente, enfatizei isso. Disse aos demais que fora convidado àquele debate como um “Ministro cristão” – o que eu sou e o que era reconhecido por escrito no convite que recebera. O uso que faziam do termo “teólogo”, que creio ser inapropriado para se referir a mim – já que minha formação ou minhas atividades pastorais ou teológicas não me tornam um “teólogo” per se –, reforçava sua crença exclusivista de que minha fé não era cristã, minha comunidade de fé não era cristã e eu, por isso, teria menos dignidade ministerial que os demais. Mais uma incoerência para um evento que se apresentara como um debate sobre os riscos do “fundamentalismo religioso”.

Como já tenho dito e escrito há muitos anos, tendo a ter um grande cuidado no uso que faço de certos termos. Penso, por exemplo, que dizer “Deus existe” seja menos que apropriado para falar sobre minha fé. A existência é uma qualidade atribuída a entidades materiais, físicas, objetivas/mensuráveis. Deus, em minha compreensão não é nenhuma delas. É por isso que não proclamo a “existência” de Deus – mas meus colegas de debate foram, aparentemente, incapazes de compreender isso!

Em vez de falar em “existência” de Deus, prefiro proclamar sua “realidade”. Utilizo, inclusive, o nome “Realidade” para me referir ao Divino. Recorrendo à minha herança judaica, gosto de usar “o Nome”, “o Eterno”, “a Realidade” para me referir a Deus.

Deus, para mim, é mais que uma entidade pessoal. Deus enquanto “pessoa” é apenas uma metáfora para que possamos começar a compreender o Mistério Eterno. Se Deus fosse uma “pessoa”, estaria limitado pelo tempo e pelo espaço, já que a qualidade de pessoa é finita e condicional. Então, claramente, a “personalidade” (a qualidade de pessoa) de Deus seria apenas uma metáfora para que pudéssemos humanizar nossa relação com o Divino – da mesma forma como fazemos com nosso uso do termo “Pai”.

Assim, não posso dizer que tenho esperança de encontrar Deus ao fim de minha vida temporal. Não poderia ter esperança disso porque, para mim, Deus não é uma pessoa como você e eu. Deus não está num lugar específico do cosmo; o cosmo é que está em Deus – incluindo você e eu (Atos 17:28). Minha esperança não se centra num destino final; centra-se, antes, num encontro na jornada: ou seja, minha esperança é encontrar Deus no processo de viver minha existência. Assim, Deus, de fato, está comigo – porque O encontro no dia a dia.

Isso, contudo, é minha compreensão presente de Deus. Minha compreensão e todas as demais compreensões da Divindade não são o mesmo que Deus – se o fossem, seríamos todos idólatras, ao menos para a tradição cristã (já que estaríamos idolatrando nossas próprias compreensões). Deus é Deus. E Deus, que é Deus, é Eterno – e minha mente não consegue compreender plenamente a Eternidade, já que estou condicionado pelo tempo e pelo espaço.

E é exatamente por isso que me basta declarar que confio em Deus.

+Gibson

sábado, 17 de outubro de 2015

Minicurso “O Fim Está Chegando: Dois Milênios de Mitos Escatológicos” – respondendo às provocações que encerraram o minicurso

Esta semana, facilitei um minicurso, no IRWEC, chamado “O Fim Está Chegando: Dois Milênios de Mitos Escatológicos”. Como contamos com a presença de membros de outras instituições teológicas ou outras comunidades de fé, os debates foram acirrados e gratificantes. Para mim, como facilitador e autor daquele minicurso, aquela foi uma excelente oportunidade para discutir aquelas ideias com alunos, participantes e leitores, mesmo que com a aparente limitação de tempo (vinte horas distribuídas ao longo de cinco dias) para a abordagem dum tema tão importante à maioria dos cristãos.

Agradeço a todas e todos pelas provocações, questionamentos e ampla contribuição. Abaixo, responderei, como prometido, àquelas provocações às quais não pude responder, ontem, por falta de tempo.

Sou um cristão liberal. Minhas tradições e comunidades de fé me ensinaram a questionar, a duvidar, a buscar. Não a temer. O questionamento, em minha experiência, não destrói a fé. Muito pelo contrário. O questionamento a fortalece sobre bases sólidas, capazes de enfrentar a experiência da vida adulta.

Creio ser uma infantilização da fé – perdoem-me a linguagem – encará-la como algo que deva ser “defendida”, “protegida”, etc, quanto à sua relação com a cultura contemporânea. Esse tipo de asserção ao mesmo tempo personifica e coisifica a fé. Eu, pessoalmente, rejeito essa atitude. A fé, para mim, é a língua que utilizo e reconheço para articular minha compreensão do Mistério, para participar do diálogo espiritual do qual todos – mesmos os formalmente descrentes – participamos neste mundo. A fé, como as línguas que falamos, possui uma gramática própria, um vocabulário característico, uma melodia poética. Ademais, cada um de seus “falantes” possui seu próprio idioleto.

Obviamente, a comparação é metafórica, mas a metáfora se reveste de verdade para minha experiência humana.

Se alguns veem a “religião” – que chamo de “fé” – como uma “[re]ligação” com o Divino, eu a vejo como a língua através da qual articulamos a compreensão do e nossa relação com esse Divino. E essa língua independe duma ligação formal com uma “comunidade de fé” específica, por exemplo. Da mesma forma como ocorre com falantes de línguas minoritárias em países onde essas línguas não são oficiais ou não são faladas pela maioria.

Em minha relação com a Dimensão Misteriosa – que chamo de Deus –, “falo”, além da “língua” oficial ou majoritária da minha comunidade de fé, meu próprio idioleto espiritual, que pode ser estranho a outros membros daquela comunidade. E creio que isso ocorra com todos nós.

E já que tratamos de Teologia Histórica, é importante enfatizar que aquela atitude – o da “defesa da fé”, nos termos que foram levantados por um dos participantes – tem uma origem histórica específica no pensamento teológico ocidental: a Reforma Protestante. É a partir das diferenças que emergem na Reforma entre os variados grupos “protestantes”, e entre esses e os católicos romanos, que a “fé” passa a ser sinônimo, quase que exclusivo, de “crença”. Ela deixa de ser uma ação divina na alma humana e passa a ser uma ação intelectual do próprio homem. Ter fé, a partir de então, é acreditar na doutrina certa – e, obviamente, o que é “certo” (ortodoxo) para alguns, será “errado” (herético) para outros. Com isso, obviamente, não estou querendo dizer que as noções de “ortodoxia” e “heresia” só passaram a existir a partir da Reforma; o que estou afirmando é que a noção de “fé”, no Cristianismo ocidental, foi reduzida e determinada por aquelas duas outras noções!… É por isso que ouço, por exemplo, pessoas me chamando de “descrente”, “ateu” etc, por não compartilhar de suas compreensões. Como não acredito no que elas acreditam, então – para essas pessoas –, não tenho fé alguma, estou longe de Deus! [Não foi exatamente isso que foi dito pelo participante que me questionou?!]

[O questionamento, a propósito, não me ofendeu por inúmeras razões. A primeira delas é o simples fato de eu acreditar plenamente que o questionamento seja essencial ao aprendizado e que esse só é possível num ambiente de liberdade intelectual – como quero acreditar que tenha sido o nosso ao longo do minicurso. A segunda é o também simples fato de eu saber exatamente a origem daquela dúvida – conhecendo o background do questionador, ficou fácil entender a raison d'être de sua questão, e que eu tinha de respondê-la a partir de sua perspectiva (isto é, colocar-me em seu lugar). Então, por mais que ele pudesse ter sido menos agressivo em suas colocações, entendo suas razões, e por isso não me sinto ofendido!]

O grande problema em se definir a fé como “assensus” – isto é, como “crença” – é o de lidar com o tipo de conhecimento que nos estão disponíveis hoje em dia. Um exemplo: um cristão, do século XXI, lê os relatos da Criação no Gênesis – sim, porque não há apenas um, há dois relatos distintos da Criação (a mais antiga começa em Gênesis 2:4 e se estende até o fim do capítulo 3; a segunda narrativa aparece entre Gênesis 1:1 – 2:3) – e percebe que há um grande “conflito” entre aqueles relatos e o que sabemos sobre a origem de nosso Universo e da vida aqui. O que faz?… Bem, se ele acredita que a Bíblia seja um escrito divino em sua origem, no qual não há erros, sua única opção – de acordo com os que ensinam essa perspectiva – será rejeitar o que a ciência ensina. Ou, como alternativa, poderá abandonar sua “fé”. Mas, novamente, esse é um caso extremo em dois aspectos: sua compreensão do conceito de “fé” é exclusivista; assim como também o é sua compreensão do conceito de “ciência”.

O mais interessante é que isso é defendido não apenas por pessoas religiosas. Muitos “cientistas” também abraçam uma visão exclusivista tanto da fé quanto da ciência! [Correndo o risco de fazer certas asserções equivocadas acerca da fé religiosa como as feitas por Christopher Hitchens num famoso livro seu, “God is not great”.]

Pessoalmente, não penso que haja contradição entre fé e ciência, pela simples razão de as duas lidarem com distintas dimensões da realidade. Deus, espírito, etc, são conceitos que utilizamos para lidar com a dimensão Misteriosa de nossa realidade. Os terremotos, a evolução, os tsunamis, as doenças, etc, são todos temas que dizem respeito à dimensão objetiva de nossa realidade. E há aqueles temas que se dividem entre os dois: o nosso tema de estudo no minicurso a Escatologia – é um exemplo disso.

Preocupações escatológicas, a propósito, não se restringem apenas a tradições religiosas judaicas, cristãs e islâmicas, já que também adentraram, até certo ponto, as filosofias políticas que emergiram entre judeus, cristãos e muçulmanos (Marx e Engels sendo, para alguns, um exemplo disso no Ocidente judaico-cristão; Sayyid Qutb, um exemplo dentre os pensadores muçulmanos); e, se entendermos essa preocupação escatológica de forma mais ampla, ela também se faz presente, de alguma forma, na narrativa cosmológica da ciência contemporânea (por exemplo, na ideia de que vivemos num Universo em evolução, um Universo com uma seta quântica de tempo, cuja direção lhe é transmitida pela assimetria temporal advinda da segunda lei da termodinâmica).

Quanto às questões específicas referentes às Escatologias judaicas e islâmicas, elas foram discutidas em nosso segundo encontro, e estão no material que disponibilizei para vocês. Assim, esclarecerei apenas o ponto sobre o chamado “Mahdismo” islâmico do século XIX – o termo “Messianismo” não é apropriado para nos referirmos a esse movimento no Islã. Um “mahdi” seria alguém divinamente escolhido para livrar uma comunidade do perigo. No século XIX, em decorrência da experiência do imperialismo europeu, muitos “mahdis” surgiram nos países de maioria muçulmana, especialmente na África. Esse movimento, obviamente, criou uma tensão com as formas mais “ortodoxas” de Islã. E isso mantém certas semelhanças com o que ocorreu no próprio Cristianismo, com seus movimentos “proféticos” (o Profetismo)… Mas já discutimos isso, logo não necessito tratar disso aqui novamente.

Para concluir, apesar de ser limitado tratar do desenvolvimento de compreensões escatológicas sem se levar em consideração o contexto sociocultural do lugar onde emergiram, é ainda muito mais limitado pensar que crenças religiosas sejam determinadas pelos contextos políticos ou econômicos nas quais surgiram. Essas crenças – parte da dimensão conceitual envolvem elementos daquela dimensão misteriosa à qual fiz menção, que não se justificariam apenas pela política ou economia. A abordagem interpretativa que abraço envolve as três “dimensões”: a objetiva, a misteriosa e a conceitual – ou seja, do encontro de nossa experiência com a dimensão objetiva com a dimensão misteriosa, participamos na construção da dimensão conceitual (que consiste em muito mais que apenas crença). Assim, a fé (a dimensão conceitual), em minha compreensão, é um processo de relações entre nossa experiência com o mundo, com outras pessoas, conosco mesmos, e desses com o “Mistério”; dessas relações emerge nossa compreensão – nossos conceitos.

Bem, é isso!… Quaisquer comentários, críticas ou dúvidas, é só me escrever.

Grande abraço a todas e todos!

+Gibson

domingo, 27 de setembro de 2015

Religião e Política: Mais uma vez, a incoerência do tal "Estatuto da Família"


Na direção contrária de líderes eclesiásticos protestantes de séculos e décadas passadas – que labutaram pela separação entre Igreja e Estado, pelo fim da escravidão, pelo tratamento digno dos mais pobres, pela igualdade jurídica das mulheres, pela igualdade plena de direitos de grupos sociais minoritários, pela proteção ao meio ambiente, pela construção da paz, etc etc etc –, muitos dos líderes eclesiásticos protestantes ou evangélicos (os dois adjetivos não são necessariamente sinônimos, já que o Evangelicalismo é apenas um movimento dentro do Protestantismo) atuantes no Poder Legislativo brasileiro preferem o caminho da segregação de direitos, por meio da imposição duma visão teológica incoerente. É um grande testemunho contrário àqueles exemplos de mulheres e homens do presente e dum passado nem tão longe assim. Uma vergonha!

Isso me faz pensar em meus irmãos protestantes ou evangélicos no Paquistão, que sofrem uma assombrosa perseguição, e cujos líderes pregam, em retorno, a compaixão, o perdão e o serviço àqueles que os perseguem. No Brasil, um país de relativa liberdade religiosa, os “vingadores de Cristo” (como os identificou um daqueles pregadores de TV) preferem retirar direitos de cidadãos em nome duma obsessão com a dita comunidade LGBT – sim, porque, como já escrevi antes, a raison d'être do “Estatuto da Família” é a guerra antigay, baseada numa moral sexual particular, levada adiante pelas bancadas religiosas no Legislativo brasileiro. Uma vergonha!

+Gibson

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Deus, Cristianismo, Inferno, Homossexualidade: Uma breve resposta a múltiplas provocações das últimas semanas



Infelizmente, por razões pessoais, tenho tido pouco tempo para responder à maioria das mensagens das últimas semanas. Por essa razão, responderei aqui, de forma breve e conjunta, a algumas das “provocações” de meus correspondentes. Assim que tiver tempo, oferecerei uma resta mais ampla. Perdoem-me pela brevidade.





Deus e Cristianismo



Como um cristão, encontro minha “janela” ou meu “caminho” para Deus na tradição cristã (na comunidade da Igreja, nas Escrituras, na Liturgia, na narrativa cristã, etc). Mas o Cristianismo é a resposta humana à Realidade que chamamos “Deus”, e não o contrário. Eu sou cristão, mas isso não significa que Deus seja cristão!





O Inferno



Não acredito na existência dum lugar objetivo para onde espíritos sejam enviados como condenação por seus pecados. O “inferno”, em minha visão, é uma metáfora para um estado espiritual/mental de alguém. Não se trata dum espaço geográfico no Universo. A crença na existência dum “inferno” físico contradiz minha compreensão acerca do Divino e da natureza do Universo.





Igreja e Homossexualidade



Tenho uma filosofia muito simples para resolver essa questão de compatibilidade: qualquer comunidade de fé é uma sociedade humana, com suas tradições e regras. Se você quiser fazer parte dessa sociedade, terá de se submeter às suas regras. Caso contrário, pode não ser membro de qualquer uma, pode buscar uma outra sociedade ou, quem sabe?, fundar sua própria.



Se uma determinada comunidade de fé ensina que isso ou aquilo é pecaminoso e que a punição pela "desobediência" às regras seja sua exclusão, você tem a escolha de se submeter às regras da mesma ou não – mas não terá poder para escolher as consequências por suas escolhas, no que tange à comunidade em si. Lembre-se que a filiação religiosa é uma associação voluntária, ou seja, ser membro duma comunidade de fé é voluntariamente se submeter às suas regras. Você não pode esperar que uma comunidade mude em função de você se isso contraria à compreensão que ela tem de si mesma. Mas você, por outro lado, pode encontrar uma outra comunidade!... Fazer esse tipo de escolha pode ser complicado e doloroso, mas é uma escolha justa para com os demais membros duma comunidade que não o aceite e íntegra consigo mesmo!





Ainda sobre Homossexualidade



Para mim, as pessoas são “humanas” (e tudo o que isso implica no contexto teológico e sociocultural) antes de serem qualquer outra coisa. As identidades que ou abraçamos ou nos são impostas – sejam as identidades nacionais, religiosas, políticas, ou emotivo-sexuais – são apenas partes dum todo muito maior. Nós somos muito mais do que essas partes separadas – e mais do que sua soma. Assim, tratar de si próprio ou de outra pessoa como se sua orientação emotivo-sexual fosse sua “essência” é negar a si próprio ou a outrem sua humanidade – que, na perspectiva teológica que abraço equivaleria a negar nossa origem na “dança divina” da Criação.





+Gibson

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Fé ou preconceito?: uma resposta a Ana


Ó homem, já foi explicado o que é bom e o que o Senhor exige de você: praticar o que é justo, amar a misericórdia, caminhar humildemente com o seu Deus.
(Miqueias 6:8)

Religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso Pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em aflição, e manter-se livre da corrupção do mundo.
(Tiago 1:27)

[…] Tratai com benevolência os vossos pais e parentes, os órfãos, os necessitados, o vizinho próximo, o vizinho estranho, o companheiro de lado, o viajante e os vossos servos, porque Deus não estima arrogante e pretensioso algum.
(Alcorão 4:36)

Cara Ana,

É importante que você perceba que nunca escrevi que não há “verdade”. Muito pelo contrário. Se você ler cuidadosamente o que tenho publicado aqui mesmo, neste blogue, perceberá que apenas enfatizo uma diferença epistemológica entre “verdade” e “factualidade”. Nem toda “verdade” é factualmente/objetivamente verificável: assim, por exemplo, o amor é uma “verdade”, apesar de não ser uma “factualidade” (porque não pode ser mensurado em si). Esse ponto é importantíssimo quando discuto temas concernentes à eticidade. Tendo dito isso, deixe-me responder às suas provocações.

Não. Não acredito que todas as religiões sejam igualmente “verdadeiras” (lembre-se da distinção que faço entre “verdade” e “factualidade”). Há muitas semelhanças entre diferentes tradições de fé, mas há, também, incontáveis diferenças – que podem ser, dependendo das tradições teológicas em questão, irreconciliáveis. Assim, para mim, há certos conceitos/doutrinas e práticas religiosos que não posso aceitar como “verdadeiros” ou “certos”, pois violam princípios teológicos que moldam minha compreensão do sagrado e/ou da “realidade” factual. [Todos esses termos podem parecer apenas um “emaranhado de palavras” para que eu pareça “mais inteligente do que realmente” sou – suas palavras –, mas eu as utilizo para evitar a armadilha da falsa objetivação do que não pode ser mensurado. E o público ao qual destino estas páginas é capaz de compreender os usos que faço.]

Baseada apenas numa lista de links e em uma única postagem aqui, você escreve que devo ser “um muçulmano disfarçado de cristão”. Essa é uma acusação que, no mínimo, segue em direção oposta ao que geralmente sou acusado. A maioria de meus denunciadores me acusam de ser um “ateu” ou “anticristo” disfarçado de cristão! [É bem verdade que já fui acusado de ser um “católico disfarçado de protestante”; “judeu disfarçado de cristão”; “comunista disfarçado de liberal”; etc, etc, etc. Mas, com sua acusação, atinjo um nível recorde de “disfarces”!]

Para esclarecer sua dúvida – ou seria “para desmentir sua certeza”?! –, sou um cristão liberal, com background judaico. Com tal perfil religioso, tenho muito em comum com alguns muçulmanos – com nossa preocupação em viver nossa fé, e não apenas proclamá-la com nossas bocas. Tenho muitos amigos muçulmanos. Já vivi num país de maioria muçulmana. E, em decorrência de minha formação cultural/acadêmica e minha experiência de vida, posso dizer que conheço o Islã razoavelmente bem. Por isso, sei distinguir o que é abraçado pela maioria do que é compreensão minoritária. Esse é um tipo de conhecimento, aliás, disponível a toda pessoa de boa vontade – só é necessário dar um passo para fora da bolha cultural na qual, muitas vezes, as pessoas se escondem e se separam do resto da humanidade. Posso ser fiel à minha própria fé religiosa e à minha própria visão de mundo sem ser desonesto quanto à fé e compreensão alheias – sem erroneamente atribuir-lhes certas compreensões, simplesmente para engrandecer minhas próprias.

Se há terroristas que se apresentam como muçulmanos – e que você, equivocadamente, vê como “representantes autorizados” do Islã –, também há terroristas, assassinos, ladrões, corruptos e corruptores que se apresenta(ra)m como cristãos ou judeus. E, nem por isso, você me escreve dizendo que todos os cristãos ou judeus são terroristas, assassinos, ladrões, corruptos, corruptores etc! Isso não lhe diz nada sobre sua própria visão de mundo? [...ou, ao menos, a visão de mundo que você exibiu em sua provocação?!…] A julgar pela forma como a maioria dos muçulmanos que conheci ou conheço se comportam e vivem suas vidas, tenho certeza que é sua visão de mundo que está equivocada.

Paz!
+Gibson

sábado, 5 de setembro de 2015

As Escrituras e a Declaração Universal dos Direitos Humanos já dizem o que acredito sobre aqueles(as) que buscam refúgio


Não escreverei mais nada sobre a situação de nossos irmãos e irmãs em busca de refúgio nas diferentes partes do mundo. Prefiro que as Escrituras e a Declaração Universal dos Direitos Humanos falem por mim:

"Se um estrangeiro vier habitar convosco na vossa terra, não o oprimireis, mas esteja ele entre vós como um compatriota, e tu o amarás como a ti mesmo, porque fostes já estrangeiros no Egito. Eu sou o Senhor, vosso Deus." (Levíticos 19:33-34)

"Quando o Filho do Homem voltar na sua glória e todos os anjos com ele, sentar-se-á no seu trono glorioso. Todas as nações se reunirão diante dele e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. Colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. Então o Rei dirá aos que estão à direita: - Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo, porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim. Perguntar-lhe-ão os justos: - Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos peregrino e te acolhemos, nu e te vestimos? Quando foi que te vimos enfermo ou na prisão e te fomos visitar? Responderá o Rei: - Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes." (Mateus 25:31-40)

"Jesus então contou: Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos de ladrões, que o despojaram; e depois de o terem maltratado com muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o meio morto. Por acaso desceu pelo mesmo caminho um sacerdote, viu-o e passou adiante. Igualmente um levita, chegando àquele lugar, viu-o e passou também adiante. Mas um samaritano que viajava, chegando àquele lugar, viu-o e moveu-se de compaixão. Aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; colocou-o sobre a sua própria montaria e levou-o a uma hospedaria e tratou dele. No dia seguinte, tirou dois denários e deu-os ao hospedeiro, dizendo-lhe: Trata dele e, quanto gastares a mais, na volta to pagarei. Qual destes três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões? Respondeu o doutor: Aquele que usou de misericórdia para com ele. Então Jesus lhe disse: Vai, e faze tu o mesmo." (Lucas 10:30-37)

"Artigo 13
I) Todo homem tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado.
II) Todo o homem tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio, e a este regressar.

Artigo 14
I) Todo o homem, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países.
II) Este direito não pode ser invocado em casos de perseguição legitimamente motivada por crimes de direito comum ou por atos contrários aos objetivos e princípios das Nações Unidas." (Declaração Universal dos Direitos Humanos)

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Aos “conservadores” políticos e religiosos que insistem em bater sempre na mesma tecla quando me escrevem


Se você pensa que me preocupo com imigrantes, com pessoas mais pobres do que eu, que defendo os direitos civis, levo questões ambientais a sério, sou a favor do controle de armas, renuncio à violência, etc, simplesmente porque seja de determinada persuasão política é porque você não conhece minha fé... Então, se quer realmente apontar um culpado por minha visão de mundo, a culpa é, em grande parte, de minha tradição religiosa, que afirma que Jesus ensinou em suas palavras e ações que só se pode amar a Deus quando se ama ao próximo – e o amor tem de ser demonstrado no cuidado com os seres humanos e com o todo da Criação!

+Gibson


terça-feira, 25 de agosto de 2015

Teologia Liberal ou Ideologia Socialista?


A julgar por algumas mensagens que tenho recebido ultimamente, imagino que algumas pessoas confundam minhas posições teológicas com posições políticas que, pessoalmente, não abraço. Muitos tendem a confundir, por exemplo, a defesa duma teologia “liberal” ou “progressista” como sinônimo da defesa de visões políticas “socialistas” ou “marxistas” de minha parte. Este texto é um esclarecimento pessoal a respeito disso.

Em primeiro lugar, é bom que eu deixe claro, mais uma vez, que sou contrário à mistura de Igreja e Estado – isso, na verdade, é um dogma para mim, no que concerne à vida numa República. Isso significa, inclusive, que sou contrário à utilização do púlpito e das instituições eclesiásticas para a promoção de candidatos a cargos eletivos e de partidos políticos. Levo muitíssimo a sério a advertência evangélica, quando atribui a Jesus as palavras “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” (Mateus 22:21)

Isso, obviamente, não quer dizer que consiga me despir de minhas perspectivas políticas quando lido com temas teológicos – ou vice versa. Mas, estou comprometido em não mesclar institucionalmente, de forma ativa e consciente, minhas perspectivas políticas pessoais e meus compromissos eclesiásticos.

Este blog não é um espaço eclesiástico, per se. Mas está ligado às minhas atividades como um Ministro da Palavra e do Sacramento. Logo, estendo aquele meu compromisso ético a estas páginas. Nunca incentivei voto em candidatos políticos aqui, e estou compromissado em nunca fazê-lo – mesmo que eu tenha minhas próprias convicções eleitorais.

Contudo, para que fiquem claras minhas posições a meus leitores: Não sou um comunista. Não sou um socialista. Não sou um marxista. Não sou um anarquista. O termo progressista – quando o uso, o que é uma raridade, apesar do endereço deste blog – aqui não significa nenhuma dessas posições.

Politicamente, declaro-me como um liberal democrata. Um cidadão politicamente liberal e comprometido com a democracia. Escrevo explicitamente sobre minhas opiniões políticas em outro espaço – no blog chamado “O Farol da Liberdade: A Voz do Liberal Democrata”. Minhas ideias são geralmente vistas pelos ditos “esquerdistas” brasileiros como sendo de “direita”, e pelos ditos “direitistas” como sendo de “esquerda”. Eu as classifico como sendo simplesmente “políticas” – da mesma forma como prefiro, honestamente, classificar minha fé simplesmente como "cristã", como pregava o Rev. James Martineau.

Apesar de minha fé cristã ser “política” – porque não é uma fé vivida apenas individualmente, mas exige a comunidade (a Igreja) para ser praticada –, não a confundo com credos políticos. Assim, mesmo que, eventualmente, trata de temas que envolvam a política eleitoral ou partidária nos textos que publico aqui, tenho o cuidado de não impor minhas visões partidárias aos leitores deste blog.

Se meu liberalismo teológico parece, às vezes, estar associado a ideias socialistas no que tange aos costumes, isso ocorre porque no Brasil a visão de tais temas é mais “conservadora” (um qualificativo inapropriado, considerando que me considero conservador, uma vez tento conservar minhas visões liberais!) que aquelas que braço. Se, por outro lado, posso parecer, às vezes, misturar meus liberalismos – o teológico e o político –, isso ocorre por os dois estarem historicamente ligados em suas origens e desenvolvimento.

Resta apenas enfatizar que este blog trata de teologia, fé, prática religiosa, Igreja, tradições cristãs. Não de “política” partidária ou daquelas ideologias propriamente identificadas como “políticas”. O que há de “político” aqui corresponde à “natureza” social da fé cristã.

Paz!

+Gibson