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domingo, 27 de março de 2016

O Jesus que salva: notas sobre temas pascais, dum ministro unitarista


A Paixão comercializada

Como muitos sabem, sou um cinéfilo e, como tal, tendo a não apenas assistir a muitos filmes assim como também a me envolver em conversas sobre eles com meus amigos. Hoje, lembrei-me das acirradas discussões que tivemos, em 2004, acerca do filme A Paixão de Cristo [The Passion of the Christ], de Mel Gibson. Lembro-me que quando o filme foi lançado nos Estados Unidos, centenas e centenas de igrejas cristãs das mais diferentes tradições organizavam idas coletivas ao cinema para assisti-lo. Para muitas daquelas pessoas aquele parecia ser um exercício espiritual, uma forma de experiência sacramental na qual se efetuava um encontro com Cristo. Eu, contrariamente, senti-me majoritariamente ofendido tanto pelo filme quanto pelo que percebi como uma comercialização explícita da fé. [De certa forma, não tão diferente do que ocorre hoje, no Brasil, com o filme Os Dez Mandamentos, de Alexandre Avancini, e não tão diferente do que ocorre com a Paixão de Cristo, de Nova Jerusalém, em Pernambuco.]

As críticas que fiz em 2004, em conversas informais e no púlpito, ainda são válidas. Quando a fé cede à força do consumismo, corre-se o risco de abrir mão do que há de mais belo na tradição, e de deixar de encontrar novos sentidos para o encontro com o Divino. Transformar as narrativas das tradições sagradas em mercadoria que possa ser vendida e comprada, num entretenimento fomentador duma “religiosidade” imediatista, é baratear a experiência com o Divino e, portanto, consigo mesmo – e para mim, como um unitarista, tal tipo de experiência (com o Divino e/ou consigo mesmo) deve envolver tanto as emoções quanto a razão.

Será, então, que filmes, a seleção de astros e estrelas do cinema ou da TV, e o merchandising produzido para acompanhá-los, são realmente feitos com a finalidade primordial de servirem de testemunho religioso e para a “edificação espiritual” dos espectadores?... Eu, com todo respeito às experiências de outras pessoas – e mesmo acreditando firmemente que toda e qualquer experiência possa ser espiritual –, duvido disso! Por mais que as obras possam, sim, ser utilizadas como instrumentos pedagógicos para a espiritualidade de alguém, e por mais que o trabalho dos participantes seja belo, agradável, inspirador e merecedor de reconhecimento, a forma como essas obras muitas vezes são promovidas pode contribuir para a espetacularização duma compreensão literalista da tradição cristã – se foram divulgadas, como muitas vezes o são, como expressão da “verdade da fé”.


A diversidade do Cristo

A observação aparentemente incompassiva que faço sobre esses tipos de entretenimento relaciona-se com as diferentes compreensões que os diferentes cristãos abraçam acerca de sua própria fé. Ela não reflete uma verdade inquestionável; reflete, antes, minhas percepções particulares. E as cito aqui por terem sido tema de conversas que mantive esta semana com amigos e paroquianos. Tenho sempre dito que a diversidade de compreensões na grande tenda da tradição cristã é o que a torna fascinantemente bela para mim. Essa diversidade é o que faz com que me refira a “Cristianismos”, no plural, em vez de “Cristianismo”, no singular. As diferentes tradições teológicas cristãs oferecem as mais variadas compreensões acerca dos mais variados temas, incluindo os concernentes à vida, ensinamentos, morte e ressurreição de Jesus – temas tão importantes para as diferentes celebrações do calendário da Igreja cristã, como a Páscoa.

Apesar de ser um cristão unitarista – e, por isso, poder ser visto pela maioria como um “heteredoxo” ou “herege” – e, assim, não poder concordar com aqueles meus irmãos cristãos que chamam Jesus Cristo de “Deus”, concordo com o que eles possivelmente queiram dizer quando o identificam dessa forma. Como afirmado pelo unitarista Rev. James Freeman Clarke, em 1841, em Jesus também identifico uma manifestação de Deus. Nele encontro Deus reconciliando o mundo a Si. Em Jesus encontro uma imagem do Deus invisível que não encontro de forma tão explícita em ninguém ou nada mais. Desta forma, as palavras, atos e caráter atribuídos a Jesus Cristo são as palavras, atos e caráter [que atribuo à minha compreensão] de Deus. Como um cristão, posso dizer que ver o Jesus retratado pela Tradição é ver Deus [¹]. Nesse aspecto, pelo menos, como um unitarista, compartilho da fé professada por cristãos de outras expressões – mesmo aqueles que me acusam de heresia e/ou apostasia.

É minha convicção que todas as nossas compreensões da Divindade só podem ser parciais. Nossas ideias sobre Deus e sua relação com a criação – o que inclui nossas ideias sobre Jesus – são contextuais e relativas; isto é, dependem de quem somos e de nossos contextos pessoais e/ou comunitários, sincrônica e diacronicamente considerados [*]. Assim, se você tiver mais de 35 anos, como eu, já deve ter percebido que suas compreensões acerca da Divindade – para não citar aquelas acerca do mundo ao seu redor – mudaram ao longo do tempo. Essas compreensões provavelmente emergiram do encontro entre suas experiências com o Divino e as coisas que você aprendeu sobre o mundo, das ideias teológicas/filosóficas/políticas/científicas às quais foi exposto(a), das comunidades de fé às quais se juntou, dos livros que leu, das pessoas com as quais conviveu ou conheceu, dos desafios que enfrentou, enfim, das suas experiências de vida. Por mais imutáveis que possam parecer nossas diferentes formas de fé religiosa, elas, na verdade, não o são.

Além dessa mutabilidade característica de nossas ideias pessoais, também não se pode desconsiderar a mutabilidade das ideias ensinadas pelas diferentes tradições de fé – o que inclui as diferentes comunhões/denominações cristãs ao redor do mundo e ao longo do tempo, em comparação com as demais e com as diferentes expressões em seu próprio interior. Assim, nunca poderemos conhecer plenamente todas as compreensões cristãs possíveis acerca da própria tradição cristã – a não ser, obviamente, que sejamos suficientemente arrogantes para supor que nossa expressão de fé seja a única “verdadeira”, que apenas a nossa tradição seja “a verdade” de Deus. Nós unitaristas tradicionalmente rejeitamos a essa visão – e eu, pessoalmente, não tenho nenhuma simpatia para com qualquer dogmatismo exclusivista, seja relativo ao(s) próprio(s) Cristianismo(s), seja no que tange à sua relação com outras tradições religiosas.


Jesus vive e salva

No(s) Cristianismo(s), a ideia de “salvação” relaciona-se diretamente à pessoa de Jesus Cristo. Dependendo da compreensão que se tenha sobre a identidade de Jesus e do sentido de sua morte e ressurreição, se professará uma compreensão soteriológica – isto é, de como ocorre/opera-se a “salvação”. Assim, não há uma visão única do sentido da Páscoa cristã, como, por exemplo, o filme de Mel Gibson ou as diferentes representações populares da “Paixão” Brasil afora poderiam sugerir; há diferentes formas legítimas de compreender Deus, Jesus Cristo, o Espírito Santo, a Páscoa, a salvação etc.

O falecido teólogo e professor Marcus J. Borg, sob quem tive o privilégio de estudar e aprender muitíssimo, discute, num de seus mais populares livros [²], três das grandes tradições teológicas cristãs acerca da morte e ressurreição de Cristo – discutidas pelo teólogo e bispo luterano sueco Gustaf Aulen, num livro publicado em 1931 [**]. A primeira dessas compreensões, chamada, em latim, de Christus Victor [Cristo Vitorioso], mantém uma relação com a narrativa bíblica do êxodo e aponta como a mais importante obra de Cristo sua vitória sobre aquilo que escraviza a humanidade, incluindo o pecado, a morte e o “diabo”. A segunda é chamada de substitutiva ou objetiva, para a qual a morte de Cristo é um sacrifício que possibilita o perdão de Deus, e na qual essa morte é enxergada através da narrativa sacerdotal/sacrificial. A terceira, correlacionada à narrativa do exílio, retrata a Jesus nem como alguém que triunfe sobre o que nos escraviza nem como um sacrifício pelos nossos pecados, mas como um revelador da verdade [***] – isto é, como revelador de Deus, como luz que nos salva da escuridão do exílio, de sua morte e ressurreição como uma revelação do caminho de retorno, como uma revelação do “processo espiritual interno que nos traz a uma relação experiencial com o Espírito de Deus”; ou seja, Jesus é compreendido como a encarnação do caminho de retorno do exílio. [³]

Não é necessário um grande conhecimento de História da Igreja para perceber qual conjunto de compreensões acima parece ser dominante tanto no meio cristão quanto na compreensão que a sociedade como um todo tem do(s) Cristianismo(s). A narrativa sacerdotal – aquela que vê a morte de Cristo como um sacrifício necessário ao perdão da humanidade por Deus, de forma substitutiva (em lugar de outros), isto é, que Jesus teria carregado sobre si a culpa dos pecadores e sofrido a pena que mereciam (a morte) – está explícita na maioria das representações da morte de Jesus (nos hinos, nas declarações de fé, nos sermões, nos filmes, nas peças teatrais etc). Apesar de essa linguagem sacerdotal/sacrificial já estar presente no próprio Novo Testamento, essa compreensão só se tornou dominante na Igreja ocidental a partir duma obra escrita por Anselmo, Cur Deus Homo?, de 1097. Ela resgata e cristianiza não apenas as antigas ideias sacrificiais de tradições religiosas mais antigas, mas também as ideias e linguagem do Direito Romano.

Obviamente, a linguagem sacrificial e legalista utilizada para se referir ao Divino em sua relação com a Criação – quando, por exemplo, se afirma que Deus exigiria a morte dum inocente para que sua ira não se voltasse contra a humanidade pecadora – é uma compreensão legítima da fé cristã. Essa é, também, a compreensão oficial da maioria das tradições cristãs ocidentais. Mas isso não muda o fato de que, para mim, é uma compreensão repulsiva. Pessoalmente, me recusaria a adorar uma deidade que expressasse “seu amor” através da exigência de sacrifícios de sangue – e isso porque, se esse fosse o caso, eu seria mais compassivo que essa deidade. Logo, a linguagem metafórica do “sacrifício” e do “sangue” não apela à minha espiritualidade nem à minha integridade intelectual – independentemente de onde se encontre e de quem a tenha utilizado. Tenho de utilizar outras imagens para me referir ao meu encontro com o Divino.

Como a metáfora do exílio é cara à minha compreensão do Divino – porque apela às minhas próprias experiências de vida –, você pode imaginar qual daqueles conjuntos de compreensões molda minha visão daquilo que é celebrado na Páscoa. Como tenho afirmado muitas vezes, compreender a fé cristã como uma Jornada ou um Caminho é muito importante para a forma como compreendo e falo sobre minha fé. Jesus, em minha compreensão, me salva não por ter sido imolado como sacrifício por meus pecados, mas porque os ensinamentos e as ações que lhes foram atribuídos me mostram o Caminho para Deus, e guiam minha Jornada.

Esse Jesus humano, que possivelmente experienciou muitas das limitações e desafios que eu mesmo experiencio – independentemente de quão factuais ou não factuais sejam os relatos a seu respeito –, é meu Salvador por ser minha janela para a “face de Deus” e minha porta para sua presença. É por isso que sou um cristão, é por isso que celebro a Páscoa. Jesus é meu Salvador porque a tradição a seu respeito faz com que queira abandonar minha indiferença ao sofrimento de migrantes paralegais e refugiados. Ele é meu Salvador porque as narrativas a seu respeito me fazem querer ser mais preocupado com os que sofrem rejeição por não corresponderem às minhas próprias expectativas. Ele é meu Salvador porque o que se diz a seu respeito me faz crer que tenha materializado o amor à humanidade de forma plena – e, assim, me ensina que essa é a única forma de “amar” o Eterno.

Hoje celebro a salvação oferecida pela companhia do homem Jesus em minha Jornada rumo a Deus. Jesus, refugiado, pobre, rabino compassivo e não sofisticado, profeta rejeitado, filho de Deus, Salvador de minha fé e de minha relação com a humanidade.

Ele verdadeiramente vive. Aleluia!

Cristo nasce em nós quando abrimos nossos corações à inocência e ao amor. Cristo vive em nós quando caminhamos a senda do perdão, reconciliação e compaixão. Cristo morre em nós quando nos rendemos à nossa própria arrogância, egoísmo e ódio. Cristo ressuscita em nós quando nossas almas se despertam da morte espiritual para se unirem à comunidade de amor, para entrar no reino divino aqui mesmo neste mundo. Saiamos em paz. Amém.”



Notas:

[*] Considerar algo de forma sincrônica significa considerá-lo(a) através de seus diferentes aspectos. Considerar algo de forma diacrônica significa vislumbrá-lo(a) através do seu desenvolvimento ao longo do tempo.

[**] A tradução em inglês é referenciada pelo próprio Borg: AULEN, Gustaf. Christus Victor. Tradução ao inglês de A. G. Hebert. Nova York, EUA: Macmillan, 1969. [Originalmente publicado em 1931.]

[***] Aulen a chamara de subjetiva, mas Borg não concordava com a forma como o teólogo sueco a descrevera.


Referências

[1] CLARKE, James Freeman. The Well-Instructed Scribe, or, Reform and Conservatism: A Sermon Preached at the Installation of Rev. George F. Simmons, and Rev. Samuel Ripley, as Pastor and Associate Pastor Over The Union Congregational Society in Waltham, Mass. October 27, 1841. Boston, EUA: Benjamin H. Greene, 1841. p.11.

[2] BORG, Marcus J. Meeting Jesus Again for the First Time: the Historical Jesus & the Heart of Contemporary Faith. Nova York, EUA: HarperCollins, 1994.

[3] Ibid., p.128.


sexta-feira, 4 de março de 2016

Escrituras Sagradas: uma resposta a algumas perguntas levantadas por um amigo ao meu sermão de 28 de fevereiro


Permita-me iniciar dizendo que é necessário, muitas vezes, fazer um exercício de mudança de perspectiva para que possamos construir uma compreensão das crenças de outras pessoas – isto é, quando saímos de nossa própria posição e nos esforçamos para observar algo a partir da posição de outra pessoa, podemos compreender melhor sua visão. Quando, por exemplo, disse o que disse sobre o tema em discussão, estava apenas demonstrando minha compreensão de que minha própria perspectiva não é a única possível – afinal, não posso esperar que todas as pessoas pensem da mesma forma que eu, seja sobre religião, seja sobre qualquer outro assunto.

Interpretar as Escrituras de forma metafórica não é “equivalente a se afastar da Tradição cristã”. A visão de que as Escrituras devam ser interpretadas literalmente por terem sido factualmente ditadas por Deus e por serem sinônimo de “história factual” é uma compreensão moderna tanto de “inspiração” quanto de “história”; uma compreensão que emergiu como resposta ao chamado “Iluminismo”. Assim, é essa visão que se afasta da Tradição, quando abandona a possibilidade de interpretações metafóricas dos textos sagrados, engessando, assim, o sentido do texto a uma interpretação rígida – e não o contrário.

Mas já tratei tanto disso tanto na igreja quanto aqui, que seria repetitivo se abordasse a mesma questão mais uma vez. Contudo, posso explicitar mais diretamente minha visão teológica pessoal sobre “Escrituras”, no contexto da discussão sobre canonicidade que abordei naquele sermão.

Como já deve ser bem conhecido, não compreendo a sacralidade/canonicidade das Escrituras como decorrente duma origem divina, mas, sim, como decorrente dum processo humano de legitimidade da Tradição – visão essa, a propósito, que é dominante em nossa comunidade de fé. Assim, a “Bíblia” não é texto sagrado porque suas palavras foram ditadas por Deus a profetas, mas, antes, porque aqueles conjuntos de textos passaram por um processo de “canonização”/”sacralização por parte das comunidades que os aceitaram como texto sagrado.

Esse mesmo processo esteve presente não apenas nas comunidades [proto-]ortodoxas judaicas e cristãs que proclamaram a Bíblia como Escritura. Processos semelhantes também marcaram a origem de textos sagrados de outras tradições de fé, como o [Al]Corão, o Livro de Mórmon, e Doutrina e Convênios – que foram os textos sobre os quais discuti em meu sermão –, assim como os textos sagrados de outras tradições que não abordei. Assim, esses textos são, sim, sagrados; são, sim, Escrituras. Podem não ser Escrituras sagradas para você ou para mim, mas o são para os adeptos das tradições que os consideram sagrados – e isso é suficiente para que eu me refira a eles como “sagrados”.

A Bíblia é, para minha própria compreensão e experiência de fé, um conjunto de textos sagrados. Apesar de não compreendê-la, necessariamente, como relato factual nem da história humana nem divina, ela é a base de minha compreensão de fé. E isso ocorre porque minha fé – uma expressão do(s) Cristianismo(s) – é uma fé “do Livro” (como, a propósito, a ela se refere a tradição islâmica). Isto é, o(s) Cristianismo(s), assim como o(s) Judaísmo(s) e o(s) Islã(s), é uma tradição construído ao redor de textos religiosos que foram sacralizados pela comunidade de fé.

Assim, aqueles textos que abordei em meu sermão – o Livro de Mórmon, Doutrina e Convênios (ambos, como editados pela Comunidade de Cristo); e o [Al]Corão – são Escritura Sagrada, apesar de eu não acreditar que tenham uma origem factualmente divina, se por isso quiser dizer que foram ditados por Deus a seres humanos ou que tenham caído miraculosamente do céu, ou que anjos os tenham depositado em mãos humanas. Também não acredito nisso no que concerne à Bíblia!... Isso, porém, não muda em nada seu status canônico para aqueles que os aceitam como Escritura – não muda, pelo menos, minha aceitação da Bíblia como Escritura Sagrada. Para entender minha posição, você só precisa se lembrar de onde emerge a “sacralidade”, em minha compreensão: da Tradição construída, vivida e transmitida pelo corpo de fiéis – isto é, para mim, a fé religiosa tem uma história; ela é a resposta humana ao seu encontro com o Divino. As Escrituras são a resposta dada por diferentes autores, em diferentes lugares, em diferentes línguas, a partir de diferentes experiências culturais e espirituais ao Mistério que eu chamo de Deus.

Reconhecer e considerar como legítimas as experiências e perspectivas de outras tradições não diminui minha crença em minha própria fé. O que faz é ampliar minha compreensão tanto da humanidade quanto da Divindade. Obviamente, ainda discordo das compreensões de fé que colidem com as minhas próprias – e continuarei a criticá-las, se necessário –, mas isso não significa que me recusarei a reconhecer a “verdade” quando ouvi-la a partir da voz de outra tradição. É uma questão tanto de maturidade quanto de integridade intelectual.

Grande abraço!

+Gibson

sábado, 30 de janeiro de 2016

Somos inimigos por discordarmos em nossas crenças?




[*Correção da tradução: “Apenas um estranho no ônibus, tentando fazer seu caminho de casa” → “...tentando voltar para casa”.]


Sempre serei grato por duas pequenas [grandes] coisas que me foram ensinadas desde cedo: 1) que podemos pensar/acreditar de forma diferente de outras pessoas – essa é uma liberdade concedida por Deus e pela Declaração Universal dos Direitos Humanos; 2) que ninguém é meu inimigo simplesmente por discordar de minhas posições/crenças, e vice-versa.

Sendo quem sou, é difícil não olhar para o mundo ao meu redor sem me lembrar dos chamados “conflitos religiosos” que têm marcado a história humana. As aspas (“ ”), a propósito, indicam minha discordância com a adjetivação daqueles tipos de conflito que tão prontamente indicam como “religiosos”: isso porque chamá-los de “religiosos” implica num reconhecimento, mesmo que involuntário, ou de que a “religião” (que muitos interpretam como sendo uma “religação” ou “retorno” ao Divino) seja um fenômeno fundamentalmente violento, ou de que a violência possa ser legitimamente designada como “religiosa” (ou seja, que possamos nos relacionar com o Divino por meio da violência) – eu, obviamente, rejeito as duas premissas.

Observando o que tem ocorrido ao meu redor, não posso deixar de perceber o quão difícil é ver aqueles dois princípios que me foram ensinados sendo aplicados no mundo, e o quão difícil é manter a lealdade a eles. Isso porque hoje, mais do que em qualquer outra época em minha relativamente curta vida, pensar/crer diferentemente de outros parece ser encarado como uma ameaça beligerante – seja em termos de fé religiosa, em termos de política ou de qualquer outra coisa.

Pessoalmente, aprecio muito a diversidade do [e no] mundo. Prefiro uma realidade multicolor à bicoloridade que alguns impõem ao mundo. Tudo é muito mais “belo” por haver cores, formas, sons, aromas, crenças diferentes. A vida espiritual é muito mais rica por haver milhares de formas diferentes de compreender a relação entre o “objetivo” e o “misterioso”, entre a “Criação” e o “Criador”. Mesmo o Cristianismo é muito mais belo, e muito mais vivo, justamente por haver centenas de formas distintas de compreendê-lo e de praticá-lo.

Quando olho para essa diversidade e me reconheço como um dos elementos para as diferenças de tonalidade, não posso ver outras pessoas como minhas inimigas – por mais que discorde de suas crenças e, intelectualmente, as critique. Como eu, no que tange à experiência “religiosa”, elas são viajantes numa trilha de descoberta do Divino. Elas mesmas podem não interpretar suas e minhas experiências dessa forma, mas, ao menos em nossa experiência de busca, compartilhamos semelhanças.

Pessoalmente, acredito em revelação divina. Acredito que aquela Realidade que chamo de Deus se revela ao ser humano de inúmeras formas. A maioria dos cristãos, talvez, diria que Deus se revela por meio das Escrituras (a Bíblia). Eu também acredito nisso. Mas, para mim, Deus se revela também por meio de nossas relações com as outras pessoas; por meio da comunidade de fé; por meio da natureza; por meio da oração; por meio do trabalho; por meio da arte e do entretenimento; por meio da ciência e do conhecimento intelectual; enfim, por meio da história humana.


Deus está sempre falando. Nós, talvez, é que não ouvimos. Deus fala, algumas vezes, inclusive por meio das vozes daqueles de quem discordamos. Por isso, não posso vê-los como meus inimigos.

+Gibson

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

O teólogo entrevistado, o Islã e a mentecapta naturalidade


Ontem, ouvi um comentário que me fez não saber se ria ou se chorava, enquanto ouvia uma entrevista. Aquele entrevistado, apresentado como “teólogo”, resumia o cenário dum capítulo infeliz da história de 2015 – um capítulo que parece querer reescrever uma narrativa já conhecida de “caça às bruxas”. O “teólogo”, fazendo uma comparação histórica e teologicamente desinformada entre o Islã e o Cristianismo, dizia que não havia nada de naturalmente pacífico no Islã, já que – em sua opinião – só o Cristianismo era naturalmente pacífico!

Sua infeliz afirmação continha uma verdade inegável: não há nada de naturalmente pacífico no Islã!... E considero-a inegável porque, em minha visão, ideias não são naturais, conceitos não são naturais, crenças não são naturais... Logo após esse reconhecimento da não-naturalidade das ideias islâmicas, entretanto, ele inadvertidamente se contradisse, cometendo o equívoco de afirmar que essa naturalidade podia ser encontrada em sua própria tradição religiosa (da qual também partilho)!

O indivíduo cuja entrevista ouvi, aparentemente não compreendia que o Islã é uma noção contestada – assim como o Cristianismo (e mesmo a Paz). E isso porque o uso de todas essas noções é reflexivo: isto é, seu uso reflete mais o lugar onde o usuário se encontra no espectro do debate religioso/político/ideológico do que, propriamente, as continuidades e mudanças de sentido dado a eles (Islã e Cristianismo) por todo o diverso corpo de seus adeptos ao longo do tempo.

Assim, se dissermos que o Cristianismo (uma noção contestada ao menos pelas diferentes tradições autoidentificadas como “cristãs”) é “naturalmente” pacífico, a qual versão do mesmo estaríamos nos referindo? [Não poderia ser a de Jesus, já que ele não era cristão!]: À versão do imperador romano que o oficializou? À versão dos cavaleiros cruzados que dizimaram populações não cristãs? À versão dos inquisidores católicos que caçaram não-conformistas no mundo ibérico? À versão dos calvinistas bôeres que criaram/apoiavam o sistema do apartheid na África do Sul? À versão dos quakers (quacres) que proclamaram e viveram uma versão extremada de pacifismo?... É impossível falar em “naturalidade” duma mensagem quando não se consegue nem definir quem sejam seus agentes. [Para que não reste dúvida quanto à minha visão: o Cristianismo – minha fé – é uma criação histórica múltipla, e todas as suas faces são “cristãs”! Não é uma entidade ou objeto “natural”, que caiu pronto do “céu”. O Cristianismo, enquanto existir, continuará a seguir seu processo de formação – como toda e qualquer tradição de fé existente.]

É “interessantíssimo” que a maioria dos denunciadores do Islã que aparecem nos meios midiáticos, incluindo a internet, tenham uma leitura bem seletiva das fontes islâmicas. Isto é, facilmente citam trechos descontextualizados do Corão para “provar” o quão violenta é a mensagem do Islã. E isso é ainda mais “interessante” quando o assunto é política (e não exatamente religião).

Uma contextualização intelectualmente íntegra do Islã exige que incluamos aqueles antecedentes que os próprios muçulmanos utilizam como fonte para a interpretação de sua própria fé: a narrativa sobre Muhammad e os primeiros muçulmanos; a perspectiva teológica mediada pelo Corão e pelos ditos de seu Profeta; os arranjos institucionais e legais que se desenvolveram ao longo da emergência do Islã como uma força política e sociocultural; e sua própria experiência contemporânea. Grupos de fanáticos “terroristas” (lembre-se que mesmo esse conceito é contestável, se estivermos dispostos a analisar cuidadosamente a raison d'être de seu uso!) não podem ser os definidores do que mais de 1 bilhão e meio de pessoas acreditam – são elas, a partir de suas diferentes tradições e de suas próprias convicções e práticas, que devem definir suas próprias crenças.

Por que utilizaríamos citações da al-Qa'ida ou do Da'ish para definir o que os muçulmanos acreditam ser o Islã ou sua relação com a paz e com o mundo em geral? Por que nenhuma citação do atual establishment ortodoxo sunni ou shia? Por que toda uma tradição – que, na verdade, é multifacetada – seria definida por vozes marginais em seu próprio interior?

A equalização desinformada do Islã com o terrorismo e a violência é tão absurda quanto afirmar que o Cristianismo e o Fascismo, por exemplo, sejam sinônimo. O Fascismo pode ter emergido no seio duma sociedade majoritariamente (ao menos nominalmente) cristã; seus líderes podem ter se apropriado de símbolos cristãos; muitos cristãos podem ter abraçado o Fascismo; mas nada disso é suficiente para supor ou afirmar que o Cristianismo e o Fascismo sejam o mesmo – o Cristianismo é muito mais do que o pensamento ou a experiência de um certo grupo de fieis. [A comparação aparentemente exagerada, a propósito, se justifica pelo simples fato de os movimentos jihadistas serem movimentos políticos – e politizarem o Islã, utilizando-o a seu próprio favor –, de forma semelhante ao que ocorreu entre movimentos fascistas e membros do clero ou fiéis católicos italianos, eslovacos e croatas.]

O Islã não é “naturalmente” nem violento nem pacífico. Isso porque, para um não-muçulmano como eu, o Islã não é uma entidade ou objeto “natural”. É uma construção histórica. E, como construção histórica, pode ser tanto pacífico quanto violento. Tudo depende a partir de que perspectivas olhemos para seus frutos.

O Islã é uma tradição viva e multifacetada, na qual a maioria dos fiéis se esforça para discernir as ligações entre a narrativa histórica tomada como padrão exemplar e sua experiência contemporânea. Exatamente o que fazem os seguidores de todas as demais tradições enraizadas no texto escrito. Seus textos sagrados, as interpretações desses feitas pelas primeiras autoridades da tradição, as narrativas das experiências das primeiras comunidades de seguidores, e as ideias e práticas que se desenvolveram ao longo do tempo, contribuem para que os fieis judeus, cristãos, muçulmanos, etc, etc, etc, construam uma interpretação de sua fé relevante para sua experiência contemporânea – mesmo quando pensam que a única coisa que fazem é seguir o que já foi dado!... Ignorar isso, enquanto se apresenta como “teólogo”, é uma estarrecedora manifestação de ignorância voluntária!

+Gibson

sábado, 26 de dezembro de 2015

Um breve resgate da origem judaica do Natal: O mito natalino para um ministro cristão unitarista



[NOTA: Os termos e/ou trechos em grego e hebraico, ao longo do texto, são apenas transliterações.]

Começo com uma afirmação básica necessária: pouquíssimos estudiosos sérios questionam a existência de Jesus como um personagem real da história. São numerosas as fontes romanas, judaicas e cristãs sobre Jesus. Elas, obviamente, afirmam opiniões diversas a seu respeito, mas são aceitas como evidências suficientes de sua historicidade.

Quando Yeshua – o nome de Jesus em sua provável língua nativa, o aramaico (apesar de nenhum dos evangelhos explicitarem a língua falada por Jesus, pouquíssimas pessoas, além da elite dos escribas, podiam, àquela época, falar, ler ou escrever o hebraico bíblico; e os galileus falavam aramaico, não hebraico) – nasceu, seus conterrâneos viviam sob a tirania de conquistadores estrangeiros e sob o que entendiam como uma ameaça à sua identidade israelita advinda da assimilação cultural (uma ameaça recorrente à ideia duma identidade israelita ou judaica). A identidade israelita de seu povo enraizava-se na terra e no “mito” duma aliança que tornara aquela terra sua. Essa aliança mitológica era o escudo e a resistência que aquele povo tinha contra as forças imperiais romanas – uma fortaleza cultural que permaneceu de pé, mesmo depois de todas as instituições políticas e militares de Israel terem sido derrotadas.

A mitológica aliança que ligava aquele povo à sua terra emergira da compreensão que tinha das tradições israelitas. Essa compreensão advinha não do texto escrito da Torá e dos Profetas em hebraico – que pouquíssimos eram capazes de ler, de qualquer forma –, mas de seu “targum” oral. Um “targum” era uma tradução oral do texto das Escrituras que era memorizada e enriquecida por comentários, e recitada pelo “targeman” da comunidade. Essa recitação interpretativa das Escrituras contextualizava a tradição espiritual israelita para as circunstâncias de seu tempo, fazendo um amplo uso de leituras metafóricas. Dentre as muitas imagens enfatizadas por essa tradição interpretativa estava aquela do “Reino/Domínio de Deus” [basileia tou theou, no grego do Novo Testamento], que sobrepujaria todas as outras formas de reino ou domínio humano – uma forma de resistência poderosa para um povo que vivia sob o domínio estrangeiro.

Foi nesse contexto sociocultural que Miriam (Maria, em aramaico) e Yosef (José, em aramaico) conceberam a Yeshua (Jesus).

O texto grego de Mateus afirma:


tou de iesou christou he gennesis houtos en mnesteutheises gar tes metros autou marias to ioseph prin e sunelthein authos heurethe en gastri echousa ek pneumatos hagiou.” [A origem de Jesus, o ungido, foi assim: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José, e, antes de viverem juntos, ela ficou grávida por ação do Espírito Santo.] (Mateus 1:18)


O mito que envolve a narrativa natalina pode obscurecer o sentido histórico das palavras acima, extraídas do Evangelho de Mateus (“...antes de viverem juntos, ela ficou grávida por ação do Espírito Santo”). Em nossa cultura, afinal, a maioria de nós foi condicionada a interpretar aquelas palavras com base nos dogmas da Encarnação e da Trindade desenvolvidos posteriormente. Mas a tradição presente nos diferentes Evangelhos testifica sobre a recorrente acusação de que Jesus fora concebido de forma supostamente ilícita. Em sua vila de origem, de acordo com o autor do Evangelho de Marcos, ela era conhecido não como filho de José, mas como “o filho de Maria” [ho huios marias] (Marcos 6:3) – o que, se factual, seria uma evidência de seu status de ilegitimidade, já que as noções de “encarnação” e “trindade” ainda não haviam sido desenvolvidas. Mesmo longe de sua vila de origem, por exemplo, quando já era um rabino conhecido, Jesus foi ridicularizado, em Jerusalém, por haver nascido como fruto de “porneias” [fornicação] (João 8:41). Os séculos de dogmas acerca duma concepção e nascimento miraculosos obscureceriam dois pontos importantes sobre a narrativa que temos sobre Jesus: 1) Por que Jesus era insultado por supostamente ser filho ilegítimo?; e, 2) Por que se desenvolveu a narrativa de que teria nascido duma mãe virgem?

Aquela pequena frase em Mateus 1:18, enfatizada acima, é uma explicação suficiente para as acusações que marcariam a vida de Jesus de que seu nascimento possuía uma origem irregular. Ao mesmo tempo, também é suficiente para explicar a origem da lendária narrativa de que sua origem era miraculosa. Os seguidores posteriores de Jesus usariam a narrativa atribuída a Mateus como base para afirmar que Maria era biologicamente virgem quando do nascimento de seu filho. E por causa disso, em nossa própria época, os leitores teologicamente não ortodoxos podem se sentir tentados a descartar o valor histórico do Evangelho de Mateus. Mas, apesar de o texto daquele Evangelho e de outros estarem repletos de elementos não factuais, ele não pode ser responsabilizado pela leitura mítica que lhe foi imposta após sua escrita.

Um exemplo da compreensão mitológica posterior do texto encontra-se em Mateus 1:23 – “...he parthenos en gastri exei kai texetai huion...” [a solteira na barriga terá e dará à luz filho] –, quando afirma que uma mulher solteira [parthenos] conceberia um filho. Na tradução daquele texto grego à língua latina, no século II, “parhenos” tornou-se “virgo”, e essa tradução posteriormente alimentou a ideia de que Maria teria sido biologicamente virgem quando concebeu e deu à luz a seu filho Jesus. O problema com esse sentido, contudo, é que os termos “parthenos” e “almah” [“mulher jovem” – o termo hebraico que aparece na referência ao texto de Isaías 7:14] não significavam “virgem” como esse termo é utilizado na tradição cristã – na verdade, nem mesmo “virgo” significava isso exclusivamente; a expressão utilizada pelos romanos para “virgem”, no sentido relativo a “castidade”, era “virgo intacta” (por que não foi utilizado na tradução latina da Bíblia?!).

Uma razão que pode ser apontada para o uso de “parthenos” para referir-se a Maria é o fato de o(s) autor(es) de Mateus querer(em) fazer uma ligação entre Jesus e antigas profecias israelitas, para substanciar a afirmação de que ele seria o Messias esperado. Assim, seu passado é ligado ao passado de Israel. Note que sua mãe se chamava Maria [Miriam, em aramaico], e Maria [ou Miriam] era também o nome da irmã de Moisés, que salvou sua identidade israelita e, consequentemente, seu chamado profético (Êxodo 2:1-10), e que também foi chamada de “profetisa” (Êxodo 15:20). Essa Maria, irmã de Moisés, era descrita também como uma “almah” [parthenos, na tradução grega]. Assim, a mãe de Jesus possuía dois traços em comum com a irmã do libertador do povo de Israel, Moisés: o nome e a condição. Se a mais antiga Maria tivera a missão de assegurar que seu irmão manteria sua identidade como um israelita e, consequentemente, se tornaria o libertador de seu povo – sendo ela mesma uma profetisa –, a mãe de Jesus tinha a missão de trazer o Messias (o Cristo) ao mundo... Pequenos detalhes na narrativa que se tornaram essenciais para a forma como a maioria dos cristãos entenderia o Natal, mas aos quais poucos estão atentos!

Obviamente, a forma como a ortodoxia cristã lidou com isso tem muito mais a ver com as influências das ideias greco-romanas no pensamento da Igreja que emergia – pense, por exemplo, nos dogmas da Encarnação e da Trindade – do que propriamente com o que os textos originais das Escrituras ou a tradição judaica tinham a dizer. Assim, ao longo dos séculos, os cristãos não teriam a mínima necessidade de conciliar algumas afirmações feitas sobre Jesus, nos Evangelhos, com o todo da tradição judaica da qual ele era parte. E a ênfase no sobrenatural, no que tange à história de Jesus de Nazaré, pode ter contribuído para que a tradição cristã perdesse contato tanto com a cultura religiosa da qual emergiu quanto com a poderosa mensagem humana presente nos relatos, mesmo que míticos, sobre sua vida.

A questão sobre a concepção de Jesus – quem era seu pai, afinal de contas? – encontra três explicações diferentes no Novo Testamento (e essas podem se entrelaçar, nas mesmas fontes, com explicações conflitantes):

  • 1) Jesus teria sido concebido através da intervenção do “espírito santo” (ainda não necessariamente entendido como uma “pessoa”), por meio dum mecanismo desconhecido. Sua mãe, assim, não tivera relações sexuais com um homem: Lucas 1:34-35 e Mateus 1:18-25.

  • 2) Jesus era, de fato, filho de José: João 1:46; 6:42; Lucas 4:22; Mateus 1:1-17 e Lucas 3:23-38 (genealogias que só poderiam ter sido desenvolvidas com base nessa suposição) – os ajustes em Mateus 1:16 e Lucas 3:23 parecem ser posteriores. A identidade de Jesus como “filho de Davi” – Mateus 1:1; 9:27; 12:23; 15:22; 20:30-31; 21:9, 15; Marcos 10:47-48; Lucas 18:38-39; Romanos 1:3; 2 Timóteo 2:8; Apocalipse 5:5, e 22:16 – implicitamente invoca essa noção, já que apenas José poderia mediar essa linhagem (Mateus 1:20; Lucas 1:27, 32, e 2:4).

  • 3) Jesus foi acusado, por alguns de seus adversários, de ser fruto de “fornicação” [porneia, no texto grego] – João 8:41 –, e tal acusação é frequentemente vista como a base para a omissão de José na identificação de Jesus em Marcos 6:3, como já apontado anteriormente.


Ou seja, os próprios livros do chamado Novo Testamento – quando compreendemos sua historicidade (a forma como foram compostos e, posteriormente, ajustados para conformarem-se à ortodoxia desenvolvida posteriormente) – oferecem uma multiplicidade de pistas sobre o personagem histórico cuja memória nós cristãos, das mais variadas expressões, honramos no Natal. Essa multiplicidade contraditória, dentre tantas outras razões, resulta do simples fato de esses escritos não terem sido compostos como registros históricos como entendemos “História” e/ou “históricos” em nossos dias. As finalidades que tinham e os públicos aos quais se dirigiam não exigiam a noção de “factualidade”.

Mas, além daqueles escritos, podemos também acessar as pistas deixadas por outros textos importantes para entender a cultura religiosa na qual Jesus cresceu. Aquela pequena e simples frase em Mateus 1:18, assim como as expressões utilizadas nos trechos citados de Marcos e João (“filho de Maria” e “fornicação”) como referência a Jesus, pode(m) ser explicada(s) pela tradição talmúdica israelita. Por “talmúdica”, a propósito, quero me referir ao Talmud, um registro de discussões rabínicas acerca da Lei, exegese, costumes, história e tradições judaicas. O Talmud é composto pela Mishnah e pela Guemara e, apesar de os registros escritos mais antigos serem posteriores ao registro dos Evangelhos, aquela tradição da Torá Oral do judaísmo rabínico já existia antes de Jesus – estando presente em trechos dos Evangelhos.

Se voltarmos à tradição de José como originário duma cidade diferente da da jovem Maria (Lucas 2:4-5) – há, hoje, o conhecimento da existência prévia duma Belém na própria Galileia, próximo a Nazaré, mas evitarei entrar nessa questão aqui –, poderemos compreender um pouco da desconfiança sobre a paternidade de Jesus levantada por seus adversários.

Independentemente de quem tenha sido o pai de Jesus, as condições sob as quais foi concebido, de acordo com o(s) autor(es) do Evangelho de Mateus, o tornariam um “mamzer”, alguém gerado através de relacionamentos proibidos (e seus descendentes até a décima geração) pela lei judaica. A não ser que Maria pudesse apresentar testemunhas de que o pai de seu filho era um parceiro lícito, de acordo com a lei, se consideraria que o pai de sua criança era um “mamzer”, um filho de “mamzer” ou outro tipo de pessoa proibida, o que automaticamente também tornaria Jesus um “mamzer” (Mishnah Ketubot 1:8-9). E isso ocorreria tanto se José fosse o pai – já que, de acordo com o(s) autor(es) de Lucas, ele vinha de outra região e, assim, não poderia haver uma testemunha confiável de sua licitude como não “mamzer” para a comunidade de Maria –, quanto, e especialmente, se o “Espírito Santo” fosse o pai de Jesus – já que não poderia haver uma testemunha da licitude dessa paternidade!

Encontrar uma tradução apropriada para o termo “mamzer”, em português, é difícil. Algumas vezes, utiliza-se “ilícito” ou “ilegítimo(a)”, mas deve-se ter em mente que o termo hebraico não se refere a uma criança nascida fora do casamento – refere-se ao fruto duma relação sexual com a pessoa errada. As relações sexuais entre pessoas não casadas, a propósito, eram toleradas, e não afetavam o status da criança – só afetariam se um dos parceiros fosse “ilícito”. Muitas traduções, em português, da primeira referência ao “mamzerut” (a condição de um[a] “mamzer”) na lei judaica, traduzem “mamzer” como “bastardo”:


Não entrará bastardo na congregação do Eterno, nem ainda a décima geração dele não entrará na congregação do Eterno. [Deuteronômio 23:3 – da tradução da Editora Sêfer]


O Talmud esclarece que essa proibição de entrada na congregação significa a proibição de casamento com um[a] israelita. Os filhos duma união sexual entre um “mamzer” e uma mulher israelita estariam, igualmente, proibidos de se unirem a mulheres israelitas. No caso específico de Jesus, a ausência de provas de que era filho de um pai lícito – fosse seu pai divino ou um forasteiro na Galileia sem referências – o tornava um “mamzer”. O que significaria que, além de ser proibido de unir-se licitamente a uma mulher israelita, estava condenado a não ter voz na comunidade. [Você poderia me questionar sobre que garantias teríamos que José, por exemplo, não teria testemunhas reconhecidas de sua licitude para unir-se a Maria. Realmente não temos. Mas as evidências nos textos apontam para o fato de que Jesus foi acusado de “mamzerut” por seus adversários – e isso, se considerarmos o testemunho dos textos evangélicos, seria uma evidência de que haveria rumores a seu respeito!]

Olhar para os relatos da vida e dos ensinamentos de Jesus considerando as diferentes possibilidades permitidas pelos textos sagrados, cotejados com outras fontes do mesmo contexto sociocultural, pode parecer simples especulação para aqueles que abraçam o mito natalino como um relato factual. Mas, para mim, abre outras portas para compreender a tradição cristã. Ajuda-me, por exemplo, a compreender melhor a ênfase na visão de Deus como “paizinho” com o qual se pode manter relação pessoal – se Jesus foi um mamzer, e sofreu discriminação por isso, seu suposto uso do termo “Abba” para referir-se a Deus teria um impacto muito maior; suas fábulas sobre crianças teriam um peso muito mais profundo.

Assim, em minha experiência espiritual, humanizar Jesus, por meio da análise de possibilidades históricas, não equivale a diminuir sua importância. Muito pelo contrário. Significa alargar o sentido da tradição. Jesus deixa de ser apenas um mito etéreo – o Cristo construído pela ortodoxia –, e se torna o homem real, que iniciou sua vida como “refugiado”, viveu como um “excluído” e, por isso mesmo, sabia do que estava falando!

+Gibson

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Feliz Natal!




Independentemente de como compreendamos as narrativas acerca do nascimento de Jesus de Nazaré, a maioria de nós cristãos, em todas as eras e terras, honra o Natal ao menos como uma celebração memorial importante para a Igreja – a comunidade dos seguidores de Jesus. Como meus irmãos e minhas irmãs de outras tradições cristãs, também celebro o nascimento e a vida de Jesus de Nazaré, o Cristo.

Confesso que, como um unitarista, não me interessam muito as narrativas lendárias sobre um suposto nascimento sobrenatural. Tenho muito mais interesse nas condições dum nascimento humano comum. A humanidade de Jesus ressoa aos meus ouvidos e me faz desejar seguir seu exemplo.

Assim, esta noite, interessa-me celebrar o nascimento do menino que seria acusado de ilegítimo, fruto de fornicação. Do garoto que, como consequência do preconceito que sofrera, ensinou uma noção acerca de Deus como um “paizinho” do qual poderíamos nos aproximar sem medo. Do rabino que ousou caminhar com aqueles menos desejados. Do Messias que me salva por meio de seu ensinamento duro e de suas exigências pesadas de amor incondicional.

É esse o nascimento que escolho celebrar no Natal. Não o nascimento dum “menino deus”; o nascimento dum menino como todos os outros meninos, que viveria a vida que todos nós poderíamos viver em nossos próprios contextos – uma vida baseada numa forma de compaixão salvadora.

No Natal, celebro o nascimento do menino que começou sua vida como um refugiado – refugiado como aqueles que deixam, hoje, regiões da África e da Ásia em busca de humanidade na Europa, nas Américas ou outras regiões de seu próprio continente de origem. Se os pais de Jesus se refugiaram no Egito, buscando escapar de perseguições, então esse Jesus humano compreenderia todos aqueles que buscam uma vida mais segura, pacífica ou próspera em outras terras.

Celebro o nascimento do homem que segurou as mãos, abraçou, beijou e comeu com as pessoas tidas como mais indignas. O homem que chamou como seus “talmudim” (discípulos) pessoas que outros mestres desprezariam...

É o nascimento desse personagem que celebro esta noite. É esse Jesus que celebro como o Rei de minha fé, como o mestre que me sinto convidado a seguir.

Vem, ó homem de Nazaré, e me ensina a encarnar tua mensagem de compaixão!

Feliz Natal a todas e todos!

+Gibson

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

A "Palavra de Deus": uma resposta a Pedro


Caro Pedro,

Você está equivocado quanto à minha compreensão das Escrituras. O problema está na forma como compreendemos certos conceitos que você utilizou. O mais importante deles é o conceito de “Palavra de Deus”. Você, aparentemente, define esse conceito como sendo sinônimo exclusivo de “Bíblia”. Assim, para você, por a Bíblia ser a “Palavra de Deus”, ela teria uma origem divina – de alguma forma, tudo o que esteja escrito naquele conjunto de livros, para você, é originalmente divino. É esse seu sentido de “divindade” original que não abraço. Para mim, a Bíblia é, sim, um conjunto de textos “divinos”, mas não porque os textos tenham sido escritos já como “divinos”. As Escrituras (prefiro chamar a Bíblia de “Escrituras” para reforçar a sua multiplicidade) passaram por um processo de “divinização” – isto é, o texto originariamente humano é reconhecido como “divino” porque, para os ouvintes (a maioria dos primeiros cristãos era de ouvintes, e não de leitores das Escrituras), aquelas palavras os aproximavam do Divino e lhes mostravam o caminho,

Você consegue perceber a diferença em nossa compreensão?

Para mim, a “Palavra de Deus” é Jesus Cristo, e não a Bíblia em si. Obviamente, “Palavra de Deus” é apenas uma metáfora, não uma declaração literal. Por isso, poderia ser aplicada igualmente à Bíblia. Mas eu, pessoalmente, prefiro utilizar a metáfora apenas quando me refiro a Jesus. É por essa razão que você – como me escreveu – possivelmente nunca leu nada que eu tenha escrito se referir à Bíblia como “Palavra de Deus” (bem, você pode nunca ter lido ou ouvido, mas, na verdade, eu já me referi algumas vezes às Escrituras como tal, em contextos muito específicos). A Bíblia não pode dizer ser ela a “Palavra de Deus” por duas razões simples: 1) a Bíblia não diz absolutamente nada, quem diz são seus autores – isso parece ser uma banalidade, mas é essencial para que você desenvolva uma compreensão mais madura de sua leitura; 2) não pode haver uma afirmação na Bíblia de que ela seja a “Palavra de Deus”, no sentido que você dá ao termo, porque os autores da “Bíblia” não sabiam sobre a existência da “Bíblia”! A Bíblia, enquanto livro unitário, no singular, é uma invenção recente. As Escrituras surgiram como um conjunto de textos distintos, escritos em lugares e contextos diversos, por autores diversos, em línguas diversas e até, pelo menos, o século XVI ainda não havia sido estabelecido o cânon definitivo dos livros daquilo que hoje lemos como um livro unitário. E os homens foram não apenas os autores e tradutores dos escritos, mas também aqueles que decidiram quais desses escritos estariam nas traduções que lemos hoje!

E essa é uma das razões mais importantes para que eu não abrace sua perspectiva de origem divina das Escrituras – há muitas outras razões, mas já escrevi sobre elas naqueles textos que você citou em sua mensagem.

Ler é interpretar, e a interpretação é um processo. E nenhum cristão lê a Bíblia por si só – ou seja, o sentido que dá à sua leitura não advém apenas das palavras que encontra impressas sobre as páginas. Todos nós, quando lemos as Escrituras – ou qualquer outro texto escrito –, utilizamos em nossa ação interpretativa as ferramentas que encontramos em nosso próprio “universo cultural”. Dentre essas ferramentas estão os conceitos que já internalizamos – voluntária ou involuntariamente – sobre, por exemplo, Deus, Jesus Cristo, a humanidade, a vida, a morte etc. Assim, um católico romano, um luterano, um presbiteriano, um unitarista, um santo dos últimos dias, ou um pentecostal, podem ler a mesma porção dum texto bíblico e compreendê-lo de formas diferentes e, muitas vezes, conflitantes.

Essa noção de que as Escrituras são interpretadas, ao menos parcialmente, com base naquilo que trazemos em nossa visão de mundo, obviamente, não é geralmente aceita por aqueles que acreditam na Bíblia como tendo uma origem literalmente divina. É por essa razão que, para eles, há apenas uma interpretação válida da coleção de livros que chamamos de Bíblia – e que alguns tratam como se fora um único livro, com uma única mensagem, com uma única intenção, com uma única origem.

A multiplicidade de fontes para a ação de interpretar as Escrituras inclui o próprio texto, a tradição, a razão, e ação divina. Isto é, a maioria das tradições teológicas cristãs reconhece que há no processo de engajamento com o texto bíblico uma multiplicidade de relações. Mesmo você reconheceu isso, quando escreveu sobre a ação do Espírito Santo.

O relato que você me fez de sua experiência de “conversão” já me dá pistas sobre a origem de sua compreensão sobre a Bíblia. Se você fosse um católico romano ou um luterano, por exemplo, suas perguntas seriam diferentes e, possivelmente, as respostas às quais chegaria também seriam diferentes daquelas que abraça hoje. Da mesma forma, eu também tenho perguntas que são muito diferentes das suas quando leio as Escrituras, e, provavelmente, chego a conclusões bem diferentes das suas.

Para mim, isso não significa que você esteja essencialmente errado e eu esteja essencialmente certo em termos das questões levantadas e das conclusões às quais chegamos. Significa, apenas, que partimos de lugares diferentes; lugares que não são melhores ou piores que o do outro, são apenas diferentes. O esforço que eu, pessoalmente, faço, tanto em minha vida ministerial quanto devocional, é tentar entender o lugar de onde as outras pessoas partem. E posso garantir a você que, quando fazemos isso, nós aprendemos que é possível viver com a diferença. É só tentar mudar um pouco a perspectiva e se colocar no lugar do outro – especialmente quando esse outro busca a mesma coisa que você.

Grande abraço!

+Gibson

sábado, 21 de novembro de 2015

Sobre “uma brevíssima explicação acerca da shari'a”



Gibson da Costa

Considerando a aparente “controvérsia” causada por minha última postagem neste blog – na percepção de alguns que me escreveram e-mails nos três últimos dias, isto é –, e considerando que não tenho tempo de responder individualmente a todos eles, permitam-me fazer alguns comentários.

Não vejo muito necessidade para explicar minhas posições no que tange à relação entre “religião” e “política”. Essas já estão por demais explícitas em tudo o que tenho escrito aqui nos últimos anos, em tudo o que tenho ensinado no seminário, em tudo o que tenho publicado, e em todos as minhas prédicas. Sou um “cristão liberal” ocidental (sim, também há um sentido político muito específico nessa expressão). Afirmar isso já deveria ser suficiente para explicitar o que penso acerca da relação entre “Igreja” e “Estado”, seja quanto ao Cristianismo, seja no que tange a quaisquer outras tradições.

Não importa o que penso acerca daquilo que chamei de “Direito Islâmico”, a “shari'a”. Minha opinião sobre se as diferentes interpretações islâmicas são boas ou não, aceitáveis ou não, justas ou não é irrelevante para o que escrevi. Minha intenção ali era outra: intencionava apenas responder a algumas coisas que havia lido e ouvido antes – coisas que julgo, vindas de quem vieram, intelectualmente desonestas (tendo sido dito/escrito por quem foi).

Posso discordar de determinadas ideias, mas isso não pode fazer com que feche os olhos à injustiça de acusações falsas. Discordar de alguém ou de algo não faz com que eu automaticamente me torne inimigo daquele/daquilo, e vice-versa. Alguém não se torna meu inimigo simplesmente por não crer/praticar no/o mesmo que eu. E mesmo que fosse meu inimigo, isso não tornaria justo que eu aceitasse que acusações falsas fossem feitas ao seu respeito.

A comparação acima pode parecer exagerada, mas, em minha percepção de alguns dos comentários que me enviaram, parece que alguns pensam que estou defendendo “o inimigo”!… Minha pergunta a esses leitores é: por que o Islã ou os muçulmanos seriam meus inimigos? Como já escrevi inúmeras vezes, convivi e convivo com muitos muçulmanos. Conviver com pessoas diferentes de você pode fazer com que se aprenda muito sobre os limites dessas diferenças!… E isso, a propósito, vale quanto a todos os aspectos da vida social, e não só religião.

Em nenhum ponto do que publiquei aqui justifiquei a imposição duma lei religiosa àqueles que não a desejassem. Muito pelo contrário. Expliquei que havia uma diversidade de interpretações do Direito Islâmico, e o fiz justamente para me opor à visão dum Islã uniforme – que é defendido tanto por islamitas fanáticos quanto pela retórica dos meios de comunicação “ocidentais”.

A propósito, há uma enorme diferença conceitual entre ser “muçulmano” e ser “islamita” (ou “islamista”). O termo “muçulmano” refere-se a um adepto do Islã. O termo “islamita” (ou “islamista”), por sua vez, refere-se a um adepto duma ideologia política, que politiza a religião muçulmana – aquilo que, em minha vida acadêmica, chamo de Islã Político. Essa ideologia, per se, é uma construção recente. Se quiser saber um pouco mais, pode ler algo que já escrevi a respeito AQUI.

Quanto à acusação de que eu seja um “ignorante manipulado pela esquerda”, feita por uma leitora, cometerei a indelicadeza de responder de forma arrogante: [Na verdade, não entendo por que usaria o adjetivo “esquerda” aqui!] Quantas vezes você já leu o Corão em língua árabe? Quantos livros teológicos islâmicos você já leu? Quantos amigos muçulmanos você tem? Em quantos países com maioria muçulmana você já morou ou já esteve?… Talvez eu não seja tão “ignorante” e “manipulado” quanto você pensa!!… Geralmente, prefiro não escrever acerca de temas sobre os quais não tenha um mínimo de informação!

Há algum tempo, tenho me preocupado com a forma como meus irmãos e irmãs muçulmanos têm sido retratados pelos meios de comunicação, pelos pronunciamentos de personagens do mundo político e, principalmente, pelo discurso religioso de outros grupos – especialmente cristãos. Como um humano e um cristão, me calar enquanto essas irmãs e esses irmãos têm sua fé injustamente retratada como sinônimo de violência e terror é trair à minha própria fé. Continuarei a criticar o que deve ser criticado, mas não participarei do festival de inverdades e discriminação.

Como um cristão, renuncio à islamofobia, doe a quem doer!

+Gibson

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Uma brevíssima explicação acerca da “shari'a”



Gibson da Costa

Fico sempre muito irritado quando ouço ou leio alguns comentários acerca da chamada “shari'a”. A maioria das pessoas, seguindo a retórica dos agentes da imprensa, refere-se à “lei islâmica” como se ela fosse uma “entidade” única e/ou como se fosse uma grande aberração.

…Eles não poderiam estar mais errados!

O Islã, como o Judaísmo e o Cristianismo, tem um código legal religioso. Enquanto o código legal judaico ortodoxo é chamado de “halakhah”, e o cristão é chamado de “direito canônico” (nas tradições católicas) ou “ordem eclesiástica / ordem da Igreja” (em muitas tradições protestantes), o código religioso da Ummah (a comunidade de fiéis muçulmanos) é chamado de “shari'a” (o Direito Islâmico). Nenhum deles, contudo, é estático ou uniforme. Como ocorre com as códigos civis, há espaço para muita diversidade interpretativa no que concerne a esses códigos.

O que importa, aqui, é que não há nada de absolutamente único ou estranho com o fato de haver um código legal religioso no Islã – com base no qual decisões são tomadas sobre a vida em comunidade, a aceitação ou exclusão de “(in)fiéis”, o status de certas pessoas, a aceitação ou não de certas crenças ou comportamentos etc. Isso pode não condizer muito com a mentalidade moderna ocidental, mas está presente em todas as comunidades de fé, em maior ou menor grau. Se você é parte de alguma comunidade de fé (igreja, centro, templo etc) que não possui um código legal explícito, se ela possui o status de Pessoa Jurídica, terá pelo menos um Estatuto Social (que mesmo sendo um documento civil, expõe expectativas que se baseiam nas perspectivas teológicas/religiosas daquela comunidade)!

Uma diferença que influencia na percepção que muitos cristãos ocidentais, especialmente não-católicos, têm da shari'a é o simples fato de o Cristianismo ocidental, de forma geral, enfatizar a “crença correta”, enquanto o Islã – assim como o Judaísmo –, de forma geral, enfatiza as “ações corretas”, o “comportamento correto” do fiel!

É importante tentar entender o próprio sentido do termo. “Shari'a”, em seu sentido não religioso, refere-se a um caminho que leva a um poço de água. Para as populações do deserto, um poço de água era/é a diferença entre a vida e a morte. Assim, aplicada à religião muçulmana, a “shari'a” seria um caminho que leva à vida – caminho esse divinamente revelado no texto sagrado (o Corão/Alcorão) e nas tradições orais atribuídas à Muhammad (que os muçulmanos acreditam ter sido Profeta). É nesse contexto que ela é a “Lei de Deus” – não muito diferente das ideias de “Lei de Deus” no Judaísmo ou no Cristianismo.

O Direito Islâmico não se baseia exclusivamente no Corão – como também ocorre com o Judaísmo/Cristianismo em relação à Bíblia. Isto é, em sentido amplo (no que concerne à teoria e à prática), há uma distinção entre a Lei de Deus (shari'a) – baseada naquilo que os muçulmanos creem ser revelações divinas – e a atividade humana de interpretar essa lei – chamada de “fiqh”. O Direito Islâmico é a combinação desses. De acordo com o fundador do Direito Islâmico, Muhammad ibn Idris al-Shafi'i (séc. VIII-IX d.C.), haveria quatro bases fundamentais para o Direito Islâmico: o Corão; a sunna de Muhammad; o consenso; e a analogia. Além dessas bases, sobre as quais concordam todas as escolas jurídicas islâmicas (madh'habs), há outras a depender da escola (madh'hab) em questão.

O termo “madh'hab” que citei acima, refere-se à cada uma das escolas jurídicas do Direito Islâmico. Essas escolas são tradições jurídicas que guiam a interpretação que um indivíduo ou grupo aceita em questões legais no Islã. Todo muçulmano adere a uma madh'hab específica, independentemente do ramo islâmico do qual seja adepto.

No Islã sunita há, hoje, quatro madh'habs principais: a Hanafi; a Maliki; a Shafi'i (cujo nome vem de Muhammad ibn Idris al-Shafi'i, que citei acima); e a Hanbali (a escola que originou o ramo Salafi, que, por sua vez, influenciou a maioria dos movimentos jihadistas conhecidos – como a Irmandade Muçulmana, o Taliban, a al-Qa'ida, e o chamado Estado Islâmico). Todas elas possuem algumas subdivisões. Ademais, historicamente, possuem adeptos em regiões específicas do mundo – a depender de como o Islã se propagou por aquela região. Há muitas outras madh'habs, mas essas são seguidas por um número muito pequeno de adeptos que se encontram em regiões geográficas muito limitadas.

No Islã xiita, por sua vez, há um número ainda maior de madh'habs, mas as duas principais delas – ou seja, aquelas seguidas por um maior número de adeptos – são a Jaf'ari e a Batiniyyah, ambas com suas subdivisões.

Ou seja, se formos intelectualmente íntegros, nos recusaremos a comprar a retórica ignorante, islamofóbica, e nem um pouco inocente dos que atrelam a noção de “shari'a” ou “lei islâmica” ao terrorismo ou assassínio de “jihadistas radicais” – o próprio termo “jihadista” deve ser utilizado com cuidado, já que “jihad” não significa necessariamente “guerra física”; e ser um “jihadi” nem sempre se refere a fazer guerra física (o termo pode ser usado como uma metáfora duma “batalha espiritual” – noção muito comum a alguns cristãos hoje em dia, especialmente nas tradições pentecostais ou carismáticas). É bom lembrar, ademais, que no Islã não existe a expressão “guerra santa” - essa expressão é uma invenção “cristã”!

+Gibson

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Deus e nossas compreensões a seu respeito


[…] Na vida, na morte, na vida além da morte, Deus está conosco.
Não estamos sozinhos. Graças a Deus.”


Recentemente, fui convidado a participar dum debate promovido por uma emissora de rádio acerca daquilo que chamaram de “fundamentalismo” religioso. Ao aceitar, já imaginava o possível caminho seguido pelo facilitador do debate, uma vez já havia sido entrevistado por ele antes. Assim mesmo, resolvi aceitar.

É engraçado como, em alguns pontos, alguns que se declaram como “ateus” se assemelham a alguns daqueles que se declaram como “crentes bíblicos”. A visão de Cristianismo que defendem ou recusam é exclusivista e engessada – ou seja, para que seus argumentos façam sentido, têm de reprovar e negar todas as outras possíveis expressões da fé cristã, mesmo aquelas com uma longa história.

Tratamos sobre Deus e Jesus, obviamente. Não tenho muita certeza da razão pela qual um cristão unitarista, como eu, seria convidado a um diálogo se os demais participantes, incluindo o próprio facilitador, excluem da identidade cristã aqueles que não abraçam uma visão teontológica (i.e., sobre Deus) e cristológica (i.e., sobre Jesus Cristo) ortodoxa. Para meus companheiros de debate, só seria possível “ser cristão” se você entende Deus como uma entidade pessoal que habita algum lugar no espaço (o “Céu”). E, para ser cristão, eu deveria crer em Jesus como “Deus em carne, que morreu” por mim!

Esse tipo de perspectiva, devo enfatizar, esperaria da maioria dos cristãos – afinal de contas, a maioria dos cristãos se declara “trinitarista”. Mas ela também foi defendida por um “cientista” que se declarou como “ateu”!… Lá estavam eles, talvez sem perceber, coparticipando – no mesmo lado – dum antigo e contínuo conflito epistemológico.

Expliquei aos meus colegas o sentido delimitado que atribuo ao termo “fundamentalismo”. Expliquei que o termo, para mim, não deveria ser utilizado da forma pouco clara e generalizada como o é pela maioria das pessoas que o utilizam. Expliquei que, apesar de eu ser um opositor do “fundamentalismo” (enquanto tradição teológica cristã), não utilizo o termo com um sentido pejorativo. Ser “fundamentalista” não é ser “intolerante” em si; mas, sim, as bases ideológicas daquela tradição são exclusivistas – mas “exclusivismo” e “intolerância” não são necessariamente sinônimos! [O ambiente político é o que tem sinonimizado os termos.]

Sim, também irritei os demais – especialmente o facilitador e o declarado “ateu”. Disse-lhes que era uma incoerência que atacassem o “fundamentalismo” ao mesmo tempo em que utilizassem a base mais importante da tradição para criticar as minhas posições: a ideia de que só há uma forma válida de crer.

Foi, ademais, interessante como se referiam a mim. Os demais – com exceção do “cientista” – eram “pastores” e “padre”. Eu era o “teólogo”.

Essa distinção poderia parecer irrelevante aos leigos, mas sob ela se escondia um preconceito acerca de minha fé. Obviamente, enfatizei isso. Disse aos demais que fora convidado àquele debate como um “Ministro cristão” – o que eu sou e o que era reconhecido por escrito no convite que recebera. O uso que faziam do termo “teólogo”, que creio ser inapropriado para se referir a mim – já que minha formação ou minhas atividades pastorais ou teológicas não me tornam um “teólogo” per se –, reforçava sua crença exclusivista de que minha fé não era cristã, minha comunidade de fé não era cristã e eu, por isso, teria menos dignidade ministerial que os demais. Mais uma incoerência para um evento que se apresentara como um debate sobre os riscos do “fundamentalismo religioso”.

Como já tenho dito e escrito há muitos anos, tendo a ter um grande cuidado no uso que faço de certos termos. Penso, por exemplo, que dizer “Deus existe” seja menos que apropriado para falar sobre minha fé. A existência é uma qualidade atribuída a entidades materiais, físicas, objetivas/mensuráveis. Deus, em minha compreensão não é nenhuma delas. É por isso que não proclamo a “existência” de Deus – mas meus colegas de debate foram, aparentemente, incapazes de compreender isso!

Em vez de falar em “existência” de Deus, prefiro proclamar sua “realidade”. Utilizo, inclusive, o nome “Realidade” para me referir ao Divino. Recorrendo à minha herança judaica, gosto de usar “o Nome”, “o Eterno”, “a Realidade” para me referir a Deus.

Deus, para mim, é mais que uma entidade pessoal. Deus enquanto “pessoa” é apenas uma metáfora para que possamos começar a compreender o Mistério Eterno. Se Deus fosse uma “pessoa”, estaria limitado pelo tempo e pelo espaço, já que a qualidade de pessoa é finita e condicional. Então, claramente, a “personalidade” (a qualidade de pessoa) de Deus seria apenas uma metáfora para que pudéssemos humanizar nossa relação com o Divino – da mesma forma como fazemos com nosso uso do termo “Pai”.

Assim, não posso dizer que tenho esperança de encontrar Deus ao fim de minha vida temporal. Não poderia ter esperança disso porque, para mim, Deus não é uma pessoa como você e eu. Deus não está num lugar específico do cosmo; o cosmo é que está em Deus – incluindo você e eu (Atos 17:28). Minha esperança não se centra num destino final; centra-se, antes, num encontro na jornada: ou seja, minha esperança é encontrar Deus no processo de viver minha existência. Assim, Deus, de fato, está comigo – porque O encontro no dia a dia.

Isso, contudo, é minha compreensão presente de Deus. Minha compreensão e todas as demais compreensões da Divindade não são o mesmo que Deus – se o fossem, seríamos todos idólatras, ao menos para a tradição cristã (já que estaríamos idolatrando nossas próprias compreensões). Deus é Deus. E Deus, que é Deus, é Eterno – e minha mente não consegue compreender plenamente a Eternidade, já que estou condicionado pelo tempo e pelo espaço.

E é exatamente por isso que me basta declarar que confio em Deus.

+Gibson