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sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Sobre a Ortodoxia (trechos) - James Freeman Clarke


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A maioria, em qualquer lugar, está apta a se chamar de ortodoxa, e a chamar seus oponentes de hereges. Mas a maioria em um lugar pode ser a minoria em outro. A maioria em Massachusetts é a minoria em Virgínia. A maioria na Inglaterra é a minoria em Roma ou em Constantinopla. O Arcebispo de Cantuária, o Primaz de toda a Inglaterra, deu ao senhor Curzon uma carta de apresentação ao Patriarca de Constantinopla, o líder da Igreja Grega. Mas o Patriarca nunca havia ouvido falar do Arcebispo de Cantuária, e perguntou: "Quem é ele?"

Todavia, é um argumento muito comum que tal e tal doutrina, sendo abraçada pela grande maioria dos cristãos, deve ser necessariamente verdadeira. "É possível", dizem, "que a grande maioria dos cristãos estivessem agora, e por muito tempo, em erro em uma doutrina tão fundamental como esta?" Até mesmo um homem tão inteligente quanto o Dr. Huntington, parece ter sido grandemente influenciado por este argumento ao se tornar trinitarista.

O mesmo argumento tem levado muitos protestantes à Igreja Católica. E, sem dúvida, há uma verdade no argumento - uma verdade, de fato, que está implícita em toda a obra presente - que doutrinas assim defendidas por grandes multidões durante longos períodos não podem ser completamente falsas. Mas isso não prova, de forma alguma, que sejam plenamente verdadeiras. De outra maneira, a verdade mudaria com a mudança da maioria. Em um século os arianos teriam estado certos. Ademais, a maioria dos que aderem a uma doutrina não a examinaram, e não têm nenhuma opinião definida concernente a ela. Eles a aceitam, como lhes é ensinada, sem refletir. E novamente, a maioria das verdades estão, no princípio, na minoria.

O Cristianismo, no primeiro século, estava em uma minoria muito reduzida. O Protestantismo, no tempo de Lutero, estava no cérebro e coração de um homem. Pensar, portanto, que a Ortodoxia, ou a verdadeira crença, seja aquela da maioria, é impedir todo progresso, censurar toda nova verdade, e resistir a revelação e inspiração de Deus, até que tenha conquistado para si o apoio da maioria da humanidade.

De acordo com este princípio, como o Cristianismo ainda é uma minoria quando comparada ao paganismo, todos nós devemos nos tornar seguidores de Boodh. Tal perspectiva não pode ser examinada seriamente nem por um momento. Todo profeta, mestre, mártir, e campeão heroico da verdade passou sua vida e ganhou a admiração e grato amor do mundo por oporem-se à maioria em favor de alguma verdade negligenciada ou impopular.

Clarke, James Freeman. 1866

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Ortodoxia: O Pior Inimigo do Cristianismo (Jabez T. Sunderland)


Jabez Thomas Sunderland (1842-1936)


“Estou a serviço do Deus de nossos pais, segundo o Caminho, que eles chamam de seita”. - ATOS 24:14

É sempre a incumbência de um povo que persiste em manter uma diferente forma de doutrina religiosa ou de culto da maioria das pessoas da comunidade ou país onde vivam, estarem prontos, na ocasião apropriada, a darem suas razões.

Ocuparei o tempo que temos esta manhã em declarar, tão breve e claramente quanto posso, porque me encontro compelido a tomar uma posição fora da assim chamada ortodoxia, e a adorar o Deus de meus pais da forma que a maioria das pessoas deste país e da Cristandade chamam de heresia.

Creio que nada mais valioso que o Cristianismo tenha jamais aparecido dentre os homens.

Mas creio que o que é geralmente entendido como Cristianismo hoje, seja nos países protestantes ou católicos, não é o Cristianismo puro, original, como o ensinado por Jesus em palavras e em sua vida, mas que seja um Cristianismo corrompido, e corrompido pela introdução de elementos inteiramente estranhos a ele e essencialmente maus.

Estes elementos maus, claro, pelo menos até certo ponto, não destroem o Cristianismo com o qual estão mesclados; mas eles são, entretanto, até onde vão, corruptores e nocivos a ele.

Que elementos maus e corruptores são esses? Sem hesitação, respondo, em meu julgamento, antes de tudo, é aquela filosofia religiosa, ou teologia, ou séries de doutrinas a respeito de Deus e do homem e da religião, que recebe o nome popular de ortodoxia, e que inclui em sua lista, entre outros, a doutrina da queda da raça humana em Adão, a doutrina da depravação total universal, a doutrina de um inferno infinito, a doutrina da Trindade, a doutrina da vinda à terra da segunda pessoa da Trindade para morrer no lugar do homem e satisfazer a justiça de Deus, o que significa aceitar a idéia de que Jesus morreu para reconciliar Deus ao homem, ou para tornar Deus um pouco mais disposto ou pronto ou capaz de salvar os homens, ou seja, um pouco mais Pai do que Ele sempre foi, e finalmente, para não mencionar outros, a doutrina do culto a Jesus, que é tão popular em nossos tempos, e que praticamente impede o culto a Deus.

Eu digo que de todas as coisas que ferem o Cristianismo hoje e o fazem sangrar, de todas as coisas que o corrompem e o envenenam e o tornam outra coisa diferente daquela coisa doce e sadia e divina que era quando Jesus a deu ao mundo; de todas as coisas que tendem a torná-lo uma ofensa ao melhor pensamento e inteligência de nosso tempo, sem hesitar digo, segundo meu julgamento, o sistema de teologia que inclui estas doutrinas que mencionei, e que é conhecido popularmente como ortodoxia.

Você pergunta por que julgo a ortodoxia como sendo o pior inimigo que o Cristianismo tem hoje? Eu respondo, de forma geral, primeiro, por causa de onde está, e segundo, por causa do que é.

Quanto a onde está, está dentro da igreja. Se estivesse fora, seria comparativamente inofensivo, pois é sempre comparativamente fácil defender-se contra um inimigo externo. Mas quando um inimigo adentra o campo, como a ortodoxia fez, então a dificuldade e o perigo cresceu grandemente.

Há muito tempo atrás, na era das trevas, a ortodoxia abriu seu caminho rumo ao centro da igreja cristã, e lá, por meio da intolerância e proscrição e por todos os meios, se enraizou. E agora, em nosso tempo de maiores luzes, quando os homens começam a descobrir que aquilo não é o Cristianismo, mas um intruso e um inimigo, e está tão fortificado em sua posição que é apenas com a maior das dificuldades que pode ser movido. Na verdade, até grande ponto, capturou a religião cristã. E assim, hoje, onde quer que vamos, encontramos a ortodoxia sendo pregada de forma descarada como sendo o Cristianismo, e que tudo que se oponha a ela não é Cristianismo. É principalmente por essa condição das coisas que aquele grupo de, no geral homens muito inteligentes e sinceros, conhecidos como Religiosos Livres, se posicionaram fora do nome cristão. Tão claramente eles vêem que o nome cristão foi capturado, e que agora se identifica nas mentes da massa da humanidade com a ortodoxia – algo que eles acreditam ser falso e degradante – que eles declaram ser inútil tentar resgatar o nome.

Mas enquanto sinto a força de seu raciocínio, não posso concordar com sua conclusão. Não penso ser inútil tentar resgatá-lo. Levará uma longa e dura batalha para fazê-lo, mas todas as melhores forças de nossa civilização estão se juntando para nos ajudar, e nós, aos poucos, venceremos. As transformações da história são muito estranhas e freqüentemente escuras. Mas, dentre todas elas, isto sabemos -

"A verdade lançada à terra se reerguerá; os eternos anos de Deus são dela”.

E isto também sabemos: "Toda planta que não foi plantada por meu Pai celeste será arrancada” (mais cedo ou mais tarde) [Mateus 15:13].

Mas, ademais, creio que a ortodoxia seja o pior inimigo contra qual o Cristianismo tenha que contender hoje, não apenas por ela ter conseguido para si uma posição interna e clamores de que seja apenas ela o Cristianismo, mas também por ser tão inteiramente anti-cristã em sua natureza. Prestem atenção ao que digo, para que eu não seja mal-entendido, não digo que as pessoas que crêem na ortodoxia não sejam cristãs. Muitas delas, ao menos no que tange ao caráter e à vida prática, são inqüestionavelmente cristãs. Entretanto, seu Cristianismo não está em nenhum sentido em sua ortodoxia. Ao contrário, é algo incomparavelmente mais elevado, mais amplo, mais doce, mais divino, e completamente diferente de sua ortodoxia. Seu Cristianismo permaneceria o mesmo se sua ortodoxia desaparecesse, e, de fato, apenas encontraria um crescimento mais vigoroso e digno se nunca tivesse o íncubo da ortodoxia pesando sobre si.

Então esta é minha posição, considerando que os ortodoxos são, em grande número, sem dúvida alguma verdadeiros cristãos em caráter e vida, apesar de sua teologia, mesmo a ortodoxia como teologia, em tudo o que é particular a ela como ortodoxia, ser essencialmente e eternamente anti-cristã, e tem sempre e em todos os lugares ferido e não ajudado a causa da verdadeira religião na terra.

Mas, movendo do geral ao específico, precisamente em que ela é anti-cristã? Respondo, principalmente em quatro aspectos:

Primeiro. A ortodoxia não é ensinada por Cristo, mas, em vez disso, contradiz muitos de seus ensinos mais claros.

Segundo. Ela é irracional.

Terceiro. Ela é essencialmente imoral.

Quarto. O tempo e maneira de sua usurpação de um lugar na igreja cristã pode ser claramente traçado na história.

1. A primeira acusação específica, então, que faço contra a ortodoxia é de que ela não é ensinada por Jesus, mas, em vez disso, está em clara contradição com muitos de seus ensinamentos mais proeminentes e repetidos com mais freqüência.

Para começar, Jesus em nenhum lugar faz qualquer insinuação de que ele saiba qualquer coisa a respeito de qualquer Trindade; ele expressamente chama seu Pai de Deus único; ele usualmente refere-se a si mesmo como sendo o filho do homem; ele nunca clama para si mesmo qualquer título que mesmo sugira que ele seja Deus; ele declara diretamente que seu Pai é maior do que ele. E, sobre sua unidade com o Pai, ele declara que esta seja do mesmo tipo que sua unidade com seus discípulos, e do mesmo tipo que a unidade de Deus com todos os filhos amorosos e obedientes, a saber, claramente, unidade de espírito, de amor, de propósito, de desejo.

A ortodoxia, por outro lado, declara que há três Deuses em um Deus (não simplesmente um mistério, mas uma declaração auto-contraditória), e que Jesus é o Deus verdadeiro – eterno, onipotente, e o Criador do mundo.

Por outro lado, Jesus ensina que o melhor e mais verdadeiro conceito de Deus que podemos ter é aquele de um Pai, que sempre amou e sempre amará cada um de seus filhos humanos, que sempre deseja o melhor bem-estar de seus filhos, e que nem tem seu coração endurecido contra eles quando eles pecam, de forma que não os deseje salvar, e nem suas mãos estão amarradas por imaginações de leis ou justiça, de forma que ele não os possa salvar, mas, em vez disso, que ele é um Pai que espera todo o dia que seu filho errante retorne a ele, como o pai na parábola do Filho Pródigo espera – pronto, regozijante, feliz em sempre perdoar; ele também não quer que ninguém morra em lugar deles, antes que ele perdoe, da mesma maneira como o pai do Pródigo não queria que alguém sofresse antes que ele perdoasse seu filho errante. Contrário a tudo isso, entretanto, a ortodoxia ensina que Deus sempre esteve enfurecido com seus filhos humanos quando eles pecavam, e ou não podia ou não queria (você pode agarrar qualquer um dos chifres do dilema que você escolher) perdoá-los, não importando o quão profundamente eles se arrependessem, até que uma pessoa inocente tivesse morrido em seu lugar.

Novamente, Jesus ensinou que a salvação é basicamente e essencialmente salvação do pecar, ou seja, salvação para santidade presente e conseqüente alegria. A ortodoxia, por outro lado, ensina que a grande e toda-importante idéia de salvação é escapar do tormento penal eterno no mundo vindouro, e a entrada num céu distante, no qual, certamente, uma grande parte daqueles que amamos estará impedida de entrar.

Novamente, Jesus ensinou que o reino do céu vem não “com observação”, mas que está “dentro de você” - uma coisa do coração e da consciência e do caráter, silenciosa, escondida, começando nas menores sementes do bem plantadas na mente, e crescendo e se desenvolvendo, silenciosa e naturalmente, como a influência da levedura na comida, ou como o milho que cresce no campo – primeiro a folha, depois a espiga, depois o milho completo na espiga.

A ortodoxia ensina, por outro lado – é muito dizer isso? - que o reino do céu vem com a observância, e veja! Aqui, com multidões, com excitações de pregações e cânticos e exortações, com profissões (de crença) barulhentas, com conversões proclamadas ao mundo, e todo esse tipo de coisa.

Novamente, Jesus ensinou que aqueles que serão aceitos no dia do juízo e que ouvirão as palavras de boas-vindas, “venham abençoados de meu Pai e herdem o reino preparado para vocês desde a fundação do mundo”, não serão aqueles que disseram “Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome?” - mas aqueles que fizeram a vontade do Pai ao alimentar os famintos, vestir os desnudos, visitar os doentes, receber os estrangeiros, ministrar às necessidades e sofrimentos de seus irmãos humanos neste mundo. A ortodoxia, entretanto, ensina que aqueles que serão aceitos no julgamento serão aqueles que simplesmente acreditaram que -

“Nada, grande ou pequeno,
Restou para eles fazerem;
Jesus morreu e pagou por tudo,
Sim, todo o débito deles”.

Finalmente, para não mencionar outros antagonismos entre os dois, Jesus ensinou que o único objeto apropriado de adoração para os seres humanos é Deus, o Pai de todos, editando uma forma de oração que começa: “Pai nosso que estás no céu”, e nunca dando nenhum sinal de encorajamento a qualquer outra coisa que indicasse na direção dele como objeto de adoração. A ortodoxia, entretanto, ou seja, a ortodoxia protestante dos assim chamados evangélicos, que tem sido tão popular na Inglaterra e América de hoje, reverteu tudo isso e elevou Jesus a, não simplesmente um objeto, mas ao principal objeto de adoração humana. A adoração à Virgem Maria é raramente mais visível nos países católicos que a adoração a Jesus está se tornando neste país. Não apenas nas pregações, mas em hinos e orações, Deus tem caído em segundo plano, e Jesus tomou seu lugar.

Outros pontos de antagonismo entre a ortodoxia e os ensinos de Jesus, quase tão importantes quanto esses, continuam, mas eu devo deixá-los de lado. Tenho tempo apenas para uma ou duas palavras de caráter geral.

Não há muito tempo atrás, ao conversar com um irmão ministro a respeito do Sermão na Montanha, ele observou que este sermão de Cristo era muito notável, e por várias razões. E, primeiramente, era notável por não dizer – tão notavelmente por isso como pelo que diz – pois não se pode fugir da verdade, ele realçou, que, naquele mais longo e completo de todos os discursos públicos de Jesus, no qual ele estabeleceu as verdades que tinha a oferecer aos homens mais plenamente que em qualquer outro lugar, o grande Mestre omitiu completamente tudo o que se conhece como sendo as doutrinas da ortodoxia. Ele explicou e anunciou o Cristianismo que ele tinha a oferecer aos homens, com tudo aquilo deixado de fora. E se seguirmos os ensinos de Jesus desde aquele tempo até o fim, não sei como alguém poderia negar que sempre o encontramos anunciando um Cristianismo que tem todas essas doutrinas que são peculiares à ortodoxia persistentemente deixadas de fora. A Trindade, a queda de Adão, a depravação total, o “plano de redenção”, e todas as outras, não estão lá. A única aparente exceção é a doutrina de um inferno eterno. Mas, mesmo quanto a essa, a exceção é mais aparente do que real; pois, naqueles casos nos quais Jesus se refere a uma punição no mundo vindouro, e usa a palavra “eterna” para se referir a ela, em cada caso a palavra grega Αιων ou Αιωνος, traduzida como “eterna(o)”, é a mesma palavra usada repetidamente em outros lugares no Novo Testamento para se referir a coisas que têm um fim.

E, se as doutrinas da ortodoxia não são apoiadas, mas, ao contrário, são quase todas elas claramente negadas e combatidas pelos ensinos de Jesus, então também, declaro que estão da mesma maneira rebatidas, em vez de estabelecidas, pela Bíblia como um todo. Eu admito que há mais que parece apoiar essas doutrinas em outras partes da Bíblia do que os Evangelhos. E você percebe que quando alguém vem diante de você, tentando provar quase que qualquer doutrina da ortodoxia, como regra ele vai para suas principais provas, não para o grande Mestre, mas para algum discípulo, ou para algum escritor do Antigo Testamento, cuja luz não era tão clara, e cuja compreensão dessas coisas não era tão perfeita como aquela de Jesus. Em outras palavras, ele lhe leva à luz do candeeiro, e não à luz do sol. Por que ele não lhe leva à luz do sol do Sermão da Montanha, e aos capítulos quatorze, quinze, e dezesseis de João, e aos Evangelhos em geral, para ver como esses temas aparecem lá? Se elas são as grandes doutrinas centrais do Cristianismo, como se afirma, certamente elas se encontrarão nos ensinamentos do Fundador do Cristianismo. Mas, não, em vez de levá-lo lá, ele leva você aos escritos de homens que viveram antes de Jesus, e que tinham apenas a luz do Judaísmo, ou então para os discípulos, que estavam bem abaixo de seu Mestre, e que certamente, durante todo o ministério de Jesus, estavam sempre entendendo-o erroneamente, mesmo quando se tratava dos mais simples de seus ensinos. E mesmo assim, não posso admitir que mesmo seus escritos, interpretados candidamente e à luz de uma ampla cultura, realmente ensinem quaisquer das distintas doutrinas da ortodoxia. E é notável, que aqueles escritores da Bíblia que estão mais avançados, e mais próximos do nível intelectual, moral, e espiritual de Jesus, sempre dão menos do que pelo menos aparente aprovação às doutrinas da ortodoxia, e se harmonizam mais plena e claramente com Jesus no ensino de verdades que antagonizam a ortodoxia em todos os pontos. Mas já me demorei muito nesta parte de meu assunto, apesar de que eu ficaria feliz, se o tempo permitisse, em tocar mais nesse assunto. Sigo agora para meu próximo ponto.

2. A ortodoxia é irracional. Eu a acuso de ser tão antagônica à razão quanto aos ensinos de Cristo. E isso não é algo para se considerar ligeiramente. Ela menospreza a razão, e diz que a razão é do homem natural, e que deve sempre se manter subordinada à fé. A coisa mais importante a ser feita, a coisa mais agradável a Deus, a coisa sem a qual não há nenhuma segurança ou salvação, é crer, simplesmente crer. E a explicação do mistério, de como a velha teologia é capaz de manter seu controle das mentes das pessoas como faz, está, mais do que qualquer outra coisa, neste simples fato, que ela ensina que o homem não deve duvidar, não deve questionar; os homens devem acreditar. Usar sua razão com a religião, além de um certo limite muito estreito, é do diabo.

Jamais esquecerei minha própria longa e amarga experiência com isso. Após dúvidas e receios a respeito de diferentes doutrinas da velha teologia começarem a surgir em minha mente e me perturbarem, fui mantido na trilha da tortura mental por meses e anos por todos aqueles a quem fui em busca de luz me dizerem que minhas dúvidas eram tentações do Maligno. Eu tinha de orar contra elas. Eu tinha que lutar contra elas. Tinha que derrubá-las, pois as gloriosas doutrinas da verdadeira fé eram doutrinas a serem reverente e implicitamente cridas, e não racionalizadas. A razão humana era uma faculdade depravada. Tinha caído com a queda de Adão, e assim deveria ser suspeita.

Bem, claro, uma teologia que uma vez tenha se apoderado da mente popular – e essa teologia se apoderou, devemos lembrar, em eras mais obscuras que a nossa, ela não poderia fazer isso agora – mas tendo uma vez se apoderado da mente popular, logicamente ela estaria muito firme e difícil de mover, pois ela guarda o início – coibindo seus adeptos no memento em que comecem a duvidar, dizendo: “Você não deve duvidar ou questionar ou racionalizar, pois isso é a essência do pecado”.

E, obviamente, também, uma teologia que se defende proibindo ou limitando a busca, e tornando a razão um tabu, deve necessariamente ser uma teologia irracional. Ela se declara ser destituída de razão em sua própria condenação da razão. Se ela mesma fosse racional, não faria nenhuma objeção a ser submetida aos testes da razão e investigação. Coisas nascidas da luz não temem a luz.

Os mais inteligentes apoiadores da ortodoxia sabem muito bem que cada aumento de luz e inteligência tende a mostrar a debilidade de sua teologia. Essa é a razão pela qual essa teologia tem lutado contra a ciência como faz. A ortodoxia parece instintivamente ter percebido desde o início que a ciência é sua inimiga. E assim, mesmo tendo feito barulhentas declarações de amizade com a ciência, e enquanto muitos de seus crentes têm sido verdadeiramente devotos à ciência, e não em poucos casos terem sido eles mesmos os promotores da ciência, como teologia, ela não tem sido amigável, mas hostil à ciência. Raramente qualquer coisa na história da civilização tem sido mais distinto do que foi sua amarga oposição ao sistema copérnico de astronomia, a não ser sua ridícula oposição posterior à ciência da geologia. E hoje se apodera com força de uma larga proporção dos mais importantes cientistas do mundo – especialmente da Alemanha, França, e Grã-Bretanha, e essas são as nações mais científicas do mundo – e amontoando sobre esses homens os epítetos de “céticos”, “infiéis”, e coisas semelhantes. E por que outra razão, apenas por ver que a tendência dessas ciências e das investigações desses homens seria minar o fundamento sobre o qual sua doutrinas mais importantes se baseiam? Ela se torna apreensiva; treme com a chegada de novas luzes, pois não sabe qual de suas outras teorias derreterá diante de si como uma ilusão da noite. Não, as investigações da razão já criaram uma devastação tão assombrosa das doutrinas da ortodoxia que não me surpreendo que os choros soem com mais fervor pelo resto do caminho - “Creia, apenas creia; tenha fé; confie e aceite, mesmo quando não puder ver; e acima de todas as coisas, não ponha sua confiança na razão”. Digo, não me surpreendo que esse clamor soe, com ardor quase desesperado, por toda a linha de frente ortodoxa.

3. Venho agora ao meu terceiro ponto. A ortodoxia é imoral. Afirmo que não seja apenas, primeiro, contrária aos ensinos de Jesus, e segundo, irracional, mas que é, em terceiro lugar, essencialmente imoral. Note, eu não digo que as pessoas que acreditam na ortodoxia sejam necessariamente pessoas imorais; nem digo que os homens que pregam a ortodoxia nunca pregam em adição a ela, ou, mais acuradamente falando, em oposição a ela, moralidade. Certamente alguns homens de morais irrepreensíveis são homens que consideram indubitavelmente a ortodoxia como verdadeira; e alguns pregadores, que pregam com grande vigor e poder contra o pecado e a favor da retidão, são pregadores das comunhões ortodoxas. O que digo é que a ortodoxia como uma teologia está misturada com idéias que são imorais em sua tendência, e que quase toda doutrina essencial dela está ou fundamentada sobre, ou necessariamente involve, princípios que, quando legitimamente praticados, levam à degradação de Deus e à injúria moral dos homens.

O fato de que essas tendências sejam até certo ponto controladas, e que esses princípios nem sempre fluam para seus legítimos resultados, não muda a natureza do caso de maneira alguma. Se eu puser sobre minha mesa pão no qual haja veneno, e serví-lo à minha família, seria apenas uma desculpa fraca que eu também servisse com ele outra comida que fosse saudável, ou mesmo que eu provesse algum remédio ou antídoto para o veneno. O fato é, veneno é veneno, seja veneno material ou moral, e nunca deveria ser dado nem ao estômago nem ao cérebro, e isso não pode ocorrer impunimente.

Observemos por um momento algumas das mais importantes doutrinas da ortodoxia separadamente.

Por exemplo, a doutrina tão energeticamente pregada da infalibilidade da Bíblia, ou a idéia de que cada palavra da Bíblia seja palavra de Deus, e que o livro deva ser aceito de capa a capa, sem nenhuma reserva. Veja o que essa doutrina envolve. Ela envolve crer que foi certo, por exemplo, que Josué conquistasse Canaã, que expulsasse um povo pacífico, que nunca o ofendera, de suas casas, e mais ainda, que era correto matá-los, não apenas os homens, mas mulheres e crianças indefesas, aos milhares e milhares, já que se dá a entender que tudo isso ocorreu com a aprovação de Deus. E alguns dos mais ultrajantes casos de todos, de crueldade e assassínio indiscriminado de mulheres e crianças, são expressamente declarados terem sido mandamento de Deus. Agora, que tipo de moralidade é essa?

Essa doutrina também envolve crer que fosse certo que Davi fizesse contra seus inimigos as mais vingativas, cruéis e chocantes orações para que eles fossem mutilados, destruídos, tivessem seus ossos quebrados, que a vingança de Deus estivesse sobre eles, que eles nunca fossem perdoados, que suas esposas e filhos passassem necessidade e não encontrassem ninguém para ajudá-los, que seus pequeninos fossem arremessados contra uma rocha. Eu nem preciso perguntar se era correto que Davi orasse por tais coisas. Entretanto, elas aparecem nos Salmos, e se os Salmos são plenamente inspirados de forma que sejam infalivelmente perfeitos, então essas imprecações horríveis e vingativas devem ser aceitas como tendo vindo de Deus.

Você certamente se lembra da conduta de Jacó, de como com a conivência de sua mãe ele enganou seu pai cego e moribundo, e fez com que seu pai pensasse que ele era seu irmão mais velho, Esaú, conseguindo assim a benção de seu pai, que Esaú deveria ter recebido, suplantando seu irmão da maneira mais flagrantemente desonesta, e levando uma vantagem sobre ele em termos da maior vantagem que um homem poderia levar sobre outro naquela época. E nenhuma palavra de condenação é jamais mencionada contra Jacó no relato bíblico, mas, ao contrário, ele é em todo lugar representado como o favorito especial de Deus. Que tipo de moralidade é essa? Mas todo homem que afirma que a Bíblia é infalível, e que ela deve ser aceita como se cada parte e partícula viesse de Deus, e como perfeita, é obrigado a receber todas essas coisas e outras semelhantes (e há incontáveis casos semelhantes no Antigo Testamento) como corretas. Agora, o que faz isso além de minar a moralidade e degradar o caráter de Deus, da maneira mais horrível?

Então, quem negará que a doutrina ortodoxa da infalibilidade da Bíblia seja, definitivamente, uma doutrina imoral?

Mas agora pense a respeito da doutrina da queda da raça humana em Adão. Essa doutrina ensina que por causa do pecado de um homem, toda a raça humana, nenhum deles que tenha nascido, e alguns deles que ainda não existiriam até milhares de anos mais tarde, deva ser considerada culpada, e tão terrivelmente culpada que a punição para eles é o tormento eterno. Pode-se imaginar qualquer outra coisa palpavelmente mais injusta, e moralmente ultrajante?

E agora, a doutrina da eleição e predeterminação. Essa ensina, em essência, que um pai escolhe e aponta desde a eternidade alguns de seus próprios filhos para serem salvos e outros para serem perdidos. Que tipo de paternidade é esta que pode fazer isso? Você poderia fazer isso, ou eu, mesmo sendo os seres pobres, errantes e imperfeitos que somos? E se não, então você pensa que Deus pode, aquele que é o Pai perfeito, infinito em poder e sabedoria, e bondade e amor?

E a doutrina da expiação como ensinada pela ortodoxia. De acordo com esta doutrina, a humanidade é culpada; Jesus é inocente. O inocente é punido; os culpados saem livres. Que tipo de moralidade é essa? Por que foi o inocente punido, eu pergunto? Para que a justiça fosse satisfeita, é respondido. Mas, eu respondo, essa é precisamente a maneira como a justiça é insatisfeita. A justiça, que é justiça real, e não uma falsidade, nunca encontra satisfação na punição da inocência, não importando se o inocente se oferece, de sua própria vontade, para ser punido. Para satisfazer as exigências da justiça, a culpa deve ser ou punida, ou perdoada, perdoada honesta e diretamente pela boa causa. E em qualquer transação que puna uma pessoa inocente, e que finja que foi a pessoa culpada que foi punida, a justiça não pode tomar parte. Ela lava suas mãos de toda coisa desse tipo.

Finalmente, a doutrina da conversão repentina – o ensino que alguém possa sair de uma condição merecedora do inferno, para uma condição digna do céu, por simplesmente realizar o ato mental de acreditar em algo! Que estranha mudança da ordem moral isso envolve! Suponha um caso como exemplo. Suponha que haja um homem aqui que viveu uma vida tão má quanto seja possível a um homem. Ele se tornou um bruto; ele blasfemou contra Deus, e feriu seu próximo com todo seu poder. Ele é um mentiroso, um ladrão, um adúltero, um assassino. Finalmente, depois de muitas fugas, ele é preso, julgado, sentenciado à morte. Dando-se conta que foi realmente pego, sem nenhuma chance de fuga, ele fica alarmado. Dizem a ele que acredite em Jesus e assim ele será salvo. Ele se converte, é enforcado, e vai para o céu. Eis um outro homem que viveu a vida mais exemplar; ele foi um filho zeloso, um marido amoroso, um pai fiel, um bom cidadão, alguém que sempre cuidou dos pobres e necessitados e dos sofredores, um amigo de toda boa causa, até mesmo alguém que apoiou a igreja e sustentou a religião, e, que de sua própria maneira, de acordo com os ditames de sua própria consciência, adorou a Deus. Mas ele nunca passou pela experiência mental chamada pela ortodoxia de crença em Jesus. Ele morre – e está perdido. O assassino que disse “Eu creio”, ergue seus olhos no céu; o bom homem que omitiu dizer isso, ergue os seus no inferno.

Esse tipo de doutrina é moral? Ou não é ela imoral da pior maneira? De fato, poderia se imaginar qualquer ensinamento que tendesse mais fortemente a dar um prêmio ao vício e ao crime, e desencorajar a virtude e a moralidade do que esse? Se se pudesse, eu não poderia pensar qual seria.

Outras doutrinas da ortodoxia podem se mostrar tão más quanto essas que acabei de mencionar. Mas já citei o suficiente. Se os exemplos já observados não forem suficientes para condenar todo o sistema como sendo, em sua natureza, desonrosos a Deus e destrutivos à virtude nos homens, então sou incapaz de julgar.

4. Eu chego agora à minha quarta e última acusação contra a ortodoxia, ou seja, a de que o tempo pode ser fácil e claramente traçado na história da igreja cristã, quando todas as mais importantes dessas doutrinas surgiram, e a maneira pela qual elas surgiram e se impuseram sobre o Cristianismo.

A doutrina da Trindade surgiu, como bem se sabe, nos séculos III e IV, tendo sua origem, inquestionavelmente, no Neo-Platonismo especulativo e excessivamente místico de Alexandria. Uma batalha teológica ocorreu sobre ela, que se espalhou por toda a Cristandade, despedaçando as igrejas gregas e latinas da maneira mais terrível, e despertando em todo lugar alienação e ódio onde antes houvera paz e harmonia. O Concílio de Nicéia, que a estabeleceu como ortodoxia, e como sendo a partir de então a fé da igreja, por muito tempo impôs um equilíbrio sobre ela; e quando, finalmente, o concílio se pôs a favor da doutrina, foi por uma maioria tão pequena quanto insignificante; enquanto não faltam evidências (e essas de fontes ortodoxas) de que a real influência que virou a balança foi o Imperador Constantino, um homem que moldou todo o seu trajeto pelo que pensava ser política, tendo diferentes épocas em sua vida nas quais mudara entre o Unitarismo e o Trinitarismo. E assim, não fosse a influência do astucioso imperador, que no momento estava sendo treinado pelo partido Trinitarista, o Unitarismo, a crença da igreja até aquele tempo, em vez do Trinitarismo, seria sem dúvida alguma a doutrina predominante na Cristandade hoje em dia.

Avançando um século ou dois, encontramos uma outra nova doutrina, vinda do cérebro sombrio e metafísico de Agostinho, se apresentando à Igreja. Desta vez é a doutrina da depravação total. A controvérsia envolvendo essa doutrina (chamada na história de Controvérsia Pelagiana) desolou a Cristandade por quase um século. No fim, ela favoreceu a especulação de Agostinho, e daquela época em diante a depravação total, com a queda da humanidade em Adão, se tornou parte da fé da igreja cristã.

Avançando ao século doze, encontramos a doutrina da expiação ou do sacrifício vicário de Cristo surgindo. A antiga igreja não declarava tal doutrina. Por muito tempo depois da morte de Cristo e dos apóstolos, os cristãos estavam contentes com as simples representações e declarações do Novo Testamento. E quando finalmente, com as eras metafísicas surgindo, eles começaram a moldar teorias especulativas, a primeira teoria que moldaram, olhando na direção da doutrina moderna da expiação, foi a de que Jesus morreu, não para pagar nenhum débito para com Deus, ou para diminuir a ira de Deus, ou qualquer coisa desse tipo, mas que ele morreu para pagar um débito para com o diabo. Um pacto havia sido acordado entre Deus e o diabo, que se Deus desse Cristo nas mãos dele (do diabo) para que ele fosse afligido e morto, ele (o diabo) abriria mão da raça humana e permitiria que Deus os salvasse do inferno. E essa doutrina continuou como a doutrina recebida, até o século XII, quando o grande teólogo escolástico Anselmo publicou um livro (Cur Deus Homo, no ano de 1109), contendo uma nova doutrina de que Jesus morreu como um sacrifício exigido pela justiça de Deus. A justiça de Deus exigia a condenação de toda a humanidade por causa de sua queda em Adão, e Cristo morreu em seu lugar, para que eles pudessem ser livres. Bem, essa doutrina, proposta como foi no tempo mais sombrio da noite medieval, e imposta pela grande habilidade intelectual de seu autor, finalmente foi aceita. E assim a temos diante de nós hoje, como uma doutrina que nos pedem que aceitemos, ou percamos a salvação.

Avançando na corrente histórica um pouco mais, encontramos no século XVI a doutrina de Lutero da justificação pela fé surgindo, e um pouco mais adiante, aquele conjunto de doutrinas conhecidas como Calvinismo.

A história do surgimento de todas essas doutrinas foi essencialmente similar. Cada uma delas teve sua origem no cérebro de algum especulador teológico; cada uma delas ganhou aceitação numa era de escuridão comparativa, e algumas em eras de grande escuridão, e somente depois de uma batalha, que durou muito tempo e que dividiu a igreja em facções hostis da maneira mais triste e horrenda.

E agora, em nossos dias, todas essas doutrinas têm a audácia de vir diante de pessoas inteligentes e exigir que sejam aceitas como cristãs. Nascidas no tempo em que nasceram, e tendo entrado na igreja cristã como entraram, nenhuma delas tendo sido apoiada pela igreja em suas primeiras e mais puras eras, elas ainda têm a petulância de afirmarem ser a essência do Cristianismo. Para dizer o mínimo, é estranho, muito estranho! Mas isso é o suficiente.

Já falei muito sobre algumas das razões mais proeminentes que tenho a oferecer como explicação do por quê me encontro compelido a rejeitar a ortodoxia como não sendo cristianismo em nenhum senso real, e de me posicionar como cristão fora dela, de adorar o Deus de meus pais da maneira como tantos chamam de heresia. Um ou dois pensamentos e terminarei.

Freqüentemente ouvimos lamentos a respeito do declínio do Cristianismo, do ceticismo e materialismo de nossa era, da indiferença das classes mais inteligentes e educadas para com a religião. Dizem que físicos são geralmente céticos, que advogados raramente freqüentam igrejas, que nossos mais importantes editores e escritores geralmente manifestam pouco interesse em coisas espirituais, que nossos políticos e estadistas não se importam com a religião cristã, exceto como uma forma de força política com as massas que deve ser usada para sua vantagem pessoal. Também, freqüentemente se diz que os empresários mais importantes de nossas grandes cidades vão cada vez menos à igreja. Agora, o que tudo isso significa? Pois tudo isso tem um significado. Qual é o significado? Ah! Essas coisas que falei esta manhã apenas dizem claramente o que isso significa. Apenas significa que a inteligência desta era e deste país está se afastando de uma religião muito estreita e muito irracional. Coisas são ensinadas como sendo a essência da religião que vastos números desses homens vêem como triviais e absurdas para que eles dêem seu tempo e atenção. Assim, enquanto eles respeitem as instituições do Cristianismo, e em muitos casos contribuam com a construção de igrejas, e que cheguem mesmo a favorecer suas esposas e filhos por irem à igreja, eles evitam ir à igreja o quanto puderem, preferindo ficar em casa e ler Tyndall, e Spencer, e Proctor, e as revistas, e os jornais diários, de onde podem aprender algo que apela à razão e que nutre sua inteligência, em vez de irem a igrejas e ouvirem doutrinas que já ouviram centenas de vezes, e que soa como o mais óbvio absurdo toda vez que as escutam. Não faz muito desde que o Evangelista de Nova York, falando a respeito desse tema, usou essas palavras:

“Dentre todos os jovens inteligentes, que neste momento estou na liderança do pensamento e ação na América, nos aventuramos a dizer que quatro dentre cinco são céticos dos grandes fatos históricos do Cristianismo. O que é ensinado como doutrina cristã pelas igrejas não é considerado por eles, e entre eles há uma desconfiança geral a respeito do clero, como uma classe, e uma repugnância contra o aspecto do Cristianismo moderna e contra a adoração da igreja. Esse ceticismo não é petulante; pouco é dito sobre ele. Não é uma peculiaridade de radicais e fanáticos; muitos dos que o abraçam são homens de mentes calmas e equilibradas. Não é mundano e egoísta. Não, os que duvidam lideram da forma mais corajosa e mais altruísta os nossos dias”.

Disse o Rev. Newman, em um recente discurso veiculado em um jornal secular: “Na próxima década, e nos próximos cinco anos, o Cristianismo será julgado como nunca foi julgado antes. Há homens na Inglaterra e na América hoje, que atacarão com seu conhecimento acadêmico, com o poder do intelecto, e com uma amplitude de opiniões, inigualável no passado, e há homens e mulheres diante de mim esta noite que estão destinados a ter sua fé terrivelmente abalada”.

Não faz muito que o Bispo Simpson declarou publicamente que o tempo havia passado no qual a igreja cristã (significando, claro, a igreja cristã ortodoxa) podia recrutar homens adultos; a única esperança que lhes restava eram os jovens, especialmente as crianças. Portanto, ele exortou seus partidários religiosos a duplicar sua diligência nos esforços de assumir o controle de seus filhos antes que eles crescessem, e, claro, ficassem tão inteligentes (apesar de ele não ter se expressado exatamente com essas palavras) a ponto de virarem as costas às igrejas.

O que tudo isso significa? Alguém é tão cego a ponto de não poder ver? Pois bem! Pois bem! Significa que esses homens, cujas palavras citei, estão começando a discernir que o Cristianismo está entrando em uma crise tal que nunca foi vista antes, nem mesmo nas perseguições do século II, ou nos arremessos da Reforma alemã. Mas significa muito mais que isso; e o estranho é que esses homens não o vêem. Significa que a ocasião e causa da crise é basicamente a imensa bobagem e cegueira da própria igreja cristã em continuar, em face de toda a luz e inteligência de nossa era, a se prender a uma teologia que aquela luz e inteligência estão descobrindo tão rapidamente ser falsa.

A inteligência de nossa era realmente se afasta do ensino das igrejas desta era, porque tem que; e continuará a fazê-lo, cada vez mais, tão certo quanto a verdade é verdade, e tão certo quanto Deus reina, até que chegue uma época na qual as igrejas cristãs tenham uma teologia a oferecer aos homens que não se oponha aos ensinos mais claros do Fundador do Cristianismo; que não ataca a razão e o senso comum, que não viola o senso mais profundo de justiça do homem, e que não se impôs ao Cristianismo vindo de fora, como fez a ortodoxia.

Eu vos digo que os homens que se levantam nesta época iluminada e neste país para reafirmarem as doutrinas da ortodoxia, estão apenas bombardeando os melhores cérebros e cultura deste país diretamente de suas igrejas. Não importa se esses homens lotam auditórios e ganham momentaneamente o que parece ser sucesso. É sempre o mesmo. Seu sucesso é um relâmpago. Um simples vento de razão sóbria os vence. A longo prazo, no efeito profundo e permanente e real que produzem, eles afastam os melhores cérebros e inteligências do Cristianismo e, triste como é, em direção à descrença de toda religião. A única coisa que pode segurar a inteligência dessa era, sem falar das inteligências maiores das eras vindouras, é um Cristianismo que seja puro, racional, claro e limpo do que sobreviveu dos séculos das trevas – em uma palavra, cristão. Tal Cristianismo, uma vez mantido em sua beleza divina, não pode falhar em se recomendar às mentes honestas e devotas desta e de todas as eras.

E, creiam em mim, amigos e irmãos, tal Cristianismo é o herdeiro certo do futuro. Podemos não viver para ver o dia no qual ele prevalecerá, mas ele prevalecerá com certeza, pouco a pouco.

(Sermão pregado pelo Rev. Jabez T. Sunderland em Northfield, Massachusetts. Outubro de 1875.)

sábado, 1 de dezembro de 2007

A Questão da Divindade de Jesus de Nazaré



Ao se considerar a questão da divindade de Jesus, a primeira coisa que deveríamos fazer é tentar declarar claramente a doutrina ortodoxa. Mas isto não é tão fácil como você pode pensar. Mesmo entre as pessoas que se consideram como tendo uma crença perfeitamente ortodoxa na Trindade e na Encarnação, há muita confusão a respeito do que estas coisas significam. Isso não deveria ser uma surpresa, já que a doutrina de Jesus como "Deus, o Filho" inclui ou nuanças muito boas ou (ao se aprofundar no seu ponto de vista) uma boa dose de contradição e imprecisão.


Entretanto, preciso confessar que fico admirado com o dogma ortodoxo, particularmente à luz da visão de mundo, a filosofia grega e os debates doutrinários que serviram como seu pano de fundo. Não penso que seja necessário ou de nenhuma ajuda para nós hoje, mas o admiro como a melhor resposta possível às necessidades doutrinárias de seus dias.


Se o extrairmos da linguagem filosófica grega na qual esse dogma foi primeiramente construído, podemos declarar a posição ortodoxa assim: "Há um Deus, um ser divino. Esse Deus único, entretanto, tem três aspectos, ou se apresenta como três "pessoas": o Pai, o Filho, e o Espírito Santo. Essa é a Trindade, o Deus único triúno (três-em-um). A segunda pessoa da Trindade é chamada de Deus o Filho ou o "Logos" (a palavra grega frequentemente traduzida como "a Palavra", como em João 1). Como um aspecto de Deus, o Logos tem existido desde o início, e no nascimento de Jesus de Nazaré se tornou encarnado nesse ser humano. Nesse indivíduo havia uma natureza verdadeiramente divina e também uma natureza verdadeiramente humana. A humana não se tornou divina, nem a divina humana, nem as duas se misturaram, mas ambas estavam nessa única pessoa. Nem podemos dizer que a natureza divina em Jesus fez uma coisa e a natureza humana fez outra, pois todas as ações e experiências foram daquele único indivíduo, Jesus Cristo, tanto humano quanto divino".


Essa formulação satisfez muitas exigências. Primeiro, no tempo em que foi formalmente adotada havia já uma longa tradição de adoração a Cristo. Isso, claro, exigia que ele fosse divino.

Segundo, cumpriu as exigências da maioria das doutrinas contemporâneas a respeito da salvação. Essas dependiam ou (1) do sacrifício expiatório de um ser perfeito a nosso favor, ou que (2) o incorruptível e eterno tivesse entrado em nossa carne corruptível e finita. A primeira exigia que Jesus, que foi crucificado, fosse divino; a segunda exigia que Deus se tornasse humano. A Encarnação satisfazia essas duas exigências.


Terceiro, as Escrituras parecem falar de Jesus em muitos exemplos como humano, mas em outros casos como divino. A Doutrina da Encarnação permite que ambos sejam verdade.


Quarto, se pensava no mundo filosófico greco-romano que Deus era imutável e que não pudesse sofrer. Ao postular-se a existência de duas naturezas nessa única pessoa, a Doutrina da Encarnação permitia que se dissesse que o sofrimento de Jesus, como registrado nos Evangelhos, foi experimentado por essa pessoa humana-e-divina através de sua natureza humana, o que evitava um conflito com a sabedoria prevalecente do tempo.


Assim, a Encarnação satisfazia as necessidades do tempo - no que tange ao culto, soteriologia, e missão - de uma forma não incompatível com a Bíblia. Ela representa uma conquista teológica marcante.

Essa doutrina da natureza de Jesus de Nazaré não foi firmemente fixada até o Concílio de Calcedônia em 451. Todavia, desde os fins do primeiro século parece ter sido geralmente aceito pela Igreja que Jesus era divino de uma forma ou de outra. Além disso, a própria formulação calcedônica tem agora mais de quinze séculos de mandato. Sendo assim, uma das duas reações comuns a ela (quando as pessoas se dão o trabalho de pensar a respeita dela) é:


"Como alguém pode duvidar do consenso da Igreja, desenvolvido nos primeiros anos da fé das testemunhas bíblicas, confirmado nos ensinos dos mestres e santos através dos séculos, e testada nas vidas de milhões de fiéis?"


Entretanto, a outra reação comum à Doutrina da Encarnação reage à sua antiguidade de outra forma:


"Como pode alguém prestar qualquer atenção a uma doutrina que surgiu de um sistema de conceitos gregos sendo imposto às Escrituras judaicas, que era tão estranho a Jesus como é para nós, que depende de conceitos e de um senso comum que há muito seguiram o rumo do Império Romano, e que é tão difícil de compreender?"


Ambas as reações são extremas, claro. E ambas exigem muito de nós. A primeira nos pede que não pensemos sozinhos, enquanto a segunda nos pede para ignorar o passado e nem mesmo considerar crenças que ainda são abraçadas por muitos cristãos contemporâneos. Independentemente de você compartilhar minha admiração pela doutrina ortodoxa ou não, temos de reconhecer que ela representa uma compreensão de Deus e de Jesus que não apenas tem tido a lealdade da vasta maioria dos cristãos na história da Igreja, mas que também tem se provado como uma doutrina que pode ajudar as pessoas a levarem vidas fiéis seguindo os ensinos e exemplo do Cristo. Somente pelas razões mais graves, e somente com um senso apropriado de admiração, pode alguém ousar desafiar esta compreensão tradicional.

As razões são muito graves. Então, apesar de minha trepidação, e em admiração à tradição, e sabendo que isso dá a impressão de audácia quando o que eu sinto é na verdade uma obrigação que não posso evitar, sou impelido por minha compreensão (o tanto quanto sou capaz) de elevar este desafio. Sou um servo ou mesmo um prisioneiro da verdade que sinto, à qual não tenho escolha a não ser prestar testemunho. E ao fazê-lo, acho necessário desafiar a doutrina ortodoxa da divindade de Jesus de Nazaré, o Cristo. Faço isso baseando-me em quatro pontos:


(1) A doutrina ortodoxa não é mais bíblica que algumas outras interpretações a respeito da natureza de Jesus, e é na verdade menos bíblica que algumas.


(2) Mesmo se essa doutrina já fez sentido aos herdeiros filosóficos de Platão e Aristóteles, não faz mais sentido para nós. Não estou apenas dizendo que seja difícil de entender. Estou dizendo que não pode ser dita com significado algum, que é impossível.


(3) Se pudesse fazer sentido, o que não pode, seu significado violaria nosso senso comum.


(4) E por último, essa doutrina é desnecessária. É desnecessária para a mensagem de Jesus ou para a centralidade de Jesus. Além do mais, para algumas pessoas ela, na verdade, serve de empecilho para que recebam a mensagem.


1. A Doutrina Ortodoxa Não É Exigida Pela Bíblia


Quando os padres da Igreja estavam formulando sua Cristologia, eles eram coagidos pelo fato de serem literalistas bíblicos. Por eles suporem que todas as referências escriturísticas tocantes a Jesus fossem factualmente verdadeiras, tiveram que idealizar uma doutrina de sua natureza que estivesse em harmonia com todas essas diferentes passagens. Já que às vezes se fala de Jesus em termos muito humanos, e às vezes divinos, a única solução foi concebê-lo como sendo, de alguma forma, uma combinação de humano e divino.


Contrastando com isso, o fato verdadeiro (e libertador) é que nós não temos no Novo Testamento uma única, monolítica interpretação de Jesus. Ao contrário, temos uma diversidade de interpretações. A respeito disso o Novo Testamento demonstra tanto a unidade no que é essencial quanto a liberdade nas interpretações que são apropriadas à Igreja Cristã.


Os Evangelhos são unânimes a respeito da centralidade de Jesus, o Cristo: sua importância central para a nossa compreensão de Deus e como nossa norma para viver com uma relação correta com Deus. Mas enquanto eles concordam a respeito dessa centralidade, os diferentes autores do Novo Testamento têm maneiras diferentes de conceitualizá-la e explicá-la. Mateus vê Jesus como um "super-profeta", o homem escolhido por Deus para cumprir as profecias da Bíblia Hebraica, na tradição de Moisés e Elias, mas os ultrapassando em importância e autoridade como a culminação da linha profética. Marcos e Lucas diferem de Mateus em ênfase: Marcos retrata Jesus como um Messias discreto, escolhido por Deus para inaugurar o Reino de Deus, enquanto Lucas enfatiza mais claramente a missão de Jesus de trazer o evangelho aos povos de todas as nações.


João é o único Evangelho a retratar Jesus como sendo diferente em natureza dos profetas, como mais que o ponto culminante da sucessão do povo chamado por Deus e comissionado com tarefas especiais. Especialmente no prólogo (João 1:1-18), é claro que o autor do Evangelho de João considera Jesus como sendo mais que humano. Ele compartilha, de alguma forma, na divindade, mas de uma maneira que não é muito clara, e que parece dever muito à "literatura da sabedoria" judaica (Provérbios 8:22-31). Jesus era pré-existente como o "Logos", que é traduzido como "verbo/palavra" mas que significa muito mais que isso. O Logos é divino ("era Deus"), mas não é a Deidade ("estava com Deus"). O próprio Jesus é descrito como tendo declarado sua unidade com Deus, mas quando ele está vivo sempre declara esta mesma unidade com os seus discípulos. Então em resumo, enquanto João considera Jesus como sendo mais que humano, não é claro o que exatamente ele tem em mente.

Paulo, como de costume, diz diferentes coisas em diferentes lugares. Em Romanos 1:4 ele diz que Jesus foi "constituído Filho de Deus . . . através da ressurreição dos mortos". Isso implica numa "Cristologia adocionista" -- ou seja, que Jesus foi um homem mortal que depois de sua fiel obediência até a cruz, foi então constituído (adotado) Filho de Deus. Em Filipenses 2:5-7, entretanto, ele diz que Jesus "tinha a condição divina, mas não se apegou a sua igualdade com Deus, mas pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens". Isto tem muitas interpretações possíveis, mas todas apontam para um Jesus pré-existente que era mais que humano e de alguma forma "igual" a Deus. Em Colossenses 1:15-16, Paulo reafirma a pré-existência de Jesus com palavras que (como no prólogo do Evangelho de João) ecoam a literatura da sabedoria, como ele sendo aquele através do qual todas as coisas foram criadas.


A carta não-Paulina aos Hebreus também afirma isto a respeito de Jesus, e vai além, dizendo que ele "é a irradiação da sua [de Deus] glória e nele Deus se expressou tal como é em si mesmo" (Hebreus 1:3). Mas o autor fala de Jesus não como Deus, mas como filho e herdeiro, estando acima dos anjos. O que nós temos aqui é uma "escada de ser" não muito incomum nos tempos antigos: há Deus no topo, com os seres humanos abaixo de Deus mas acima de todos os outros animais, e há também seres acima dos humanos. Os anjos, por exemplo, cairiam nesta categoria. Eles são mais divinos que nós, mas menos divinos que Deus. O que Hebreus faz (e talvez João e Paulo também) é colocar Jesus próximo ao topo desta hierarquia, abaixo de Deus mas acima dos anjos e de todo o resto.


Agora, se você perguntasse qual dessas é a posição bíblica a respeito da natureza de Jesus de Nazaré, a resposta seria "nenhuma delas". Cada uma delas representa uma alternativa bíblica para explicar a importância central de Jesus. E já que não temos o peso da necessidade de surgir com uma boa interpretação que incorpore todas elas - como os literalistas - somos livres para escolher sozinhos aquela que melhor nos ajude a entender Jesus e a responder à sua mensagem. Na verdade, nós podemos ir além disso. Já que é constante no Novo Testamento a centralidade de Jesus e de sua mensagem, e não qualquer explicação do por quê e como ele é central, somos então livres para interpretar essa centralidade de uma maneira que preencha as necessidades do nosso próprio tempo e de nosso próprio senso comum, desde que permaneçamos compatíveis com o ímpeto básico do ensino de Jesus.


Na verdade, apenas se permitirmos a introdução de outras conceitualizações não-bíblicas, podemos aceitar as doutrinas ortodoxas da Trindade e da Encarnação como opções cristãs legítimas. Pode-se argumentar que essas doutrinas representam o desenvolvimento de idéias bíblicas, mas nenhuma delas pode ser encontrada na Escritura em sua forma ortodoxa. Obviamente, se permitirmos um grupo de interpretações que seja desenvolvido das posições encontradas no Novo Testamento, então devemos permitir outras também, desde que elas sejam compatíveis com a mensagem de Jesus.


2. A Doutrina Ortodoxa É Impossível


A doutrina da Encarnação, que Jesus de Nazaré era completamente Deus e completamente humano, é simplesmente impossível. Ela não faz sentido. As palavras não podem se juntar dessa maneira sem fazer violência a seu significado e às regras da lógica.


Ser humano é ser finito, limitado em conhecimento, falível, e imperfeito. Ser humano também significa estar ciente de sua finitude, e de sua separação dos outros e de Deus - às vezes dolorosamente ciente. Se Jesus foi humano, então ele foi tudo isso - e é dessa forma que os Evangelhos descrevem-no, experimentando a raiva, fatiga, incerteza, relutância, dor e mesmo a morte.


Ser Deus - não apenas compartilhar uma faísca do divino, e não apenas ser à imagem de Deus, e nem ser menos divino como os anjos, ou qualquer das outras subversões possíveis da doutrina ortodoxa, mas realmente ser Deus - em qualquer compreensão cristã, significa ser eterno e ilimitado, ser perfeito em amor e compreensão. Agora, ou Jesus de Nazaré foi limitado, falível e imperfeito, ou ele foi ilimitado, infalível e perfeito. Esses dois grupos de atributos são opostos um ao outro. Você não pode ser as duas coisas; ele foi ou uma coisa ou outra. Não se pode dizer que uma pessoa foi os dois.


"Ah!" alguém dirá. "Este é o paradoxo" Não, não é um paradoxo. Este é um ponto muito importante, então por favor observe: um paradoxo é algo que parece impossível mas que é demonstravelmente verdadeiro. Assim sendo, foi um paradoxo quando um cientista cuidadosamente analisou abelhões e concluiu que de acordo com as leis da física eles não poderiam voar. Havia contradição e uma aparente impossibilidade, mas os abelhões continuaram a voar.


Entretanto, um indivíduo ser ao mesmo tempo perfeito e imperfeito é o oposto disso: pode parecer verdade para alguns, mas é demonstravelmente impossível. E não apenas impossível para a nossa compreensão das leis da natureza, que pode estar errada (como com o caso dos abelhões), mas é impossível de acordo com as leis da lógica sobre as quais todo o nosso raciocínio é baseado.


Dizer que alguém é, ao mesmo tempo, perfeito e imperfeito é como dizer que você viu um círculo quadrado. Isso é uma impossibilidade. Você está dizendo que o círculo não era redondo, o que faria com que não fosse um círculo? Ou você está dizendo que o quadrado era circular? Isto não é um paradoxo, isto é um absurdo sem sentido algum, independentemente de quão criativo seja.


Dizer que alguém é perfeito e imperfeito ao mesmo tempo é dizer que "igual a X" e "diferente de X" sejam a mesma coisa. Isso é ou abandonar o significado dessas palavras ou abandonar a lógica, e de qualquer maneira significa que estamos falando um absurdo que não pode fazer nenhum sentido para nós.


Os ortodoxos responderão que Jesus era limitado, falível e imperfeito quanto a sua natureza humana, mas ilimitado, infalível e perfeito em sua natureza divina. Isso pode soar bem, mas o que significa ter duas naturezas? Se significa ter duas mentes e duas vontades e dois caráteres, um perfeito e outro imperfeito, então significa que havia duas pessoas distintas ocupando aquele único corpo (ou Jesus era um esquizofrênico). Do contrário, se essa foi realmente a única pessoa Jesus o Cristo, como afirma a ortodoxia, então ou essa pessoa era perfeita ou não era. Ou ele era capaz de pecar ou não era. Ou ele tinha conhecimento limitado ou não tinha.


Por exemplo, ou ele sabia - não acreditava, mas sabia - que seria ressuscitado no segundo dia após sua morte, ou ele não sabia isso. Se ele sabia, então ele não enfrentou a morte como qualquer outro ser humano, e ele não estava enfrentando nenhum risco real em permitir que fosse capturado, julgado e crucificado. Então, no tocante a isso, ele não poderia ser considerado plenamente humano. Se, no entanto, ele não sabia que seria ressuscitado, e enfrentou a morte em fé mas sem este conhecimento, então como ele poderia ser também Deus? Se a natureza divina nele sabia que ele seria ressuscitado, mas ele não sabia disso, então não era sua natureza divina. Se o divino nele sabia de algo que ele não sabia, voltamos ao problema das duas pessoas.

Então dizer que Jesus era completamente humano e completamente divino não é um paradoxo. É como falar sobre um quadrado redondo: soa bem, e faz uma combinação de imagens interessante, mas está no fim sem um significado discernível. Algumas pessoas têm tentado suavizar isso, dizendo que sua pessoa era constituída por Deus o Filho, e sua humanidade era "impessoal". Mas isso não ajuda muito. Humanidade impessoal é como um quadrado sem quatro cantos: pode ser um círculo melhor, mas não é mais um quadrado.


Outros responderiam que o problema aqui é que eu estou usando palavras com seus significados humanos, enquanto que eu devo perceber que quando aplicadas a Deus essas palavras recebem um significado diferente e mais profundo. Deixem-me dizer isto: se quiserem redefinir algumas destas palavras, tudo bem, contanto que possam nos dizer os novos significados que estão usando. A prática habitual, entretanto, parece ser dizer que enquanto alguém não possa precisamente dizer quais são esses novos significados, alguém tenha, entretanto, certeza de que eles se encaixem de forma a fazer sentido. Isso, claro, é simplesmente um esforço de se evitar as exigências da lógica. Mas se você não sabe os significados das palavras que você está aplicando a Jesus, então você está meramente dizendo "Jesus é X" e "Jesus é Y", com X e Y sendo desconhecidos. Isto, claro, é dizer absolutamente nada.


Mesmo que este problema de lógica possa ser superável - o que não é - e que possamos admitir que é possível que Jesus seja, tanto um ser completamente humano, quanto completamente divino, nós ainda teríamos que apontar para o fato de que ele não poderia ser completamente humano da mesma maneira que você e eu. Você sabe que eu - e, eu suspeito, que você também - não possa ser Deus. Tenho a impressão que isso não seja simplesmente um ponto insignificante, mas que um fato central da condição humana seja precisamente o de ser e se sentir separada do Deus eterno e infinito. Se é assim, então ser Deus é também não experimentar a condição desvantajosa da humanidade. E se Jesus não experimentou nossa desvantagem, não apenas ele não foi completamente humano, mas seus ensinos e exemplos são de relevância questionável para nós.


3. Ela Viola Nosso Senso Comum

Você provavelmente sabe o que vou dizer. Mesmo que fosse logicamente possível Jesus ser completamente Deus e completamente humano, ainda violaria nosso senso comum. Se nosso senso comum não pode conceber Deus como um intervencionista, então certamente não podemos conceber Deus como tendo se tornado um ser humano particular. Isso talvez seja apropriado para Zeus ou Apolo, mas não para o Deus do Universo.


Não estou dizendo que Jesus não estivesse mais em contato com Deus ou mais receptivo a Deus que a maioria. Penso que ele estava. E não estou dizendo que Deus não estivesse nele, agindo nele e através dele. Tudo que estou dizendo é que não posso acreditar que uma pessoa ser atingida por um relâmpado seja um ato de Deus, então, também, não posso crer que o homem Jesus era Deus em pessoa. É o mesmo senso comum.


4. É Desnecessária E Inútil


Já vimos que a fé ortodoxa na divindade de Jesus de Nazaré é (1) apenas uma das possíveis maneiras de explicar sua centralidade que podem ser subentendidas a partir do Novo Testamento; (2) não se encaixa nos limites do que é logicamente possível; e (3) é contrária ao nosso senso comum. Além de tudo isso, é também muito inútil.


Uma das regras que estabeleço para que uma crença possa ser considerada necessária à fé cristã é de que apenas se ela estiver fortemente implícita na mensagem de Jesus ou se for necessária à aceitação de sua mensagem. É um dos dois o caso aqui?


No tocante à mensagem de Jesus, um impressionante consenso entre os biblicistas que (independentemente do que digam João e Paulo) Jesus não declarou que ele mesmo fosse Deus, explícita ou implicitamente. Não posso encontrar nenhuma razão para desafiar este consenso, posso sim encontrar muito para apoiá-lo. Então uma crença na divindade de Jesus não pode, por isso, ser considerada necessária.

Poderia ser necessário, então, acreditar que Jesus seja divino para aceitar sua mensagem? Talvez. Se você acreditasse que o amor e perdão e nova vida em Deus que Jesus oferecia não seria possível a não ser que um ser perfeito sofresse e morresse por nós, ou a não ser que a Deidade incorruptível adentrasse a esfera da carne humana corruptível, então para você uma crença na divindade de Jesus poderia ser necessária antes que você pudesse responder positivamente à sua mensagem. Entretanto, nem todo mundo crê nisso, então, nem todo mundo acha necessário crer na divindade de Jesus. Ele não ensinou que fosse necessário, seus discípulos (de acordo com Mateus, Marcos, e Lucas-Atos) não achavam necessário; eu não acho necessário; e muitos cristãos comprometidos por todos os séculos não achavam necessário. Se você acha necessário, então você certamente pode crer nisso. A crença na divindade de Jesus é certamente uma alternativa cristã, mesmo que seja equivocada. Mas, por favor, não conclua precipitadamente que porque você acha esta crença necessária para a sua aceitação da mensagem de Jesus, ela deva ser obrigatória para todos nós. Pois este não é o caso.


Na verdade, há muitas pessoas que serão capazes de aceitar a mensagem de Jesus apenas se ela estiver presa à afirmação de sua divindade. Se prendermos sua mensagem à uma interpretação de sua centralidade particular, desnecessária e ilógica, estaremos impedindo que sua mensagem seja uma opção viva para pessoas que estariam prontas para aceitar uma outra interpretação, mais biblicamente autêntica. Como cristãos não temos o direito de impedir o acesso ao evangelho por outras pessoas dessa maneira. Muitos séculos atrás a Igreja usava os conceitos da filosofia grega para evangelizar o mundo greco-romano. O evangelismo agora não pede uma nova interpretação que esteja de acordo com o nosso próprio senso comum?


Além disso, considerar Jesus como completamente humano e portanto não divino, torna possível que sua vida sirva de exemplo para nós. Se esta pessoa que buscou os pecadores, amou aqueles que ninguém amava, e perdoou seus inimigos mesmo enquanto morria na cruz - se ele era divino, então posso tomar seu exemplo como sendo apenas possível para as pessoas que também forem Deus, e deixar seus ensinos para aqueles que não partilham de minha limitação, aquela de ser apenas um humano. Mas, se este homem era humano como eu, se ele era uma criatura limitada e falível como eu, e ele foi capaz de viver daquela maneira - então eu também posso. E seus ensinamentos são, então, relevantes, pois eles vêm de alguém que partilhava de minhas limitações. Para mim, e para muitos, a relevância de Jesus como um exemplo e mestre é muito mais importante para a aceitação de sua mensagem do que sua divindade.

Para onde vamos daqui?


Se Jesus não é divino, então de onde vem sua autoridade? Como damos a ele tal posição de importância? Quem dizemos ser ele, então? Estas são questões sobre as quais pensaremos em seguida.


Primeiro, entretanto: eu declarei a mais séria de minhas diferenças com a doutrina ortodoxa. Eu disse que no tocante à Encarnação, ela é inadequada, sem sentido e desnecessária, mas que também creio ser ela uma alternativa cristã válida. Este, então, seria um lugar apropriado onde explorar a relação entre entre doutrina e fé, e explorar a diferença entre estar certo e ser cristão.


Notas:


1. Recomendo ao leitor “The Emergence of the Catholic Tradition” escrito por Jaroslav Pelikan (University of Chicago Press, 1971) ou “A History of Christian Doctrine”, Hubert Cunliffe-Jones, ed., (Fortress Press, 1980). John Cobb, Jr., também tem um ótimo sumário no Capítulo 9 de “Christ in a Pluralistic Age” (The Westminster Press, 1975). nenhum desses indivíduos podem ser responsabilizados por qualquer coisa que tenha dito aqui.


2. Aqueles que falam de Deus como imanente em todos nós, mas plenamente imanente em Jesus de Nazaré apresentam uma alternativa que escapa alguns dos problemas da explicação ortodoxa da centralidade de Jesus. Mas deve-se manter em mente que esta não é a doutrina ortodoxa da Encarnação, que representa Jesus como diferente de nós em espécie, não apenas em nível, e que não diz que Deus estava em Jesus mas que Deus se tornou Jesus.