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sábado, 18 de março de 2017

Pela Resistência da Compaixão: um convite aos meus irmãos e irmãs judeus, cristãos e muçulmanos

Nossa época evidencia o quanto nossas tradições de fé têm sido sequestradas pela retórica do medo, da desconfiança, da intolerância, do fanatismo e do ódio. Outro dia, por exemplo, ouvi um pregador falar tão entusiasticamente da “ira de deus” que suas palavras me causaram náusea. Ele proclamava um suposto ódio de seu “deus” a todos aqueles que não abraçavam sua visão teológica – e o mais assustador é que se tratava de um pregador duma tradicional igreja cristã.

A retórica daquele cristão, infelizmente, é compartilhada por muitos outros cristãos, judeus e muçulmanos – além de irmãs e irmãos de outras tradições de fé. O Deus que nossas tradições proclamam como “amor” é substituído por um deus faccioso de ódio, violência e vingança. Abandonamos o Deus do Universo e nos apegamos ao deus nacional; trocamos o Deus do amor e da paz pelo deus das metralhadoras e da guerra.

Como sempre repito, rejeito a ligação entre Igreja/Religião e Estado – justamente porque essa ligação subentende uma deidade e uma fé nacionais, tribalistas. Isso, contudo, não equivale a dizer que minha fé não seja política. Tudo o que se estabelece na convivência entre seres humanos é político – e isso inclui, necessariamente, tanto nossas comunidades de fé quanto as convicções e práticas que os membros dessas comunidades partilham entre si.

Já imaginaram o quão político é o mandamento judaico, cristão e muçulmano de amar e cuidar dos demais humanos? E ele é “político” principalmente porque só pode ser cumprido através de nossa relação com outras pessoas. É convivendo com elas e nos portando de certa maneira para com elas que podemos cumprir o espírito de nossa fé. Essa é uma exigência das tradições de fé judaicas, cristãs e muçulmanas.

Nas Escrituras dessas três tradições, encontramos exemplos claros desses mandamentos. Quando nos voltamos à Bíblia Hebraica, por exemplo, encontramos:

Não explore o imigrante nem o oprima… Não maltrate a viúva nem o órfão… Se você emprestar dinheiro a alguém do meu povo, a um pobre que vive ao seu lado, você não se comportará como agiota: vocês não devem cobrar juros. (Êxodo 22:20-24)

Não faça declarações falsas e não entre em acordo com o culpado para testemunhar em favor de uma injustiça. Não tome o partido dos poderosos para fazer o mal. E, num processo, não preste depoimento inclinando-se em favor dos poderosos, a fim de torcer o direito; nem favoreça o poderoso em seu processo. Se você encontrar, extraviados, o boi ou jumento de seu adversário, leve-os ao dono. … (Êxodo 23:1-4)

No Novo Testamento cristão, encontramos:

Vocês ouviram o que foi dito aos antigos: 'Olho por olho e dente por dente!' Eu porém lhes digo: não se vinguem de quem faz mal a vocês. Pelo contrário: se alguém lhe dá um tapa na face direita, ofereça também a esquerda! Se alguém faz um processo para tomar de você a túnica, deixe também o manto! Se alguém obriga você a andar um quilômetro, caminhe dois quilômetros com ele! Dê a quem lhe pedir, e não vire as costas a quem lhe pedir emprestado. (Mateus 5:38-42)

Não paguem a ninguém o mal com o mal; a preocupação de vocês seja fazer o bem a todos. Se for possível, no que depende de vocês, vivam em paz com todos. … se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber… Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem. (Romanos 12:17-21)

Se alguém pensa que é religioso e não sabe controlar a língua, está enganando a si mesmo, e sua religião não vale nada. Religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em aflição, e manter-se livre da corrupção do mundo. (Tiago 1:26-27)

E se formos até o texto do Alcorão, lemos:

Em nome de Deus, o Compassivo, o Misericordioso. (1:1)

Piedoso é aquele … que dá dos seus pertences... aos parentes, aos órfãos, aos necessitados, aos viajantes, aos mendigos; é aquele que resgata os cativos, que faz suas orações e que paga a contribuição destinada aos pobres, que cumpre com suas obrigações e é resistente nas dificuldades, no infortúnio e no perigo. Esses é que são os crentes e os piedosos. (2:177)

E Deus ordena a justiça, o fazer o bem aos outros e a generosidade para com os parentes; e proíbe a indecência, o ilícito e a opressão. E Ele ordena que vocês se lembrem disso! (16:90)

Deus está com os piedosos e com os que fazem o bem. (16:128)

É hora de nos voltarmos àquela fé proclamada em nossos textos sagrados. A fé do serviço, do amor, da reconciliação, da paz, da compaixão. Essa fé é incompatível com a retórica de ódio e violência que tem se tornado a linguagem política e religiosa mais ouvida nos meios de comunicação. É uma questão de sobrevivência para nossa dignidade comunal.

Se nos calarmos diante do que acontece, nos tornamos cúmplices da insanidade e da imoralidade política deste mundo. Voltar as costas a quem sofre, fechar as portas aos desabrigados e famintos, se aliar aos poderosos, clamar por armas, apoiar guerras e cultuar o poder do dinheiro e das corporações é rejeitar tudo o que nossas tradições nos ensinam sobre o Divino e sobre a compaixão.

É hora de escolhermos que caminho seguiremos: o caminho da paz ou das armas? Do perdão ou da vingança? Da compaixão ou do ódio?

+Gibson


domingo, 22 de janeiro de 2017

Professando minha "fé"


Assim também é a fé: sem as obras, ela está completamente morta. […] Mostre-me a sua fé sem as obras, e eu, com as minhas obras, lhe mostrarei a minha fé.” (Tiago 2:17-18)

Frequentemente, as pessoas demonstram uma enorme preocupação com a “crença” enquanto cerne da fé religiosa. Para eles, a “” consiste numa função intelectual de aceitação duma formulação de crença correta (a “ortodoxia”). Sua “fé” define-se pelas coisas nas quais declaram acreditar – e mesmo que não tenham consciência disso, enfatizam aquele aspecto da fé chamado em latim, na tradição teológica luterana, de “assensus” (que se refere ao ato de assentir, concordar, aprovar). Isso é demonstrável, por exemplo, nas inúmeras vezes que outras pessoas me perguntam no que creio. Elas esperam que eu professe uma lista de declarações fixas sobre diferentes aspectos teológicos, para que, assim, possam avaliar minha “fé” como “ortodoxa” ou “herética”.

Esperar que eu professe uma compreensão intelectual acabada da Realidade de Deus, da dimensão misteriosa ou dum porvir eterno não funciona para minha fé pessoal. Sou um cristão moldado por diferentes tradições cristãs, ordenado ao sacerdócio/ministério de cinco diferentes comunhões cristãs, e minha teologia pessoal é cada vez mais abençoada pela influência de outras tradições – cristãs ou não. Minha relação com amigos de outras tradições religiosas me ensina o quanto temos em comum e me faz compreender a “verdade” religiosa como algo que se encontra além de qualquer função intelectual.

Gosto de pensar que minha fé é multitradicional, isto é, bebe duma catolicidade mais extensa do que os limites de qualquer comunhão denominacional. Assim, meu unitarismo se entrelaça ao meu anglicanismo que aprende com meu luteranismo que se ilumina com meu restauracionismo que se pacifica com meu quakerismo que se integram à minha herança judaica liberal. De todos eles, e de minha herança cultural, emerge minha compreensão do Sagrado – que inclui não apenas Deus, mas também a humanidade e o todo da criação. Assim, o aspecto intelectual de minha fé não pode ser descrito como algo acabado, imutável; minha compreensão de fé, minha teologia, é, antes, um processo, um caminho, uma via.

Acredito em revelação, que “Deus ainda está falando”, como diz o slogan de uma de minhas denominações. Só que isso pode significar algo totalmente diferente do que alguns poderiam pensar. Nunca ouvi, literalmente, a “voz de Deus” – ou seja, nunca ouvi uma voz mensurável falando comigo, vinda do céu. Mas, ainda assim, julgo ouvir a voz divina: a ouço quando me sinto compelido a ouvir alguém que precisa ser ouvida(o); a ouço quando escuto uma música que me inspira ou consola; a ouço quando sou inspirado por alguém a fazer o que certo; a ouço quando alguém me oferece o consolo que eu preciso. Esse tipo de audição é o que chamo de “influência divina” ou “presença do Espírito Santo”. Essa Presença divina é aquela influência que me convida a participar do “Tikkun olam” (a restauração, reparo, cura do mundo), ensinado por minha herança judaica liberal, ou da construção de “Sião” (comunidade de compaixão, solidariedade e honra do valor e dignidade de todas as pessoas), como ensina minha tradição cristã restauracionista.

É isso que prefiro enxergar como minha fé. Menos uma crença, e mais uma esperança que me compele a tornar o aqui e agora no templo para a habitação do Divino. Menos uma lista de declarações sobre o desconhecido, e mais um desafio para tornar toda a minha vida uma manifestação de minha “fé”. E confesso publicamente, aqui, que essa é a coisa mais difícil que se pode tentar – mas é um desafio transformador!

Como um unitarista, é óbvio que me ocupo da intelectualização de minha “fé”. Essa é também, a propósito, parte de minha ocupação no ministério religioso e no ensino teológico. Mas me preocupo muito mais em viver minha “fé” do que em articulá-la intelectualmente. Em minha tradição anglicana, temos uma expressão para isso: “lex orandi lex credendi” – a lei da oração [é] a lei da crença – ou seja, é na oração que expressamos nossa crença; e como nossa própria vida deve ser uma oração, é na forma como vivemos nossas vidas que expressamos nossa crença teológica (como bem afirma o autor da Carta de Tiago).

+Gibson

sábado, 9 de abril de 2016

Esta manhã, bebi água de coco com Deus


Mais uma vez, me perguntam se creio em Deus. Mais uma vez, lhes digo que não sei o que querem dizer. O que significa dizer “Creio em Deus”? Quando alguém diz que crê em Deus, não me diz nada sobre a Realidade Divina, me diz apenas sobre si próprio(a). Ele(a) me diz sobre o que faz, e não sobre a Realidade na qual “crê”.

Ultimamente têm me perguntado em que “Deus” creio: se meu “Deus” era o mesmo da Bíblia; se o meu “Deus” era o mesmo de Joseph Smith; se o meu “Deus” era o mesmo do Corão; ou se era ateu. A verdade é que alguns leitores parecem ter uma obsessão com minha “falta de claridade em definir” minha crença. E eu que sempre imaginei que o que escrevo aqui e que a forma como discuto minha fé – aqui, no púlpito ou em outros espaços – fossem suficientemente claros ou, pelo menos, sugestivos de minha visão teológica (e teontológica)!

Como já escrevi inúmeras vezes, a forma como encaramos questões sobre aquilo que chamo de “aspecto misterioso” da realidade é condicionada pela forma como compreendemos o resto da realidade. Se alguém se preocupa tanto em querer uma definição objetiva sobre quem ou o quê seja o Divino, ao menos em minha visão, é porque tem uma compreensão de “verdade” diferente daquela que abraço.

Para que eu fosse capaz de definir Deus nos termos utilizados por alguns daqueles que me fazem aquele tipo de pergunta, teria de compreender a Divindade como uma entidade objetiva, mensurável, antropomorfa. Essa, entretanto, não é a forma como compreendo “Deus”; é a forma como compreendo você e eu, mas não a Divindade. Logo, aquela pergunta não faz sentido pleno para mim.

Mas se querem tanto saber quem é Deus, para mim, posso lhes garantir que somos relativamente próximos. Na verdade, nos sentamos esta manhã à bancada dum quiosque no calçadão da praia e tomamos uma água de coco gelada, enquanto falávamos sobre sua vida. Como ele estava cansado, ofereci-me para acompanhá-lo até seu edifício, dois quarteirões dali. Ele está, afinal, com quase oitenta anos!... Naquele momento, Deus era, para mim, um homem idoso que me contou suas memórias sobre a exploração imobiliária em seu bairro, e sobre como sua vida estava após a morte de sua esposa (com quem fora casado por cinquenta anos). Conversar com aquele homem foi sentir Aquela Presença que chamo de Deus.

Essa é uma das formas como compreendo “Deus”. Minha fé exige que eu enxergue o Divino em outras pessoas, e que aja para com elas como se elas fossem o “próprio Deus” – algo que parece bem mais difícil do que “acreditar” numa ideia específica do que ou quem seja Deus.

Como a metáfora bíblica do homem ter sido criado “à imagem e semelhança” de Deus é essencial para minha compreensão teológica, amar o ser humano é amar a Deus, e ser violento para com o ser humano é negar o próprio Divino. Assim, para mim, nossa fé em Deus define-se, na verdade, através da forma como nos relacionamos com “sua imagem e semelhança” entre nós: o que inclui as outras pessoas e nós mesmos, além do resto da Criação.

Há variadas formas de compreender o Divino, e todas elas podem ser úteis em diferentes contextos. Mas, na maioria das vezes, Divindade, Presença e Realidade são minhas metáforas favoritas para falar acerca de [daquela outra metáfora] “Deus”.

+Gibson

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Cristianismo Progressista? Filosofia de vida? – uma resposta aos ouvintes do “Graçacast #69”


Ontem, recebi uma mensagem duma visitante (Rebeca) que me fazia perguntas com base num podcast que acompanha, no qual os apresentadores tratavam sobre o Movimento Progressista cristão e haviam citado coisas que publiquei aqui. Após ouvir a transmissão, respondo a algumas das provocações da visitante sobre o que disseram no programa. Meus comentários não seguem a mesma ordem seguida no podcast, que dura mais de uma hora.

Devo começar dizendo que os apresentadores têm um programa interessantíssimo, apesar de termos visões de mundo bem distintas e/ou até conflitantes. Soam como pessoas relativamente bem informadas e bem intencionadas, e eu respeito o seu ministério online. Penso que seu esforço é louvável. Entretanto, tenho críticas (negativas) a respeito de muitas de suas colocações nesse podcast específico (#69).

Antes de comentar sobre o que disseram, é bom enfatizar que o risco que qualquer um corre quando não se informa suficientemente sobre um tema antes de tratá-lo publicamente é que acaba criando o deslocamento nocional que, em alguns momentos, criaram no programa. Muitas das afirmações feitas pelos apresentadores do programa são fruto duma falta de pesquisa cuidadosa sobre o tema. Os apresentadores, por exemplo, iniciam o programa citando o trecho duma antiga publicação neste blog, e depois misturam os dados daqui com aqueles de um texto escrito pelo Rev. Hal Taussig, e acabam construindo uma informação equivocada sobre o “Cristianismo Progressista”. Para eles, o movimento progressista parece ser, em alguns momentos, uma denominação protestante e, em outros momentos, um movimento teológico uniforme. Eles não poderiam estar mais equivocados.

Num determinado trecho do podcast, um dos apresentadores se refere ao movimento como se esse fosse uma denominação (ele não usa esse termo), dizendo, inclusive, que a primeira “igreja progressista” teria surgido apenas em 2005. Na verdade, esse título – Cristianismo Progressista – é apenas o nome dado a um movimento organizado, nos Estados Unidos, no TCPC (The Center for Progressive Christianity), que foi fundado em 1996 (mil novecentos e noventa e seis) pelo Rev. James Adams – um sacerdote episcopal. O “progressivismo” já existia, no interior de denominações protestantes; o que o nome e o TCPC fizeram foi apenas ajudar a todos aqueles grupos se sentarem juntos e compartilharem sua mensagem. O TCPC é uma rede não-denominacional de igrejas locais (congregações) pertencentes a diferentes denominações cristãs – episcopais, luteranos, congregacionais, unitaristas, universalistas, batistas, metodistas, restauracionistas, presbiterianos, pentecostais, católicos independentes etc. Ou seja, nunca existiu uma “primeira igreja progressista” – se por “igreja” se estiver pensando numa denominação ou numa forma de Cristianismo. Também não se criou mensagem nova nenhuma: o movimento proclama crenças e práticas que estão enraizadas nas diferentes tradições que se juntaram na organização do TCPC e de outras associações semelhantes, que foram organizadas para proclamar publicamente o “progressivismo cristão” – que surgiu ainda no início do século XX. O que as congregações que formam o TCPC fazem é, simplesmente, criar uma rede de colaboração que nunca havia existido fora das denominações específicas.

O movimento não é o mesmo ao redor do mundo. E, na verdade, sequer existe fora do mundo anglófono (os países de língua inglesa e as igrejas de língua inglesa em países onde se falam outras línguas). No Brasil, por exemplo, só quatro congregações colaboram formalmente num movimento brasileiro semelhante – todas elas são igrejas anglófonas (de língua inglesa), incluindo aquela da qual sou Ministro (e essas estão envolvidas com o movimento norte-americano). O movimento norte-americano (nos E.U.A. e Canadá) tem características diferentes dos movimentos britânico, australiano, neozelandês, sul-africano e das igrejas anglófonas da Europa continental – e todos esses são diferentes entre si. As alianças são diferentes, as tradições teológicas são diferentes, as maneiras como se organizam são diferentes, suas declarações são diferentes etc.

O texto que um dos apresentadores cita como se fosse os supostos “cinco pontos” do Movimento Progressista, na realidade, não é uma declaração oficial de nenhuma organização do movimento, logo, não pode ser utilizado como se o fosse. O texto refere-se apenas a uma reflexão pessoal do professor e ministro Rev. Hal Taussig sobre o tema, na qual ele aponta o que ele entende ser as cinco principais características do progressivismo cristão – nem todos os cristãos envolvidos com o movimento concordariam com sua visão. Institucionalmente, o movimento americano, com o qual tenho me envolvido nos últimos 15 anos, proclama oito pontos – que estão traduzidas aqui neste blog desde, pelo menos, 7 de outubro de 2007. Se quiser falar sobre o que o Movimento, oficial e institucionalmente, afirma, deve-se citar aquele documento.

Quando levantam suposições sobre o sentido do termo “progressista”, por exemplo, alguém afirma que “o progressista sugere que, como a própria palavra diz, ela sugere um progresso, significa que você avançou na interpretação da Bíblia, na interpretação das Escrituras, e sobre aquilo que elas diziam…”. Essa é outra afirmação descontextualizada, para alguém que não seja membro duma igreja fundamentalista do Bible Belt dos Estados Unidos (o que não é o caso deles!). E ela é descontextualizada teológica e historicamente (dois fatores que se correlacionam aqui). Vejamos.

TEOLOGICAMENTE: Para dizer o que ele disse, você teria de supor que a única fonte teológica do Cristianismo seja a Bíblia. Ora, as denominações nas quais há congregações ou indivíduos envolvidos com movimentos como o Cristianismo Progressista não são tradições que preguem ser a Bíblia a única fonte teológica cristã. Na verdade, apenas uma ínfima minoria das tradições protestantes ensina isso oficialmente. Por exemplo, para anglicanos/episcopais, luteranos, presbiterianos, metodistas, congregacionais, unitaristas, universalistas, restauracionistas, quakers, e mesmo batistas, a Bíblia não é a única fonte para se entender o Cristianismo – eu, a propósito, discuti isso aqui nos dois textos anteriores a este. Os protestantes mais tradicionais utilizam como recurso para a reflexão teológica a Bíblia, a Tradição, a Razão e, especialmente os herdeiros do Metodismo, a Experiência pessoal. Mesmo o antigo Movimento Fundamentalista fazia menção a essas fontes teológicas. Só grupos minoritários afirmam que a Bíblia seja a única fonte teológica cristã. E, se você atentar cuidadosamente, observará que as congregações que se envolvem com o Movimento Progressista são, geralmente (pode haver, talvez, uma ou outra exceção), parte daquelas tradições que citei. Logo, a ideia de que se refiram, com o adjetivo “progressista”, a um suposto avanço na interpretação das Escrituras não faz absolutamente nenhum sentido!

HISTORICAMENTE: Pessoalmente, também não simpatizo com o termo “progressista”, já que penso ser ele inapropriado em português; mas seu uso deve ser contextualizado no ambiente cultural onde emergiu e é utilizado. O termo, em nosso meio, não se iniciou – como se disse no programa – por conta daqueles movimentos políticos de liberação da década de 1960. Ele também não tem origem no “pós-modernismo” filosófico. O problema com essa interpretação é que ela se baseia unicamente no uso do adjetivo “progressista”, já que, comumente, os movimentos de esquerda – especialmente herdeiros de tradições socialistas – são chamados de “progressistas”. O Progressismo cristão americano está enraizado na tradição do Evangelho Social. Desde o início do século XX já se usava, em inglês, o termo “progressista” para se falar sobre uma perspectiva na qual o trabalho pelo estabelecimento do Reino de Deus na Terra hoje mesmo é uma forma de proclamar o Evangelho e se preparar para a Segunda Vinda. [A soteriologia universalista, que serviu de base ao movimento do Evangelho Social, falava da “salvação” como um “progresso” rumo à construção do Reino de Deus aqui na Terra, antes que Cristo retornasse e completasse o processo de salvação. Essa ideia, por sua vez, fundamentava-se numa compreensão escatológica pós-milenarista, que fora dominante nas igrejas reformadas americanas até o período entre a 1ª e a 2ª Guerras Mundiais. Ou seja, não é olhando para as tradições políticas marxistas que você entenderá o contexto do surgimento do movimento; é, antes, olhando para as tradições teológicas calvinistas!]

Ademais, não foram os adeptos que criaram o termo – o termo foi dado por quem estava de fora. Esses cristãos aceitaram o uso. Quando aceitaram o uso do termo, não pretendiam então, como nossos contemporâneos não pretendem hoje, ver-se como superiores aos demais cristãos. Para entender isso, você tem de compreender o termo em língua inglesa:

“Progressive”, em inglês, não significa, no contexto do movimento, que você “progrediu” mais que outros. O sentido é que você está em movimento rumo a um dado destino. No meio teológico anglófono, como já expliquei, o termo está tradicionalmente associado à herança do Evangelho Social. Quando se fala em “progressista”, uma pessoa teologicamente informada, nos E.U.A., conseguirá fazer a ligação – assim como fará a ligação a uma perspectiva política na história nacional. No Brasil, entretanto, não há essa conexão. Assim, o termo se torna vazio ou até ofensivo. É bom lembrar, contudo, que o mesmo termo é também utilizado por um movimento dentro do Judaísmo desde o início do século XX, exatamente o mesmo momento no qual as teologias do Evangelho Social (no Cristianismo Protestante americano) e do Tikkun Olam (no Judaísmo Reformista) estão se difundindo em igrejas protestantes (unitaristas, universalistas, batistas, congregacionais, presbiterianos, luteranos, anglicanos e metodistas foram os grupos mais influenciados pelo Evangelho Social) e templos judaicos reformistas.

[E você, então, poderia me perguntar a razão de o endereço deste blog ser “cristianismoprogressista”; a razão é simples: em primeiro lugar, iniciei este blog ainda nos E.U.A., para um público de estudantes que falavam português e que frequentava a igreja da qual eu era ministro; em segundo lugar, não havia a disponibilidade do nome que eu queria. Acabei utilizando um título que eu mesmo não apreciava tanto.]

E aí vem a próxima correção que os apresentadores teriam ouvido de mim, se estivéssemos conversando: liberal e progressista não são a mesma coisa! Um protestante evangelical poderia se identificar, sem muito desconforto, como um progressista; mas, talvez, tivesse mais problemas para abraçar uma perspectiva teológica liberal. Mas, sim, é verdade que muitas das ideias abraçadas pelo Movimento Progressista são comuns também aos “liberais” – a mais importante delas, que eles aparentemente não entendem: a soteriologia universalista (isto é, a antiquíssima crença cristã de que Deus, de alguma forma, salvará a todos os seus filhos – ideia defendida por alguns dos Padres da Igreja, como Orígenes e Gregório de Nissa [e eu os cito aqui apenas para demonstrar quão antiga é essa visão dentre alguns cristãos; não se trata de uma invenção recente, de uma novidade!]).

Quando condena o Universalismo, um dos apresentadores diz que isso – isto é, a crença na soteriologia universalista (que ele, obviamente, desconhece) – está expresso nos “cinco pontos” do movimento (ele mais uma vez se equivoca: são oito pontos; os “cinco pontos” sobre os quais fala são apenas as características apontadas pelo Rev. Taussig, que já citei acima), e passa a ideia de que esta seja uma ideia nova. Falando sobre os 8 Pontos (lembre-se que, para ele, são 5), ele diz que “…o principal argumento deles: não tem limite de gênero, não tem ideologia de gênero” [sic]. Ora, a expressão “ideologia de gênero” não aparece no texto, e a noção de “ideologia de gênero” abarca coisas que ultrapassam o que diz o ponto 4, que é o que Taussig discute em seu texto, e que o apresentador cita como se fosse um dos “pontos” defendidos pelo movimento. Reproduzo o texto do “Ponto 4” abaixo:

4) Convidamos todas as pessoas a participarem em nossa comunidade e em nossa vida de adoração, sem insistir que elas se tornem como nós para serem aceitas, incluindo, mas não se limitando a:
* crentes e agnósticos;
* cristãos convencionais e céticos;
* mulheres e homens;
* aqueles de todas as orientações sexuais e identidades de gênero;
* aqueles de todas as raças e culturas;
* aqueles de todas as classes e habilidades;
* aqueles que esperam um mundo melhor e aqueles que perderam a esperança;


Teologicamente, mais uma vez, o que alimenta essa compreensão é a soteriologia universalista abraçada pelo movimento – o termo “soteriologia”, a propósito, é um termo teológico que se refere às doutrinas referentes à “salvação”. Assim, apesar de parecer apenas uma afirmação de ideologias de gênero, trata-se da afirmação duma compreensão teológica milenar entre alguns cristãos. Mas, novamente, quando se fala publicamente de certos temas sem se fazer uma pesquisa séria, é nisso que dá: afirma-se enganos que poderiam ser evitados se conhecessem um pouco mais de teologia e história protestantes.

A questão da relativização. Na realidade, escrevi recentemente sobre isso aqui, então tentarei ser breve. Um dos apresentadores diz que o maior questionamento contra os cristãos progressistas – questionamento que ele partilha – é “não interpretar a Bíblia da forma correta”!… Bem, alguém poderia escrever uma tese a respeito do que está por trás dessa frase. Você tem de perceber a partir de qual perspectivas falam os apresentadores do programa: aparentemente – o que é o caso também de minha leitora, a julgar pelo que me escreveu –, eles acreditam que a Bíblia e o Cristianismo sejam a mesma coisa, e acreditam nas teorias da “infalibilidade” e “inerrância” do texto bíblico. Eu – como a maioria dos protestantes herdeiros de tradições mais antigas do Protestantismo – não partilho nem nunca partilhei dessa ideia.

Essa equalização entre Bíblia e Cristianismo, ou vice versa – o que quer dizer, para quem acredita nisso, que só é cristão aquele que supostamente acredita em/faz absolutamente tudo o que as Escrituras ensinam (ou seja, trata-se da recusa em aplicar o pensamento crítico à Bíblia, ao menos declaradamente) –, e as teorias da “inerrância” e “infalibilidade” têm uma data de nascimento: a segunda e a terceira gerações dos reformadores, que criaram a teoria da inspiração plenária da Bíblia (isto é, que os textos bíblicos foram diretamente inspirados – “ditados” – por Deus).

Johann Quenstedt, um luterano, é o principal nome na origem dessa compreensão de inspiração plenária. Para ele, qualquer coisa presente nas Escrituras deveria ser entendida como verdadeira e inquestionável, fosse a respeito do que fosse. Não haveria espaço para metáforas, por exemplo – algo que a Igreja sempre levou em consideração. Também não haveria espaço para a compreensão ensinada por Martinho Lutero de que a Bíblia se tornava revelação de Deus no momento em que era pregada e ouvida; para Quenstedt, era o que estava escrito que importava.

Assim, essa visão de “inspiração plenária” ignora toda a diversidade de tradições hermenêuticas e exegéticas da Igreja, especialmente aquelas tradições antiquíssimas das escolas alexandrina e antioquina de exegese bíblica – que, respectivamente, fazia uma interpretação literal suplementada por um apelo à metáfora/alegoria, enquanto a outra interpretava a Bíblia com base no exame do contexto histórico das Escrituras. Não estou falando aqui duma novidade “pós-moderna”; essas tradições estavam ativas nos primeiros séculos da história cristã e, de certa forma, continuam vivas ainda hoje nas diferentes tradições cristãs. Mas, obviamente, quando alguém pensa que conhece a única resposta válida, e ignora as histórias e as teologias cristãs, nada disso é relevante!

Essa ideia de “inspiração plenária” retorna com maior força a partir da organização do Movimento Fundamentalista, no século XX, e é essa ideia que adentra o Evangelicalismo brasileiro. É por essa razão que, talvez, a maioria dos evangélicos brasileiros acredite/pregue isso. Suas comunidades de fé herdaram a teologia que emergiu no período de conflito entre liberais e fundamentalistas há cerca de um século atrás. Eles nunca conheceram outra visão. Para eles, isso é o Protestantismo.

Escrevo isso para demonstrar o quão mal fundamentada está a argumentação da “relativização”. Ela faz sentido apenas para quem sempre acreditou que houvesse apenas uma compreensão válida. Se esse fosse realmente o caso, então o próprio meio evangélico teria (ainda mais) sérios problemas: se só há uma interpretação válida, o que dizer sobre todos os outros evangélicos que compreendem as coisas de outra forma? Todos seriam “hereges” (ou sei lá que qualificativo utilizam)?… Pergunto isso porque batistas, presbiterianos, metodistas e assembleianos, por exemplo, não interpretam a Bíblia da mesma forma em todos os aspectos! Quem teria razão, então?… Essa variação de interpretação entre esses grupos, e no interior de cada um deles, é chamada de “relativização” (=contextualização)!… Mas já expliquei muito sobre isso nas duas últimas postagens neste blog, então penso não ser necessário acrescentar mais nada.

Contextualizando ou relativizando a posição dos apresentadores, eles dizem o que disseram no programa porque sua compreensão teológica baseia-se numa visão da Bíblia como sendo plenariamente inspirada e, consequentemente, inerrante e infalível. Ora, apenas uma minoria dos cristãos do mundo acredita nisso; e mesmo se formos nos referir apenas aos grupos protestantes, só aqueles que descendem de igrejas enraizadas na tradição teológica fundamentalista (o termo não é pejorativo – trata-se da tradição que se opunha aos liberais/modernistas/progressistas no início do século XX) ensina isso hoje no mundo (apesar de serem, provavelmente, a maioria no Brasil, por razões históricas específicas).

O que eu quero dizer é: você não pode realmente pensar que alguém que não acredite numa crença minoritária seja um herege! Cristãos liberais e cristãos progressistas tendem a reconhecer sua limitação humana, afirmando que “nós podemos estar errados, então é por isso mesmo que não julgaremos aqueles que não pensam como nós”. Mas os apresentadores do programa, aparentemente, não compartilham desse reconhecimento de suas próprias limitações humanas. Para eles, se você não acredita na inspiração plenária, na inerrância e na infalibilidade da Bíblia, então você é qualquer coisa, menos cristão!

Ah, mas como uma resposta ao que um deles disse, já próximo ao fim do programa: sim, ser tolerante é ser relativista! [Ele dizia o oposto disso.] O problema com o uso que fazem do verbo “relativizar” ou de termo “relativo” é que demonizam a noção de relativização, sem perceber que a relativização faz parte de absolutamente tudo o que fazemos na Igreja e na sociedade. Quando você tem de tomar uma decisão que entre em conflito com o que é habitual, por exemplo, você relativiza: tenho de estar na igreja na manhã de domingo, mas meu vizinho quebra a perna e me pede para levá-lo ao hospital – se eu for, ficarei lá até ele ser atendido –, o que faço? Vou à igreja e não socorro ao meu vizinho? Bem, o próprio Jesus, de acordo com as Escrituras, deu a resposta a isso: Marcos 3:1-6. O que ele faz ali, de acordo com o relato em Marcos, é relativizar um mandamento. Um exemplo que parece tolamente óbvio, mas é um exemplo de relativização nas próprias Escrituras. Quando somos tolerantes, até um certo nível, colocamos o “outro” numa posição maior do que o que pensamos sobre nossas próprias convicções; o que fazemos, então, é relativizar nossas crenças para que possamos construir um outro ambiente. Relativizar é criar uma relação com nossas próprias crenças – assim, você só pode ser tolerante se a tolerância tiver uma relação com sua visão de mundo; é isso que torna possível a tolerância, e é por isso que a tolerância é uma forma de relativização.

É nesse ponto que reside a importância da compreensão da relativização da verdade, sobre a qual eles se debruçaram tanto sem compreender a visão que temos. Quando eu, por exemplo, falo em “verdade relativa” não estou afirmando que não haja uma verdade absoluta. Para mim, há. O que eu não posso dizer, contudo, é que aquilo que entendo como verdade seja a mesma à qual outra pessoa chegará. E seria prepotência e orgulho dizer que eu conheço a verdade que todos devem abraçar – e, em minha fé, o orgulho é um pecado. Por isso falo sempre em “para mim”, “em minha opinião”, “em minha visão” etc. Essa é uma forma de relativizar a verdade – ou seja, afirmo que aquilo é verdade para mim, mas você é livre para acreditar em outra coisa. Tenho uma visão de Deus e de Jesus Cristo que são próprias de minha tradição unitarista. Os argumentos para minha crença se baseiam, em parte, nas Escrituras. Aquela visão é verdade para mim. Um católico romano que segue a doutrina oficial de sua comunhão, contudo, tem uma outra compreensão teontológica e cristológica. Ele é um cristão. Sua crença é majoritária. Não posso esperar que ele deva acreditar no que acredito, ou não será um cristão. O que acredito sobre Deus me faz pensar que Deus está além de nossa compreensão humana finita. Os autores da Bíblia, por exemplo, mesmo inspirados, utilizaram uma língua humana finita. Eu sou um humano finito. Meu vizinho católico também. E aí, o que faço para lidar com isso? Não se pode esperar que eu mude minha crença para ser aceitável ao meu vizinho. Também não posso esperar que ele mude para que eu o aceite… É aí que entra o papel da relativização na convivência humana: a relativização e a tolerância se entrelaçarão, e ele e eu poderemos viver nossa fé em respeito um ao outro. O que eu acredito ser a verdade ainda será, e vice versa. É isso que significa “relativizar a verdade”, no que tange à nossa relação com outras pessoas: não é abandonar nossa verdade, é apenas lembrar que outras pessoas também têm o direito a entender a verdade de sua fé da forma como acharem melhor.

A questão da Filosofia. Num certo momento, um dos apresentadores, falando sobre a suposta influência do “liberalismo teológico” no Cristianismo Progressista, diz que a teologia liberal “relativiza a autoridade da Bíblia, né?, aquilo que a gente já sabe sobre o liberalismo teológico, né?, que mescla filosofia, consciência e religião...” – fazendo seu comentário, obviamente, num tom pejorativo (expressando o característico anti-intelectualismo do evangelicalismo dominante no Brasil, que torna “filosofia” um palavrão), e seguindo os estereótipos típicos construídos por alguns apologistas do meio evangelical brasileiro.

A “psicologia de fila de banco” [a expressão irônica, a propósito, é minha, não deles] – que se relaciona ainda à questão da filosofia – utilizada para explicar a razão porque cristãos abraçariam visões “progressistas” é ridícula. Eu, por exemplo, não sou um liberal e progressista porque me cansei de “legalismo” na Igreja ou porque queira licença para pecar. Minha posição teológica não é de reação. Eu estou enraizado numa tradição teológica que ensina essa visão. Foi essa a visão que aprendi na Igreja, no seminário, em casa e em minha vida cristã. O Cristianismo não é, para mim (como afirmou um dos apresentadores a meu respeito, num característico tom anti-intelectualista) apenas “uma filosofia” – ele é, sim, uma “filosofia”, se com o termo nos referirmos a uma “visão de mundo”: minha relação com o Divino, minha visão religiosa de mundo, meu imaginário religioso, minha linguagem religiosa se assentam no Cristianismo, logo, o Cristianismo é minha “filosofia” de vida. O Cristianismo é minha fé. Novamente, o problema parece ser que compreendemos a noção de “fé” de formas bem distintas. A fé não é uma crença morta; é uma esperança que produz frutos, como bem explicita Tiago 2:14-26. Mas eles, como supostos conhecedores dos textos bíblicos, já devem saber o que uma outra passagem bíblica diz sobre esses frutos, Gálatas 5:22. [A propósito, é bom contextualizar o que escrevi, e que ele cita de forma seletiva que pode desvirtuar o sentido de meu texto; então, leia minha declaração completa, publicado aqui em 12 de maio de 2009 – ela é o trecho de um livro que publiquei em 2003, nos Estados Unidos: O MEU CRISTIANISMO.]

O que uma pessoa informada poderia perguntar a ele, contudo, é se ele realmente pensa que ele mesmo não mescle “filosofia” (=uma visão de mundo) e “consciência”(=razão) em suas visões teológicas(?). Como tratei disso longamente nas duas últimas publicações neste blog, não responderei a esta questão aqui. Mas posso encontrar a gênese do que ele disse em sua visão da natureza e papel da Bíblia no Cristianismo, que já discuti brevemente anteriormente.

Sexualidade. O tema é enfatizado no podcast – novamente, uma característica do Evangelicalismo majoritário brasileiro, isto é, a ênfase em “moralidade sexual” –, mas eu, a não ser que seja uma discussão inteligível sobre o tema, não discuto isso aqui. Logo, não farei comentários sobre o que disseram, a não ser este: querer comparar a aceitação do relacionamento entre duas pessoas do mesmo sexo por um cristão à aceitação do aborto ou do incesto é, no mínimo, de uma desonestidade intelectual incrível!… Por essa e por outras, não perderei meu tempo comentando teologicamente os argumentos que ouvi!

Jesus. Não consigo levar à sério os comentários que fizeram sobre o que os “cristãos progressistas” acreditariam acerca de Jesus. Isso só mostra o quanto leram pouco antes de tratarem o tema em seu programa. A raiz do que disseram encontra-se, como já disse antes, em sua visão da natureza e papel da Bíblia, mas também em sua compreensão de como a teologia protestante tem sido historicamente construída. Falta em seus argumentos, ademais, uma familiarização com a história tanto da teologia cristã quanto da Igreja – sem falar, obviamente, no desconhecimento dos pensamentos teológicos presentes no movimento que tratam em seu programa.

Cristianismo light?... Pensar que viver a fé que cristãos liberais e/ou progressistas comprometidos vivem em suas vidas diárias é light é tolice, já que não considera que nossas diferentes tradições exigem um “processo de conversão contínuo”. No meu caso específico, como um unitarista, mente, coração e ações, metaforicamente falando, se unem no trabalho de compreender a Deus e a lidar com o meu “próximo” aqui e agora. Isso significa pautar minhas ações por uma convicção de que aquilo que faço é – na melhor compreensão que posso ter do que seja verdadeiro e de qual seja a vontade de Deus – certo (sim, porque diferentemente do que se pode pensar, para nós há “certo” e “errado”, nossa fé não é um “vale tudo”). Um dos apresentadores faz um comentário muito certo quando diz que ser cristão é um processo que se estende ao longo da vida – isso é, inclusive, algo que já escrevi aqui muitas vezes. Minha tradição me ensina que “mudar de ideia” é aceitável e natural.

Autoridade. Quando falam sobre autoridade, referem-se, primeiramente ao contexto católico – citando Leonardo Boff –, para discutir o contexto protestante, falando sobre o questionamento da autoridade de líderes eclesiásticos. O que eles, aparentemente, ignoram é que nem todas as tradições protestantes abraçam essa visão de autoridade que eles abraçam. É só lembrarmo-nos dos quakers [ou quacres], por exemplo, para quem o indivíduo é o eixo da autoridade – o cristão se relaciona com Deus por meio da influência direta do Espírito ao seu coração/mente (sem precisar de intermediários, como pastores, sacerdotes etc). Ou, lembrarmo-nos, como exemplo, do movimento batista anglófono não ligado à tradição do sul dos E.U.A. – sim, porque essa tradição tem uma compreensão de autoridade diferente –, a autoridade se centra na consciência do indivíduo (a razão), enquanto recipiente do Espírito Santo em sua leitura das Escrituras. Nas tradições anglicana/episcopal, unitarista, universalista, metodista e congregacional, o indivíduo, mais uma vez, é o eixo dessa autoridade – não seu líder eclesiástico. Então, falar no questionamento da autoridade como se isso fosse uma violação da Bíblia ou da fé cristã é desconhecer a multiplicidade no meio protestante!

A questão do “joio e do trigo”. Isso tem a ver, mais uma vez, com a perspectiva teológica que se abrace. Para os apresentadores do programa, a resposta está em sua visão da Bíblia e seu não reconhecimento de que essa sua visão emerge de uma série de outras “visões de mundo”, concernentes tanto à própria teologia quanto ao dito mundo secular. Assim, eles já sabem que é o “joio” e quem é o “trigo”: o “joio” será sempre aquele que pensa de forma que conflitue com o que eles mesmos acreditam ser a verdade – algo que, de certa forma e infelizmente, é comum a todos nós.

O belicismo ideológico. Sim, é verdade que há muitas pessoas que falam em respeito e tolerância, mas que, na vida real, esperam que todas as pessoas e grupos pensem exatamente como eles. Nos meios ditos “progressistas” e “liberais” protestantes isso acontece. Mas é importante notar que isso não é o que se prega. A generalização de que todos nós – e quando falo em “nós” me refiro apenas àquelas igrejas locais ou indivíduos que estejam, de alguma forma, relacionados ao TCPC, não me refiro a outras coisas que aconteçam entre protestantes brasileiros e que desconheço – sejamos militantes que desrespeitam a fé de outros cristãos é uma acusação inverídica e soa muito mais à mentalidade da vitimização.

Eu, por exemplo, enquanto a sociedade atacava o citado Silas Malafaia por suas posições contrárias à homossexualidade, escrevi aqui mesmo em defesa de seu direito de acreditar no que acreditava e de pregar o que pregava. Deixei claro que discordava de suas posições, mas que não podia acusá-lo de “homofóbico” apenas porque discordava de minha posição. Não fiz isso porque sou bonzinho e perfeito. Fiz porque é isso que minha tradição de fé ensina e o que ensino àqueles a quem ministro – como também o fiz porque a liberdade de opinião e expressão é o cerne de minha tradição política. Aprendi, desde criança, em casa e na Igreja, que não posso ter liberdade de opinião e expressão se outras pessoas não o tiverem. Eu continuo a defender isso, tanto publicamente quanto em minhas atitudes pessoais, seja como cristão ou cidadão. Então, a generalização feita por um dos apresentadores, de que os cristãos progressistas” ou “liberais” não sejam tolerantes para com os cristãos “conservadores”, e de que haja uma perseguição de nossa parte àqueles, não corresponde à realidade – especialmente porque na maioria das igrejas às quais estamos ligados, seja como fiéis ou como Ministros, convivemos com os dois grupos.

Falta apenas mencionar a falta de compreensão que os apresentadores têm sobre o que seja a tradição liberal protestante (estou falando “liberal” agora, e não “progressista”) – que não tem absolutamente nada a ver com as descrições que fizeram. Essa antipatia para com a tradição liberal e a má vontade em compreendê-la tem muito mais a ver com a história das igrejas presbiterianas e batistas em meados do século XX, no Brasil, do que com qualquer outra coisa (refletindo o conflito entre liberais e fundamentalistas nos E.U.A.). E essa herança se estendeu a todo o meio protestante brasileiro até hoje. Mas isso mereceria uma discussão à parte.

Para finalizar, respeitosamente, posso usar as palavras de um dos apresentadores, que podem servir como conselho para seus ouvintes no que tange ao que eles próprios disseram em muitos pontos de seu podcast:

Toda generalização é burra. Toda. Sem exceção!

Paz a todos!

+Rev. Gibson da Costa

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Verdade e questões complexas: uma resposta a Márcia


[Esta é uma resposta à longa mensagem que recebi da leitora Márcia. Como em seu e-mail ela aborda muitos diferentes temas – que incluem teologia, educação e política –, dividirei minhas respostas nos blogs apropriados (aos quais ela faz referência em sua mensagem). Aqui, obviamente, responderei a algumas de suas questões teológicas (talvez, tenha de fazê-lo em mais de uma postagem).]

Cara Márcia,

E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:32)

Como você mesma percebeu, rejeito a noção de que apenas uma tradição cristã seja a “verdadeira”. Se eu a defendesse, minha própria vida religiosa testificaria contra mim. Como já escrevi aqui muitas vezes, estou ligado a diferentes tradições cristãs, tendo, inclusive, sido ordenado em diferentes comunhões. Assim, não posso, honestamente, dizer que minha expressão do Cristianismo (o meu protestantismo arminiano-unitarista-anglocatólico-luterano) seja a única “verdade”, enquanto a fé de um católico romano ou de um protestante evangelical seja “falsa”. Rejeito terminantemente esta visão exclusivista.

Não, não me envergonho de minha fé. Mas também não me envergonho de usar minha inteligência. A ideia de que haja um Cristianismo imutável, que sempre continuou o mesmo, sempre foi e ainda é uma afronta à minha inteligência. É verdade que há traços de continuidade nas tradições cristãs – por exemplo, ainda continuamos a recitar o Pai Nosso, o Credo Apostólico e a ler porções da Bíblia em celebrações eucarísticas (nas igrejas católicas, ortodoxas, anglicanas, luteranas, metodistas e em algumas outras tradições protestantes) –, mas, ao mesmo tempo, há mudanças. No exemplo que citei, todos aqueles textos passaram por transformações ao longo dos dois milênios da Igreja cristã. Os textos que recitamos e lemos hoje (o Pai Nosso, o Credo Apostólico e a Bíblia) não são os mesmos de suas versões “originais”.

Sim, para mim, o Cristianismo é a “minha verdade”. E é a “minha verdade”, porque outras pessoas encontram sua porta para Deus – ou sua “salvação”, se preferir – em outras tradições. Reconheço a sinceridade dessas pessoas. E como confio em Deus que é Amor, em Deus que é Verdade, em Deus que é Compaixão, e acredito que essa coisa que chamamos de “religião” é um artefato humano, confio que quando o homem busca o Divino, o encontrará. Deus não é judeu, nem cristão, nem muçulmano, nem budista, nem espiritualista, nem candombleísta, nem umbandista, já que não é humano – para mim, Deus é uma realidade que ultrapassa minha compreensão, não é um ente antropomorfo.

Reconhecer a sinceridade da fé de outras pessoas e que elas podem encontrar o Divino em suas tradições, contudo, não faz com que o que elas acreditam se torne “verdade” para mim. Tenho minhas próprias convicções que podem ser incompatíveis com o que outras pessoas acreditam – e vice versa. E é nesse sentido que a “verdade” é relativa. Quando falo na relatividade da “verdade” não quero dizer que não haja verdade absoluta no universo – obviamente, há verdade e falsidade, certo e errado, apesar de nem sempre podermos saber qual é qual. Essa relatividade se refere não à verdade em si, mas à percepção que temos daquilo que chamamos de verdade. Um exemplo simples disso está na percepção que diferentes pessoas numa família com pais divorciados podem ter das razões que causaram o fim do casamento. Frequentemente, os dois cônjuges terão sua própria explicação diferente da do outro, e cada um dos filhos ou filhas terá sua própria visão. Ou seja, cada um terá sua “verdade”, que nem sempre, necessariamente, corresponderá à factualidade (ao que de fato aconteceu) – isto é, em minha visão, inerente ao ser humano.

Eu, por exemplo, não acredito em coisas como reencarnação ou possessão. Para mim, essas são crenças absurdas. Elas violam uma série de aspectos de minha compreensão teológica do que seja um ser humano e do que seja a justiça divina. Também não acredito que Jesus tenha vindo ao mundo para servir de sacrifício por meus pecados (refiro-me, especificamente, às chamadas "teoria do resgate" e "teoria da substituição penal"). Essa é uma crença tão absurdamente ofensiva à minha compreensão de Deus e à minha moral que não poderia aceitá-la como verdade factual – apesar de poder servir como metáfora em algumas situações. Não aceito essas crenças que são tão comuns para diferentes grupos religiosos. Não as aceito, mas aceito a sinceridade daqueles que nelas acreditam; aceito a liberdade de quem nelas acreditam.

Assim, honestamente, não aceito como válidas para mim mesmo todas as crenças abraçadas por outras pessoas. Há, em minha visão de mundo, lícito e ilícito, verdade e mentira, aceitável e inaceitável; e mesmo as pessoas que se digam mais abertas, adogmáticas e tolerantes também terão, no fundo, um senso que limita sua aceitabilidade da verdade alheia – seja esta uma verdade religiosa, filosófica, política etc. E eu, apesar de me considerar aberto à diferença e tolerante, não poderia ser diferente.

Nossas convicções (as minhas, as suas e as de todas as outras pessoas), entretanto, não estão esculpidas em diamantes. Elas, esperançosamente, mudam porque nós mudamos. Podemos até não perceber, mas ao menos pequenas porções do que acreditamos passam por transformações ao longo do tempo – se isso não acontece, então ai de nós!

Você fez um comentário sobre a hipocrisia. Bem, não acredito que a maioria de nós seja hipócrita. Acredito que sejamos contraditórios. Ser hipócrita, para mim, implica uma voluntariedade em agirmos diferentemente daquilo que professamos (ou seja, contradizer o que professamos por livre e espontânea vontade). Ser contraditório, por outro lado, implica que não somos perfeitos e que, por isso, nem sempre percebemos que nossas ações contradizem aquilo que professamos. Porque reconheço isso em mim mesmo, me esforço para dar este crédito àquelas pessoas que pregam uma coisa e, algumas vezes, fazem outra. Obviamente, há hipócritas, mas penso que sejam uma minoria.

Sou, como todos os demais humanos, imperfeito, limitado, contraditório. O que isso significa para minhas crenças é que não sou capaz de dar a mim mesmo respostas definitivas para meus questionamentos morais. Assim, muitas vezes, haverá contradições entre diferentes aspectos de minha visão de mundo.

Assim – pensando no seu questionamento acerca das drogas, do aborto, do suicídio e da pena de morte (questões extremamente complexas para serem esgotadas ao longo de nossa existência) –, veja o quão difícil é conciliar todos os campos de minha visão de mundo (a teológica com a política e com a científica, por exemplo):

Teológica e moralmente, creio que a vida seja um dom divino do qual somos apenas mordomos (cuidadores). Nós não criamos a vida. A vida não é uma produção humana que deriva apenas da ação e da vontade humanas. Ela não está restrita à matéria. Não sei explicar o que ela seja – isto estaria além de minha capacidade –, mas por mais que seja um fenômeno químico-biológico, é também um fenômeno psicológico (espiritual). Por isso ela é sagrada. Voluntariamente encerrar a vida, de outro ou de si próprio, é violar sua sacralidade. Por isso, geralmente, me oponho a tudo aquilo que perceba como uma violação à sacralidade da vida (e os quatro temas que usou como exemplo se encaixam nisso).

Politica e filosoficamente, acredito na liberdade do indivíduo. Acredito no direito do indivíduo de acreditar ou desacreditar no que quiser, de ir e vir, e de fazer com sua vida (desde que não fira a outrem) o que bem entender. Isso significaria que se alguém quisesse usar drogas ou se suicidar, isso seria seu problema. Entretanto, como cristão, aceito ser um cuidador de meu irmão e um protetor da vida – desta forma, não posso, conscientemente, legitimar algo que compreendo como uma violação daquilo que considero mais sagrado (a vida humana). Assim, a fé e a política se contradizem em algumas encruzilhadas, e aí emerge aquele lado contraditório da vida em sociedade, que você classificou como hipócrita.

Pensemos, de forma bem simplista, no caso do uso recreativo de certas drogas. Suponha que liberemos, por exemplo, o uso de cocaína. Possivelmente, mais dependentes – já que teriam um acesso facilitado a esta droga –, mais enfermidades em decorrência do uso, custo maior com tratamento por parte do Estado (já que o Brasil tem um sistema público de saúde), preço pago por contribuintes que não concordam com essa liberação!... Percebe a equação?... Não se trata apenas da liberdade individual, como os militantes gritam aos quatro ventos; trata-se do bem-estar e da identidade moral da sociedade como um todo (já que envolve finanças públicas, segurança, violência, e princípios morais dominantes na sociedade). Isso seria diferente se você ou eu, por exemplo, fizéssemos o que quiséssemos num espaço isolado dos outros cidadãos; mas não vivemos isoladamente, vivemos em sociedade – logo, tudo isso diz respeito à sociedade como um todo.

Mas, e se acrescentássemos outro dado a esta equação? O que dizer dos militares e policiais que trabalham armados e, involuntariamente, matam? Jurídica e socialmente autorizados e legitimados ou não, fazem uso de violência para desempenharem suas funções. Como encaixá-los nessa perspectiva de respeito à vida?... Posso dar uma resposta política convincente a esta questão, mas ela, assim mesmo, aparentemente entraria em conflito com minha resposta teológica!... O que seria então: hipocrisia ou contradição?

No que tange à pena de morte, que eticidade há em matar alguém por este(a) haver matado outra pessoa? Como poderíamos manter nossas cabeças erguidas diante da luz do sol, se não nos mostrássemos moralmente superiores ao mal?... Mas, por outro lado, como podemos dar liberdade a alguém que matou inúmeras pessoas e que, eventualmente, caminhará livremente pelas ruas? Que resposta moral podemos dar a este problema?... Eu, honestamente, não sei, e duvido que outra pessoa o saiba!

É por isso que sempre digo que não aceito respostas simplistas a questões como essas. Não aceito as respostas absolutistas dadas por fanáticos religiosos ou fanáticos políticos. E não as aceito por saber que quando nos deslocamos um pouco de nossos lugares confortáveis, passamos a ver as questões de outra forma, a partir de outra perspectiva.

O que posso fazer, e o que espero me esforçar para fazer, é ser honesto comigo mesmo e reconhecer minhas limitações; reconhecer que não conheço todas as respostas, que não conheço a “verdade plena” das coisas.

Paz!

+Gibson

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Presença e Fé


Há inúmeras coisas que podemos ganhar, e outras inúmeras que podemos perder, quando discutimos nossa fé com toques de racionalidade autodeclarada. Essa é, ao menos, minha experiência. Ensinar teologia, participar de discussões acadêmicas sobre minha fé, escrever para um público que não necessariamente partilha de minhas convicções, dentre tantas outras coisas, parece funcionar como um empecilho para expressar aquilo que, para mim, é tão simples e sublime: minha própria fé – sem aquela necessidade de recorrer às argumentações da Teologia Histórica para explicar isso ou aquilo.

Muitas vezes me perguntam, por exemplo, se acredito nisto ou naquilo. Sempre repito, para enfatizar a importância do valor semântico em discussões teológicas, que depende do que se quer dizer com os verbos e/ou substantivos utilizados naquela pergunta. Aqueles que não compreendem a complexidade de minha posição automaticamente veem-me como um relativista sem convicções. Esse é um risco que corro por raramente falar sobre minha fé de forma direta.

Em uma de minhas passagens favoritas do Novo Testamento (Atos 17), narra-se um sermão do apóstolo Paulo no Areópago, em Atenas, no qual ele recorre à sabedoria dos não judeus daquele local para ensinar-lhes sobre “o Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe” (v.24). O que sempre admirei naquele relato é o aspecto de ele haver utilizado o que estava ao alcance da compreensão de seu público – a referência ao “Deus desconhecido” e a citação dum texto do poeta Arato de Solos (“Aparências”) – para compartilhar sua fé. Assim, aprendi que quando falamos com diferentes públicos, e quando temos diferentes intenções, fazemos uso de diferentes recursos.

Como nem todos os que vêm a essas páginas buscam a mesma coisa, gostaria de compartilhar minha fé de forma mais direta hoje.

Geralmente, recuso-me a utilizar verbos que limitem minhas convicções a noções muito determinadas ou que tragam em si a noção de que eu seja o operador de minha relação com o Divino; assim, evito o verbo “acreditar”, preferindo o verbo “confiar” quando falo sobre Deus. Eu confio em Deus; acredito em Deus – se com esse verbo quiser exprimir a noção de que minha confiança se estende à minha compreensão intelectual. Confio e escolho seguir Jesus. Não penso, entretanto, que a fé enquanto “assensus” – isto é, enquanto assentimento ou concordância intelectual –, seja essencial para minha confiança em Deus ou em Jesus.

Em minha experiência, Jesus é irresistível. Os ensinamentos e os exemplos atribuídos a ele são irresistíveis. Seu espírito de compaixão é irresistível. E isso independe de sua factualidade histórica pretérita. Mesmo que Jesus de Nazaré tenha sido só um personagem criado por um movimento judaico no primeiro século de nossa era – o que tenho fortes razões para crer não ser o caso –, que não tenha existido na “vida real”, ainda assim ele seria um poder irresistível em minha vida espiritual. E ele é irresistível porque tem o poder de transformar algo dentro de mim, tornando-se, assim, uma realidade presente no tempo presente.

Essa presença à qual me referi é muito mais importante que qualquer sofisticação teológica ou correção dogmática. É aquela presença que experiencio em meus momentos de oração privada, em meus momentos de celebrações litúrgicas, quando estou compartilhando momentos de alegria ou tristeza com outras pessoas, quando leio algo edificante, quando converso com alguém em busca de ajuda, ou quando eu mesmo recebo o apoio de alguém. É essa presença que chamo de “milagre”, porque é quando Deus se faz presente – mesmo que naquelas aparentemente pequenas coisas da vida. É essa presença que se torna fé. É assim que escolho confiar ou crer em Deus.

A paz dessa Presença, que chamo Deus, pode ser compartilhada com todos, independentemente de suas crenças ou descrenças, independentemente de quem sejam ou de como sejam suas vidas; e é por isso que o dogma se torna tão secundário em minha fé. Se isso é não ter convicções, então, que seja – prefiro ter confiança em Deus e Jesus do que certeza dogmática incompassiva, algo que me esforço muito para abandonar.

+Gibson

domingo, 8 de junho de 2014

Política e religião, ou religião e política, na "guerra" pela alma dos brasileiros

Política e religião. Religião e política. Uma combinação que já se mostrou perigosa e corrosiva para sociedades pré-modernas, e que, infelizmente, continua a lançar sombras sobre nosso mundo social contemporâneo, que alguns insistem em chamar de pós-moderno.

Pois bem, a combinação de política e religião, ou religião e política, é para mim um desafio às minhas crenças políticas e teológicas. Eu, que um grande amigo já chamou de “super protestante”, abomino a intromissão do Estado nos domínios da vida de fé e do espírito, e, igualmente, abomino a intromissão da fé e do espírito nos domínios do Estado. Não deixo de reconhecer, entretanto, a limitação desse sentimento, já que sei que nenhum de nós pode separar aspectos de nossa compreensão de mundo em caixinhas incomunicáveis dentro de nossas mentes. Assim, minha visão política se comunica com minha visão religiosa, e ambas se comunicam com minhas visões cultural, social, econômica etc.

Como um protestante liberal, acredito na liberdade de consciência do indivíduo. Acredito que deve haver uma separação entre a religião institucional (a “Igreja”) e o Estado para que o Estado se alicerce sobre a lei democrática, e não sobre a imposição de convicções religiosas particulares ou de ingerências institucionais. Isso, contudo, não significa que acredito que o Estado, chamado de laico, deva ser ativamente ateu. O Estado é, em princípio, um reflexo dos ideais de sua sociedade, e como a sociedade da qual fazemos parte não é ateia, não vejo problema algum em extrairmos aquilo que a maioria dos “crentes” (leia-se, os cidadãos que acreditam na Divindade ou professam uma fé religiosa – que, de acordo com o IBGE, é a maioria esmagadora da sociedade brasileira) compartilham em suas convicções éticas para moldar nossa democracia.

Isso significa, em minha compreensão, que, por exemplo, o “Deus seja louvado” das cédulas de Real ou a regulação do aborto no país não são uma ingerência da “Igreja” no Estado brasileiro. São, sim, um reflexo do ethos da sociedade brasileira; a voz das convicções que moldam nosso ideal social, enquanto entidade política. Essa compreensão das leis como reflexo de convicções éticas majoritárias, entretanto, não significa que não se deva fazer oposição a elas no cenário político; pelo contrário: acredito que se há convicções opostas, seus defensores têm o direito, e talvez o dever, de se organizarem politicamente e tentarem vencer o debate de forma legal e democrática.

Minhas convicções, infelizmente, parecem ser possíveis apenas numa utopia, apenas num “não lugar”. Se atentarmos para o que ocorre neste país, nos sentiremos forçados a fazer uso daquela infeliz expressão belicista: parece que vivemos num ambiente de “guerra cultural”. Uma guerra pelas nossas mentes e votos, travada por dois grandes grupos opostos, que contribuem para o esfacelamento de convicções e o assassínio de nossas almas.

Num extremo, há aquelas forças que, em nome duma suposta “justiça” e duma suposta “igualdade”, violam, em seus esforços, o “espírito” da maioria. Assim, os insatisfeitos com a democracia representativa, com o Estado de Direito, com o direito à propriedade e à livre iniciativa, com noções ditas “tradicionais” de família etc, acreditam poder passar por cima de tudo e de todos para alcançarem seus anseios; sem “perceberem”, muitas vezes (aos menos, os mais “democráticos” entre eles), a incoerência entre seus credos políticos professos e suas ações.

Noutro extremo, há aqueles que se utilizam do discurso dito “religioso” no âmbito político, ou vice versa, para criarem um ambiente reacionário, injetando o medo de tudo aquilo e de todos aqueles que pensem de forma diferente, e sabotando o espírito democrático pluralista, encontrando inimigos onde há apenas discordantes. E o mais triste é que o fazem em nome de “Deus” e da “família”, em nome da “fé” e da “democracia” – só não sei, ao certo, que “Deus”, que “família”, que “fé”, nem que “democracia” eles defendem!

O mal ofertado por esses dois grandes grupos extremistas é que eles sequestram nossa liberdade. Violam nossa consciência coletiva comum, tentando impor sobre nós suas visões distorcidas de liberdade e democracia, visões que não refletem nosso “senso comum” (expressão, aliás, bem diabolizada pelo modismo do politicamente correto), como exposto em nossa Constituição e leis. Esses extremistas, assim, não nos representam; não representam os anseios da maior parte desta sociedade em construção, desta democracia em formação. Eles representam, apenas, seus próprios interesses; nada mais.

Todos os anos eleitorais costumo repetir isso: no mundo político, e dentro da Igreja, há aqueles que se esforçam para politizar o Cristianismo, ou para cristianizar a política. Eles utilizam a linguagem da fé para seduzir aqueles que não estão preparados para o debate de ideias políticas, e utilizam a linguagem da política para seduzir aqueles que não estão ancorados na tradição de fé. A arma pode ser a desmoralização ora da política, ora da fé; com o sequestro das narrativas desses dois âmbitos para que possam manipular seus discípulos e conseguirem seu voto. Como um protestante, compromissado com a separação entre a religião institucional e o Estado, enxergo esse tipo de manipulação como uma ameaça à liberdade e à democracia – e uma ameaça frequentemente feita por outros que também se identificam como “protestantes”.

Obviamente, compreendo como muitos eleitores cristãos, especialmente protestantes, se sentem e, até certo ponto, partilho de seus sentimentos. Em nosso país, defender certos princípios vistos como “tradicionais”, mesmo que de forma democrática e legal, é motivo de chacota por grande parte da chamada “intelligentsia”. Assim, opor-se ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, à legalização do comércio e consumo de drogas, à descriminalização do aborto etc, é visto como ser reacionário, retrógrado, ditatorial – adjetivos, aliás, utilizados por adolescentes imaturos e semiletrados, que não compreendem como se dá a formação do ethos duma sociedade. De minha parte, devo enfatizar, não ouvirão a defesa das perspectivas de nenhum desses dois lados – i.e., nem dos defensores dos princípios ditos “tradicionais”, nem dos “adolescentes imaturos e semiletrados” –, já que defendo uma via media em nossa vida política.

Sou um cidadão compromissado com a democracia representativa liberal, com o Estado Democrático de Direito, com as liberdades e obrigações estabelecidas pela Constituição Federal brasileira de 1988. Sou um cristão protestante compromissado com uma visão não-hierárquica da fé e da Igreja, na qual os cristãos e cristãs são livres para questionar a autoridade eclesiástica se suas consciências assim os impor, e na qual a Igreja e o Estado seguem seus próprios caminhos. Sou um homem de identidade cultural e de orientação emociono-sexual distintas daquelas da maioria das pessoas que me cercam e que, por isso mesmo, exijo as mesmas proteções e benefícios legais que todos os outros possuem, já que cumpro todas as obrigações comuns a todos nós. Não vejo a necessidade de temer a diversidade no mundo, pois acredito que há espaço para todos nós, desde que cumpramos nossa parte no contrato constitucional. Isso me obriga a rejeitar as duas visões extremistas às quais, talvez exageradamente, fiz menção aqui.

Apoiar a extravagância do grupo aparentemente “relativista”, para quem “vale tudo” em nome duma suposta “justiça” e duma suposta “igualdade”, é violar minha própria filosofia moral, por mais que tenha simpatia por algumas das ideias defendidas por eles. É, assim, violar meu credo político e minha fé protestante, que se entrelaçam numa defesa da democracia representativa, do Estado de Direito, e do direito à vida, à liberdade e à propriedade.

Por outro lado, apoiar o barulhento grupo dos “absolutistas morais”, que se protegem sob o rótulo da fé cristã, é escarnecer não só de minhas mais profundas crenças políticas, mas também de meu Deus, de minha fé, e de meus ancestrais de fé. Ademais, é violar o lugar central que o dogma da dignidade humana ocupa em minha fé unitarista. Apoiá-los, por mais que algumas de suas ideias sejam partilhadas por mim, seria violar o todo da minha visão de mundo.

No fim das contas, nenhum desses dois extremos me representam, nem representam, provavelmente, a maioria dos brasileiros. Espero que os eleitores cristãos deste país, especialmente os protestantes, possam entender o perigo que esses extremismos antidemocráticos e anticonstitucionais representam para o Brasil. A disputa ideológica é sadia, útil e deve continuar – assim devem continuar as oposições de ideias no cenário político –; mas a excitação ao ódio e preconceito, que se generalizou entre nós, de todos os lados e em todos os estratos, deve ser rejeitada como uma afronta à dignidade humana, à liberdade e à democracia. O que esses grupos fazem – sejam eles os radicais da “fé” ou do “social” –, quando jogam cidadãos uns contra os outros numa “guerra” artificial, é uma manifestação de sua ignorância, intolerância e inimizade, e deve ser rejeitado nas urnas nas próximas eleições!

Bençãos a todos!
 
+Gibson

quinta-feira, 5 de junho de 2014

O IDEAL DE ORTOPRAXIA ENSINADO NAS ESCRITURAS JUDAICO-CRISTÃS


"O jejum que eu quero é este: acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer jugo; repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu, e não se fechar à sua própria gente. Se você fizer isso, a sua luz brilhará como a aurora, suas feridas vão sarar rapidamente, a justiça que você pratica irá à sua frente e a glória do Senhor virá acompanhando você. Então você clamará e o Senhor responderá; você chamará por socorro, e o Senhor responderá: 'Estou aqui!' Isso se você tirar do seu meio o jugo, o gesto que ameaça e a linguagem injuriosa; se você der o seu pão ao faminto e matar a fome do oprimido. Então a sua luz brilhará nas trevas e a escuridão será para você como a claridade do meio-dia; o Senhor será sempre o seu guia e lhe dará fartura até mesmo em terra deserta; ele fortificará seus ossos e você será como jardim irrigado, qual mina borbulhante, onde nunca falta água; as suas ruínas antigas serão reconstruídas, você levantará paredes em cima dos alicerces de tempos passados. Vão chamá-lo reparador de brechas e restaurador de ruínas, onde se possa morar.” (Isaías 58:6-12)


"Ó homem, já foi explicado o que é bom e o que o Senhor exige de você: praticar a justiça, amar a misericórdia, caminhar humildemente com o seu Deus." (Miqueias 6:8)


"...se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber... Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem." (Romanos 12:20-21)


"Cuidem que ninguém retribua o mal com o mal, mas procurem sempre o bem uns dos outros e de todos." (1 Tessalonicenses 5:15)


"Se alguém pensa que é religioso e não sabe controlar a língua, está enganando a si mesmo, e sua religião não vale nada. Religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso Pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em aflição, e manter-se livre da corrupção do mundo." (Tiago 1:26-27)


"Assim também é a fé: sem as obras, ela está completamente morta." (Tiago 2:17)

terça-feira, 21 de maio de 2013

"Perfeitos como o Pai que está no céu" - uma resposta a Pedro


Caro Pedro,

Como é óbvio em nossa experiência ocidental moderna – alguns a chamariam de pós-moderna, mas deixarei essa discussão para outros –, falar sobre qualquer coisa é uma empreitada complexa. No caso da fé, da teologia, essa complexidade parece ser ainda maior, já que – no caso do Cristianismo – estamos tão fragmentados que não conseguimos enxergar aquilo que nos deveria unir. Muitas vezes, utilizamos os mesmos termos, mas eles ganham um sentido e uma intenção tão distintos que é difícil acreditar que falemos a mesma língua, e muito menos que partilhemos a mesma fé. Isso, para mim, é triste (quando não cômico).

Na verdade, essa é uma das razões pelas quais me preocupo tão pouco em discutir teologia sistemática neste espaço. Prefiro me ater àquilo que julgo ser o básico do básico, àquilo que acredito ser o espírito da tradição cristã. Quando me recuso a, geralmente, tratar de detalhes teológicos específicos sobre o quê, como, onde, por quem, para quê etc, é por julgar que essas questões – apesar de serem importantes para o fazer teológico – são irrelevantes para o viver cristão. Você, por exemplo, cita trechos bíblicos para falar sobre comportamentos culturais (o que comer, como se vestir, os papeis do homem e da mulher etc) como se esses fossem o Cristianismo; eu não preciso dizer que discordo plenamente de sua compreensão.

Por exemplo, você citou Mateus 5:48 (“...sejam perfeitos como é perfeito vosso Pai que está no céu”), mas, a julgar pelo sentido que deu ao trecho, acredito que não tenha lido os versículos anteriores a ele. Se tentar reler o trecho a partir de, pelo menos, o versículo 43, verá que a discussão ali se trata do amor divino que, segundo o trecho, se estende sobre todos – e é justamente essa perfeição divina que seria esperada dos discípulos de Jesus:

Vocês ouviram o que foi dito: 'Ame o seu próximo, e odeie o seu inimigo!' Eu, porém, lhes digo: amem os seus inimigos, e rezem por aqueles que perseguem vocês! Assim vocês se tornarão filhos do Pai que está no céu, porque ele faz o sol nascer sobre maus e bons, e a chuva cair sobre justos e injustos. Pois, se vocês amam somente aqueles que os amam, que recompensa vocês terão? […] Portanto, sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês que está no céu.” (Mateus 5:43-48)

As Escrituras certamente contêm inúmeras condenações, e, infelizmente, parece ser sobre essas que recaem as preocupações de boa parte dos fiéis cristãos. Eu, como já escrevi várias vezes aqui, prefiro me preocupar mais com o lado do “fazer” do que com o “acreditar” ou “não fazer” do Cristianismo. Não estou preocupado se acredito ou não em determinado dogma ortodoxo cristão, pois se Deus for realmente o que as Escrituras dizem ser, “se importará” mais com a forma como vivo minha vida em relação a meus semelhantes e à criação do que com as palavras nas quais digo acreditar.

Para mostrar um outro exemplo, tirado do mesmo conjunto de discursos no Evangelho de Mateus que você cita, veja este trecho (Mateus 7:12):

Tudo o que vocês desejam que os outros façam a vocês, façam vocês também a eles. Pois nisso consistem a Lei e os Profetas.”

Quando penso em religião, é com isso que estou preocupado. O que me preocupa é a fé materializada na prática do dia a dia. Obviamente, as formulações teológicas são importantes para mim; mas, em se tratando da forma como encaro o ministério religioso, esse é um aspecto secundário. É o que a tradição ensina sobre como construir relações que me interessa, e não detalhes sobre quantos anjos podem dançar na cabeça de uma agulha. Estou mais interessado numa religião viva, que me ensine a trazer Deus para a realidade do mundo, do que numa religião que se preocupa com os supérfluos da vida. Não é uma questão de quem interpreta o Cristianismo da maneira certa ou errada, trata-se apenas de diferentes perspectivas - essa perspectiva preocupada com a "ortopraxia" é o caminho que escolho seguir, é minha forma de compreender a fé cristã.

Um grande abraço!

+Gibson