Blog do Rev. Gibson da Costa. Os objetivos deste blog são compartilhar uma perspectiva cristã comprometida com a graça extravagante, a inclusão radical, e a compaixão inflexível; abordar a fé cristã através das lentes da teologia liberal cristã, e num espírito ecumênico e questionador; e contribuir com a voz daqueles cristãos que rejeitam o dogmatismo cego e a intolerância religiosa em sua jornada espiritual e, consequentemente, em suas relações sociais. Unitarismo, Cristianismo Unitarista.
sábado, 9 de abril de 2016
Esta manhã, bebi água de coco com Deus
domingo, 23 de outubro de 2011
Deus e o sofrimento humano
domingo, 4 de setembro de 2011
O Credo de Theophilus Lindsey
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
As crenças unitaristas e a linguagem litúrgica
sábado, 30 de julho de 2011
A Eucaristia e os Sacramentos para os unitaristas
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Entre nós, unitaristas, geralmente usamos dois diferentes nomes para nos referirmos a esse ritual de partilha de pão e vinho: Eucaristia ou (Santa) Comunhão – e, algumas vezes, ouvimos pessoas que vieram de alguma tradição evangélica chamá-lo de (Santa) Ceia (título este não muito comum entre nós). Seja como for, todos esses títulos saíram do Novo Testamento e enfatizam diferentes sentidos deste sacramento cristão.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Você é "o Milagre"
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Deus... a mais bela metáfora
É quase inevitável. A maioria das pessoas fora de meu universo religioso unitarista pensam que sou ateu (não que isso seja problema para mim). E isso é compreensível, já que a maioria das pessoas pensam haver uma única forma cristã de se pensar a respeito do “sagrado”, e meu discurso não corresponde a esse padrão esperado pela maioria. Por outro lado, para pessoas não religiosas ou que abraçam um pensamento onde não há espaço para um “sagrado”, posso soar como um teísta, independentemente de eu não ser adepto de um teísmo sobrenaturalista.
Devo reconhecer que “Deus” nunca é tema específico de meus textos ou de meus discursos públicos. E por muitas razões. Uma dessas razões é o fato de eu ser um ministro unitarista e, como tal, evitar (?) definir “Deus” para que, assim, o termo (que vejo como metafórico) possa servir de encarnação para diferentes visões acerca do “sagrado”. Se eu falasse acerca de Deus, definindo dogmaticamente o termo, estaria excluindo pessoas que compreendem “Deus” duma maneira diferente da minha. Uma segunda razão para evitar (?) falar especificamente a respeito de Deus é a forma como interpreto minha fé, o mundo ao meu redor (e do qual sou parte) e a relação entre minha fé e o mundo.
É bom esclarecer que quando uso o termo “fé” aqui, me refiro à experiência religiosa – e não a crenças doutrinárias. A experiência religiosa, em minha concepção, é o processo de abraçar o mistério que nos cerca e envolve. É o processo de reconhecer que há algo “sagrado” (outro termo que prefiro deixar aberto a interpretações) nesta vida que vivemos – que há um Mais neste universo imperfeito, incompleto e acidental que nos leva a querer aperfeiçoá-lo (o universo) com nossas próprias criações (científicas, artísticas etc).
Esse “sagrado” reconhecido por nossas experiências religiosas (o fenômeno religioso ou a religião, se preferir) e explicado das maneiras mais diversas possíveis, e chamado de “Deus” pela maioria de nós, é o que chamo de “essência da experiência humana”.
Deus, em minha visão, não é uma pessoa; não é um criador ou um senhor; não é um pai ou um rei celestial que deva ser honrado. Deus é uma metáfora – a mais bela metáfora criada pela experiência humana. Como metáfora, não vejo nenhum problema em nos referirmos a essa Realidade como se fora uma pessoa, atribuindo-lhe características humanas – como amor, cuidado, paternidade, etc. Mas, para mim, tudo isso é apenas parte da bela metáfora criada por nossa experiência.
Deus é um caminho “sagrado” de vida que nos faz mergulhar no interior de nós mesmos para que possamos descobrir o que é ser humano.
Em minha opinião, a humanidade criou a noção de “Deus” não apenas porque precisasse explicar a razão de ser das coisas numa era não-científica (isso também), mas porque precisava de um modelo ideal para o que os seres humanos poderiam ser (amorosos, misericordiosos, hospitaleiros etc), mesmo que com certos traços das distorções humanas (intolerância, violência, autoritarismo etc).
Tudo o que sei a respeito do universo do qual sou parte exclui a perspectiva de um Ser que tenha criado tudo isso com propósito e plano definidos. Aparentemente, somos resultados acidentais de uma desordem cósmica – se você se interessa por física e cosmologia contemporâneas, saberá do que estou falando. Isso, entretanto, de maneira alguma diminui nossa importância e a importância da Metáfora que construímos para dar um sentido ao todo.
O fato de eu não acreditar que esteja aqui por determinação de uma deidade suprema, de não acreditar que haja um Ser controlando nossos destinos, faz com que meu sentimento de reverência pelo desconhecido e meu senso de responsabilidade para com o mundo aumentem ainda mais.
Deus pode não ser mais aquilo no que se acreditava antes de nossas descobertas científicas (que demoliram antigas concepções acerca do nosso universo, tornando, assim, antigas crenças religiosas insustentáveis, mas que também futuramente demolirão muitas crenças científicas que abraçamos agora), mas ainda há espaço para o “mistério”. Alguém, por exemplo, consegue explicar o que é a vida, afinal de contas? Alguém consegue explicar para onde vai a matéria engolida por buracos negros no espaço?... Ainda há espaço para o mistério!
Deus é, no fim de tudo, uma Realidade dentro da qual existimos e somos (Atos 17:28); é a própria Força de Vida que causa explosões estelares e as subsequentes criações que resultarão dessas explosões; é o processo de evolução da vida que tem estado presente há bilhões de anos neste planeta.
Deus é uma Metáfora para o mistério da vida que ainda não desvendamos, e que, certamente, continuará a nos inquietar por muito tempo – talvez, quem sabe, pelo resto da existência dos seres humanos. Prefiro que continue assim, um tremendo mistério que envolva-nos e que nos lembre que não podemos conhecer tudo e ter todas as respostas.
Rev. Gibson da Costa, D.D. - Ministro da Congregação Unitarista de Pernambuco
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Deus no homem
“Os unitaristas acreditam que Deus fale ao homem por meio da consciência. Pode ser verdade que muitos homens sejam levados pelo prazer, mas a consciência nunca cessa de falar ao homem como uma autoridade maior que ele próprio. Mesmo os piores homens estão, às vezes, cientes de conflitos em seu interior, como se fossem duas pessoas, uma que ordena e outra que é comandada. Esses dois seres são o si-mesmo e o maior-que-o-si-mesmo – a alma e Deus.
Aqui, para remover toda dúvida sobre um Deus interior, seria bom ponderar a respeito da iluminadora frase do falecido professor C. B. Upton: 'resistência espiritual'. Nos tornamos conscientes da existência do mundo exterior por sentirmos que algo nos resiste. Da mesma forma, nos convencemos da realidade de Deus em nossas almas por estarmos conscientes de um ideal que, às vezes, resiste nossas inclinações interiores e, outras vezes, nos move adiante.”
Rev. Alfred Hall, As Crenças de um Unitarista (Londres, 1932) – ministro unitarista
Religião em comunidade e salvação
“Desenvolver uma religião nobre em solidão é quase uma impossibilidade. Os homens alcançam uma consciência mais profunda de Deus associando-se uns aos outros em seus melhores momentos.”
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"Os Unitaristas acreditam que a salvação é encontrada no aperfeiçoamento do caráter. Consideramos o 'céu' basicamente como um estado ou condição da alma. Nossa ideia de salvação é, assim, espiritual: consiste não no que temos ou onde estamos, mas no que somos e no que podemos nos tornar. Vendo que ninguém é perfeito aqui, não dizemos que ninguém seja 'salvo'."
Rev. Alfred Hall, As Crenças de um Unitarista (Londres, 1932) – ministro unitarista
A obra da igreja
“Esta é minha visão da obra da Igreja – tornar os homens internamente cristãos, fazendo-os direcionar sua afeição ao que é puro e santo, e depois enviá-los como agentes reformadores da sociedade, para que possam trabalhar da melhor maneira que seus instintos os direcionarem.”
Thomas Starr King (1824-1864), Carta a Randolph Ryer, 11 de junho de 1849 – ministro unitarista
Revelação?
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quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Religião e ciência
“A religião que teme a ciência desonra a Deus e comete suicídio. Ela reconhece que não é igual à verdade plena, que legisla e tiraniza sobre uma vila do império de Deus, mas não é a lei imutável universal. Todo influxo de ateísmo, de ceticismo, torna-se, assim, útil como uma pílula de mercúrio a atacar e remover uma religião morta, e a abrir caminho para a verdade.”
Rev. Ralph Waldo Emerson – ministro unitarista do século XIX, teólogo, poeta, filósofo, pensador
A igreja na concepção unitarista
"A nossa igreja é uma igreja da razão – não porque a mente seja livre de erros, mas porque o diálogo de mente com mente, e da mente consigo mesma, refina o pensamento religioso.
A nossa igreja é uma igreja de obra moral – não porque pensemos que a moralidade seja uma religião suficiente, mas porque não conhecemos uma melhor maneira de mostrar nossa gratidão a Deus, e nossa confiança uns nos outros.
A nossa igreja é uma igreja de consciência – não porque acreditemos que a consciência seja infalível, mas porque ela é o local de encontro entre Deus e o espírito humano.
A nossa igreja é uma igreja adogmática – não porque não tenhamos crenças, mas porque não seremos restringidos em nossas crenças."
Rev. Wallace W. Robbins - ministro unitarista, falecido em 1988
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Princípios Religiosos da Associação Unitarista Brasileira
1. A presença divina se faz conhecer de incontáveis maneiras. O Unitarismo promove uma busca livre e responsável por verdade, sentido, comunhão, e amor.
2. A razão é um dom divino. O Unitarismo abraça a razão e sua progênie, incluindo a aventura científica que investiga o universo.
3. A liberdade é um dom divino. O Unitarismo auxilia no esforço de se encontrar uma forma de exercitar esse dom de maneira responsável, construtiva, e ética.
4. Conscientes da complexidade da criação, dos limites da compreensão humana e da capacidade humana para o mal em nome da religião, declaramos que a liberdade de consciência, o uso da razão, a tolerância religiosa, e a paz devam ser uma parte central de qualquer experiência religiosa.
5. A experiência religiosa é mais satisfatória no contexto de uma tradição. Nossa tradição religiosa é a tradição Unitarista, que enfatiza a importância da razão na religião, a tolerância, a unidade da experiência humana, e a unicidade de Deus.
6. A revelação é contínua. A religião deve buscar inspiração não apenas em sua própria tradição, mas em outras tradições religiosas, na filosofia e nas artes. Apesar de dar o devido valor às lições aprendidas no passado e à importância da tradição religiosa, a religião não deve ficar estagnada, mas deve empregar a razão e a experiência religiosa para evoluir de uma maneira construtiva, iluminada e satisfatória.
7. Conscientes das necessidades espirituais e materiais de outros homens e mulheres, do mal ao qual possam estar sujeitos e das tragédias que possam estar sofrendo, obras de misericórdia e compaixão devem ser parte de qualquer experiência religiosa.
8. O Unitarismo afirma o valor e a dignidade inerentes a todos os seres humanos. Por isso, esforçamo-nos para que usemos de eqüidade, justiça, e compaixão em nossas relações, mantendo nossas mentes, mãos e corações abertos para receber a todos.
9. Nossa crença no valor e na dignidade inerentes de todos os seres humanos leva-nos a entender a violência, as guerras, a exploração, o racismo, o machismo, a xenofobia, e a homofobia, em todas as suas formas, como incompatíveis com nossa tradição unitarista.
10. A vida da humanidade está entrelaçada com a vida deste planeta, da mesma forma que está seu futuro. Por essa razão, o Unitarismo afirma nossa responsabilidade em cuidar do bem-estar de nosso meio-ambiente natural, e zelar para que os recursos naturais presentes neste planeta, assim como a vida de outros animais e vegetais, possam perdurar em segurança enquanto existirmos.
A Aliança de Ames
"Na liberdade da verdade, e no espírito de Jesus Cristo, unimo-nos para adorar a Deus e servir a humanidade."
- “A Aliança de Ames”, escrita por Charles Gordon Ames para a Sociedade Unitarista de Spring Garden na Filadélfia, em 1880, e posteriormente adotada por muitas igrejas unitaristas.
A Aliança Unitarista (1870)
Cremos:
Na Paternidade de Deus;
Na Irmandade do Homem;
Na Liderança de Jesus;
Na Salvação pelo Caráter;
No Progresso da Humanidade.
(Essa foi uma declaração de fé unitarista muito comum de 1870 até meados do século XX em muitas igrejas unitaristas dos EUA, e foi adotada pela Congregação Unitarista de Pernambuco em 1933.)
Uma Declaração de Fé Unitarista
Encontrando um lar no deserto de Deus,
buscamos saborear Deus
e magnificar os desejos de Jesus.
Ousamos duvidar.
Praticando a compaixão e despertando a consciência,
levamos esperança a um mundo que sofre.
Neste Espírito, honramos uns aos outros
em uma comunidade de amor.
(Congregação Unitarista de Pernambuco)
Conhecendo o Cristianismo Unitarista
Então você se interessou pelo Cristianismo Unitarista, mas ainda não sabe muito bem o que é isso? O objetivo deste texto é dar-lhe uma introdução breve de quem somos e de como escolhemos viver nosso 'cristianismo'. A intenção aqui não é descrever de forma decisiva as crenças dos cristãos unitaristas, já que cristãos unitaristas não aderem a crenças dogmáticas imutáveis. Eu espero apenas, poder dar uma visão geral do que a maioria de nós entende ser nossa tradição religiosa.
A Congregação Unitarista de Pernambuco é uma pequena congregação pluralista de cristãos liberais ou que derivam sua inspiração de uma visão alternativa de Cristianismo. Convidamos cristãos teológica e culturalmente liberais ou progressistas – assim como todas as outras pessoas - a se juntarem à nossa comunidade.
Cristianismo Alternativo
Muitas pessoas não sabem que o fundamentalismo, o pentecostalismo, o evangelicalismo, e mesmo o catolicismo não sejam as únicas manifestações de Cristianismo em nosso mundo. Há perspectivas cristãs alternativas que não carregam a bagagem do exclusivismo, preconceito, e dogma rígido que muitas pessoas associam com a religião cristã.
Os Fundamentos do Unitarismo
Na verdade, uma das formas mais permanentes de “Cristianismo alternativo” é o Cristianismo Unitarista. As igrejas unitaristas se fundamentaram nos ideais éticos e espirituais do Cristianismo Protestante, com raízes teológicas no Cristianismo mais antigo do primeiro milênio. A palavra “unitarista” originalmente significava a crença de que Deus seja uma “Unidade” singular, diferentemente da noção da “Trindade” - ou Deus como sendo três pessoas - que não foi desenvolvido pela igreja cristã até o quarto século. Assim, o Unitarismo se desenvolveu como um movimento não-conformista dentro do Cristianismo, discordando das doutrinas e dogmas da igreja estabelecida, e apelando à liberdade individual e à razão, com uma ênfase na vida e ensinamentos de Jesus, em vez de especular a respeito de sua natureza cósmica.
Uma História de 400 Anos
O mesmo era verdade quando o sacerdote húngaro, Dávid Ferenc fundou a Igreja Unitarista no Reino da Transilvânia em 1568 durante a Reforma Protestante. Um breve período de tolerância religiosa proclamada pelo Rei João Sigismundo permitiu este evento. Apesar de este período ter sido seguido por repressão religiosa, durante a qual o Bispo Dávid foi aprisionado (seguida por sua morte na prisão em 1579), este iniciou a história de 400 anos do movimento unitarista. A Igreja Unitarista continua como o lar religioso de muitos cristãos húngaros hoje (a maioria na Romênia). Estas igrejas cristãs unitaristas na Romênia e na Hungria são duas das maiores denominações unitaristas no mundo hoje, as outras sendo a Associação Unitarista Universalista de Congregações nos EUA, o Conselho Unitarista Canadense, a Assembléia Geral de Igrejas Unitaristas e Cristãs Livres da Grã-Bretanha, e a Conferência Unitarista Americana.
Na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, o Cristianismo do século XVIII dos Unitaristas foi muito influenciado pelo Iluminismo, resultando numa fé na qual a razão e a experiência eram vistas como iguais (e eventualmente maiores) medidas de crença juntamente com as Escrituras e a tradição. Esse Cristianismo liberal tem mudado e evoluído nos últimos duzentos anos, na expressão de vários teólogos e ministros unitaristas (principalmente americanos), incluindo, Joseph Priestley, John Murray, William Ellery Channing, Hosea Ballou, Ralph Waldo Emerson, Theodore Parker, James Freeman Clarke, James Luther Adams, e Charles Hartshorne.
O que mais nos distingue de outros grupos cristãos, entretanto, não é uma lista de doutrinas teológicas, mas nosso princípio de liberdade - liberdade de acessarmos as Escrituras e outros elementos de nossa tradição e as interpretarmos de acordo com nossas próprias consciências individuais; liberdade para nos relacionarmos com Deus e com o mundo ao nosso redor sem que sejamos limitados por imposições dogmáticas e eclesiásticas; liberdade para discordarmos respeitosa e livremente de outros membros de nossa comunidade e de nossos ministros, sem que sejamos punidos por isso; liberdade para desenvolvermos nossa própria compreensão de nosso lugar neste mundo, sem que sejamos excluídos por não nos encaixarmos em uma visão pré-determinada. O que nos une, é nosso desejo de sermos uma família regulada por princípios e não interpretações petrificadas da "verdade". Se você sente que poderia nos ajudar a construir e alargar tal comunidade, junte-se a nós!
Rev. Gibson da Costa – ministro da Congregação Unitarista de Pernambuco
(Adaptado de um folheto da Congregação Unitarista de Pernambuco)
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Batistas - uma conversa com Nilo
Por questões de espaço, e mesmo de relevância, decidi responder seu questionamento aqui, em separado.
Devo, antes de tudo, enfatizar que a visão que tenho dos batistas brasileiros (dos vários grupos que existem) é aquela de alguém que vê a partir de uma perspectiva externa, já que não tenho contato formal com comunidades batistas brasileiras. Tenho uma forte ligação (institucional mesmo) com os batistas gerais britânicos (que como afirmei antes, são unitaristas), e com o movimento progressista batista nos Estados Unidos, devido a minha ligação com a Alliance of Baptists.
O que diferencia os batistas gerais unitaristas dos batistas "gerais" brasileiros? Esta não é tão fácil assim de responder. Ou talvez seja! A diferença básica está na "lealdade" (por falta de uma expressão melhor) à tradição batista, falta essa muito presente na maioria dos assim chamados batistas hoje em dia.
Em um livro que considero interessantíssimo, The Baptist Identity, escrito por Walter Shurden, publicado em 1993 e ainda não traduzido ao português, o autor discute alguns dos princípios históricos batistas e a situação atual do movimento batista americano com relação a esses princípios. Muitas das coisas discutidas ali são válidas para o movimento batista aqui no Brasil.
Em seu livro, Shurden - diretor executivo do Centro Para Estudos Batistas da Universidade de Mercer, EUA - discute o que ele chama de quatro frágeis liberdades, que representam a base do movimento batista: 1) Liberdade Bíblica - que significa ter livre acesso às Escrituras, estar livre de restrições dogmáticas para a sua compreensão, e ter acesso à liberdade de interpretação individual das Escrituras; 2) Liberdade Espiritual - que significa não sofrer imposições doutrinárias, interferências clericais, ou intervenção do governo civil em nossa relação com Deus; 3) Liberdade Eclesiástica - ou seja, liberdade das igrejas individuais (congregações) com relação a quaisquer autoridades denominacionais; 4) Liberdade Religiosa - ou seja, a absoluta separação entre igreja e Estado.
Essas liberdades citadas por Shurden são um resumo do que significa ser batista, e se você atentar bem para esses "princípios" (percebe a linguagem? não doutrinas, mas "princípios", como nós unitaristas falamos!), verá que são os mesmos princípios defendidos pelos Batistas Gerais da Grã-Bretanha - da mesma forma como são os mesmos princípios defendidos pelos Unitaristas, pelos Universalistas, pelos Presbiterianos Não-Subscritos da Irlanda do Norte, e por muitos outros grupos protestantes pelo mundo afora. O interessante é que esses batistas que se mantêm fiéis à sua antiga tradição de liberdade é que são acusados de heresia, enquanto aqueles que, por muitas razões que não poderia discutir agora, abraçaram uma forma dogmática de definir sua fé que entra em conflito com as mais nobres tradições batistas são vistos como os "verdadeiros" batistas, os ortodoxos! É fascinante ver como os valores foram mudados e as perspectivas completamente alteradas. Isso obviamente não ocorreu apenas entre os batistas, já que ocorre entre outros grupos, mais marcadamente no meu próprio berço anglicano!
Agora faça uma comparação entre esses princípios e o que se ensina nas igrejas batistas brasileiras; faça uma real comparação. Será que os batistas brasileiros são ensinados a interpretar as escrituras de maneira individual, mesmo que essa interpretação entre em conflito com a mente da comunidade da qual são parte? São os batistas brasileiros realmente livres de imposições doutrinárias e clericais para se relacionarem com Deus, ou seja, podem entrar em conflito com seus ministros e igrejas sem serem punidos por isso? O que acontece com uma congregação que seja parte de uma associação ou denominação batista qualquer e tenha uma visão que entre em conflito com aquela defendida pela maioria? Os batistas brasileiros têm defendido suficientemente a distinção entre igreja e estado no Brasil, ou têm se aproveitado para chegar ao poder fazendo uso de instrumentos religiosos?... Não posso responder essas perguntas por você, mas tenho certeza que verá a diferença entre o que se ensina na maioria das igrejas batistas no Brasil e o que se ensina em igrejas batistas gerais, já que as últimas se mantêm fiéis a esses PRINCÍPIOS a qualquer custo. Também é importante que eu diga que esses princípios (até certo ponto) são reconhecidos e abraçados por grupos batistas no Brasil (estou agora pensando na Convenção Batista Brasileira).
Espero que possamos conversar um pouco mais sobre isso, e convido outros batistas a entrarem na discussão.
Paz e Feliz Páscoa!
Rev. Gibson da Costa
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Uma Comparação Simplista Entre as Crenças Unitaristas Com a de Outros Cristãos
DEUS
Outros Cristãos: três pessoas, conhecidas como Pai, Filho, e Espírito Santo; ideia que deve ser aceita pela fé e é conhecida como o Dogma da Trindade; é vingativo e amoroso, ao mesmo tempo; é um ser supremo, e talvez em forma humana; deve ser satisfeito pelo sacrifício de Jesus Cristo na cruz; da forma descrita anteriormente, é uma concepção cristã; se torna conhecido ao homem através da terceira parte da Trindade, o Espírito Santo.
Unitaristas: Os cristãos unitaristas estão abertos a múltiplas interpretações teológicas a respeito de Deus; Deus é amor; é espírito; não precisa ser satisfeito; é o Deus de todas as pessoas; se torna conhecido a todos por meio de suas experiências pessoais, sociais, e religiosas na vida.
JESUS
Outros Cristãos: é Deus, a segunda pessoa da Trindade; é o Salvador de todos os que acreditam nele; pode vir de novo em pessoa; foi ressuscitado física ou espiritualmente e ascendeu ao céu.
Unitaristas: foi um homem – um gênio religioso; foi um mestre e um exemplo da boa vida; ensinou princípios de verdade eterna, das quais o mundo ainda precisa; proclamou uma mensagem que nos influencia ainda hoje.
A HUMANIDADE
Outros Cristãos: nasce no pecado, pois sua natureza herdade é má e depravada; precisa ser salva por meio da aceitação pessoal de Cristo, um Salvador-Deus, dado como o filho unigênito de Deus para pagar pelos pecados da humanidade; nasce para glorificar a Deus, para fazer sua vontade Divina e para trazer os pecadores a “Cristo”.
Unitaristas: nasce sem pecados; apesar de nascer sem pecados, adquire a capacidade tanto para o bem quanto para o mal, mas nunca está eternamente perdida; “salvação” pessoal é uma questão de crescimento e desenvolvimento social; está aqui para construir o Reino de Deus, ou seja, a boa sociedade, reconhecendo os laços da humanidade.
A VERDADE
Outros Cristãos: encontra sua base na Bíblia e/ou nos dogmas da igreja.
Unitaristas: é encontrada em todas as experiências humanas; é descoberta na busca e raciocínio de todas as pessoas.
A BÍBLIA
Outros Cristãos: é a Palavra de Deus revelada, inspirada pelo Espírito Santo e frequentemente considerada como fonte suficiente do que se precisa saber para alcançar a salvação; está aberta a interpretações, mas em geral deve ser aceita como a “Santa Palavra” de Deus; é a fonte autorizada de verdade religiosa revelada por Deus e essencial para a “salvação”; pode antever o futuro da existência da humanidade e o fim do mundo.
Unitaristas: é uma coleção de livros que registram o crescimento moral e religioso de dois grupos de povos (os antigos hebreus e os primeiros seguidores de Jesus de Nazaré); é uma narrativa franca das variadas experiências de um povo no decorrer de sua história; é uma das várias fontes de valores éticos e religiosos; registra as várias ideias de um povo particular a respeito da vida aqui e no porvir.
O REINO DE DEUS
Outros Cristãos: chegará através da miraculosa vinda de Cristo no fim do mundo; é concebido como sendo plenamente possível apenas na vida futura; será futuramente governado por Deus em benefício daqueles que tiverem sido “salvos”.
Unitaristas: é alcançado por meio dos esforços humanos; é concebido como sendo plenamente possível aqui na terra; será compartilhado por todas as pessoas.
PECADO
Outros Cristãos: é herdado por todas as pessoas como parte de sua natureza; será punido em algum estado futuro.
Unitaristas: é a rejeição deliberada da humanidade de fazer o bem; carrega sua própria punição.
A IGREJA
Outros Cristãos: é o meio básico de salvação; é a Santa Instituição.
Unitaristas: é uma comunidade unida em favor do crescimento moral e espiritual e uma escola de religião; é um grupo de pessoas organizadas para adorar a Deus e para servir a humanidade.
A IMORTALIDADE
Outros Cristãos: é um lar no céu onde o espírito humano individual vive para sempre.
Unitaristas: é uma ideia aberta à interpretação e aceitação pessoal.
A ORAÇÃO
Outros Cristãos: é uma comunicação e uma comunhão com Deus, que é concebido como sendo um ser sobrenatural que pode mudar a ordem natural do universo em favor da humanidade.
Unitaristas: é uma expressão dos pensamentos, sentimentos e aspirações mais profundas de alguém, uma tentativa de conhecer o certo e fazê-lo.
OS SACRAMENTOS
Outros Cristãos: para alguns, são dois, para outros, são sete; poder sobrenatural se faz presente em cada um deles, por virtude da presença do Espírito Santo.
Unitaristas: ordenanças não são consideradas como sendo mágicas; são símbolos humanos, criados para ajudar uma pessoa em sua busca pela boa vida.
NOTA: Como explicado no próprio título, esta comparação é muito geral e deveras simplista a respeito das crenças de outros cristãos e de cristãos unitaristas. Preparei esta lista apenas como uma forma didática (muito simplista e limitada) para ajudar a responder algumas perguntas que me são feitas com muita frequência pelos leitores deste blog.
+Gibson