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sábado, 9 de abril de 2016

Esta manhã, bebi água de coco com Deus


Mais uma vez, me perguntam se creio em Deus. Mais uma vez, lhes digo que não sei o que querem dizer. O que significa dizer “Creio em Deus”? Quando alguém diz que crê em Deus, não me diz nada sobre a Realidade Divina, me diz apenas sobre si próprio(a). Ele(a) me diz sobre o que faz, e não sobre a Realidade na qual “crê”.

Ultimamente têm me perguntado em que “Deus” creio: se meu “Deus” era o mesmo da Bíblia; se o meu “Deus” era o mesmo de Joseph Smith; se o meu “Deus” era o mesmo do Corão; ou se era ateu. A verdade é que alguns leitores parecem ter uma obsessão com minha “falta de claridade em definir” minha crença. E eu que sempre imaginei que o que escrevo aqui e que a forma como discuto minha fé – aqui, no púlpito ou em outros espaços – fossem suficientemente claros ou, pelo menos, sugestivos de minha visão teológica (e teontológica)!

Como já escrevi inúmeras vezes, a forma como encaramos questões sobre aquilo que chamo de “aspecto misterioso” da realidade é condicionada pela forma como compreendemos o resto da realidade. Se alguém se preocupa tanto em querer uma definição objetiva sobre quem ou o quê seja o Divino, ao menos em minha visão, é porque tem uma compreensão de “verdade” diferente daquela que abraço.

Para que eu fosse capaz de definir Deus nos termos utilizados por alguns daqueles que me fazem aquele tipo de pergunta, teria de compreender a Divindade como uma entidade objetiva, mensurável, antropomorfa. Essa, entretanto, não é a forma como compreendo “Deus”; é a forma como compreendo você e eu, mas não a Divindade. Logo, aquela pergunta não faz sentido pleno para mim.

Mas se querem tanto saber quem é Deus, para mim, posso lhes garantir que somos relativamente próximos. Na verdade, nos sentamos esta manhã à bancada dum quiosque no calçadão da praia e tomamos uma água de coco gelada, enquanto falávamos sobre sua vida. Como ele estava cansado, ofereci-me para acompanhá-lo até seu edifício, dois quarteirões dali. Ele está, afinal, com quase oitenta anos!... Naquele momento, Deus era, para mim, um homem idoso que me contou suas memórias sobre a exploração imobiliária em seu bairro, e sobre como sua vida estava após a morte de sua esposa (com quem fora casado por cinquenta anos). Conversar com aquele homem foi sentir Aquela Presença que chamo de Deus.

Essa é uma das formas como compreendo “Deus”. Minha fé exige que eu enxergue o Divino em outras pessoas, e que aja para com elas como se elas fossem o “próprio Deus” – algo que parece bem mais difícil do que “acreditar” numa ideia específica do que ou quem seja Deus.

Como a metáfora bíblica do homem ter sido criado “à imagem e semelhança” de Deus é essencial para minha compreensão teológica, amar o ser humano é amar a Deus, e ser violento para com o ser humano é negar o próprio Divino. Assim, para mim, nossa fé em Deus define-se, na verdade, através da forma como nos relacionamos com “sua imagem e semelhança” entre nós: o que inclui as outras pessoas e nós mesmos, além do resto da Criação.

Há variadas formas de compreender o Divino, e todas elas podem ser úteis em diferentes contextos. Mas, na maioria das vezes, Divindade, Presença e Realidade são minhas metáforas favoritas para falar acerca de [daquela outra metáfora] “Deus”.

+Gibson

domingo, 23 de outubro de 2011

Deus e o sofrimento humano

Sempre fico muito aborrecido quando ouço pessoas – pessoas que creio estarem sinceramente muito bem intencionadas – insinuarem ou dizerem a outras que há um propósito para o sofrimento pelo qual passam, que Deus faz uso da dor para ensinar-nos alguma lição cósmica.

Para algumas dessas pessoas, tudo na vida acontece por uma razão espiritual. Para elas, Deus utiliza a dor e o sofrimento para tornar-nos pessoas melhores e mais elevadas espiritualmente. Elas acreditam que Deus faz uso das guerras, da violência, da tortura, da fome, dos desastres naturais para trazer-nos de volta aos “seus caminhos”.

Minha resposta, obviamente, tem sempre sido a de que não posso acreditar num Deus que utilize violência, tortura, e assassinato de seres humanos para ensinar-nos qualquer lição que seja. Não posso aceitar um plano divino que inclua estupro, homicídio, e tragédias, por exemplo. Essas pessoas me dizem que todos nós aprendemos com essas experiências e, logo, não podemos negar que tenham um sentido. Minha resposta a isso é que algumas pessoas realmente conseguem extrair algum aprendizado de situações trágicas como essas, mas outras (talvez a maioria) são destruídas e definham por dentro, nunca se recuperando.

Enquanto posso aceitar que crescemos e aprendemos com o sofrimento e com a dor, não posso aceitar uma religião que ensine que essa é a razão pela qual sofremos na vida. O grande problema com esse pensamento é que se tudo que ocorre tem uma razão de ser, então não há nada bom nem mau, e tudo é moralmente neutro. Não posso aceitar que a violência cometida contra uma pessoa ou contra um povo seja útil nem, especialmente, que seja o plano de um Deus inteligente e benevolente.

A coisa mais patética a respeito dessa forma de pensar é que ela culpa a vítima pelo que lhe ocorreu. A vítima da tragédia é culpada porque se ela tivesse sido mais inteligente, teria aprendido a vontade divina antes, e não precisaria passar por aquilo!

Às vezes, alguns aparecem com uma visão que parece ser mais sofisticada, dizendo que a razão para passarmos por sofrimento aqui é porque devemos ter feito algo errado numa vida passada. Esse pensamento os ajuda a manterem a ideia de que o mundo é justo e perfeito. Eu, entretanto, não acredito que o mundo seja justo nem perfeito. Desastres naturais acontecem. Pessoas boas adoecem e morrem.

Desastres naturais acontecem, por exemplo, porque é desta forma que o universo físico está estruturado, e não porque as pessoas que morreram nesses desastres mereciam morrer dessa forma, ou porque as pessoas que ficaram precisavam aprender uma lição. Pessoas morrem em decorrência de doenças porque nossos corpos físicos são mortais, limitados, e eventualmente desfalecerão, morrerão, e se desfarão em pó, e não porque seja um plano de Deus para ensinar aos sobreviventes uma lição. Eu não posso aceitar um Deus que ensine lições por meio do assassínio de crianças e adultos. Não posso apreciar uma religião que ensine ideias horríveis como essas.

Ao conversar com pessoas que acreditam nessas coisas, tenho o desejo de ajudá-las a abrirem suas mentes e tentarem enxergar um metro à sua frente. E oro para que usem o intelecto e a liberdade com os quais foram abençoadas para sonharem, viverem, sofrerem e mesmo morrerem de maneira mais digna.

+ Gibson

domingo, 4 de setembro de 2011

O Credo de Theophilus Lindsey


Há UM DEUS, uma única pessoa que é Deus, o único Criador e Senhor Soberano de todas as coisas.

O santo Jesus foi um homem da nação judaica, o servo desse Deus, altamente honrado e distinguido por ele.

O Espírito, ou Espírito Santo, não era uma pessoa ou ser inteligente, mas apenas o extraordinário poder ou dom de Deus, primeiro para nosso próprio Senhor Jesus Cristo em sua vida, e depois para os Apóstolos e muitos dos primeiros cristãos, para capacitá-los a pregar e propagar o Evangelho com sucesso.

Esse Credo é estritamente unitarista, ou o que seria chamado de sociniano. Nele não encontramos a ideia ariana da pré-existência da alma humana de Cristo, ou que ele originalmente possuísse uma natureza superangélica; ou que seus sofrimentos e morte fossem de alguma maneira considerados como propiciatórios, ou que honras divinas lhe fossem devidas. Tradicionalmente, o cristianismo unitarista anglófono rejeita essas visões como absurdas e afirma a simples humanidade de Jesus.

*O sacerdote anglicano Rev. Theophilus Lindsey (20 de junho de 1723 – 3 de novembro de 1808) foi o fundador da primeira igreja explicitamente unitarista da Inglaterra (em 1774).

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

As crenças unitaristas e a linguagem litúrgica


Algumas perguntas me foram feitas acerca da liturgia na Congregação Unitarista de Pernambuco, e as respostas que dei àquelas perguntas me parecem apropriadas para uma discussão mais ampla acerca da compreensão litúrgica do Cristianismo Liberal como um todo.

Expliquei à pessoa que me questionara que nossa liturgia – assim como a liturgia de toda comunidade de fé – baseia-se em nossas compreensões teológicas (e filosóficas). A compreensão mais amplamente aceita em nossa comunidade é a de integridade. Nossas palavras e ações litúrgicas devem ser um reflexo da integridade de nossas crenças – que, em nosso caso, como teologicamente liberais, não estão acorrentadas ao dogma nem à tradição; nossas crenças são abertas à mudança.

Podemos pensar em, pelo menos, quatro princípios que nos guiam em nossas práticas litúrgicas:

1 – Nosso foco é um modus vivendi compassivo, e não crenças dogmáticas. A compaixão, que, para nós unitaristas, é a verdadeira religião (Miqueias 6:8; Tiago 1:27), faz-nos afirmar o valor e a dignidade de todos os seres humanos (Mateus 7:1-2; 25:37-40). A integridade que afirmamos exige que essa compaixão – esse amor, essa caritas – se expresse em nossas palavras e ações não apenas em nosso dia a dia, mas também em nossa liturgia na igreja. Logo, linguagens sexistas, racistas, homofóbicas, tribalistas, nacionalistas, violentas etc, não podem ser parte de nossa liturgia. É por esta razão que recusamos ler em nossas liturgias mesmo trechos das Escrituras que entendamos como exibindo tal tipo de linguagem.

2 – A maioria de nós unitaristas não compreende Deus como um ser sobrenatural que intervem na história humana. Há alguns de nós que certamente entendem Deus da maneira dita “tradicional”, mas a maioria de nós entendemos a Divindade como uma metáfora para os mais profundos valores humanos. A integridade que buscamos exige que sejamos cuidadosos e inclusivos para com todos em nossa liturgia; logo, nossa linguagem litúrgica tem de ser sensível às compreensões de todos os que fazem parte desta comunidade e que oram conosco.

3 – Para a maioria de nós unitaristas, Jesus é um mestre e um exemplo, e não um salvador sobrenatural enviado por Deus. Jesus “salva-nos” por meio de seus ensinamentos, e não por meio de uma morte para pagar por nossos “pecados”. Por causa disso, não fazemos uso dos tradicionais hinos cantados por outras igrejas cristãs – já que os mesmos estão moldados pela teologia da redenção; somos forçados por nosso anseio pela integridade a encontrar outras vozes para a nossa fé. Essa é a razão para a grande diferença musical em nossa comunidade – quando comparada a outras igrejas cristãs.

4 – Para nós unitaristas, o cristianismo não é o único caminho aceitável e autêntico para se chegar ao Divino ou para encontrar sentido na vida. A integridade que buscamos força-nos a honrar os caminhos que para outras pessoas são tão verdadeiros quanto o nosso é para nós próprios. Isso, mais uma vez, faz-nos rejeitar hinos ou afirmações que insinuem uma superioridade cristã em relação a outras pessoas, por exemplo.

O que nós unitaristas cremos, em essência, é que – mesmo fazendo uso de linguagem metafórica, muitas vezes – nossa linguagem litúrgica, que se expressa em palavras e atos, deve refletir nossas crenças; e essas crenças, em nosso caso, incluem a crença no valor e dignidade inerente de todos os seres humanos (homens, mulheres, de todos os gêneros e identidades de gênero, e de todas as orientações emociono-sexuais), uma crença na paz, na liberdade de pensamento, no exemplo deixado pelas palavras e ações atribuídos a Jesus de Nazaré – nosso mestre e modelo.

sábado, 30 de julho de 2011

A Eucaristia e os Sacramentos para os unitaristas


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"[...]Façam isto em memória de mim." (Lucas 22:19)

Entre nós, unitaristas, geralmente usamos dois diferentes nomes para nos referirmos a esse ritual de partilha de pão e vinho: Eucaristia ou (Santa) Comunhão – e, algumas vezes, ouvimos pessoas que vieram de alguma tradição evangélica chamá-lo de (Santa) Ceia (título este não muito comum entre nós). Seja como for, todos esses títulos saíram do Novo Testamento e enfatizam diferentes sentidos deste sacramento cristão.

Chamá-lo de Eucaristia – um termo tirado do Novo Testamento grego, e que significa ação de graças – lembra-nos que a gratidão à Providência é uma parte essencial tanto da espiritualidade cristã quanto da própria natureza deste ato sacramental.

Chamá-lo de Santa Comunhão lembra-nos que esse é um ato dos mais sagrados e íntimos em nossa tradição, tornando-nos um com Jesus Cristo e parte de seu corpo, a igreja.

Chamá-lo de Santa Ceia lembra-nos que este ato é uma refeição instituída pelo próprio Jesus e presidida por ele, em sua mesa, todas as vezes em que ela é celebrada.

Usar esses diferentes nomes para esse ritual que aqui celebramos todas as vezes que nos encontramos, é um reconhecimento de que nenhum desses títulos pode conter a riqueza de sentidos desse ato sagrado.

É importante que nos lembremos, antes de tudo, do sentido que damos ao termo que é usado para definir essa refeição sagrada: sacramento. Um sacramento tem sido definido, entre nós, como uma “encruzilhada” entre Deus e o homem – um ponto de encontro entre o humano e o sagrado. Um ato sacramental, como a Santa Comunhão ou o Batismo, por exemplo, distingue-se pelo seu uso de atos simbólicos, ou seja, de atos que expressam sentidos, e envolvem, além dos atos em si, palavras e (geralmente) objetos.

Muitos pensam que nós unitaristas não acreditamos em sacramentos e não os celebremos. Enganam-se os que assim pensam. Historicamente, tem havida uma ampla interpretação do que seja um sacramento e de seu papel em nosso meio. É verdade que a maioria de nós tem compreendido a participação externa em tais sacramentos como sendo não necessária para o genuíno discipulado cristão – uma genuína relação com o Divino – ou para a admissão à comunidade cristã; mas, por outro lado, ainda que não enxerguemos os sacramentos como uma espécie de exigência para estarmos de bem com Deus, a maioria esmagadora de nós os celebra continuamente como, pelo menos, um memorial à nossa fé. A realidade da prática sacramental em nossa congregação evidencia-se, por exemplo, quando pensamos no título recebido pelos ministros presbiterais em nossa comunidade: Ministro ou Ministra da Palavra e Sacramento.

Eu, particularmente, compreendo o todo da vida como sendo um sacramento. Pessoalmente, não acredito que um ato ou um momento seja mais sagrado que outro. Assim, prefiro enxergar todos os momentos de minha vida – mesmo aqueles que outros veriam como sendo profanos – como momentos sagrados, e todas as minhas ações como atos sagrados. Obviamente, não espero que todos compreendam a vida como eu a compreendo, nem que moldem suas compreensões teológicas às minhas; mas, duma certa maneira, não há uma distinção tão grande assim entre minha compreensão pessoal e aquela abraçada por nossa comunidade de fé como um todo.

Isso fica claro no momento em que novos membros são recebidos em nossa congregação. Aqui, na Congregação Unitarista de Pernambuco, apesar de o Batismo ser observado pela maioria de nossos membros, não há uma exigência de que alguém deva ser batizado para ser aceito como membro de nossa congregação. Esse tem sido um costume em nossa igreja desde sua fundação, já que, desde o início, tem havido pessoas com as mais diversas compreensões teológicas sobre o sentido dos sacramentos em nosso meio. O mesmo se aplica à nossa compreensão da Santa Comunhão. Se observarem bem, verão que nem todos nós partilhamos do pão e do cálice em nossas celebrações. Os que não partilham desses elementos, não o fazem não por estarem em pecado. Não tomam desses símbolos simplesmente por não os verem como necessários à sua relação com a Providência. Esses cristãos unitaristas fieis compreendem cada momento, cada lugar, cada ato de suas vidas como sendo aquela encruzilhada – aquele ponto de encontro – com o Divino. E, para nós, não há nada de errado com isso. Nossa vida comunitária prova que é possível manter-se uma unidade convenial mesmo em meio a diferentes compreensões teológicas. Podemos enxergar nossa fé de diferentes maneiras e, mesmo assim, manter-nos unidos pelo que fazemos juntos, e não pela maneira como compreendemos cada aspecto de nossa fé e de nossa existência. O que nos unifica é nossa aliança – as promessas que fazemos uns aos outros diante de Deus – e não uma lista de crenças que nos mantenha artificialmente juntos.

As palavras geralmente rezadas em nossa celebração eucarística são um testemunho de nossa compreensão do valor daquele ato simbólico. Alguns de nós podem entender aqueles símbolos como sendo a presença real de Jesus entre nós. Outros de nós podem entendê-los como sendo um símbolo da presença espiritual de Jesus entre nós. Outros, ainda, talvez a maioria de nós, os compreendem como um memorial da união que Jesus espera entre seus discípulos e da unidade entre todos os seres humanos, representada por símbolos tão universais quanto o pão e o vinho. Essa compreensão de união é exibida em nossa recepção de absolutamente todas as pessoas aos símbolos eucarísticos: você não precisa ser um unitarista, não precisa ser membro desta congregação, nem membro de qualquer outra comunidade cristã para ter acesso à Santa Comunhão. Como esta é uma refeição presidida por Jesus, você é um convidado dele para participar dela. Se você recebe ou não a Comunhão, é entre você e Deus.

Quando servimos esses elementos – o pão e o vinho –, o fazemos “em nome de todos aqueles e aquelas que, conhecidos ou desconhecidos, lembrados ou esquecidos, viveram e morreram como verdadeiros servos da humanidade”; em nome do espírito de amor ensinado por Jesus; e em nome da Providência, da Presença Eterna, de Deus. Assim, crianças e adultos, jovens e velhos, homens e mulheres, crentes ou descrentes, esquerdistas ou direitistas, heterossexuais ou gays, pobres ou ricos, nacionais ou estrangeiros, pretos ou brancos, afinal, todas as pessoas são aceitas à mesa cristã. Elas não precisam compreender aquele ato e aqueles símbolos da mesma maneira – só precisam ter o mesmo desejo de amarem e servirem a humanidade e, assim, estarão cumprindo o maior mandamento que Jesus nos deu. Sim, pois mesmo o que se diz ateu, ao amar e servir a seu próximo, está, em verdade, amando e servindo ao Deus do universo.

Que ao fim deste ato sacramental hoje, possamos repetir com toda força em nossos corações, mentes e almas as palavras que sempre rezamos: Cristo nasce em nós quando abrimos nossos corações à inocência e ao amor. Cristo vive em nós quando caminhamos a senda do perdão, reconciliação e compaixão. Cristo morre em nós quando nos rendemos à nossa própria arrogância, egoísmo e ódio. Cristo ressuscita em nós quando nossas almas se despertam da morte espiritual para se unirem à comunidade de amor, para entrar no reino divino aqui mesmo neste mundo. Saiamos em paz. Amém.”


Rev. Gibson da Costa - Sermão proferido na Congregação Unitarista de Pernambuco

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Você é "o Milagre"


No princípio, Deus criou o céu e a terra.” (Gênesis 1:1)


Com essas palavras, os antigos escolheram iniciar uma história, um relato da criação. Não havia nada inicialmente, apenas Deus. Não havia espaço, não havia tempo. Deus então criou o cosmo. Todo o universo era do tamanho de um grão de areia. Pequeno e extremamente quente. E agora, olhem para tudo ao nosso redor! Não somos um milagre – somos o milagre!

Quando olho para o céu à noite, desde muito pequeno, tento imaginar o que extraterrestres pensariam de nós e de nosso mundo. Olho para as estrelas no céu e me inquieto quando imagino que não estou vendo as estrelas, mas sim a luz enviada de algumas delas há milhares de anos atrás. Você está no presente, olhando para o passado, preocupado acerca do futuro. Pelo menos é isso que acontece comigo muitas vezes.

Até alguns anos atrás, me sentia quase que esmagado quando pensava no Universo. Quando pensava no tempo e no espaço. Afinal, somos o produto de cerca de 13,7 bilhões de anos de história. Já parou para imaginar esse tempo? Quase quatorze bilhões de anos! Eu só tenho trinta e dois, e às vezes já me sinto muito próximo do que chamam de velhice, agora imagine o Universo. A distância que separa nosso Sistema Solar do centro de nossa galáxia, a Via Láctea, é de 26 mil anos-luz. E a distância que separa o Sistema Solar da galáxia mais próxima de nós (Cão Maior) é de 25 mil anos-luz. Já imaginou esta distância? Teríamos que viajar com a mesma velocidade da luz no vácuo, isto é, 299.792.458 metros por segundo, durante vinte e cinco mil anos para alcançar Cão Maior, ou por vinte e seis mil anos para alcançar o centro da Via Láctea. É uma distância e tempo inconcebíveis para minha imaginação!

E o Universo? É só pensar que até a década de 1920 pensávamos que a Via Láctea fosse o Universo inteiro. Dentro dela temos entre 200 e 400 bilhões de estrelas. E hoje calcula-se que o Universo seja composto por entre 30 e 50 bilhões de trilhões de estrelas, organizadas em 80 a 140 bilhões de galáxias. O objeto mais distante de nós que podemos ver hoje é um quasar (um buraco negro rotativo alimentado com matéria) que está a cerca de 13 bilhões de anos-luz de distância – ou melhor, que estava lá 13 bilhões de anos atrás. Só pensar nisso já é fascinante e desconcertante!

Quando comparados a todo esse tempo e todo esse espaço, parecemos irrelevantes. Parecemos. Mas, na verdade, creio que temos uma importância incontestável. Afinal, não conhecemos outros seres que possam pensar a respeito dessas coisas. Pelo menos, não até agora.

Os antigos, que não tinham o conhecimento que hoje temos do Universo, encontraram formas poéticas para explicar seu lugar no tempo e espaço. Encontraram um espaço para o Mistério, e deram-lhe um nome: Deus. Hoje, muitos pensam que não há mais espaço para esse Mistério. Eu discordo.

Não consigo explicar o que é a vida. Não consigo explicar o que é o amor. Não consigo explicar a alegria que sinto quando aprendo mais, quando escrevo uma música, ou quando abraço um amigo que não vejo há muito. Não consigo explicar a dor que sinto quando perco alguém próximo, quando vejo imagens de vítimas de guerras, ou quando vejo um amigo sofrer. Não consigo explicar a revolta que sinto quando ouço discursos que incitam a violência e a intolerância, quando vejo pessoas sendo tratadas como se não tivessem importância. Essas coisas são um mistério para mim, e as explicações que geralmente dão acerca disso não são suficientes para aliviar minha sede por uma resposta. Essas coisas tem uma relação com aquele Mistério inexplicável, com aquela Presença que chamo de Deus.

Todos nós temos um valor incalculável. Absolutamente todos. Não importa os erros que tenhamos cometido. Não importa se não nos encaixamos naquilo que outros esperam de nós. Não importa se não temos o que outros têm. Não importa se não nos parecemos com os famosos da TV. O que realmente importa é que somos humanos e, como humanos, compartilhamos um passado, um presente e um destino comum. Caminhamos juntos, rodopiando no mesmo planeta, na mesma galáxia, no mesmo cosmo.

Você e eu temos um lugar garantido na história deste nosso Universo. Nossas alegrias, nossas dores, nossos amores, nossas confusões, nossas dúvidas, nossos encontros, nossos desencontros, nossa música, nossas palavras; a melodia que nos acompanha durante nossa curtíssima existência física, e a melodia que acompanhará a lembrança que terão de nós quando nossa existência chegar ao fim; tudo isso define nossa importância no Universo – no tempo e no espaço. Portanto, não se sinta menor, nem pequeno. Você não é pequeno. Você não é menor que nada. Você é o milagre – aquele milagre iniciado há mais de 13 bilhões de anos atrás, aquele milagre que continuará por mais tempo. Não importa quem você é, ou onde você está em sua jornada de vida. Não importa o que você fez, ou como você está agora. Você é o milagre. Você é o milagre.

Rev. Gibson da Costa - discurso aos jovens da Congregação Unitarista de Pernambuco - sábado, 30 de outubro de 2010.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Deus... a mais bela metáfora

É quase inevitável. A maioria das pessoas fora de meu universo religioso unitarista pensam que sou ateu (não que isso seja problema para mim). E isso é compreensível, já que a maioria das pessoas pensam haver uma única forma cristã de se pensar a respeito do “sagrado”, e meu discurso não corresponde a esse padrão esperado pela maioria. Por outro lado, para pessoas não religiosas ou que abraçam um pensamento onde não há espaço para um “sagrado”, posso soar como um teísta, independentemente de eu não ser adepto de um teísmo sobrenaturalista.


Devo reconhecer que “Deus” nunca é tema específico de meus textos ou de meus discursos públicos. E por muitas razões. Uma dessas razões é o fato de eu ser um ministro unitarista e, como tal, evitar (?) definir “Deus” para que, assim, o termo (que vejo como metafórico) possa servir de encarnação para diferentes visões acerca do “sagrado”. Se eu falasse acerca de Deus, definindo dogmaticamente o termo, estaria excluindo pessoas que compreendem “Deus” duma maneira diferente da minha. Uma segunda razão para evitar (?) falar especificamente a respeito de Deus é a forma como interpreto minha fé, o mundo ao meu redor (e do qual sou parte) e a relação entre minha fé e o mundo.


É bom esclarecer que quando uso o termo “” aqui, me refiro à experiência religiosa – e não a crenças doutrinárias. A experiência religiosa, em minha concepção, é o processo de abraçar o mistério que nos cerca e envolve. É o processo de reconhecer que há algo “sagrado” (outro termo que prefiro deixar aberto a interpretações) nesta vida que vivemos – que há um Mais neste universo imperfeito, incompleto e acidental que nos leva a querer aperfeiçoá-lo (o universo) com nossas próprias criações (científicas, artísticas etc).


Esse “sagrado” reconhecido por nossas experiências religiosas (o fenômeno religioso ou a religião, se preferir) e explicado das maneiras mais diversas possíveis, e chamado de “Deus” pela maioria de nós, é o que chamo de “essência da experiência humana”.


Deus, em minha visão, não é uma pessoa; não é um criador ou um senhor; não é um pai ou um rei celestial que deva ser honrado. Deus é uma metáfora – a mais bela metáfora criada pela experiência humana. Como metáfora, não vejo nenhum problema em nos referirmos a essa Realidade como se fora uma pessoa, atribuindo-lhe características humanas – como amor, cuidado, paternidade, etc. Mas, para mim, tudo isso é apenas parte da bela metáfora criada por nossa experiência.


Deus é um caminho “sagrado” de vida que nos faz mergulhar no interior de nós mesmos para que possamos descobrir o que é ser humano.


Em minha opinião, a humanidade criou a noção de “Deus” não apenas porque precisasse explicar a razão de ser das coisas numa era não-científica (isso também), mas porque precisava de um modelo ideal para o que os seres humanos poderiam ser (amorosos, misericordiosos, hospitaleiros etc), mesmo que com certos traços das distorções humanas (intolerância, violência, autoritarismo etc).


Tudo o que sei a respeito do universo do qual sou parte exclui a perspectiva de um Ser que tenha criado tudo isso com propósito e plano definidos. Aparentemente, somos resultados acidentais de uma desordem cósmica – se você se interessa por física e cosmologia contemporâneas, saberá do que estou falando. Isso, entretanto, de maneira alguma diminui nossa importância e a importância da Metáfora que construímos para dar um sentido ao todo.


O fato de eu não acreditar que esteja aqui por determinação de uma deidade suprema, de não acreditar que haja um Ser controlando nossos destinos, faz com que meu sentimento de reverência pelo desconhecido e meu senso de responsabilidade para com o mundo aumentem ainda mais.


Deus pode não ser mais aquilo no que se acreditava antes de nossas descobertas científicas (que demoliram antigas concepções acerca do nosso universo, tornando, assim, antigas crenças religiosas insustentáveis, mas que também futuramente demolirão muitas crenças científicas que abraçamos agora), mas ainda há espaço para o “mistério”. Alguém, por exemplo, consegue explicar o que é a vida, afinal de contas? Alguém consegue explicar para onde vai a matéria engolida por buracos negros no espaço?... Ainda há espaço para o mistério!


Deus é, no fim de tudo, uma Realidade dentro da qual existimos e somos (Atos 17:28); é a própria Força de Vida que causa explosões estelares e as subsequentes criações que resultarão dessas explosões; é o processo de evolução da vida que tem estado presente há bilhões de anos neste planeta.


Deus é uma Metáfora para o mistério da vida que ainda não desvendamos, e que, certamente, continuará a nos inquietar por muito tempo – talvez, quem sabe, pelo resto da existência dos seres humanos. Prefiro que continue assim, um tremendo mistério que envolva-nos e que nos lembre que não podemos conhecer tudo e ter todas as respostas.




Rev. Gibson da Costa, D.D. - Ministro da Congregação Unitarista de Pernambuco

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Deus no homem

Os unitaristas acreditam que Deus fale ao homem por meio da consciência. Pode ser verdade que muitos homens sejam levados pelo prazer, mas a consciência nunca cessa de falar ao homem como uma autoridade maior que ele próprio. Mesmo os piores homens estão, às vezes, cientes de conflitos em seu interior, como se fossem duas pessoas, uma que ordena e outra que é comandada. Esses dois seres são o si-mesmo e o maior-que-o-si-mesmo – a alma e Deus.


Aqui, para remover toda dúvida sobre um Deus interior, seria bom ponderar a respeito da iluminadora frase do falecido professor C. B. Upton: 'resistência espiritual'. Nos tornamos conscientes da existência do mundo exterior por sentirmos que algo nos resiste. Da mesma forma, nos convencemos da realidade de Deus em nossas almas por estarmos conscientes de um ideal que, às vezes, resiste nossas inclinações interiores e, outras vezes, nos move adiante.”


Rev. Alfred Hall, As Crenças de um Unitarista (Londres, 1932) – ministro unitarista

Religião em comunidade e salvação

Desenvolver uma religião nobre em solidão é quase uma impossibilidade. Os homens alcançam uma consciência mais profunda de Deus associando-se uns aos outros em seus melhores momentos.”

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"Os Unitaristas acreditam que a salvação é encontrada no aperfeiçoamento do caráter. Consideramos o 'céu' basicamente como um estado ou condição da alma. Nossa ideia de salvação é, assim, espiritual: consiste não no que temos ou onde estamos, mas no que somos e no que podemos nos tornar. Vendo que ninguém é perfeito aqui, não dizemos que ninguém seja 'salvo'."


Rev. Alfred Hall, As Crenças de um Unitarista (Londres, 1932) – ministro unitarista

A obra da igreja

Thomas Starr King


Esta é minha visão da obra da Igreja – tornar os homens internamente cristãos, fazendo-os direcionar sua afeição ao que é puro e santo, e depois enviá-los como agentes reformadores da sociedade, para que possam trabalhar da melhor maneira que seus instintos os direcionarem.”


Thomas Starr King (1824-1864), Carta a Randolph Ryer, 11 de junho de 1849 – ministro unitarista

Revelação?

Frederic Henry Hedge


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O propósito da revelação não é decidir questões especulativas, dependendo de boas interpretações de palavras, mas incutir um novo espírito nas coisas humanas, ilustrar grandes princípios de importância prática com novas sanções. Os princípios são eternos; os dogmas nos quais se encarnam são limitados e temporários.”

Frederic Henry Hedge (1805-1890), “Razão na Religião” (1865), p. 408 – ministro unitarista

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Religião e ciência


Rev. Ralph Waldo Emerson


A religião que teme a ciência desonra a Deus e comete suicídio. Ela reconhece que não é igual à verdade plena, que legisla e tiraniza sobre uma vila do império de Deus, mas não é a lei imutável universal. Todo influxo de ateísmo, de ceticismo, torna-se, assim, útil como uma pílula de mercúrio a atacar e remover uma religião morta, e a abrir caminho para a verdade.”


Rev. Ralph Waldo Emersonministro unitarista do século XIX, teólogo, poeta, filósofo, pensador

A igreja na concepção unitarista

"A nossa igreja é uma igreja da razão – não porque a mente seja livre de erros, mas porque o diálogo de mente com mente, e da mente consigo mesma, refina o pensamento religioso.


A nossa igreja é uma igreja de obra moral – não porque pensemos que a moralidade seja uma religião suficiente, mas porque não conhecemos uma melhor maneira de mostrar nossa gratidão a Deus, e nossa confiança uns nos outros.


A nossa igreja é uma igreja de consciência – não porque acreditemos que a consciência seja infalível, mas porque ela é o local de encontro entre Deus e o espírito humano.


A nossa igreja é uma igreja adogmática – não porque não tenhamos crenças, mas porque não seremos restringidos em nossas crenças."


Rev. Wallace W. Robbins - ministro unitarista, falecido em 1988

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Princípios Religiosos da Associação Unitarista Brasileira

1. A presença divina se faz conhecer de incontáveis maneiras. O Unitarismo promove uma busca livre e responsável por verdade, sentido, comunhão, e amor.


2. A razão é um dom divino. O Unitarismo abraça a razão e sua progênie, incluindo a aventura científica que investiga o universo.


3. A liberdade é um dom divino. O Unitarismo auxilia no esforço de se encontrar uma forma de exercitar esse dom de maneira responsável, construtiva, e ética.


4. Conscientes da complexidade da criação, dos limites da compreensão humana e da capacidade humana para o mal em nome da religião, declaramos que a liberdade de consciência, o uso da razão, a tolerância religiosa, e a paz devam ser uma parte central de qualquer experiência religiosa.


5. A experiência religiosa é mais satisfatória no contexto de uma tradição. Nossa tradição religiosa é a tradição Unitarista, que enfatiza a importância da razão na religião, a tolerância, a unidade da experiência humana, e a unicidade de Deus.


6. A revelação é contínua. A religião deve buscar inspiração não apenas em sua própria tradição, mas em outras tradições religiosas, na filosofia e nas artes. Apesar de dar o devido valor às lições aprendidas no passado e à importância da tradição religiosa, a religião não deve ficar estagnada, mas deve empregar a razão e a experiência religiosa para evoluir de uma maneira construtiva, iluminada e satisfatória.


7. Conscientes das necessidades espirituais e materiais de outros homens e mulheres, do mal ao qual possam estar sujeitos e das tragédias que possam estar sofrendo, obras de misericórdia e compaixão devem ser parte de qualquer experiência religiosa.


8. O Unitarismo afirma o valor e a dignidade inerentes a todos os seres humanos. Por isso, esforçamo-nos para que usemos de eqüidade, justiça, e compaixão em nossas relações, mantendo nossas mentes, mãos e corações abertos para receber a todos.


9. Nossa crença no valor e na dignidade inerentes de todos os seres humanos leva-nos a entender a violência, as guerras, a exploração, o racismo, o machismo, a xenofobia, e a homofobia, em todas as suas formas, como incompatíveis com nossa tradição unitarista.


10. A vida da humanidade está entrelaçada com a vida deste planeta, da mesma forma que está seu futuro. Por essa razão, o Unitarismo afirma nossa responsabilidade em cuidar do bem-estar de nosso meio-ambiente natural, e zelar para que os recursos naturais presentes neste planeta, assim como a vida de outros animais e vegetais, possam perdurar em segurança enquanto existirmos.



(Associação Unitarista Brasileira)

A Aliança de Ames



"Na liberdade da verdade, e no espírito de Jesus Cristo, unimo-nos para adorar a Deus e servir a humanidade."



- “A Aliança de Ames”, escrita por Charles Gordon Ames para a Sociedade Unitarista de Spring Garden na Filadélfia, em 1880, e posteriormente adotada por muitas igrejas unitaristas.

A Aliança Unitarista (1870)

Cremos:

Na Paternidade de Deus;

Na Irmandade do Homem;

Na Liderança de Jesus;

Na Salvação pelo Caráter;

No Progresso da Humanidade.


(Essa foi uma declaração de fé unitarista muito comum de 1870 até meados do século XX em muitas igrejas unitaristas dos EUA, e foi adotada pela Congregação Unitarista de Pernambuco em 1933.)

Uma Declaração de Fé Unitarista

Encontrando um lar no deserto de Deus,

buscamos saborear Deus

e magnificar os desejos de Jesus.

Ousamos duvidar.

Praticando a compaixão e despertando a consciência,

levamos esperança a um mundo que sofre.

Neste Espírito, honramos uns aos outros

em uma comunidade de amor.


(Congregação Unitarista de Pernambuco)

Conhecendo o Cristianismo Unitarista

Então você se interessou pelo Cristianismo Unitarista, mas ainda não sabe muito bem o que é isso? O objetivo deste texto é dar-lhe uma introdução breve de quem somos e de como escolhemos viver nosso 'cristianismo'. A intenção aqui não é descrever de forma decisiva as crenças dos cristãos unitaristas, já que cristãos unitaristas não aderem a crenças dogmáticas imutáveis. Eu espero apenas, poder dar uma visão geral do que a maioria de nós entende ser nossa tradição religiosa.

A Congregação Unitarista de Pernambuco é uma pequena congregação pluralista de cristãos liberais ou que derivam sua inspiração de uma visão alternativa de Cristianismo. Convidamos cristãos teológica e culturalmente liberais ou progressistas – assim como todas as outras pessoas - a se juntarem à nossa comunidade.


Cristianismo Alternativo

Muitas pessoas não sabem que o fundamentalismo, o pentecostalismo, o evangelicalismo, e mesmo o catolicismo não sejam as únicas manifestações de Cristianismo em nosso mundo. Há perspectivas cristãs alternativas que não carregam a bagagem do exclusivismo, preconceito, e dogma rígido que muitas pessoas associam com a religião cristã.


Os Fundamentos do Unitarismo

Na verdade, uma das formas mais permanentes de “Cristianismo alternativo” é o Cristianismo Unitarista. As igrejas unitaristas se fundamentaram nos ideais éticos e espirituais do Cristianismo Protestante, com raízes teológicas no Cristianismo mais antigo do primeiro milênio. A palavra “unitarista” originalmente significava a crença de que Deus seja uma “Unidade” singular, diferentemente da noção da “Trindade” - ou Deus como sendo três pessoas - que não foi desenvolvido pela igreja cristã até o quarto século. Assim, o Unitarismo se desenvolveu como um movimento não-conformista dentro do Cristianismo, discordando das doutrinas e dogmas da igreja estabelecida, e apelando à liberdade individual e à razão, com uma ênfase na vida e ensinamentos de Jesus, em vez de especular a respeito de sua natureza cósmica.


Uma História de 400 Anos

O mesmo era verdade quando o sacerdote húngaro, Dávid Ferenc fundou a Igreja Unitarista no Reino da Transilvânia em 1568 durante a Reforma Protestante. Um breve período de tolerância religiosa proclamada pelo Rei João Sigismundo permitiu este evento. Apesar de este período ter sido seguido por repressão religiosa, durante a qual o Bispo Dávid foi aprisionado (seguida por sua morte na prisão em 1579), este iniciou a história de 400 anos do movimento unitarista. A Igreja Unitarista continua como o lar religioso de muitos cristãos húngaros hoje (a maioria na Romênia). Estas igrejas cristãs unitaristas na Romênia e na Hungria são duas das maiores denominações unitaristas no mundo hoje, as outras sendo a Associação Unitarista Universalista de Congregações nos EUA, o Conselho Unitarista Canadense, a Assembléia Geral de Igrejas Unitaristas e Cristãs Livres da Grã-Bretanha, e a Conferência Unitarista Americana.

Na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, o Cristianismo do século XVIII dos Unitaristas foi muito influenciado pelo Iluminismo, resultando numa fé na qual a razão e a experiência eram vistas como iguais (e eventualmente maiores) medidas de crença juntamente com as Escrituras e a tradição. Esse Cristianismo liberal tem mudado e evoluído nos últimos duzentos anos, na expressão de vários teólogos e ministros unitaristas (principalmente americanos), incluindo, Joseph Priestley, John Murray, William Ellery Channing, Hosea Ballou, Ralph Waldo Emerson, Theodore Parker, James Freeman Clarke, James Luther Adams, e Charles Hartshorne.


O que mais nos distingue de outros grupos cristãos, entretanto, não é uma lista de doutrinas teológicas, mas nosso princípio de liberdade - liberdade de acessarmos as Escrituras e outros elementos de nossa tradição e as interpretarmos de acordo com nossas próprias consciências individuais; liberdade para nos relacionarmos com Deus e com o mundo ao nosso redor sem que sejamos limitados por imposições dogmáticas e eclesiásticas; liberdade para discordarmos respeitosa e livremente de outros membros de nossa comunidade e de nossos ministros, sem que sejamos punidos por isso; liberdade para desenvolvermos nossa própria compreensão de nosso lugar neste mundo, sem que sejamos excluídos por não nos encaixarmos em uma visão pré-determinada. O que nos une, é nosso desejo de sermos uma família regulada por princípios e não interpretações petrificadas da "verdade". Se você sente que poderia nos ajudar a construir e alargar tal comunidade, junte-se a nós!


Rev. Gibson da Costa – ministro da Congregação Unitarista de Pernambuco
(Adaptado de um folheto da Congregação Unitarista de Pernambuco)

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Batistas - uma conversa com Nilo

Caro Nilo,

Essa nossa conversa se iniciou na seguinte postagem http://cristianismoprogressista.blogspot.com/2009/05/universalismo-cristao-uma-breve.html
Por questões de espaço, e mesmo de relevância, decidi responder seu questionamento aqui, em separado.

Devo, antes de tudo, enfatizar que a visão que tenho dos batistas brasileiros (dos vários grupos que existem) é aquela de alguém que vê a partir de uma perspectiva externa, já que não tenho contato formal com comunidades batistas brasileiras. Tenho uma forte ligação (institucional mesmo) com os batistas gerais britânicos (que como afirmei antes, são unitaristas), e com o movimento progressista batista nos Estados Unidos, devido a minha ligação com a Alliance of Baptists.

O que diferencia os batistas gerais unitaristas dos batistas "gerais" brasileiros? Esta não é tão fácil assim de responder. Ou talvez seja! A diferença básica está na "lealdade" (por falta de uma expressão melhor) à tradição batista, falta essa muito presente na maioria dos assim chamados batistas hoje em dia.

Em um livro que considero interessantíssimo, The Baptist Identity, escrito por Walter Shurden, publicado em 1993 e ainda não traduzido ao português, o autor discute alguns dos princípios históricos batistas e a situação atual do movimento batista americano com relação a esses princípios. Muitas das coisas discutidas ali são válidas para o movimento batista aqui no Brasil.

Em seu livro, Shurden - diretor executivo do Centro Para Estudos Batistas da Universidade de Mercer, EUA - discute o que ele chama de quatro frágeis liberdades, que representam a base do movimento batista: 1) Liberdade Bíblica - que significa ter livre acesso às Escrituras, estar livre de restrições dogmáticas para a sua compreensão, e ter acesso à liberdade de interpretação individual das Escrituras; 2) Liberdade Espiritual - que significa não sofrer imposições doutrinárias, interferências clericais, ou intervenção do governo civil em nossa relação com Deus; 3) Liberdade Eclesiástica - ou seja, liberdade das igrejas individuais (congregações) com relação a quaisquer autoridades denominacionais; 4) Liberdade Religiosa - ou seja, a absoluta separação entre igreja e Estado.

Essas liberdades citadas por Shurden são um resumo do que significa ser batista, e se você atentar bem para esses "princípios" (percebe a linguagem? não doutrinas, mas "princípios", como nós unitaristas falamos!), verá que são os mesmos princípios defendidos pelos Batistas Gerais da Grã-Bretanha - da mesma forma como são os mesmos princípios defendidos pelos Unitaristas, pelos Universalistas, pelos Presbiterianos Não-Subscritos da Irlanda do Norte, e por muitos outros grupos protestantes pelo mundo afora. O interessante é que esses batistas que se mantêm fiéis à sua antiga tradição de liberdade é que são acusados de heresia, enquanto aqueles que, por muitas razões que não poderia discutir agora, abraçaram uma forma dogmática de definir sua fé que entra em conflito com as mais nobres tradições batistas são vistos como os "verdadeiros" batistas, os ortodoxos! É fascinante ver como os valores foram mudados e as perspectivas completamente alteradas. Isso obviamente não ocorreu apenas entre os batistas, já que ocorre entre outros grupos, mais marcadamente no meu próprio berço anglicano!

Agora faça uma comparação entre esses princípios e o que se ensina nas igrejas batistas brasileiras; faça uma real comparação. Será que os batistas brasileiros são ensinados a interpretar as escrituras de maneira individual, mesmo que essa interpretação entre em conflito com a mente da comunidade da qual são parte? São os batistas brasileiros realmente livres de imposições doutrinárias e clericais para se relacionarem com Deus, ou seja, podem entrar em conflito com seus ministros e igrejas sem serem punidos por isso? O que acontece com uma congregação que seja parte de uma associação ou denominação batista qualquer e tenha uma visão que entre em conflito com aquela defendida pela maioria? Os batistas brasileiros têm defendido suficientemente a distinção entre igreja e estado no Brasil, ou têm se aproveitado para chegar ao poder fazendo uso de instrumentos religiosos?... Não posso responder essas perguntas por você, mas tenho certeza que verá a diferença entre o que se ensina na maioria das igrejas batistas no Brasil e o que se ensina em igrejas batistas gerais, já que as últimas se mantêm fiéis a esses PRINCÍPIOS a qualquer custo. Também é importante que eu diga que esses princípios (até certo ponto) são reconhecidos e abraçados por grupos batistas no Brasil (estou agora pensando na Convenção Batista Brasileira).

Espero que possamos conversar um pouco mais sobre isso, e convido outros batistas a entrarem na discussão.

Paz e Feliz Páscoa!

Rev. Gibson da Costa

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Uma Comparação Simplista Entre as Crenças Unitaristas Com a de Outros Cristãos

DEUS


Outros Cristãos: três pessoas, conhecidas como Pai, Filho, e Espírito Santo; ideia que deve ser aceita pela fé e é conhecida como o Dogma da Trindade; é vingativo e amoroso, ao mesmo tempo; é um ser supremo, e talvez em forma humana; deve ser satisfeito pelo sacrifício de Jesus Cristo na cruz; da forma descrita anteriormente, é uma concepção cristã; se torna conhecido ao homem através da terceira parte da Trindade, o Espírito Santo.


Unitaristas: Os cristãos unitaristas estão abertos a múltiplas interpretações teológicas a respeito de Deus; Deus é amor; é espírito; não precisa ser satisfeito; é o Deus de todas as pessoas; se torna conhecido a todos por meio de suas experiências pessoais, sociais, e religiosas na vida.


JESUS


Outros Cristãos: é Deus, a segunda pessoa da Trindade; é o Salvador de todos os que acreditam nele; pode vir de novo em pessoa; foi ressuscitado física ou espiritualmente e ascendeu ao céu.


Unitaristas: foi um homem – um gênio religioso; foi um mestre e um exemplo da boa vida; ensinou princípios de verdade eterna, das quais o mundo ainda precisa; proclamou uma mensagem que nos influencia ainda hoje.


A HUMANIDADE


Outros Cristãos: nasce no pecado, pois sua natureza herdade é má e depravada; precisa ser salva por meio da aceitação pessoal de Cristo, um Salvador-Deus, dado como o filho unigênito de Deus para pagar pelos pecados da humanidade; nasce para glorificar a Deus, para fazer sua vontade Divina e para trazer os pecadores a “Cristo”.


Unitaristas: nasce sem pecados; apesar de nascer sem pecados, adquire a capacidade tanto para o bem quanto para o mal, mas nunca está eternamente perdida; “salvação” pessoal é uma questão de crescimento e desenvolvimento social; está aqui para construir o Reino de Deus, ou seja, a boa sociedade, reconhecendo os laços da humanidade.


A VERDADE


Outros Cristãos: encontra sua base na Bíblia e/ou nos dogmas da igreja.


Unitaristas: é encontrada em todas as experiências humanas; é descoberta na busca e raciocínio de todas as pessoas.


A BÍBLIA


Outros Cristãos: é a Palavra de Deus revelada, inspirada pelo Espírito Santo e frequentemente considerada como fonte suficiente do que se precisa saber para alcançar a salvação; está aberta a interpretações, mas em geral deve ser aceita como a “Santa Palavra” de Deus; é a fonte autorizada de verdade religiosa revelada por Deus e essencial para a “salvação”; pode antever o futuro da existência da humanidade e o fim do mundo.


Unitaristas: é uma coleção de livros que registram o crescimento moral e religioso de dois grupos de povos (os antigos hebreus e os primeiros seguidores de Jesus de Nazaré); é uma narrativa franca das variadas experiências de um povo no decorrer de sua história; é uma das várias fontes de valores éticos e religiosos; registra as várias ideias de um povo particular a respeito da vida aqui e no porvir.


O REINO DE DEUS


Outros Cristãos: chegará através da miraculosa vinda de Cristo no fim do mundo; é concebido como sendo plenamente possível apenas na vida futura; será futuramente governado por Deus em benefício daqueles que tiverem sido “salvos”.


Unitaristas: é alcançado por meio dos esforços humanos; é concebido como sendo plenamente possível aqui na terra; será compartilhado por todas as pessoas.


PECADO


Outros Cristãos: é herdado por todas as pessoas como parte de sua natureza; será punido em algum estado futuro.


Unitaristas: é a rejeição deliberada da humanidade de fazer o bem; carrega sua própria punição.


A IGREJA


Outros Cristãos: é o meio básico de salvação; é a Santa Instituição.


Unitaristas: é uma comunidade unida em favor do crescimento moral e espiritual e uma escola de religião; é um grupo de pessoas organizadas para adorar a Deus e para servir a humanidade.


A IMORTALIDADE


Outros Cristãos: é um lar no céu onde o espírito humano individual vive para sempre.


Unitaristas: é uma ideia aberta à interpretação e aceitação pessoal.


A ORAÇÃO


Outros Cristãos: é uma comunicação e uma comunhão com Deus, que é concebido como sendo um ser sobrenatural que pode mudar a ordem natural do universo em favor da humanidade.


Unitaristas: é uma expressão dos pensamentos, sentimentos e aspirações mais profundas de alguém, uma tentativa de conhecer o certo e fazê-lo.


OS SACRAMENTOS


Outros Cristãos: para alguns, são dois, para outros, são sete; poder sobrenatural se faz presente em cada um deles, por virtude da presença do Espírito Santo.


Unitaristas: ordenanças não são consideradas como sendo mágicas; são símbolos humanos, criados para ajudar uma pessoa em sua busca pela boa vida.


NOTA: Como explicado no próprio título, esta comparação é muito geral e deveras simplista a respeito das crenças de outros cristãos e de cristãos unitaristas. Preparei esta lista apenas como uma forma didática (muito simplista e limitada) para ajudar a responder algumas perguntas que me são feitas com muita frequência pelos leitores deste blog.


+Gibson