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quinta-feira, 16 de junho de 2016

Cristianismo e violência homofóbica: respondendo a algumas provocações



“… se aperfeiçoem na prática da hospitalidade.” (Romanos 12:13)


Serei duro em minha resposta a algumas provocações que tenho recebido. Em hipótese nenhuma é minha intenção ferir qualquer um de meus leitores ou leitoras. Mas, a honestidade, às vezes, exige um tanto de rigidez.

Sim, é verdade que há muita falta de compaixão por parte de algumas igrejas e alguns fiéis cristãos para com diferentes grupos ou indivíduos que não se encaixem em suas expectativas. Essa falta de compaixão é, em minha compreensão teológica, pecaminosa, já que trai o espírito da mensagem do Evangelho.

Sim, é verdade que muitos indivíduos LGBT se sentem excluídos da comunidade cristã por conta da falta de compaixão de alguns que se declaram cristãos. Isso, para mim, é triste e inaceitável. Não acredito que pessoas tenham de mudar sua personalidade para sentirem-se respeitadas e protegidas enquanto seres humanos. Isso é algo que elas merecem pelo simples fato de serem humanas e de, na tradicional linguagem cristã, serem filhos e filhas de Deus.

Crer nisso, proclamar isso e viver isso, entretanto, não significa dizer que comunidades de fé (igrejas) não possam fazer exigências comportamentais de seus adeptos. Elas têm esse direito. A vida em comunidade só é possível sob acordos entre seus membros e, no caso de comunidades de fé, esses acordos baseiam-se sobre uma tradição teológica comum – partilhada se não por todos, pelo menos pela maioria.

Quando uma comunidade de fé, de qualquer tradição, acredita e ensina uma certa compreensão da sexualidade humana e das relações maritais que declare práticas homoafetivas como “pecaminosas”, ela não está, com base apenas nisso, sendo “homofóbica” ou cúmplice de “homofobia”. Está, apenas, vivendo suas próprias regras.

Em minha compreensão – e todos vocês sabem a partir de que posição falo nesse conflito –, e na compreensão da lei, a vida religiosa baseia-se, dentre tantas outras coisas, na voluntariedade. Em outras palavras, você só faz parte duma comunidade de fé à qual você queira se juntar. E essa – seja lá qual for – só recebe aqueles a quem queira receber. Uma igreja não é uma loja que venda “Deus” ou a “salvação – ou, pelo menos, não deveria ser –, é, antes, uma comunidade de fiéis.

Assim, mesmo eu sendo quem sou, e mesmo eu crendo no que creio no tocante ao valor e à dignidade humanos, não posso aceitar acusações generalizantes e falsas acerca de pessoas que não pensam como eu. Apesar de, para mim e para minha tradição de fé, a homossexualidade não ser um “pecado”, como o ensinam tantos outros cristãos, dizer que seja e exigir um comportamento “moral” que se afaste de “desejos e práticas homossexuais” não é sinônimo de “homofobia” – é, no máximo, sinônimo de ignorância e preconceito; mas se vamos falar sobre “ignorância” e “preconceito”, também deveremos falar sobre esses dois elementos na visão, declarações e comportamentos de certos ativistas.

Não é verdade que “todas as igrejas cristãs condenam a população LGBT ao inferno”. Na verdade, nem todas as igrejas cristãs pregam sobre o mito do “inferno” – algumas estão ocupadas demais pregando as boas novas de Jesus para se preocuparem com “o diabo”. Para nós, Deus é suficiente; não precisamos do diabo ou do inferno para nos preocuparmos com o serviço ao próximo e com a construção do Reino de Deus aqui e agora.

Sim, é verdade que as igrejas e movimentos mais belicosos no tocante a temas “delicados” como esse são as que têm maior audiência nos meios de comunicação. São elas que aparecem nos noticiários, que têm programas de TV, que vendem revistas nas bancas, e que elegem os tipos de legisladores de certas “bancadas” do Congresso. Elas, contudo, não são “o Cristianismo” – elas são uma parte apenas (a mais poderosa no Brasil atual, mas apenas uma parte).

O Cristianismo é multiforme e polifônico, assim, é injusto acusar-nos todos como coparticipantes duma visão teológica específica. Fazê-lo é não apenas reflexo de desinformação deliberada: é uma desonestidade imoral.

Aos que acreditam na retórica da não compaixão absoluta da Igreja cristã para com qualquer tipo de pessoa, convido-os a procurar com mais cuidado e atenção. Se de fato quiserem ser parte duma comunidade de fé onde possam se sentir bem-vindos, tenho certeza que encontrarão esse lugar. Só não se esqueçam de que da mesma forma como querem ser livres e ser respeitados, outras pessoas que, talvez, pensam de forma diferente da sua também o querem. É uma via de mão dupla! É o preço de construir comunidade!

Se precisar de ajuda em sua busca, ficarei feliz em ajudá-lo(a)!

Sinceramente,

Rev. Gibson da Costa

sábado, 7 de abril de 2012

Liberdade de Expressão também para o Silas Malafaia


Hoje recebi uma mensagem que me irritou, por diferentes razões. A mensagem denunciava o pastor evangélico Silas Malafaia como “um agente do ódio contra os cidadãos gays e contra a democracia no Brasil”, especialmente em decorrência de seu ativismo contrário à PL 122/06 (a conhecida “Lei anti-homofobia”).

Como resposta, pedi que meu interlocutor me apresentasse provas de tal ódio “contra os cidadãos gays e contra a democracia” – além das citações e trechos de gravações em áudio e vídeo fora de contexto que ele incluiu em sua mensagem –, e sua contra-resposta foi a de que eu também era “parte do time” do Silas Malafaia.

Para que as coisas fiquem bem claras – se resta alguma dúvida –, devo esclarecer que me encontro num universo teológico, religioso, e social muitíssimo diferente e oposto ao do citado pastor: sou um protestante liberal – e não um evangélico –, e sou gay. Por protestante liberal, entenda-se que creio numa interpretação da tradição cristã que em muito diverge daquela acreditada e defendida pelo pastor Malafaia. Como consequência, minha visão das relações humanas – o que inclui aquelas referentes a orientações emociono-sexuais – também são diferentes das dele, ou das que ele acredita serem aceitas por Deus e pela tradição cristã. Por gay, entenda-se que sempre me considerei emocional e sexualmente atraído por outros homens, e não por mulheres – o que, em hipótese nenhuma, significa que minha vida não seja regida por uma ética sexual baseada em minha compreensão do Evangelho; significa, apenas, que outro homem é o objeto de meu afeto.

Como um fiel cristão liberal e gay, obviamente me sinto muito desconfortável quando ouço outros cristãos, que não partilham de minhas perspectivas teológicas, condenarem o que chamam de “práticas homossexuais”. Tenho a impressão que imaginem que ser “gay” seja uma questão de mecânica sexual apenas, e não envolva afeto e amor para com outra pessoa, e a si mesmo – mas, seja como for, essa é uma outra discussão. Como um unitarista, valorizo, prezo, e trabalho pela liberdade de todas as pessoas – para que possam expressar suas ideias, suas crenças, suas convicções, mesmo que me oponha a elas. Tem sido uma tradição secular de minha corrente teológica não-conformista dizer que “morreria, se necessário, para defender o direito de meu inimigo dizer o que ele pensa” – mesmo se o que ele pensa seja uma afronta às minhas ideias. Mas, não, espero que para defender o bom senso eu não precise morrer, mas apenas dizer o que acredito ser certo.

O pastor Silas Malafaia, enquanto ministro religioso, em minha visão, não é um homofóbico, é apenas um cristão fiel às suas convicções e um pastor aparentemente responsável para com suas ovelhas. Sua noção do que sejam as Boas Novas e sua práxis pastoral podem ser extremamente diferentes das minhas, mas elas são uma materialização clara de suas convicções. O que ele prega, enquanto pastor, não é o ódio aos indivíduos gays, mas, sim, suas convicções do que seja o tipo de vida esperado daquele que deseja ser parte de sua família de fé. Sim, isso inclui – para ele – uma condenação das “práticas homossexuais”, assim como inclui uma condenação das práticas heterossexuais que ele entende como imorais, mas isso não é o mesmo que incitação ao ódio!

Se Silas Malafaia merece ser condenado por defender seus pontos de vista – que até agora não se mostraram como incitação à violência ou ódio contra um grupo de pessoas –, então eu mereço ser também condenado por defender pontos de vista teológicos diferentes dos dele. O que ele parece ser bem vocífero contra é o “ativismo gay” que reina em algumas esferas do cenário público brasileiro – especialmente visível no caso da PL 122/06 (contra a qual tenho me posto publicamente já algum tempo) – e que levam a certos conflitos que têm caracterizado as relações sociais em nossa época. Eu, obviamente, apesar de poder discordar de algumas de suas interpretações, apoio seu direito de poder dizer o que pensa e defender publicamente o que acredita, desde que sob o manto da Constituição Federal (Artigo 5º, IV, VII).

Em minhão visão do que acontece hoje no Brasil, Silas Malafaia é uma vítima da campanha política (pseudo)pró-direitos humanos – se essa fosse uma campanha em prol dos direitos humanos, então defenderiam seu direito a dizer o que pensa. É engraçado como costumamos demonizar a todos aqueles que pensam diferentemente de nós, e como isso tem acontecido comigo (um ministro que também é gay) por me opor ao que a maioria dos ativistas gays pensam, consigo entender o que se passa no caso Malafaia. As acusações feitas contra ele são um absurdo, assim como também é um absurdo a tal PL 122/06!!!

+Gibson