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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Você é "o Milagre"


No princípio, Deus criou o céu e a terra.” (Gênesis 1:1)


Com essas palavras, os antigos escolheram iniciar uma história, um relato da criação. Não havia nada inicialmente, apenas Deus. Não havia espaço, não havia tempo. Deus então criou o cosmo. Todo o universo era do tamanho de um grão de areia. Pequeno e extremamente quente. E agora, olhem para tudo ao nosso redor! Não somos um milagre – somos o milagre!

Quando olho para o céu à noite, desde muito pequeno, tento imaginar o que extraterrestres pensariam de nós e de nosso mundo. Olho para as estrelas no céu e me inquieto quando imagino que não estou vendo as estrelas, mas sim a luz enviada de algumas delas há milhares de anos atrás. Você está no presente, olhando para o passado, preocupado acerca do futuro. Pelo menos é isso que acontece comigo muitas vezes.

Até alguns anos atrás, me sentia quase que esmagado quando pensava no Universo. Quando pensava no tempo e no espaço. Afinal, somos o produto de cerca de 13,7 bilhões de anos de história. Já parou para imaginar esse tempo? Quase quatorze bilhões de anos! Eu só tenho trinta e dois, e às vezes já me sinto muito próximo do que chamam de velhice, agora imagine o Universo. A distância que separa nosso Sistema Solar do centro de nossa galáxia, a Via Láctea, é de 26 mil anos-luz. E a distância que separa o Sistema Solar da galáxia mais próxima de nós (Cão Maior) é de 25 mil anos-luz. Já imaginou esta distância? Teríamos que viajar com a mesma velocidade da luz no vácuo, isto é, 299.792.458 metros por segundo, durante vinte e cinco mil anos para alcançar Cão Maior, ou por vinte e seis mil anos para alcançar o centro da Via Láctea. É uma distância e tempo inconcebíveis para minha imaginação!

E o Universo? É só pensar que até a década de 1920 pensávamos que a Via Láctea fosse o Universo inteiro. Dentro dela temos entre 200 e 400 bilhões de estrelas. E hoje calcula-se que o Universo seja composto por entre 30 e 50 bilhões de trilhões de estrelas, organizadas em 80 a 140 bilhões de galáxias. O objeto mais distante de nós que podemos ver hoje é um quasar (um buraco negro rotativo alimentado com matéria) que está a cerca de 13 bilhões de anos-luz de distância – ou melhor, que estava lá 13 bilhões de anos atrás. Só pensar nisso já é fascinante e desconcertante!

Quando comparados a todo esse tempo e todo esse espaço, parecemos irrelevantes. Parecemos. Mas, na verdade, creio que temos uma importância incontestável. Afinal, não conhecemos outros seres que possam pensar a respeito dessas coisas. Pelo menos, não até agora.

Os antigos, que não tinham o conhecimento que hoje temos do Universo, encontraram formas poéticas para explicar seu lugar no tempo e espaço. Encontraram um espaço para o Mistério, e deram-lhe um nome: Deus. Hoje, muitos pensam que não há mais espaço para esse Mistério. Eu discordo.

Não consigo explicar o que é a vida. Não consigo explicar o que é o amor. Não consigo explicar a alegria que sinto quando aprendo mais, quando escrevo uma música, ou quando abraço um amigo que não vejo há muito. Não consigo explicar a dor que sinto quando perco alguém próximo, quando vejo imagens de vítimas de guerras, ou quando vejo um amigo sofrer. Não consigo explicar a revolta que sinto quando ouço discursos que incitam a violência e a intolerância, quando vejo pessoas sendo tratadas como se não tivessem importância. Essas coisas são um mistério para mim, e as explicações que geralmente dão acerca disso não são suficientes para aliviar minha sede por uma resposta. Essas coisas tem uma relação com aquele Mistério inexplicável, com aquela Presença que chamo de Deus.

Todos nós temos um valor incalculável. Absolutamente todos. Não importa os erros que tenhamos cometido. Não importa se não nos encaixamos naquilo que outros esperam de nós. Não importa se não temos o que outros têm. Não importa se não nos parecemos com os famosos da TV. O que realmente importa é que somos humanos e, como humanos, compartilhamos um passado, um presente e um destino comum. Caminhamos juntos, rodopiando no mesmo planeta, na mesma galáxia, no mesmo cosmo.

Você e eu temos um lugar garantido na história deste nosso Universo. Nossas alegrias, nossas dores, nossos amores, nossas confusões, nossas dúvidas, nossos encontros, nossos desencontros, nossa música, nossas palavras; a melodia que nos acompanha durante nossa curtíssima existência física, e a melodia que acompanhará a lembrança que terão de nós quando nossa existência chegar ao fim; tudo isso define nossa importância no Universo – no tempo e no espaço. Portanto, não se sinta menor, nem pequeno. Você não é pequeno. Você não é menor que nada. Você é o milagre – aquele milagre iniciado há mais de 13 bilhões de anos atrás, aquele milagre que continuará por mais tempo. Não importa quem você é, ou onde você está em sua jornada de vida. Não importa o que você fez, ou como você está agora. Você é o milagre. Você é o milagre.

Rev. Gibson da Costa - discurso aos jovens da Congregação Unitarista de Pernambuco - sábado, 30 de outubro de 2010.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O que significa "Amar a Deus"?


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Uma resposta à Maria C.

Querida Maria C.,

Você falou em duas de suas mensagens a respeito da obrigação que os cristãos têm de “amar a Deus”, e disse que isso se demonstra através de nossa obediência aos mandamentos do mesmo Deus. Você ainda deixou claro que fazia aqueles comentários por pensar que cristãos como eu, que reinterpretam a tradição cristã, rejeitam, de alguma maneira, os mandamentos de Deus e, dessa forma, demonstram que não o amam.

“E ame o Senhor seu Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma, com todo o seu entendimento e com toda a sua força.” (Marcos 12:30)

De acordo com o Evangelho, Jesus reafirmou isso aos seus compatriotas e seguidores. Ele reafirmou algo que era ensinado há séculos e séculos em sua tradição religiosa, o judaísmo. E a tradição cristã tem dado voz a esse ensinamento durante toda a sua história, apesar de nem sempre ser com os melhores exemplos práticos.

A minha pergunta é: Afinal de contas, o que significa “amar a Deus”? Como você acha que demonstramos nosso amor a Deus?... Aparentemente, a sua resposta é simples: obedecer aos mandamentos de Deus. Mas que mandamentos são esses?

Eu gosto da resposta dada por Jesus nessa mesma passagem de Marcos (leia Marcos 12:28-31), quando ele reafirma que os dois maiores mandamentos são o amor a Deus e o amor ao próximo. Para mim, fica claro que “amar a Deus” é simplesmente amar aquilo que Deus ama, é se importar com aquilo com o qual Deus se importa, é cuidar daquilo que Deus criou e cultiva. Por que “amar ao próximo” é tão importante quanto “amar a Deus”? Porque é simplesmente impossível “amar a Deus” sem amar aquelas pessoas que são, isso é, que existem, por causa de Deus (independentemente de nossa compreensão do nome “Deus”), que carregam em seu próprio ser as marcas de Deus. Se a mensagem cristã afirma que “Deus é amor”, não se pode conhecer – e, consequentemente, amar a Deus, sem que se “pratique” Deus (isto é, sem exercer o amor!).

No espírito da mensagem cristã encontro quatro afirmações básicas a respeito da humanidade: 1) ela foi criada por Deus; 2) os homens e mulheres são filhos e filhas de Deus; 3) a humanidade é amada por Deus; e 4) a humanidade é aceita por Deus.

Como cristão, quando olho para as outras pessoas é isso que eu vejo. Eu vejo indivíduos que têm uma origem divina, já que sua origem está naquela mesma Realidade que é o centro de minha visão religiosa. Por esses indivíduos terem sua origem em Deus, também reconheço o fato de Deus – essa Realidade que não me atrevo a tentar definir – ser o Pai ou a Mãe dessas pessoas, e que por essa razão, Deus os ama e os aceita plenamente.

Só que a criação de Deus não é expressa apenas pela humanidade. Como cristão, afirmo que o próprio universo é criação de Deus. Se o universo é criação daquela Realidade, é também seu filho, e meu cuidado, atenção, e amor, deve se estender ele. Se eu destruo, desnecessariamente, uma parte da vida deste planeta para construir um parque aquático, eu estou demonstrado que não amo aquilo que Deus ama. Se eu saio para fazer caçadas, pelo simples prazer de me divertir com a morte de criaturinhas indefesas, não estou demonstrando amor para com o objeto do afeto de Deus. Se apoio a ideologia da violência e da guerra, da exploração de seres humanos, da destruição do meio ambiente, se viro as costas àqueles que são pisados e humilhados, se me calo quando deveria abrir minha boca contra os barões deste mundo, eu estou demonstrando minha falta de atenção, cuidado, e amor para com aquilo que representa o objeto do afeto de Deus (para usar uma linguagem um tanto poética).

É muito simples falar em amor a Deus como sendo uma renúncia às coisas deste mundo, criando-se listas daquilo que representariam essas coisas. Você se junta a um grupo cristão, e de repente te dão uma lista de “pecados” aos quais se deve renunciar para que você seja capaz de demonstrar seu amor a Deus. Mas amar alguém (ou alguma coisa) não é apenas um “não fazer”, constitui também “um fazer” - ao menos, em minha visão de “amor”. Nos preocupamos tanto com listas de “não fazer” por ser mais conveniente do que nos preocuparmos com a lista de “fazer” - na realidade, quando se trata de relacionamentos, e não seria diferente com Deus, não há uma lista do “fazer”, mas uma lista do “se envolver”. É mais fácil abrir mão de um hábito social do que se engajar de corpo e alma no cuidado a alguém ou alguma coisa – e esse engajamento de corpo e alma com as coisas que são importantes para Deus (de acordo com o que foi proclamado pela tradição bíblica) é a maior e melhor demonstração do que seja “amar a Deus” em minha visão de mundo.

Paz!

+Gibson