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quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Céu, inferno, vida após a morte?


Um dos problemas mais presentes na vida de qualquer ministro religioso e professor de Teologia, como eu, é o problema da morte. Isso porque a morte, mais até do que o nascimento, se faz presente na vida de qualquer família, de qualquer comunidade, e a religião sempre serviu como uma forma de lidar tanto com o mistério como com a dor da morte.

Frequentemente me perguntam se acredito em vida após a morte – se acredito em "céu" e "inferno" –, e alguns dos que me questionam parecem se perturbar ou surpreender com o fato de eu, mesmo sendo um ministro religioso, dizer que o assunto me é indiferente. Hoje, gostaria de responder a alguns questionamentos feitos por um leitor de São Paulo – que, infelizmente, não assinou sua mensagem, mas indicou sua cidade.

Realmente, não me importo com questões referentes a uma suposta vida após a morte (o que inclui temas como “céu” e “inferno”). Minha tradição religiosa tende a se centrar numa ética [judaico]cristã, e não em dogmas teológicos sobre temas específicos. Assim, minha preocupação religiosa é com a vida, com as relações humanas e com a Criação, relações através das quais encontro o Divino (Deus). Meu Cristianismo está focado na prática duma eticidade ensinada nas Escrituras: amor ao próximo – através do qual se demonstra amor a Deus –, serviço, compaixão, perdão, a construção do “shalom” de Deus aqui e agora.

Tendo a encarar “céu” e “inferno” não como realidades objetivas, mas, antes, como metáforas que apontam para esperanças e/ou desesperos humanos. São parte duma linguagem teológica que reflete uma visão de mundo que não se concilia com minha compreensão do Universo. Por isso, são temas que não me interessam – com os quais não gasto meu tempo (a não ser que seja para discutir a história desses conceitos, como se desenvolveram e se tornaram parte do repertório teológico cristão).

O que ocorre após a morte não pode ser conhecido por nós – pode, apenas, ser especulado. E, entre especular sobre algo que não pode ser desvendado e saber como lidar com o conhecível, prefiro este último. Quando nos centramos em reflexões teológicas acerca da vida em sociedade, acerca de como nos relacionarmos com a Criação, sobre como a prática religiosa pode contribuir para construir paz e justiça no mundo agora, isso é saber lidar com o conhecível (aquilo que temos a capacidade de conhecer).

Portanto, se alguma vez eu falei/escrevi sobre “céu” ou “inferno” – o que não me lembro de ter feito até hoje, a não ser em estudos históricos –, o fiz unicamente em linguagem metafórica, simbólica, provocadora, e não como uma realidade objetiva.

Alguém poderia apontar trechos da Bíblia nos quais são feitas referências ao “céu” ou “inferno”. É verdade, estão lá. Mas, para minha tradição, Bíblia e Cristianismo não são sinônimos. A Bíblia é (apenas) uma das fontes teológicas do Cristianismo; além dela, temos a Razão, a Tradição e a Experiência. Quando analiso o tema na Bíblia à luz das demais fontes teológicas, o considero irrelevante.

Além disso, é importante ressaltar que não há, no Novo Testamento cristão, nenhuma visão coerente e amplamente compartilhada em todos os escritos sobre “céu” ou “inferno”. O que podemos encontrar são apenas pequenos fragmentos duma descrição do que seriam esses dois; não há nenhuma passagem longa onde “céu” ou “inferno” sejam descritos de forma clara e dogmática. A visão cristã da vida pós-mortal se desenvolveu a partir do contato entre o judaísmo rabínico, dos escritos canônicos cristãos, e da cultura greco-romana – e é por isso que é mais ampla a preocupação com o tema por parte dos Padres da Igreja do que dos próprios escritos canônicos do Novo Testamento.

Isso explica porque há compreensões tão distintas sobre o que acontece após a morte em cada uma das tradições cristãs do mundo. Cristãos ortodoxos, católicos romanos, luteranos, reformados, anglicanos, unitaristas, universalistas, restauracionistas, pentecostais, etc, abraçam visões diferentes sobre o que acontece após a morte e como. E essa variação de visões tem existido desde a origem do(s) Cristianismo(s).

Por essas e por outras razões, não posso afirmar absolutamente nada sobre uma suposta vida pós-mortal. Pessoalmente, não me preocupo com isso; não é um tema “essencial”. Isso não me torna uma pessoa “sem esperança” ou “perdido”. Para mim, é suficiente crer que a vida dos que morreram, de alguma forma, continua na terra. É nesse sentido que a vida pós-mortal funciona como uma metáfora. Acreditar que irei para o céu ou o inferno não influenciaria em absolutamente nada a minha vida: minha compreensão de Deus, de ética, da teologia cristã, da minha relação com os demais seres humanos e com a Criação, da dignidade e valor humanos é o que guia minhas ações – não uma [des]crença em punição ou recompensa eternas.

Respeito a opinião dos que aceitam esses aspectos especulativos da teologia cristã, mas, para mim, eles não possuem nenhuma relevância para minha relação com o Divino e/ou com o mundo social.

+Gibson

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A Páscoa e o Caminho de Jesus: o caminho do amor, da justiça, do serviço, do perdão, da compaixão, da paz


Como um cristão, partilho com outros cristãos a centralidade de Jesus para minha compreensão da dimensão espiritual da existência e de minha relação com Deus. Como um cristão liberal, contudo, enfatizo outros aspectos da narrativa cristã acerca da vida de Jesus de Nazaré: para mim, Jesus é Salvador por conta de seus ensinamentos, de seus exemplos e de sua convocação para vivermos uma vida de compaixão, serviço, amor e paz radicais – ou seja, ele é meu Salvador por causa de sua vida, e não por causa de sua morte. É vivendo como ele – independentemente de os relatos a seu respeito serem factuais ou não – que somos salvos, e não apenas fazendo um esforço intelectual para acreditar em certas coisas a seu respeito.

Somos ensinados a encontrar Jesus e servir a Deus no mundo. Esse ensinamento é repetido todas as vezes em que saímos das celebrações da Eucaristia, quando recitamos aquela benção final – que, pessoalmente, levo muito a sério:


Cristo nasce em nós quando abrimos nossos corações à inocência e ao amor. Cristo vive em nós quando caminhamos a senda do perdão, da reconciliação e da compaixão. Cristo morre em nós quando nos rendemos à nossa própria arrogância, egoísmo e ódio. Cristo ressuscita em nós quando nossas almas se despertam da morte espiritual para se juntarem à comunidade de amor, para entrarem no reino divino no meio do mundo. Saiamos em paz. Amém.


Essas palavras sempre tiveram um poder incrível para me fazer refletir sobre o sentido de minha fé. Elas me relembram que minha fé deve ser expressa por meio de minhas ações, em minha vida com outras pessoas. Elas refletem aqueles dois pequenos trechos da Carta de Tiago, que aprendi a amar ainda na adolescência:


Se alguém pensa que é religioso e não sabe controlar a língua, está enganando a si mesmo, e sua religião não vale nada. Religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em aflição, e manter-se livre da corrupção do mundo. (Tiago 1:26-27)

Assim também é a fé: sem as obras, ela está completamente morta. (Tiago 2:17)


A fé dos seguidores de Jesus, o Cristo, é a fé que deve se materializar no mundo real, dentre outros seres humanos e com toda a Criação. Se é verdade que os seres humanos são “imagem” de Deus, então não há como servirmos a Deus sem servirmos aos outros seres humanos; se os seres humanos foram feitos “à imagem e semelhança” de Deus, então não há como amarmos ao Deus invisível sem amarmos aos seres visíveis, como bem nos ensina aquele trecho neotestamentário:


Se alguém diz: “Eu amo a Deus”, e, no entanto, odeia o seu irmão, esse tal é mentiroso; pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê. E este é justamente o mandamento que dele recebemos: quem ama a Deus, ame também o seu irmão. (1 João 4:20-21)


Apesar disso parecer uma simplificação do que é ser um discípulo de Jesus, posso afirmar – por experiência própria – que é o maior desafio que se pode enfrentar. Ser seguidor de Jesus significa, nesse contexto, tomar o seu “hodos” – o seu “caminho”, a sua “via” (em grego). Significa rejeitar tudo e todos os que oferecem um caminho paralelo que nos afaste desse “hodos” de Jesus.

Assim, nossa liturgia, novamente nos mostra que caminho é esse que nos comprometemos a trilhar quando nos tornamos parte da comunidade cristã – a Igreja. As promessas que fazemos na Aliança Batismal rezam:


Você permanecerá nos ensinamentos dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações?
Sim, com a ajuda de Deus.

Você perseverará na resistência ao mal e, sempre que pecar, se arrependerá e retornará ao Senhor?
Sim, com a ajuda de Deus.

Você proclamará, por meio de palavras e exemplo, as Boas Novas de Deus em Cristo?
Sim, com a ajuda de Deus.

Você buscará e servirá Cristo em todas as pessoas, amando o seu próximo como a si mesmo?
Sim, com a ajuda de Deus.

Você defenderá a justiça e a paz para todas as pessoas, e respeitará a dignidade de cada ser humano?
Sim, com a ajuda de Deus.


Com essas palavras, nos comprometemos a seguir o caminho de Jesus, ao mesmo tempo em que reconhecemos que não somos capazes de fazê-lo sozinhos. Afirmar que o faremos “com a ajuda de Deus” é afirmar que essa ajuda nos é concedida em comunidade, na “comunhão” da comunidade de fé – mas também na comunhão de todas aquelas pessoas que igualmente se comprometem a servir, a cuidar e a defender outros seres humanos.

E o que isso significa, no mundo real? Significa muitas coisas. Se olharmos para o mundo ao nosso redor, e nos lembrarmos das promessas que fizemos quando fomos batizados ou confirmados, e que reafirmamos todas as vezes que partilhamos da Eucaristia/Santa Comunhão, saberemos o que devemos escolher.

Será que virar as costas aos desempregados e mais pobres, supostamente em defesa da economia de mercado, está plenamente de acordo com as promessas que fizemos na Aliança Batismal ou com as passagens das Escrituras que falam sobre o amor e o cuidado para com o próximo?

Será que defender o direito ao porte de armas, apoiar guerras, expor ideias racialistas/racistas, fechar as fronteiras aos mais fracos, submeter-se a ideologias nacionalistas, dar voz à xenofobia, manifestar homofobia, ou discriminar pessoas por quaisquer outras razões está de acordo com os ensinamentos de nossa fé e com a Aliança que fizemos com Deus e com nossa comunidade de fé?

A única resposta que posso encontrar para essas perguntas é um retumbante “Não!”. Nenhuma ideologia política, nenhuma nação, nenhum partido, nenhuma organização (incluindo a própria igreja institucional), nenhuma religião, nenhuma etnia, nenhuma cor de pele, nenhuma orientação emotivossexual, nenhum sistema econômico, nenhum interesse corporativista, etc, é mais importante do que o ser humano e a Criação – que são a “imagem” de Deus.

Se isso soa político demais ao seu ouvido, resta-me reafirmar que a fé cristã é uma fé política. Ela só pode ser praticada em comunidade. Por isso ela é política. Os ensinamentos sobre amar ao próximo só podem ser materializados em nossas relações, na Igreja e no mundo. E todos os que ensinam algo que contradiz esse ensinamento básico da fé cristã, de amor e serviço ao próximo, só podem estar errados – ou, do contrário, eles estão certos e as Escrituras e a tradição cristã estão erradas!

Minha oração é que nesta Páscoa nos lembremos do “caminho” de Jesus. Que nos recordemos das promessas que fazemos na Aliança Batismal. Que nos lembremos que não podemos, coerentemente, “servir a dois senhores” opostos.

Deus nos ajude a seguirmos o caminho do Nazareno: o caminho do amor, da justiça, do serviço, do perdão, da compaixão, da paz.

Feliz Páscoa e bençãos a todas e todos!

+Gibson


sábado, 24 de dezembro de 2016

Um significado para a narrativa do Natal


Frequentemente, utilizo as palavras “metáfora” e “mito” para me referir às narrativas bíblicas. Por conta disso, já me acostumei às reações que muitas pessoas têm a esse uso. Muitos, por exemplo, podem não se sentir desconfortáveis com o termo “metáfora”, mas reagem negativamente ao termo “mito” por compreendê-lo erroneamente: entendem “mito” como sinônimo de “mentira”; assim como entendem “verdade” erroneamente como sinônimo, apenas, de “factualidade”. Eu, obviamente, continuarei a utilizar esses termos para tratar de três grandes “mitos” cristãos – as narrativas sobre o nascimento, a morte e a ressurreição de Jesus de Nazaré – e hoje, especificamente, gostaria de tratar acerca do mito do Natal de Jesus.

No estudo da religião e da teologia, um “mito” não é uma “mentira”. Mitos sagrados, como aqueles que encontramos na Bíblia, por exemplo, são narrativas simbólicas sobre a relação entre a dimensão sagrada e aquela de nossa experiência comum. Esses mitos são verdadeiros, mesmo que não sejam relatos factuais do que aconteceu na realidade humana. Sua verdade encontra-se além de sua (não) factualidade. Mesmo que a linguagem utilizada na Bíblia cristã para falar sobre o nascimento de Jesus – uma mãe virgem, três reis do Oriente, uma nova estrela, etc – não represente factualidades históricas, isto é, coisas que factualmente aconteceram no mundo físico, ela aponta para o significado que Jesus tem para a narrativa cristã. É nesse sentido que – acompanhando autores como Rudolf Otto, Mircea Eliade, William James e Marcus J. Borg – chamo esses relatos de “mitos”.

Obviamente, talvez a maioria dos cristãos abrace uma interpretação apresentada como “literal” (ou seja, o que “está escrito” deve ser compreendido exatamente como está expresso no texto) – apesar de que, se formos intelectualmente íntegros, deveremos reconhecer que absolutamente ninguém razoável interpreta o todo das Escrituras Sagradas de forma literal, já que toda interpretação é sempre seletiva (mesmo as mais aparentemente “literais”). Assim, muitos cristãos insistirão que não é possível “ser cristão” sem acreditar na literalidade das narrativas bíblicas sobre o nascimento de Jesus, por exemplo. Essa visão factualista das Escrituras tem uma origem moderna, mas foi naturalizada de tal forma, por tantos cristãos, que nossa cultura a vê como a norma, ignorando as diferentes tradições interpretativas da Igreja cristã.

A necessidade de certezas absolutas, para aqueles que compreendem a história como um conflito entre a “verdade” e a “mentira”, faz com que só possa haver duas possibilidades: ou o nascimento de Jesus se deu como dizem os diferentes relatos do Novo Testamento cristão ou esses relatos são mentirosos – o que muitas dessas pessoas não se dão conta é que todos os relatos nos Evangelhos canônicos são diferentes, por mais que mantenham elementos em comum. Assim, o que se perde – com essa ênfase factualista – é o poder da linguagem metafórica que enriquece os elementos factuais da narrativa natalina. A arte linguística da metáfora, presente naquelas narrativas bíblicas não exige nossa “crença”: exige, sim, nossa “visão”; ou como já escreveu o falecido professor Marcus J. Borg: “O ponto não é acreditar em uma metáfora, mas ver à luz dela” (2001: 41).

“Ver à luz” da metáfora natalina é, em minha experiência espiritual, ser circundado por uma melodia que me convida à dança divina – uma dança que honra minha própria humanidade ao despertar em mim um senso de dependência e de compaixão. Esse senso não significa que eu tenha, de alguma forma, me “aperfeiçoado”; significa, sim, que sou ajudado a reconhecer a necessidade de me aproximar do “divino” através da aproximação a outras pessoas e ao resto da Criação.

Assim, pensar na narrativa dum “príncipe da paz” que nasceu em condições de exclusão (Lucas 2:7) e sob a ameaça da violência e que, por isso, teve de se refugiar em terra estrangeira (Mateus 2:13-15) – independentemente da (não) factualidade do relato – me faz pensar naqueles seres humanos que, hoje, realmente passarão o Natal se refugiando da violência humana. Esses seres humanos, para mim, são também “Deus conosco”, já que são a presença divina testemunhando contra nosso pecado de violência e indiferença ao sofrimento humano. O relato mais que factual sobre o nascimento do menino chamado de o “príncipe da paz”, no meu “ver à luz” da metáfora, é um lembrete de que eu – enquanto discípulo professo daquele personagem – não posso aceitar que outros seres humanos sejam tratados indignamente. Afinal, como diriam as palavras atribuídas àquele mesmo menino, já como adulto, “todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram” (Mateus 25:40).

Assim, ser envolto pela melodia narrativa do Natal é ser relembrado da visão de “shalom”/”salam” presente nas Escrituras. A visão de um menino que vem à terra como o “Deus conosco” e mostra que todos os seus “irmãos” são também “Deus conosco”, e que devemos tratá-los como trataríamos aquele que chamamos de nosso “Salvador”.

As celebrações desta noite são, para mim, um lembrete desta tarefa sagrada que nos foi imposta por nosso Profeta, Mestre, Messias, Senhor – sim, Jesus de Nazaré, chamado de Cristo. Esse é um dos mais importantes sentidos que encontro na narrativa natalina: um convite à “divinização” de toda a vida, de toda a humanidade, de toda a Criação – um lembrete de que Deus se faz presente em minha vida por meio de outras pessoas, de que suas faces são um reflexo da Presença divina e daquele que seria chamado de “Filho do homem”.

Minha sincera oração é que todos nós que professamos ser discípulos de Jesus Cristo tenhamos a ousadia de fazer ao nosso próximo o que faríamos a ele próprio. Que nos levantemos contra a violência, o descaso, a indiferença, o egoísmo e entremos naquela dança divina à qual somos convidados pelos cânticos natalinos. Como dizem as palavras daquela Oração de Despedida:

Cristo nasce em nós quando abrimos nossos corações à inocência e ao amor. Cristo vive em nós quando caminhamos a senda do perdão, reconciliação e compaixão. Cristo morre em nós quando nos rendemos à nossa própria arrogância, egoísmo e ódio. Cristo ressuscita em nós quando nossas almas se despertam da morte espiritual para se unirem à comunidade de amor, para entrar no reino divino aqui mesmo neste mundo. […]”

Feliz Natal a todos. Que a metáfora da narrativa natalina possa ajudar-nos a abrirmos nossos corações e a caminharmos a senda de Jesus.

+Gibson


Referência:

BORG, Marcus J. Reading the Bible again for the first time. Nova York: HarperCollins, 2001.


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Deus, criacionismo e outras polêmicas: uma resposta a provocações recentes – Parte 1



Pensar sobre Deus não é um substituto para a experiência com Deus, e falar sobre Deus não é um substituto para o oferecimento às pessoas de maneiras de experimentar Deus. (Matthew Fox)


Recentemente, tenho recebido, como resposta à prédica “Por que ‘Deus’ não é Deus?”, centenas de mensagens, tanto de pessoas que estavam presentes ao evento quanto de pessoas que simplesmente reagiram ao título (sem, de fato, terem ouvido uma única palavra do que disse). Aqui, tentarei responder, brevemente, a algumas daquelas provocações.


Deus” não é Deus

Tenho repetidamente dito que há, para mim, uma diferença entre a “realidade” e os conceitos que construímos ou abraçamos acerca dela. As generalizações que servem de base para a construção de nossos conceitos não dão conta do todo da realidade que observamos. Assim, quando identificamos uma pessoa, por exemplo, como “religiosa”, tendemos a atribuir a essa pessoa características gerais que imaginamos serem necessárias para que alguém seja “religiosa”. O termo “religiosa”, desta forma, se torna uma etiqueta que desconsidera as possibilidades de variação, que ignora a complexidade da experiência humana. A generalização é tornada um esteriótipo.

Nas teologias das diferentes tradições de fé, “Deus” é uma dessas generalizações. Especialmente no Cristianismo – assim como, talvez em menor grau, em outras tradições jordânicas, como o Judaísmo e o Islã –, há uma preocupação sistemática com a definição da deidade. Assim, no bojo da diversidade da teologia cristã, há diferentes visões teontológicas (i.e., sobre Deus) que, de acordo com o teólogo católico Peter C. Phan, giram em torno da doutrina da Trindade – algumas favoravelmente, outras contrariamente.

O ponto sobre o qual tenho sempre argumentado é que essas noções, doutrinas ou dogmas – ou seja lá como as chamemos – são construções históricas e, como tal, estão socioculturalmente condicionadas. Elas são diferentes da “realidade” que observamos. Assim, “Deus” enquanto noção teológica, enquanto nome, é diferente de Deus enquanto “Realidade”. É nesse sentido que “Deus” (noção) não é Deus (Realidade). O conceito não passa de uma redução instrumental. Ou, como escreveu Gregório de Nissa:


Qualquer um que tente descrever a Luz inefável com a língua é verdadeiramente um mentiroso; não porque odeie a verdade, mas por causa da inadequação de sua descrição.”


Nossas narrativas, metáforas e crenças religiosas são verdadeiras apenas por conta de sua historicidade. Ou seja, elas são verdadeiras apenas em relação às experiências que um indivíduo ou um grupo tem da/com a realidade. Por isso a “verdade” (enquanto conjunto de noções) é relativa: ela se relaciona com a forma como nos relacionamos com o mundo, e essa relação/experiência serve de filtro para a compreensão que construímos da realidade. Assim, nossas compreensões não são produto apenas de nossa razão, assim como também não são produto apenas de nossas experiências, elas resultam da interação entre ambos.

As compreensões que temos de Deus são moldadas conjuntamente pelas ideias que abraçamos e pelas experiências que temos. Mesmo quando alguém pensa que crê apenas no que as Escrituras de sua tradição ensinam, sua “leitura” (a compreensão que constrói) é condicionada por sua experiência de vida (seu background sociocultural, sua história familiar etc). É a isso que os termos “historicidade” e “relatividade” se referem, em meu discurso.

É isso que está “por trás” daquele título!


Os três Cs: Cristianismo, criacionismo, ciência

Nunca existiu e não existe um Cristianismo único, estático, a-histórico. Como bem escreveu o filósofo e historiador unitarista Arthur O. Lovejoy, “...pessoas que igualmente professaram o Cristianismo e chamaram a si mesmas de cristãs mantiveram, no curso da história, toda espécie de crenças distintas e conflitantes agrupadas sob esse nome...”. Assim, não é possível falar no Cristianismo como se fosse uma “verdade” unívoca e imutável. Ele não é, nunca foi e, provavelmente, nunca será.

O Cristianismo não é a religião professada por Jesus de Nazaré – ele era judeu! – e não é a religião de Deus! O Cristianismo é, antes, a resposta que nós cristãos damos à nossa experiência espiritual filtrada pela ótica de nossa herança sociocultural. Enquanto artefato humano, uma religião diz muito mais sobre seus adeptos do que sobre a divindade que dizem honrar. Não seria diferente com o Cristianismo! O Cristianismo somos nós que o professamos, e não Jesus ou Deus!

Não há nada de essencialmente anticientífico no Cristianismo. Também não há nada de científico na fé cristã. No mundo moderno, fé religiosa e ciência expressam preocupações para com dimensões distintas da realidade. A dimensão misteriosa – aquela que diz respeito àquilo que se encontra além do que pode ser objetivado, mensurado – é o objeto da fé religiosa. A dimensão objetiva – que diz respeito a tudo o que pode ser mensurado, analisado por meio de instrumentos científicos – é o objeto da ciência. O suposto conflito entre religião e ciência, enquanto tais, não passa de mito – mito que serve como instrumento para as intenções de certos indivíduos ou grupos.

O Cristianismo não prega o criacionismo. O Cristianismo ensina acerca da criação. Criação e criacionismo não são a mesma coisa. O criacionismo surgiu como uma tentativa, por parte de adeptos do fundamentalismo protestante, de cientificar uma crença tradicional pré-evolucionista.

Para responder diretamente a uma das questões que me foram feitas: Bíblia e Cristianismo não são a mesma coisa. Você teria de desconhecer a história do Cristianismo para imaginar que o mesmo se baseie unicamente nos textos da Bíblia. A maioria das tradições cristãs reconhecem que a própria Bíblia, originalmente, emergiu como um produto da “Tradição” (e não o contrário), e que essa Tradição foi posteriormente instruída pela autoridade bíblica.

Mas mesmo que se pense que a Bíblia seja a única fonte doutrinária cristã (o que não é o caso para as tradições católica romana, ortodoxa, anglicana, luterana, metodista, unitarista e outras), ela não ensina aquilo que ficou conhecido como “criacionismo”! A narrativa da criação, na Bíblia, não é uma teoria científica – até porque os autores daquela coleção de textos não expressavam a mesma preocupação com explicações objetivas das origens do Universo e da vida que nós temos atualmente.

As origens do criacionismo se encontram em outro lugar. Para compreendê-lo, temos de revisitar as origens do “Movimento Fundamentalista”. E faremos isso na segunda parte deste texto.

Até breve!

+Gibson da Costa

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Seção 165 de Doutrina e Convênios - Comunidade de Cristo


Na Conferência Geral de junho de 2016, da Comunidade de Cristo, foi aprovada a inclusão das Palavras de Conselho – apresentadas pelo Presidente Stephen M. Veazey à igreja, na Conferência Geral de 2013 – em Doutrina e Convênios, como seção 165. Como uma seção de Doutrina e Convênios, aqueles conselhos do Presidente Veazey passam a ser aceitos como parte das Escrituras canônicas na Comunidade de Cristo. Abaixo, ofereço uma tradução livre e não autorizada ao português da (nova) seção 165 de Doutrina e Convênios, da Comunidade de Cristo – é importante ressaltar, especialmente para meus amigos de outros grupos da “Restauração”, que trata-se da versão de Doutrina e Convênios da Comunidade de Cristo, sediada em Independence (não se refere a “A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias”, cujos membros são conhecidos como “mórmons”).

+Gibson


Doutrina e Convênios 165

Durante três anos a igreja estudou, em espírito de oração, as palavras de conselho dadas em 2013. O Espírito Santo confirma que a igreja seria abençoada ao considerar este conselho para sua inclusão em Doutrina e Pactos. Este documento é humildemente oferecido para esse propósito como expressão de nosso apreciado princípio de Revelação Contínua.

Enquanto preparava o documento final, me mantive aberto a mais direcionamento divino que pudesse melhorar a compreensão da igreja agora ou no futuro. O direcionamento aperfeiçoou algumas frases. Em vários casos, também adicionou conteúdos por razões conhecidas por Deus.
Também considerei, em espírito de oração, que porções das palavras de conselho se aplicavam especificamente a quando foram dadas e que não necessariamente precisavam estar em Doutrinas e Convênios.

O testemunho que ofereço é a certeza de que Deus, o Eterno, amorosa e pacientemente guia a igreja de acordo com os propósitos divinos. Sejamos gratos for seu direcionamento. Que possa servir como uma senda de luz e de esperança para todos os que buscam seguir a vontade de Deus.



Aos conselhos, quóruns e ordens, à Conferência Mundial, e à igreja:

1 a. Comunidade de Cristo, uma visão divina é posta diante de vocês. Apresentada ao longo dos anos por meio de várias frases e símbolos inspirados, é expressa agora através de iniciativas em harmonia com a missão de Jesus Cristo.
b. Como um empreendimento espiritual, sigam audazmente as iniciativas rumo ao cerne da visão de Deus para a igreja e para a criação. Então, em resposta à percepção cada vez maior sobre a natureza e a vontade de Deus, continuem a moldar comunidades que vivem o amor e a missão de Cristo.
c. Amorosamente convidem outros a experienciarem as boas novas de nova vida em comunidade com Cristo. As oportunidades abundam em suas vidas cotidianas, se vocês escolherem vê-las.
d. Empreendam ações compassivas e justas para abolir a pobreza e terminar com o sofrimento desnecessário. Busquem a paz na e para a Terra.
e. Não permitam que nada lhes separe dessa missão. Ela revela a intenção divina para a salvação pessoal, social e ambiental; uma plenitude de testemunho do evangelho para a restauração da criação.
f. Continuem a aliar suas prioridades aos esforços locais e mundiais da igreja para impulsionar as iniciativas. Abordagens inovadoras adicionais para coordenar a vida congregacional e para apoiar grupos de discípulos e buscadores são necessárias para lidar com oportunidades de missão num mundo de mudanças.

2 a. Liberem a plena capacidade da missão de Cristo por meio da generosidade que imita a generosidade de Deus.
b. Escutem os testemunhos daqueles que respondem generosamente. Sigam o anelo de sua alma para retornar à graça e generosidade de Deus. Deixem que a gratidão lhes mostre o caminho.
c. Lembrem-se, um princípio básico do discipulado é cultivar a missão de Cristo por meio dos dízimos para a missão local e mundial de acordo com a capacidade real. Doar a outras organizações meritosas, mesmo sendo uma parte importante de Uma Resposta Generosa do Discípulo, não deve diminuir ou substituir os dízimos de missão.
d. Dizimar é uma prática espiritual que demonstra o desejo de oferecer cada dimensão de sua vida a Deus. Quando definida pela fé, pelo amor e pelo planejamento esperançoso, incluindo a resolução do endividamento imprudente, a capacidade para responder torna-se muito maior do que se supunha inicialmente.
e. A mordomia como resposta ao ministério de Cristo é mais do que a doação individual. Inclui a generosidade de congregações e jurisdições que doam aos ministérios mundiais da igreja para fortalecer a comunidade em Cristo, em todas as nações.
f. Compartilhar para o bem comum é o espírito de Sião.

3 a. Encarnem mais plenamente sua unidade e igualdade em Jesus Cristo. A unidade e a igualdade em Jesus Cristo são alcançadas por meio das águas do batismo, da confirmação pelo Espírito Santo, e são sustentadas através do sacramento da Comunhão. Abracem o significado pleno desses sacramentos e estejam espiritualmente unidos em Cristo como nunca antes.
b. Entretanto, não é correto professar unidade e igualdade em Cristo através das alianças sacramentais e, então, negá-las por meio de palavras ou ações. Tal comportamento fere o corpo de Cristo e nega o que eternamente se resolve na vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo.
c. Vocês não entendem plenamente muitos processos inter-relacionados da criação humana. Através de sua maravilhosa complexidade, a criação produz diversidade e ordem.
d. Não se consumam com preocupação sobre a variedade em tipos e características humanos ao vê-los. Estejam apaixonadamente preocupados com a formação de comunidades inclusivas de amor, unidade e igualdade que revelem a natureza divina.
e. Unidade e igualdade em Cristo não significam uniformidade. Significam Unidade na Diversidade e relacionar-se em amor como o de Cristo às circunstâncias dos outros como se fossem as suas próprias. Também significam uma oportunidade plena para as pessoas experienciarem o valor humano e direitos relacionados, incluindo a expressão dos dons dados por Deus na igreja e na sociedade.

4 a. Sobre o sacerdócio, Deus chama a quem Deus chama dentre discípulos comprometidos, de acordo com seus dons, para servir e alcançar a toda a humanidade.
b. As políticas do sacerdócio desenvolvidas através de sabedoria e inspiração proporcionam uma maneira clara para que os discípulos respondam ao chamado. Também definem a diferença entre a percepção dum chamado potencial e a necessidade de alinhar a própria vida aos princípios de comportamento e relacionamentos morais que promovam o bem-estar da comunidade da igreja.

5 a. Crescimento e orientação espirituais enriquecem o envolvimento na missão de Cristo. O evangelista presidente e a Ordem dos Evangelistas, com seus colegas no ministério, devem concentrar-se na formação espiritual de comunidades de discípulos e buscadores que vivem, profunda e generosamente, no Espírito de Cristo.
b. Deem o sacramento da benção evangelista não apenas a indivíduos e congregações, mas a famílias, lares e grupos em busca de orientação espiritual para darem-se mais completamente à missão de Cristo. Nada nestas instruções deve ser interpretado como uma diminuição da importância do sacramento da benção evangelista para os indivíduos.

6 a. Amada Comunidade de Cristo, não apenas falem e cantem de Sião. Vivam, amem e partilhem como Sião: aqueles que se esforçam para ser visivelmente um em Cristo, entre os quais não há pobres nem oprimidos.
b. Como corpo de Cristo, carreguem amorosa e pacientemente o peso da crítica daqueles que hesitam em responder à visão divina de valor e igualdade humana em Cristo. Este peso e benção é de vocês por propósitos divinos.
c. E, sempre se lembrem, o caminho do amor sofredor que leva à cruz também leva à ressurreição e vida eterna na comunidade eterna de unidade e paz de Cristo. Confiem nesta promessa.

Stephen M. Veazey
Presidente da Igreja

sexta-feira, 4 de março de 2016

Escrituras Sagradas: uma resposta a algumas perguntas levantadas por um amigo ao meu sermão de 28 de fevereiro


Permita-me iniciar dizendo que é necessário, muitas vezes, fazer um exercício de mudança de perspectiva para que possamos construir uma compreensão das crenças de outras pessoas – isto é, quando saímos de nossa própria posição e nos esforçamos para observar algo a partir da posição de outra pessoa, podemos compreender melhor sua visão. Quando, por exemplo, disse o que disse sobre o tema em discussão, estava apenas demonstrando minha compreensão de que minha própria perspectiva não é a única possível – afinal, não posso esperar que todas as pessoas pensem da mesma forma que eu, seja sobre religião, seja sobre qualquer outro assunto.

Interpretar as Escrituras de forma metafórica não é “equivalente a se afastar da Tradição cristã”. A visão de que as Escrituras devam ser interpretadas literalmente por terem sido factualmente ditadas por Deus e por serem sinônimo de “história factual” é uma compreensão moderna tanto de “inspiração” quanto de “história”; uma compreensão que emergiu como resposta ao chamado “Iluminismo”. Assim, é essa visão que se afasta da Tradição, quando abandona a possibilidade de interpretações metafóricas dos textos sagrados, engessando, assim, o sentido do texto a uma interpretação rígida – e não o contrário.

Mas já tratei tanto disso tanto na igreja quanto aqui, que seria repetitivo se abordasse a mesma questão mais uma vez. Contudo, posso explicitar mais diretamente minha visão teológica pessoal sobre “Escrituras”, no contexto da discussão sobre canonicidade que abordei naquele sermão.

Como já deve ser bem conhecido, não compreendo a sacralidade/canonicidade das Escrituras como decorrente duma origem divina, mas, sim, como decorrente dum processo humano de legitimidade da Tradição – visão essa, a propósito, que é dominante em nossa comunidade de fé. Assim, a “Bíblia” não é texto sagrado porque suas palavras foram ditadas por Deus a profetas, mas, antes, porque aqueles conjuntos de textos passaram por um processo de “canonização”/”sacralização por parte das comunidades que os aceitaram como texto sagrado.

Esse mesmo processo esteve presente não apenas nas comunidades [proto-]ortodoxas judaicas e cristãs que proclamaram a Bíblia como Escritura. Processos semelhantes também marcaram a origem de textos sagrados de outras tradições de fé, como o [Al]Corão, o Livro de Mórmon, e Doutrina e Convênios – que foram os textos sobre os quais discuti em meu sermão –, assim como os textos sagrados de outras tradições que não abordei. Assim, esses textos são, sim, sagrados; são, sim, Escrituras. Podem não ser Escrituras sagradas para você ou para mim, mas o são para os adeptos das tradições que os consideram sagrados – e isso é suficiente para que eu me refira a eles como “sagrados”.

A Bíblia é, para minha própria compreensão e experiência de fé, um conjunto de textos sagrados. Apesar de não compreendê-la, necessariamente, como relato factual nem da história humana nem divina, ela é a base de minha compreensão de fé. E isso ocorre porque minha fé – uma expressão do(s) Cristianismo(s) – é uma fé “do Livro” (como, a propósito, a ela se refere a tradição islâmica). Isto é, o(s) Cristianismo(s), assim como o(s) Judaísmo(s) e o(s) Islã(s), é uma tradição construído ao redor de textos religiosos que foram sacralizados pela comunidade de fé.

Assim, aqueles textos que abordei em meu sermão – o Livro de Mórmon, Doutrina e Convênios (ambos, como editados pela Comunidade de Cristo); e o [Al]Corão – são Escritura Sagrada, apesar de eu não acreditar que tenham uma origem factualmente divina, se por isso quiser dizer que foram ditados por Deus a seres humanos ou que tenham caído miraculosamente do céu, ou que anjos os tenham depositado em mãos humanas. Também não acredito nisso no que concerne à Bíblia!... Isso, porém, não muda em nada seu status canônico para aqueles que os aceitam como Escritura – não muda, pelo menos, minha aceitação da Bíblia como Escritura Sagrada. Para entender minha posição, você só precisa se lembrar de onde emerge a “sacralidade”, em minha compreensão: da Tradição construída, vivida e transmitida pelo corpo de fiéis – isto é, para mim, a fé religiosa tem uma história; ela é a resposta humana ao seu encontro com o Divino. As Escrituras são a resposta dada por diferentes autores, em diferentes lugares, em diferentes línguas, a partir de diferentes experiências culturais e espirituais ao Mistério que eu chamo de Deus.

Reconhecer e considerar como legítimas as experiências e perspectivas de outras tradições não diminui minha crença em minha própria fé. O que faz é ampliar minha compreensão tanto da humanidade quanto da Divindade. Obviamente, ainda discordo das compreensões de fé que colidem com as minhas próprias – e continuarei a criticá-las, se necessário –, mas isso não significa que me recusarei a reconhecer a “verdade” quando ouvi-la a partir da voz de outra tradição. É uma questão tanto de maturidade quanto de integridade intelectual.

Grande abraço!

+Gibson

sábado, 26 de dezembro de 2015

Um breve resgate da origem judaica do Natal: O mito natalino para um ministro cristão unitarista



[NOTA: Os termos e/ou trechos em grego e hebraico, ao longo do texto, são apenas transliterações.]

Começo com uma afirmação básica necessária: pouquíssimos estudiosos sérios questionam a existência de Jesus como um personagem real da história. São numerosas as fontes romanas, judaicas e cristãs sobre Jesus. Elas, obviamente, afirmam opiniões diversas a seu respeito, mas são aceitas como evidências suficientes de sua historicidade.

Quando Yeshua – o nome de Jesus em sua provável língua nativa, o aramaico (apesar de nenhum dos evangelhos explicitarem a língua falada por Jesus, pouquíssimas pessoas, além da elite dos escribas, podiam, àquela época, falar, ler ou escrever o hebraico bíblico; e os galileus falavam aramaico, não hebraico) – nasceu, seus conterrâneos viviam sob a tirania de conquistadores estrangeiros e sob o que entendiam como uma ameaça à sua identidade israelita advinda da assimilação cultural (uma ameaça recorrente à ideia duma identidade israelita ou judaica). A identidade israelita de seu povo enraizava-se na terra e no “mito” duma aliança que tornara aquela terra sua. Essa aliança mitológica era o escudo e a resistência que aquele povo tinha contra as forças imperiais romanas – uma fortaleza cultural que permaneceu de pé, mesmo depois de todas as instituições políticas e militares de Israel terem sido derrotadas.

A mitológica aliança que ligava aquele povo à sua terra emergira da compreensão que tinha das tradições israelitas. Essa compreensão advinha não do texto escrito da Torá e dos Profetas em hebraico – que pouquíssimos eram capazes de ler, de qualquer forma –, mas de seu “targum” oral. Um “targum” era uma tradução oral do texto das Escrituras que era memorizada e enriquecida por comentários, e recitada pelo “targeman” da comunidade. Essa recitação interpretativa das Escrituras contextualizava a tradição espiritual israelita para as circunstâncias de seu tempo, fazendo um amplo uso de leituras metafóricas. Dentre as muitas imagens enfatizadas por essa tradição interpretativa estava aquela do “Reino/Domínio de Deus” [basileia tou theou, no grego do Novo Testamento], que sobrepujaria todas as outras formas de reino ou domínio humano – uma forma de resistência poderosa para um povo que vivia sob o domínio estrangeiro.

Foi nesse contexto sociocultural que Miriam (Maria, em aramaico) e Yosef (José, em aramaico) conceberam a Yeshua (Jesus).

O texto grego de Mateus afirma:


tou de iesou christou he gennesis houtos en mnesteutheises gar tes metros autou marias to ioseph prin e sunelthein authos heurethe en gastri echousa ek pneumatos hagiou.” [A origem de Jesus, o ungido, foi assim: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José, e, antes de viverem juntos, ela ficou grávida por ação do Espírito Santo.] (Mateus 1:18)


O mito que envolve a narrativa natalina pode obscurecer o sentido histórico das palavras acima, extraídas do Evangelho de Mateus (“...antes de viverem juntos, ela ficou grávida por ação do Espírito Santo”). Em nossa cultura, afinal, a maioria de nós foi condicionada a interpretar aquelas palavras com base nos dogmas da Encarnação e da Trindade desenvolvidos posteriormente. Mas a tradição presente nos diferentes Evangelhos testifica sobre a recorrente acusação de que Jesus fora concebido de forma supostamente ilícita. Em sua vila de origem, de acordo com o autor do Evangelho de Marcos, ela era conhecido não como filho de José, mas como “o filho de Maria” [ho huios marias] (Marcos 6:3) – o que, se factual, seria uma evidência de seu status de ilegitimidade, já que as noções de “encarnação” e “trindade” ainda não haviam sido desenvolvidas. Mesmo longe de sua vila de origem, por exemplo, quando já era um rabino conhecido, Jesus foi ridicularizado, em Jerusalém, por haver nascido como fruto de “porneias” [fornicação] (João 8:41). Os séculos de dogmas acerca duma concepção e nascimento miraculosos obscureceriam dois pontos importantes sobre a narrativa que temos sobre Jesus: 1) Por que Jesus era insultado por supostamente ser filho ilegítimo?; e, 2) Por que se desenvolveu a narrativa de que teria nascido duma mãe virgem?

Aquela pequena frase em Mateus 1:18, enfatizada acima, é uma explicação suficiente para as acusações que marcariam a vida de Jesus de que seu nascimento possuía uma origem irregular. Ao mesmo tempo, também é suficiente para explicar a origem da lendária narrativa de que sua origem era miraculosa. Os seguidores posteriores de Jesus usariam a narrativa atribuída a Mateus como base para afirmar que Maria era biologicamente virgem quando do nascimento de seu filho. E por causa disso, em nossa própria época, os leitores teologicamente não ortodoxos podem se sentir tentados a descartar o valor histórico do Evangelho de Mateus. Mas, apesar de o texto daquele Evangelho e de outros estarem repletos de elementos não factuais, ele não pode ser responsabilizado pela leitura mítica que lhe foi imposta após sua escrita.

Um exemplo da compreensão mitológica posterior do texto encontra-se em Mateus 1:23 – “...he parthenos en gastri exei kai texetai huion...” [a solteira na barriga terá e dará à luz filho] –, quando afirma que uma mulher solteira [parthenos] conceberia um filho. Na tradução daquele texto grego à língua latina, no século II, “parhenos” tornou-se “virgo”, e essa tradução posteriormente alimentou a ideia de que Maria teria sido biologicamente virgem quando concebeu e deu à luz a seu filho Jesus. O problema com esse sentido, contudo, é que os termos “parthenos” e “almah” [“mulher jovem” – o termo hebraico que aparece na referência ao texto de Isaías 7:14] não significavam “virgem” como esse termo é utilizado na tradição cristã – na verdade, nem mesmo “virgo” significava isso exclusivamente; a expressão utilizada pelos romanos para “virgem”, no sentido relativo a “castidade”, era “virgo intacta” (por que não foi utilizado na tradução latina da Bíblia?!).

Uma razão que pode ser apontada para o uso de “parthenos” para referir-se a Maria é o fato de o(s) autor(es) de Mateus querer(em) fazer uma ligação entre Jesus e antigas profecias israelitas, para substanciar a afirmação de que ele seria o Messias esperado. Assim, seu passado é ligado ao passado de Israel. Note que sua mãe se chamava Maria [Miriam, em aramaico], e Maria [ou Miriam] era também o nome da irmã de Moisés, que salvou sua identidade israelita e, consequentemente, seu chamado profético (Êxodo 2:1-10), e que também foi chamada de “profetisa” (Êxodo 15:20). Essa Maria, irmã de Moisés, era descrita também como uma “almah” [parthenos, na tradução grega]. Assim, a mãe de Jesus possuía dois traços em comum com a irmã do libertador do povo de Israel, Moisés: o nome e a condição. Se a mais antiga Maria tivera a missão de assegurar que seu irmão manteria sua identidade como um israelita e, consequentemente, se tornaria o libertador de seu povo – sendo ela mesma uma profetisa –, a mãe de Jesus tinha a missão de trazer o Messias (o Cristo) ao mundo... Pequenos detalhes na narrativa que se tornaram essenciais para a forma como a maioria dos cristãos entenderia o Natal, mas aos quais poucos estão atentos!

Obviamente, a forma como a ortodoxia cristã lidou com isso tem muito mais a ver com as influências das ideias greco-romanas no pensamento da Igreja que emergia – pense, por exemplo, nos dogmas da Encarnação e da Trindade – do que propriamente com o que os textos originais das Escrituras ou a tradição judaica tinham a dizer. Assim, ao longo dos séculos, os cristãos não teriam a mínima necessidade de conciliar algumas afirmações feitas sobre Jesus, nos Evangelhos, com o todo da tradição judaica da qual ele era parte. E a ênfase no sobrenatural, no que tange à história de Jesus de Nazaré, pode ter contribuído para que a tradição cristã perdesse contato tanto com a cultura religiosa da qual emergiu quanto com a poderosa mensagem humana presente nos relatos, mesmo que míticos, sobre sua vida.

A questão sobre a concepção de Jesus – quem era seu pai, afinal de contas? – encontra três explicações diferentes no Novo Testamento (e essas podem se entrelaçar, nas mesmas fontes, com explicações conflitantes):

  • 1) Jesus teria sido concebido através da intervenção do “espírito santo” (ainda não necessariamente entendido como uma “pessoa”), por meio dum mecanismo desconhecido. Sua mãe, assim, não tivera relações sexuais com um homem: Lucas 1:34-35 e Mateus 1:18-25.

  • 2) Jesus era, de fato, filho de José: João 1:46; 6:42; Lucas 4:22; Mateus 1:1-17 e Lucas 3:23-38 (genealogias que só poderiam ter sido desenvolvidas com base nessa suposição) – os ajustes em Mateus 1:16 e Lucas 3:23 parecem ser posteriores. A identidade de Jesus como “filho de Davi” – Mateus 1:1; 9:27; 12:23; 15:22; 20:30-31; 21:9, 15; Marcos 10:47-48; Lucas 18:38-39; Romanos 1:3; 2 Timóteo 2:8; Apocalipse 5:5, e 22:16 – implicitamente invoca essa noção, já que apenas José poderia mediar essa linhagem (Mateus 1:20; Lucas 1:27, 32, e 2:4).

  • 3) Jesus foi acusado, por alguns de seus adversários, de ser fruto de “fornicação” [porneia, no texto grego] – João 8:41 –, e tal acusação é frequentemente vista como a base para a omissão de José na identificação de Jesus em Marcos 6:3, como já apontado anteriormente.


Ou seja, os próprios livros do chamado Novo Testamento – quando compreendemos sua historicidade (a forma como foram compostos e, posteriormente, ajustados para conformarem-se à ortodoxia desenvolvida posteriormente) – oferecem uma multiplicidade de pistas sobre o personagem histórico cuja memória nós cristãos, das mais variadas expressões, honramos no Natal. Essa multiplicidade contraditória, dentre tantas outras razões, resulta do simples fato de esses escritos não terem sido compostos como registros históricos como entendemos “História” e/ou “históricos” em nossos dias. As finalidades que tinham e os públicos aos quais se dirigiam não exigiam a noção de “factualidade”.

Mas, além daqueles escritos, podemos também acessar as pistas deixadas por outros textos importantes para entender a cultura religiosa na qual Jesus cresceu. Aquela pequena e simples frase em Mateus 1:18, assim como as expressões utilizadas nos trechos citados de Marcos e João (“filho de Maria” e “fornicação”) como referência a Jesus, pode(m) ser explicada(s) pela tradição talmúdica israelita. Por “talmúdica”, a propósito, quero me referir ao Talmud, um registro de discussões rabínicas acerca da Lei, exegese, costumes, história e tradições judaicas. O Talmud é composto pela Mishnah e pela Guemara e, apesar de os registros escritos mais antigos serem posteriores ao registro dos Evangelhos, aquela tradição da Torá Oral do judaísmo rabínico já existia antes de Jesus – estando presente em trechos dos Evangelhos.

Se voltarmos à tradição de José como originário duma cidade diferente da da jovem Maria (Lucas 2:4-5) – há, hoje, o conhecimento da existência prévia duma Belém na própria Galileia, próximo a Nazaré, mas evitarei entrar nessa questão aqui –, poderemos compreender um pouco da desconfiança sobre a paternidade de Jesus levantada por seus adversários.

Independentemente de quem tenha sido o pai de Jesus, as condições sob as quais foi concebido, de acordo com o(s) autor(es) do Evangelho de Mateus, o tornariam um “mamzer”, alguém gerado através de relacionamentos proibidos (e seus descendentes até a décima geração) pela lei judaica. A não ser que Maria pudesse apresentar testemunhas de que o pai de seu filho era um parceiro lícito, de acordo com a lei, se consideraria que o pai de sua criança era um “mamzer”, um filho de “mamzer” ou outro tipo de pessoa proibida, o que automaticamente também tornaria Jesus um “mamzer” (Mishnah Ketubot 1:8-9). E isso ocorreria tanto se José fosse o pai – já que, de acordo com o(s) autor(es) de Lucas, ele vinha de outra região e, assim, não poderia haver uma testemunha confiável de sua licitude como não “mamzer” para a comunidade de Maria –, quanto, e especialmente, se o “Espírito Santo” fosse o pai de Jesus – já que não poderia haver uma testemunha da licitude dessa paternidade!

Encontrar uma tradução apropriada para o termo “mamzer”, em português, é difícil. Algumas vezes, utiliza-se “ilícito” ou “ilegítimo(a)”, mas deve-se ter em mente que o termo hebraico não se refere a uma criança nascida fora do casamento – refere-se ao fruto duma relação sexual com a pessoa errada. As relações sexuais entre pessoas não casadas, a propósito, eram toleradas, e não afetavam o status da criança – só afetariam se um dos parceiros fosse “ilícito”. Muitas traduções, em português, da primeira referência ao “mamzerut” (a condição de um[a] “mamzer”) na lei judaica, traduzem “mamzer” como “bastardo”:


Não entrará bastardo na congregação do Eterno, nem ainda a décima geração dele não entrará na congregação do Eterno. [Deuteronômio 23:3 – da tradução da Editora Sêfer]


O Talmud esclarece que essa proibição de entrada na congregação significa a proibição de casamento com um[a] israelita. Os filhos duma união sexual entre um “mamzer” e uma mulher israelita estariam, igualmente, proibidos de se unirem a mulheres israelitas. No caso específico de Jesus, a ausência de provas de que era filho de um pai lícito – fosse seu pai divino ou um forasteiro na Galileia sem referências – o tornava um “mamzer”. O que significaria que, além de ser proibido de unir-se licitamente a uma mulher israelita, estava condenado a não ter voz na comunidade. [Você poderia me questionar sobre que garantias teríamos que José, por exemplo, não teria testemunhas reconhecidas de sua licitude para unir-se a Maria. Realmente não temos. Mas as evidências nos textos apontam para o fato de que Jesus foi acusado de “mamzerut” por seus adversários – e isso, se considerarmos o testemunho dos textos evangélicos, seria uma evidência de que haveria rumores a seu respeito!]

Olhar para os relatos da vida e dos ensinamentos de Jesus considerando as diferentes possibilidades permitidas pelos textos sagrados, cotejados com outras fontes do mesmo contexto sociocultural, pode parecer simples especulação para aqueles que abraçam o mito natalino como um relato factual. Mas, para mim, abre outras portas para compreender a tradição cristã. Ajuda-me, por exemplo, a compreender melhor a ênfase na visão de Deus como “paizinho” com o qual se pode manter relação pessoal – se Jesus foi um mamzer, e sofreu discriminação por isso, seu suposto uso do termo “Abba” para referir-se a Deus teria um impacto muito maior; suas fábulas sobre crianças teriam um peso muito mais profundo.

Assim, em minha experiência espiritual, humanizar Jesus, por meio da análise de possibilidades históricas, não equivale a diminuir sua importância. Muito pelo contrário. Significa alargar o sentido da tradição. Jesus deixa de ser apenas um mito etéreo – o Cristo construído pela ortodoxia –, e se torna o homem real, que iniciou sua vida como “refugiado”, viveu como um “excluído” e, por isso mesmo, sabia do que estava falando!

+Gibson

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

A "Palavra de Deus": uma resposta a Pedro


Caro Pedro,

Você está equivocado quanto à minha compreensão das Escrituras. O problema está na forma como compreendemos certos conceitos que você utilizou. O mais importante deles é o conceito de “Palavra de Deus”. Você, aparentemente, define esse conceito como sendo sinônimo exclusivo de “Bíblia”. Assim, para você, por a Bíblia ser a “Palavra de Deus”, ela teria uma origem divina – de alguma forma, tudo o que esteja escrito naquele conjunto de livros, para você, é originalmente divino. É esse seu sentido de “divindade” original que não abraço. Para mim, a Bíblia é, sim, um conjunto de textos “divinos”, mas não porque os textos tenham sido escritos já como “divinos”. As Escrituras (prefiro chamar a Bíblia de “Escrituras” para reforçar a sua multiplicidade) passaram por um processo de “divinização” – isto é, o texto originariamente humano é reconhecido como “divino” porque, para os ouvintes (a maioria dos primeiros cristãos era de ouvintes, e não de leitores das Escrituras), aquelas palavras os aproximavam do Divino e lhes mostravam o caminho,

Você consegue perceber a diferença em nossa compreensão?

Para mim, a “Palavra de Deus” é Jesus Cristo, e não a Bíblia em si. Obviamente, “Palavra de Deus” é apenas uma metáfora, não uma declaração literal. Por isso, poderia ser aplicada igualmente à Bíblia. Mas eu, pessoalmente, prefiro utilizar a metáfora apenas quando me refiro a Jesus. É por essa razão que você – como me escreveu – possivelmente nunca leu nada que eu tenha escrito se referir à Bíblia como “Palavra de Deus” (bem, você pode nunca ter lido ou ouvido, mas, na verdade, eu já me referi algumas vezes às Escrituras como tal, em contextos muito específicos). A Bíblia não pode dizer ser ela a “Palavra de Deus” por duas razões simples: 1) a Bíblia não diz absolutamente nada, quem diz são seus autores – isso parece ser uma banalidade, mas é essencial para que você desenvolva uma compreensão mais madura de sua leitura; 2) não pode haver uma afirmação na Bíblia de que ela seja a “Palavra de Deus”, no sentido que você dá ao termo, porque os autores da “Bíblia” não sabiam sobre a existência da “Bíblia”! A Bíblia, enquanto livro unitário, no singular, é uma invenção recente. As Escrituras surgiram como um conjunto de textos distintos, escritos em lugares e contextos diversos, por autores diversos, em línguas diversas e até, pelo menos, o século XVI ainda não havia sido estabelecido o cânon definitivo dos livros daquilo que hoje lemos como um livro unitário. E os homens foram não apenas os autores e tradutores dos escritos, mas também aqueles que decidiram quais desses escritos estariam nas traduções que lemos hoje!

E essa é uma das razões mais importantes para que eu não abrace sua perspectiva de origem divina das Escrituras – há muitas outras razões, mas já escrevi sobre elas naqueles textos que você citou em sua mensagem.

Ler é interpretar, e a interpretação é um processo. E nenhum cristão lê a Bíblia por si só – ou seja, o sentido que dá à sua leitura não advém apenas das palavras que encontra impressas sobre as páginas. Todos nós, quando lemos as Escrituras – ou qualquer outro texto escrito –, utilizamos em nossa ação interpretativa as ferramentas que encontramos em nosso próprio “universo cultural”. Dentre essas ferramentas estão os conceitos que já internalizamos – voluntária ou involuntariamente – sobre, por exemplo, Deus, Jesus Cristo, a humanidade, a vida, a morte etc. Assim, um católico romano, um luterano, um presbiteriano, um unitarista, um santo dos últimos dias, ou um pentecostal, podem ler a mesma porção dum texto bíblico e compreendê-lo de formas diferentes e, muitas vezes, conflitantes.

Essa noção de que as Escrituras são interpretadas, ao menos parcialmente, com base naquilo que trazemos em nossa visão de mundo, obviamente, não é geralmente aceita por aqueles que acreditam na Bíblia como tendo uma origem literalmente divina. É por essa razão que, para eles, há apenas uma interpretação válida da coleção de livros que chamamos de Bíblia – e que alguns tratam como se fora um único livro, com uma única mensagem, com uma única intenção, com uma única origem.

A multiplicidade de fontes para a ação de interpretar as Escrituras inclui o próprio texto, a tradição, a razão, e ação divina. Isto é, a maioria das tradições teológicas cristãs reconhece que há no processo de engajamento com o texto bíblico uma multiplicidade de relações. Mesmo você reconheceu isso, quando escreveu sobre a ação do Espírito Santo.

O relato que você me fez de sua experiência de “conversão” já me dá pistas sobre a origem de sua compreensão sobre a Bíblia. Se você fosse um católico romano ou um luterano, por exemplo, suas perguntas seriam diferentes e, possivelmente, as respostas às quais chegaria também seriam diferentes daquelas que abraça hoje. Da mesma forma, eu também tenho perguntas que são muito diferentes das suas quando leio as Escrituras, e, provavelmente, chego a conclusões bem diferentes das suas.

Para mim, isso não significa que você esteja essencialmente errado e eu esteja essencialmente certo em termos das questões levantadas e das conclusões às quais chegamos. Significa, apenas, que partimos de lugares diferentes; lugares que não são melhores ou piores que o do outro, são apenas diferentes. O esforço que eu, pessoalmente, faço, tanto em minha vida ministerial quanto devocional, é tentar entender o lugar de onde as outras pessoas partem. E posso garantir a você que, quando fazemos isso, nós aprendemos que é possível viver com a diferença. É só tentar mudar um pouco a perspectiva e se colocar no lugar do outro – especialmente quando esse outro busca a mesma coisa que você.

Grande abraço!

+Gibson

sábado, 15 de agosto de 2015

O(s) Cristianismo(s) e a contextualização da “verdade”


Se vocês guardarem a minha palavra, vocês de fato serão meus discípulos; conhecerão a verdade, e a verdade libertará vocês.
(João 8:32)



Ao longo de minha vida ministerial e acadêmica, tenho tido o desprazer de lidar com visões deveras estereotipadas do(s) Cristianismo(s). Visões essas que são professadas não apenas por pessoas com baixo nível de instrução escolar formal – que, aparentemente, tendem a abraçar formas mais “estritas” de crenças e práticas religiosas –, mas também por aquelas que, num outro extremo, possuem um alto nível de instrução formal – especialmente aquelas que abraçam formas mais “estritas” duma mentalidade contrária à religião institucionalizada (para os quais, geralmente, o[s] Cristianismo[s] seria[m] o[s] modelo[s] paradigmático[s]).

Obviamente, para mim, há um grande problema com as visões “estritas” de seja lá o que for (especialmente no que tange à fé), porque elas são – na maioria das vezes – contextualmente “desinformadas”.

Compreendo o(s) Cristianismo(s) como um diálogo incessante entre a “tradição” que recebemos do passado e o nosso “contexto” presente (o nosso “hoje”). Os Cristianismos – sim, o Cristianismo é plural demais para que eu utilize um substantivo singular para me referir a ele –, enquanto conjuntos de compreensões, de práticas, de esperanças, e de pessoas, sempre foram esse “diálogo” – para o bem ou para o mal. Assim, ao longo dos séculos, a “tradição” é reformulada para ser capaz de conversar com a experiência do fiel.

Alguns dirão que essa “reformulação” é um abandono daquilo que consideram ser “a verdade”. Isso ocorre, em parte, porque compreendem “a verdade” como uma “substância” mensurável, como algo que pode ser congelado ou petrificado no tempo. Como algo fundamentalmente distinto dos contextos dos quais emerge. Os que pensam assim, obviamente, desconsideram que sua própria visão é uma “reformulação” da herança do passado.

Quando olho para a história do pensamento cristão, isto é, para a forma como as doutrinas cristãs foram (re)formuladas ao longo dos séculos – área na qual me ocupo em minhas atividades teológicas –, esse diálogo entre “tradição” e “contexto”, entre passado e presente, se torna muito claro. E se torna claro, também, que é insensato e contraditório afirmar que a “verdade” teológica seja algo petrificado e imutável.

Quando falo em “verdade”, aqui, me refiro tanto à nossa compreensão teológica quanto à forma como a articulamos em nossas atividades discursivas. A “verdade”, aqui, não inclui o objeto final ou material de nossas reflexões. Assim, toda a Igreja – me refiro não a uma instituição, mas a todas as pessoas que professam a fé cristã – professa fé em Deus e, por isso, Deus é uma verdade inquestionável para qualquer cristão professo. Essa verdade final, entretanto, não é articulada da mesma forma por todos os cristãos. Variadas tradições cristãs, e incontáveis cristãos individuais, articulam uma compreensão sobre Deus que não são aceitas por outros cristãos – ou seja, a verdade “material” (aquilo/aquele com o qual/quem se ocupa) é a mesma, mas a verdade “conceitual” (o que se pensa sobre a “verdade material”) é distinta, dependendo de uma imensa variedade de circunstâncias. E quem poderá dizer que sua verdade conceitual é a única “verdadeira” e aceitável, se sua verdade material é, para nosso contexto cultural, objetivamente imensurável?

Gosto sempre de citar as palavras do grande pensador unitarista, e fundador do campo da História das Ideias, Arthur Oncken Lovejoy, que escreveu:

[…] pessoas que igualmente professaram o Cristianismo e chamaram a si mesmas de cristãs mantiveram, no curso da história, toda a espécie de crenças distintas e conflitantes agrupadas sob esse nome, mas também que qualquer uma dessas pessoas e seitas mantiveram, via de regra, sob esse nome um conjunto de ideias muito variadas, cuja combinação dentro de um conglomerado que traz um único nome e que se supunha constituir uma unidade real foi em geral o resultado de processos históricos de um gênero altamente complicado e curioso. […] i

Obviamente, aqueles que utilizam a proteção dogmática como justificativa para sua própria compreensão, e como artifício para a reprovação daqueles que abraçam outras compreensões teológicas, dirão que essa diversidade seja fruto de “heresias” ou de “apostasias” – a própria utilização desses termos por alguns deles é problemática, já que é descontextualizada. Eu, por outro lado, as vejo como resultado dos próprios contextos nos quais as diversas visões emergiram.

Pensemos, por exemplo, na Cristologia, que é o campo da Teologia cristã que se ocupa do ser e da obra de Cristo. A maioria dos não cristãos imagina que todos os cristãos sempre tenham professado e que todos professem que Deus seja uma Trindade (como o requer a compreensão ortodoxa a partir do Credo de Niceia) e que, consequentemente, Jesus seja Deus. Para a maioria dos cristãos, Deus realmente é uma Trindade: Pai, Filho, e Espírito Santo. Claramente, entretanto, apenas uma ínfima minoria dos cristãos consegue compreender e explicar exatamente o que isso significa, já que o dogma ortodoxo da Trindade se sustenta sob uma série de compreensões filosóficas e sobre uma linguagem estranhos à maioria das pessoas hoje em dia. Ademais, e mais importante, nem todos os cristãos foram ou são “trinitaristas” – ou seja, nem todos os cristãos professaram ou professam o dogma ortodoxo da Trindade.

Na história da Teologia cristã, Jesus nem sempre foi Deus. Na verdade, com frequência, os cristãos se esquecem – se é que se dão conta disso – que Jesus sequer era “cristão”. Sua compreensão de Deus estava enraizada numa tradição que, em muitos aspectos, contradiria aquela das ortodoxias cristãs (sejam as orientais ou as ocidentais). Jesus, de acordo com os registros dos Evangelhos, jamais afirmou explicitamente ser Deus. E se de fato o tivesse feito, isso teria sido um afastamento incalculável de toda a tradição teológica das Escrituras do povo de Israel. Mas, todo estudioso intelectualmente íntegro saberá, hoje, quando e como Jesus se tornou Deus. As compreensões teológicas cristãs se desenvolveram de acordo com os contextos nos quais se encontravam os que professavam a fé em Cristo. Assim, doutrinas como as da Encarnação e da salvação por meio dum sacrifício expiatório – que são necessárias à noção ortodoxa da Trindade –, por exemplo, emergiram a partir do encontro entre a fé dos primeiros “cristãos” e as filosofias greco-romanas.

O que é importante acentuar, contudo, é que o fato de o dogma teológico ser uma construção humana não o torna inválido ou “não verdade”. Muito pelo contrário. A “verdade” (lembre-se que, aqui, me refiro à verdade enquanto o que se pensa sobre um objeto de reflexão, e não ao objeto em si da reflexão teológica) é uma construção da tradição na qual é (re)formulada. Assim, o que é “verdadeiro” ou “falso” para uma comunidade de fé – ao menos em tradições que enfatizam a comunidade enquanto centro de aprendizado e prática, como a Igreja – é definido por aquela própria comunidade. [Uma perspectiva que não deixa de ser paradoxal para protestantes crescidos em culturas individualistas como as nossas.]

A articulação dos conceitos teológicos cristãos acerca de Jesus Cristo e de sua relação com o todo da fé cristã passou por um processo de construção que durou séculos – e que, na verdade, ainda não acabou, ao menos no que tange a alguns grupos não “ortodoxos”. E, infelizmente, muitas das decisões tomadas sobre quem tinha razão nas disputas teológicas, após o(s) Cristianismo(s) se associar(em) ao poder secular, basearam-se mais na força política do que nos argumentos teológicos.

Dessa longa história advém a projeção inconsciente que fazemos quando lemos os textos bíblicos. Sempre gosto de enfatizar que costumamos projetar sobre os textos que lemos visões de mundo que, em si, não estão necessariamente presentes nesses textos. Como exemplo, sempre utilizo a narrativa sobre Adão e Eva e o “fruto proibido” que, em sua interpretação mais inocente, é identificado como uma “maçã” – apesar de o texto bíblico em si não utilizar o termo. O “fruto” foi frequentemente interpretado como “maçã” por conta do contexto exterior à narrativa bíblica. No caso específico da Cristologia, mesmo aqueles que afirmam basear toda a sua fé na leitura da Bíblia, quando leem o texto sagrado, projetam sobre ele a tradição trinitarista ortodoxa que não está necessariamente presente lá de forma explícita. Inconscientemente, apelam a construções filosóficas para a construção de sua teologia, que são inseparáveis dos contextos nos quais tais construções filosóficas emergiram e das razões e formas pelas quais continuaram a fazer sentido para quem as abraçam hoje.

Se pensássemos sobre outros campos teológicos, como a Eclesiologia, por exemplo, veríamos que as três formas mais comuns de administração/organização eclesiástica na Igreja ocidental – o episcopalismo, o presbiterianismo e o congregacionalismo – também dependem duma série de fatores que condicionam a visão de quem lê o texto bíblico. Ou seja, mais uma vez, projetaremos uma visão de mundo não plenamente presente nos textos sagrados em nossa leitura.

Ou seja, gostemos ou não do termo ou da ideia, nossas compreensões teológicas/religiosas são sempre relativas, porque sempre mantêm uma relação com os contextos nos quais emergiram. Nossas tradições de fé emergem num universo cultural particular e fazem uso da língua e dos símbolos daquele universo, ao mesmo tempo em que subvertem os valores desse universo e que, posteriormente, possam construir um universo à parte.

Como tenho sempre afirmado, estar consciente disso não representa uma ameaça à minha fé pessoal – e não deveria representar uma ameaça à fé de ninguém. Muito frequentemente, minha compreensão tem sido atacada por outros fiéis com perguntas como “Como você decide que partes da Bíblia são verdadeiras?”, ou com afirmações como “Você só escolhe o que lhe é mais conveniente!”. Bem, responder a esse tipo de perguntas ou acusações é problemático pelo simples motivo de se basearam em premissas equivocadas. Posso afirmar o que afirmo e manter minha fé porque ela se assenta sobre uma série de perspectivas que são diferentes daquelas abraçadas pelos autores daqueles questionamentos. Nossas visões de autoria, autoridade, liberdade, consciência, comunidade, individualidade, Divindade, humanidade etc, são distintas e, por essa razão, chegamos a considerações bem diferentes. Ou seja, temos visões relativas da realidade e da Realidade! Isso não nos torna mais ou menos “verdadeiros” em relação uns aos outros – no máximo, nos torna mais ou menos conformistas em relação às nossas próprias tradições de fé particulares.


i LOVEJOY, Arthur O. A grande cadeia do ser: um estudo da história de uma ideia. Tradução Aldo Fernando Barbieri. São Paulo: Editora Palíndromo, 2005. p.16.



+Gibson