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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Sola caritas e o dom de comunidade


O dom da comunidade consiste na absolvição que recebemos pelo pecado de fingir que somos completos sozinhos. Esse fingimento de “autocompletude” é um peso que nossa cultura nos impõe; um fingimento que limita nossa humanidade plena, fazendo-nos tolamente crer que possamos ser plenamente humanos sozinhos.

Na verdade, não podemos.

A plenitude de nossas existências só pode ser realmente realizada quando partilhamos o peso de nossa humanidade com outras pessoas. Esse é o dom e a benção da comunidade. Na linguagem cristã, é o dom e a benção de sermos “igreja” – uma comunidade que se engaja no amor e serviço mútuo, entre seus membros e, consequentemente – e eu diria, metaforicamente –, entre esses e Deus.

Frequentemente me lembro das inúmeras vezes em que esse dom se manifestou de forma explícita em minha vida. Das vezes em que, como forasteiro, fui recebido por comunidades que me ofereceram um lar, tanto físico quanto espiritual. Das vezes em que, como ofensor, fui perdoado pela compaixão ofertada por aqueles que formam e complementam minha humanidade, e que, como eu, embarcam num caminho de descoberta e oferecimento da Presença divina.

Não poderia ter iniciado minha formação humana sem comunidade. Primeiro, minha comunidade familiar. Depois, todas as outras que se juntaram a ela em minha formação como humano: a comunidade de fé, a comunidade de amigos, a comunidade profissional etc. Todas elas sempre foram e sempre serão cúmplices do Mistério na criação inacabada de minha humanidade. Criação que, segundo a tradição cristã, se completa apenas quando “retornamos” àquela Presença que chamamos de Deus – ou seja, quando nos juntamos em comunidade ao Divino, apesar de raramente ser essa a linguagem utilizada para se referir a esse processo “soteriológico”.

Não podemos ser humanos plenos sem comunidade. Mas também não podemos ser cristãos plenos sem comunidade. E isso porque a raiz de ser “cristão” está na ação de ser a materialização da Presença Divina – isto é, ser cristão é ser a face de Deus para os outros humanos e para o resto da Criação, e é ver a face de Deus em todos eles. O autor da carta de Paulo aos romanos, por exemplo, diz:

Abençoem os que perseguem vocês; abençoem e não amaldiçoem. Alegrem-se com os que se alegram, e chorem com os que choram. Vivam em harmonia uns com os outros. Não se deixem levar pela mania de grandeza, mas se afeiçoem às coisas modestas. Não se considerem sábios. Não paguem a ninguém o mal com o mal; a preocupação de vocês seja fazer o bem a todos os homens. Se for possível, no que depende de vocês, vivam em paz com todos. […] Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem.” (Romanos 12:14-18, 21)

São nossas ações, mais do que nossas declarações de crença, que representam nossa fé – para nós mesmos, para nosso próximo, e para Deus.

Comunidade, amor, serviço. Se pudesse redigir uma declaração de minha fé, essas seriam as palavras. Elas não representam o que sou, mas o que tenho recebido de outros e o que almejo praticar em minha vida.

Sola caritas. Só o amor salva. E o amor só pode ser alcançado em comunidade.

+Gibson


sábado, 30 de julho de 2016

Uma breve e respeitável crítica aos “neocatólicos”: resposta a um leitor católico do Ceará


Tenho acompanhado o que alguns sacerdotes e leigos católicos romanos autoidentificados como “conservadores” – seja lá o que essa adjetivação signifique na nova linguagem da teologia política católica da atualidade – têm escrito a respeito de seu líder máximo, o Bispo de Roma – o Papa Francisco –, e confesso que nunca li ou ouvi tantas incoerências. Inúmeras vezes, tenho recebido mensagens de alguns desses “neocatólicos” (sim, o termo é de minha própria autoria e o explicarei em seguida), e sinto-me forçado a dizer-lhes que conhecem muito pouco da tradição que dizem estar defendendo.

Muitos não compreendem o uso que faço dos termos “católico” e “neocatólico” que tenho feito em algumas publicações, discursos e sermões, e por isso vale a pena explicá-los aqui. Como sempre digo, considero-me um “católico” ao mesmo tempo que um “protestante”. “Católico”, assim, possui um sentido aproximado àquele que minhas tradições unitarista, anglicana e luterana o atribuem, e não o sentido que a maioria dos leigos lhe concederia. Em meu caso, chamar-me de “católico” não é o mesmo que dizer que me encontre em comunhão com a Igreja Romana e, consequentemente, com o Bispo de Roma. Quando me identifico como “católico”, quero dizer que subscrevo à da Igreja “católica” (com “c” minúsculo = “universal”, “global”), que compartilho a fé de todos os cristãos de todas as épocas e lugares – note que me referi à “fé”, não necessariamente aos dogmas ou às teologias. É uma declaração pública de meu espírito e intenções ecumênicos.

Já o termo “neocatólico”, utilizo para me referir especialmente àqueles leigos que recentemente se reaproximaram do ou se converteram ao Catolicismo Romano, trazendo consigo uma ideologia política dita “conservadora”. No caso brasileiro, isso parece ser consequência duma (re)descoberta de certos tipos de teorias políticas, envoltas num discurso nacionalista que incentiva o Catolicismo Romano não como uma fé em si, mas, antes, como uma forma de identidade nacional. Como na mentalidade desses neocatólicos o Catolicismo Romano brasileiro teria sido tomado por “comunistas”, para salvá-lo seria necessário um retorno a formas pré-Vaticano II do Catolicismo. Esses neocatólicos contam, muitas vezes, com o direcionamento “espiritual” e “teológico” de sacerdotes cuja reputação nem sempre seria vista com bons olhos pela alta hierarquia da Igreja Romana.

O problema com todos os argumentos desses indivíduos e grupos neocatólicos aos quais tenho tido acesso é o de sua contradição com a base doutrinária do Catolicismo – a base da autoridade da Igreja, cujo líder máximo seria o sumo pontífice, o Papa Francisco. Como esses indivíduos e grupos podem estar “defendendo” – note a escolha de expressões bélicas no vocabulário desse tipo de movimento (defesa, guerra, batalha, luta etc) – o Catolicismo e a Igreja Católica quando incentivam a rebelião e desafiam a autoridade da Igreja na pessoa do Papa? A eles, aparentemente, falta um conhecimento básico de sua própria religião, ou, talvez, falte coragem para fazer o que parecem querer fazer: fundar ou juntar-se a uma Igreja católica independente, e finalmente romperem sua comunhão com o Bispo de Roma!

Permita-me tomar a liberdade aqui para citar um trecho do Catecismo da Igreja Católica, que, de acordo com a Constituição Apostólica Fidei depositum, “é uma exposição da fé da Igreja e da doutrina católica”:

882: O Papa, Bispo de Roma e sucessor de S. Pedro, é o perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade, quer dos Bispos quer da multidão dos fieis. Com efeito, o Pontífice Romano, em virtude do seu múnus de Vigário de Cristo e de Pastor de toda a Igreja, possui na Igreja poder pleno, supremo e universal. E ele pode sempre livremente exercer este seu poder.
[…]
891: Goza desta infalibilidade o Pontífice Romano, chefe do colégio dos Bispos, por força do seu cargo quando, na qualidade de pastor e doutor supremo de todos os fieis, e encarregado de confirmar seus irmãos na fé, proclama, por um ato definitivo, um ponto de doutrina que concerne à fé e aos costumes... A infalibilidade prometida à Igreja reside também no corpo episcopal quando este exerce seu magistério supremo em união com o sucessor de Pedro, sobretudo em um Concílio Ecumênico. Quando, pelo seu Magistério supremo, a Igreja propõe alguma coisa a crer como sendo revelada por Deus e como ensinamento de Cristo, é preciso aderir na obediência da fé a tais definições. Esta infalibilidade tem a mesma extensão que o próprio depósito da Revelação divina.

Assim, olhando para esses trechos, que citam documentos do Vaticano I que tratavam da infalibilidade papal, e que reforçavam a compreensão de autoridade hierárquica da Igreja Romana, e lendo sua reafirmação nesse Catecismo pós-Vaticano II, fica fácil compreender que há algo errado com o discurso desses indivíduos e grupos – considerando que eles dizem estar “defendendo” a fé romana! Se é claro mesmo para mim, que não sou um católico romano, deveria ser óbvio para todos aqueles que o são.

Será que o “erro” estará realmente com o Papa, ou os seus críticos, na própria Igreja Romana, é que estão contradizendo a fé católica e violando a tradição?... Bem, como não sou um sacerdote católico, deixo isso para você decidir. Mas, para refletir a respeito da doutrina católica, considere os documentos da própria Igreja Romana, e converse com seu sacerdote. Se precisar, escreva ao seu Bispo. Tenho certeza que eles estarão dispostos a ajudá-lo com algumas de suas questões.

Grande abraço!

+Gibson

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Deus, Cristianismo, Inferno, Homossexualidade: Uma breve resposta a múltiplas provocações das últimas semanas



Infelizmente, por razões pessoais, tenho tido pouco tempo para responder à maioria das mensagens das últimas semanas. Por essa razão, responderei aqui, de forma breve e conjunta, a algumas das “provocações” de meus correspondentes. Assim que tiver tempo, oferecerei uma resta mais ampla. Perdoem-me pela brevidade.





Deus e Cristianismo



Como um cristão, encontro minha “janela” ou meu “caminho” para Deus na tradição cristã (na comunidade da Igreja, nas Escrituras, na Liturgia, na narrativa cristã, etc). Mas o Cristianismo é a resposta humana à Realidade que chamamos “Deus”, e não o contrário. Eu sou cristão, mas isso não significa que Deus seja cristão!





O Inferno



Não acredito na existência dum lugar objetivo para onde espíritos sejam enviados como condenação por seus pecados. O “inferno”, em minha visão, é uma metáfora para um estado espiritual/mental de alguém. Não se trata dum espaço geográfico no Universo. A crença na existência dum “inferno” físico contradiz minha compreensão acerca do Divino e da natureza do Universo.





Igreja e Homossexualidade



Tenho uma filosofia muito simples para resolver essa questão de compatibilidade: qualquer comunidade de fé é uma sociedade humana, com suas tradições e regras. Se você quiser fazer parte dessa sociedade, terá de se submeter às suas regras. Caso contrário, pode não ser membro de qualquer uma, pode buscar uma outra sociedade ou, quem sabe?, fundar sua própria.



Se uma determinada comunidade de fé ensina que isso ou aquilo é pecaminoso e que a punição pela "desobediência" às regras seja sua exclusão, você tem a escolha de se submeter às regras da mesma ou não – mas não terá poder para escolher as consequências por suas escolhas, no que tange à comunidade em si. Lembre-se que a filiação religiosa é uma associação voluntária, ou seja, ser membro duma comunidade de fé é voluntariamente se submeter às suas regras. Você não pode esperar que uma comunidade mude em função de você se isso contraria à compreensão que ela tem de si mesma. Mas você, por outro lado, pode encontrar uma outra comunidade!... Fazer esse tipo de escolha pode ser complicado e doloroso, mas é uma escolha justa para com os demais membros duma comunidade que não o aceite e íntegra consigo mesmo!





Ainda sobre Homossexualidade



Para mim, as pessoas são “humanas” (e tudo o que isso implica no contexto teológico e sociocultural) antes de serem qualquer outra coisa. As identidades que ou abraçamos ou nos são impostas – sejam as identidades nacionais, religiosas, políticas, ou emotivo-sexuais – são apenas partes dum todo muito maior. Nós somos muito mais do que essas partes separadas – e mais do que sua soma. Assim, tratar de si próprio ou de outra pessoa como se sua orientação emotivo-sexual fosse sua “essência” é negar a si próprio ou a outrem sua humanidade – que, na perspectiva teológica que abraço equivaleria a negar nossa origem na “dança divina” da Criação.





+Gibson

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Cristianismo Progressista? Filosofia de vida? – uma resposta aos ouvintes do “Graçacast #69”


Ontem, recebi uma mensagem duma visitante (Rebeca) que me fazia perguntas com base num podcast que acompanha, no qual os apresentadores tratavam sobre o Movimento Progressista cristão e haviam citado coisas que publiquei aqui. Após ouvir a transmissão, respondo a algumas das provocações da visitante sobre o que disseram no programa. Meus comentários não seguem a mesma ordem seguida no podcast, que dura mais de uma hora.

Devo começar dizendo que os apresentadores têm um programa interessantíssimo, apesar de termos visões de mundo bem distintas e/ou até conflitantes. Soam como pessoas relativamente bem informadas e bem intencionadas, e eu respeito o seu ministério online. Penso que seu esforço é louvável. Entretanto, tenho críticas (negativas) a respeito de muitas de suas colocações nesse podcast específico (#69).

Antes de comentar sobre o que disseram, é bom enfatizar que o risco que qualquer um corre quando não se informa suficientemente sobre um tema antes de tratá-lo publicamente é que acaba criando o deslocamento nocional que, em alguns momentos, criaram no programa. Muitas das afirmações feitas pelos apresentadores do programa são fruto duma falta de pesquisa cuidadosa sobre o tema. Os apresentadores, por exemplo, iniciam o programa citando o trecho duma antiga publicação neste blog, e depois misturam os dados daqui com aqueles de um texto escrito pelo Rev. Hal Taussig, e acabam construindo uma informação equivocada sobre o “Cristianismo Progressista”. Para eles, o movimento progressista parece ser, em alguns momentos, uma denominação protestante e, em outros momentos, um movimento teológico uniforme. Eles não poderiam estar mais equivocados.

Num determinado trecho do podcast, um dos apresentadores se refere ao movimento como se esse fosse uma denominação (ele não usa esse termo), dizendo, inclusive, que a primeira “igreja progressista” teria surgido apenas em 2005. Na verdade, esse título – Cristianismo Progressista – é apenas o nome dado a um movimento organizado, nos Estados Unidos, no TCPC (The Center for Progressive Christianity), que foi fundado em 1996 (mil novecentos e noventa e seis) pelo Rev. James Adams – um sacerdote episcopal. O “progressivismo” já existia, no interior de denominações protestantes; o que o nome e o TCPC fizeram foi apenas ajudar a todos aqueles grupos se sentarem juntos e compartilharem sua mensagem. O TCPC é uma rede não-denominacional de igrejas locais (congregações) pertencentes a diferentes denominações cristãs – episcopais, luteranos, congregacionais, unitaristas, universalistas, batistas, metodistas, restauracionistas, presbiterianos, pentecostais, católicos independentes etc. Ou seja, nunca existiu uma “primeira igreja progressista” – se por “igreja” se estiver pensando numa denominação ou numa forma de Cristianismo. Também não se criou mensagem nova nenhuma: o movimento proclama crenças e práticas que estão enraizadas nas diferentes tradições que se juntaram na organização do TCPC e de outras associações semelhantes, que foram organizadas para proclamar publicamente o “progressivismo cristão” – que surgiu ainda no início do século XX. O que as congregações que formam o TCPC fazem é, simplesmente, criar uma rede de colaboração que nunca havia existido fora das denominações específicas.

O movimento não é o mesmo ao redor do mundo. E, na verdade, sequer existe fora do mundo anglófono (os países de língua inglesa e as igrejas de língua inglesa em países onde se falam outras línguas). No Brasil, por exemplo, só quatro congregações colaboram formalmente num movimento brasileiro semelhante – todas elas são igrejas anglófonas (de língua inglesa), incluindo aquela da qual sou Ministro (e essas estão envolvidas com o movimento norte-americano). O movimento norte-americano (nos E.U.A. e Canadá) tem características diferentes dos movimentos britânico, australiano, neozelandês, sul-africano e das igrejas anglófonas da Europa continental – e todos esses são diferentes entre si. As alianças são diferentes, as tradições teológicas são diferentes, as maneiras como se organizam são diferentes, suas declarações são diferentes etc.

O texto que um dos apresentadores cita como se fosse os supostos “cinco pontos” do Movimento Progressista, na realidade, não é uma declaração oficial de nenhuma organização do movimento, logo, não pode ser utilizado como se o fosse. O texto refere-se apenas a uma reflexão pessoal do professor e ministro Rev. Hal Taussig sobre o tema, na qual ele aponta o que ele entende ser as cinco principais características do progressivismo cristão – nem todos os cristãos envolvidos com o movimento concordariam com sua visão. Institucionalmente, o movimento americano, com o qual tenho me envolvido nos últimos 15 anos, proclama oito pontos – que estão traduzidas aqui neste blog desde, pelo menos, 7 de outubro de 2007. Se quiser falar sobre o que o Movimento, oficial e institucionalmente, afirma, deve-se citar aquele documento.

Quando levantam suposições sobre o sentido do termo “progressista”, por exemplo, alguém afirma que “o progressista sugere que, como a própria palavra diz, ela sugere um progresso, significa que você avançou na interpretação da Bíblia, na interpretação das Escrituras, e sobre aquilo que elas diziam…”. Essa é outra afirmação descontextualizada, para alguém que não seja membro duma igreja fundamentalista do Bible Belt dos Estados Unidos (o que não é o caso deles!). E ela é descontextualizada teológica e historicamente (dois fatores que se correlacionam aqui). Vejamos.

TEOLOGICAMENTE: Para dizer o que ele disse, você teria de supor que a única fonte teológica do Cristianismo seja a Bíblia. Ora, as denominações nas quais há congregações ou indivíduos envolvidos com movimentos como o Cristianismo Progressista não são tradições que preguem ser a Bíblia a única fonte teológica cristã. Na verdade, apenas uma ínfima minoria das tradições protestantes ensina isso oficialmente. Por exemplo, para anglicanos/episcopais, luteranos, presbiterianos, metodistas, congregacionais, unitaristas, universalistas, restauracionistas, quakers, e mesmo batistas, a Bíblia não é a única fonte para se entender o Cristianismo – eu, a propósito, discuti isso aqui nos dois textos anteriores a este. Os protestantes mais tradicionais utilizam como recurso para a reflexão teológica a Bíblia, a Tradição, a Razão e, especialmente os herdeiros do Metodismo, a Experiência pessoal. Mesmo o antigo Movimento Fundamentalista fazia menção a essas fontes teológicas. Só grupos minoritários afirmam que a Bíblia seja a única fonte teológica cristã. E, se você atentar cuidadosamente, observará que as congregações que se envolvem com o Movimento Progressista são, geralmente (pode haver, talvez, uma ou outra exceção), parte daquelas tradições que citei. Logo, a ideia de que se refiram, com o adjetivo “progressista”, a um suposto avanço na interpretação das Escrituras não faz absolutamente nenhum sentido!

HISTORICAMENTE: Pessoalmente, também não simpatizo com o termo “progressista”, já que penso ser ele inapropriado em português; mas seu uso deve ser contextualizado no ambiente cultural onde emergiu e é utilizado. O termo, em nosso meio, não se iniciou – como se disse no programa – por conta daqueles movimentos políticos de liberação da década de 1960. Ele também não tem origem no “pós-modernismo” filosófico. O problema com essa interpretação é que ela se baseia unicamente no uso do adjetivo “progressista”, já que, comumente, os movimentos de esquerda – especialmente herdeiros de tradições socialistas – são chamados de “progressistas”. O Progressismo cristão americano está enraizado na tradição do Evangelho Social. Desde o início do século XX já se usava, em inglês, o termo “progressista” para se falar sobre uma perspectiva na qual o trabalho pelo estabelecimento do Reino de Deus na Terra hoje mesmo é uma forma de proclamar o Evangelho e se preparar para a Segunda Vinda. [A soteriologia universalista, que serviu de base ao movimento do Evangelho Social, falava da “salvação” como um “progresso” rumo à construção do Reino de Deus aqui na Terra, antes que Cristo retornasse e completasse o processo de salvação. Essa ideia, por sua vez, fundamentava-se numa compreensão escatológica pós-milenarista, que fora dominante nas igrejas reformadas americanas até o período entre a 1ª e a 2ª Guerras Mundiais. Ou seja, não é olhando para as tradições políticas marxistas que você entenderá o contexto do surgimento do movimento; é, antes, olhando para as tradições teológicas calvinistas!]

Ademais, não foram os adeptos que criaram o termo – o termo foi dado por quem estava de fora. Esses cristãos aceitaram o uso. Quando aceitaram o uso do termo, não pretendiam então, como nossos contemporâneos não pretendem hoje, ver-se como superiores aos demais cristãos. Para entender isso, você tem de compreender o termo em língua inglesa:

“Progressive”, em inglês, não significa, no contexto do movimento, que você “progrediu” mais que outros. O sentido é que você está em movimento rumo a um dado destino. No meio teológico anglófono, como já expliquei, o termo está tradicionalmente associado à herança do Evangelho Social. Quando se fala em “progressista”, uma pessoa teologicamente informada, nos E.U.A., conseguirá fazer a ligação – assim como fará a ligação a uma perspectiva política na história nacional. No Brasil, entretanto, não há essa conexão. Assim, o termo se torna vazio ou até ofensivo. É bom lembrar, contudo, que o mesmo termo é também utilizado por um movimento dentro do Judaísmo desde o início do século XX, exatamente o mesmo momento no qual as teologias do Evangelho Social (no Cristianismo Protestante americano) e do Tikkun Olam (no Judaísmo Reformista) estão se difundindo em igrejas protestantes (unitaristas, universalistas, batistas, congregacionais, presbiterianos, luteranos, anglicanos e metodistas foram os grupos mais influenciados pelo Evangelho Social) e templos judaicos reformistas.

[E você, então, poderia me perguntar a razão de o endereço deste blog ser “cristianismoprogressista”; a razão é simples: em primeiro lugar, iniciei este blog ainda nos E.U.A., para um público de estudantes que falavam português e que frequentava a igreja da qual eu era ministro; em segundo lugar, não havia a disponibilidade do nome que eu queria. Acabei utilizando um título que eu mesmo não apreciava tanto.]

E aí vem a próxima correção que os apresentadores teriam ouvido de mim, se estivéssemos conversando: liberal e progressista não são a mesma coisa! Um protestante evangelical poderia se identificar, sem muito desconforto, como um progressista; mas, talvez, tivesse mais problemas para abraçar uma perspectiva teológica liberal. Mas, sim, é verdade que muitas das ideias abraçadas pelo Movimento Progressista são comuns também aos “liberais” – a mais importante delas, que eles aparentemente não entendem: a soteriologia universalista (isto é, a antiquíssima crença cristã de que Deus, de alguma forma, salvará a todos os seus filhos – ideia defendida por alguns dos Padres da Igreja, como Orígenes e Gregório de Nissa [e eu os cito aqui apenas para demonstrar quão antiga é essa visão dentre alguns cristãos; não se trata de uma invenção recente, de uma novidade!]).

Quando condena o Universalismo, um dos apresentadores diz que isso – isto é, a crença na soteriologia universalista (que ele, obviamente, desconhece) – está expresso nos “cinco pontos” do movimento (ele mais uma vez se equivoca: são oito pontos; os “cinco pontos” sobre os quais fala são apenas as características apontadas pelo Rev. Taussig, que já citei acima), e passa a ideia de que esta seja uma ideia nova. Falando sobre os 8 Pontos (lembre-se que, para ele, são 5), ele diz que “…o principal argumento deles: não tem limite de gênero, não tem ideologia de gênero” [sic]. Ora, a expressão “ideologia de gênero” não aparece no texto, e a noção de “ideologia de gênero” abarca coisas que ultrapassam o que diz o ponto 4, que é o que Taussig discute em seu texto, e que o apresentador cita como se fosse um dos “pontos” defendidos pelo movimento. Reproduzo o texto do “Ponto 4” abaixo:

4) Convidamos todas as pessoas a participarem em nossa comunidade e em nossa vida de adoração, sem insistir que elas se tornem como nós para serem aceitas, incluindo, mas não se limitando a:
* crentes e agnósticos;
* cristãos convencionais e céticos;
* mulheres e homens;
* aqueles de todas as orientações sexuais e identidades de gênero;
* aqueles de todas as raças e culturas;
* aqueles de todas as classes e habilidades;
* aqueles que esperam um mundo melhor e aqueles que perderam a esperança;


Teologicamente, mais uma vez, o que alimenta essa compreensão é a soteriologia universalista abraçada pelo movimento – o termo “soteriologia”, a propósito, é um termo teológico que se refere às doutrinas referentes à “salvação”. Assim, apesar de parecer apenas uma afirmação de ideologias de gênero, trata-se da afirmação duma compreensão teológica milenar entre alguns cristãos. Mas, novamente, quando se fala publicamente de certos temas sem se fazer uma pesquisa séria, é nisso que dá: afirma-se enganos que poderiam ser evitados se conhecessem um pouco mais de teologia e história protestantes.

A questão da relativização. Na realidade, escrevi recentemente sobre isso aqui, então tentarei ser breve. Um dos apresentadores diz que o maior questionamento contra os cristãos progressistas – questionamento que ele partilha – é “não interpretar a Bíblia da forma correta”!… Bem, alguém poderia escrever uma tese a respeito do que está por trás dessa frase. Você tem de perceber a partir de qual perspectivas falam os apresentadores do programa: aparentemente – o que é o caso também de minha leitora, a julgar pelo que me escreveu –, eles acreditam que a Bíblia e o Cristianismo sejam a mesma coisa, e acreditam nas teorias da “infalibilidade” e “inerrância” do texto bíblico. Eu – como a maioria dos protestantes herdeiros de tradições mais antigas do Protestantismo – não partilho nem nunca partilhei dessa ideia.

Essa equalização entre Bíblia e Cristianismo, ou vice versa – o que quer dizer, para quem acredita nisso, que só é cristão aquele que supostamente acredita em/faz absolutamente tudo o que as Escrituras ensinam (ou seja, trata-se da recusa em aplicar o pensamento crítico à Bíblia, ao menos declaradamente) –, e as teorias da “inerrância” e “infalibilidade” têm uma data de nascimento: a segunda e a terceira gerações dos reformadores, que criaram a teoria da inspiração plenária da Bíblia (isto é, que os textos bíblicos foram diretamente inspirados – “ditados” – por Deus).

Johann Quenstedt, um luterano, é o principal nome na origem dessa compreensão de inspiração plenária. Para ele, qualquer coisa presente nas Escrituras deveria ser entendida como verdadeira e inquestionável, fosse a respeito do que fosse. Não haveria espaço para metáforas, por exemplo – algo que a Igreja sempre levou em consideração. Também não haveria espaço para a compreensão ensinada por Martinho Lutero de que a Bíblia se tornava revelação de Deus no momento em que era pregada e ouvida; para Quenstedt, era o que estava escrito que importava.

Assim, essa visão de “inspiração plenária” ignora toda a diversidade de tradições hermenêuticas e exegéticas da Igreja, especialmente aquelas tradições antiquíssimas das escolas alexandrina e antioquina de exegese bíblica – que, respectivamente, fazia uma interpretação literal suplementada por um apelo à metáfora/alegoria, enquanto a outra interpretava a Bíblia com base no exame do contexto histórico das Escrituras. Não estou falando aqui duma novidade “pós-moderna”; essas tradições estavam ativas nos primeiros séculos da história cristã e, de certa forma, continuam vivas ainda hoje nas diferentes tradições cristãs. Mas, obviamente, quando alguém pensa que conhece a única resposta válida, e ignora as histórias e as teologias cristãs, nada disso é relevante!

Essa ideia de “inspiração plenária” retorna com maior força a partir da organização do Movimento Fundamentalista, no século XX, e é essa ideia que adentra o Evangelicalismo brasileiro. É por essa razão que, talvez, a maioria dos evangélicos brasileiros acredite/pregue isso. Suas comunidades de fé herdaram a teologia que emergiu no período de conflito entre liberais e fundamentalistas há cerca de um século atrás. Eles nunca conheceram outra visão. Para eles, isso é o Protestantismo.

Escrevo isso para demonstrar o quão mal fundamentada está a argumentação da “relativização”. Ela faz sentido apenas para quem sempre acreditou que houvesse apenas uma compreensão válida. Se esse fosse realmente o caso, então o próprio meio evangélico teria (ainda mais) sérios problemas: se só há uma interpretação válida, o que dizer sobre todos os outros evangélicos que compreendem as coisas de outra forma? Todos seriam “hereges” (ou sei lá que qualificativo utilizam)?… Pergunto isso porque batistas, presbiterianos, metodistas e assembleianos, por exemplo, não interpretam a Bíblia da mesma forma em todos os aspectos! Quem teria razão, então?… Essa variação de interpretação entre esses grupos, e no interior de cada um deles, é chamada de “relativização” (=contextualização)!… Mas já expliquei muito sobre isso nas duas últimas postagens neste blog, então penso não ser necessário acrescentar mais nada.

Contextualizando ou relativizando a posição dos apresentadores, eles dizem o que disseram no programa porque sua compreensão teológica baseia-se numa visão da Bíblia como sendo plenariamente inspirada e, consequentemente, inerrante e infalível. Ora, apenas uma minoria dos cristãos do mundo acredita nisso; e mesmo se formos nos referir apenas aos grupos protestantes, só aqueles que descendem de igrejas enraizadas na tradição teológica fundamentalista (o termo não é pejorativo – trata-se da tradição que se opunha aos liberais/modernistas/progressistas no início do século XX) ensina isso hoje no mundo (apesar de serem, provavelmente, a maioria no Brasil, por razões históricas específicas).

O que eu quero dizer é: você não pode realmente pensar que alguém que não acredite numa crença minoritária seja um herege! Cristãos liberais e cristãos progressistas tendem a reconhecer sua limitação humana, afirmando que “nós podemos estar errados, então é por isso mesmo que não julgaremos aqueles que não pensam como nós”. Mas os apresentadores do programa, aparentemente, não compartilham desse reconhecimento de suas próprias limitações humanas. Para eles, se você não acredita na inspiração plenária, na inerrância e na infalibilidade da Bíblia, então você é qualquer coisa, menos cristão!

Ah, mas como uma resposta ao que um deles disse, já próximo ao fim do programa: sim, ser tolerante é ser relativista! [Ele dizia o oposto disso.] O problema com o uso que fazem do verbo “relativizar” ou de termo “relativo” é que demonizam a noção de relativização, sem perceber que a relativização faz parte de absolutamente tudo o que fazemos na Igreja e na sociedade. Quando você tem de tomar uma decisão que entre em conflito com o que é habitual, por exemplo, você relativiza: tenho de estar na igreja na manhã de domingo, mas meu vizinho quebra a perna e me pede para levá-lo ao hospital – se eu for, ficarei lá até ele ser atendido –, o que faço? Vou à igreja e não socorro ao meu vizinho? Bem, o próprio Jesus, de acordo com as Escrituras, deu a resposta a isso: Marcos 3:1-6. O que ele faz ali, de acordo com o relato em Marcos, é relativizar um mandamento. Um exemplo que parece tolamente óbvio, mas é um exemplo de relativização nas próprias Escrituras. Quando somos tolerantes, até um certo nível, colocamos o “outro” numa posição maior do que o que pensamos sobre nossas próprias convicções; o que fazemos, então, é relativizar nossas crenças para que possamos construir um outro ambiente. Relativizar é criar uma relação com nossas próprias crenças – assim, você só pode ser tolerante se a tolerância tiver uma relação com sua visão de mundo; é isso que torna possível a tolerância, e é por isso que a tolerância é uma forma de relativização.

É nesse ponto que reside a importância da compreensão da relativização da verdade, sobre a qual eles se debruçaram tanto sem compreender a visão que temos. Quando eu, por exemplo, falo em “verdade relativa” não estou afirmando que não haja uma verdade absoluta. Para mim, há. O que eu não posso dizer, contudo, é que aquilo que entendo como verdade seja a mesma à qual outra pessoa chegará. E seria prepotência e orgulho dizer que eu conheço a verdade que todos devem abraçar – e, em minha fé, o orgulho é um pecado. Por isso falo sempre em “para mim”, “em minha opinião”, “em minha visão” etc. Essa é uma forma de relativizar a verdade – ou seja, afirmo que aquilo é verdade para mim, mas você é livre para acreditar em outra coisa. Tenho uma visão de Deus e de Jesus Cristo que são próprias de minha tradição unitarista. Os argumentos para minha crença se baseiam, em parte, nas Escrituras. Aquela visão é verdade para mim. Um católico romano que segue a doutrina oficial de sua comunhão, contudo, tem uma outra compreensão teontológica e cristológica. Ele é um cristão. Sua crença é majoritária. Não posso esperar que ele deva acreditar no que acredito, ou não será um cristão. O que acredito sobre Deus me faz pensar que Deus está além de nossa compreensão humana finita. Os autores da Bíblia, por exemplo, mesmo inspirados, utilizaram uma língua humana finita. Eu sou um humano finito. Meu vizinho católico também. E aí, o que faço para lidar com isso? Não se pode esperar que eu mude minha crença para ser aceitável ao meu vizinho. Também não posso esperar que ele mude para que eu o aceite… É aí que entra o papel da relativização na convivência humana: a relativização e a tolerância se entrelaçarão, e ele e eu poderemos viver nossa fé em respeito um ao outro. O que eu acredito ser a verdade ainda será, e vice versa. É isso que significa “relativizar a verdade”, no que tange à nossa relação com outras pessoas: não é abandonar nossa verdade, é apenas lembrar que outras pessoas também têm o direito a entender a verdade de sua fé da forma como acharem melhor.

A questão da Filosofia. Num certo momento, um dos apresentadores, falando sobre a suposta influência do “liberalismo teológico” no Cristianismo Progressista, diz que a teologia liberal “relativiza a autoridade da Bíblia, né?, aquilo que a gente já sabe sobre o liberalismo teológico, né?, que mescla filosofia, consciência e religião...” – fazendo seu comentário, obviamente, num tom pejorativo (expressando o característico anti-intelectualismo do evangelicalismo dominante no Brasil, que torna “filosofia” um palavrão), e seguindo os estereótipos típicos construídos por alguns apologistas do meio evangelical brasileiro.

A “psicologia de fila de banco” [a expressão irônica, a propósito, é minha, não deles] – que se relaciona ainda à questão da filosofia – utilizada para explicar a razão porque cristãos abraçariam visões “progressistas” é ridícula. Eu, por exemplo, não sou um liberal e progressista porque me cansei de “legalismo” na Igreja ou porque queira licença para pecar. Minha posição teológica não é de reação. Eu estou enraizado numa tradição teológica que ensina essa visão. Foi essa a visão que aprendi na Igreja, no seminário, em casa e em minha vida cristã. O Cristianismo não é, para mim (como afirmou um dos apresentadores a meu respeito, num característico tom anti-intelectualista) apenas “uma filosofia” – ele é, sim, uma “filosofia”, se com o termo nos referirmos a uma “visão de mundo”: minha relação com o Divino, minha visão religiosa de mundo, meu imaginário religioso, minha linguagem religiosa se assentam no Cristianismo, logo, o Cristianismo é minha “filosofia” de vida. O Cristianismo é minha fé. Novamente, o problema parece ser que compreendemos a noção de “fé” de formas bem distintas. A fé não é uma crença morta; é uma esperança que produz frutos, como bem explicita Tiago 2:14-26. Mas eles, como supostos conhecedores dos textos bíblicos, já devem saber o que uma outra passagem bíblica diz sobre esses frutos, Gálatas 5:22. [A propósito, é bom contextualizar o que escrevi, e que ele cita de forma seletiva que pode desvirtuar o sentido de meu texto; então, leia minha declaração completa, publicado aqui em 12 de maio de 2009 – ela é o trecho de um livro que publiquei em 2003, nos Estados Unidos: O MEU CRISTIANISMO.]

O que uma pessoa informada poderia perguntar a ele, contudo, é se ele realmente pensa que ele mesmo não mescle “filosofia” (=uma visão de mundo) e “consciência”(=razão) em suas visões teológicas(?). Como tratei disso longamente nas duas últimas publicações neste blog, não responderei a esta questão aqui. Mas posso encontrar a gênese do que ele disse em sua visão da natureza e papel da Bíblia no Cristianismo, que já discuti brevemente anteriormente.

Sexualidade. O tema é enfatizado no podcast – novamente, uma característica do Evangelicalismo majoritário brasileiro, isto é, a ênfase em “moralidade sexual” –, mas eu, a não ser que seja uma discussão inteligível sobre o tema, não discuto isso aqui. Logo, não farei comentários sobre o que disseram, a não ser este: querer comparar a aceitação do relacionamento entre duas pessoas do mesmo sexo por um cristão à aceitação do aborto ou do incesto é, no mínimo, de uma desonestidade intelectual incrível!… Por essa e por outras, não perderei meu tempo comentando teologicamente os argumentos que ouvi!

Jesus. Não consigo levar à sério os comentários que fizeram sobre o que os “cristãos progressistas” acreditariam acerca de Jesus. Isso só mostra o quanto leram pouco antes de tratarem o tema em seu programa. A raiz do que disseram encontra-se, como já disse antes, em sua visão da natureza e papel da Bíblia, mas também em sua compreensão de como a teologia protestante tem sido historicamente construída. Falta em seus argumentos, ademais, uma familiarização com a história tanto da teologia cristã quanto da Igreja – sem falar, obviamente, no desconhecimento dos pensamentos teológicos presentes no movimento que tratam em seu programa.

Cristianismo light?... Pensar que viver a fé que cristãos liberais e/ou progressistas comprometidos vivem em suas vidas diárias é light é tolice, já que não considera que nossas diferentes tradições exigem um “processo de conversão contínuo”. No meu caso específico, como um unitarista, mente, coração e ações, metaforicamente falando, se unem no trabalho de compreender a Deus e a lidar com o meu “próximo” aqui e agora. Isso significa pautar minhas ações por uma convicção de que aquilo que faço é – na melhor compreensão que posso ter do que seja verdadeiro e de qual seja a vontade de Deus – certo (sim, porque diferentemente do que se pode pensar, para nós há “certo” e “errado”, nossa fé não é um “vale tudo”). Um dos apresentadores faz um comentário muito certo quando diz que ser cristão é um processo que se estende ao longo da vida – isso é, inclusive, algo que já escrevi aqui muitas vezes. Minha tradição me ensina que “mudar de ideia” é aceitável e natural.

Autoridade. Quando falam sobre autoridade, referem-se, primeiramente ao contexto católico – citando Leonardo Boff –, para discutir o contexto protestante, falando sobre o questionamento da autoridade de líderes eclesiásticos. O que eles, aparentemente, ignoram é que nem todas as tradições protestantes abraçam essa visão de autoridade que eles abraçam. É só lembrarmo-nos dos quakers [ou quacres], por exemplo, para quem o indivíduo é o eixo da autoridade – o cristão se relaciona com Deus por meio da influência direta do Espírito ao seu coração/mente (sem precisar de intermediários, como pastores, sacerdotes etc). Ou, lembrarmo-nos, como exemplo, do movimento batista anglófono não ligado à tradição do sul dos E.U.A. – sim, porque essa tradição tem uma compreensão de autoridade diferente –, a autoridade se centra na consciência do indivíduo (a razão), enquanto recipiente do Espírito Santo em sua leitura das Escrituras. Nas tradições anglicana/episcopal, unitarista, universalista, metodista e congregacional, o indivíduo, mais uma vez, é o eixo dessa autoridade – não seu líder eclesiástico. Então, falar no questionamento da autoridade como se isso fosse uma violação da Bíblia ou da fé cristã é desconhecer a multiplicidade no meio protestante!

A questão do “joio e do trigo”. Isso tem a ver, mais uma vez, com a perspectiva teológica que se abrace. Para os apresentadores do programa, a resposta está em sua visão da Bíblia e seu não reconhecimento de que essa sua visão emerge de uma série de outras “visões de mundo”, concernentes tanto à própria teologia quanto ao dito mundo secular. Assim, eles já sabem que é o “joio” e quem é o “trigo”: o “joio” será sempre aquele que pensa de forma que conflitue com o que eles mesmos acreditam ser a verdade – algo que, de certa forma e infelizmente, é comum a todos nós.

O belicismo ideológico. Sim, é verdade que há muitas pessoas que falam em respeito e tolerância, mas que, na vida real, esperam que todas as pessoas e grupos pensem exatamente como eles. Nos meios ditos “progressistas” e “liberais” protestantes isso acontece. Mas é importante notar que isso não é o que se prega. A generalização de que todos nós – e quando falo em “nós” me refiro apenas àquelas igrejas locais ou indivíduos que estejam, de alguma forma, relacionados ao TCPC, não me refiro a outras coisas que aconteçam entre protestantes brasileiros e que desconheço – sejamos militantes que desrespeitam a fé de outros cristãos é uma acusação inverídica e soa muito mais à mentalidade da vitimização.

Eu, por exemplo, enquanto a sociedade atacava o citado Silas Malafaia por suas posições contrárias à homossexualidade, escrevi aqui mesmo em defesa de seu direito de acreditar no que acreditava e de pregar o que pregava. Deixei claro que discordava de suas posições, mas que não podia acusá-lo de “homofóbico” apenas porque discordava de minha posição. Não fiz isso porque sou bonzinho e perfeito. Fiz porque é isso que minha tradição de fé ensina e o que ensino àqueles a quem ministro – como também o fiz porque a liberdade de opinião e expressão é o cerne de minha tradição política. Aprendi, desde criança, em casa e na Igreja, que não posso ter liberdade de opinião e expressão se outras pessoas não o tiverem. Eu continuo a defender isso, tanto publicamente quanto em minhas atitudes pessoais, seja como cristão ou cidadão. Então, a generalização feita por um dos apresentadores, de que os cristãos progressistas” ou “liberais” não sejam tolerantes para com os cristãos “conservadores”, e de que haja uma perseguição de nossa parte àqueles, não corresponde à realidade – especialmente porque na maioria das igrejas às quais estamos ligados, seja como fiéis ou como Ministros, convivemos com os dois grupos.

Falta apenas mencionar a falta de compreensão que os apresentadores têm sobre o que seja a tradição liberal protestante (estou falando “liberal” agora, e não “progressista”) – que não tem absolutamente nada a ver com as descrições que fizeram. Essa antipatia para com a tradição liberal e a má vontade em compreendê-la tem muito mais a ver com a história das igrejas presbiterianas e batistas em meados do século XX, no Brasil, do que com qualquer outra coisa (refletindo o conflito entre liberais e fundamentalistas nos E.U.A.). E essa herança se estendeu a todo o meio protestante brasileiro até hoje. Mas isso mereceria uma discussão à parte.

Para finalizar, respeitosamente, posso usar as palavras de um dos apresentadores, que podem servir como conselho para seus ouvintes no que tange ao que eles próprios disseram em muitos pontos de seu podcast:

Toda generalização é burra. Toda. Sem exceção!

Paz a todos!

+Rev. Gibson da Costa

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Cristianismos e Cristãos

[Para responder ao questionamento que me foi feito hoje por uma leitora, decidi postar aqui um capítulo dum pequeno livro que publiquei recentemente sobre o mesmo tema. Espero que possa, assim, esclarecer as dúvidas de minha correspondente.]
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[…] Foi em Antioquia que os discípulos foram primeiramente chamados de cristãos.”1



É impossível compreender a complexidade das várias tradições cristãs se não nos dermos conta de que o Cristianismo é, fundamentalmente, uma fé comunitária. A exemplo da própria humanidade, que forma uma comunidade que se entrelaça por meio de relacionamentos de interdependência, a fé cristã, para que seja vivida, depende do convívio comunitário. Assim, para sermos cristãos, temos de nos juntar a outras pessoas. E “Igreja”2 é o nome que se dá, no vocabulário cristão, a esse ajuntamento de pessoas que se engajam como discípulas de Jesus Cristo.


Dar uma definição do que é o Cristianismo e quem é cristão, entretanto, nem sempre é tão fácil quanto parece. Na maioria das vezes, por exemplo, pode-se definir como cristão qualquer pessoa que professe uma crença em Jesus Cristo e que siga seus ensinamentos; nesse caso, o Cristianismo é a fé professada por essa pessoa. Essa definição simplificada pode parecer útil, mas, na verdade, ela não nos diz muito. Nossos irmãos muçulmanos, por exemplo, aceitam e honram Jesus como um profeta de Deus e acreditam seguir seus ensinamentos; isso, entretanto, nem para eles nem para os cristãos, seria suficiente para identificá-los como “cristãos”.


Quando tratamos teologicamente do Cristianismo – assim como de qualquer outra fé com o mesmo nível de complexidade teológica (por exemplo, o Judaísmo, o Islã, o Budismo etc) –, normalmente utilizamos definições mais elaboradas. No Cristianismo isso ocorre principalmente por conta de sua complexa história, na qual foram criados conceitos de ortodoxia e heresia – ou seja, de crenças e práticas que poderiam ser aceitas ou não como autênticas (novamente, essa não é uma exclusividade cristã, apesar de, por questões históricas importantes, a ênfase cristã em tais conceitos ser maior do que a de outras tradições monoteístas)3.


Nas diferentes tradições cristãs há diferentes interpretações teológicas, baseadas em sua leitura da Bíblia e da tradição da Igreja, sobre o que é o Cristianismo e quem é um verdadeiro cristão. Inúmeras vezes, essas interpretações entram em conflito umas com as outras e se contradizem mutuamente, e esse conflito pode gerar desentendimentos entre cristãos de diferentes tradições.


Na introdução deste livro, já esclareci que minha definição para os termos “Cristianismo” e, consequentemente, “cristão” aqui é deveras simplificada e explicitamente não-ortodoxa. Ou seja, enquanto a maioria das igrejas cristãs – especificamente aquelas comunhões protestantes e ortodoxas associadas ao Conselho Mundial de Igrejas, e a Igreja Católica Romana – define estritamente a natureza da fé cristã e, consequentemente, quem é um verdadeiro cristão por meio de critérios teológicos ortodoxos, esses critérios não podem ser utilizados por mim aqui para alcançar as finalidades às quais me prepus4.


Para efeitos de minhas definições aos termos “Cristianismo” e “cristão” – quando os mesmos são utilizados especificamente para identificar uma tradição ou comunidade (e não um indivíduo) –, utilizo como padrão dois critérios básicos:
  1. a relação da tradição ou comunidade em questão com o todo da Igreja cristã:
    • a presença dos elementos (físicos, pictóricos ou discursivos) universalmente aceitos pela Igreja cristã – independentemente da interpretação dada aos mesmos –, por exemplo: Deus, Jesus, a Bíblia, a liturgia cristã;
    • e o senso de continuidade identitária com o todo da Igreja cristã;
  1. a auto-identificação comunitária como um corpo de discípulos de Jesus Cristo, isto é, como uma igreja cristã.


Devo confessar que reconheço as claras limitações desses critérios, tanto no que tange ao seu afastamento das concepções ortodoxas de Igreja e fé cristã, quanto no que tange à sua discriminação contra grupos que não se encaixem nesses critérios que aqui utilizo.


Você poderia me dizer, por exemplo, que minha definição é muito larga, chegando a colocar sob a mesma identificação a tradição das igrejas ortodoxas orientais e aquela de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Ninguém, razoavelmente esclarecido, duvidaria que as igrejas ortodoxas “orientais” sejam cristãs – a favor de sua identidade cristã contam, pelo menos, a teologia de sua tradição e sua história. No caso dos santos dos últimos dias (conhecidos como “mórmons”), entretanto, há, teologicamente, uma clara separação entre sua tradição e as concepções majoritariamente aceitas pela Igreja cristã, e o consequente fato de não serem aceitos como cristãos pela maioria dos demais cristãos (católicos, ortodoxos, e protestantes).


Entretanto, se observarmos a tradição dos “santos dos últimos dias”, sob os dois critérios que enumerei, veremos que há, de sua parte: (1) uma relação identitária com o todo do Cristianismo (o movimento utiliza aqueles elementos cristãos aceitos por todas as tradições cristãs – mesmo que não os interpretando da mesma forma que os demais cristãos, e suplementando-os com novos elementos –, e está imerso num senso de continuidade histórica e identitária com o Cristianismo); e essa tradição (2) identifica-se explicitamente como uma igreja cristã.


Minha identificação de grupos não-ortodoxos (alguns diriam “heréticos5”) como cristãos – citei como exemplo a tradição “mórmon”, mas poderia ter citado os “testemunhas de Jeová” ou minha própria tradição unitarista – tem uma ligação com a maneira como entendo a fé cristã. Essa minha forma muito particular de definição do sentido desses termos – Cristianismo e cristão –, entretanto, não é a maneira como a maioria das tradições cristãs (especialmente o Catolicismo Romano, a Ortodoxia Oriental, e a maioria das tradições protestantes) os definiria.


A definição dada ao Cristianismo e, consequentemente, à identidade cristã pelas maiores e mais influentes comunhões6 cristãs tem uma ligação necessária com a noção de ortodoxia teológica. Para definir o que é o Cristianismo e quem é cristão, essas comunidades buscam a autenticidade das crenças e práticas presentes nas demais comunhões. Isso influencia, por exemplo, as relações entre igrejas cristãs, e possui consequências para os membros dessas tradições.


Permita-me esticar minha imaginação para citar um exemplo prático: imagine um batista praticante que nunca tivesse sido batizado no ritual católico (ou num ritual de batismo aceito pela Igreja Católica Apostólica Romana), e que, por alguma razão hipotética (ele poderia, por exemplo, estar vivendo longe de uma comunidade batista e sentir a necessidade de partilhar da Comunhão7!), desejasse receber o sacramento da Eucaristia numa missa católica – ele poderia ou não recebê-lo?


Por um lado, a tradição católica possui critérios específicos para definir quem, quando e como pode ministrar e receber os sacramentos8 da Igreja; por outro lado, a tradição batista não partilha da compreensão sacramental da tradição católica, e também possui critérios específicos sobre quem, quando e como pode ministrar e receber a “ordenança da Ceia do Senhor”. O padrão no Catolicismo é que, para receber o sacramento da Eucaristia, o candidato deve já ter recebido os sacramentos do Batismo e da Confirmação – e esses devem ter sido recebidos de forma válida9.


Já no que tange a muitas comunidades batistas, pode haver consequências para um membro que participe de ritos em outras comunidades de fé – para muitos batistas brasileiros, o Catolicismo é uma outra religião, e não uma expressão válida do Cristianismo –, logo, poderia não ser aceitável a prática de ele receber a Eucaristia numa missa católica (isto é, se ele assim pudesse fazê-lo numa igreja católica)!


Logo, como se vê, a questão de definições é muito complexa e possui consequências para a vida prática, tanto no interior de comunidades cristãs quanto na relação entre diferentes comunidades cristãs. Entretanto, vale enfatizar que essa não é uma exclusividade cristã. No Judaísmo, por exemplo, há a recorrente discussão sobre quem é judeu, e a consequente validade dos rituais oferecidos por comunidades judaicas que não sejam ortodoxas10.


As diferenças entre as variadas tradições cristãs tornam-se muito óbvias quando pensamos na forma em que igrejas de diferentes tradições cristãs recebem a novos membros. O padrão para que alguém seja aceito como membro da Igreja cristã é que tenha sido batizado, mas o que ocorre quando um cristão vindo de uma outra igreja cristã deseja juntar-se a uma tradição cristã diferente?


Para facilitar a compreensão, utilizemos o exemplo anterior na direção contrária: e, se por algum motivo, um católico romano quisesse juntar-se a uma igreja batista, o que seria exigido dele? Ele teria de ser batizado? Mas ele não já foi batizado antes? Por que teria de ser rebatizado? … As respostas a questões como essas podem parecer irrelevantes, mas elas dizem muito sobre nossa teologia – isto é, sobre o que pensamos sobre Deus, sobre Jesus, sobre a Bíblia, sobre a Tradição, sobre a Igreja etc –, além de terem um impacto real sobre a vida dos indivíduos cristãos, de suas famílias e da Igreja como um todo.


Há muitas razões históricas para que existam conflitos entre diferentes expressões da Igreja cristã, mas apontarei aqui pelo menos duas: [1] razões teológicas, ou seja, diferenças entre compreensões acerca da fé cristã; e [2] razões práticas – frequentemente litúrgicas –, ou seja, diferenças entre as formas como determinadas coisas são feitas na Igreja11.


Assim, se, no nosso exemplo, o batismo anterior dum cristão não é aceito para que ele se torne membro duma outra comunidade cristã – exigindo-se que ele seja rebatizado –, isso pode ser causado: [1] porque há diferenças claras entre compreensões sobre autoridade eclesiástica, ou sobre noções litúrgicas, ou sobre o sentido da fé cristã, ou sobre o papel da consciência no processo de se tornar um seguidor de Jesus Cristo etc; e, [2] frequentemente porque requisitos rituais não foram cumpridos para a comunidade receptora etc. Essas diferenças são reais e, infelizmente, criam barreiras para o cumprimento daquela oração atribuída a Jesus: “para que todos sejam um”12.


Levando em consideração essas questões teológicas que formam a base da discussão da identidade cristã, e meu próprio compromisso com o espírito ecumênico, identificarei como cristãs aqui todas aquelas tradições que se identificam explicitamente como igrejas cristãs. Incluirei nessa definição mesmo aquelas comunhões ou denominações que, geralmente, não são aceitas como cristãs pelas maiores igrejas cristãs – ou vice versa –, desde que preencham os requisitos mínimos que estabeleci no início deste capítulo.


Assim, aqui, o movimento dos “Santos dos Últimos Dias” (que inclui não apenas a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, mas também a Comunidade de Cristo e outros grupos menores), e o movimento dos “Estudantes da Bíblia” (que inclui os testemunhas de Jeová), por exemplo, encaixam-se na definição geral de igrejas cristãs. E, quando possível, darei informações sobre diferenças existentes na compreensão de diferentes grupos cristãos.


O que intenciono com isso é simplesmente enfatizar a diversidade daquilo que chamamos de Cristianismo – mas que prefiro pluralizar e chamar de “Cristianismos”. Para mim, a diversidade cristã é fonte de beleza e inspiração, e a Igreja seria espiritualmente mais pobre se em seu meio não se ouvissem vozes tão distintas. Como um cristão, minha oração é que, um dia, possamos todos sobrepujar nossas diferenças, podendo enxergarmo-nos mutuamente como membros duma mesma família de fé. Assim, apesar de poder discordar de muitas das perspectivas de outros cristãos, abraço-os como irmãos em Cristo e como co-andarilhos na senda cristã.


É importante, ademais, que eu esclareça algo relativo à minha própria experiência de fé. Por conta de minhas múltiplas heranças cristãs – sobre às quais falei no prefácio deste livro –, tendo a me ver religiosamente muito mais como “cristão” (isto é, de forma muito ampla) do que como membro duma tradição específica. Abraço as diferentes tradições que formaram minha compreensão da fé cristã como minhas, extraindo de cada uma delas aquilo que julgue me aproximar mais do Divino. Além disso, meu ministério eclesiástico é exercido no contexto duma “igreja unida”, isto é, duma comunidade que mantém laços com diferentes tradições cristãs. Assim, em minha experiência, é insuficiente dizer que sou um unitarista, um anglicano, um luterano, um restauracionista, ou mesmo protestante. Prefiro identificar-me simplesmente como um cristão, abrindo a possibilidade de agregar outros aprendizados àqueles que herdei de minhas múltiplas tradições cristãs.


NOTAS:



1 Atos dos Apóstolos 11:26b.
2 O termo igreja possui sentidos diferentes no vocabulário cristão. Além do sentido acima, o termo pode se referir, também, ao edifício utilizado por uma comunidade cristã específica como lugar de culto. Para que você compreenda o que quero dizer cada vez que utilizar o termo “igreja”, seguirei as seguintes regras: 1) Quando utilizar aqui o termo Igreja (com inicial maiúscula), estarei me referindo ao todo da comunidade cristã universal, independentemente da tradição ou denominação – a não ser que esteja citando o nome duma denominação cristã específica. Ex.: A Igreja compreende os seguidores de Jesus. (=a comunidade cristã universal) / A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil é a única denominação brasileira filiada à Comunhão Anglicana. (=nome próprio duma igreja específica); 2) Quando utilizar a palavra com inicial minúscula, estarei ou me referindo ao edifício de culto cristão ou a uma congregação cristã de forma mais geral. Ex.: Nesta cidade há muitas igrejas. (=edifícios de culto) / As várias igrejas católicas e protestantes daqui possuem muitos membros. (=congregações/comunidades cristãs).
3 Os termos ortodoxia e ortodoxo(a) possuem, ao menos, dois sentidos mais comuns. No capítulo anterior, apresentei um deles: o sentido de ortodoxia como a “crença correta”, com o adjetivo “ortodoxo(a)” relacionando-se a esse sentido (heresia é o antônimo desse primeiro sentido). Um segundo sentido frequente refere-se às formas de Cristianismo características das igrejas ortodoxas “orientais” da Grécia, da Rússia e de outras nações eslavas, por exemplo.
4 A Constituição, de 1948, do Conselho Mundial de Igrejas, por exemplo, afirma que aquela organização constitui-se das igrejas que “aceitam nosso Senhor Jesus Cristo como Deus e Salvador”. Esse é um tipo de definição ortodoxa muito específica do que seja ser cristão e Igreja ao qual muitos cristãos, e muitas comunidades cristãs, não estão dispostos a se submeter.
5 Como já esclareci antes, o termo heresia – e os adjetivos correlatos: herege e herético – são termos utilizados, na tradição cristã, para se fazer referência àquelas teologias ou práticas que não sejam ortodoxas. Heresia é antônimo de ortodoxia.
6 Ao longo deste livro, utilizo o termo “comunhão” com dois sentidos básicos: 1) para referir-me a um sacramento cristão – utilizando, para tanto, a inicial maiúscula – , ao qual posso referir-me também como “Santa Comunhão” ou “Eucaristia”, e que alguns protestantes chamam “Santa Ceia” ou “Ceia do Senhor”; e, 2) para referir-me a uma tradição cristã específica, por exemplo: A Comunhão Anglicana é formada por todas aquelas igrejas nacionais que mantêm laços com o Arcebispo de Cantuária, líder da Igreja da Inglaterra. / A Federação Luterana Mundial é a maior comunhão de igrejas luteranas no mundo.
7 A maioria, talvez, dos batistas brasileiros chamem-na de Ceia do Senhor ou Santa Ceia. Ademais, na tradição batista não há “sacramentos”, há “ordenanças”.
8 Tratarei sobre os Sacramentos cristãos num outro capítulo, mas vale adiantar que, nas tradições católicas e ortodoxas, eles são sete (o Batismo, a Confirmação, a Eucaristia, a Penitência, a Unção dos Enfermos, a Ordem e o Matrimônio); enquanto para as tradições protestantes sacramentais eles são apenas dois (o Batismo e a Comunhão).
9 A questão de validade ritual é complexa demais para ser tratada aqui, extrapolando as intenções deste livro.
10 O conceito de ortodoxia no Judaísmo, obviamente, segue critérios diferentes daqueles praticados no Cristianismo.
11 Devo ressaltar que alguém que esteja observando a questão a partir duma perspectiva externa à Igreja poderia enfatizar como razão principal para esses conflitos aspectos políticos – questões de “poder” –. Apesar de eu reconhecer o mérito de tal perspectiva (defendida por muitos cientistas sociais, historiadores, filósofos etc), compreendo-a como deveras reducionista, por não levar em consideração o fato de as relações eclesiásticas fundamentarem-se sobre compreensões teológicas, que se revelam muito mais complexas do que disputas por “poder”. Essas compreensões teológicas funcionam como bases identitárias de fé.
12 João 17:21.




FONTE:


COSTA, Gibson da. Redescobrindo o Cristianismo: uma confissão pessoal da fé cristã. New York, EUA: Edição do autor, 2014. p.37-49.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Sobre ser cristão e "homossexual"

[De vez em quando, recebo um ou outro e-mail, ou uma ou outra mensagem aqui no blog, que me deixa acordado durante a madrugada, pensando sobre a pessoa que me escreveu e como ajudá-la. Isso aconteceu na noite passada. Recebi uma mensagem através do blog e meu correspondente (que se identificou como “R”, um batista formado em teologia num seminário “evangélico” e, hoje, distanciado de sua igreja por ser homossexual) não deixou um e-mail para contato, então tentarei respondê-lo aqui mesmo. O que segue é uma resposta a cada um dos pontos levantados por “R”.]

Caro “R”:

Não, você não está sozinho! Há inúmeras pessoas, homens e mulheres, na Igreja cristã como um todo, que se reconhecem como “homossexuais” e como cristãs ao mesmo tempo. E por que deveria ser diferente? Por que elas deveriam separar uma coisa da outra?

Você me relatou sobre a conversa que teve com o ministro da igreja que costumava frequentar. Tenho certeza que ele acreditava estar lhe dando os melhores conselhos, e que aquilo o ajudaria a ser mais feliz. Mas, ao que parece, ele confundiu homossexualidade com crime – e isso é, no mínimo, uma opinião teológica, filosófica, sociológica, psicológica e juridicamente desinformada.

Os seres humanos são extremamente complexos. Somos, no que tange aos aspectos biológicos, muito semelhantes aos outros mamíferos; mas, em outros aspectos – ao menos aparentemente –, somos muito diferentes. Nós temos a capacidade – supostamente, única entre os seres deste planeta – de refletir criticamente sobre nós mesmos e sobre nossa relação com o visível e o invisível. Temos a capacidade de aprender diferentes tipos de linguagens, técnicas, métodos, ideias, etc, etc, etc. Somos seres espirituais, que buscam sentido para nossa existência e ações. Somos, em minha compreensão cristã, “filhos de Deus” – ou seja, mantemos uma ligação com uma Realidade que ultrapassa nossa compreensão racional.

Mas além de tudo isso que somos, somos – todos nós – seres sexuais. Mesmo monges que vivam celibatariamente em mosteiros nos Montes Athos ou no Himalaia, são seres sexuais. Isso quer dizer que nossos corpos e nossas mentes lidam, no mínimo, com atrações, desejos, interesses, etc, de “natureza” sexual – mesmo que esses não sejam materializados em ações voluntárias.

Não posso dizer o que seja certo ou errado na compreensão que outras pessoas, ou outras tradições cristãs, tenham da fé cristã. Acredito na verdade relativa das diferentes tradições teológicas – ou seja, o que uma comunidade pentecostal, por exemplo, aceita como “verdade” cristã será, para eles, verdade, da mesma forma como o que outra comunidade cristã veria como sendo verdade para si mesma. Logo, o que penso ser certo ou errado é válido apenas para mim mesmo ou, no máximo (e apenas em certos pontos, talvez), para aqueles que compartilhem de [parte de] minha visão teológica.

Discordo do que aquele ministro lhe disse quando falou que ser homossexual é uma escolha, por, pelo menos, duas razões. A primeira razão é que não sei até que ponto se possa dizer que se “é homossexual”, e não que se “está homossexual”. Não sei se o “ser” homossexual – que me parece referir-se a algo permanente – acontece com todos, ou se podemos dizer que alguns “estejam” homossexuais em algum período de sua vida e em outros não. Essa é uma questão muito complexa para discutirmos aqui, mas creio que algumas pessoas possam não se sentir num estado de permanência, e sim, num estado de questionamento de sua orientação emociono-sexual – converso com muitos jovens que passam por esse questionamento.

A segunda razão, e a mais importante, é que, em minha experiência, você não escolhe ter uma determinada orientação emociono-sexual – seja esta heterossexual, homossexual ou bissexual. Você pode escolher o que faz, uma vez se dê conta dela, mas não pode escolher a orientação em si. Ao menos, essa tem sido minha experiência. Desde muito jovem já sabia que me sentia emocional e sexualmente atraído por rapazes, e não por moças. Isso foi algo que descobri, e não que escolhi. Não me acordei, numa manhã de verão, e decidi que a partir dali me interessaria por outros rapazes. Isso foi algo que fui descobrindo a meu respeito com o passar dos anos, desde a infância. Só na adolescência me dei conta do que aqueles sentimentos significavam. Não escolhi me sentir daquele jeito, nem aprendi a ser assim de outra pessoa. O que escolhi foi apenas a forma como lidaria com aqueles sentimentos.

Para mim, é importante não falar apenas em “orientação sexual”, mas em “orientação emociono-sexual”. Por isso, sinto um grande desconforto com o uso dos termos “homossexual” ou “heterossexual”, etc, já que esses apontam para esse aspecto humano como sendo apenas algo mecânico. Quando você diz que ama seu companheiro – um outro homem –, você não está dizendo que apenas tem um interesse sexual por ele; você está dizendo muito mais que isso – acredito que o aspecto sexual seja apenas um elemento do que você sente por ele. Isso vale para pessoas de todas as orientações emociono-sexuais. Um homem que ame sua companheira – uma mulher –, sente muito mais que apenas atração sexual por ela; novamente, o componente sexual é apenas uma parte de seus sentimentos por ela. Amar romanticamente é estar ligado a outra pessoa de forma muito mais complexa e profunda do que apenas sentir-se atraído física ou sexualmente por ela. Qualquer pessoa que ame ou já tenha amado outra, romanticamente, sabe disso. [À propósito, falo em amor romântico pois acredito haver diferentes tipos de amor – o amor que sinto pelos meus pais ou irmãos não envolve todos os elementos que o amor que sentiria por meu cônjuge envolveria, por exemplo.]

Assim, quando alguém se refere ao amor entre dois homens ou duas mulheres como sendo algo apenas físico ou sexual, está, em minha opinião, sendo intelectualmente desonesto – ao menos, supondo que essa pessoa já tenha experienciado o amor romântico em sua vida. Qualquer pessoa, heterossexual ou homossexual, que já tenha amado romanticamente alguém sabe quão complexa é a ligação que sente pelo objeto de seu afeto. Obviamente, há relacionamentos que não envolvem amor mútuo, envolvimentos entre pessoas que não passam de parceiras sexuais – e isso, à propósito, acontece com pessoas de toda e qualquer orientação emociono-sexual –, mas esse tipo de relacionamentos não é o objeto de nossa conversa! Entendo que sexualizar a conversa sobre relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo seja um instrumento discursivo dos que querem desmoralizar tais relacionamentos – levando em consideração sua compreensão do que seja pecado e sua noção de moralidade, é muito fácil convencer que a relação entre pessoas do mesmo sexo seja uma “abominação” –; mas, por outro lado, a sexualização do debate também por parte daqueles que se apresentam ou são vistos como “representantes” de todos os outros “homossexuais” só reforça essa visão distorcida e intelectualmente desonesta.

Em se tratando da questão mais explicitamente teológica sobre esse tema, é importante que eu reafirme o que já é notório aqui: não sou um protestante evangelical, ou seja, não afirmo encontrar minhas justificativas teológicas exclusivamente nas Escrituras. Ademais, também não faço uma leitura supostamente literal das Escrituras. Como um protestante liberal, faço uso conjunto das Escrituras (a Bíblia), da Tradição, da razão, da experiência pessoal, de certos princípios teológicos específicos, etc, como instrumentos para minha compreensão teológica. Minha leitura das Escrituras é moldada por aqueles outros elementos. E, na verdade, não acredito que absolutamente ninguém faça uma leitura literal das Escrituras. Nenhuma igreja, nenhum teólogo, nenhum ministro cristão, que afirme fazer uma leitura literal da Bíblia, conseguiria inquestionavelmente harmonizar todas as afirmações, interditos etc, bíblicos, já que o conjunto desses textos se contradiria se fosse lido literalmente e de forma comparativa.

Outra coisa importante é que não tenho interesse algum em me envolver em discussões sobre passagens específicas na Bíblia – especialmente na Bíblia Hebraica – que, supostamente, fariam referência à homossexualidade. Meu conhecimento das Escrituras, em hebraico e grego, e meu conhecimento das discussões teológicas e eclesiásticas que envolvem esses escritos, é suficiente para me convencer de que, pastoralmente, discuti-los é irrelevante para a vida cristã da maioria das pessoas. A compreensão linguística, histórica e teológica que tenho daquelas passagens é extremamente distinta das que você aprendeu no seminário onde se formou e na comunidade da qual era parte. Logo, penso que discutir o sentido desta ou daquela palavra, deste ou daquele hábito cultural da antiga Israel ou da Igreja primitiva, etc, etc, etc, provavelmente não fará nenhuma diferença na maneira como você se sente sobre você mesmo e sua relação com o Divino e com outras pessoas; e, não fará nenhuma diferença sobre a forma como sua antiga comunidade compreende a sexualidade humana. Considero mais importante refletir sobre sua vida à luz de sua própria compreensão de sua fé, construindo uma autonomia espiritual em relação ao que outras pessoas lhe digam ser certo ou errado – essa é, devo enfatizar, uma das características históricas do Protestantismo, especialmente de sua própria tradição batista.

O Cristianismo, em minha opinião é – e não apenas o Cristianismo – uma fé ética, uma fé que enfatiza as relações humanas com outros humanos, com o todo da Criação e com Deus. E é com base nessas relações que se estabelecem, na tradição cristã, as noções de pecado e retidão. Assim, pecado é aquilo que agride ao próprio indivíduo, aos demais seres humanos, ao resto da Criação e a Deus. Pecar é violar o valor e a dignidade do ser humano e da criação, já que todos fomos, metaforicamente, “feitos à imagem de Deus”. É assim que compreendo o sentido de “pecado”. Logo, amar, respeitar, honrar, valorizar, apreciar outro ser humano, e se relacionar com alguém que, voluntária e legalmente, entre num relacionamento com outra não pode ser descrito como pecado, apenas porque os parceiros são pessoas do mesmo sexo. [Falo em “legalmente”, já que as leis brasileiras atuais estabelecem tipos de relacionamentos que são abusivos, como, por exemplo, a pedofilia – na qual um adulto pode estar se aproveitando da inexperiência ou desvantagem dum menor, mesmo que o menor em questão pense estar envolvido por sua própria escolha.]

Em se tratando da classificação de relacionamentos como sendo “morais” ou “imorais”, me preocuparia com outros detalhes. Quão “moral” seria a relação entre um homem e uma mulher casados, se entre eles houvesse desrespeito, desonra ou agressão? Quão “imoral” seria a relação entre dois homens ou duas mulheres, se entre eles houvesse respeito, honra e cuidado? Contrapor dois casos extremos assim pode parecer uma comparação injusta – e é –, mas é essa a lógica utilizada na conversa que você me relatou. Prefiro pensar que, em termos da moralidade cristã, a preocupação se centre na presença do “amor” naquela relação – i.e., amor como respeito, devoção, cuidado, atenção, honra, lealdade etc. Acredito numa ética do relacionamento, na honra e no valor do compromisso mútuo.

Se estivéssemos tendo uma conversa acadêmica sobre este tema, faria questão de apontar as origens históricas das variadas opiniões teológicas cristãs sobre o tema – inclusive das opiniões teológicas que defendo –, mas, como escrevi antes, você saber como essas opiniões se desenvolveram, no fim das contas, não alteraria a maneira como outros compreenderão a questão. Você não pode mudar a forma como os outros sentem o mundo. O que você pode mudar é a si mesmo: a forma como você enxerga a si mesmo; como se relaciona consigo mesmo, com outras pessoas e com o resto do mundo.

Para finalizar, se você realmente quer saber o que penso sobre cada uma daquelas coisas sobre as quais escreveu, deixe-me dizer que minha fé me ensina que cada um de nós, você inclusive, é imensuravelmente importante. Cada um de nós nasce com a capacidade de fazer tanto o bem quanto o mal, de amar e odiar, de ser feliz ou infeliz. Eu, pessoalmente, não acredito na noção de que o ser humano seja depravado e mau por natureza. Acredito, sim, que certos relacionamentos sejam inapropriados, mas o status moral dum relacionamento romântico não advém do sexo daqueles que se relacionam. Esse tipo de discussão, entretanto, sempre causará conflitos entre diferentes pessoas ou grupos – e não apenas entre aqueles que professem uma religião. Também não acredito que grupos religiosos devam mudar suas doutrinas para que pessoas sintam-se bem-vindas; afinal de contas, a filiação a uma comunidade de fé é voluntária, e aqueles que escolhem ser parte de qualquer uma supostamente estão cientes (ou deveriam estar) dos compromissos que estão assumindo com aquela comunidade e consigo mesmos. Então, não posso dizer muita coisa que possa ajudá-lo a lidar com os conflitos com a disciplina duma outra comunidade de fé, mas posso garantir como há igrejas protestantes aí em São Paulo onde seria muito bem-vindo independentemente de sua orientação emociono-sexual e de seu relacionamento conjugal com outro homem. Se tiver interesse em contatar tais comunidades, envie-me seu endereço de e-mail ou me escreva diretamente por meio do e-mail de contato em meu perfil.

Grande abraço!


+Gibson