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quinta-feira, 12 de junho de 2014

Cristianismos e Cristãos

[Para responder ao questionamento que me foi feito hoje por uma leitora, decidi postar aqui um capítulo dum pequeno livro que publiquei recentemente sobre o mesmo tema. Espero que possa, assim, esclarecer as dúvidas de minha correspondente.]
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[…] Foi em Antioquia que os discípulos foram primeiramente chamados de cristãos.”1



É impossível compreender a complexidade das várias tradições cristãs se não nos dermos conta de que o Cristianismo é, fundamentalmente, uma fé comunitária. A exemplo da própria humanidade, que forma uma comunidade que se entrelaça por meio de relacionamentos de interdependência, a fé cristã, para que seja vivida, depende do convívio comunitário. Assim, para sermos cristãos, temos de nos juntar a outras pessoas. E “Igreja”2 é o nome que se dá, no vocabulário cristão, a esse ajuntamento de pessoas que se engajam como discípulas de Jesus Cristo.


Dar uma definição do que é o Cristianismo e quem é cristão, entretanto, nem sempre é tão fácil quanto parece. Na maioria das vezes, por exemplo, pode-se definir como cristão qualquer pessoa que professe uma crença em Jesus Cristo e que siga seus ensinamentos; nesse caso, o Cristianismo é a fé professada por essa pessoa. Essa definição simplificada pode parecer útil, mas, na verdade, ela não nos diz muito. Nossos irmãos muçulmanos, por exemplo, aceitam e honram Jesus como um profeta de Deus e acreditam seguir seus ensinamentos; isso, entretanto, nem para eles nem para os cristãos, seria suficiente para identificá-los como “cristãos”.


Quando tratamos teologicamente do Cristianismo – assim como de qualquer outra fé com o mesmo nível de complexidade teológica (por exemplo, o Judaísmo, o Islã, o Budismo etc) –, normalmente utilizamos definições mais elaboradas. No Cristianismo isso ocorre principalmente por conta de sua complexa história, na qual foram criados conceitos de ortodoxia e heresia – ou seja, de crenças e práticas que poderiam ser aceitas ou não como autênticas (novamente, essa não é uma exclusividade cristã, apesar de, por questões históricas importantes, a ênfase cristã em tais conceitos ser maior do que a de outras tradições monoteístas)3.


Nas diferentes tradições cristãs há diferentes interpretações teológicas, baseadas em sua leitura da Bíblia e da tradição da Igreja, sobre o que é o Cristianismo e quem é um verdadeiro cristão. Inúmeras vezes, essas interpretações entram em conflito umas com as outras e se contradizem mutuamente, e esse conflito pode gerar desentendimentos entre cristãos de diferentes tradições.


Na introdução deste livro, já esclareci que minha definição para os termos “Cristianismo” e, consequentemente, “cristão” aqui é deveras simplificada e explicitamente não-ortodoxa. Ou seja, enquanto a maioria das igrejas cristãs – especificamente aquelas comunhões protestantes e ortodoxas associadas ao Conselho Mundial de Igrejas, e a Igreja Católica Romana – define estritamente a natureza da fé cristã e, consequentemente, quem é um verdadeiro cristão por meio de critérios teológicos ortodoxos, esses critérios não podem ser utilizados por mim aqui para alcançar as finalidades às quais me prepus4.


Para efeitos de minhas definições aos termos “Cristianismo” e “cristão” – quando os mesmos são utilizados especificamente para identificar uma tradição ou comunidade (e não um indivíduo) –, utilizo como padrão dois critérios básicos:
  1. a relação da tradição ou comunidade em questão com o todo da Igreja cristã:
    • a presença dos elementos (físicos, pictóricos ou discursivos) universalmente aceitos pela Igreja cristã – independentemente da interpretação dada aos mesmos –, por exemplo: Deus, Jesus, a Bíblia, a liturgia cristã;
    • e o senso de continuidade identitária com o todo da Igreja cristã;
  1. a auto-identificação comunitária como um corpo de discípulos de Jesus Cristo, isto é, como uma igreja cristã.


Devo confessar que reconheço as claras limitações desses critérios, tanto no que tange ao seu afastamento das concepções ortodoxas de Igreja e fé cristã, quanto no que tange à sua discriminação contra grupos que não se encaixem nesses critérios que aqui utilizo.


Você poderia me dizer, por exemplo, que minha definição é muito larga, chegando a colocar sob a mesma identificação a tradição das igrejas ortodoxas orientais e aquela de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Ninguém, razoavelmente esclarecido, duvidaria que as igrejas ortodoxas “orientais” sejam cristãs – a favor de sua identidade cristã contam, pelo menos, a teologia de sua tradição e sua história. No caso dos santos dos últimos dias (conhecidos como “mórmons”), entretanto, há, teologicamente, uma clara separação entre sua tradição e as concepções majoritariamente aceitas pela Igreja cristã, e o consequente fato de não serem aceitos como cristãos pela maioria dos demais cristãos (católicos, ortodoxos, e protestantes).


Entretanto, se observarmos a tradição dos “santos dos últimos dias”, sob os dois critérios que enumerei, veremos que há, de sua parte: (1) uma relação identitária com o todo do Cristianismo (o movimento utiliza aqueles elementos cristãos aceitos por todas as tradições cristãs – mesmo que não os interpretando da mesma forma que os demais cristãos, e suplementando-os com novos elementos –, e está imerso num senso de continuidade histórica e identitária com o Cristianismo); e essa tradição (2) identifica-se explicitamente como uma igreja cristã.


Minha identificação de grupos não-ortodoxos (alguns diriam “heréticos5”) como cristãos – citei como exemplo a tradição “mórmon”, mas poderia ter citado os “testemunhas de Jeová” ou minha própria tradição unitarista – tem uma ligação com a maneira como entendo a fé cristã. Essa minha forma muito particular de definição do sentido desses termos – Cristianismo e cristão –, entretanto, não é a maneira como a maioria das tradições cristãs (especialmente o Catolicismo Romano, a Ortodoxia Oriental, e a maioria das tradições protestantes) os definiria.


A definição dada ao Cristianismo e, consequentemente, à identidade cristã pelas maiores e mais influentes comunhões6 cristãs tem uma ligação necessária com a noção de ortodoxia teológica. Para definir o que é o Cristianismo e quem é cristão, essas comunidades buscam a autenticidade das crenças e práticas presentes nas demais comunhões. Isso influencia, por exemplo, as relações entre igrejas cristãs, e possui consequências para os membros dessas tradições.


Permita-me esticar minha imaginação para citar um exemplo prático: imagine um batista praticante que nunca tivesse sido batizado no ritual católico (ou num ritual de batismo aceito pela Igreja Católica Apostólica Romana), e que, por alguma razão hipotética (ele poderia, por exemplo, estar vivendo longe de uma comunidade batista e sentir a necessidade de partilhar da Comunhão7!), desejasse receber o sacramento da Eucaristia numa missa católica – ele poderia ou não recebê-lo?


Por um lado, a tradição católica possui critérios específicos para definir quem, quando e como pode ministrar e receber os sacramentos8 da Igreja; por outro lado, a tradição batista não partilha da compreensão sacramental da tradição católica, e também possui critérios específicos sobre quem, quando e como pode ministrar e receber a “ordenança da Ceia do Senhor”. O padrão no Catolicismo é que, para receber o sacramento da Eucaristia, o candidato deve já ter recebido os sacramentos do Batismo e da Confirmação – e esses devem ter sido recebidos de forma válida9.


Já no que tange a muitas comunidades batistas, pode haver consequências para um membro que participe de ritos em outras comunidades de fé – para muitos batistas brasileiros, o Catolicismo é uma outra religião, e não uma expressão válida do Cristianismo –, logo, poderia não ser aceitável a prática de ele receber a Eucaristia numa missa católica (isto é, se ele assim pudesse fazê-lo numa igreja católica)!


Logo, como se vê, a questão de definições é muito complexa e possui consequências para a vida prática, tanto no interior de comunidades cristãs quanto na relação entre diferentes comunidades cristãs. Entretanto, vale enfatizar que essa não é uma exclusividade cristã. No Judaísmo, por exemplo, há a recorrente discussão sobre quem é judeu, e a consequente validade dos rituais oferecidos por comunidades judaicas que não sejam ortodoxas10.


As diferenças entre as variadas tradições cristãs tornam-se muito óbvias quando pensamos na forma em que igrejas de diferentes tradições cristãs recebem a novos membros. O padrão para que alguém seja aceito como membro da Igreja cristã é que tenha sido batizado, mas o que ocorre quando um cristão vindo de uma outra igreja cristã deseja juntar-se a uma tradição cristã diferente?


Para facilitar a compreensão, utilizemos o exemplo anterior na direção contrária: e, se por algum motivo, um católico romano quisesse juntar-se a uma igreja batista, o que seria exigido dele? Ele teria de ser batizado? Mas ele não já foi batizado antes? Por que teria de ser rebatizado? … As respostas a questões como essas podem parecer irrelevantes, mas elas dizem muito sobre nossa teologia – isto é, sobre o que pensamos sobre Deus, sobre Jesus, sobre a Bíblia, sobre a Tradição, sobre a Igreja etc –, além de terem um impacto real sobre a vida dos indivíduos cristãos, de suas famílias e da Igreja como um todo.


Há muitas razões históricas para que existam conflitos entre diferentes expressões da Igreja cristã, mas apontarei aqui pelo menos duas: [1] razões teológicas, ou seja, diferenças entre compreensões acerca da fé cristã; e [2] razões práticas – frequentemente litúrgicas –, ou seja, diferenças entre as formas como determinadas coisas são feitas na Igreja11.


Assim, se, no nosso exemplo, o batismo anterior dum cristão não é aceito para que ele se torne membro duma outra comunidade cristã – exigindo-se que ele seja rebatizado –, isso pode ser causado: [1] porque há diferenças claras entre compreensões sobre autoridade eclesiástica, ou sobre noções litúrgicas, ou sobre o sentido da fé cristã, ou sobre o papel da consciência no processo de se tornar um seguidor de Jesus Cristo etc; e, [2] frequentemente porque requisitos rituais não foram cumpridos para a comunidade receptora etc. Essas diferenças são reais e, infelizmente, criam barreiras para o cumprimento daquela oração atribuída a Jesus: “para que todos sejam um”12.


Levando em consideração essas questões teológicas que formam a base da discussão da identidade cristã, e meu próprio compromisso com o espírito ecumênico, identificarei como cristãs aqui todas aquelas tradições que se identificam explicitamente como igrejas cristãs. Incluirei nessa definição mesmo aquelas comunhões ou denominações que, geralmente, não são aceitas como cristãs pelas maiores igrejas cristãs – ou vice versa –, desde que preencham os requisitos mínimos que estabeleci no início deste capítulo.


Assim, aqui, o movimento dos “Santos dos Últimos Dias” (que inclui não apenas a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, mas também a Comunidade de Cristo e outros grupos menores), e o movimento dos “Estudantes da Bíblia” (que inclui os testemunhas de Jeová), por exemplo, encaixam-se na definição geral de igrejas cristãs. E, quando possível, darei informações sobre diferenças existentes na compreensão de diferentes grupos cristãos.


O que intenciono com isso é simplesmente enfatizar a diversidade daquilo que chamamos de Cristianismo – mas que prefiro pluralizar e chamar de “Cristianismos”. Para mim, a diversidade cristã é fonte de beleza e inspiração, e a Igreja seria espiritualmente mais pobre se em seu meio não se ouvissem vozes tão distintas. Como um cristão, minha oração é que, um dia, possamos todos sobrepujar nossas diferenças, podendo enxergarmo-nos mutuamente como membros duma mesma família de fé. Assim, apesar de poder discordar de muitas das perspectivas de outros cristãos, abraço-os como irmãos em Cristo e como co-andarilhos na senda cristã.


É importante, ademais, que eu esclareça algo relativo à minha própria experiência de fé. Por conta de minhas múltiplas heranças cristãs – sobre às quais falei no prefácio deste livro –, tendo a me ver religiosamente muito mais como “cristão” (isto é, de forma muito ampla) do que como membro duma tradição específica. Abraço as diferentes tradições que formaram minha compreensão da fé cristã como minhas, extraindo de cada uma delas aquilo que julgue me aproximar mais do Divino. Além disso, meu ministério eclesiástico é exercido no contexto duma “igreja unida”, isto é, duma comunidade que mantém laços com diferentes tradições cristãs. Assim, em minha experiência, é insuficiente dizer que sou um unitarista, um anglicano, um luterano, um restauracionista, ou mesmo protestante. Prefiro identificar-me simplesmente como um cristão, abrindo a possibilidade de agregar outros aprendizados àqueles que herdei de minhas múltiplas tradições cristãs.


NOTAS:



1 Atos dos Apóstolos 11:26b.
2 O termo igreja possui sentidos diferentes no vocabulário cristão. Além do sentido acima, o termo pode se referir, também, ao edifício utilizado por uma comunidade cristã específica como lugar de culto. Para que você compreenda o que quero dizer cada vez que utilizar o termo “igreja”, seguirei as seguintes regras: 1) Quando utilizar aqui o termo Igreja (com inicial maiúscula), estarei me referindo ao todo da comunidade cristã universal, independentemente da tradição ou denominação – a não ser que esteja citando o nome duma denominação cristã específica. Ex.: A Igreja compreende os seguidores de Jesus. (=a comunidade cristã universal) / A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil é a única denominação brasileira filiada à Comunhão Anglicana. (=nome próprio duma igreja específica); 2) Quando utilizar a palavra com inicial minúscula, estarei ou me referindo ao edifício de culto cristão ou a uma congregação cristã de forma mais geral. Ex.: Nesta cidade há muitas igrejas. (=edifícios de culto) / As várias igrejas católicas e protestantes daqui possuem muitos membros. (=congregações/comunidades cristãs).
3 Os termos ortodoxia e ortodoxo(a) possuem, ao menos, dois sentidos mais comuns. No capítulo anterior, apresentei um deles: o sentido de ortodoxia como a “crença correta”, com o adjetivo “ortodoxo(a)” relacionando-se a esse sentido (heresia é o antônimo desse primeiro sentido). Um segundo sentido frequente refere-se às formas de Cristianismo características das igrejas ortodoxas “orientais” da Grécia, da Rússia e de outras nações eslavas, por exemplo.
4 A Constituição, de 1948, do Conselho Mundial de Igrejas, por exemplo, afirma que aquela organização constitui-se das igrejas que “aceitam nosso Senhor Jesus Cristo como Deus e Salvador”. Esse é um tipo de definição ortodoxa muito específica do que seja ser cristão e Igreja ao qual muitos cristãos, e muitas comunidades cristãs, não estão dispostos a se submeter.
5 Como já esclareci antes, o termo heresia – e os adjetivos correlatos: herege e herético – são termos utilizados, na tradição cristã, para se fazer referência àquelas teologias ou práticas que não sejam ortodoxas. Heresia é antônimo de ortodoxia.
6 Ao longo deste livro, utilizo o termo “comunhão” com dois sentidos básicos: 1) para referir-me a um sacramento cristão – utilizando, para tanto, a inicial maiúscula – , ao qual posso referir-me também como “Santa Comunhão” ou “Eucaristia”, e que alguns protestantes chamam “Santa Ceia” ou “Ceia do Senhor”; e, 2) para referir-me a uma tradição cristã específica, por exemplo: A Comunhão Anglicana é formada por todas aquelas igrejas nacionais que mantêm laços com o Arcebispo de Cantuária, líder da Igreja da Inglaterra. / A Federação Luterana Mundial é a maior comunhão de igrejas luteranas no mundo.
7 A maioria, talvez, dos batistas brasileiros chamem-na de Ceia do Senhor ou Santa Ceia. Ademais, na tradição batista não há “sacramentos”, há “ordenanças”.
8 Tratarei sobre os Sacramentos cristãos num outro capítulo, mas vale adiantar que, nas tradições católicas e ortodoxas, eles são sete (o Batismo, a Confirmação, a Eucaristia, a Penitência, a Unção dos Enfermos, a Ordem e o Matrimônio); enquanto para as tradições protestantes sacramentais eles são apenas dois (o Batismo e a Comunhão).
9 A questão de validade ritual é complexa demais para ser tratada aqui, extrapolando as intenções deste livro.
10 O conceito de ortodoxia no Judaísmo, obviamente, segue critérios diferentes daqueles praticados no Cristianismo.
11 Devo ressaltar que alguém que esteja observando a questão a partir duma perspectiva externa à Igreja poderia enfatizar como razão principal para esses conflitos aspectos políticos – questões de “poder” –. Apesar de eu reconhecer o mérito de tal perspectiva (defendida por muitos cientistas sociais, historiadores, filósofos etc), compreendo-a como deveras reducionista, por não levar em consideração o fato de as relações eclesiásticas fundamentarem-se sobre compreensões teológicas, que se revelam muito mais complexas do que disputas por “poder”. Essas compreensões teológicas funcionam como bases identitárias de fé.
12 João 17:21.




FONTE:


COSTA, Gibson da. Redescobrindo o Cristianismo: uma confissão pessoal da fé cristã. Recife: CUP/GPress, 2014. p.37-49.
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