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quinta-feira, 26 de junho de 2014

Liberais, fundamentalistas, pentecostais e todos os protestantes brasileiros numa única conversa


Hoje, juntamente com um amigo, tive uma conversa interessante com um desconhecido num café que sempre frequentamos. O desconhecido falava sobre todos os “protestantes” que tentam “arrancar dinheiro dos idiotas” que vão às suas igrejas, e da forma como “essa gente” quer dominar o país com sua bancada no Congresso. Ele referiu-se aos “protestantes” como “um grupinho de gente retrógrada e preconceituosa” que desrespeita as crenças e valores de outras pessoas, e citou vários exemplos para construir seus argumentos.

Ouvi seus comentários respeitosamente. Quando terminou, me apresentei e apresentei meu amigo, um ministro presbiteriano, como (ministros) protestantes. Tentei explicar-lhe sobre a diversidade existente entre nós protestantes, utilizando meu amigo e eu como exemplos. Meu amigo lhe explicou sobre sua própria tradição Reformada, e eu falei-lhe sobre o Unitarismo e o Anglicanismo, minhas tradições pessoais, para tentar mostrar ao nosso novo amigo que não se deve pensar numa comunidade tão diversa como um grupo único. Nossa conversa foi muito agradável a partir dali e espero que tenha contribuído, de alguma forma, para sua compreensão dos riscos das generalizações desinformadas.

Obviamente, não lhe disse que mantenho ligações históricas, emocionais, teológicas e eclesiásticas com diferentes tradições cristãs. Não citei que fui ordenado formalmente, após treinamento teológico num seminário luterano (e em outro judaico), ao sacerdócio de uma igreja episcopal (anglicana), ao sacerdócio duma congregação luterana e ao ministério de uma igreja congregacional unitarista, nos Estados Unidos. Não falei que tenho uma história de ligação a cinco diferentes denominações protestantes norte-americanas – a Igreja Episcopal, a Igreja Unida de Cristo, a Igreja Cristã (Discípulos de Cristo), a Igreja Evangélica Luterana na América, e a Conferência de Igrejas Cristãs Unitaristas e Universalistas –, e, com essa história pessoal, não poderia deixar de tentar explicar-lhe um pouco sobre a diversidade protestante (por mais que a minha experiência não seja comum à maioria dos protestantes brasileiros).

Qualquer pessoa atenciosa já deve ter percebido que o Protestantismo brasileiro é extremamente cismático e dividido – obviamente, não apenas o brasileiro, mas nos detenhamos ao cenário nacional por agora. Obviamente, essa característica resulta, em parte, do tipo de Protestantismo majoritário no Brasil e não do ser protestante em si, como alguns poderiam sugerir. A maioria dos protestantes brasileiros, com exceção daqueles descendentes de famílias historicamente protestantes (como no caso das colônias de imigrantes ou das famílias “conversas” há pelo menos umas três gerações), são consequência de missões proselitistas de diferentes grupos “protestantes”, especialmente os de tradições evangelicais (os comumente chamados de “evangélicos”).

Essa origem nas missões proselitistas evangelicais – adicionando a isso o fato de os “evangélicos” brasileiros, em sua aparente maioria, estranhamente mesclarem uma mensagem “carismática” (i.e., “pentecostal”) com uma teologia “fundamentalista” – parece ter contribuído, em grande parte, para o espírito de disputa que há entre muitos desses grupos que, particularmente, chamo de “neoprotestantes”.

Como o uso do termo “fundamentalismo” é problemático, devo explicar minha utilização dele aqui. Apesar de ser um cristão liberal, nunca utilizo o termo “fundamentalismo”, e seus adjetivos, como um termo pejorativo – da forma como alguns na imprensa ou na política o utilizam. “Fundamentalismo” aqui refere-se especificamente ao movimento teológico conservador protestante, iniciado pelo teólogo e ministro presbiteriano Charles Hodge no Seminário Teológico de Princeton (nos EUA), na segunda metade do século XIX, como resposta ao modernismo/liberalismo teológico (minha própria tradição teológica) então dominante nas principais denominações protestantes norte-americanas. O movimento recebeu contribuições na obra de John Nelson Darby, e sua doutrina dispensacionalista, e, entre 1910 e 1915, centrou-se em torno da série de panfletos chamados “The Fundamentals” (Os Fundamentos), que – além de originarem o nome do movimento – ajudariam a estabelecer as cinco doutrinas sobre as quais o movimento se firmaria: [1] a inerrância das Escrituras; [2] o nascimento virginal de Cristo; [3] a morte expiatória de Cristo como única forma de salvação; [4] a ressurreição física e corporal de Cristo; e [5] a realidade dos milagres de Cristo e de seu retorno físico.

Diferentemente do que se poderia imaginar, ao se ouvir o termo sendo utilizado na imprensa hoje em dia, o “fundamentalismo” não era um movimento de ignorantes desinformados. Era justamente o contrário disso. Esse movimento teológico emergiu entre teólogos e ministros protestantes conservadores altamente instruídos, como uma resposta a teólogos e ministros liberais também altamente instruídos. A “teologia modernista (ou liberal)” era vista pela “teologia fundamentalista” como uma negação dos “fundamentos” do Cristianismo. O problema é que ambos os grupos entendiam que esses “fundamentos” se constituíam de diferentes coisas. Os liberais pregavam uma mensagem que se preocupava mais com as ações do que com os dogmas – o que nós liberais de hoje chamamos de “ortopraxia” –, isso fez com que, por exemplo, o “Evangelho Social” predominasse em seu meio. Os fundamentalistas, por sua vez, acreditavam que os liberais contribuíam para a dessacralização da fé cristã e, por isso, pregavam o que consideravam um “retorno à fé verdadeira”, ou seja, um retorno àquilo que entendiam como os dogmas essenciais do Cristianismo (aquelas cinco doutrinas que citei acima). Olhando para aqueles grupos com a distância de um século, vejo que ambos estavam certos e ambos estavam errados em alguns de seus princípios e conclusões!

A disputa entre esses dois grupos, que se iniciou na maior denominação Presbiteriana nos Estados Unidos durante as décadas de 1920 e 1930, mais tarde se alastrou para a maioria das denominações protestantes nos Estados Unidos e no Canadá. E como a maioria dos protestantes brasileiros estavam ligados, durante parte do século XX, às denominações em conflito nos Estados Unidos, a disputa foi copiada aqui. Pernambuco foi um importante centro nesse conflito, já que foi aqui que o movimento fundamentalista se organizou, sob a liderança do ministro Jerônimo Gueiros, a partir da década de 1940, no seio da Igreja Presbiteriana do Brasil. Posteriormente, a partir de 1956, o sobrinho do Rev. Gueiros, o também ministro Israel Gueiros (pastor da 1ª Igreja Presbiteriana do Recife) lideraria o movimento, que levou à fundação da Igreja Presbiteriana Fundamentalista do Brasil. As consequências, obviamente, seriam sentidas nas diferentes denominações Presbiterianas no país. O impacto da teologia fundamentalista alcançou grande parte das igrejas protestantes brasileiras além dos Presbiterianos (como alguns batistas, congregacionais, metodistas e muitos anglicanos evangelicais), especialmente no Nordeste.

Apesar das, inicialmente, claras distinções teológicas entre pentecostais e fundamentalistas, o “evangelicalismo neopentecostal” brasileiro conseguiu criar uma combinação das duas visões teológicas. E essa parece ter se tornado o consenso entre grande parte dos “evangélicos” brasileiros, ao menos a julgar por suas publicações e programas de rádio e televisão. Esse “consenso” derruba a distinção de tradições teológicas como a calvinista e a arminiana para os neoprotestantes. E para esses e os protestantes mais tradicionais, sem mencionar os não-protestantes (como o novo amigo que citei no início), esse “consenso” apaga qualquer rastro da existência de protestantes liberais como eu.

O que é mais perturbador, para mim, na maneira como os neoprotestantes são nutridos teologicamente por seus líderes é que se tornam inimigos da diversidade cristã (para não citar da diversidade humana), já que apenas sua forma de interpretar a fé é válida. Isso, obviamente, poderia ser apontado como a grande herança negativa do Fundamentalismo – todos os outros estão errados, menos “nós”, é seu refrão. Uma outra consequência negativa, ao menos para alguns grupos neoprotestantes, é o assalto à autonomia individual, especialmente no que tange à integridade intelectual do indivíduo. O controle do comportamento e crenças pessoais por líderes eclasiásticos entra em contradição com grande parte da herança da qual descendem alguns desses grupos - e poderia citar, mais especificamente, o exemplo dos batistas.

Por outro lado, esses neoprotestantes, apesar de sua não familiaridade com a teologia histórica e com a história da Igreja, praticam em sua vida um misto da ideia do “ethos protestante” de Weber (aparentemente tão presente na tradição fundamentalista) com o Evangelho Social pregado por Walter Rauschenbusch (tão presente na tradição liberal). Isso resulta num compromisso com a Bíblia e com publicações religiosas, mesmo que de maneira para mim equivocada, e consequentemente com o letramento do fiel – o que é importantíssimo para muitos desses grupos. Trata-se duma recriação teológica que tenho curiosidade de saber no que resultará em alguns anos.

Isso só para falar sobre uma família dos protestantes brasileiros. O Protestantismo brasileiro, como expliquei ao meu novo amigo no café esta manhã, tem muitas vozes e muitas faces – algumas mais numerosas, outras nem tanto. Batistas, assembleianos, presbiterianos, luteranos, anglicanos, metodistas, unitaristas, congregacionais, restauracionistas, etc, etc, etc. Nem todos são fundamentalistas, nem todos são pentecostais, nem todos são neopentecostais.

Particularmente, não sou parte de nenhuma das três famílias, mas considero a todos eles como meus “irmãos na fé”, da mesma forma como os católicos, os ortodoxos, e outros grupos cristãos (como considero a absolutamente todos os humanos como meus irmãos). Considerá-los como meus irmãos na fé, contudo, não apaga nossas diferenças, apenas incentiva-me a tentar construir pontes entres nós por meio daquilo que nos une.

Para concluir, devo afirmar que rejeito qualquer crença religiosa, qualquer fé, qualquer comunidade que seja um obstáculo à liberdade de minha própria consciência. Acredito que religião, especialmente aquilo que chamo de "Protestantismos" (no plural), não seja sinônimo necessário de prisão intelectual e de falta de autonomia individual. Logo, não tenho nenhuma tolerância para com o abuso à integridade individual como praticado em algumas comunidades ditas "evangélicas" ou "protestantes" no Brasil. Torna-se necessário redescobrir a diversidade protestante, a multiplicidade de vozes no seio protestante!

+Gibson
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