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sábado, 26 de agosto de 2017

Não à "tolerância"!



Você defenderá a justiça e a paz para todas as pessoas, e respeitará a dignidade de cada ser humano?
Sim, com a ajuda de Deus.
(Trecho da Aliança Batismal)


Como bem nos lembram as promessas que reafirmamos quando recitamos a Aliança Batismal, somos religiosamente educados para honrar a dignidade humana. O ser humano, nas tradições jordânicas – os judaísmos, os cristianismos, os islãs, os babismos etc –, é compreendido como tendo sido criado à “imagem de Deus”. Assim, respeitá-lo como uma criação divina e honrar sua dignidade e valor é indissociável das compreensões que nossas tradições têm do Divino.

Essa preocupação com o valor e a dignidade humana é, às vezes, rearticulado através daquela palavra tão repetida: “tolerância”. Assim, frequentemente, fala-se em “tolerar” outras pessoas, “tolerar” os que pensam diferentemente de nós, “tolerar” as outras tradições de fé (religiões), “tolerar”, “tolerar”.

Pessoalmente, tenho um enorme desconforto com a palavra “tolerância” e todos os verbos e adjetivos com os quais se relaciona. Mesmo compreendendo o sentido que muitos entre nós dão a esses termos, “tolerância”, “tolerar” e “tolerante” parecem ser exatamente o contrário do espírito que nossas tradições – e, mais especificamente, os cristianismos – nos convidam a materializar em nossas ações.

Afirmarmo-nos como “tolerantes”, para mim, seria o ápice da arrogância espiritual. Ora, ter “tolerância” por alguém é afirmar que me encontro numa posição mais elevada, mais avantajada do que ela, e que ofereço-a minha “misericórdia”. É dizer que sei mais do que ela e que, por isso, demonstro-lhe minha “piedade” para com seu estado de ignorância.

Isso, certamente, não é o que prometemos quando rezamos em comunidade nossa Aliança Batismal nas liturgias de Batismo e de Confirmação. O que prometemos é enxergar e servir a Deus uns nos outros e em todos os demais seres humanos, independentemente de quem sejam, de onde estejam em sua jornada espiritual e do que tenham feito na vida. E aquela promessa não nos exige “tolerância”: exige respeito, exige reconhecimento, exige apreciação, exige serviço, exige amor – não “tolerância”.

Respeitar, reconhecer, apreciar, servir, amar não equivalem a abandonarmos nossas crenças e princípios, a concordarmos com tudo o que os outros pensam. Equivale, sim, a aceitar que da mesma forma como temos o direito de buscar, de crer, de descrer, de ser, outras pessoas – especialmente aquelas de quem discordamos – também têm. E fazê-lo é reconhecer que nossa compreensão do Divino e de nós mesmos é limitada, e que Deus não é nossa propriedade. Demonstrar “tolerância”, por outro lado, é negar essa limitação à qual todos estamos sujeitos(as).

Não à "tolerância"! Deus nos livre da “tolerância”!

+Gibson


quarta-feira, 27 de julho de 2016

Quem nos salvará do Império da Ignorância?!


A receita nunca falha, independentemente da época, independentemente da cultura, independentemente da língua, independentemente do lugar. Adicione hipocrisia a uma forma de autoritarismo, ao iletramento religioso e à ignorância histórica: o resultado é sempre o discurso da vitimização com base no medo, regendo a retórica do ódio e intolerância com vistas a uma idealizada retomada dum “estado” que nunca existiu.

A Igreja latina usou essa receita contra a Igreja grega e as Igrejas orientais ao longo de sua história. A Igreja grega e as Igrejas orientais usaram essa mesma receita contra a Igreja latina e umas contra as outras. Os católicos romanos usaram essa receita contra os diferentes grupos protestantes no início da Reforma. Diferentes grupos protestantes usaram essa mesma receita contra os católicos e uns contra os outros, posteriormente. Os muçulmanos sunitas usaram a receita contra os xiitas e outros grupos. Os xiitas e outros grupos usaram-na contra os sunitas. Cristãos usaram a velha receita contra judeus e muçulmanos. Judeus e muçulmanos usaram-na contra cristãos. Judeus das mais diferentes tradições usaram-na uns contra os outros. E a história continua.

Até que uma legião de hipócritas, autoritários, iletrados em religião e ignorantes em história religiosa conseguem meios gratuitos para manifestarem sua ignorância aos quatro ventos... e voilà: pode-se ler as manifestações mais assustadoramente vergonhosas nas “redes sociais” eletrônicas!

Abaixo, minha resposta a algumas dessas manifestações:

Não, “cristãos” não estão sendo “perseguidos” por “muçulmanos” no Ocidente. Um sacerdote francês foi brutalmente morto por assassinos que agiram – em parte, por conta de sua hipocrisia, seu autoritarismo, seu iletramento religioso e sua ignorância histórica –, usando sua professa religião como desculpa.

Não, “muçulmanos” não estão sendo “perseguidos” por “cristãos” no Ocidente. Os cristãos que manifestam intolerância aos muçulmanos – usando sua professa religião como desculpa –, o fazem, em parte, por conta de sua hipocrisia, seu autoritarismo, seu iletramento religioso e sua ignorância histórica.

Esses professos muçulmanos e cristãos não representam todos os demais muçulmanos e cristãos. E nenhum deles representa, em princípio, uma ameaça à “harmonia original” de uma tradição ou outra. Até porque nunca houve uma “harmonia original”!

Um pouco de estudo histórico mostraria, por exemplo, que os governos “cristãos” do passado agiram por muito mais tempo de forma intolerante e sanguinária contra judeus, muçulmanos e quaisquer outras minorias do que os governos “muçulmanos”. E que os mesmos governos “muçulmanos” do passado demonstraram uma tolerância e proteção a judeus e cristãos incompreensível aos olhos dos cristãos.

Enquanto os governos “cristãos” europeus torturavam, matavam e expulsavam judeus de seus territórios, os “califados muçulmanos” permitiram que uma influente comunidade judaica florescesse em seu meio. E isso ao longo de séculos!

As coisas só mudaram quando a Europa foi laicizada, secularizada. Interessante, não?! Foi justamente o afastamento – mesmo que apenas formal – da religião do poder do Estado que fez com que os crentes/praticantes de outras religiões não fossem mais assassinados ou punidos por conta de sua fé.

Nos países de maioria muçulmana onde se desenvolvem ideias “islamistas jihadistas” – a propósito, “islã” é o nome da religião, “movimento islamista” (ou “islamita”) é um conjunto de movimentos fundamentados numa ideologia política frequentemente chamada de “Islã político”, e “jihadismo” é uma ideologia revolucionária islamista frequentemente belicista, nenhum desses termos é necessariamente sinônimo um do outro –, ideias abraçadas por muitos dos “revolucionários” tornados terroristas, há exatamente o mesmo tipo de reacionarismo contra a secularização e a mesma intolerância a outras tradições religiosas divulgada por grupos cristãos ditos (equivocadamente) “conservadores” no Ocidente. As maiores vítimas desses grupos islamistas jihadistas não são os cristãos, são, na verdade, outros muçulmanos – que são a maioria – que não pensam nem agem como eles.

Atribuir ao Islã e a todos os muçulmanos os crimes praticados por terroristas jihadistas é como imputar os crimes dos terroristas do Exército Republicano Irlandês ao Catolicismo Romano e a todos os católicos do mundo. Só um autoritário, iletrado religioso e ignorante da história o faria.

Quem, afinal, nos salvará do Império da Ignorância?!

+Gibson da Costa

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Uma inaceitável ameaça à liberdade religiosa

Lendo o Globo online hoje, me deparei com a absurda notícia – que desconhecia até hoje – de que um juiz do Tribunal Regional Federal havia decidido que “as manifestações religiosas afro-brasileiras não se constituem religião”. Mais um desrespeito ultrajante aos princípios constitucionais que estabelecem, no art. 5 da Constituição Federal, a liberdade religiosa, mas também a proteção aos locais de culto e as suas liturgias. Lá não se encontra nenhuma definição do que seja uma religião, até porque não é papel do Estado, o que inclui as cortes, intrometer-se na definição do que uma tradição religiosa deva ter ou fazer para ser considerada uma “religião”.

Como um cristão, como um ministro religioso, e como um cidadão comprometido com a liberdade, não aceito essa discriminação contra outras tradições de fé. E você que lê minhas palavras também não deveria aceitá-la.

Deixo aqui de lado, por hora, a questão que causou todo esse absurdo – vídeos de cristãos evangelicais que faziam comentários sobre religiões afro-brasileiras –, já que, como sabem, sou um radical em termos de liberdade de expressão, ou seja, não acredito que alguém que expresse uma opinião deva ser punido simplesmente por sua opinião ser impopular (a não ser que haja ameaça, impulsionamento à violência, etc). O que me interessa é protestar aqui contra a ignorância e intromissão indevida de quem deveria proteger o cidadão de abusos contra os seus direitos constitucionais e humanos. E isso não pode ser aceito pela sociedade, e muito menos pelos cristãos.

Ninguém pode estar livre para viver a sua fé, a não ser que toda a sociedade – independentemente do que acredite – também esteja livre para crer ou descrer no que quer que seja. Juiz algum, sob as leis que possuímos hoje, pode definir o que seja uma religião ou não. A lei tem o poder de limitar o que pode ser feito num culto religioso, se o que é feito viola outros aspectos da legislação (por exemplo, uma religião não poderia fazer sacrifícios humanos), mas não pode definir o que é uma religião ou não – essa definição é dada pelos seguidores da mesma, e apenas eles.

Isso necessariamente me leva a afirmar que a liberdade religiosa é uma espada de dois gumes – você tem liberdade para crer e praticar, mas outros têm a liberdade de criticar suas crenças e práticas nos limites da lei.

Seja como for, essa decisão não pode ser aceita por uma sociedade onde somos, constitucionalmente livres para crer e praticar nossa fé religiosa, e termos essa mesma fé reconhecida como uma “religião”.

+Gibson