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terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Novamente, a verdade


Para responder, de forma muito breve, a uma pergunta que me foi feita:

Como alguém que trabalha nos campos da História, da Teologia e da Filosofia, realmente não acredito que a História, a Teologia ou a Filosofia nos ajudem a encontrar a “verdade”. O que elas podem fazer é nos ajudar a compreender a “mudança” e a elaborar e organizar “conceitos”. Mas nem a “mudança” nem os “conceitos” são “a verdade”. Se é “a verdade” que buscamos, é muito mais provável que a encontremos na poesia, na ficção, nas artes em geral e nas relações com outros seres humanos (que chamo de “espiritualidade”) – expressões essas que transcendem as limitações de nossa humanidade. A “verdade” sobre a dimensão misteriosa de nossa existência, sobre o Sagrado, assim, não se encontra nos conceitos humanos – nesses conceitos encontramos apenas pistas que apontam para um caminho, e não a “verdade” em si.

+Gibson

sábado, 24 de dezembro de 2016

Um significado para a narrativa do Natal


Frequentemente, utilizo as palavras “metáfora” e “mito” para me referir às narrativas bíblicas. Por conta disso, já me acostumei às reações que muitas pessoas têm a esse uso. Muitos, por exemplo, podem não se sentir desconfortáveis com o termo “metáfora”, mas reagem negativamente ao termo “mito” por compreendê-lo erroneamente: entendem “mito” como sinônimo de “mentira”; assim como entendem “verdade” erroneamente como sinônimo, apenas, de “factualidade”. Eu, obviamente, continuarei a utilizar esses termos para tratar de três grandes “mitos” cristãos – as narrativas sobre o nascimento, a morte e a ressurreição de Jesus de Nazaré – e hoje, especificamente, gostaria de tratar acerca do mito do Natal de Jesus.

No estudo da religião e da teologia, um “mito” não é uma “mentira”. Mitos sagrados, como aqueles que encontramos na Bíblia, por exemplo, são narrativas simbólicas sobre a relação entre a dimensão sagrada e aquela de nossa experiência comum. Esses mitos são verdadeiros, mesmo que não sejam relatos factuais do que aconteceu na realidade humana. Sua verdade encontra-se além de sua (não) factualidade. Mesmo que a linguagem utilizada na Bíblia cristã para falar sobre o nascimento de Jesus – uma mãe virgem, três reis do Oriente, uma nova estrela, etc – não represente factualidades históricas, isto é, coisas que factualmente aconteceram no mundo físico, ela aponta para o significado que Jesus tem para a narrativa cristã. É nesse sentido que – acompanhando autores como Rudolf Otto, Mircea Eliade, William James e Marcus J. Borg – chamo esses relatos de “mitos”.

Obviamente, talvez a maioria dos cristãos abrace uma interpretação apresentada como “literal” (ou seja, o que “está escrito” deve ser compreendido exatamente como está expresso no texto) – apesar de que, se formos intelectualmente íntegros, deveremos reconhecer que absolutamente ninguém razoável interpreta o todo das Escrituras Sagradas de forma literal, já que toda interpretação é sempre seletiva (mesmo as mais aparentemente “literais”). Assim, muitos cristãos insistirão que não é possível “ser cristão” sem acreditar na literalidade das narrativas bíblicas sobre o nascimento de Jesus, por exemplo. Essa visão factualista das Escrituras tem uma origem moderna, mas foi naturalizada de tal forma, por tantos cristãos, que nossa cultura a vê como a norma, ignorando as diferentes tradições interpretativas da Igreja cristã.

A necessidade de certezas absolutas, para aqueles que compreendem a história como um conflito entre a “verdade” e a “mentira”, faz com que só possa haver duas possibilidades: ou o nascimento de Jesus se deu como dizem os diferentes relatos do Novo Testamento cristão ou esses relatos são mentirosos – o que muitas dessas pessoas não se dão conta é que todos os relatos nos Evangelhos canônicos são diferentes, por mais que mantenham elementos em comum. Assim, o que se perde – com essa ênfase factualista – é o poder da linguagem metafórica que enriquece os elementos factuais da narrativa natalina. A arte linguística da metáfora, presente naquelas narrativas bíblicas não exige nossa “crença”: exige, sim, nossa “visão”; ou como já escreveu o falecido professor Marcus J. Borg: “O ponto não é acreditar em uma metáfora, mas ver à luz dela” (2001: 41).

“Ver à luz” da metáfora natalina é, em minha experiência espiritual, ser circundado por uma melodia que me convida à dança divina – uma dança que honra minha própria humanidade ao despertar em mim um senso de dependência e de compaixão. Esse senso não significa que eu tenha, de alguma forma, me “aperfeiçoado”; significa, sim, que sou ajudado a reconhecer a necessidade de me aproximar do “divino” através da aproximação a outras pessoas e ao resto da Criação.

Assim, pensar na narrativa dum “príncipe da paz” que nasceu em condições de exclusão (Lucas 2:7) e sob a ameaça da violência e que, por isso, teve de se refugiar em terra estrangeira (Mateus 2:13-15) – independentemente da (não) factualidade do relato – me faz pensar naqueles seres humanos que, hoje, realmente passarão o Natal se refugiando da violência humana. Esses seres humanos, para mim, são também “Deus conosco”, já que são a presença divina testemunhando contra nosso pecado de violência e indiferença ao sofrimento humano. O relato mais que factual sobre o nascimento do menino chamado de o “príncipe da paz”, no meu “ver à luz” da metáfora, é um lembrete de que eu – enquanto discípulo professo daquele personagem – não posso aceitar que outros seres humanos sejam tratados indignamente. Afinal, como diriam as palavras atribuídas àquele mesmo menino, já como adulto, “todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram” (Mateus 25:40).

Assim, ser envolto pela melodia narrativa do Natal é ser relembrado da visão de “shalom”/”salam” presente nas Escrituras. A visão de um menino que vem à terra como o “Deus conosco” e mostra que todos os seus “irmãos” são também “Deus conosco”, e que devemos tratá-los como trataríamos aquele que chamamos de nosso “Salvador”.

As celebrações desta noite são, para mim, um lembrete desta tarefa sagrada que nos foi imposta por nosso Profeta, Mestre, Messias, Senhor – sim, Jesus de Nazaré, chamado de Cristo. Esse é um dos mais importantes sentidos que encontro na narrativa natalina: um convite à “divinização” de toda a vida, de toda a humanidade, de toda a Criação – um lembrete de que Deus se faz presente em minha vida por meio de outras pessoas, de que suas faces são um reflexo da Presença divina e daquele que seria chamado de “Filho do homem”.

Minha sincera oração é que todos nós que professamos ser discípulos de Jesus Cristo tenhamos a ousadia de fazer ao nosso próximo o que faríamos a ele próprio. Que nos levantemos contra a violência, o descaso, a indiferença, o egoísmo e entremos naquela dança divina à qual somos convidados pelos cânticos natalinos. Como dizem as palavras daquela Oração de Despedida:

Cristo nasce em nós quando abrimos nossos corações à inocência e ao amor. Cristo vive em nós quando caminhamos a senda do perdão, reconciliação e compaixão. Cristo morre em nós quando nos rendemos à nossa própria arrogância, egoísmo e ódio. Cristo ressuscita em nós quando nossas almas se despertam da morte espiritual para se unirem à comunidade de amor, para entrar no reino divino aqui mesmo neste mundo. […]”

Feliz Natal a todos. Que a metáfora da narrativa natalina possa ajudar-nos a abrirmos nossos corações e a caminharmos a senda de Jesus.

+Gibson


Referência:

BORG, Marcus J. Reading the Bible again for the first time. Nova York: HarperCollins, 2001.


sábado, 15 de agosto de 2015

O(s) Cristianismo(s) e a contextualização da “verdade”


Se vocês guardarem a minha palavra, vocês de fato serão meus discípulos; conhecerão a verdade, e a verdade libertará vocês.
(João 8:32)



Ao longo de minha vida ministerial e acadêmica, tenho tido o desprazer de lidar com visões deveras estereotipadas do(s) Cristianismo(s). Visões essas que são professadas não apenas por pessoas com baixo nível de instrução escolar formal – que, aparentemente, tendem a abraçar formas mais “estritas” de crenças e práticas religiosas –, mas também por aquelas que, num outro extremo, possuem um alto nível de instrução formal – especialmente aquelas que abraçam formas mais “estritas” duma mentalidade contrária à religião institucionalizada (para os quais, geralmente, o[s] Cristianismo[s] seria[m] o[s] modelo[s] paradigmático[s]).

Obviamente, para mim, há um grande problema com as visões “estritas” de seja lá o que for (especialmente no que tange à fé), porque elas são – na maioria das vezes – contextualmente “desinformadas”.

Compreendo o(s) Cristianismo(s) como um diálogo incessante entre a “tradição” que recebemos do passado e o nosso “contexto” presente (o nosso “hoje”). Os Cristianismos – sim, o Cristianismo é plural demais para que eu utilize um substantivo singular para me referir a ele –, enquanto conjuntos de compreensões, de práticas, de esperanças, e de pessoas, sempre foram esse “diálogo” – para o bem ou para o mal. Assim, ao longo dos séculos, a “tradição” é reformulada para ser capaz de conversar com a experiência do fiel.

Alguns dirão que essa “reformulação” é um abandono daquilo que consideram ser “a verdade”. Isso ocorre, em parte, porque compreendem “a verdade” como uma “substância” mensurável, como algo que pode ser congelado ou petrificado no tempo. Como algo fundamentalmente distinto dos contextos dos quais emerge. Os que pensam assim, obviamente, desconsideram que sua própria visão é uma “reformulação” da herança do passado.

Quando olho para a história do pensamento cristão, isto é, para a forma como as doutrinas cristãs foram (re)formuladas ao longo dos séculos – área na qual me ocupo em minhas atividades teológicas –, esse diálogo entre “tradição” e “contexto”, entre passado e presente, se torna muito claro. E se torna claro, também, que é insensato e contraditório afirmar que a “verdade” teológica seja algo petrificado e imutável.

Quando falo em “verdade”, aqui, me refiro tanto à nossa compreensão teológica quanto à forma como a articulamos em nossas atividades discursivas. A “verdade”, aqui, não inclui o objeto final ou material de nossas reflexões. Assim, toda a Igreja – me refiro não a uma instituição, mas a todas as pessoas que professam a fé cristã – professa fé em Deus e, por isso, Deus é uma verdade inquestionável para qualquer cristão professo. Essa verdade final, entretanto, não é articulada da mesma forma por todos os cristãos. Variadas tradições cristãs, e incontáveis cristãos individuais, articulam uma compreensão sobre Deus que não são aceitas por outros cristãos – ou seja, a verdade “material” (aquilo/aquele com o qual/quem se ocupa) é a mesma, mas a verdade “conceitual” (o que se pensa sobre a “verdade material”) é distinta, dependendo de uma imensa variedade de circunstâncias. E quem poderá dizer que sua verdade conceitual é a única “verdadeira” e aceitável, se sua verdade material é, para nosso contexto cultural, objetivamente imensurável?

Gosto sempre de citar as palavras do grande pensador unitarista, e fundador do campo da História das Ideias, Arthur Oncken Lovejoy, que escreveu:

[…] pessoas que igualmente professaram o Cristianismo e chamaram a si mesmas de cristãs mantiveram, no curso da história, toda a espécie de crenças distintas e conflitantes agrupadas sob esse nome, mas também que qualquer uma dessas pessoas e seitas mantiveram, via de regra, sob esse nome um conjunto de ideias muito variadas, cuja combinação dentro de um conglomerado que traz um único nome e que se supunha constituir uma unidade real foi em geral o resultado de processos históricos de um gênero altamente complicado e curioso. […] i

Obviamente, aqueles que utilizam a proteção dogmática como justificativa para sua própria compreensão, e como artifício para a reprovação daqueles que abraçam outras compreensões teológicas, dirão que essa diversidade seja fruto de “heresias” ou de “apostasias” – a própria utilização desses termos por alguns deles é problemática, já que é descontextualizada. Eu, por outro lado, as vejo como resultado dos próprios contextos nos quais as diversas visões emergiram.

Pensemos, por exemplo, na Cristologia, que é o campo da Teologia cristã que se ocupa do ser e da obra de Cristo. A maioria dos não cristãos imagina que todos os cristãos sempre tenham professado e que todos professem que Deus seja uma Trindade (como o requer a compreensão ortodoxa a partir do Credo de Niceia) e que, consequentemente, Jesus seja Deus. Para a maioria dos cristãos, Deus realmente é uma Trindade: Pai, Filho, e Espírito Santo. Claramente, entretanto, apenas uma ínfima minoria dos cristãos consegue compreender e explicar exatamente o que isso significa, já que o dogma ortodoxo da Trindade se sustenta sob uma série de compreensões filosóficas e sobre uma linguagem estranhos à maioria das pessoas hoje em dia. Ademais, e mais importante, nem todos os cristãos foram ou são “trinitaristas” – ou seja, nem todos os cristãos professaram ou professam o dogma ortodoxo da Trindade.

Na história da Teologia cristã, Jesus nem sempre foi Deus. Na verdade, com frequência, os cristãos se esquecem – se é que se dão conta disso – que Jesus sequer era “cristão”. Sua compreensão de Deus estava enraizada numa tradição que, em muitos aspectos, contradiria aquela das ortodoxias cristãs (sejam as orientais ou as ocidentais). Jesus, de acordo com os registros dos Evangelhos, jamais afirmou explicitamente ser Deus. E se de fato o tivesse feito, isso teria sido um afastamento incalculável de toda a tradição teológica das Escrituras do povo de Israel. Mas, todo estudioso intelectualmente íntegro saberá, hoje, quando e como Jesus se tornou Deus. As compreensões teológicas cristãs se desenvolveram de acordo com os contextos nos quais se encontravam os que professavam a fé em Cristo. Assim, doutrinas como as da Encarnação e da salvação por meio dum sacrifício expiatório – que são necessárias à noção ortodoxa da Trindade –, por exemplo, emergiram a partir do encontro entre a fé dos primeiros “cristãos” e as filosofias greco-romanas.

O que é importante acentuar, contudo, é que o fato de o dogma teológico ser uma construção humana não o torna inválido ou “não verdade”. Muito pelo contrário. A “verdade” (lembre-se que, aqui, me refiro à verdade enquanto o que se pensa sobre um objeto de reflexão, e não ao objeto em si da reflexão teológica) é uma construção da tradição na qual é (re)formulada. Assim, o que é “verdadeiro” ou “falso” para uma comunidade de fé – ao menos em tradições que enfatizam a comunidade enquanto centro de aprendizado e prática, como a Igreja – é definido por aquela própria comunidade. [Uma perspectiva que não deixa de ser paradoxal para protestantes crescidos em culturas individualistas como as nossas.]

A articulação dos conceitos teológicos cristãos acerca de Jesus Cristo e de sua relação com o todo da fé cristã passou por um processo de construção que durou séculos – e que, na verdade, ainda não acabou, ao menos no que tange a alguns grupos não “ortodoxos”. E, infelizmente, muitas das decisões tomadas sobre quem tinha razão nas disputas teológicas, após o(s) Cristianismo(s) se associar(em) ao poder secular, basearam-se mais na força política do que nos argumentos teológicos.

Dessa longa história advém a projeção inconsciente que fazemos quando lemos os textos bíblicos. Sempre gosto de enfatizar que costumamos projetar sobre os textos que lemos visões de mundo que, em si, não estão necessariamente presentes nesses textos. Como exemplo, sempre utilizo a narrativa sobre Adão e Eva e o “fruto proibido” que, em sua interpretação mais inocente, é identificado como uma “maçã” – apesar de o texto bíblico em si não utilizar o termo. O “fruto” foi frequentemente interpretado como “maçã” por conta do contexto exterior à narrativa bíblica. No caso específico da Cristologia, mesmo aqueles que afirmam basear toda a sua fé na leitura da Bíblia, quando leem o texto sagrado, projetam sobre ele a tradição trinitarista ortodoxa que não está necessariamente presente lá de forma explícita. Inconscientemente, apelam a construções filosóficas para a construção de sua teologia, que são inseparáveis dos contextos nos quais tais construções filosóficas emergiram e das razões e formas pelas quais continuaram a fazer sentido para quem as abraçam hoje.

Se pensássemos sobre outros campos teológicos, como a Eclesiologia, por exemplo, veríamos que as três formas mais comuns de administração/organização eclesiástica na Igreja ocidental – o episcopalismo, o presbiterianismo e o congregacionalismo – também dependem duma série de fatores que condicionam a visão de quem lê o texto bíblico. Ou seja, mais uma vez, projetaremos uma visão de mundo não plenamente presente nos textos sagrados em nossa leitura.

Ou seja, gostemos ou não do termo ou da ideia, nossas compreensões teológicas/religiosas são sempre relativas, porque sempre mantêm uma relação com os contextos nos quais emergiram. Nossas tradições de fé emergem num universo cultural particular e fazem uso da língua e dos símbolos daquele universo, ao mesmo tempo em que subvertem os valores desse universo e que, posteriormente, possam construir um universo à parte.

Como tenho sempre afirmado, estar consciente disso não representa uma ameaça à minha fé pessoal – e não deveria representar uma ameaça à fé de ninguém. Muito frequentemente, minha compreensão tem sido atacada por outros fiéis com perguntas como “Como você decide que partes da Bíblia são verdadeiras?”, ou com afirmações como “Você só escolhe o que lhe é mais conveniente!”. Bem, responder a esse tipo de perguntas ou acusações é problemático pelo simples motivo de se basearam em premissas equivocadas. Posso afirmar o que afirmo e manter minha fé porque ela se assenta sobre uma série de perspectivas que são diferentes daquelas abraçadas pelos autores daqueles questionamentos. Nossas visões de autoria, autoridade, liberdade, consciência, comunidade, individualidade, Divindade, humanidade etc, são distintas e, por essa razão, chegamos a considerações bem diferentes. Ou seja, temos visões relativas da realidade e da Realidade! Isso não nos torna mais ou menos “verdadeiros” em relação uns aos outros – no máximo, nos torna mais ou menos conformistas em relação às nossas próprias tradições de fé particulares.


i LOVEJOY, Arthur O. A grande cadeia do ser: um estudo da história de uma ideia. Tradução Aldo Fernando Barbieri. São Paulo: Editora Palíndromo, 2005. p.16.



+Gibson

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Verdade e questões complexas: uma resposta a Márcia


[Esta é uma resposta à longa mensagem que recebi da leitora Márcia. Como em seu e-mail ela aborda muitos diferentes temas – que incluem teologia, educação e política –, dividirei minhas respostas nos blogs apropriados (aos quais ela faz referência em sua mensagem). Aqui, obviamente, responderei a algumas de suas questões teológicas (talvez, tenha de fazê-lo em mais de uma postagem).]

Cara Márcia,

E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:32)

Como você mesma percebeu, rejeito a noção de que apenas uma tradição cristã seja a “verdadeira”. Se eu a defendesse, minha própria vida religiosa testificaria contra mim. Como já escrevi aqui muitas vezes, estou ligado a diferentes tradições cristãs, tendo, inclusive, sido ordenado em diferentes comunhões. Assim, não posso, honestamente, dizer que minha expressão do Cristianismo (o meu protestantismo arminiano-unitarista-anglocatólico-luterano) seja a única “verdade”, enquanto a fé de um católico romano ou de um protestante evangelical seja “falsa”. Rejeito terminantemente esta visão exclusivista.

Não, não me envergonho de minha fé. Mas também não me envergonho de usar minha inteligência. A ideia de que haja um Cristianismo imutável, que sempre continuou o mesmo, sempre foi e ainda é uma afronta à minha inteligência. É verdade que há traços de continuidade nas tradições cristãs – por exemplo, ainda continuamos a recitar o Pai Nosso, o Credo Apostólico e a ler porções da Bíblia em celebrações eucarísticas (nas igrejas católicas, ortodoxas, anglicanas, luteranas, metodistas e em algumas outras tradições protestantes) –, mas, ao mesmo tempo, há mudanças. No exemplo que citei, todos aqueles textos passaram por transformações ao longo dos dois milênios da Igreja cristã. Os textos que recitamos e lemos hoje (o Pai Nosso, o Credo Apostólico e a Bíblia) não são os mesmos de suas versões “originais”.

Sim, para mim, o Cristianismo é a “minha verdade”. E é a “minha verdade”, porque outras pessoas encontram sua porta para Deus – ou sua “salvação”, se preferir – em outras tradições. Reconheço a sinceridade dessas pessoas. E como confio em Deus que é Amor, em Deus que é Verdade, em Deus que é Compaixão, e acredito que essa coisa que chamamos de “religião” é um artefato humano, confio que quando o homem busca o Divino, o encontrará. Deus não é judeu, nem cristão, nem muçulmano, nem budista, nem espiritualista, nem candombleísta, nem umbandista, já que não é humano – para mim, Deus é uma realidade que ultrapassa minha compreensão, não é um ente antropomorfo.

Reconhecer a sinceridade da fé de outras pessoas e que elas podem encontrar o Divino em suas tradições, contudo, não faz com que o que elas acreditam se torne “verdade” para mim. Tenho minhas próprias convicções que podem ser incompatíveis com o que outras pessoas acreditam – e vice versa. E é nesse sentido que a “verdade” é relativa. Quando falo na relatividade da “verdade” não quero dizer que não haja verdade absoluta no universo – obviamente, há verdade e falsidade, certo e errado, apesar de nem sempre podermos saber qual é qual. Essa relatividade se refere não à verdade em si, mas à percepção que temos daquilo que chamamos de verdade. Um exemplo simples disso está na percepção que diferentes pessoas numa família com pais divorciados podem ter das razões que causaram o fim do casamento. Frequentemente, os dois cônjuges terão sua própria explicação diferente da do outro, e cada um dos filhos ou filhas terá sua própria visão. Ou seja, cada um terá sua “verdade”, que nem sempre, necessariamente, corresponderá à factualidade (ao que de fato aconteceu) – isto é, em minha visão, inerente ao ser humano.

Eu, por exemplo, não acredito em coisas como reencarnação ou possessão. Para mim, essas são crenças absurdas. Elas violam uma série de aspectos de minha compreensão teológica do que seja um ser humano e do que seja a justiça divina. Também não acredito que Jesus tenha vindo ao mundo para servir de sacrifício por meus pecados (refiro-me, especificamente, às chamadas "teoria do resgate" e "teoria da substituição penal"). Essa é uma crença tão absurdamente ofensiva à minha compreensão de Deus e à minha moral que não poderia aceitá-la como verdade factual – apesar de poder servir como metáfora em algumas situações. Não aceito essas crenças que são tão comuns para diferentes grupos religiosos. Não as aceito, mas aceito a sinceridade daqueles que nelas acreditam; aceito a liberdade de quem nelas acreditam.

Assim, honestamente, não aceito como válidas para mim mesmo todas as crenças abraçadas por outras pessoas. Há, em minha visão de mundo, lícito e ilícito, verdade e mentira, aceitável e inaceitável; e mesmo as pessoas que se digam mais abertas, adogmáticas e tolerantes também terão, no fundo, um senso que limita sua aceitabilidade da verdade alheia – seja esta uma verdade religiosa, filosófica, política etc. E eu, apesar de me considerar aberto à diferença e tolerante, não poderia ser diferente.

Nossas convicções (as minhas, as suas e as de todas as outras pessoas), entretanto, não estão esculpidas em diamantes. Elas, esperançosamente, mudam porque nós mudamos. Podemos até não perceber, mas ao menos pequenas porções do que acreditamos passam por transformações ao longo do tempo – se isso não acontece, então ai de nós!

Você fez um comentário sobre a hipocrisia. Bem, não acredito que a maioria de nós seja hipócrita. Acredito que sejamos contraditórios. Ser hipócrita, para mim, implica uma voluntariedade em agirmos diferentemente daquilo que professamos (ou seja, contradizer o que professamos por livre e espontânea vontade). Ser contraditório, por outro lado, implica que não somos perfeitos e que, por isso, nem sempre percebemos que nossas ações contradizem aquilo que professamos. Porque reconheço isso em mim mesmo, me esforço para dar este crédito àquelas pessoas que pregam uma coisa e, algumas vezes, fazem outra. Obviamente, há hipócritas, mas penso que sejam uma minoria.

Sou, como todos os demais humanos, imperfeito, limitado, contraditório. O que isso significa para minhas crenças é que não sou capaz de dar a mim mesmo respostas definitivas para meus questionamentos morais. Assim, muitas vezes, haverá contradições entre diferentes aspectos de minha visão de mundo.

Assim – pensando no seu questionamento acerca das drogas, do aborto, do suicídio e da pena de morte (questões extremamente complexas para serem esgotadas ao longo de nossa existência) –, veja o quão difícil é conciliar todos os campos de minha visão de mundo (a teológica com a política e com a científica, por exemplo):

Teológica e moralmente, creio que a vida seja um dom divino do qual somos apenas mordomos (cuidadores). Nós não criamos a vida. A vida não é uma produção humana que deriva apenas da ação e da vontade humanas. Ela não está restrita à matéria. Não sei explicar o que ela seja – isto estaria além de minha capacidade –, mas por mais que seja um fenômeno químico-biológico, é também um fenômeno psicológico (espiritual). Por isso ela é sagrada. Voluntariamente encerrar a vida, de outro ou de si próprio, é violar sua sacralidade. Por isso, geralmente, me oponho a tudo aquilo que perceba como uma violação à sacralidade da vida (e os quatro temas que usou como exemplo se encaixam nisso).

Politica e filosoficamente, acredito na liberdade do indivíduo. Acredito no direito do indivíduo de acreditar ou desacreditar no que quiser, de ir e vir, e de fazer com sua vida (desde que não fira a outrem) o que bem entender. Isso significaria que se alguém quisesse usar drogas ou se suicidar, isso seria seu problema. Entretanto, como cristão, aceito ser um cuidador de meu irmão e um protetor da vida – desta forma, não posso, conscientemente, legitimar algo que compreendo como uma violação daquilo que considero mais sagrado (a vida humana). Assim, a fé e a política se contradizem em algumas encruzilhadas, e aí emerge aquele lado contraditório da vida em sociedade, que você classificou como hipócrita.

Pensemos, de forma bem simplista, no caso do uso recreativo de certas drogas. Suponha que liberemos, por exemplo, o uso de cocaína. Possivelmente, mais dependentes – já que teriam um acesso facilitado a esta droga –, mais enfermidades em decorrência do uso, custo maior com tratamento por parte do Estado (já que o Brasil tem um sistema público de saúde), preço pago por contribuintes que não concordam com essa liberação!... Percebe a equação?... Não se trata apenas da liberdade individual, como os militantes gritam aos quatro ventos; trata-se do bem-estar e da identidade moral da sociedade como um todo (já que envolve finanças públicas, segurança, violência, e princípios morais dominantes na sociedade). Isso seria diferente se você ou eu, por exemplo, fizéssemos o que quiséssemos num espaço isolado dos outros cidadãos; mas não vivemos isoladamente, vivemos em sociedade – logo, tudo isso diz respeito à sociedade como um todo.

Mas, e se acrescentássemos outro dado a esta equação? O que dizer dos militares e policiais que trabalham armados e, involuntariamente, matam? Jurídica e socialmente autorizados e legitimados ou não, fazem uso de violência para desempenharem suas funções. Como encaixá-los nessa perspectiva de respeito à vida?... Posso dar uma resposta política convincente a esta questão, mas ela, assim mesmo, aparentemente entraria em conflito com minha resposta teológica!... O que seria então: hipocrisia ou contradição?

No que tange à pena de morte, que eticidade há em matar alguém por este(a) haver matado outra pessoa? Como poderíamos manter nossas cabeças erguidas diante da luz do sol, se não nos mostrássemos moralmente superiores ao mal?... Mas, por outro lado, como podemos dar liberdade a alguém que matou inúmeras pessoas e que, eventualmente, caminhará livremente pelas ruas? Que resposta moral podemos dar a este problema?... Eu, honestamente, não sei, e duvido que outra pessoa o saiba!

É por isso que sempre digo que não aceito respostas simplistas a questões como essas. Não aceito as respostas absolutistas dadas por fanáticos religiosos ou fanáticos políticos. E não as aceito por saber que quando nos deslocamos um pouco de nossos lugares confortáveis, passamos a ver as questões de outra forma, a partir de outra perspectiva.

O que posso fazer, e o que espero me esforçar para fazer, é ser honesto comigo mesmo e reconhecer minhas limitações; reconhecer que não conheço todas as respostas, que não conheço a “verdade plena” das coisas.

Paz!

+Gibson

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Verdade e Cristianismo


“[...] Se vocês guardarem a minha palavra, vocês de fato serão meus discípulos; conhecerão a verdade, e a verdade libertará vocês.
(João 8:31-32)


Quando penso em minha própria experiência de fé, percebo que tenho, de diversas maneiras, nadado contra duas grandes correntezas: primeiro, aquela no meio cristão que insiste que haja apenas uma leitura válida do todo da tradição cristã; segundo, aquela no meio secular que zomba daqueles que, como eu, confiam na realidade de Deus e da experiência cristã. Essas duas correntezas – com suas mais variadas manifestações – parecem tentar sabotar uma sabedoria que sobrepuja a simplificação exagerada das categorias que utilizamos para organizar o mundo, uma sabedoria que emerge de nossa (i.e., minha e sua) experiência do Divino. Aqui, me referirei apenas à primeira dessas correntes, aquela formada por compreensões exclusivistas da verdade cristã.

Como sempre tenho dito, confio em Deus. Confio na realidade de Deus. Sinto a presença divina em minha vida e no mundo do qual sou parte. Tenho, contudo, problemas para utilizar verbos como “acreditar” ou “crer” quando me refiro a Deus, pois creio que a fé não seja uma mera ação intelectual, mas uma “rendição” à graça de Deus. Sim, eu acredito/creio em Deus – já que exerço um esforço intelectual em minha fé –, mas penso que os verbos “acreditar” e “crer” sejam limitados demais para lidarem com a realidade divina. Por essa razão, prefiro utilizar o verbo “confiar”. Minha compreensão de Deus muda com o passar dos anos, mas a realidade de Deus é permanente.

Dizer coisas como essas pode parecer uma contradição para alguns. Tenho a impressão, a julgar pelos comentários feitos por alguns de meus ouvintes ou leitores, que pensem ser eu um absoluto relativista – o que, definitivamente, não sou. Meu relativismo é seletivo. Para mim, em se tratando da fé cristã, há verdades absolutas. O que não há, é, talvez, a capacidade de plenamente apreendermos essas verdades. Para mim, por exemplo, Deus é uma verdade absoluta; Jesus é uma verdade absoluta; o mandamento de amar ao meu próximo é uma verdade absoluta. Como apreendo cada uma dessas verdades, entretanto, é uma outra questão. Dizer que Deus é uma verdade absoluta, por exemplo, significa dizer que ele seja uma pessoa que vive sobre um trono, num reino em algum lugar espacial? E se minha compreensão de Deus não for essa? E se eu tiver diferentes compreensões de Deus em diferentes épocas de minha vida? Significaria que não tenho fé em Deus?…

É por essa razão que enfatizo tanto a diferença entre “verdade” e “factualidade”. Algo não precisa ser factual – i.e., objetivamente verificável – para que seja verdadeiro; assim como nem tudo que é factual é verdadeiro para todos. E nem tudo que é verdadeiro para alguém numa determinada época de sua vida, continuará a sê-lo para sempre. Há não muito tempo atrás, uma criança, por exemplo, poderia acreditar que o Papai Noel trouxera seu presente de Natal. Para ela, naquela época de sua vida, aquela crença era uma verdade. Com o passar dos anos, entretanto, ela deixou de confiar no Papai Noel, e aquela deixou de ser uma verdade para si. Ela, talvez, tenha se dado conta do fato de que seu pai ou sua mãe – ou outra pessoa – perguntara-lhe o que ela queria de presente e fizera compras um pouco antes do Natal. A factualidade, assim, contribuiu para um ajuste da percepção de verdade.

A noção com a qual me preocupo, no tocante à fé, é a de “verdade”, e não “factualidade”. A verdade religiosa não precisa ser mensurada, pesada, observada sob um microscópio. Ela simplesmente é. Em minha experiência, especificamente, ela é mais uma prática que propriamente uma noção. Quando articulamos essa verdade por meio de nossos artefatos linguísticos e, tolamente, elevamos essa articulação à posição de asserção dogmática – ou seja, quando “factualizamos” a verdade –, então arrogantemente supomos que sejamos maiores que a verdade que dizemos proclamar. Deus, assim, deixa de ser, metaforicamente, aquele Pai de amor e passa a ser acorrentado por nossa interpretação da metáfora original. Jesus deixa de ser o Mestre que deveríamos ouvir e emular, e passa a ser um “cristão” – i.e., apenas um seguidor da interpretação específica que fizemos de sua suposta mensagem.

Com isso não quero, em absoluto, dizer que não haja necessidade de articularmos nossa fé num corpo doutrinário. Mesmo tendo a antipatia que tenho pela maneira como muitos apreendem o conceito de “dogma” na vida da Igreja cristã, minha fé se articula num edifício dogmático (i.e., doutrinário). O que importa, entretanto, é que sei que minha compreensão da fé cristã não é a única válida ou verdadeira. Como acredito que o Espírito continua a se mover na Igreja hoje, confio que possamos “descobrir” diferentes formas de sermos fiéis ao que compreendemos ser o caminho de Cristo, mesmo se discordarmos em nossas compreensões. É assim, ao menos, que leio as Escrituras e a tradição da Igreja. É com esse espírito que me esforço para celebrar a Presença Divina no seio da comunidade de fé. Todos somos diferentes, pensamos de formas diferentes, mas assumimos o compromisso de tomarmos sobre nós o nome de Cristo. Isso, para mim, basta para chamá-los de “irmãos” na fé.

Assim, rejeito asserções exclusivistas da verdade como propriedade desta ou daquela tradição cristã. Deus, Jesus, as Escrituras, a Tradição, a fé etc, não são propriedades duma instituição eclesiástica, duma tradição teológica ou duma mente individual. Em minha experiência e compreensão, a verdade cristã é encontrada num cristianismo vivido no dia a dia em nossas relações conosco mesmos, com outras pessoas, com o todo da criação e, consequentemente, com o Divino. É no caminho dessa verdade – sim, porque a verdade cristã, para mim, é uma senda e não um destino – que encontro minha liberdade. E é assim que experiencio mais proximamente Jesus como meu Salvador: tentando ouvir os ensinamentos que lhes foram atribuídos e emular seus supostos exemplos.

+Gibson

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Uma resposta à amiga Sarah


Olá Sarah!


Bem, duma certa forma, já respondi a essa mesma questão sobre veracidade da Bíblia em diferentes ocasiões aqui, e meu pensamento continua a ser basicamente o mesmo nessa questão. Não posso pensar numa resposta a essa questão sem fazer outras perguntas para decidir o que é essencial e relevante nas Escrituras para minha relação com Deus. A primeira pergunta a fazer, talvez, seja “O que é a Bíblia, afinal de contas?” – a resposta que dou a essa pergunta definirá a resposta que darei à sua questão. Se a resposta for algo como “A Bíblia é a Palavra literal de Deus, e não humana, infalível, sem erros, inquestionável” etc, então fim de história; não posso tentar descobrir diferentes níveis de sentido em suas palavras; ponto final. Claro que, se assim pensasse, estaria ignorando tudo o que sei sobre a forma como o mundo e a sociedade funcionam, sobre a mente humana, sobre as leis da física, sobre a história de Israel e da Igreja etc. Essa, obviamente, não é a resposta que eu ofereceria a essa pergunta!

A Bíblia é, em minha compreensão, um livro humano (na verdade, um conjunto de livros), escrito por seres humanos, e que se tornou sagrado por meio dum processo de canonização. A Bíblia não nasceu como Escritura Sagrada, ela foi tornada sagrada por meio dum longo processo que demorou séculos. A história da Igreja cristã mostra como esse processo foi complexo e quão ligado ele está àquilo que costumamos chamar de “tradição” – por isso, podemos dizer que a Bíblia é, na verdade, um produto da tradição de duas comunidades distintas, a antiga Israel e a Igreja. A complexidade reside, parcialmente, no fato de que essas duas tradições são múltiplas; por exemplo, no caso da Igreja cristã, não havia no início da história da Igreja (como não há hoje) uma forma única de ser cristão nem uma concordância absoluta sobre todos os pontos doutrinários da tradição. Assim, Jesus, por exemplo, foi compreendido de diferentes formas – i.e., quando os cristãos ouviam (sim, porque a maioria deles não liam, mas ouviam!) os relatos de determinado Evangelho que era lido em sua comunidade (nem todas as comunidades tinham acesso a todos os Evangelhos que hoje chamamos de canônicos), esse relato podia ser compreendido de diferentes formas, a depender do pensamento preponderante naquele meio. Só após o Cristianismo tornar-se a religião oficial do Império Romano é que surge a preocupação com uniformidade de crenças – já que para que se tornasse um braço do Estado romano, era importante que a Igreja apresentasse-se de uma única forma. Após séculos e séculos de toda a construção duma tradição de leitura, parece ser anormal que determinados relatos das Escrituras sejam lidos de maneira diferente daquela estabelecida pela tradição “católica” (com este termo não me refiro apenas ao Catolicismo Romano, mas ao pensamento cristão dominante no Ocidente).

Na história da Igreja se desenvolveram diferentes formas ortodoxas de interpretação das Escrituras – tradições hermenêuticas que, conjuntamente, ainda são reconhecidas pelas grandes famílias cristãs (católicos romanos e orientais, e protestantes). Tradicionalmente, na Igreja Oriental, existiam duas grandes tradições, uma centrada numa interpretação literal que apelava ao sentido alegórico das Escrituras (chamada de Escola Alexandrina de exegese bíblica – cujos membros incluíam Clemente e Orígenes, por exemplo); e outra que apelava ao contexto histórico para interpretá-las (chamada de Escola Antioquina de exegese bíblica – Diodoro de Tarso e João Crisóstomo, por exemplo, eram parte dessa tradição). Ademais, podemos pensar em três tradições de interpretação das Escrituras na Igreja Ocidental: 1) A do Bispo de Milão, Ambrósio, que desenvolveu uma compreensão tripla do sentido das Escrituras → um sentido natural, um sentido moral, e um sentido racional; 2) A de Agostinho de Hipona, que defendeu uma compreensão dupla do sentido das Escrituras → um sentido histórico, e um sentido espiritual; e 3) a Quadriga, que foi o método interpretativo padrão no Ocidente, durante a Idade Média, e buscava quatro sentidos básicos nos textos das Escrituras → um sentido literal, um sentido alegórico, um sentido moral (tropológico), e um sentido anagógico (um sentido que nos conduza a Deus). [A Igreja Católica Romana, por exemplo, em seu Catecismo oficial, faz uso de todos esses elementos em sua interpretação das Escrituras – veja mais em: CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 4ª ed. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Loyola; Paulinas; Ave-Maria; Paulus; 1998. p. 41-42.)

Minha maneira de interpretar as Escrituras se ancora numa combinação de todas essas tradições. Assim, busco um sentido metafórico (mais que real) nas Escrituras, tendo como guia a compreensão do contexto histórico de seus textos, e desses na Igreja cristã. Como sou um homem que vive no mundo moderno, que é influenciado pela ciência e pela filosofia de minha própria época – e não pela filosofia do mundo grego antigo, como os primeiros cristãos –, então é mais que normal que minha leitura esteja condicionada por meu próprio contexto histórico. E mais, nesse processo de interpretação, entra minha experiência pessoal no mundo real – o que chamo de senso comum. É a combinação de tudo isso que me leva a entender as narrativas bíblicas duma forma que pode ser muito diferente daquela dos primeiros cristãos, por exemplo – muito provavelmente, diferente da leitura que o próprio Jesus fazia… É uma questão de escolha, uma questão de integridade intelectual – e, consequentemente, moral!

Não pense que isso seja fácil. Não é. Se prestar atenção, isso faz com que eu rejeite certos conceitos que outros cristãos fiéis – talvez a maioria deles – julgam imprescindíveis. Enquanto acredito na possibilidade da permanência de muitas verdades, outras, para mim, são temporárias e secundárias, já que estão condicionadas a determinadas experiências históricas. Como conciliar, por exemplo, o papel atribuído por Jesus – ao menos, de acordo com os Evangelhos – às mulheres com aquele a elas atribuído supostamente pelo apóstolo Paulo? Nos relatos sobre Jesus, as mulheres estão no centro – ele quebra todas as regras sobre a separação entre homens e mulheres –, mas, para Paulo, as mulheres deveriam continuar em seu papel de submissão à autoridade masculina. Como lidar com este problema? Os dois relatos não podem ser vistos como sendo absolutamente “verdadeiros”, já que se contradizem!… Minha resposta: a única solução é entender qual seja a mensagem básica do Evangelho, e, a partir daí, decidir o que se encaixa nessa visão, e o que é apenas tradição cultural – pode soar muito herético para aqueles que se declaram “cristãos bíblicos”, por exemplo, mas eles mesmos fazem isso de sua própria forma (na verdade, todos nós o fazemos o tempo todo!).

Para esclarecer o que penso sobre a maneira como Jesus compreendia Deus e sua relação com o Divino, deixe-me afirmar que Jesus era um judeu. Como judeu, Jesus provavelmente compreendia Deus de diferentes formas, dependendo do momento – já que sua tradição de fé não possuía uma declaração teológica como os credos cristãos, definindo Deus de forma objetiva. Deus era uma Realidade que podia ser definida de forma positiva quanto negativa – ou seja, Deus era e Deus não era etc. Eu discordo que a visão que Jesus tinha de Deus fosse “teísta”, já que essa visão (quando historicamente definida) emerge apenas a partir do encontro do movimento de Jesus com o pensamento grego. Para que Jesus fosse um teísta, ele teria que possuir uma visão objetiva de Deus como algo que pudesse ser quase que matematicamente definido – e isso não surge até mais tarde. O que podemos afirmar é que Jesus certamente possuía uma visão de Deus como uma Realidade pessoal, e mais que pessoal – mas dizer isso não é o mesmo que dizer que ele fosse um teísta!

Essas questões dogmáticas não geram constrangimento entre nós unitaristas, pois a maioria de nós – ou pelo menos dos ministros unitaristas – as tratariam da forma como as estou tratando com você agora: sem oferecer uma definição objetiva em nome de todos! Assim, posso dizer a você: sim, Deus, Jesus, ressurreição, vida eterna etc, são temas importantes para mim – só que, aceito que diferentes pessoas compreendam esses temas de diferentes formas, desde que sua conclusão seja dirigida pelos princípios que julgo indispensáveis ao Evangelho, e que resumo com uma frase em latim – sola caritas (só a compaixão, a caridade, o amor). Isso porque os Evangelhos e as demais Escrituras ensinam que Deus é amor e que somos chamados a amar, então esse amor deve ser o padrão de minha compreensão da mensagem de Cristo; não o “amor” enquanto uma palavrinha da moda para mostrar o quão legal sou, mas o amor enquanto uma força de transformação de mim mesmo e do mundo ao meu redor – um amor que deve se manifestar em como trato o próximo, cuido do planeta, respeito aos diferentes de mim, recebo meus inimigos à minha mesa, voto em meus representantes, cumprimento aos estranhos etc; é uma forma dolorosa e desconfortável de ler a Bíblia e a tradição cristã.

Isso é enfatizar só aquilo que me convém?! É claro que é! Acredito e tento praticar essas coisas, leio as Escrituras e a tradição dessa forma porque, de certa forma, isso é conveniente. Da mesma forma como é, em algum nível, conveniente para todas aquelas pessoas que acreditam em outras coisas acreditarem naquilo! Como vivemos numa sociedade na qual somos livres para escolher nossa religião, escolhemos aquilo que nos é conveniente! Isso não desacredita minha fé mais do que desacreditaria a fé de nenhuma outra pessoa, já que todas elas – mesmo que não estejam plenamente cientes disso – escolherem a tradição onde, pelo menos, se sentiam mais satisfeitas (e isso, em si, já é uma forma de conveniência!). Mas, se escolho um caminho no qual a mulher e o homem, o heterossexual e o gay, terão acesso a Deus da mesma forma; se escolho uma tradição na qual minha visão científica não tenha de ficar do lado de fora, quando atravesso as portas da igreja, sendo forçado a fingir que acredito em outra coisa e não sendo íntegro comigo mesmo e com os outros, esta é uma questão de fé pessoal – é assim que experiencio Deus!

Poderia, talvez, escolher falar aqui sobre minhas crenças pessoais sobre ressurreição, Deus, a natureza de Jesus etc. Entretanto, a não ser que esteja em discussões teológicas muito específicas, escolho não o fazer, porque julgo ser esse tipo de discussão irrelevante para mim. Concordo quando você diz, por exemplo, que o mesmo Paulo que fala sobre amor, fala sobre ressurreição – mas, para este mesmo Paulo (isso se eu acreditasse que os autores de todas as cartas que levaram seu nome fosse a mesma pessoa!), diferentemente de Jesus, eu sequer poderia estar trocando mensagens com uma mulher! Então, como pode ver, é realmente uma questão de se fazer escolhas!

Como poderia te ajudar se me recuso a dar uma resposta sobre o que é “verdadeiro” ou não nas Escrituras? [Já discuti várias vezes neste blog o sentido que dou ao termo “verdade”: em se tratando de minha fé, o termo não é sinônimo de factualidade!] Não sei. Penso que a única pessoa que pode construir uma resposta que lhe seja satisfatória é você mesma: você tem de fazer escolhas que levem em consideração sua relação com o Divino, a pessoa que você é, a maneira como compreende o mundo, sua experiência de vida etc. Só assim você descobrirá o que é verdade, e, talvez, poderá descobrir que a verdade é algo que toma diferentes formas em diferentes momentos da vida, dependendo de um sem número de razões. Eu continuarei aqui, orando para que você possa alcançar esta “verdade”, mas não serei presunçoso a ponto de pensar que possa dizer a você – ou a quem quer que seja – o que é a “verdade” válida para todos, em todos os tempos, em todos os lugares.

Bençãos! Espero que possamos continuar nossas conversas e, quem sabe, um dia vê-la em pessoa!

+Gibson

terça-feira, 2 de abril de 2013

Cristianismo... ainda relevante?


Numa conversa muito agradável com um grupo de jovens universitários – i.e., pessoas mais jovens que eu –, ouvi as inquietações que frequentemente abatem a confiança que esses têm em sua tradição de fé. Na visão daqueles meus amigos, seria difícil confiar numa instituição religiosa – i.e., na igreja – que estaria associada a tudo aquilo que aprenderam ou experienciaram ser opressivo ou corrupto; assim como seria impossível acreditar em fórmulas de fé que contradizia o que conheciam sobre o mundo. Para eles, o que compreendiam ser a fé cristã tornara-se irrelevante.

Aquele tipo de inquietação não me é estranha. Em primeiro lugar, não estou tão distante assim da idade daqueles meus amigos – que estão entre os vinte e os vinte e cinco anos de idade, e eu em meus trinta e quatro –, logo, posso lembrar-me claramente das transformações psíquicas e intelectuais pelas quais passamos àquela altura da vida, quando estamos nos aventurando nas correntes de novos conhecimentos, novas experiências de vida e novas escolhas que nos marcarão profundamente. Ademais, lido constantemente com os relatos de experiências semelhantes na vida de outros jovens com os quais converso ou me correspondo. Assim, estou sendo plenamente honesto quando lhes digo que não estão sozinhos quando passam por aquelas correntezas de sentimentos de dúvidas e incertezas. Esses sentimentos são naturais e, acredito, necessários ao nosso crescimento intelectual e espiritual; e, mais importante, não são nada de que tenham de se envergonhar.

Para que eu seja o mais direto e objetivo possível, deixem-me declarar que confio plenamente na relevância da fé cristã para nosso mundo. O Cristianismo oferece uma narrativa do sagrado que tem moldado positivamente a vida de milhões de pessoas há pelo menos dois milênios – que continua a oferecer uma jornada espiritual a incontáveis pessoas no mundo contemporâneo. O Cristianismo tem me oferecido uma narrativa do sagrado capaz de construir uma corrente de relações entre minha vida e o Divino, oferecendo-me uma interpretação vivificante para a realidade que experiencio. Em termos mais seculares, por exemplo, é fácil esquecermos que nossas instituições ocidentais de direitos humanos, cidadania, liberdade etc, emergem dum imaginário judaico-cristão. O sentimento anticlerical da modernidade fez com que, ingenuamente(?), desassociássemos essas instituições da herança greco-romana-abraâmica na qual foram moldadas. Ouso supor que aqueles traços “ocidentais” só vieram à tona da forma e no tempo no qual passaram a existir por haverem emergido em sociedades cristãs – o que teria ocorrido não tivesse o Cristianismo se casado com o pensamento greco-romano no mundo Mediterrâneo, e vice-versa? O cinismo característico de nossa atitude intelectual moderna se nega a reconhecer essas associações, mas elas estão lá!

Penso que o problema que alguns de nós encontramos para achar sentido no Cristianismo, ou em qualquer uma das outras duas tradições jordânicas – i.e., o Judaísmo e o Islã –, é o de termos sido “treinados” para associar a fé a crenças dogmáticas e a definições objetivas duma suposta realidade teológica. Acostumamo-nos a declarações como “Deus disse”, “a verdade é”, “só Jesus salva” etc, mas não a descobrir novos níveis de sentido para essas declarações. “Deus” torna-se um problema, então, não porque Deus seja um problema, mas simplesmente porque fomos treinados a compreender o Divino como se fora um rei absolutista ou uma equação matemática. A “verdade”, nesse sentido que aprendemos a dar ao Cristianismo, é algo que pode ser equacionado, metrificado, verificado, quantificado – é, enfim, um absoluto. Então, se minha experiência me leva a compreensões que contradigam essa “verdade”, Deus e, consequentemente, o Cristianismo deixam de fazer sentido e tornam-se irrelevantes.

A coisa mais relevante sobre a tradição cristã é que ela, na verdade, são várias tradições. Não há algo que possamos chamar de Cristianismo único – para mim, há Cristianismos, no plural. Com isso quero dizer que há várias maneiras diferentes de compreender a mensagem cristã, e que nós, cristãos, podemos experienciar algo como aquilo sobre o qual fala Brian McLaren, em seu “A Generous Oxthodoxy”, quando aponta diferentes perspectivas em diferentes tradições cristãs que formam seu eu cristão pessoal. Em minha experiência Unitarista-Anglicana-Luterana (não necessariamente nesta ordem sempre), com a forte presença judaica, consigo uma latitude interpretativa maior para minha própria vida. Posso reler a narrativa cristã a partir de diferentes posições no espectro teológico, enxergando Deus duma perspectiva nova, descobrindo um novo nível de sentido para uma declaração atribuída a Jesus ou a um dos apóstolos, por exemplo. Assim, não são os detalhes minuciosos que passam a ter relevância, mas a Realidade para a qual a metáfora aponta: por exemplo, não faz diferença se Jesus ressuscitou a um homem morto, mas sim a cadeia de sentido que está por trás desse relato etc.

O Cristianismo é relevante para mim por ser um testemunho do caminho da Compaixão. Esse caminho é o que tenho chamado de sola caritas – o amor, a caridade, a compaixão é o único caminho que nos leva a Deus. Dizemos que Jesus é esse caminho porque ele nos aponta – na verdade, exige que sigamos – o caminho da Compaixão; assim, seguir a Jesus é seguir o caminho que ele percorreu: é viver pela presença do Divino aqui e agora, é ser essa presença para outras pessoas. Para mim, não outra mensagem mais relevante que essa, já que seu chamado não é para que eu largue minhas dúvidas ou inseguranças, mas sim, para que eu faça, para que eu ame, para que eu “caminhe”.

Não posso definir Deus. Não consigo encontrar uma maneira suficientemente ampla para falar sobre essa Realidade dentro da qual tenho minha existência. Também não consigo estar sempre acima da dúvida e dos questionamentos, quando presencio o sofrimento e a dor daqueles que amo e minhas próprias. Mas escolho pensar que se há verdade, essa tem de se materializar em nosso dia a dia, por isso – como me ensinou um sábio mestre –, tenho de trazer Deus para dentro da realidade do mundo (não necessariamente Deus como um ser, mas Deus como a compaixão ensinada pelo rabino galileu). O mandamento de “restaurar o mundo” – e a vida daqueles cristãos celebrados como santos é um exemplo disso – torna-se o padrão por meio do qual avalio o valor da mensagem cristã; uma mensagem que escolho interpretar como um caminho, um modo de vida.

Tenho certeza que vocês também podem encontrar uma forma de o Cristianismo ser relevante em suas vidas, ao mesmo tempo em que conseguem se manter intelectualmente íntegros.

+Gibson

sábado, 1 de setembro de 2012

Palavras verdadeiras ou falsificadas?


(Leitura: João 6:56-69)


Para aqueles de vocês que têm participado da classe de adultos da Escola Dominical, onde agora estamos explorando um livro de Jack Miles, “Deus: uma biografia”, ou que tenham participado de outras discussões que tivemos anteriormente, isso não será novidade; para aqueles que não têm participado de nosso fórum de discussão, talvez esse seja um fato despercebido: a Bíblia é um clássico literário traduzido, conhecido em suas línguas originais apenas por um número limitadíssimo de pessoas. [1]

Todos os que já foram meus alunos no seminário costumam brincar com a primeira pergunta que os faço quando começam a estudar comigo: “Alguém aqui já leu a Bíblia?”. Todos levantam as mãos. Alguns retrucam que não a leram completamente. Outros dizem que já a leram muitas vezes. Costumo, então, demonstrar minha alegria e perplexidade em saber que somos um grupo de estudantes tão linguisticamente capacitados, e que isso facilitará em muito nosso trabalho durante o semestre – já que todos conhecem hebraico e grego tão bem! Os rostos mudam de expressão. “Mas além do hebraico e grego, também conseguem ler latim sem problemas?”... E o gelo é quebrado!

A brincadeira que sempre faço com meus alunos tem a ver com o fato de a maioria das pessoas lerem traduções das Escrituras, e não os textos nas línguas originais das mesmas. Sei que aqui entre nós há outros tradutores além de mim. A Sílvia, por exemplo, é tradutora de alemão, e tem trabalhado conosco, no IRWEC, traduzindo textos teológicos importantes. Semana passada, numa conversa, falávamos sobre a dificuldade em manter a inteligibilidade dum texto, ao mesmo tempo em que nos esforçamos para mantermo-nos fiéis à linguagem própria do autor do texto que estejamos traduzindo. Entretanto, independentemente do excelente trabalho de tradução efetuado por um tradutor ou um grupo de tradutores, quando lemos uma tradução, não estamos lendo o texto original – estamos lendo a interpretação daquele feita por um terceiro.

Recentemente, ensinei um minicurso a um grupo de universitários não acostumado a questões como essas, e percebi o quão difícil foi, para alguns deles, entenderem que a “Bíblia” que discutíamos era uma construção histórica. Era uma construção, em primeiro lugar, por não ter “caído do céu” pronta – seus textos, independentemente da natureza que lhes atribuamos (i.e., se inspirados pelo Divino ou não), foram compostos e editados por humanos como nós durante um longo período de tempo; em segundo lugar, todos aqueles textos foram vertidos duma língua a outra, e (por muito tempo) dessa outra a uma terceira – e imaginem a dificuldade que se teria, antes de se ter acesso a tecnologias linguísticas tão sofisticadas (e, mesmo assim, limitadas) como as que temos hoje, para traduzir um texto do hebraico para o grego, e depois traduzir essa tradução para o latim: quantos “equívocos” linguísticos, e consequentemente, teológicos, não poderiam ter resultado disso?; em terceiro lugar, aquilo que chamamos de “Bíblia” não é um livro, mas, como indica seu próprio nome, que deriva do grego, é uma pluralidade, uma coleção de escritos – que não surgiram todos ao mesmo tempo e no mesmo lugar, nem foram compostos pelo mesmo autor, nem na mesma língua original! Imaginem o quão confuso e traumático isso pode ser para alguém que está acostumado a ler uma tradução que é tratada como uma obra única e original!

A reação de muitas pessoas – seja um público mais geral, quando falo em ambientes fora de nossa comunidade de fé, ou seja em meio a um grupo de estudantes – tem sido a de surpresa e ofensa, quando falo de um tema tão natural como este: o fato de nossa Escritura Sagrada, em inglês e/ou português, no caso de nossa comunidade, ser a tradução de uma construção histórica imperfeita. Como ouso tomar este tempo tão sagrado em nossa comunidade, no qual outros pregadores em outras comunidades cristãs estariam exaltando palavras extraídas de suas traduções da Bíblia, para chamá-la de construção histórica imperfeita, de criação humana, ou de uma simples tradução? Isso, em si, já seria evidência mais que suficiente de nossa heresia e não-cristandade, na visão de algumas pessoas.

Mas, para aqueles que costumam se preocupar tanto em afirmar a biblicidade de sua fé, faço uma pergunta: onde, em sua tradução da Bíblia – ou em seu texto em hebraico e grego – está explícita e inequivocamente declarado que este volume que alguns costumam carregar em suas mãos com orgulho seja sinônimo de Evangelho? Onde está escrito que o centro da fé cristã é um volume de textos escritos e traduzidos por outros homens – e onde está listado que textos sejam esses, exatamente –, e não a vida, obra e ensinamentos daquele que todos os cristãos dizem seguir?

Sempre penso que a questão por trás da insegurança que acompanha o enfrentamento da historicidade das bases teológicas de nossa fé seja, de fato, a questão da verdade. Pois se desafiarmos uma compreensão literal restritiva das narrativas bíblicas, por exemplo, estaríamos negando “a verdade”. O problema é que esse tipo de argumento só faz sentido se entendermos “verdade” como sinônimo necessário de “factualidade” – um equívoco interpretativo cometido não apenas por cristãos fundamentalistas, mas também muito defendido por ateus militantes (quando se trata de suas críticas ao Cristianismo, em particular).

A hermenêutica cristã fundamentalista – ou seja, a teoria que baseia sua interpretação dos textos sagrados – enxerga (quando lhe é conveniente, isto é) as narrativas bíblicas como relatos factuais. Assim, Jesus, de fato, caminhou sobre as águas; Moisés, de fato, abriu o Mar Vermelho; de fato houve um primeiro casal num Jardim do Éden etc. A leitura dessas tradições bíblicas não pode ser feita de maneira metafórica, pois a factualidade das narrativas é essencial para a veracidade da Escritura. A não-factualidade narrativa invalidaria a veracidade das palavras. Imaginem o efeito duma operação interpretativa como essa, se a mesma fosse aplicada à famosa pintura de John Trumbull representando a assinatura da Declaração de Independência dos Estados Unidos e à pintura de Pedro Américo que representa a declaração de Independência do Brasil por D. Pedro I: os eventos que representam não seriam verdadeiros, se os cenários não tivessem sido como representados naquelas obras de arte!

Alguns poderiam argumentar que a narrativa cristã só é verdadeira se aquele suposto discurso de Jesus na sinagoga de Cafarnaum, que acabamos de ouvir na leitura do Evangelho de hoje, de fato aconteceu, ou aconteceu literalmente como relatado. Não preciso reforçar que não compartilho dessa compreensão de “verdade”. Para mim, não importa se a tradição oral que deu origem àquela narrativa escrita tenha surgido apenas como resposta ao sentimento dos seguidores do rabino nazareno após o que veio a ser chamado posteriormente de “Ressurreição”, e que não tenha factualmente ocorrido como relatada ou que não tenha ocorrido de forma alguma. Para o espírito da tradição cristã, independentemente das peculiaridades de cada uma de nossas correntes teológicas, aquelas palavras são verdadeiras. Nós unitaristas, e outros cristãos e judeus liberais, diríamos que a “verdade” não se encontra nas palavras per se daquela narrativa, mas nos efeitos que as mesmas têm em transformar nossas mentes e ações; se elas ajudam-nos em nosso processo de Imitatio Dei (Imitação de Deus) e Imitatio Christi (Imitação de Cristo), elas nos levam à Verdade Eterna, então são verdadeiras – mesmo que sejam metafóricas.

Na introdução de “Verdade e Método” (sim, estou usando uma tradução), o filósofo Hans-Georg Gadamer, sugere algo interessante: em se tratando da investigação filosófica, seria uma fraqueza que alguém hoje não reconhecesse a verdade presente nos textos dos grandes filósofos do passado, como Platão, Aristóteles, Leibniz, Kant ou Hegel, achando que poderia construir sua própria filosofia sem beber da fonte desses pensadores [2]. Para mim, seu raciocínio pode ser aplicado ao universo teológico: como cristãos ou judeus, não podemos rejeitar a sabedoria e a verdade do passado, simplesmente por a linguagem dessa verdade ferir nossa sensibilidade moderna. O que podemos fazer é encarar as dificuldades interpretativas e buscar, por exemplo, na linguagem metafórica e simbólica a verdade que nos moverá para mais próximos à Verdade Eterna, o Divino que devemos imitar em nossas ações para com nossos vizinhos.

O espírito das palavras das Escrituras, o espírito presente na tradição bíblica, e que molda a tradição cristã, é o que nos dá vida. O amor que Jesus exigiu daqueles que ousarem seguir-lhe para com Deus e o próximo é a verdade. Esse é o sentido misterioso e eterno que se esconde por baixo daquelas palavras antigas traduzidas e retraduzidas de nossos livros sagrados. Esse é o Evangelho!

[1] MILES, Jack. Deus: uma biografia. Tradução José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009. p. 124.
[2] GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método: traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Tradução Flávio Paulo Meurer. Petrópolis: Vozes, 2002. p. 32-33.

+Gibson

(Sermão – 26 de agosto de 2012)

sábado, 8 de janeiro de 2011

Interpretações literais das Escrituras


Esta é minha resposta à pergunta de um amigo em um fórum de discussões. Como muitas vezes respondo a perguntas semelhantes, achei ser legal postar esta resposta aqui.

Gibson,

Qual a interpretação que a sua igreja faz daquelas passagens do Novo Testamento onde Cristo expulsa demônios, anda por sobre as águas, cura enfermos, ressuscita mortos, etc? Qual o significado dessas passagens fora do contexto da interpretação literal?
(pergunta no fórum)


Em princípio, devo dizer que “minha igreja” não possui uma interpretação oficial dessas passagens. Posso interpretar essas passagens de uma maneira, e posso encontrar dentre outros membros de minha comunidade uma interpretação completamente diferente da minha. E isso não é um problema para nossa vida comunitária. O que nos une não é uma lista de crenças em comum, mas a aliança que temos entre nós e Deus.

A compreensão que cada um de nós temos, você e eu e todos os outros, das Escrituras vem das lentes com as quais enxergamos o mundo. Cada um de nós utiliza, mesmo que não tenha plena consciência disso, certas bases teóricas para filtrar nossa percepção das coisas, e isso inclui nossa percepção dos textos sagrados. Eu, por exemplo, abraço certa compreensão acerca da origem do universo que tornaria uma crença literal no relato da Criação, como no Gênesis, algo impossível para mim, pelo menos agora. Isso não torna o relato uma mentira. Trata-se apenas de uma outra maneira de falar a respeito do começo de tudo. Eu creio que as explicações dadas pela teoria do big-bang façam mais sentido para mim – a Criação como um processo que ainda não terminou, outra pessoa pode acreditar que uma Criação perfeita ocorrida em seis dias e executada por um Deus pessoal – uma Criação temporalmente localizada e executada – faça mais sentido. Considero isso até certo ponto indiferente para nossa busca espiritual.

Tenho uma compreensão não muito dogmática do sentido da palavra “verdade”. Essa palavra é importante para essa nossa discussão aqui. O sentido que dermos a essa palavra é o que vai definir, em grande parte, nossa compreensão desses relatos bíblicos que você aponta.

Para mim, a verdade é relativa. E quando digo “relativa”, estou me referindo à raiz latina desta palavra (relativus, a, um), ou seja, a verdade está sempre relacionada a um tempo, lugar, pessoa ou pessoas. Para as pessoas que viveram durante o início da igreja, provavelmente os relatos acerca de milagres sobrenaturais eram verdadeiros, como o são para pessoas hoje que têm uma compreensão do mundo diferente da minha, e como são para mim (mesmo que para mim dizer que aqueles relatos sejam verdadeiros não equivale a dizer que são factuais, que tenham ocorrido como foi relatado). Eu não sinto a mínima necessidade de acreditar em eventos sobrenaturais para acreditar em Deus – em minha experiência, a realidade de Deus não exige a factualidade de relatos sobrenaturais.

Mesmo não tendo a necessidade de factualizar a verdade – ou seja, torná-la algo objetivo e verificável, literalizá-la -, creio que seja válido fazê-lo, já que para algumas pessoas isso é uma necessidade. Essa factualização – tornar a verdade como algo necessária e literalmente verificável, objetiva – é uma necessidade construída pelo mundo moderno. Mas, se olharmos para a história do pensamento teológico cristão veremos que desde o início temos tido uma variedade de interpretações bíblicas. Duas escolas de pensamento se desenvolveram na interpretação bíblica pelos pais da igreja: a escola alexandrina (a escola de Clemente, Orígenes e Dídimo), que se baseou em antigas tradições interpretativas judaicas e nas ideias de Filo de Alexandria, e que permitia uma interpretação metafórica das Escrituras; e a escola antioquina (a escola de Diodoro de Tarso e João Crisóstomo, por exemplo), que enfatizava uma interpretação mais literal das Escrituras.

Quando olhamos para o método de interpretação bíblica dominante na Idade Média, vemos uma diversidade ainda maior, encarnada na Quadriga (o senso quádruplo das Escrituras): o sentido literal, o sentido alegórico/metafórico, o sentido tropológico ou moral, e o sentido analógico.

E então, depois do Iluminismo, surge uma ênfase exagerada na interpretação literal das Escrituras, especialmente entre protestantes mais conservadores. E o domínio dessa visão é tão difundido que as pessoas chegam a pensar que o literalismo seja a única opção interpretativa no mundo teológico cristão, o que não é. Por outro lado, entre liberais, pode-se também acreditar que a única saída seja correr para uma direção o mais distante possível da literalidade. Eu, entretanto, como um cristão unitarista, escolho permanecer dentro da própria tradição cristã: a tradição do equilíbrio. Assim, posso enxergar aqueles relatos como tendo algo de histórico (sentido literal), como servindo de símbolo para algo (sentido metafórico), como um ensinamento ético para a conduta cristã (sentido tropológico), ou como algo que aponta para a esperança cristã no fim da jornada (sentido analógico). Talvez tudo isso de uma vez só.

Então, não, não posso indicar uma resposta. Mas posso afirmar que a própria tradição cristã oferece meios para alcançarmos uma resposta por nós mesmos.

+Gibson

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Verdade e Mito - uma resposta a Defesa316


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Aqui ofereço uma reflexão a respeito de seus comentários na seguinte postagem: http://cristianismoprogressista.blogspot.com/2010/06/compromisso-cristao-brasileiro.html

Os questionamentos que você levanta são válidos e, aqui, são recorrentes. Por essas mesmas questões já haverem sido tratadas aqui muitas vezes, posso garantir que você encontrará minhas perspectivas a respeito desses temas em outras partes deste blog. Prefiro que possamos alargar um pouco mais a discussão.

Não sei a partir de qual base teológica cristã, ou de qual tradição, você molda a janela através da qual enxerga o mundo e interpreta o cristianismo. Seja ela qual for, parece-me que uma das palavras-chave nesta nossa discussão é “verdade”.

O que é verdade? A religião e o conhecimento teológico podem oferecer verdade? E se podem, que tipo de verdade e até que ponto?... Compreender essas questões é essencial para compreender a razão pela qual entendemos o cristianismo de formas tão diferentes – assim como é essencial, também, para compreender a fé de pessoas que abraçam outras religiões. Não posso garantir, entretanto, que alguns não prefiram se esconder numa bolha protetora, não tendo o desejo de pensar a respeito disso, de não encarar questões como essas sem se esconder atrás da muralha do dogmatismo defensivo.

Para que minha posição fique muito clara, é importantíssimo que eu afirme meu ponto de partida: verdade, no que se refere a religião e teologia, não é sinônimo de factualidade. Factual é aquilo que se baseia em fatos que podem ser verificados, ou seja, é algo empiricamente objetivo. A verdade religiosa é majoritariamente subjetiva, ou, quando objetiva, é um tipo de objetividade que requer a presença da subjetividade, já que a grande maioria de suas afirmações não podem ser objetivamente verificadas. Entretanto, apesar de a verdade religiosa não ser factual (=empiricamente objetiva), ela não deixa de ser verdadeira.

Falar sobre verdade religiosa é falar sobre mitos. E antes que você pense que esteja utilizando o termo da mesma forma que usualmente o empregamos (ou seja, para me referir a algo falso, que não mereça ser levado a sério), deixe-me explicá-lo: mitos são narrativas metafóricas a respeito da relação entre este mundo e o sagrado. Por serem metafóricos e por utilizarem uma linguagem não-literal, os mitos não podem ser vistos como se narrassem fatos. Apesar disso, em se tratando de religião, mito e verdade andam de mãos dadas, com o mito sendo a linguagem utilizada para se falar a respeito da verdade. Os mitos são verdadeiros, mesmo que não sejam factualmente (=literalmente) verdadeiros.

Em minha visão, as narrativas bíblicas a respeito de Jesus, por exemplo, são mitos (compreendendo-se “mito” aqui da maneiro como expliquei anteriormente). Como cristão, é indiferente, para mim, a factualidade ou não do que se escreveu a respeito da vida de Jesus. Mesmo que tudo o que se escreveu a seu respeito fosse “mentira” (que não é o mesmo que “mito”), isso não afetaria minha fé, já que minha compreensão da Bíblia não é a de vê-la como um manual de História, mas a de compreendê-la como uma narrativa metafórica (=mitológica) da relação de duas comunidades – os antigos hebreus e os primeiros seguidores de Jesus e dos apóstolos – com seu Deus e com sua tradição religiosa.

Por outro lado, compreender as mesmas narrativas bíblicas a respeito de Jesus como relatos factuais seria um desastre para qualquer cristão pensante contemporâneo, já que muitos daqueles relatos são contraditórios, inverificáveis, claramente falsificados e empiricamente impossíveis – tornando sua “veracidade” (se compreendida como sinônimo de factualidade) simplesmente impossível. Por essa razão, em minha visão cristã liberal, as narrativas bíblicas são relatos verdadeiros, mesmo sabendo que nem sempre são factuais e que sua veracidade não depende de sua factualidade. Leio a Bíblia como uma combinação de história e metáfora, fazendo uso da crítica histórico-textual para compreender os antigos sentidos dos textos bíblicos, colocando-os em seu contexto histórico.

Com isso em mente, você pode exercitar sua capacidade interpretativa e tentar imaginar uma possível resposta minha aos seus questionamentos.

Paz!

+Gibson da Costa

sábado, 7 de novembro de 2009

Verdade Relativa?

Um desconhecido enviou-me uma mensagem que demonstrava uma certa preocupação com o que ele chamou de “relativização da verdade” - o fato de o cristianismo liberal não pregar uma “verdade absoluta”, válida para todos os tempos.


Por uma razão bem compreensível, o termo “relativo” soa muito negativo aos ouvidos de cristãos ditos “tradicionais” (devo dizer que esta forma de identificação soa extremamente simplista e ingênua, já que eu mesmo me vejo como um cristão tradicional – um cristão tradicional liberal, é verdade, mas tradicional assim mesmo! Seja como for, por falta de termo mais abrangente, utilizarei este mesmo.), tendo para alguns o mesmo sentido de “mentira”. Então quando falo em alguns ensinos ou tradições cristãs como sendo uma “verdade relativa” (ou mesmo uma “verdade metafórica”), alguns pensam que com isso queira dizer que são mentira pura e simples.


Uso “relativo” com o sentido de “relacionado”, ou seja, as declarações de crenças dos primeiros cristãos, contidos no Novo Testamento, nos credos, etc, não são um conjunto de verdades absolutas válidos para todos os tempos e lugares; são, antes de tudo, a maneira como aqueles primeiros cristãos deram voz às suas convicções a respeito das coisas que pareciam ser mais importantes para eles. São verdades relativas por estarem relacionadas ao seu tempo e circunstâncias. Algumas daquelas declarações, se entendidas como verdades absolutas e incontestáveis, não fazem o mínimo sentido para muitas pessoas ou sociedades hoje em dia, e seriam e são rejeitadas como algo primitivo. Entretanto, quando se olha para aquelas declarações como um produto humano, condicionado por seu tempo e pelas circunstâncias que cercavam seus autores, ao mesmo tempo em que se reconhece a “inspiração” divina lá, podemos compreender mais plenamente sua importância.


O desconforto que aquele correspondente desconhecido sente com a noção de “verdade relativa” ou “verdade metafórica” tem mais a ver com sua própria compreensão de “inspiração” – como demonstrado ao longo de sua mensagem. Para ele, as palavras da Bíblia são palavras inspiradas por Deus – em sua visão, Deus, de alguma forma, ditou as palavras aos autores dos textos bíblicos.


Para nós, cristãos liberais, entretanto, a inspiração se refere ao mover do Divino nas vidas dos autores dos textos bíblicos, e na resposta que essas pessoas e comunidades deram a esse mover divino. No primeiro século, e em todos os séculos subsequentes, a igreja deu sua resposta ao que sentia ser o mover de Deus entre eles; e hoje, da mesma maneira, nós cristãos liberais também sentimos que podemos dar nossa resposta àquilo que sentimos ser o movimento divino entre nós – como é o caso quando pensamos a respeito da posição das mulheres na igreja, na recepção de pessoas que antes eram rejeitadas por serem parte de um grupo estigmatizado, como gays e lésbicas, por exemplo.


Como indivíduo, faço escolhas quanto àquelas coisas que sinto serem verdades válidas para mim (à propósito, é isso que quero dizer quando digo que sou um cristão herege - “heresia”, em sua origem grega, quer dizer “escolha”; a partir do momento que faço escolhas teológicas, não aceitando imposições dogmáticas, torno-me um “herege”). Renuncio muitas das antigas crenças cristãs, por percebê-las como produto de uma época e circunstância específica – muitas delas estão na Bíblia, algumas outras estão nos credos e nas declarações de fé e confissões da igreja cristã. Para outras pessoas, ou grupos, essas declarações continuam válidas, e por isso mesmo, são vistas como verdades absolutas e inquestionáveis. Novamente, o que nos distingue é a compreensão distinta que damos a muitos termos, como “verdade”, “história”, “realidade”, “relativo”, “condicionado”, “temporário”, etc.


Nossa noção de verdade está sempre condicionada ao tempo e circunstâncias nas quais vivemos. A história humana, e aquilo que é parte dessa história, como a religião, por exemplo, é um produto humano, é uma fabricação humana. Há várias motivações para esse produto – no caso da religião, há aquilo que chamamos de “inspiração divina” (que pode significar uma quantidade quase infinita de diferentes coisas, dependendo de quem dê uma explicação) – mas nada jamais mudará o fato (nem mesmo as afirmações dogmáticas feitas por muitos devotos religiosos) de que nossas Escrituras, nossas tradições, nossas crenças, e até mesmo “nosso Deus” (isso é, a imagem que fazemos de Deus), não passam de construções humanas (construções que apontam para uma verdade maior, mas mesmo assim, construções!).