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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Verdade e questões complexas: uma resposta a Márcia


[Esta é uma resposta à longa mensagem que recebi da leitora Márcia. Como em seu e-mail ela aborda muitos diferentes temas – que incluem teologia, educação e política –, dividirei minhas respostas nos blogs apropriados (aos quais ela faz referência em sua mensagem). Aqui, obviamente, responderei a algumas de suas questões teológicas (talvez, tenha de fazê-lo em mais de uma postagem).]

Cara Márcia,

E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:32)

Como você mesma percebeu, rejeito a noção de que apenas uma tradição cristã seja a “verdadeira”. Se eu a defendesse, minha própria vida religiosa testificaria contra mim. Como já escrevi aqui muitas vezes, estou ligado a diferentes tradições cristãs, tendo, inclusive, sido ordenado em diferentes comunhões. Assim, não posso, honestamente, dizer que minha expressão do Cristianismo (o meu protestantismo arminiano-unitarista-anglocatólico-luterano) seja a única “verdade”, enquanto a fé de um católico romano ou de um protestante evangelical seja “falsa”. Rejeito terminantemente esta visão exclusivista.

Não, não me envergonho de minha fé. Mas também não me envergonho de usar minha inteligência. A ideia de que haja um Cristianismo imutável, que sempre continuou o mesmo, sempre foi e ainda é uma afronta à minha inteligência. É verdade que há traços de continuidade nas tradições cristãs – por exemplo, ainda continuamos a recitar o Pai Nosso, o Credo Apostólico e a ler porções da Bíblia em celebrações eucarísticas (nas igrejas católicas, ortodoxas, anglicanas, luteranas, metodistas e em algumas outras tradições protestantes) –, mas, ao mesmo tempo, há mudanças. No exemplo que citei, todos aqueles textos passaram por transformações ao longo dos dois milênios da Igreja cristã. Os textos que recitamos e lemos hoje (o Pai Nosso, o Credo Apostólico e a Bíblia) não são os mesmos de suas versões “originais”.

Sim, para mim, o Cristianismo é a “minha verdade”. E é a “minha verdade”, porque outras pessoas encontram sua porta para Deus – ou sua “salvação”, se preferir – em outras tradições. Reconheço a sinceridade dessas pessoas. E como confio em Deus que é Amor, em Deus que é Verdade, em Deus que é Compaixão, e acredito que essa coisa que chamamos de “religião” é um artefato humano, confio que quando o homem busca o Divino, o encontrará. Deus não é judeu, nem cristão, nem muçulmano, nem budista, nem espiritualista, nem candombleísta, nem umbandista, já que não é humano – para mim, Deus é uma realidade que ultrapassa minha compreensão, não é um ente antropomorfo.

Reconhecer a sinceridade da fé de outras pessoas e que elas podem encontrar o Divino em suas tradições, contudo, não faz com que o que elas acreditam se torne “verdade” para mim. Tenho minhas próprias convicções que podem ser incompatíveis com o que outras pessoas acreditam – e vice versa. E é nesse sentido que a “verdade” é relativa. Quando falo na relatividade da “verdade” não quero dizer que não haja verdade absoluta no universo – obviamente, há verdade e falsidade, certo e errado, apesar de nem sempre podermos saber qual é qual. Essa relatividade se refere não à verdade em si, mas à percepção que temos daquilo que chamamos de verdade. Um exemplo simples disso está na percepção que diferentes pessoas numa família com pais divorciados podem ter das razões que causaram o fim do casamento. Frequentemente, os dois cônjuges terão sua própria explicação diferente da do outro, e cada um dos filhos ou filhas terá sua própria visão. Ou seja, cada um terá sua “verdade”, que nem sempre, necessariamente, corresponderá à factualidade (ao que de fato aconteceu) – isto é, em minha visão, inerente ao ser humano.

Eu, por exemplo, não acredito em coisas como reencarnação ou possessão. Para mim, essas são crenças absurdas. Elas violam uma série de aspectos de minha compreensão teológica do que seja um ser humano e do que seja a justiça divina. Também não acredito que Jesus tenha vindo ao mundo para servir de sacrifício por meus pecados (refiro-me, especificamente, às chamadas "teoria do resgate" e "teoria da substituição penal"). Essa é uma crença tão absurdamente ofensiva à minha compreensão de Deus e à minha moral que não poderia aceitá-la como verdade factual – apesar de poder servir como metáfora em algumas situações. Não aceito essas crenças que são tão comuns para diferentes grupos religiosos. Não as aceito, mas aceito a sinceridade daqueles que nelas acreditam; aceito a liberdade de quem nelas acreditam.

Assim, honestamente, não aceito como válidas para mim mesmo todas as crenças abraçadas por outras pessoas. Há, em minha visão de mundo, lícito e ilícito, verdade e mentira, aceitável e inaceitável; e mesmo as pessoas que se digam mais abertas, adogmáticas e tolerantes também terão, no fundo, um senso que limita sua aceitabilidade da verdade alheia – seja esta uma verdade religiosa, filosófica, política etc. E eu, apesar de me considerar aberto à diferença e tolerante, não poderia ser diferente.

Nossas convicções (as minhas, as suas e as de todas as outras pessoas), entretanto, não estão esculpidas em diamantes. Elas, esperançosamente, mudam porque nós mudamos. Podemos até não perceber, mas ao menos pequenas porções do que acreditamos passam por transformações ao longo do tempo – se isso não acontece, então ai de nós!

Você fez um comentário sobre a hipocrisia. Bem, não acredito que a maioria de nós seja hipócrita. Acredito que sejamos contraditórios. Ser hipócrita, para mim, implica uma voluntariedade em agirmos diferentemente daquilo que professamos (ou seja, contradizer o que professamos por livre e espontânea vontade). Ser contraditório, por outro lado, implica que não somos perfeitos e que, por isso, nem sempre percebemos que nossas ações contradizem aquilo que professamos. Porque reconheço isso em mim mesmo, me esforço para dar este crédito àquelas pessoas que pregam uma coisa e, algumas vezes, fazem outra. Obviamente, há hipócritas, mas penso que sejam uma minoria.

Sou, como todos os demais humanos, imperfeito, limitado, contraditório. O que isso significa para minhas crenças é que não sou capaz de dar a mim mesmo respostas definitivas para meus questionamentos morais. Assim, muitas vezes, haverá contradições entre diferentes aspectos de minha visão de mundo.

Assim – pensando no seu questionamento acerca das drogas, do aborto, do suicídio e da pena de morte (questões extremamente complexas para serem esgotadas ao longo de nossa existência) –, veja o quão difícil é conciliar todos os campos de minha visão de mundo (a teológica com a política e com a científica, por exemplo):

Teológica e moralmente, creio que a vida seja um dom divino do qual somos apenas mordomos (cuidadores). Nós não criamos a vida. A vida não é uma produção humana que deriva apenas da ação e da vontade humanas. Ela não está restrita à matéria. Não sei explicar o que ela seja – isto estaria além de minha capacidade –, mas por mais que seja um fenômeno químico-biológico, é também um fenômeno psicológico (espiritual). Por isso ela é sagrada. Voluntariamente encerrar a vida, de outro ou de si próprio, é violar sua sacralidade. Por isso, geralmente, me oponho a tudo aquilo que perceba como uma violação à sacralidade da vida (e os quatro temas que usou como exemplo se encaixam nisso).

Politica e filosoficamente, acredito na liberdade do indivíduo. Acredito no direito do indivíduo de acreditar ou desacreditar no que quiser, de ir e vir, e de fazer com sua vida (desde que não fira a outrem) o que bem entender. Isso significaria que se alguém quisesse usar drogas ou se suicidar, isso seria seu problema. Entretanto, como cristão, aceito ser um cuidador de meu irmão e um protetor da vida – desta forma, não posso, conscientemente, legitimar algo que compreendo como uma violação daquilo que considero mais sagrado (a vida humana). Assim, a fé e a política se contradizem em algumas encruzilhadas, e aí emerge aquele lado contraditório da vida em sociedade, que você classificou como hipócrita.

Pensemos, de forma bem simplista, no caso do uso recreativo de certas drogas. Suponha que liberemos, por exemplo, o uso de cocaína. Possivelmente, mais dependentes – já que teriam um acesso facilitado a esta droga –, mais enfermidades em decorrência do uso, custo maior com tratamento por parte do Estado (já que o Brasil tem um sistema público de saúde), preço pago por contribuintes que não concordam com essa liberação!... Percebe a equação?... Não se trata apenas da liberdade individual, como os militantes gritam aos quatro ventos; trata-se do bem-estar e da identidade moral da sociedade como um todo (já que envolve finanças públicas, segurança, violência, e princípios morais dominantes na sociedade). Isso seria diferente se você ou eu, por exemplo, fizéssemos o que quiséssemos num espaço isolado dos outros cidadãos; mas não vivemos isoladamente, vivemos em sociedade – logo, tudo isso diz respeito à sociedade como um todo.

Mas, e se acrescentássemos outro dado a esta equação? O que dizer dos militares e policiais que trabalham armados e, involuntariamente, matam? Jurídica e socialmente autorizados e legitimados ou não, fazem uso de violência para desempenharem suas funções. Como encaixá-los nessa perspectiva de respeito à vida?... Posso dar uma resposta política convincente a esta questão, mas ela, assim mesmo, aparentemente entraria em conflito com minha resposta teológica!... O que seria então: hipocrisia ou contradição?

No que tange à pena de morte, que eticidade há em matar alguém por este(a) haver matado outra pessoa? Como poderíamos manter nossas cabeças erguidas diante da luz do sol, se não nos mostrássemos moralmente superiores ao mal?... Mas, por outro lado, como podemos dar liberdade a alguém que matou inúmeras pessoas e que, eventualmente, caminhará livremente pelas ruas? Que resposta moral podemos dar a este problema?... Eu, honestamente, não sei, e duvido que outra pessoa o saiba!

É por isso que sempre digo que não aceito respostas simplistas a questões como essas. Não aceito as respostas absolutistas dadas por fanáticos religiosos ou fanáticos políticos. E não as aceito por saber que quando nos deslocamos um pouco de nossos lugares confortáveis, passamos a ver as questões de outra forma, a partir de outra perspectiva.

O que posso fazer, e o que espero me esforçar para fazer, é ser honesto comigo mesmo e reconhecer minhas limitações; reconhecer que não conheço todas as respostas, que não conheço a “verdade plena” das coisas.

Paz!

+Gibson
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