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sábado, 15 de junho de 2019

Espiritualidade e Religião sem Deus? – Uma resposta a Eduardo


A bibliografia dum curso que ensino sobre história das religiões inclui um texto que afirma categoricamente que a diferença entre a religião e a ciência está no fato de a primeira exigir “fé submissa” numa divindade e no sobrenatural. Apesar de eu discordar daquela afirmação e de saber, por experiência própria, que há religiões que não se focam numa suposta realidade sobrenatural e que, assim, não exigem uma “fé submissa” numa divindade e no sobrenatural, ainda incluo tal texto em minhas aulas para que meus alunos possam refletir acerca da limitada compreensão que ainda temos sobre a experiência espiritual/religiosa humana.

Não sou um adepto do teísmo sobrenatural. Com isso quero dizer que, em minha compreensão e experiência, a crença/fé em Deus – ou em deuses – não é necessária para que experienciemos o transcendental, o numinoso, o espiritual, o místico, ou seja lá que outro termo utilizemos para nos referirmos àquela “dimensão misteriosa” tradicionalmente tratada pelas religiões. Essa “dimensão misteriosa” pode ser experienciada através das artes, da ciência, dos esportes, da filosofia, do trabalho, da relação com e do serviço aos outros seres deste mundo etc. Assim, se a religião representa um processo de “religação” com algo, esse “algo” pode ser a própria realidade palpável que experienciamos em nosso dia a dia – sem absolutamente nenhuma necessidade de crença no e devoção ao invisível. E, consequentemente, a própria religião pode ser identificada em atividades que não correspondem àquelas tradicionalmente realizadas em templos, igrejas ou outros “lugares sagrados”.

Dizer que não sou adepto do “teísmo sobrenatural” (termo tão usado pelo finado professor Marcus J. Borg) não significa dizer que sou ateu; significa que compreendo “Deus” de formas diferentes daquelas usualmente abraçadas por “teístas” tradicionais; significa também que, para mim, o “sobrenatural” é indiferente, que não é essencial para a forma como encaro o mundo e vivo minha vida. Por exemplo, se e quando faço algo que julgo ser “bom” e “certo”, não o faço porque temo a punição ou espero a recompensa de Deus, faço-o porque – para mim – viver com eticidade é como que o “cerne” da espiritualidade.

Nas culturas influenciadas pelas tradições jordânicas (ou, se preferir, “abraâmicas” – uso “jordânicas” como uma referência geográfica à origem dessas tradições) – especialmente os Judaísmos, os Cristianismos e os Islamismos –, pensar em religião equivale a pensar no(s) Deus(es) jordânico(s) – ou seja, significa pensar no que as formas ortodoxas dessas religiões jordânicas têm ensinado sobre Deus. Assim, as noções de espiritualidade, religião e mesmo Divindade têm sido, em nossa cultura, aprisionadas às compreensões ditas ortodoxas dos Judaísmos, dos Cristianismos e dos Islamismos. Esse aprisionamento é levado a cabo, infelizmente, inclusive pelo próprio discurso acadêmico sobre religião.

Por conta disso, é importante, para mim, enfatizar que as concepções ortodoxas de religião – e estou pensando especificamente nas tradições jordânicas – não são as únicas formas historicamente válidas de compreender Deus, fé, religião, espiritualidade, o numinoso, o transcendental etc. Todas as formas religiosas, ortodoxas ou heréticas – na verdade, todo o conhecimento e práticas humanas – são produtos históricos, condicionados às diferentes circunstâncias nas/das quais emergiram e se desenvolveram. O próprio Deus do teísmo sobrenatural – assim como o do meu tipo de compreensão – é um produto cultural, histórico, uma construção humana.

Como posso ser um religioso e dizer isso? Como ouso me dizer “cristão” e afirmar que Deus é uma construção humana, um produto da cultura?

Isso, obviamente, tem a ver com minhas próprias circunstâncias, com minha própria história e formação. Minha própria tradição religiosa me ensina que duvidar e questionar é necessário para construir uma fé relevante. Por isso, declarar crenças que não se conciliem com tudo o que já sei ou que julgo saber sobre o Universo representaria uma falta de integridade intelectual (=espiritual) de minha parte. Essa é uma das razões básicas pelas quais compreender o domínio numinoso de forma agnóstica, como o faço, não representa um problema para mim.

Como já disse e escrevi antes, creio na Realidade de Deus – apesar de não acreditar na existência dum Deus pessoal que governe monarquicamente o Universo a partir dum ponto específico do cosmos. Deus representa, para mim, uma Realidade com a qual me relaciono, mas que não sei quem/o que é. Essa Realidade pode se fazer ou se faz presente em meus relacionamentos com outras pessoas, em minha relação com o mundo, em meu trabalho, no entretenimento, em minha vida religiosa etc. Não finjo ser capaz de explicar de forma coerente essa Realidade ou a forma como a experiencio. Deus, assim, em minha compreensão e experiência, é uma metáfora – e não uma entidade objetiva.

Ora, metáforas são importantes para a construção do conhecimento, para a interpretação do mundo. Não são, contudo, “essenciais”, indispensáveis. Da mesma forma, se Deus é uma metáfora, e a religião é uma forma de conhecimento, uma forma de interpretação da experiência humana, então Deus não é essencial ou indispensável para a experiência religiosa.

Mas isso, claro, depende de (a) quem, quando e onde perguntar. Essa é minha perspectiva, até hoje pelo menos – a perspectiva dum cristão agnóstico religioso. Se as mesmas questões sobre Deus, espiritualidade e religião forem feitas a outra pessoa, você certamente terá respostas bem diferentes das que lhe ofereço aqui.

Grande abraço!

+Gibson


domingo, 30 de setembro de 2018

Entrevista concedida por e-mail a uma publicação estudantil


No mês de agosto de 2018, estudantes do programa de pós-graduação em Teologia duma instituição onde ensino publicaram em seu jornal uma resenha de meu último trabalho e, juntamente com ela, uma página com uma entrevista comigo, realizada através de e-mail. Abaixo, incluo três das perguntas que me foram feitas e as respostas que ofereci – já que essas perguntas estão aparentadas àquelas que recorrentemente recebo através deste e de outros canais.

Entendemos que o senhor, além de ministro unitarista, é também ministro da Igreja Unida e de outras igrejas protestantes. Como consegue lidar com essa aparente contradição?”

Bem, não considero isso uma contradição. E não é contradição porque não visto identidades religiosas conflitantes. As denominações das quais participo não são “minha religião”: são, sim, minhas comunidades – das quais herdo diferentes histórias e costumes religiosos. Assim, não sou um unitarista; não sou um episcopal/anglicano; não sou um luterano, etc – essas são identidades institucionais. Se tivesse de conceituar minha identidade religiosa, diria que sou, simplesmente, um seguidor de Jesus de Nazaré que vivencia a experiência religiosa em comunidades diferentes. Essas são as comunidades onde exerço o ministério ordenado e com as quais vivencio experiências comunais do Divino.

Com isso, obviamente, não quero dizer que as identidades denominacionais não sejam importantes. Em muitos aspectos, elas são. Contudo, não podem ser confundidas com o que é ser um “cristão” (se é que essa palavra ainda possua algum sentido espiritual relevante). E isso não deixa de ser reflexo da experiência pós-moderna da própria Igreja: um foco menor no denominacionalismo construído em eras anteriores. Francamente, como alguém envolvido profundamente com o espírito ecumênico, estou mais preocupado em me identificar – em palavras e ações – como um seguidor de Jesus de Nazaré do que como adepto duma tradição cristã específica. E justamente porque consigo fazer isso nessas diferentes comunidades, não há nenhuma contradição, para mim ou para elas, nisso. As identidades “paroquiais” dessas instituições específicas são, em minha vida, apenas acessórias; não são “essenciais”.


Já lemos textos seus nos quais se refere a crenças fundamentais cristãs como se fossem “mitos” ou “metáforas”. Isso significa que não aceita essas doutrinas cristãs como sendo verdades?”

Tenho um problema com o termo “fundamentais” em sua pergunta. O que significa falar em “crenças fundamentais”? Eu não sou um fundamentalista; e são os adeptos de compreensões fundamentalistas os que, nos Cristianismos protestantes, se preocupam em defender “crenças fundamentais”. Talvez devêssemos usar uma outra expressão para discutir esse tema; assim, proponho que troquemos “crenças fundamentais” em sua pergunta por “ideias consensuais”.

Estou muito mais preocupado com “teologia” do que com “doutrinas”. A diferença entre as duas – ao menos no contexto deste nosso diálogo – é que as doutrinas parecem se referir a declarações dogmáticas sobre problemas específicos, enquanto a teologia abrange um conjunto de linguagem, atitudes, ideias, narrativas e práticas que moldam uma tradição religiosa. De certa forma, o conceito de “doutrina” parece estar intrinsecamente associado àquela compreensão de que religião e denominação (=instituição religiosa) sejam sinônimos. Assim, para quem se preocupa com isso, uma denominação professa tais e tais doutrinas – uma lista de teses – que devem ser aceitas e defendidas por quem quiser ser membro de tal “religião” (que, estritamente, não é uma “religião” propriamente dita, mas apenas uma instituição/organização que se apresenta como representante duma religião).

Já a “teologia“ funciona de outra forma: não se limita a teses específicas; antes, consiste numa base mais ampla através da qual podemos construir (e alterar) visões de mundo. Dessa forma, as compreensões religiosas – que você chamou de “doutrinas” – não são imutáveis, escritas sobre diamante; são perspectivas que se alteram ao longo da experiência histórica (que, no contexto cristão, inclui a própria experiência do Divino).

Poderia citar, por exemplo, o caso da escravidão. A cristandade ocidental como um todo encontrou justificativas para a escravidão em suas próprias fontes teológicas durante séculos. Assim, muitos cristãos e muitas instituições eclesiásticas cristãs não viam nenhuma contradição entre ser cristão e escravizar, possuir, comprar e vender escravos. Até, obviamente, que suas ideias teológicas começassem a mudar! Quando a experiência social e as ideias filosóficas começaram a ser alteradas, a teologia também sofreu alterações: a escravidão deixou de ser a vontade de Deus e passou a ser vista como um erro repugnante dos humanos.

Essas alterações só demonstram, em minha compreensão, o quanto a religião, em geral, é humana. Não há nada de essencialmente divino na religião (enquanto sistema teológico: isto é, um conjunto de linguagem, atitudes, ideias, narrativas e práticas) – a religião é, sim, um reflexo de quem um determinado grupo humano é (ou pensa ser) em sua inter-relação e em relação à sua compreensão do Divino, mesmo que acreditem que sua religião seja um produto Divino (e mesmo que Deus, como consequência, acabe se tornando uma espécie de adepto dessa mesma religião).

É justamente por a religião ser uma construção humana – ou melhor, uma resposta humana ao mistério cósmico que a humanidade enfrenta –, que o que esta ensina é verdadeiro. Aquelas “doutrinas” cristãs são “verdades”, mas não são, necessariamente, “factualidades”. Elas são verdades no contexto histórico de certos grupos ou pessoas, em determinado momento – não o são, necessariamente, para outros ou durante todo o tempo. Em parte, é a confusão moderna entre “verdade” e “factualidade” que leva a essas compreensões binárias de certo-errado, verdadeiro-falso – que eu, de forma geral, rejeito.

Quando, ou se, penso em “verdade”, não estou pensando no contrário de “mentira”. Estou pensando, antes, numa interpretação da “realidade” (que nem sempre é objetiva/factual) que se altera ao longo da experiência histórica, mesmo quando não se perceba essa alteração. Os Cristianismos, e todas as demais tradições religiosas do mundo, sofrem alterações em suas compreensões e práticas, independentemente do quão dogmáticas sejam. Por exemplo, o “Cristo” – ou a compreensão acerca de Cristo – do Movimento de Jesus dos primeiros anos não é o mesmo “Cristo” dos cristãos helênicos ou romanos do segundo século de nossa era, nem é o mesmo “Cristo” dos diferentes grupos cristãos do período medievo europeu, nem é o mesmo “Cristo” dos cristãos assírios do Oriente do século XV, nem o mesmo “Cristo” dos unitaristas do século XIX, nem o mesmo “Cristo” dos pentecostais brasileiros do século XX, nem o mesmo “Cristo” dos católicos romanos progressistas do século XXI. Cada um desses contextos específicos conheceu variadas interpretações cristológicas – isto é, de quem era Jesus Cristo – que eram, até certo ponto, distintas de compreensões variadas de outros contextos históricos.

O que quero dizer é que nenhuma religião, incluindo os Cristianismos, é um objeto estático no tempo. Sempre sofre variações. Assim, a linguagem, as atitudes, as ideias, as narrativas e as práticas cristãs estão sempre sofrendo mudanças, mesmo que essas sejam operadas de forma muito sutil.

Essa historicidade da fé faz com que uma compreensão histórico-metafórica das narrativas religiosas funcione como “verdade” para mim, mas que não funcionem como “verdade” para outras pessoas que possuam, por exemplo, bases socioculturais diferentes das minhas. Isso não torna (parte de) nossas perspectivas “certas” ou “erradas”, em si, mas apenas diferentes. Como a religião, de forma geral, não lida com fatos mensuráveis (objetivos), mas, majoritariamente, com concepções da realidade, rejeito a visão binária de certo-errado, verdadeiro-falso, quando lido com a realidade religiosa.

O mito religioso – e “mito” não é sinônimo de “mentira” –, para mim, é um instrumento pedagógico, uma ferramenta que nos ajuda a construir uma compreensão daquilo que está além da explicação binária. Assim, verdadeiro-falso não diz muito sobre o mito (isto é, a narrativa que aponta para uma verdade além da factualidade, que ultrapassa os limites do que é objetivo/quantificável) – essa binaridade não funciona em minha compreensão da realidade religiosa em geral, nem da cristã em particular.

O senhor acredita em Deus?”

Penso que já tratei tantas vezes sobre esse tema que me restaria pouco a dizer. Há um ano, publiquei um texto no qual discuto a questão, e ele ainda representa, em grande parte, minha compreensão sobre o assunto [<https://cristianismoprogressista.blogspot.com/2017/09/minha-teontologia-ou-o-que-acredito.html>]. Mas, resumidamente, o problema se refere ao fato de que tenho um grande problema com o verbo “acreditar”, no sentido com o qual é geralmente usado.

Se tivesse de dar uma resposta direta, sem nenhuma explanação filosófico-teológica complexa, diria que CREIO em Deus – isto é, confio na e experiencio a realidade de Deus. O verbo “crer” parece guardar uma ligação mais explícita com o sentido de “confiar” que, para mim, é mais importante do que afirmar um assentimento intelectual. (Ou seja, não sou um ateu – se esta é a pergunta.)

Apesar de a discussão dos verbos utilizados parecer irrelevante para um leitor/ouvinte leigo, para um Ministro religioso, um teólogo, um filósofo da religião, etc, os termos utilizados dizem muita coisa. Por isso, quando falo sobre o Divino, reflito sobre a linguagem utilizada. Essa reflexão é parte integrante de meu ofício, e resulta, obviamente, de minha história pessoal. Minha educação religiosa e intelectual me ensinou o questionamento. Questionar é fazer perguntas – perguntas para algumas das quais nunca chegaremos a uma resposta objetiva. E o questionamento, esse processo reflexivo de fazer perguntas, é uma atividade essencialmente linguística. Daí a preocupação com a demarcação das fronteiras de sentido para os termos que utilizamos.

De qualquer forma, naquele texto explico minha compreensão sobre Deus.


Paz a todas e todos!

+ Gibson


domingo, 18 de março de 2018

Uma fé política?!


Esta semana, recebi um e-mail dum leitor furioso do Chronicle, que – dentre palavras que não ousaria repetir aqui – me “acusava” de ser um “esquerdista” que pregava o que ele chamou de “evangelho de Marx”, e não o de Jesus! Seus comentários pouco compassivos obviamente emergiram em decorrência do que eu escrevera sobre o brutal assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes, no Brasil, e do ativismo de estudantes pelo controle de acesso às armas de fogo, nos Estados Unidos.

O que escrevi, anteriormente, mantenho aqui. Nossas autoridades políticas e policiais falharam com Marielle e Anderson, e falham com a sociedade. E agora, mais do que nunca, deveríamos demiti-los. Isso porque não têm cumprido com suas obrigações enquanto agentes do Estado. Igualmente, somos todos culpados por seus crimes, já que deles não cobramos suficientemente por suas faltas e erros. Assim, temos nossas mãos sujas com o sangue de todos os que morrem em nossa sociedade: ou porque escolhemos erroneamente nossos governantes, ou porque não exigimos que façam o trabalho para o qual foram eleitos e pelo qual pagamos.

Foram essas as ideias que compartilhei e que levaram aquele leitor a fazer certas acusações contra mim. E, por educação, farei alguns esclarecimentos:

1. POLITICAMENTE: “Esquerdista”, para mim, não é um termo pejorativo; logo, chamar-me de tal não chega a ser uma ofensa. Na verdade, só evidencia que talvez aquele leitor devesse pesquisar um pouco mais o sentido do termo na teoria política. Politicamente, a propósito, sempre me identifiquei com um ideário “liberal democrata”; sempre fui um ardente partidário das liberdades civis, da separação entre Estado e Igreja, da resistência não violenta, da paz, dos direitos humanos, do respeito à vida de toda a Criação, da proteção àqueles que são agredidos pelos poderes deste mundo – e isso, sim, realmente me localizaria à esquerda no espectro político retilíneo (que, de qualquer forma, não é a maneira como retrato o mundo político ao meu redor). Essas ideias e escolhas que abraço, a propósito, não têm origem nos escritos de Marx – por cujo pensamento “positivista” sempre tive pouquíssima simpatia –; sua origem está em minha teologia política cristã, unitarista, não conformista (deveras “liberal burguesa” para ser caracterizada como “marxista”).

2. TEOLOGICAMENTE: Aquelas características de meu ideário político não advêm dos escritos de Marx ou de cartilhas políticas de partidos de “esquerda”. Elas são provenientes de minha teologia. Elas são a forma como aprendi a interpretar os ensinamentos tanto de minha herança judaica reformista quanto de minha fé cristã liberal. Não são invenção de Marx – apesar de poder encontrar muita proximidade com algumas de suas ideias –, e não são apenas ideários de partidos políticos. São, antes, a soma de séculos de reflexão por parte de pensadores religiosos e políticos, artistas, mães e pais, poetas, professores e tantos outros, cujas palavras e ações influenciaram a forma como compreendo o mundo. São ideias que estão presentes nos escritos sagrados e textos litúrgicos de minhas tradições religiosas, filtrados pelas lentes de meu meio sociocultural.

Os esclarecimentos acima não são uma justificativa para me afastar da visão que compartilho com meus irmãos e irmãs “esquerdistas” (para usar a linguagem daquele interlocutor). São, antes, uma tentativa de ensiná-lo e a outros que o mundo não é uma tela em preto e branco, mas sim uma mistura de diferentes cores em múltiplas tonalidades. Na verdade, fico muitíssimo feliz de encontrar pontos de concórdia com pessoas que, em outros assuntos, possivelmente discordariam de mim – e vice-versa. Fico feliz em misturar minhas cores às delas. Estarei sempre disposto a caminhar ao lado daqueles que buscam um mundo de concórdia, de paz, de compreensão, de compaixão, de vida – independentemente de sua localização em qualquer espectro político ou religioso.

O que realmente importa, em minha compreensão, não é a etiqueta que prendemos às nossas crenças e/ou descrenças. O que importa, o que realmente importa, é o que fazemos no dia a dia, é a forma como tratamos aqueles que compartilham este mundo conosco. Se não encontrarmos um meio de viver com a diferença, acabaremos nos matando uns aos outros e destruindo o que restou deste planeta. E isso seria a derrota definitiva de nossa “humanidade”.

Finalizo esta, compartilhando um trecho da Bíblia cristã que está sempre diante de mim, em meu escritório, para me lembrar de minhas promessas batismais e das promessas que fiz quando de minha ordenação:

Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, que age por meio de todos e está presente em todos.” (Efésios 4:6)

É, enfim, cuidando das pessoas que estão ao nosso redor que podemos encontrar o Divino. Esta é a única maneira de vivificar nossa fé e curar – ou, se preferir, “salvar” – o mundo!

+Gibson

sábado, 23 de setembro de 2017

Minha teontologia – ou, o que acredito sobre “Deus”


+Gibson da Costa


[…] Ele não está longe de cada um de nós, pois nele vivemos, nos movemos e existimos […]” (Atos 17:27b-28a)

“Deus” frequentemente tem sido o assunto sobre o qual me escrevem de forma pouco compassiva. Enquanto, pessoalmente, me preocupo muito mais com o viver aquilo que chamo de “fé”, muitos de meus interlocutores se preocupam muito com declarações de crença que se encaixem em sua ortodoxia – seu conjunto de “crenças corretas” –, por isso, sempre me pedem que “defina” o que acredito sobre Deus, por exemplo.

Uma de minhas mais recorrentes provocações – e a mais atacada por leitores de outras tradições cristãs – é a de dizer que “não acredito em Deus”. Tenho repetidamente explicado que o verbo acreditar é muito limitado, pois coisifica Deus, tornando a Divindade um tipo de entidade pessoal que depende de meu esforço intelectual (a crença) para que seja “real”. Pessoalmente, também rejeito a noção de existência de Deus. Em minha experiência e compreensão, Deus não existe porque a existência é uma qualidade de objetos/entidades físico-espaciais. Prefiro falar em minha confiança em Deus, em vez de falar em crença em Deus – e mesmo “confiança”, assim como o próprio nome “Deus”, apresenta(m) limitações.

Não tenho absolutamente nenhum desejo em criar uma declaração teontológica própria. Minha compreensão sobre o Mistério Eterno é limitadíssima para que eu seja capaz de articular “definições” metafísicas a seu respeito. Deus, para mim, é inqualificável, já que “está” além de minhas limitações cognitivas e linguísticas. Toda e qualquer linguagem que use para referir-me à Divindade é apenas metafórica, simbólica, figurativa. E é assim que o que escrevo abaixo deve ser entendido:

  • Compreendo Deus como uma Unidade Absoluta. Por “Unidade”, refiro-me a um Mistério que está metaforicamente acima de tudo e de todos, para além de toda divisão, de toda compreensão, de toda classificação, de toda nomeação.
  • Compreendo Deus como absolutamente simples, sem nenhuma propriedade – incluindo personalidade, bondade, onipotência etc, – já que propriedades são atributos de seres espácio-temporais.
  • Compreendo Deus como absolutamente para além do tempo e do espaço e, como consequência, para além da própria existência.
  • Compreendo Deus como para além de causas e efeitos.
  • Compreendo Deus como para além de toda compreensão e imaginação humanas.

Assim, se e quando utilizo expressões como “Deus é amor”, “Deus é paz”, por exemplo, as tomo como uma linguagem metafórica, uma figura capaz de ser captada pela imaginação, e não como uma declaração que deva ser compreendida de forma literal.

Não tenho fé num Deus-Pessoa que espelha minhas próprias limitações humanas. Tenho esperança e interesse pelo Divino como “para além” do compreensível ao mesmo tempo em que “se manifesta” no comum. Os termos “para além” e “se manifesta” são a chave aqui: a preposição “para” indica um movimento; o termo “além” aponta para uma não-limitação; e “se manifesta” aponta para uma relação entre o Divino e o humano. Usá-los, ao falar da Divindade, é uma referência à “transcendência” e à “imanência” divinas: respectivamente, a alteridade e a proximidade desse Mistério que chamo de “Deus”.

Não tenho absolutamente nenhuma necessidade de caracterizar esse Mistério como uma entidade antropomorfa – isto é, não preciso acreditar num Deus com características humanas. Compreendo a linguagem tradicional do Deus abraâmico – nas tradições judaicas, cristãs, muçulmanas, babistas etc – como um Deus pessoal apenas como uma metáfora. Usamos essas metáforas porque nossa imaginação é limitada, e não porque a Divindade assim seja – para mim, como disse, a Divindade sequer “é”, já que “ser” é uma característica de seres ou coisas físico-espaciais e, logo, limitadas.

Acredito que mais importante do que me preocupar com definições acerca de Deus é me preocupar com o ser humano. Como Deus está além de minha compreensão, e como, ao mesmo tempo, se manifesta no mundo na face das pessoas que me cercam, é amando-as e servindo-as que posso amar e servir a Deus. E conseguir fazer isso já representa um desafio suficientemente grande para mim!


sábado, 29 de julho de 2017

Um cristão agnóstico?: Uma resposta às provocações de Soraya Pontes



[Sobre o texto “Um cristão agnóstico?”, de minha autoria – publicado neste blog em 8 de setembro de 2010.]

Escrevi aquele texto há cerca de sete (7) anos. Ao longo desse tempo, obviamente, mudei intelectual e espiritualmente. Reformulei algumas de minhas compreensões. Tive novas experiências de vida que me fizeram compreender a Realidade que chamo “Deus” a partir de outras perspectivas. Mas continuo a rejeitar o dogmatismo quando penso, falo ou escrevo sobre Deus.

Deus é Real. Mas não é uma coisa ou uma entidade. Assim, não uso o verbo “existir” para me referir a Deus. Não posso quantificar Deus como o faria ao ar, à água, ao computador diante do qual me sento agora ou a mim mesmo. Essa é uma questão muito mais profunda do que você imagina. Compreendo a razão pela qual isso lhe parece uma “ignorância”, Soraya: para você é assim porque você lê o mundo com lentes diferentes daquelas que uso; assim, não consegue compreender a relevância da linguagem para discussões teológicas. Isso não a torna menos certa do que eu – apenas torna sua perspectiva diferente da minha; e vice-versa.

Tenho a impressão de que você não tenha compreendido que aquele texto é uma provocação. O uso do termo “agnóstico” é proposital. Acaso não percebeu o uso duma interrogação ao fim do título? O próprio texto pode esclarecer, para qualquer leitor atento, o que quis dizer com aquelas palavras.

Deus, para mim, é uma Realidade que está além de qualquer formulação dogmática de qualquer tradição religiosa. Assim, Deus não é judeu, não é cristão, não é muçulmano, não é budista, não é xintoísta, não é hindu, nem mesmo ateu. Deus não é propriedade de qualquer religião, filosofia, credo, ou grupo exclusivista. Deus é o nome que muitos de nós damos àquela Realidade que está além de nossa compreensão. Porque não a compreendemos, utilizamos figuras metafóricas próximas às nossas experiências culturais para nos referirmos a ela. Assim, muitos chamam essa Realidade de Deus, de Pai, de Mãe, de Grande Espírito, de Poder, de Hashem, de Allah, ou de qualquer outro nome que possa exprimir – mesmo que imperfeitamente – aquilo que sentem.

Atribuir um nome a essa Realidade, contudo, não significa necessariamente abraçar uma noção dogmática sobre quem ou o quê seja “Deus” – isto é, não significa pensar que possamos saber, humanos como somos, tudo o que se possa saber sobre “aquele” que já foi chamado de “Mistério”. Foi isso que quis dizer com aquele texto provocativo.

Se aquelas palavras me tornam um “ignorante” ou menos “cristão” que você... bem, não me preocupo. Em minha tradição religiosa, questionar, perguntar, duvidar é sempre um caminho para construir pontes de compreensão, sempre um caminho para se chegar a Deus. Não tenho interesse algum pelo conforto do dogma inquestionável e petrificado – prefiro o caos do serviço e do discipulado, que é onde encontro a Deus.

Que bom que você já está tão além de minha compreensão sobre Deus e já consegue compreender o Mistério Divino com tamanha segurança, a ponto de não questionar os verbos, substantivos e adjetivos que utiliza. Eu ainda não cheguei a este ponto – na verdade, como escrevi antes, não tenho, hoje, interesse em fazê-lo. Mas fico feliz que você possa fazê-lo.

Paz!

+Gibson


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Novamente, a verdade


Para responder, de forma muito breve, a uma pergunta que me foi feita:

Como alguém que trabalha nos campos da História, da Teologia e da Filosofia, realmente não acredito que a História, a Teologia ou a Filosofia nos ajudem a encontrar a “verdade”. O que elas podem fazer é nos ajudar a compreender a “mudança” e a elaborar e organizar “conceitos”. Mas nem a “mudança” nem os “conceitos” são “a verdade”. Se é “a verdade” que buscamos, é muito mais provável que a encontremos na poesia, na ficção, nas artes em geral e nas relações com outros seres humanos (que chamo de “espiritualidade”) – expressões essas que transcendem as limitações de nossa humanidade. A “verdade” sobre a dimensão misteriosa de nossa existência, sobre o Sagrado, assim, não se encontra nos conceitos humanos – nesses conceitos encontramos apenas pistas que apontam para um caminho, e não a “verdade” em si.

+Gibson

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

A espiritualidade do encontro humano


...Ele não está longe de cada um de nós, pois nele vivemos, nos movemos e existimos...
(Atos 17: 27-28)


Com frequência, alguns se surpreendem quando descobrem que, além de uma vida intelectual-profissional-social, mantenha uma “vida sacerdotal” – como a nomeia minha colega e amiga Christine. Talvez, a surpresa dessas pessoas se baseie numa construção equivocada do que seria uma pessoa religiosa. Para alguns deles, talvez, o sacerdócio/ministério signifique uma “santidade” que indique um desinteresse pelas coisas “mundanas”, incluindo o intelecto.

Não poderia haver um equívoco maior acerca da vida sacerdotal/ministerial, ao menos para mim.

A “santidade” sobre a qual alguns falam – termo esse, geralmente, que não se faz presente em meu próprio discurso sobre mim mesmo, por razões muito pragmáticas – tem, para mim, uma relação com aquilo que chamo de “espiritualidade” ou “reverência”. Pessoalmente, encontro minha espiritualidade na complexidade da existência. O sagrado, em minha compreensão e experiência, não se encontra exclusiva ou necessariamente numa entidade externa – em Deus. A sacralidade, a espiritualidade, a reverência e o próprio Deus se encontram em minhas relações com outros seres humanos e com o todo da criação.

Sim, como um devoto, encontro a Divindade em meus momentos de devoção silenciosa e solitária, em meus momentos ritualísticos com outros fiéis e em meus momentos de leitura e estudo das Escrituras Sagradas. Mas, como um humano, encontro o Divino, principalmente, em meu encontro com outros seres humanos – especialmente porque minha fé só pode ser praticada em comunidade.

Esse encontro com outros seres humanos se dá de várias maneiras. As artes sempre foram uma forma de encontro memorável: especialmente a música, a literatura e o cinema. A reflexão filosófica e teológica também. Pensar sobre o mundo, avaliar, criticar: todos são encontros sacramentais com o Divino. A emoção e a reflexão são, em união, um sacramento divino, um encontro com Deus.

É por essa razão que “acreditar em Deus” é dispensável. Os dois termos – “acreditar” e “Deus” – são, afinal, relativizáveis. O que significaria “acreditar”? E “Deus”? “Acreditar em Deus”, ao menos da forma como tantos utilizam a expressão, significa apenas conformar-se a uma visão que outra pessoa tem acerca da Divindade. Pessoalmente, prefiro experienciar a “Realidade” e a “Presença” que chamo de Deus.

Assim, posso experienciar essa “Realidade” e essa “Presença” quando ouço uma música que me faz lembrar que sou parte deste mundo “criado” por aquela Presença. Experiencio-as quando alguém responde ao meu cumprimento, ou mesmo quando não o faz. Experiencio-as quando dialogo com outra pessoa por meio da voz ou da escrita, quando a presença de outros me mostra que não estou sozinho num cenário de ilusão. Essa é a Presença, a Divindade, em sua forma mais humana, mais nítida.

É claro que Deus é real. Deus está presente em todos os momentos e em todos os lugares. Está presente quando amamos e quando somos amados, quando servimos e quando somos servidos, quando ouvimos e quando somos ouvidos, quando duvidamos e quando somos duvidados, quando cremos e quando descremos. Assim, não há contradição ou conflitos entre crer e criticar, entre o rito sacramental e o trabalho intelectual. Minha humanidade é a ponte entre os dois.

Não preciso dizer que acredito no que você acredita para me relacionar com o Divino. Sua própria voz é suficiente para me convencer que Deus fala comigo.

+Gibson


quarta-feira, 1 de junho de 2016

Minha resposta ao “Unitarista Mineiro”


Caro “Unitarista Mineiro”,

Li o que você escreveu e confesso que não sabia exatamente por onde começar. Decidi, então, iniciar minhas observações por definições simples – como se deveria fazer em qualquer debate de ideias.

É importantíssimo deixar claro que a razão para a sua suposta “confusão”, em minha opinião, é possuirmos um background religioso/intelectual/sociocultural bem diferente – o que faz com que mesmo que utilizemos os mesmos termos, atribuamo-lhes sentidos muito distintos.

Você me acusa, por exemplo, de rejeitar “a verdade” sobre Deus, citando alguns textos publicados aqui e em um de meus livros. Mas o que lhe pergunto é: você realmente leu minhas perspectivas sobre “verdade” e sobre “Deus”? Os argumentos que você utiliza como apoio às suas observações sugerem que você não tenha lido atentamente aqueles textos – parece, na verdade, ter apenas lido alguns comentários feitos por outros acerca do que eu supostamente penso (comentários esses que se tornaram comuns em alguns meios ditos “evangélicos”). Para mim, seria muito mais interessante dialogar sobre o que escrevi com alguém que tenha, de fato, lido o que escrevi.

Muitas vezes não escrevo de forma tão direta ou objetiva quanto alguns querem pelo simples fato de Deus e fé, por exemplo, não serem temas objetivos, quantificáveis, metrificáveis. Não acredito num Deus que possa ser pesado, metrificado, analisado sob as lentes dum microscópio, já que Deus não é – em minha experiência e compreensão – um objeto! Se uso uma linguagem provocadora é porque, no meu meio religioso e sociocultural, essa é mais compreensível – além de a mesma ser uma marca de minha personalidade. Por isso posso dizer que “não posso acreditar em Deus” – porque a maioria de meus leitores, provavelmente, compreendem minha escolha da metáfora como instrumento para falar sobre certos conceitos teológicos. Quando digo isso, eles entendem que estou fazendo uma crítica ao uso de certos conceitos acerca de Deus com os quais não concordo plenamente.

Sua tática de atacar minha vida pessoal é a menos merecedora de comentários, mas a comentarei assim mesmo. Não o conheço pessoalmente, o que implica que você também não me conhece pessoalmente – se alguma vez, mesmo que improvavelmente, tenhamos estado fisicamente no mesmo local, isso não significaria que você me conheça. Posso citar exatamente as fontes de seus comentários, onde estão e quem os fez originalmente (pessoas, a propósito, que também não me conhecem e que encontraram em teorias da conspiração uma forma infeliz de lidar com a pluralidade religiosa no mundo!).

O joguete de deslegitimar a opinião dum “oponente” com base em acusações contra sua vida pessoal – em meu caso explícito, com base em minha vida eclesiástica – é tão antigo quanto imoral. Foi usado no meio político romano; foi usado nos primórdios da Igreja cristã; foi usado ao longo das eras; e é, infelizmente, ainda usado em nossas sociedades ditas pós-modernas. Meu apelo é à civilidade: se você discorda de minhas ideias ou das ideias teológicas que defendo, ataque-as e não a mim – é isso que faço e que continuarei a fazer, se discordo de algo ou de alguém (deixo os ataques pessoais para as crianças que ainda estão aprendendo a viver em sociedade, e para aqueles que não se esforçam em percorrer a trilha da compaixão).

Sua mensagem é tão incoerente em termos conceituais que não consegui entender se você tenta se identificar como um “unitarista bíblico” ou como um “unitário-universalista”. Esses dois conceitos são contraditórios, mas você defende a ambos simultaneamente! Eu, pessoalmente, não me identifico como nenhum dos dois! Sou, eclesiasticamente, um unitarista – o que identifico, em minha experiência de fé e prática, como um “cristão liberal” herdeiro da tradição unitarista anglófona. Não tenho o mínimo interesse em definir o que isso seja para qualquer outra pessoa – seja membro de minha própria comunidade de fé, seja para alguém de fora. Assim, se você se diz um “unitarista”, mesmo que seu discurso esteja muito alheio à minha tradição e mesmo que você se mostre desinformado quanto à mesma, esse é seu direito – o que eu teria a ver com isso?… Mas, se você escreve para um Ministro de uma igreja unitarista, tentando ensinar-lhe sobre a tradição que você aparentemente desconhece, então você tem de estar preparado para uma resposta que talvez não lhe agrade muito!

Nunca menti sobre [ou omiti] minha história eclesiástica aos meus leitores (nem, muito menos, aos meus paroquianos!). Sempre deixei claro que tenho uma múltipla herança religiosa, já que venho de família multirreligiosa. Sou um unitarista-anglicano, com ligações também às tradições luterana, congregacional, restauracionista e quaker. Além de herdeiro do Judaísmo Reconstrucionista.

É óbvio que alguém com minha experiência religiosa e minha formação teológica não poderia pensar como você pensa acerca da Divindade. Em nenhuma das tradições que me formaram como ser religioso há o predomínio duma visão de Deus, da Bíblia, de Jesus como a que você afirma ser “a verdadeira”. Logo, eu estou sendo “verdadeiro” e “honesto” para com minha própria tradição de fé – que é, em si mesma, polifônica.

Não direi a você no que deve acreditar. Direi, sim, no que acredito eu. Acredito e confio na Realidade de Deus. Sobre essa Realidade, é dito nas Escrituras que é amor. Quando enfatizo essa definição de Deus, alguns insistem que com isso queira dizer que não há “certo” ou “errado”: estão errados – quando digo isso, apenas enfatizo minha compreensão das Escrituras e tradições judaico-cristãs que apontam Deus como cerne da compaixão capaz de nos tornar “humanos”, como “elemento” indispensável na construção das relações entre os seres humanos (os “filhos/as de Deus”). Meus leitores e ouvintes, incluindo você, podem construir suas próprias interpretações de minhas palavras para si, mas – com todo respeito – não podem querer dizer a mim o que minhas palavras devam significar!

Apesar de nossas discordâncias, continuarei a mantê-lo em minhas orações e, humildemente, peço o mesmo de você.

Respeitosamente,

Rev. Gibson da Costa

sábado, 9 de abril de 2016

Esta manhã, bebi água de coco com Deus


Mais uma vez, me perguntam se creio em Deus. Mais uma vez, lhes digo que não sei o que querem dizer. O que significa dizer “Creio em Deus”? Quando alguém diz que crê em Deus, não me diz nada sobre a Realidade Divina, me diz apenas sobre si próprio(a). Ele(a) me diz sobre o que faz, e não sobre a Realidade na qual “crê”.

Ultimamente têm me perguntado em que “Deus” creio: se meu “Deus” era o mesmo da Bíblia; se o meu “Deus” era o mesmo de Joseph Smith; se o meu “Deus” era o mesmo do Corão; ou se era ateu. A verdade é que alguns leitores parecem ter uma obsessão com minha “falta de claridade em definir” minha crença. E eu que sempre imaginei que o que escrevo aqui e que a forma como discuto minha fé – aqui, no púlpito ou em outros espaços – fossem suficientemente claros ou, pelo menos, sugestivos de minha visão teológica (e teontológica)!

Como já escrevi inúmeras vezes, a forma como encaramos questões sobre aquilo que chamo de “aspecto misterioso” da realidade é condicionada pela forma como compreendemos o resto da realidade. Se alguém se preocupa tanto em querer uma definição objetiva sobre quem ou o quê seja o Divino, ao menos em minha visão, é porque tem uma compreensão de “verdade” diferente daquela que abraço.

Para que eu fosse capaz de definir Deus nos termos utilizados por alguns daqueles que me fazem aquele tipo de pergunta, teria de compreender a Divindade como uma entidade objetiva, mensurável, antropomorfa. Essa, entretanto, não é a forma como compreendo “Deus”; é a forma como compreendo você e eu, mas não a Divindade. Logo, aquela pergunta não faz sentido pleno para mim.

Mas se querem tanto saber quem é Deus, para mim, posso lhes garantir que somos relativamente próximos. Na verdade, nos sentamos esta manhã à bancada dum quiosque no calçadão da praia e tomamos uma água de coco gelada, enquanto falávamos sobre sua vida. Como ele estava cansado, ofereci-me para acompanhá-lo até seu edifício, dois quarteirões dali. Ele está, afinal, com quase oitenta anos!... Naquele momento, Deus era, para mim, um homem idoso que me contou suas memórias sobre a exploração imobiliária em seu bairro, e sobre como sua vida estava após a morte de sua esposa (com quem fora casado por cinquenta anos). Conversar com aquele homem foi sentir Aquela Presença que chamo de Deus.

Essa é uma das formas como compreendo “Deus”. Minha fé exige que eu enxergue o Divino em outras pessoas, e que aja para com elas como se elas fossem o “próprio Deus” – algo que parece bem mais difícil do que “acreditar” numa ideia específica do que ou quem seja Deus.

Como a metáfora bíblica do homem ter sido criado “à imagem e semelhança” de Deus é essencial para minha compreensão teológica, amar o ser humano é amar a Deus, e ser violento para com o ser humano é negar o próprio Divino. Assim, para mim, nossa fé em Deus define-se, na verdade, através da forma como nos relacionamos com “sua imagem e semelhança” entre nós: o que inclui as outras pessoas e nós mesmos, além do resto da Criação.

Há variadas formas de compreender o Divino, e todas elas podem ser úteis em diferentes contextos. Mas, na maioria das vezes, Divindade, Presença e Realidade são minhas metáforas favoritas para falar acerca de [daquela outra metáfora] “Deus”.

+Gibson

sábado, 30 de janeiro de 2016

Somos inimigos por discordarmos em nossas crenças?




[*Correção da tradução: “Apenas um estranho no ônibus, tentando fazer seu caminho de casa” → “...tentando voltar para casa”.]


Sempre serei grato por duas pequenas [grandes] coisas que me foram ensinadas desde cedo: 1) que podemos pensar/acreditar de forma diferente de outras pessoas – essa é uma liberdade concedida por Deus e pela Declaração Universal dos Direitos Humanos; 2) que ninguém é meu inimigo simplesmente por discordar de minhas posições/crenças, e vice-versa.

Sendo quem sou, é difícil não olhar para o mundo ao meu redor sem me lembrar dos chamados “conflitos religiosos” que têm marcado a história humana. As aspas (“ ”), a propósito, indicam minha discordância com a adjetivação daqueles tipos de conflito que tão prontamente indicam como “religiosos”: isso porque chamá-los de “religiosos” implica num reconhecimento, mesmo que involuntário, ou de que a “religião” (que muitos interpretam como sendo uma “religação” ou “retorno” ao Divino) seja um fenômeno fundamentalmente violento, ou de que a violência possa ser legitimamente designada como “religiosa” (ou seja, que possamos nos relacionar com o Divino por meio da violência) – eu, obviamente, rejeito as duas premissas.

Observando o que tem ocorrido ao meu redor, não posso deixar de perceber o quão difícil é ver aqueles dois princípios que me foram ensinados sendo aplicados no mundo, e o quão difícil é manter a lealdade a eles. Isso porque hoje, mais do que em qualquer outra época em minha relativamente curta vida, pensar/crer diferentemente de outros parece ser encarado como uma ameaça beligerante – seja em termos de fé religiosa, em termos de política ou de qualquer outra coisa.

Pessoalmente, aprecio muito a diversidade do [e no] mundo. Prefiro uma realidade multicolor à bicoloridade que alguns impõem ao mundo. Tudo é muito mais “belo” por haver cores, formas, sons, aromas, crenças diferentes. A vida espiritual é muito mais rica por haver milhares de formas diferentes de compreender a relação entre o “objetivo” e o “misterioso”, entre a “Criação” e o “Criador”. Mesmo o Cristianismo é muito mais belo, e muito mais vivo, justamente por haver centenas de formas distintas de compreendê-lo e de praticá-lo.

Quando olho para essa diversidade e me reconheço como um dos elementos para as diferenças de tonalidade, não posso ver outras pessoas como minhas inimigas – por mais que discorde de suas crenças e, intelectualmente, as critique. Como eu, no que tange à experiência “religiosa”, elas são viajantes numa trilha de descoberta do Divino. Elas mesmas podem não interpretar suas e minhas experiências dessa forma, mas, ao menos em nossa experiência de busca, compartilhamos semelhanças.

Pessoalmente, acredito em revelação divina. Acredito que aquela Realidade que chamo de Deus se revela ao ser humano de inúmeras formas. A maioria dos cristãos, talvez, diria que Deus se revela por meio das Escrituras (a Bíblia). Eu também acredito nisso. Mas, para mim, Deus se revela também por meio de nossas relações com as outras pessoas; por meio da comunidade de fé; por meio da natureza; por meio da oração; por meio do trabalho; por meio da arte e do entretenimento; por meio da ciência e do conhecimento intelectual; enfim, por meio da história humana.


Deus está sempre falando. Nós, talvez, é que não ouvimos. Deus fala, algumas vezes, inclusive por meio das vozes daqueles de quem discordamos. Por isso, não posso vê-los como meus inimigos.

+Gibson

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Deus e nossas compreensões a seu respeito


[…] Na vida, na morte, na vida além da morte, Deus está conosco.
Não estamos sozinhos. Graças a Deus.”


Recentemente, fui convidado a participar dum debate promovido por uma emissora de rádio acerca daquilo que chamaram de “fundamentalismo” religioso. Ao aceitar, já imaginava o possível caminho seguido pelo facilitador do debate, uma vez já havia sido entrevistado por ele antes. Assim mesmo, resolvi aceitar.

É engraçado como, em alguns pontos, alguns que se declaram como “ateus” se assemelham a alguns daqueles que se declaram como “crentes bíblicos”. A visão de Cristianismo que defendem ou recusam é exclusivista e engessada – ou seja, para que seus argumentos façam sentido, têm de reprovar e negar todas as outras possíveis expressões da fé cristã, mesmo aquelas com uma longa história.

Tratamos sobre Deus e Jesus, obviamente. Não tenho muita certeza da razão pela qual um cristão unitarista, como eu, seria convidado a um diálogo se os demais participantes, incluindo o próprio facilitador, excluem da identidade cristã aqueles que não abraçam uma visão teontológica (i.e., sobre Deus) e cristológica (i.e., sobre Jesus Cristo) ortodoxa. Para meus companheiros de debate, só seria possível “ser cristão” se você entende Deus como uma entidade pessoal que habita algum lugar no espaço (o “Céu”). E, para ser cristão, eu deveria crer em Jesus como “Deus em carne, que morreu” por mim!

Esse tipo de perspectiva, devo enfatizar, esperaria da maioria dos cristãos – afinal de contas, a maioria dos cristãos se declara “trinitarista”. Mas ela também foi defendida por um “cientista” que se declarou como “ateu”!… Lá estavam eles, talvez sem perceber, coparticipando – no mesmo lado – dum antigo e contínuo conflito epistemológico.

Expliquei aos meus colegas o sentido delimitado que atribuo ao termo “fundamentalismo”. Expliquei que o termo, para mim, não deveria ser utilizado da forma pouco clara e generalizada como o é pela maioria das pessoas que o utilizam. Expliquei que, apesar de eu ser um opositor do “fundamentalismo” (enquanto tradição teológica cristã), não utilizo o termo com um sentido pejorativo. Ser “fundamentalista” não é ser “intolerante” em si; mas, sim, as bases ideológicas daquela tradição são exclusivistas – mas “exclusivismo” e “intolerância” não são necessariamente sinônimos! [O ambiente político é o que tem sinonimizado os termos.]

Sim, também irritei os demais – especialmente o facilitador e o declarado “ateu”. Disse-lhes que era uma incoerência que atacassem o “fundamentalismo” ao mesmo tempo em que utilizassem a base mais importante da tradição para criticar as minhas posições: a ideia de que só há uma forma válida de crer.

Foi, ademais, interessante como se referiam a mim. Os demais – com exceção do “cientista” – eram “pastores” e “padre”. Eu era o “teólogo”.

Essa distinção poderia parecer irrelevante aos leigos, mas sob ela se escondia um preconceito acerca de minha fé. Obviamente, enfatizei isso. Disse aos demais que fora convidado àquele debate como um “Ministro cristão” – o que eu sou e o que era reconhecido por escrito no convite que recebera. O uso que faziam do termo “teólogo”, que creio ser inapropriado para se referir a mim – já que minha formação ou minhas atividades pastorais ou teológicas não me tornam um “teólogo” per se –, reforçava sua crença exclusivista de que minha fé não era cristã, minha comunidade de fé não era cristã e eu, por isso, teria menos dignidade ministerial que os demais. Mais uma incoerência para um evento que se apresentara como um debate sobre os riscos do “fundamentalismo religioso”.

Como já tenho dito e escrito há muitos anos, tendo a ter um grande cuidado no uso que faço de certos termos. Penso, por exemplo, que dizer “Deus existe” seja menos que apropriado para falar sobre minha fé. A existência é uma qualidade atribuída a entidades materiais, físicas, objetivas/mensuráveis. Deus, em minha compreensão não é nenhuma delas. É por isso que não proclamo a “existência” de Deus – mas meus colegas de debate foram, aparentemente, incapazes de compreender isso!

Em vez de falar em “existência” de Deus, prefiro proclamar sua “realidade”. Utilizo, inclusive, o nome “Realidade” para me referir ao Divino. Recorrendo à minha herança judaica, gosto de usar “o Nome”, “o Eterno”, “a Realidade” para me referir a Deus.

Deus, para mim, é mais que uma entidade pessoal. Deus enquanto “pessoa” é apenas uma metáfora para que possamos começar a compreender o Mistério Eterno. Se Deus fosse uma “pessoa”, estaria limitado pelo tempo e pelo espaço, já que a qualidade de pessoa é finita e condicional. Então, claramente, a “personalidade” (a qualidade de pessoa) de Deus seria apenas uma metáfora para que pudéssemos humanizar nossa relação com o Divino – da mesma forma como fazemos com nosso uso do termo “Pai”.

Assim, não posso dizer que tenho esperança de encontrar Deus ao fim de minha vida temporal. Não poderia ter esperança disso porque, para mim, Deus não é uma pessoa como você e eu. Deus não está num lugar específico do cosmo; o cosmo é que está em Deus – incluindo você e eu (Atos 17:28). Minha esperança não se centra num destino final; centra-se, antes, num encontro na jornada: ou seja, minha esperança é encontrar Deus no processo de viver minha existência. Assim, Deus, de fato, está comigo – porque O encontro no dia a dia.

Isso, contudo, é minha compreensão presente de Deus. Minha compreensão e todas as demais compreensões da Divindade não são o mesmo que Deus – se o fossem, seríamos todos idólatras, ao menos para a tradição cristã (já que estaríamos idolatrando nossas próprias compreensões). Deus é Deus. E Deus, que é Deus, é Eterno – e minha mente não consegue compreender plenamente a Eternidade, já que estou condicionado pelo tempo e pelo espaço.

E é exatamente por isso que me basta declarar que confio em Deus.

+Gibson

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Deus, Cristianismo, Inferno, Homossexualidade: Uma breve resposta a múltiplas provocações das últimas semanas



Infelizmente, por razões pessoais, tenho tido pouco tempo para responder à maioria das mensagens das últimas semanas. Por essa razão, responderei aqui, de forma breve e conjunta, a algumas das “provocações” de meus correspondentes. Assim que tiver tempo, oferecerei uma resta mais ampla. Perdoem-me pela brevidade.





Deus e Cristianismo



Como um cristão, encontro minha “janela” ou meu “caminho” para Deus na tradição cristã (na comunidade da Igreja, nas Escrituras, na Liturgia, na narrativa cristã, etc). Mas o Cristianismo é a resposta humana à Realidade que chamamos “Deus”, e não o contrário. Eu sou cristão, mas isso não significa que Deus seja cristão!





O Inferno



Não acredito na existência dum lugar objetivo para onde espíritos sejam enviados como condenação por seus pecados. O “inferno”, em minha visão, é uma metáfora para um estado espiritual/mental de alguém. Não se trata dum espaço geográfico no Universo. A crença na existência dum “inferno” físico contradiz minha compreensão acerca do Divino e da natureza do Universo.





Igreja e Homossexualidade



Tenho uma filosofia muito simples para resolver essa questão de compatibilidade: qualquer comunidade de fé é uma sociedade humana, com suas tradições e regras. Se você quiser fazer parte dessa sociedade, terá de se submeter às suas regras. Caso contrário, pode não ser membro de qualquer uma, pode buscar uma outra sociedade ou, quem sabe?, fundar sua própria.



Se uma determinada comunidade de fé ensina que isso ou aquilo é pecaminoso e que a punição pela "desobediência" às regras seja sua exclusão, você tem a escolha de se submeter às regras da mesma ou não – mas não terá poder para escolher as consequências por suas escolhas, no que tange à comunidade em si. Lembre-se que a filiação religiosa é uma associação voluntária, ou seja, ser membro duma comunidade de fé é voluntariamente se submeter às suas regras. Você não pode esperar que uma comunidade mude em função de você se isso contraria à compreensão que ela tem de si mesma. Mas você, por outro lado, pode encontrar uma outra comunidade!... Fazer esse tipo de escolha pode ser complicado e doloroso, mas é uma escolha justa para com os demais membros duma comunidade que não o aceite e íntegra consigo mesmo!





Ainda sobre Homossexualidade



Para mim, as pessoas são “humanas” (e tudo o que isso implica no contexto teológico e sociocultural) antes de serem qualquer outra coisa. As identidades que ou abraçamos ou nos são impostas – sejam as identidades nacionais, religiosas, políticas, ou emotivo-sexuais – são apenas partes dum todo muito maior. Nós somos muito mais do que essas partes separadas – e mais do que sua soma. Assim, tratar de si próprio ou de outra pessoa como se sua orientação emotivo-sexual fosse sua “essência” é negar a si próprio ou a outrem sua humanidade – que, na perspectiva teológica que abraço equivaleria a negar nossa origem na “dança divina” da Criação.





+Gibson

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Uma resposta a Anderson



Acidentalmente, deletei um comentário em vez de publicá-lo. Seu autor – se for uma pessoa real, já que tanto seu perfil quanto comentários me parecem surreais – leu uma das referências que apontei em minha última publicação, e escreveu um comentário. Republico seu comentário abaixo (já que uma cópia foi enviada ao meu e-mail):

Bom com exceção de Jesus ter sido criado (o verbo certo é Gerar, como gerar um filho) e eu acredito que ele foi Gerado antes de tudo e de todas as coisas como ele mesmo disse eu sou o princípio e o fim o primeiro e último o alfa e omega, mas ainda assim ele não existia antes de o pai ter dado vida a ele, e depois eu não acredito em Céu e Inferno Romano mais sim na Eternidade da nova Jerusalém e da Eternidade no fogo do Lago das trevas AP 20:15 diz exatamente claramente a punição daqueles que negaram a salvação por Jesus pois o salário do pecado é a morte Rm 6:23 e a morte é estar longe de Deus que nesse caso será no lago do infern o ou vocês acham que se Deus é Justo não vai julgar aqueles que cuspiram na cara de Jesus e mataram os mártires e morreram blasfemando contra a Deus, cada um receberá o fogo conforme o seu pecado, pois o inferno foi destinado aos anjos caídos e não aos homens que vão entrar la de incheridos mesmo, portanto Deus é amor mas é também um fogo consumidor e Deus é justo e sua justiça não é compreensiva para nós, se há regeneração pós Inferno o único que tem direito de fazer isso é o próprio Deus e não a pessoa que perdeu seu direito de Salvação ou do contrario Jesus não precisaria morrer na Cruz e existira purgatório ao invés de condenação.
Sou Unitário e não pertenço a Eclesiologia Unitária mas a uma Igreja livre de Doutrinas pós-bíblica ou heresias.">>

Autor: Anderson https://www.blogger.com/profile/13898657024110626494



Respondendo a algumas de suas colocações:

Não sou um "Unitário", sou um "Unitarista".

Sua cristologia – isto é, a maneira como você compreende quem é Jesus Cristo ou sua "natureza" – é chamada de ariana; eu não sou um ariano. A maneira como você compreende a Bíblia é também muito diferente da forma como eu a compreendo.

Você diz que pertence a uma igreja livre de doutrinas pós-bíblicas ou de heresias. Há dois grandes problemas em sua afirmação:

1) Seu comentário adveio de sua leitura do “Manual de Crença Unitarista”, publicado em 1884, por James Freeman Clarke, um ministro unitarista americano; o texto é bem “bíblico”, isto é, os argumentos do autor são recheados de citações bíblicas. Não se trata de um texto que proclame uma teologia pós-bíblica. Até porque esse termo começou a ser utilizado após a década de 1960, apontando para a teologia pós-moderna – James Freeman Clarke escreveu quase um século antes, e seus argumentos estão longe de ser “pós-bíblicos”. Ou seja, você não contextualizou o texto; simplesmente transferiu os comentários apologéticos de certos grupos cristãos de hoje para algo escrito há mais de um século atrás.

2) A maioria esmagadora dos cristãos do mundo leria suas afirmações acima como heréticas – mas faria o mesmo com as minhas também. Assim, dizer que sua igreja é livre de heresias é uma questão deveras relativa – depende de quem está olhando para a questão, e a partir de qual perspectiva (?). Sua afirmação soa, no mínimo, nem um pouco humilde – e humildade me parece ser um princípio bíblico!

Para finalizar, não vejo minha fé como uma questão de disputa sobre quem é mais cristão ou quem está mais próximo de Deus etc – como se isso pudesse ser medido, e como se nós pudéssemos receber uma estrelinha colorida na testa por estarmos no caminho que achamos ser certo. Para mim, Deus não é uma exclusividade dos cristãos; muito pelo contrário, a própria Bíblia aponta para um Deus que ultrapassa nossa compreensão, ao mesmo tempo em que, em alguns momentos, fala de um Deus vingativo e ciumento – logo, é uma questão de escolher qual daquelas mensagens são mais importantes para nós. Eu fiz minha escolha há muito tempo.

Quanto aos outros cristãos e, na verdade, a todas as outras tradições de fé, eu os respeito, os amo, e não acredito estar numa situação espiritual supostamente melhor ou pior que da de nenhum deles. Acredito que tanto a Bíblia quanto a tradição cristã nos ensinam que não devamos julgar ao próximo. Mas tenho certeza que você já conhece essas passagens!

Grande abraço!

+Gibson

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Presença e Fé


Há inúmeras coisas que podemos ganhar, e outras inúmeras que podemos perder, quando discutimos nossa fé com toques de racionalidade autodeclarada. Essa é, ao menos, minha experiência. Ensinar teologia, participar de discussões acadêmicas sobre minha fé, escrever para um público que não necessariamente partilha de minhas convicções, dentre tantas outras coisas, parece funcionar como um empecilho para expressar aquilo que, para mim, é tão simples e sublime: minha própria fé – sem aquela necessidade de recorrer às argumentações da Teologia Histórica para explicar isso ou aquilo.

Muitas vezes me perguntam, por exemplo, se acredito nisto ou naquilo. Sempre repito, para enfatizar a importância do valor semântico em discussões teológicas, que depende do que se quer dizer com os verbos e/ou substantivos utilizados naquela pergunta. Aqueles que não compreendem a complexidade de minha posição automaticamente veem-me como um relativista sem convicções. Esse é um risco que corro por raramente falar sobre minha fé de forma direta.

Em uma de minhas passagens favoritas do Novo Testamento (Atos 17), narra-se um sermão do apóstolo Paulo no Areópago, em Atenas, no qual ele recorre à sabedoria dos não judeus daquele local para ensinar-lhes sobre “o Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe” (v.24). O que sempre admirei naquele relato é o aspecto de ele haver utilizado o que estava ao alcance da compreensão de seu público – a referência ao “Deus desconhecido” e a citação dum texto do poeta Arato de Solos (“Aparências”) – para compartilhar sua fé. Assim, aprendi que quando falamos com diferentes públicos, e quando temos diferentes intenções, fazemos uso de diferentes recursos.

Como nem todos os que vêm a essas páginas buscam a mesma coisa, gostaria de compartilhar minha fé de forma mais direta hoje.

Geralmente, recuso-me a utilizar verbos que limitem minhas convicções a noções muito determinadas ou que tragam em si a noção de que eu seja o operador de minha relação com o Divino; assim, evito o verbo “acreditar”, preferindo o verbo “confiar” quando falo sobre Deus. Eu confio em Deus; acredito em Deus – se com esse verbo quiser exprimir a noção de que minha confiança se estende à minha compreensão intelectual. Confio e escolho seguir Jesus. Não penso, entretanto, que a fé enquanto “assensus” – isto é, enquanto assentimento ou concordância intelectual –, seja essencial para minha confiança em Deus ou em Jesus.

Em minha experiência, Jesus é irresistível. Os ensinamentos e os exemplos atribuídos a ele são irresistíveis. Seu espírito de compaixão é irresistível. E isso independe de sua factualidade histórica pretérita. Mesmo que Jesus de Nazaré tenha sido só um personagem criado por um movimento judaico no primeiro século de nossa era – o que tenho fortes razões para crer não ser o caso –, que não tenha existido na “vida real”, ainda assim ele seria um poder irresistível em minha vida espiritual. E ele é irresistível porque tem o poder de transformar algo dentro de mim, tornando-se, assim, uma realidade presente no tempo presente.

Essa presença à qual me referi é muito mais importante que qualquer sofisticação teológica ou correção dogmática. É aquela presença que experiencio em meus momentos de oração privada, em meus momentos de celebrações litúrgicas, quando estou compartilhando momentos de alegria ou tristeza com outras pessoas, quando leio algo edificante, quando converso com alguém em busca de ajuda, ou quando eu mesmo recebo o apoio de alguém. É essa presença que chamo de “milagre”, porque é quando Deus se faz presente – mesmo que naquelas aparentemente pequenas coisas da vida. É essa presença que se torna fé. É assim que escolho confiar ou crer em Deus.

A paz dessa Presença, que chamo Deus, pode ser compartilhada com todos, independentemente de suas crenças ou descrenças, independentemente de quem sejam ou de como sejam suas vidas; e é por isso que o dogma se torna tão secundário em minha fé. Se isso é não ter convicções, então, que seja – prefiro ter confiança em Deus e Jesus do que certeza dogmática incompassiva, algo que me esforço muito para abandonar.

+Gibson

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

"Descristianizando" a fé cristã?... Uma resposta a Fernando


Prezado Fernando,

Obrigado por compartilhar a história de sua jornada espiritual comigo. Aparentemente, você teve a oportunidade de descobrir diferentes respostas aos anseios de sua alma, por mais que hoje você perceba limitações no que você encontrou anteriormente.

Bem, não enxergo nenhuma religião como sendo uma resposta perfeita e não-contraditória a todos os nossos anseios ou questões; em minha experiência, isso é especialmente verdadeiro no que tange aos Cristianismos (isso mesmo, no plural) – e isso por serem eles meu lar espiritual e, assim, posso enxergar algumas das fontes de conflito em seu interior. Assim, independentemente da alternativa teológica cristã que se escolha, sempre haverá questões não respondidas, dúvidas não esclarecidas, algo contraditório. E isso pela simples razão, em minha opinião, de a religião (aqui, os Cristianismos) não ser algo pronto, acabado.

Falo em Cristianismos, no plural, por desde o início serem plurais as manifestações cristãs. Desde seu início, enquanto apenas um movimento judaico marginal, a grande tradição cristã teve inúmeras vozes em seu meio, tendo levado séculos até que se pudesse falar numa fé cristã “oficial”. Assim, absolutamente nenhum de nós (católicos romanos, ortodoxos “orientais”, protestantes liberais, protestantes evangelicais, cristãos restauracionistas etc) pode, de fato, reclamar um status de veracidade exclusivista para nossa versão da fé cristã. Em minha visão, todos nós abraçamos a fé plena e apenas uma pequena parcela dessa plenitude ao mesmo tempo – e é justamente isso que torna a tradição cristã tão fascinante para mim.

Entretanto, se perceber o que já escrevi tantas vezes, afirmo o mesmo no tocante ao Judaísmo – parte de minha herança familiar. Não pratico o “Judaísmo” como minha fé pessoal, mas o compreendo com uma fé plural que oferece desafios e fascínios semelhantes àqueles dos “Cristianismos” (no que tange à diversidade e incompletude). Enxergo o mesmo no que tange ao Islã, ao Budismo ou a qualquer outra tradição de fé.

Tendo dito isso, posso me referir mais diretamente às questões que você levantou.

Abandonar algumas daquelas concepções teológicas ditas tradicionais – como o do sacrifício expiatório de Cristo – implicaria numa “descristianização” do Cristianismo? Em minha opinião, isso depende de a qual dos “Cristianismos” você se refere, e a quem, quando e onde você faça essa pergunta.

Sou um protestante liberal, ancorado nas tradições do Unitarismo e Anglicanismo norte-americanos. A liturgia tradicional cristã desempenha um papel muito importante em minha vida devocional, mas meu universo teológico pode ser muito distinto daqueles do Catolicismo Romano, do Cristianismo Ortodoxo ou do Protestantismo Evangelical. Para mim, a fé é uma jornada de perguntas, não um destino de respostas. Logo, as “respostas” são sempre transitórias – e isso, ao menos em minhas tradições de fé, não implica numa “descristianização” da fé, mas numa centralização no Divino (isto é, as respostas não precisam ser plenamente coerentes e certeiras para que eu possa encontrar-me com Deus e percorrer o caminho de Jesus, já que não estou em busca de respostas). Assim, se você fizesse essa pergunta a mim como um indivíduo, minha resposta seria “NÃO”, a diversidade teológica no meio cristão não implica numa “descristianização”, já que diferentes cristãos expressam diferentes concepções acerca de sua fé (e compreendem suas expressões teológicas individuais como sendo autenticamente cristãs).

Você perguntou: “...se abandonarmos ensinamentos como o do sacrifício na Cruz pelos nossos pecados o que pregaremos? O que você prega na sua igreja?

Para minha fé pessoal, a tradição cristã ensina que Jesus fez coisas que considero mais importantes e mais relevantes que apenas morrer numa cruz. Para os contextos de sua própria época, ele parece ter sido um rabino muito compassivo e caridoso. Ele parece ter sido muito radical em sua prática da hospitalidade, por exemplo. As palavras e exemplos que lhes foram atribuídos – sim, porque não poderíamos garantir que Jesus fez ou disse isto ou aquilo – são, em minha tradição teológica e em minha prática homilética, o “Cristianismo”. Particularmente, em minha prática homilética, deixo de lado pormenores teológicos sobre o quê, como, quando, onde, quem, pois isso contribui muito pouco para a vida espiritual da congregação à qual sirvo como ministro, e à minha própria. Em nosso meio, cada um de nós pode construir sua compreensão pessoal sobre temas teológicos como esses, então, não faria nenhum sentido, para mim, tentar impor esta ou aquela visão a meus paroquianos, por exemplo.

Minha experiência, entretanto, não é a mesma da de outros cristãos, de outros membros do clero cristão. E eles/as – sejam fieis individuais ou membros do clero – necessitarão articular sua fé de forma que faça sentido para si. Assim, para a maioria, aquilo que entendo como metáforas (como a linguagem sacrificial, por exemplo) ganhará um sentido mais factual. Para mim pode não fazer sentido, ou ser desnecessário, mas se funciona para eles, então qual o problema? Não vejo problema com isso. O problema existiria se quiséssemos impor nossas visões teológicas uns sobre os outros, agredindo a dignidade da fé alheia. Durante os dois milênios de história cristã, tem havido cristãos que abraçam visões opostas para cada pormenor teológico imaginável e, provavelmente, enquanto o(s) Cristianismo(s) existir(em), sempre haverá, já que diferentes seres humanos articulam suas crenças de diferentes formas.

Grande abraço!

+Gibson