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domingo, 30 de setembro de 2018

Entrevista concedida por e-mail a uma publicação estudantil


No mês de agosto de 2018, estudantes do programa de pós-graduação em Teologia duma instituição onde ensino publicaram em seu jornal uma resenha de meu último trabalho e, juntamente com ela, uma página com uma entrevista comigo, realizada através de e-mail. Abaixo, incluo três das perguntas que me foram feitas e as respostas que ofereci – já que essas perguntas estão aparentadas àquelas que recorrentemente recebo através deste e de outros canais.

Entendemos que o senhor, além de ministro unitarista, é também ministro da Igreja Unida e de outras igrejas protestantes. Como consegue lidar com essa aparente contradição?”

Bem, não considero isso uma contradição. E não é contradição porque não visto identidades religiosas conflitantes. As denominações das quais participo não são “minha religião”: são, sim, minhas comunidades – das quais herdo diferentes histórias e costumes religiosos. Assim, não sou um unitarista; não sou um episcopal/anglicano; não sou um luterano, etc – essas são identidades institucionais. Se tivesse de conceituar minha identidade religiosa, diria que sou, simplesmente, um seguidor de Jesus de Nazaré que vivencia a experiência religiosa em comunidades diferentes. Essas são as comunidades onde exerço o ministério ordenado e com as quais vivencio experiências comunais do Divino.

Com isso, obviamente, não quero dizer que as identidades denominacionais não sejam importantes. Em muitos aspectos, elas são. Contudo, não podem ser confundidas com o que é ser um “cristão” (se é que essa palavra ainda possua algum sentido espiritual relevante). E isso não deixa de ser reflexo da experiência pós-moderna da própria Igreja: um foco menor no denominacionalismo construído em eras anteriores. Francamente, como alguém envolvido profundamente com o espírito ecumênico, estou mais preocupado em me identificar – em palavras e ações – como um seguidor de Jesus de Nazaré do que como adepto duma tradição cristã específica. E justamente porque consigo fazer isso nessas diferentes comunidades, não há nenhuma contradição, para mim ou para elas, nisso. As identidades “paroquiais” dessas instituições específicas são, em minha vida, apenas acessórias; não são “essenciais”.


Já lemos textos seus nos quais se refere a crenças fundamentais cristãs como se fossem “mitos” ou “metáforas”. Isso significa que não aceita essas doutrinas cristãs como sendo verdades?”

Tenho um problema com o termo “fundamentais” em sua pergunta. O que significa falar em “crenças fundamentais”? Eu não sou um fundamentalista; e são os adeptos de compreensões fundamentalistas os que, nos Cristianismos protestantes, se preocupam em defender “crenças fundamentais”. Talvez devêssemos usar uma outra expressão para discutir esse tema; assim, proponho que troquemos “crenças fundamentais” em sua pergunta por “ideias consensuais”.

Estou muito mais preocupado com “teologia” do que com “doutrinas”. A diferença entre as duas – ao menos no contexto deste nosso diálogo – é que as doutrinas parecem se referir a declarações dogmáticas sobre problemas específicos, enquanto a teologia abrange um conjunto de linguagem, atitudes, ideias, narrativas e práticas que moldam uma tradição religiosa. De certa forma, o conceito de “doutrina” parece estar intrinsecamente associado àquela compreensão de que religião e denominação (=instituição religiosa) sejam sinônimos. Assim, para quem se preocupa com isso, uma denominação professa tais e tais doutrinas – uma lista de teses – que devem ser aceitas e defendidas por quem quiser ser membro de tal “religião” (que, estritamente, não é uma “religião” propriamente dita, mas apenas uma instituição/organização que se apresenta como representante duma religião).

Já a “teologia“ funciona de outra forma: não se limita a teses específicas; antes, consiste numa base mais ampla através da qual podemos construir (e alterar) visões de mundo. Dessa forma, as compreensões religiosas – que você chamou de “doutrinas” – não são imutáveis, escritas sobre diamante; são perspectivas que se alteram ao longo da experiência histórica (que, no contexto cristão, inclui a própria experiência do Divino).

Poderia citar, por exemplo, o caso da escravidão. A cristandade ocidental como um todo encontrou justificativas para a escravidão em suas próprias fontes teológicas durante séculos. Assim, muitos cristãos e muitas instituições eclesiásticas cristãs não viam nenhuma contradição entre ser cristão e escravizar, possuir, comprar e vender escravos. Até, obviamente, que suas ideias teológicas começassem a mudar! Quando a experiência social e as ideias filosóficas começaram a ser alteradas, a teologia também sofreu alterações: a escravidão deixou de ser a vontade de Deus e passou a ser vista como um erro repugnante dos humanos.

Essas alterações só demonstram, em minha compreensão, o quanto a religião, em geral, é humana. Não há nada de essencialmente divino na religião (enquanto sistema teológico: isto é, um conjunto de linguagem, atitudes, ideias, narrativas e práticas) – a religião é, sim, um reflexo de quem um determinado grupo humano é (ou pensa ser) em sua inter-relação e em relação à sua compreensão do Divino, mesmo que acreditem que sua religião seja um produto Divino (e mesmo que Deus, como consequência, acabe se tornando uma espécie de adepto dessa mesma religião).

É justamente por a religião ser uma construção humana – ou melhor, uma resposta humana ao mistério cósmico que a humanidade enfrenta –, que o que esta ensina é verdadeiro. Aquelas “doutrinas” cristãs são “verdades”, mas não são, necessariamente, “factualidades”. Elas são verdades no contexto histórico de certos grupos ou pessoas, em determinado momento – não o são, necessariamente, para outros ou durante todo o tempo. Em parte, é a confusão moderna entre “verdade” e “factualidade” que leva a essas compreensões binárias de certo-errado, verdadeiro-falso – que eu, de forma geral, rejeito.

Quando, ou se, penso em “verdade”, não estou pensando no contrário de “mentira”. Estou pensando, antes, numa interpretação da “realidade” (que nem sempre é objetiva/factual) que se altera ao longo da experiência histórica, mesmo quando não se perceba essa alteração. Os Cristianismos, e todas as demais tradições religiosas do mundo, sofrem alterações em suas compreensões e práticas, independentemente do quão dogmáticas sejam. Por exemplo, o “Cristo” – ou a compreensão acerca de Cristo – do Movimento de Jesus dos primeiros anos não é o mesmo “Cristo” dos cristãos helênicos ou romanos do segundo século de nossa era, nem é o mesmo “Cristo” dos diferentes grupos cristãos do período medievo europeu, nem é o mesmo “Cristo” dos cristãos assírios do Oriente do século XV, nem o mesmo “Cristo” dos unitaristas do século XIX, nem o mesmo “Cristo” dos pentecostais brasileiros do século XX, nem o mesmo “Cristo” dos católicos romanos progressistas do século XXI. Cada um desses contextos específicos conheceu variadas interpretações cristológicas – isto é, de quem era Jesus Cristo – que eram, até certo ponto, distintas de compreensões variadas de outros contextos históricos.

O que quero dizer é que nenhuma religião, incluindo os Cristianismos, é um objeto estático no tempo. Sempre sofre variações. Assim, a linguagem, as atitudes, as ideias, as narrativas e as práticas cristãs estão sempre sofrendo mudanças, mesmo que essas sejam operadas de forma muito sutil.

Essa historicidade da fé faz com que uma compreensão histórico-metafórica das narrativas religiosas funcione como “verdade” para mim, mas que não funcionem como “verdade” para outras pessoas que possuam, por exemplo, bases socioculturais diferentes das minhas. Isso não torna (parte de) nossas perspectivas “certas” ou “erradas”, em si, mas apenas diferentes. Como a religião, de forma geral, não lida com fatos mensuráveis (objetivos), mas, majoritariamente, com concepções da realidade, rejeito a visão binária de certo-errado, verdadeiro-falso, quando lido com a realidade religiosa.

O mito religioso – e “mito” não é sinônimo de “mentira” –, para mim, é um instrumento pedagógico, uma ferramenta que nos ajuda a construir uma compreensão daquilo que está além da explicação binária. Assim, verdadeiro-falso não diz muito sobre o mito (isto é, a narrativa que aponta para uma verdade além da factualidade, que ultrapassa os limites do que é objetivo/quantificável) – essa binaridade não funciona em minha compreensão da realidade religiosa em geral, nem da cristã em particular.

O senhor acredita em Deus?”

Penso que já tratei tantas vezes sobre esse tema que me restaria pouco a dizer. Há um ano, publiquei um texto no qual discuto a questão, e ele ainda representa, em grande parte, minha compreensão sobre o assunto [<https://cristianismoprogressista.blogspot.com/2017/09/minha-teontologia-ou-o-que-acredito.html>]. Mas, resumidamente, o problema se refere ao fato de que tenho um grande problema com o verbo “acreditar”, no sentido com o qual é geralmente usado.

Se tivesse de dar uma resposta direta, sem nenhuma explanação filosófico-teológica complexa, diria que CREIO em Deus – isto é, confio na e experiencio a realidade de Deus. O verbo “crer” parece guardar uma ligação mais explícita com o sentido de “confiar” que, para mim, é mais importante do que afirmar um assentimento intelectual. (Ou seja, não sou um ateu – se esta é a pergunta.)

Apesar de a discussão dos verbos utilizados parecer irrelevante para um leitor/ouvinte leigo, para um Ministro religioso, um teólogo, um filósofo da religião, etc, os termos utilizados dizem muita coisa. Por isso, quando falo sobre o Divino, reflito sobre a linguagem utilizada. Essa reflexão é parte integrante de meu ofício, e resulta, obviamente, de minha história pessoal. Minha educação religiosa e intelectual me ensinou o questionamento. Questionar é fazer perguntas – perguntas para algumas das quais nunca chegaremos a uma resposta objetiva. E o questionamento, esse processo reflexivo de fazer perguntas, é uma atividade essencialmente linguística. Daí a preocupação com a demarcação das fronteiras de sentido para os termos que utilizamos.

De qualquer forma, naquele texto explico minha compreensão sobre Deus.


Paz a todas e todos!

+ Gibson


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