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terça-feira, 18 de maio de 2010

Não Acredito em Deus

Tomé, chamado Gêmeo, que era um dos Doze, não estava com eles quando Jesus veio. Os outros discípulos disseram para ele: “Nós vimos o Senhor.” Tomé disse: “Se eu não vir a marca dos pregos nas mãos de Jesus, se eu não colocar o meu dedo na marca dos pregos, e se eu não colocar a minha mão no lado dele, eu não acreditarei.”


Uma semana depois, os discípulos estavam reunidos de novo. Dessa vez, Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou. Ficou no meio deles e disse: “A paz esteja com vocês”. Depois disse a Tomé: “Estenda aqui o seu dedo e veja as minhas mãos. Estenda a sua mão e toque o meu lado. Não seja incrédulo, mas tenha fé”. Tomé respondeu a Jesus: “Meu Senhor e meu Deus!” Jesus disse: “Você acreditou porque viu? Felizes os que acreditaram sem ter visto”.


Jesus realizou diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes sinais foram escritos para que vocês acreditem que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E para que, acreditando, vocês tenham vida em seu nome. (João 20:24-31)



No último curso de preparação para confirmação que tivemos aqui, pelo menos um jovem disse claramente “Não acredito em Deus” e outros se declararam como sendo céticos ou agnósticos. E, mesmo assim, nós os confirmamos como membros desta congregação.


Crença. Certeza. Dúvida. Fé. No Cristianismo ocidental contemporâneo, especialmente no meio protestante brasileiro, essas palavras passaram a significar certas coisas, passaram a carregar em si um certo peso. Mas há um grande problema com o uso dessas palavras, por causa das noções que vêm atreladas a elas.


Quando alguém me diz “Não acredito em Deus”, como vários jovens já me disseram e como aquele jovem repetiu no curso de preparação para a confirmação, minha resposta tem sempre sido: “Me fale um pouco sobre esse Deus no qual você não acredita – eu provavelmente também não acredito nele”.


O que geralmente se fala no meio cristão é que Deus é um ser sobrenatural onisciente e todo-poderoso que age com intenção e intervém na história humana. Muitas pessoas acreditam que Deus tem uma vontade, um plano para a humanidade, e que Deus manipula os eventos em nossas vidas, como se fôramos marionetes.


As crenças que se tornaram padrão no Cristianismo incluem a aceitação de que a Bíblia seja de alguma forma uma comunicação da mensagem de Deus e plano para como devamos viver juntos como comunidade humana. A ortodoxia cristã inclui as crenças em Jesus como filho único de Deus, sendo divino e humano em sua natureza, e que ele foi o mensageiro da vontade de Deus e que morreu para reconciliar uma humanidade caída e corrupta com Deus.


O problema que muitos de nós aqui nesta sala tivemos é que, em algum ponto, essas crenças não são mais críveis, não fazem mais sentido. Mas porque é assim que o Cristianismo é ensinado e compreendido na cultura brasileira, não acreditar naquelas doutrinas significa que se está pisando fora do território do Cristianismo.


Um amigo meu está no meio dessa jornada de não mais acreditar na verdade literal da mitologia de nossa narrativa cristã, e me disse: “Acho que não posso continuar a ser cristão”. Como ele, um grande número de pessoas está abandonando a fé, ou ridicularizando-a, ou foi deixado com um senso de perda e desespero por causa do como identificamos a aceitação de doutrinas – algumas delas antigas e sem sentido – como sendo a verdade sobre a experiência religiosa cristã.


É exatamente aí que me afasto plenamente da ortodoxia cristã. Não creio que o Cristianismo possa ser definido como sendo o que acreditamos. Não em sua essência. Não em seu início. Penso que se tornou isso, mas não penso que seja isso que ele deva ser.


A passagem que eu li do evangelho de João fala um pouco sobre isso. A narrativa sobre o duvidoso Tomé e como ele teve de tocar a ferida de Jesus antes de poder acreditar tem sido interpretada e usada através dos séculos para tentar incutir culpa nas pessoas, para forçá-las a abandonar suas dúvidas e fazê-las aceitar algo que é inacreditável – que Jesus apareceu em carne após ter sido executado. Tomé é ridicularizado e usado como um exemplo do que não deveríamos ser, como se para que nossa fé fosse vista como mais autêntica, não exigiríamos tais provas.


Há vários níveis no livro de João, e ele, como um livro e como um documento teológico, tem um relacionamento único com o evangelho de Tomé – e não é por acaso que o discípulo duvidoso nesta narrativa é chamado de Tomé. E, tanto no evangelho de João como no de Tomé, o que é importante é que se acredite. Não em nome da própria crença, mas por causa de onde ela lhe levará.


Em seu início, o Cristianismo era uma experiência que as pessoas tinham. Era um visão radical de comunidade inclusiva. Uma nova sociedade que praticava um amor transformador. Crer na possibilidade disso, comprometer sua vida com isso, vivendo essa realidade, isso é que era o Cristianismo – e é isso que eu penso ser o Cristianismo agora. Há uma pista disso naquela passagem de João – mesmo estando pavimentada com a linguagem da crença.


Os últimos dois versos dizem o seguinte: “Jesus realizou diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes sinais foram escritos para que vocês acreditem que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E para que, acreditando, vocês tenham vida em seu nome”. Em outra parte do livro de João, lemos que Jesus tenha dito: “Eu vim para que vocês tenham vida, e a tenham de forma plena” - outras traduções dizem: “e a tenham em abundância”.


O Cristianismo não é, creio eu, sinônimo de aceitação de noções não científicas a respeito da origem do universo, ou que Maria tenha sido uma virgem, ou que Jesus tenha andado sobre a água. Não é sinônimo de aceitar Deus como sendo um ser todo-poderoso que tenha um plano específico ou que tenha poder sobre a decisão dos brasileiros nas próximas eleições presidenciais, nos resultados da Copa ou sobre o tempo. Não é sinônimo de como pensamos que o mundo terminará ou se há ou não uma vida pós-mortal.


Para mim, a experiência religiosa é abraçar o mistério que nos cerca. É reconhecer que há algo sagrado nesta vida que vivemos. Que há um ímpeto à criação que nos traz vida, e nos move em direção ao bem e eleva na humanidade uma resposta de admiração diante da vida. É a fonte de nossa poesia, de nossa música, e da profunda ligação que sentimos com as pessoas que amamos e com a própria criação. É isso que nos move à gratidão e, às vezes, nos faz cair de joelhos.


Escolho permanecer dentro da tradição cristã, porque ela é meu lar. Fui criado nela, eu a compreendo, sua linguagem e seus rituais me tocam. Mas não penso que o Cristianismo seja exclusivamente certo ou que seja melhor que qualquer outro caminho religioso que nos levará à essência da experiência humana – a essência que identifico como Deus.


Essa essência, esse caminho sagrado de vida, é o que nos faz formar uma comunidade, é o que dá sentido a nossas vidas, e é o que nos convoca ao trabalho pelo bem-estar de toda a família humana e de nosso planeta. Isso é Deus para mim, isso é fé religiosa para mim, e é nisso que eu acredito.


E como aqui em nossa comunidade não exercemos monólogos, convido todos vocês a participarem desse diálogo. Você acredita em Deus?





[Sermão na Congregação Unitarista de Pernambuco. Domingo, 16 de maio de 2010.]

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Identidade Cristã - Quem é cristão, afinal?


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Há alguns dias atrás conversava com um missionário “evangélico” que veio a uma atividade que realizo mensalmente com jovens de minha comunidade. Ele se interessou em saber a razão de pessoas como eu, cristãos liberais, permanecerem ligados ao cristianismo em vez de simplesmente abandoná-lo (ele parecia ver-me, assim como aos membros de minha comunidade de fé, como um “herege” - no sentido geralmente atribuído à palavra, não tendo compreendido o uso metafórico que faço da mesma em alguns de meus discursos - , então vi-me obrigado a explicar-lhe a diferença entre meu uso da palavra “herege” e o uso que os ditos cristãos tradicionais faziam da mesma).

Sua pergunta não me surpreendeu nem um pouco, já que ela apenas refletia a perspectiva simplista dominante em nossa sociedade, na qual a visão do cristianismo (seja católico ou protestante) é monolítica, ou seja, ser cristão é simplesmente crer numa lista específica de afirmações e ser parte de uma determinada comunidade religiosa, e estar submetido às regras impostas por tal comunidade.

Sua voz reproduzia simplesmente o discurso que já estou acostumado a ouvir de outros cristãos que afirmam que não sou digno de identificar-me como cristão por não crer nesta ou naquela doutrina apregoada por este ou aquele credo, este ou aquele texto bíblico, esta ou aquela confissão, este ou aquele consenso, esta ou aquela compreensão particular do que seja o cristianismo. Suas perguntas reproduziam a esquizofrenia dogmática dos evangelicais fundamentalistas e conservadores que apregoam que sou um “falso profeta” ou um “anticristo” por ensinar o que chamam de falsas doutrinas, e que serei punido com o “inferno” por “separar” pessoas de Deus - como se qualquer pessoa tivesse o poder de “separar pessoas de Deus” (parecem não conhecer o texto de Romanos 8:38-39 – um belíssimo e poético texto, à propósito!).

Essas pessoas, ou esses grupos de pessoas, abraçam uma visão bem diferente da identidade cristã, ou seja, do que é ser cristão, daquela abraçada por minha corrente teológica.

Sua compreensão da identidade cristã poderia ser comparada com um estereótipo do que seja ser um brasileiro: um amante de samba, que come feijoada ou churrasco no almoço de domingo depois de ir à praia, que bebe água-ardente, dorme numa rede, e que mal pode esperar pelo carnaval; alguém que tenha um sobrenome português, e que tenha o idioma português como língua materna, e que se enquadre num perfil “étnico” padrão; alguém semi-alfabetizado ou com um nível de instrução pouco elevado; alguém adepto do catolicismo, do evangelicalismo pentecostal, do espiritismo kardecista ou de alguma tradição afro-brasileira; um adepto de alguma corrente política dita “esquerdista”, etc. Se abraçarmos essa visão da identidade brasileira, o que faremos com aqueles, também brasileiros, que têm sobrenomes alemães, italianos, japoneses ou árabes, por exemplo, e que não tenham o português como seu idioma materno? O que faremos com os brasileiros que não gostam de samba, que são vegetarianos ou simplesmente não comam feijoada? Com aqueles que não celebram o carnaval e que nunca viram o mar na vida? E sobre aqueles que não são católico-romanos, evangélicos ou espíritas? Com aqueles que possuam um pós-doutorado? O que faremos com aqueles brasileiros que preferem vinho a água-ardente? E com aqueles que não votaram em Lula da Silva nas últimas eleições presidenciais? Serão eles acusados de não serem brasileiros por simplesmente não se enquadrarem num perfil pré-determinado? Serão eles acusados de traição nacional, sendo banidos da pátria?... É muito semelhante às afirmações de que se pode ser cristão apenas de uma forma; que para ser digno da identidade cristã tenhamos que nos encaixar dentro de certos limites culturais ou ideológicos, doutrinários ou dogmáticos.

A identidade cristã, ou seja, ser cristão, não decorre de apenas ser membro de uma comunidade ou de apenas crer em uma lista de doutrinas. A identidade cristã é construída a partir do sentido que socialmente damos à fé, e da constante revisão das tradições; ao mesmo tempo em que também é construída a partir daqueles aspectos da tradição que continuam a ser significativos e relevantes para a igreja cristã e para o indivíduo.

Muitos apostam na continuidade como sendo a base para a estabilidade da igreja cristã num mundo que se remodela a cada dia. Essas pessoas, ingenuamente, pensam que a fé cristã tem sido a mesma desde sua origem até hoje, e que continuará a mesma até “os fins dos tempos” (seja lá o que isso signifique!). Essa é uma visão deveras romântica e utópica da realidade, e ignora a maneira como a história humana é construída – sim, porque a história (e o cristianismo e todas as outras tradições religiosas, são parte da história humana) é uma construção humana e não um fato inato e determinado.

O cristianismo, se visto como um sistema de crenças e práticas, foi sendo construído no decorrer de séculos de história, e, na verdade, ainda se encontra neste constante processo de construção e revisão, à medida que novas perguntas surgem, que deparamo-nos com novos problemas que nunca tiveram de ser enfrentados nos primeiros séculos da história cristã. E o que divide os cristãos, por exemplo, nós liberais daqueles mais conservadores, não é muito a lista de crenças que vemos como sendo essencial, mas, antes de tudo, é a maneira como vemos a história e sua origem. Essa visão da história dirige nosso entendimento da Divindade, de nossas relações com outros humanos e com a vida em si, e, consequentemente, nossa visão do cristianismo e do que é ser cristão.

Como um cristão liberal, entendo o cristianismo como sendo basicamente uma construção humana, mesmo que uma construção humana inspirada pela Presença Eterna. O cristianismo, incluindo aí nossas Escrituras, rituais, sacramentos, tradições, etc, é nossa tentativa de construir uma resposta ao que ou quem entendemos ser Deus. É nossa tentativa de encontrar e formular respostas às grandes questões que nos cercam e nos movem. É nossa tentativa de, juntos, construirmos uma comunidade baseada naquelas fontes que nos inspiram e moldam. Assim sendo, sei que não pode haver uma única compreensão válida do que é ser cristão, apenas uma explicação válida da identidade cristã. Há uma ampla diversidade de opiniões e compreensões no cristianismo, e apesar de muitas dessas compreensões e opiniões me fazerem sentir muito desconfortável e, por vezes, me chocarem, não posso descrever seus defensores como mais ou menos cristãos que eu próprio ou outros, pois se o fizesse, estaria negando minha compreensão de como a história humana é criada, estaria negando o que conheço a respeito da história cristã e, consequentemente, estaria abandonando minha visão de mundo mais básica.

Como sempre, penso ser necessário afirmar que não tenho muito interesse por religião organizada, se o que se entende por isso for um conjunto certo e indiscutível de doutrinas. Considero o dogmatismo uma “esquizofrenia social” (em um sentido teológico para a expressão), e por essa razão, distingo fé de dogma. A fé parece-me suficientemente segura para lidar com quaisquer tipos de questões. A fé nunca é ameaçada por perguntas ou dúvidas. O dogma, ao contrário, é sempre ameaçado pelas perguntas e dúvidas porque é duro, é rígido, é petrificado, é vigiado e controlado, e quebra-se sob a luz do questionamento, e, portanto, merece ser ameaçado pelas perguntas e dúvidas.

Então, como resposta à pergunta daquele missionário, se ser cristão significa submeter-me a um sistema dogmático certo e indiscutível, onde não há espaço para dúvidas, para perguntas, para opiniões pessoais, então não quero ser contado como um cristão, pois não estou disposto a abraçar uma “esquizofrenia social”, não estou disposto a abandonar algo que considero ser parte integrante de minha identidade social: minha liberdade e integridade intelectuais.

Se, entretanto, ser cristão for compreendido como ser seguidor dos ensinamentos e exemplos de vida atribuídos à figura de Jesus de Nazaré, e ser membro da grande e diversa comunidade de seus discípulos cujas compreensões estão num permanente processo de reflexão, reconstrução, e, por que não?, reafirmação, então, sim, eu sou um cristão devoto e fiel.

Minha identidade cristã é moldada por minha maneira de ver a história, de entender a fé e tradição cristã, e por minhas ações, que, por sua vez, são moldadas e amparadas por minha maneira de crer e por minha maneira de interpretar a vida e minha relação com tudo o que é parte da vida. Outras pessoas compreenderão sua fé e o mundo ao seu redor de outra forma, e utilizarão outros instrumentos para ajudá-los nesse processo. As respostas encontradas por essas pessoas podem não ser muito adequadas para mim, mas elas não são mais ou menos importantes na vida dessas pessoas que as respostas que eu mesmo encontro são para mim, e é por essa razão que (mesmo discordando de e criticando essas ideias) sempre me disponho a apreciar o que essas pessoas têm a ensinar e oferecer de bom para o mundo. Temos (cristãos liberais e outros cristãos) muito mais em comum do que a maioria de nós consegue enxergar, e podemos aprender muitíssimo uns com os outros. É realmente uma pena que não possamos ver isso!

Seja qual for a opinião pessoal de meus interlocutores, e a minha própria, a verdade é que há muitas diferentes maneiras de ser cristão. O cristianismo, tendo a história e a extensão que tem, possui variedades das mais impressionantemente belas às mais horrivelmente repugnantes (em minha visão). Todas as pessoas que, da sua forma, encontram na grande Tradição Cristã o seu caminho, são cristãos para mim – e ponto final. Não me sentarei na cadeira de juiz para decidir a sinceridade ou correção das crenças de quem quer que seja, no que toca a serem cristãos ou não. E da mesma maneira, não permitirei que o julgamento de outras pessoas interfira na forma como enxergo a minha própria identidade religiosa. Eu sou um cristão, um cristão liberal.

Rev. Gibson da Costa

terça-feira, 27 de novembro de 2007

A Teologia Liberal da Congregação Unitarista de Pernambuco

Você está em busca de uma vida religiosa na qual tanto o seu coração quanto a sua mente estejam ativamente envolvidos? A Teologia Liberal, como encontrada em nossa comunidade, oferece uma maneira de entender e conhecer a Deus que honra a autoridade da consciência individual, valida e é compatível com as descobertas da ciência, apóia uma perspectiva religiosa ética, respeita a integridade e o valor de outras tradições religiosas e é inteligível às culturas e pessoas contemporâneas. Sendo assim, a Teologia Liberal é um meio-termo entre a rigidez da ortodoxia tradicional/conservadora e o vazio do ateísmo secular. A Teologia Liberal ousa fazer perguntas difíceis, evita uma certeza muito fácil e sabe que Deus é sempre maior do que podemos imaginar.

Por causa de nossa teologia liberal, nossa comunidade atrai aqueles que não podem aceitar os sistemas de crença centrais à maioria da religião organizada. Atraímos aqueles que não conseguem mais recitar credos tradicionais por as palavras ficaram impedidas em suas gargantas. Atraímos aqueles feridos por outras igrejas onde parece haver mais julgamento que aceitação. Mas o que é a teologia liberal? Aqui estão algumas afirmações centrais à vida de nossa comunidade.

Nossa Abordagem Geral à Religião

1 – Afirmamos o livre pensamento.
Todos os membros podem acreditar no que suas consciências, mentes, experiências e emoções os levam a afirmar. Os ministros de nossa comunidade simplesmente compartilham do púlpito sua própria compreensão religiosa, esperando que ajude outros em sua jornada de fé.

2 – Afirmamos uma unidade de experiência fundamental.
Não há nenhum conflito intrínseco entre a fé e o conhecimento, a religião e o mundo, o sagrado e o secular. Em vez de vermos a cultura, especialmente a ciência e as artes, como uma ameaça à fé religiosa, os cristãos liberais entendem sua fé com referência à sua experiência na cultura contemporânea.

3 – Nos definimos como uma comunidade de investigadores.
Queremos ser um lar de busca da verdade para aqueles com mentes e corações investigativos. Encontramos mais valor nas dúvidas que em certezas absolutas. Não tememos a dúvida.

4 – Respeitamos a mente humana e seus processos de pensamento.
Esta é uma comunidade onde você não tem de abandonar sua mente. Você é encorajado a pensar por você mesmo.

5 – Não limitamos a busca por verdade religiosa ao intelecto.
Somos uma comunidade de espíritos que anelam pela experiência. Nossa ênfase na razão é equilibrada por uma convicção de que nossos corações e almas devam ser nutridos juntamente com nossas mentes. Assim, místicos vivem em uma comunidade de investigadores e oferecemos às pessoas muitas maneiras de experimentar uma presença eterna.

6 – Celebramos e respeitamos as religiões de todas as eras e culturas.
Há sabedoria em todas as religiões vivas do mundo. Reconhecemos a fidelidade de outras pessoas que têm outros nomes para o caminho ao domínio de Deus e reconhecemos que seus caminhos são verdadeiros para eles, da mesma forma como o nosso é verdadeiro para nós.

7 – O Cristianismo Liberal é necessariamente inovador.
Se somos abertos a idéias novas, então devemos estar dispostos a mudar, crescer e pensar fora dos padrões nos quais às vezes nos encontramos. Precisamos ter a coragem de abandonar idéias, noções e práticas nas quais não mais acreditamos.

Afirmações Teológicas Específicas

1 – Afirmamos o valor e dignidade de todo ser humano.
Todas as pessoas têm igual direito à vida, liberdade e justiça. Então, nossa comunidade de fé recebe homens, mulheres e pessoas transexuais de todas as raças, classes, habilidades, e orientações sexuais. Reconhecendo a realidade do pecado e falha, somos, contudo, profundamente humanistas, reconhecendo a bondade e o potencial da humanidade.

2 – A maioria de nós vê a Bíblia como uma coleção de antigas reflexões humanas a respeito de Deus e do sentido da vida.
As narrativas bíblicas surgiram entre um grupo particular de pessoas do Oriente Médio que estavam em busca de sentido em sua jornada na vida. Para a maioria de nós em nossa comunidade, a Bíblia não é tanto a palavra de Deus quanto é uma coleção de palavras humanas com o potencial de libertar-nos e impelir-nos numa maravilhosa jornada de investigação.

3 – O Jesus histórico abre para nós um caminho para Deus.
Jesus, um mestre camponês palestino, começou um movimento de reforma no Judaísmo de seu tempo. Ele não tentou criar uma nova religião. Sua vida e ensinos ofereceram esperança e transformação àqueles à margem da sociedade. Para a maioria de nós, Jesus não é uma figura divina enviada por Deus para pagar pelos pecados de uma humanidade caída, em vez disso, o Jesus humano é o maior modelo de vida religiosa. Jesus abre, para os cristãos liberais, um caminho para Deus que se torna para nós um espelho para o nosso próprio potencial humano e uma janela para o amor de Deus.

4 – Entendemos Deus de várias maneiras, mas afirmamos conjuntamente que a presença de Deus, plena de amor incondicional, está em todo lugar.
Para muitos de nós, Deus está além do teísmo, é uma força de vida em vez de um ser. Deus é o nome que usamos para aquilo que é maior que tudo, e que mesmo assim, está presente em cada coisa. Deus é o mistério que transcende os limites do ser. A força da vida, a Base de Todo Ser, o Próprio Ser são nomes para o Indescritível.

5 – A maioria dos cristãos liberais vêem a oração como uma aventura humana.
Não oramos para convencer Deus a intervir na experiência humana. A oração genuína não é uma lista de compras. É um desejo de simplesmente “estar” na presença da Base de Todo Ser. Através da oração, sentimos a presença de Deus, sentimos o amor de Deus, e tentamos realinhar nosso senso de nós próprios com o que pensamos que Deus nos chama a ser. A oração é estar na presença de Deus, compartilhando quem somos e o que mais importa para nós.

6 – A maioria dos cristãos liberais estão incertos a respeito da vida após a morte, mas nos prendemos à esperança ancorada no amor incondicional de Deus.
Cremos que a morte traga a absoluta cessação da mente e do corpo, mas reconhecendo o mistério e os limites do conhecimento humano, também afirmamos que isso não exclua as possibilidades de algo além da morte. A maioria dos cristãos liberais não temem dizer que não sabemos se há algo além do túmulo e que é suficiente para nós lembrarmos que estamos sempre cercados pelo amor de Deus. E a salvação para a maioria dos cristãos liberais não tem nada a ver com a vida após a morte. A salvação é um estado de plenitude, saúde, e “shalom” que ocorre aqui e agora quando estamos em paz conosco mesmos, com os outros e com a natureza.

7 – Cristãos liberais querem criar comunidades de fé onde as pessoas cuidem profundamente umas das outras e onde busquem ajudar a curar um mundo ferido.
No Cristianismo Liberal, a religião é mais a respeito de relacionamentos que mandamentos, e comunidades de fé afirmam relacionamentos onde alimentamos e sustentamos uns aos outros em momentos difíceis, onde encorajamos uns aos outros em nossas jornadas espirituais e onde trabalhamos juntos para criar um mundo melhor.

8 – Sabemos que a maneira como nos comportamos uns com os outros é basicamente mais importante que o que acreditamos.
Na verdade, a maneira como nos portamos uns com os outros é a expressão mais plena do que cremos. Karen Armstrong, uma poderosa voz da religião liberal, diz: “A religião é a respeito de nos comportarmos de uma forma que nos mude, que nos dê insinuações da santidade e da sacralidade... A religião não é a respeito de aceitarmos proposições impossíveis, mas a respeito de fazermos coisas que nos mudem. A busca religiosa não é a respeito da descoberta da 'verdade', mas a respeito de viver tão intensamente quanto possível aqui e agora. A idéia não é se trancar a alguma personalidade super-humana ou 'ir para o céu', mas descobrir com ser um humano completo”. Como nos comportamos é mais importante do quê cremos!

A maioria dos membros de nossa comunidade provavelmente aceitam a maioria das afirmações acima. Mas, por causa de nosso respeito pelo livre pensamento, muitos membros podem rejeitar algumas das afirmações. Mas essas afirmações – juntamente com os 8 Pontos do Cristianismo Progressista, as Afirmações de Phoenix, e a Carta da Terra – ao menos oferecem uma idéia do tipo de teologia em nossa comunidade cristã liberal.