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domingo, 22 de janeiro de 2017

Professando minha "fé"


Assim também é a fé: sem as obras, ela está completamente morta. […] Mostre-me a sua fé sem as obras, e eu, com as minhas obras, lhe mostrarei a minha fé.” (Tiago 2:17-18)

Frequentemente, as pessoas demonstram uma enorme preocupação com a “crença” enquanto cerne da fé religiosa. Para eles, a “” consiste numa função intelectual de aceitação duma formulação de crença correta (a “ortodoxia”). Sua “fé” define-se pelas coisas nas quais declaram acreditar – e mesmo que não tenham consciência disso, enfatizam aquele aspecto da fé chamado em latim, na tradição teológica luterana, de “assensus” (que se refere ao ato de assentir, concordar, aprovar). Isso é demonstrável, por exemplo, nas inúmeras vezes que outras pessoas me perguntam no que creio. Elas esperam que eu professe uma lista de declarações fixas sobre diferentes aspectos teológicos, para que, assim, possam avaliar minha “fé” como “ortodoxa” ou “herética”.

Esperar que eu professe uma compreensão intelectual acabada da Realidade de Deus, da dimensão misteriosa ou dum porvir eterno não funciona para minha fé pessoal. Sou um cristão moldado por diferentes tradições cristãs, ordenado ao sacerdócio/ministério de cinco diferentes comunhões cristãs, e minha teologia pessoal é cada vez mais abençoada pela influência de outras tradições – cristãs ou não. Minha relação com amigos de outras tradições religiosas me ensina o quanto temos em comum e me faz compreender a “verdade” religiosa como algo que se encontra além de qualquer função intelectual.

Gosto de pensar que minha fé é multitradicional, isto é, bebe duma catolicidade mais extensa do que os limites de qualquer comunhão denominacional. Assim, meu unitarismo se entrelaça ao meu anglicanismo que aprende com meu luteranismo que se ilumina com meu restauracionismo que se pacifica com meu quakerismo que se integram à minha herança judaica liberal. De todos eles, e de minha herança cultural, emerge minha compreensão do Sagrado – que inclui não apenas Deus, mas também a humanidade e o todo da criação. Assim, o aspecto intelectual de minha fé não pode ser descrito como algo acabado, imutável; minha compreensão de fé, minha teologia, é, antes, um processo, um caminho, uma via.

Acredito em revelação, que “Deus ainda está falando”, como diz o slogan de uma de minhas denominações. Só que isso pode significar algo totalmente diferente do que alguns poderiam pensar. Nunca ouvi, literalmente, a “voz de Deus” – ou seja, nunca ouvi uma voz mensurável falando comigo, vinda do céu. Mas, ainda assim, julgo ouvir a voz divina: a ouço quando me sinto compelido a ouvir alguém que precisa ser ouvida(o); a ouço quando escuto uma música que me inspira ou consola; a ouço quando sou inspirado por alguém a fazer o que certo; a ouço quando alguém me oferece o consolo que eu preciso. Esse tipo de audição é o que chamo de “influência divina” ou “presença do Espírito Santo”. Essa Presença divina é aquela influência que me convida a participar do “Tikkun olam” (a restauração, reparo, cura do mundo), ensinado por minha herança judaica liberal, ou da construção de “Sião” (comunidade de compaixão, solidariedade e honra do valor e dignidade de todas as pessoas), como ensina minha tradição cristã restauracionista.

É isso que prefiro enxergar como minha fé. Menos uma crença, e mais uma esperança que me compele a tornar o aqui e agora no templo para a habitação do Divino. Menos uma lista de declarações sobre o desconhecido, e mais um desafio para tornar toda a minha vida uma manifestação de minha “fé”. E confesso publicamente, aqui, que essa é a coisa mais difícil que se pode tentar – mas é um desafio transformador!

Como um unitarista, é óbvio que me ocupo da intelectualização de minha “fé”. Essa é também, a propósito, parte de minha ocupação no ministério religioso e no ensino teológico. Mas me preocupo muito mais em viver minha “fé” do que em articulá-la intelectualmente. Em minha tradição anglicana, temos uma expressão para isso: “lex orandi lex credendi” – a lei da oração [é] a lei da crença – ou seja, é na oração que expressamos nossa crença; e como nossa própria vida deve ser uma oração, é na forma como vivemos nossas vidas que expressamos nossa crença teológica (como bem afirma o autor da Carta de Tiago).

+Gibson

segunda-feira, 21 de março de 2011

Meu cristianismo liberal unitarista-anglicano-luterano

Como Peter Berger escreveu certa vez, perguntar a respeito das mudanças na mente dum indivíduo é “um convite ao narcisismo”*. Não posso deixar de me entregar a essa perigosa atividade, mesmo correndo o risco de soar um tanto narcisista, porque creio que outras pessoas também passaram por processos semelhantes de transformação pessoal.


Definir-me religiosamente tem sempre sido um desafio para mim. Sou um cristão liberal unitarista-anglicano-luterano. Quanta contradição há nessa auto descrição? Não sei. Sei que ela é um sumário de minha herança religiosa; uma tentativa de afirmação da vasta tradição que sempre foi parte de minha visão religiosa do mundo.

Cresci com essas três heranças encrustadas em meu eu religioso. Do unitarismo, que é a voz mais forte na linguagem teológica que uso para interpretar o universo, vem minha independência de pensamento e meu ímpeto para desafiar as representações da realidade que me tentam impor, além de minha tolerância e apreciação pelo diferente, enfim, vem meu não-conformismo. Do luteranismo vem a lembrança de que, mesmo sendo um homem livre e inteligente, sou dependente daquela Realidade inexplicável que a tradição chama de “Deus”. Do anglicanismo, vem meu amor pela tradição cristã, meu amor pela liturgia que me une aos cristãos de todas as eras. Das três tradições, ou de minha interpretação pessoal delas, vem minha compreensão do cristianismo como sendo uma “ação”, muito mais do que apenas uma “concepção”.

Sou um ministro ordenado de quatro diferentes denominações religiosas: uma unitarista, uma anglicana, uma luterana, e uma Igreja Unida – que em seu seio, traz elementos de todas as já citadas. Sinto-me muito bem com essa aparente confusão de lealdades, pois, no fim das contas, sou fiel a apenas uma igreja: aquela comunidade dos seguidores de Jesus de Nazaré – aquele ser humano em quem reside minha compreensão de Deus e de meu relacionamento com a vida e com os demais humanos.

Parece ser uma contradição que um sacerdote luterano-anglicano possa ser, ao mesmo tempo, um ministro unitarista, ou vice-versa. Afinal de contas, onde ficam as compreensões de Deus, aparentemente contraditórias, dessas duas grandes tradições: os protestantes livres (unitaristas) e os protestantes ortodoxos (luteranos e anglicanos)? Onde ficam as diferenças entre as duas tradições eclesiológicas: os congregacionais (unitaristas e Igreja Unida) e os episcopais (anglicanos e luteranos)? E outras tantas aparentes contradições?... Bem, não tenho uma resposta simples para isso. Como não me preocupo com respostas dogmáticas, com explicações que tenham validade permanente, essas diferenças são para mim supérfluas.

Hoje não tenho mais ligações canônicas com a Igreja Episcopal ou com a Igreja Evangélica Luterana na América. Minhas ligações ministeriais se reservam à Igreja Unida e às várias associações ministeriais unitaristas e universalistas da qual sou parte. Foi uma decisão difícil, mas era necessária para que eu assumisse a liderança de minha comunidade religiosa. Essa não foi uma exigência da Associação Unitarista ou das outras duas igrejas (anglicana e luterana), mas era uma exigência de minha consciência. Ao mesmo tempo, essa foi uma decisão política e um manifesto teológico.

Eu, pessoalmente, sou um cristão. Sou leal à minha compreensão de Deus e ao meu relacionamento com Jesus de Nazaré. Sou fiel à minha compreensão adogmática das Escrituras e da tradição cristã. Sou leal à voz do Espírito Divino entre nós unitaristas, quando ela nos diz que devemos ter nossas mentes, nossos corações e nossos braços abertos para recebermos absolutamente todas as pessoas, independentemente de quem sejam ou do que acreditam ou desacreditam. Minha compreensão do cristianismo tem passado por inúmeras transformações no decorrer de minha vida adulta, transformações essas que me fazem compreender minha fé como um processo e não com um fim. A fé religiosa é uma aventura, é uma jornada que nos leva por caminhos sinuosos e que nos constrói e reconstrói continuamente. Esse caminho de variações, esse processo interminável, essa jornada sinuosa é o meu cristianismo, é o cristianismo que aprendi em meu confuso berço unitarista-anglicano-luterano, é o cristianismo de minha comunidade unitarista. Pode até parecer loucura aos ouvidos dos cristãos dogmáticos ou dos descrentes em religião, mas é assim que entendo meu cristianismo unitarista.

+Gibson da Costa

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*BERGER, Peter. From Secularity to World Religions. In: Christian Century, 16 de Janeiro, 1980. p. 41.