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segunda-feira, 21 de março de 2011

Meu cristianismo liberal unitarista-anglicano-luterano

Como Peter Berger escreveu certa vez, perguntar a respeito das mudanças na mente dum indivíduo é “um convite ao narcisismo”*. Não posso deixar de me entregar a essa perigosa atividade, mesmo correndo o risco de soar um tanto narcisista, porque creio que outras pessoas também passaram por processos semelhantes de transformação pessoal.


Definir-me religiosamente tem sempre sido um desafio para mim. Sou um cristão liberal unitarista-anglicano-luterano. Quanta contradição há nessa auto descrição? Não sei. Sei que ela é um sumário de minha herança religiosa; uma tentativa de afirmação da vasta tradição que sempre foi parte de minha visão religiosa do mundo.

Cresci com essas três heranças encrustadas em meu eu religioso. Do unitarismo, que é a voz mais forte na linguagem teológica que uso para interpretar o universo, vem minha independência de pensamento e meu ímpeto para desafiar as representações da realidade que me tentam impor, além de minha tolerância e apreciação pelo diferente, enfim, vem meu não-conformismo. Do luteranismo vem a lembrança de que, mesmo sendo um homem livre e inteligente, sou dependente daquela Realidade inexplicável que a tradição chama de “Deus”. Do anglicanismo, vem meu amor pela tradição cristã, meu amor pela liturgia que me une aos cristãos de todas as eras. Das três tradições, ou de minha interpretação pessoal delas, vem minha compreensão do cristianismo como sendo uma “ação”, muito mais do que apenas uma “concepção”.

Sou um ministro ordenado de quatro diferentes denominações religiosas: uma unitarista, uma anglicana, uma luterana, e uma Igreja Unida – que em seu seio, traz elementos de todas as já citadas. Sinto-me muito bem com essa aparente confusão de lealdades, pois, no fim das contas, sou fiel a apenas uma igreja: aquela comunidade dos seguidores de Jesus de Nazaré – aquele ser humano em quem reside minha compreensão de Deus e de meu relacionamento com a vida e com os demais humanos.

Parece ser uma contradição que um sacerdote luterano-anglicano possa ser, ao mesmo tempo, um ministro unitarista, ou vice-versa. Afinal de contas, onde ficam as compreensões de Deus, aparentemente contraditórias, dessas duas grandes tradições: os protestantes livres (unitaristas) e os protestantes ortodoxos (luteranos e anglicanos)? Onde ficam as diferenças entre as duas tradições eclesiológicas: os congregacionais (unitaristas e Igreja Unida) e os episcopais (anglicanos e luteranos)? E outras tantas aparentes contradições?... Bem, não tenho uma resposta simples para isso. Como não me preocupo com respostas dogmáticas, com explicações que tenham validade permanente, essas diferenças são para mim supérfluas.

Hoje não tenho mais ligações canônicas com a Igreja Episcopal ou com a Igreja Evangélica Luterana na América. Minhas ligações ministeriais se reservam à Igreja Unida e às várias associações ministeriais unitaristas e universalistas da qual sou parte. Foi uma decisão difícil, mas era necessária para que eu assumisse a liderança de minha comunidade religiosa. Essa não foi uma exigência da Associação Unitarista ou das outras duas igrejas (anglicana e luterana), mas era uma exigência de minha consciência. Ao mesmo tempo, essa foi uma decisão política e um manifesto teológico.

Eu, pessoalmente, sou um cristão. Sou leal à minha compreensão de Deus e ao meu relacionamento com Jesus de Nazaré. Sou fiel à minha compreensão adogmática das Escrituras e da tradição cristã. Sou leal à voz do Espírito Divino entre nós unitaristas, quando ela nos diz que devemos ter nossas mentes, nossos corações e nossos braços abertos para recebermos absolutamente todas as pessoas, independentemente de quem sejam ou do que acreditam ou desacreditam. Minha compreensão do cristianismo tem passado por inúmeras transformações no decorrer de minha vida adulta, transformações essas que me fazem compreender minha fé como um processo e não com um fim. A fé religiosa é uma aventura, é uma jornada que nos leva por caminhos sinuosos e que nos constrói e reconstrói continuamente. Esse caminho de variações, esse processo interminável, essa jornada sinuosa é o meu cristianismo, é o cristianismo que aprendi em meu confuso berço unitarista-anglicano-luterano, é o cristianismo de minha comunidade unitarista. Pode até parecer loucura aos ouvidos dos cristãos dogmáticos ou dos descrentes em religião, mas é assim que entendo meu cristianismo unitarista.

+Gibson da Costa

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*BERGER, Peter. From Secularity to World Religions. In: Christian Century, 16 de Janeiro, 1980. p. 41.
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