.

.
Mostrando postagens com marcador liberdade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador liberdade. Mostrar todas as postagens

domingo, 21 de maio de 2017

E o Império do czar Putin persegue mais um grupo: as Testemunhas de Jeová na Rússia


Em 20 de abril último, a Suprema Corte da Rússia decidiu favoravelmente à ação aberta pelo Ministério da Justiça contra a organização das Testemunhas de Jeová no país. Desde então, a denominação é considerada um “grupo extremista” no país, o que tem piorado e legitimado a perseguição que o grupo já sofria na Federação Russa. De acordo com relatos da própria Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados da Pensilvânia (a principal organização das Testemunhas de Jeová no mundo), membros da denominação têm sido atacados na rua, suas contas bancárias têm sido bloqueadas e seus salões de culto têm sido dessacralizados.

A acusação contra as Testemunhas de Jeová é a de que quebraram uma lei de 2002, frequentemente usada contra grupos que o governo encara como inimigos. A lei proíbe que grupos religiosos – com exceção da Igreja Ortodoxa Russa – afirmem pregar a única verdade (o que fazem as testemunhas de Jeová, e muitos outros). Além disso, o pacifismo e não envolvimento com a vida eleitoral ensinados pelo grupo é a razão para que seja classificado como “extremista”. Assim, as testemunhas de Jeová estão na mesma classificação da al-Qa'ida e do Estado Islâmico, por exemplo!

Não sou um Testemunha de Jeová e, pessoalmente, não tenho nenhuma simpatia por suas crenças, mas seria inaceitável me calar diante de tamanha violação aos seus direitos humanos básicos. A acusação e a pena contra as Testemunhas de Jeová na Rússia é uma afronta à humanidade de todos nós – assim como o é a perseguição sofrida por todos os grupos religiosos dissidentes na Rússia e em todas as outras partes do mundo, apenas por suas práticas pacíficas e de não participação com a vida “secular” serem percebidas como um desafio ao cetro do poder estabelecido.

O direito humano de acreditar no que quer e de expressar essa crença de forma não violenta é mais importante do que qualquer lei que o subtraia. Essa é a base de minha fé religiosa e de meu credo político. E realmente não importa o quanto eu discorde das ideias defendidas pelos demais: se eles têm seu direito violado, o meu próprio se foi com eles. É uma vergonha que isso ocorra em pleno século XXI.

+Gibson


sábado, 30 de janeiro de 2016

Somos inimigos por discordarmos em nossas crenças?




[*Correção da tradução: “Apenas um estranho no ônibus, tentando fazer seu caminho de casa” → “...tentando voltar para casa”.]


Sempre serei grato por duas pequenas [grandes] coisas que me foram ensinadas desde cedo: 1) que podemos pensar/acreditar de forma diferente de outras pessoas – essa é uma liberdade concedida por Deus e pela Declaração Universal dos Direitos Humanos; 2) que ninguém é meu inimigo simplesmente por discordar de minhas posições/crenças, e vice-versa.

Sendo quem sou, é difícil não olhar para o mundo ao meu redor sem me lembrar dos chamados “conflitos religiosos” que têm marcado a história humana. As aspas (“ ”), a propósito, indicam minha discordância com a adjetivação daqueles tipos de conflito que tão prontamente indicam como “religiosos”: isso porque chamá-los de “religiosos” implica num reconhecimento, mesmo que involuntário, ou de que a “religião” (que muitos interpretam como sendo uma “religação” ou “retorno” ao Divino) seja um fenômeno fundamentalmente violento, ou de que a violência possa ser legitimamente designada como “religiosa” (ou seja, que possamos nos relacionar com o Divino por meio da violência) – eu, obviamente, rejeito as duas premissas.

Observando o que tem ocorrido ao meu redor, não posso deixar de perceber o quão difícil é ver aqueles dois princípios que me foram ensinados sendo aplicados no mundo, e o quão difícil é manter a lealdade a eles. Isso porque hoje, mais do que em qualquer outra época em minha relativamente curta vida, pensar/crer diferentemente de outros parece ser encarado como uma ameaça beligerante – seja em termos de fé religiosa, em termos de política ou de qualquer outra coisa.

Pessoalmente, aprecio muito a diversidade do [e no] mundo. Prefiro uma realidade multicolor à bicoloridade que alguns impõem ao mundo. Tudo é muito mais “belo” por haver cores, formas, sons, aromas, crenças diferentes. A vida espiritual é muito mais rica por haver milhares de formas diferentes de compreender a relação entre o “objetivo” e o “misterioso”, entre a “Criação” e o “Criador”. Mesmo o Cristianismo é muito mais belo, e muito mais vivo, justamente por haver centenas de formas distintas de compreendê-lo e de praticá-lo.

Quando olho para essa diversidade e me reconheço como um dos elementos para as diferenças de tonalidade, não posso ver outras pessoas como minhas inimigas – por mais que discorde de suas crenças e, intelectualmente, as critique. Como eu, no que tange à experiência “religiosa”, elas são viajantes numa trilha de descoberta do Divino. Elas mesmas podem não interpretar suas e minhas experiências dessa forma, mas, ao menos em nossa experiência de busca, compartilhamos semelhanças.

Pessoalmente, acredito em revelação divina. Acredito que aquela Realidade que chamo de Deus se revela ao ser humano de inúmeras formas. A maioria dos cristãos, talvez, diria que Deus se revela por meio das Escrituras (a Bíblia). Eu também acredito nisso. Mas, para mim, Deus se revela também por meio de nossas relações com as outras pessoas; por meio da comunidade de fé; por meio da natureza; por meio da oração; por meio do trabalho; por meio da arte e do entretenimento; por meio da ciência e do conhecimento intelectual; enfim, por meio da história humana.


Deus está sempre falando. Nós, talvez, é que não ouvimos. Deus fala, algumas vezes, inclusive por meio das vozes daqueles de quem discordamos. Por isso, não posso vê-los como meus inimigos.

+Gibson

domingo, 2 de agosto de 2015

Questionamentos Intelectuais e Moralidade Prática: uma resposta a outra provocação de Rebeca...


Cara Rebeca,

Não tenho nenhuma obrigação em defender minha vida pessoal aqui, mas, talvez seja importante fazer algumas observações sobre seu comentário.

Você comete um grande equívoco quando compra a opinião de outras pessoas de que o que eu faço aqui seja dar aos meus leitores “licença para pecar”. Em primeiro lugar, porque não sou senhor das ações de ninguém. E, em segundo lugar, porque tenho uma enorme preocupação moral/ética – é só você ler cuidadosamente o que publico aqui.

Questionar posições morais, historizando suas origens intelectuais, não é o mesmo que não ter “nenhum princípio moral” ou viver de forma descompromissada com princípios éticos – sejam esses baseados no que for. O questionamento que faço – seja em minha vida pessoal, em minha vida eclesiástica, em minha vida acadêmica ou em espaços mais “públicos”, como este – é, antes, um exercício de minha fé na liberdade de consciência que, em termos de minha fé cristã, equivale à “liberdade do cristão”.

Minha compreensão da liberdade cristã se assenta em minha herança teológica; exatamente da mesma forma como a visão de muitos que discordam de mim. Esses que discordam de minha visão, contudo, não podem condenar-me com base em minha vida pessoal – primeiro, porque as pessoas que você cita não me conhecem; segundo, porque elas, de fato, não têm autoridade para condenar-me.

Eles, e você, podem imaginar que eu leve uma vida “sórdida” “de pecado” (expressões que você utilizou) simplesmente porque não concordam com meus questionamentos acerca de posições morais ditas tradicionais, mas meus questionamentos intelectuais dizem muito pouco a respeito de minha própria vida.

Considerando o contexto da maioria dos que tão prontamente me condenam publicamente, por conta do que discordam em minhas opiniões, imagino que – como um cristão liberal – seja muito mais “conservador” na forma como vivo minha vida do que a maioria dos autoproclamados defensores da "moral conservadora". Questiono a “moral sexual” da Igreja, mas eu mesmo tenho um rígido código de comportamento sexual para minha própria vida. Critico a origem da “moralidade de fronteira” que os evangélicos brasileiros herdaram dos missionários americanos – com a condenação da bebida, do cigarro etc –, mas eu mesmo não faço uso dessas coisas. Como escrevi acima, questionar não é despir-me de minhas próprias regras morais – a diferença é que estou ciente das origens dessas regras e não as imponho a outras pessoas; elas são minhas regras para minha vida pessoal (não são “as regras de Deus” que devo obedecer inquestionavelmente).

Você se engana quando diz que eu seja um defensor do aborto. Por exemplo, não como carne porque sou contrário à ideia de matar um animal para comê-lo, se posso me alimentar de outra coisa – compreendo o consumo desnecessário de carne como um envolvimento num ato de violência não-defensivo. Acredito que a vida seja um dom divino e que, na maioria das circunstâncias, não devemos interferir para encerrá-la. Se tenho esse cuidado com outros seres vivos, como poderia apoiar algo como o aborto?…

Você nunca pode ter lido nenhum texto meu que defendesse o aborto, e aqueles que convivem comigo nunca me ouviram defender o aborto em minha fala. O que você já leu meu a respeito foi um questionamento da origem de nossas ideias sobre o aborto; ademais, pode já ter lido minha defesa política do direito da mulher decidir o que faz com seu corpo – e isso enraíza-se tanto em minha herança teológica quanto política liberais. Questionar a origem de ideias e a natureza das leis não é o mesmo que fazer apologia a algo. Nossas visões sobre o aborto são construções históricas. Mesmo a tradição cristã herda isso, mais objetivamente, de outras fontes, que não a Bíblia. Dizer isso, entretanto, não é dizer que eu seja a favor do aborto.

Seus argumentos, a propósito, falham gravemente quando tenta condenar o que pensa que defendo. Que moralidade, afinal, há em condenar o aborto e ser favorável à pena de morte? A lógica de que “o bebê é inocente” e um “assassino é culpado de morte, por isso pode pagar com sua própria vida” é horrenda para mim, teológica, política e humanamente. E isso, sim, é incoerente, e não o que digo – considerando que seu julgamento a meu respeito se baseia em premissas errôneas a meu respeito.

Bem, seja como for, fico feliz que você tenha me escrito a respeito da resposta que dei anteriormente. Se tiver mais provocações, estou aqui!

Grande abraço! E Paz!

+Gibson

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Uma inaceitável ameaça à liberdade religiosa

Lendo o Globo online hoje, me deparei com a absurda notícia – que desconhecia até hoje – de que um juiz do Tribunal Regional Federal havia decidido que “as manifestações religiosas afro-brasileiras não se constituem religião”. Mais um desrespeito ultrajante aos princípios constitucionais que estabelecem, no art. 5 da Constituição Federal, a liberdade religiosa, mas também a proteção aos locais de culto e as suas liturgias. Lá não se encontra nenhuma definição do que seja uma religião, até porque não é papel do Estado, o que inclui as cortes, intrometer-se na definição do que uma tradição religiosa deva ter ou fazer para ser considerada uma “religião”.

Como um cristão, como um ministro religioso, e como um cidadão comprometido com a liberdade, não aceito essa discriminação contra outras tradições de fé. E você que lê minhas palavras também não deveria aceitá-la.

Deixo aqui de lado, por hora, a questão que causou todo esse absurdo – vídeos de cristãos evangelicais que faziam comentários sobre religiões afro-brasileiras –, já que, como sabem, sou um radical em termos de liberdade de expressão, ou seja, não acredito que alguém que expresse uma opinião deva ser punido simplesmente por sua opinião ser impopular (a não ser que haja ameaça, impulsionamento à violência, etc). O que me interessa é protestar aqui contra a ignorância e intromissão indevida de quem deveria proteger o cidadão de abusos contra os seus direitos constitucionais e humanos. E isso não pode ser aceito pela sociedade, e muito menos pelos cristãos.

Ninguém pode estar livre para viver a sua fé, a não ser que toda a sociedade – independentemente do que acredite – também esteja livre para crer ou descrer no que quer que seja. Juiz algum, sob as leis que possuímos hoje, pode definir o que seja uma religião ou não. A lei tem o poder de limitar o que pode ser feito num culto religioso, se o que é feito viola outros aspectos da legislação (por exemplo, uma religião não poderia fazer sacrifícios humanos), mas não pode definir o que é uma religião ou não – essa definição é dada pelos seguidores da mesma, e apenas eles.

Isso necessariamente me leva a afirmar que a liberdade religiosa é uma espada de dois gumes – você tem liberdade para crer e praticar, mas outros têm a liberdade de criticar suas crenças e práticas nos limites da lei.

Seja como for, essa decisão não pode ser aceita por uma sociedade onde somos, constitucionalmente livres para crer e praticar nossa fé religiosa, e termos essa mesma fé reconhecida como uma “religião”.

+Gibson

sábado, 10 de maio de 2014

Pela liberdade de expressão de opinião e pela liberdade de imprensa!


Cada vez mais me aborreço com a intolerância à diversidade de opinião que tem se manifestado em nossa sociedade pretensamente democrática. Vivemos numa sociedade na qual aqueles que pensam duma forma distinta são, perdoem-me a expressão, “diabolizados”, desvalorizados. Um exemplo disso exibe-se no caso dos militantes de determinados movimentos sociopolíticos venderem-se como os defensores da democracia, ao mesmo tempo em que demonstram suas intenções de cercear a liberdade de expressão de opiniões que diferem das suas. Isso é, para mim, algo vergonhoso.

Provavelmente discordo das opiniões teológicas e políticas de muitos de meus irmãos cristãos. A maioria dos outros cristãos que conheço, por exemplo, também discordam de minhas compreensões. Partilhamos a confiança no mesmo Deus e no mesmo Salvador, mas, provavelmente, com compreensões teológicas nem sempre absolutamente idênticas. Partilhamos a fé nas palavras das mesmas Escrituras, mas, provavelmente, com bases hermenêuticas nem sempre absolutamente idênticas. Mas, em minha limitada compreensão, essa diversidade sempre foi parte da história do Cristianismo, e, em uma sociedade democrática – como quero acreditar que a brasileira seja –, ela não me ameça em absolutamente nada. Podemos viver numa mesma sociedade, sob as mesmas leis democráticas, tendo, todos nós, a liberdade de acreditar em coisas diferentes e expressar nossas opiniões divergentes em segurança. Ao menos, isso é o que espero numa democracia.

Se democracia é liberdade, então essa liberdade deve ser uma via de mão dupla. É impossível haver liberdade democrática se essa liberdade for garantida apenas àqueles que são vistos como “politicamente corretos” (seja lá o que isso queira dizer!). Assim, todos devem poder expressar suas opiniões numa democracia.

Os exemplos brasileiros de intolerância à manifestação de opinião, nos últimos anos, são assustadores para alguém como eu – que confio na liberdade de expressão do pensamento, mesmo se o pensamento exposto for oposto ao meu. Os exemplos mais recentes dos quais consigo recordar-me agora são aqueles de Silas Malafaia e de Rachel Sheherazade.

Silas Malafaia, um pastor evangélico (com uma visão teológica muito diferente daquela que abraço), tem sido alvo de ataques de políticos, “ativistas”, blogueiros, jornalistas, apresentadores de televisão etc, pelo simples fato de expressar sua opinião “politicamente incorreta” – com suas palavras sendo, frequentemente, manipuladas para serem revestidas dum sentido que, claramente, não foi o que ele quis dar.

Rachel Sheherazade, uma jornalista que expõe suas opiniões há muito, tem sido ridicularizada e ameaçada, inclusive por seus próprios “colegas” de profissão, pelo simples fato de expor suas convicções “politicamente incorretas” – também com suas palavras sendo distorcidas por outros jornalistas e politiqueiros de plantão para se revestirem dum sentido distinto daquele que ela originalmente as deu.

No caso desses dois personagens, encontramos uma séria ameaça à democracia e à liberdade. Os supostos “democratas” – isto é, aqueles que perseguem o Malafaia e a Sheherazade por dizerem o que não agrada àqueles primeiros – são as reais ameaças à democracia. São eles a real ameaça à liberdade de expressão do pensamento em nossa sociedade.

O mais interessante é que a maioria das ideias defendidas por Malafaia e Sheherazade é, provavelmente, o que a maioria dos brasileiros pensa!

Seja como for, minha intenção não é dizer sobre o que concordo ou discordo das ideias de meus dois personagens aqui. Minha intenção é, simplesmente, a de manifestar o meu apoio à sua liberdade de expressão de pensamento.

Política e religiosamente, acredito na liberdade. A Providência nos abençoou com a liberdade de escolher nossas crenças e de expressá-las. E as leis formuladas por nossa sociedade nos garantem esses direitos. Nossas leis nos garantem o direito de termos opiniões contrárias àquelas da maioria (real ou fictícia) e de poder expressá-las de acordo com a lei. Malafaia e Sheherazade, assim como todos nós, devem ter seus direitos à expressão de opinião garantidos. Pode-se concordar ou discordar do que dizem, mas, numa sociedade livre e democrática como esta constitucionalmente é, não se pode retirar deles seu direito democrático sem agredir a todos nós.

Seja lá quem tenha dito aquelas palavras, geralmente atribuídas a Voltaire, construiu um mote que tem sido parte de minha compreensão liberal democrata:

Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las.

Isso, para mim, é o sentido da liberdade e da democracia.

Pela liberdade de expressão de opinião e pela liberdade de imprensa! Para mim, uma causa política, filosófica e religiosa.

+Gibson

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Uma resposta à amiga Sarah


Olá Sarah!


Bem, duma certa forma, já respondi a essa mesma questão sobre veracidade da Bíblia em diferentes ocasiões aqui, e meu pensamento continua a ser basicamente o mesmo nessa questão. Não posso pensar numa resposta a essa questão sem fazer outras perguntas para decidir o que é essencial e relevante nas Escrituras para minha relação com Deus. A primeira pergunta a fazer, talvez, seja “O que é a Bíblia, afinal de contas?” – a resposta que dou a essa pergunta definirá a resposta que darei à sua questão. Se a resposta for algo como “A Bíblia é a Palavra literal de Deus, e não humana, infalível, sem erros, inquestionável” etc, então fim de história; não posso tentar descobrir diferentes níveis de sentido em suas palavras; ponto final. Claro que, se assim pensasse, estaria ignorando tudo o que sei sobre a forma como o mundo e a sociedade funcionam, sobre a mente humana, sobre as leis da física, sobre a história de Israel e da Igreja etc. Essa, obviamente, não é a resposta que eu ofereceria a essa pergunta!

A Bíblia é, em minha compreensão, um livro humano (na verdade, um conjunto de livros), escrito por seres humanos, e que se tornou sagrado por meio dum processo de canonização. A Bíblia não nasceu como Escritura Sagrada, ela foi tornada sagrada por meio dum longo processo que demorou séculos. A história da Igreja cristã mostra como esse processo foi complexo e quão ligado ele está àquilo que costumamos chamar de “tradição” – por isso, podemos dizer que a Bíblia é, na verdade, um produto da tradição de duas comunidades distintas, a antiga Israel e a Igreja. A complexidade reside, parcialmente, no fato de que essas duas tradições são múltiplas; por exemplo, no caso da Igreja cristã, não havia no início da história da Igreja (como não há hoje) uma forma única de ser cristão nem uma concordância absoluta sobre todos os pontos doutrinários da tradição. Assim, Jesus, por exemplo, foi compreendido de diferentes formas – i.e., quando os cristãos ouviam (sim, porque a maioria deles não liam, mas ouviam!) os relatos de determinado Evangelho que era lido em sua comunidade (nem todas as comunidades tinham acesso a todos os Evangelhos que hoje chamamos de canônicos), esse relato podia ser compreendido de diferentes formas, a depender do pensamento preponderante naquele meio. Só após o Cristianismo tornar-se a religião oficial do Império Romano é que surge a preocupação com uniformidade de crenças – já que para que se tornasse um braço do Estado romano, era importante que a Igreja apresentasse-se de uma única forma. Após séculos e séculos de toda a construção duma tradição de leitura, parece ser anormal que determinados relatos das Escrituras sejam lidos de maneira diferente daquela estabelecida pela tradição “católica” (com este termo não me refiro apenas ao Catolicismo Romano, mas ao pensamento cristão dominante no Ocidente).

Na história da Igreja se desenvolveram diferentes formas ortodoxas de interpretação das Escrituras – tradições hermenêuticas que, conjuntamente, ainda são reconhecidas pelas grandes famílias cristãs (católicos romanos e orientais, e protestantes). Tradicionalmente, na Igreja Oriental, existiam duas grandes tradições, uma centrada numa interpretação literal que apelava ao sentido alegórico das Escrituras (chamada de Escola Alexandrina de exegese bíblica – cujos membros incluíam Clemente e Orígenes, por exemplo); e outra que apelava ao contexto histórico para interpretá-las (chamada de Escola Antioquina de exegese bíblica – Diodoro de Tarso e João Crisóstomo, por exemplo, eram parte dessa tradição). Ademais, podemos pensar em três tradições de interpretação das Escrituras na Igreja Ocidental: 1) A do Bispo de Milão, Ambrósio, que desenvolveu uma compreensão tripla do sentido das Escrituras → um sentido natural, um sentido moral, e um sentido racional; 2) A de Agostinho de Hipona, que defendeu uma compreensão dupla do sentido das Escrituras → um sentido histórico, e um sentido espiritual; e 3) a Quadriga, que foi o método interpretativo padrão no Ocidente, durante a Idade Média, e buscava quatro sentidos básicos nos textos das Escrituras → um sentido literal, um sentido alegórico, um sentido moral (tropológico), e um sentido anagógico (um sentido que nos conduza a Deus). [A Igreja Católica Romana, por exemplo, em seu Catecismo oficial, faz uso de todos esses elementos em sua interpretação das Escrituras – veja mais em: CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 4ª ed. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Loyola; Paulinas; Ave-Maria; Paulus; 1998. p. 41-42.)

Minha maneira de interpretar as Escrituras se ancora numa combinação de todas essas tradições. Assim, busco um sentido metafórico (mais que real) nas Escrituras, tendo como guia a compreensão do contexto histórico de seus textos, e desses na Igreja cristã. Como sou um homem que vive no mundo moderno, que é influenciado pela ciência e pela filosofia de minha própria época – e não pela filosofia do mundo grego antigo, como os primeiros cristãos –, então é mais que normal que minha leitura esteja condicionada por meu próprio contexto histórico. E mais, nesse processo de interpretação, entra minha experiência pessoal no mundo real – o que chamo de senso comum. É a combinação de tudo isso que me leva a entender as narrativas bíblicas duma forma que pode ser muito diferente daquela dos primeiros cristãos, por exemplo – muito provavelmente, diferente da leitura que o próprio Jesus fazia… É uma questão de escolha, uma questão de integridade intelectual – e, consequentemente, moral!

Não pense que isso seja fácil. Não é. Se prestar atenção, isso faz com que eu rejeite certos conceitos que outros cristãos fiéis – talvez a maioria deles – julgam imprescindíveis. Enquanto acredito na possibilidade da permanência de muitas verdades, outras, para mim, são temporárias e secundárias, já que estão condicionadas a determinadas experiências históricas. Como conciliar, por exemplo, o papel atribuído por Jesus – ao menos, de acordo com os Evangelhos – às mulheres com aquele a elas atribuído supostamente pelo apóstolo Paulo? Nos relatos sobre Jesus, as mulheres estão no centro – ele quebra todas as regras sobre a separação entre homens e mulheres –, mas, para Paulo, as mulheres deveriam continuar em seu papel de submissão à autoridade masculina. Como lidar com este problema? Os dois relatos não podem ser vistos como sendo absolutamente “verdadeiros”, já que se contradizem!… Minha resposta: a única solução é entender qual seja a mensagem básica do Evangelho, e, a partir daí, decidir o que se encaixa nessa visão, e o que é apenas tradição cultural – pode soar muito herético para aqueles que se declaram “cristãos bíblicos”, por exemplo, mas eles mesmos fazem isso de sua própria forma (na verdade, todos nós o fazemos o tempo todo!).

Para esclarecer o que penso sobre a maneira como Jesus compreendia Deus e sua relação com o Divino, deixe-me afirmar que Jesus era um judeu. Como judeu, Jesus provavelmente compreendia Deus de diferentes formas, dependendo do momento – já que sua tradição de fé não possuía uma declaração teológica como os credos cristãos, definindo Deus de forma objetiva. Deus era uma Realidade que podia ser definida de forma positiva quanto negativa – ou seja, Deus era e Deus não era etc. Eu discordo que a visão que Jesus tinha de Deus fosse “teísta”, já que essa visão (quando historicamente definida) emerge apenas a partir do encontro do movimento de Jesus com o pensamento grego. Para que Jesus fosse um teísta, ele teria que possuir uma visão objetiva de Deus como algo que pudesse ser quase que matematicamente definido – e isso não surge até mais tarde. O que podemos afirmar é que Jesus certamente possuía uma visão de Deus como uma Realidade pessoal, e mais que pessoal – mas dizer isso não é o mesmo que dizer que ele fosse um teísta!

Essas questões dogmáticas não geram constrangimento entre nós unitaristas, pois a maioria de nós – ou pelo menos dos ministros unitaristas – as tratariam da forma como as estou tratando com você agora: sem oferecer uma definição objetiva em nome de todos! Assim, posso dizer a você: sim, Deus, Jesus, ressurreição, vida eterna etc, são temas importantes para mim – só que, aceito que diferentes pessoas compreendam esses temas de diferentes formas, desde que sua conclusão seja dirigida pelos princípios que julgo indispensáveis ao Evangelho, e que resumo com uma frase em latim – sola caritas (só a compaixão, a caridade, o amor). Isso porque os Evangelhos e as demais Escrituras ensinam que Deus é amor e que somos chamados a amar, então esse amor deve ser o padrão de minha compreensão da mensagem de Cristo; não o “amor” enquanto uma palavrinha da moda para mostrar o quão legal sou, mas o amor enquanto uma força de transformação de mim mesmo e do mundo ao meu redor – um amor que deve se manifestar em como trato o próximo, cuido do planeta, respeito aos diferentes de mim, recebo meus inimigos à minha mesa, voto em meus representantes, cumprimento aos estranhos etc; é uma forma dolorosa e desconfortável de ler a Bíblia e a tradição cristã.

Isso é enfatizar só aquilo que me convém?! É claro que é! Acredito e tento praticar essas coisas, leio as Escrituras e a tradição dessa forma porque, de certa forma, isso é conveniente. Da mesma forma como é, em algum nível, conveniente para todas aquelas pessoas que acreditam em outras coisas acreditarem naquilo! Como vivemos numa sociedade na qual somos livres para escolher nossa religião, escolhemos aquilo que nos é conveniente! Isso não desacredita minha fé mais do que desacreditaria a fé de nenhuma outra pessoa, já que todas elas – mesmo que não estejam plenamente cientes disso – escolherem a tradição onde, pelo menos, se sentiam mais satisfeitas (e isso, em si, já é uma forma de conveniência!). Mas, se escolho um caminho no qual a mulher e o homem, o heterossexual e o gay, terão acesso a Deus da mesma forma; se escolho uma tradição na qual minha visão científica não tenha de ficar do lado de fora, quando atravesso as portas da igreja, sendo forçado a fingir que acredito em outra coisa e não sendo íntegro comigo mesmo e com os outros, esta é uma questão de fé pessoal – é assim que experiencio Deus!

Poderia, talvez, escolher falar aqui sobre minhas crenças pessoais sobre ressurreição, Deus, a natureza de Jesus etc. Entretanto, a não ser que esteja em discussões teológicas muito específicas, escolho não o fazer, porque julgo ser esse tipo de discussão irrelevante para mim. Concordo quando você diz, por exemplo, que o mesmo Paulo que fala sobre amor, fala sobre ressurreição – mas, para este mesmo Paulo (isso se eu acreditasse que os autores de todas as cartas que levaram seu nome fosse a mesma pessoa!), diferentemente de Jesus, eu sequer poderia estar trocando mensagens com uma mulher! Então, como pode ver, é realmente uma questão de se fazer escolhas!

Como poderia te ajudar se me recuso a dar uma resposta sobre o que é “verdadeiro” ou não nas Escrituras? [Já discuti várias vezes neste blog o sentido que dou ao termo “verdade”: em se tratando de minha fé, o termo não é sinônimo de factualidade!] Não sei. Penso que a única pessoa que pode construir uma resposta que lhe seja satisfatória é você mesma: você tem de fazer escolhas que levem em consideração sua relação com o Divino, a pessoa que você é, a maneira como compreende o mundo, sua experiência de vida etc. Só assim você descobrirá o que é verdade, e, talvez, poderá descobrir que a verdade é algo que toma diferentes formas em diferentes momentos da vida, dependendo de um sem número de razões. Eu continuarei aqui, orando para que você possa alcançar esta “verdade”, mas não serei presunçoso a ponto de pensar que possa dizer a você – ou a quem quer que seja – o que é a “verdade” válida para todos, em todos os tempos, em todos os lugares.

Bençãos! Espero que possamos continuar nossas conversas e, quem sabe, um dia vê-la em pessoa!

+Gibson

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Unitaristas e a liberdade de consciência


-->
Hoje, mais uma vez, iniciamos o curso preparatório para a recepção de novos membros em nossa Congregação. Sempre fico muito feliz quando tenho a oportunidade de facilitar esse curso. É a maior chance que tenho para conhecer mais proximamente aqueles que têm a intenção de se tornarem membros desta igreja. É a chance que tenho para lidar com questões sobre as quais, talvez, ainda não tenha pensado, e, assim, ter mais ideias a serem discutidas em momentos como este.

Uma das coisas com as quais qualquer membro novo desta Congregação tem que lidar é nossa tradição de liberdade de consciência, que é o sentido básico do adjetivo “liberal” que utilizamos orgulhosamente como sinônimos de nossa tradição Unitarista. Essa liberdade pode ser assustadora para muitos que intentam juntar-se a nós; e, é bom que reconheçamos, pode se tornar um problema para alguns deles também!

Somos uma igreja cristã. Em muitos sentidos, somos, enquanto comunidade de fé, muito semelhantes a outras igrejas cristãs. Estudamos a Bíblia, e seguimos um lecionário cristão tradicional. Temos liturgias riquíssimas em poesia e tradição. Usamos símbolos cristãos em nossa capela. Seguimos o calendário do Ano Cristão em nossa vida comunal. Celebramos sacramentos ou ritos cristãos tradicionais, como Batismo e Comunhão. Enfim, temos muitas semelhanças com outras comunidades cristãs, especialmente com aquelas mais tradicionalmente litúrgicas! O que, então, distingue-nos – nós Unitaristas – de outras tradições cristãs?

A resposta que essa comunidade tem dado em seus 79 anos de história aqui em Pernambuco é ouvida em alto e bom som na canção que acabamos de ouvir de nosso coral: “Liberdade”! Essa é, na compreensão desta comunidade, a grande diferença. Essa resposta está também no lema desta Congregação: “Mentes abertas, mãos abertas, corações abertos”. Esse é o sentido primordial que esta comunidade atribui à sua tradição Unitarista.

Essa liberdade, entretanto, não é algo fácil e simples. O liberalismo que essa comunidade celebra como seu não é sinônimo de “Faça o que quiser, contanto que não seja o mal” – que é o que muitos, erroneamente, interpretam ser o Unitarismo. Não. Nosso liberalismo é uma atitude consciente, racional, seletiva, fiel e íntegra para com nossa tradição cristã. Esta comunidade está ancorada numa tradição teológica que nasceu no século dezesseis no leste europeu, atravessou o continente, chegou à América do Norte no século dezoito, e se instalou no Brasil no século XX. Nosso liberalismo fala o idioma duma tradição protestante litúrgica, cuja janela para a realidade é a linguagem metafórica da Bíblia, e cujo caminho para Deus está em Jesus. Nosso liberalismo prega uma união que não está ancorada numa concórdia imposta por credos ou confissões. Nesta comunidade de fé, não esperamos que todos acreditem exatamente na mesma coisa, que cheguem todos às mesmas conclusões; o que esperamos é que entre nós tenhamos um espírito de koinonia, de comunhão, de comunidade ampla; um espírito de inclusão, e de hospitalidade; um espírito cristão! Esse é o sentido que damos à nossa tradição!

Quando pessoas vêm a nós de outras tradições de fé, se assustam um pouco com o fato de haver tantas compreensões diferentes aqui. Certa vez, por exemplo, alguém me disse que imaginava que ser um Unitarista fosse não acreditar no dogma da Trindade, mas que quando conversou com algumas pessoas aqui, percebeu que muitos entre nós eram trinitaristas! Tive, então, de explicar àquela jornalista que o Unitarismo não se distingue de outras tradições cristãs por causa de sua compreensão de Deus ou de Cristo; o que historicamente nos distingue de outras tradições é nossa ênfase na liberdade de consciência! Essa liberdade de consciência, entretanto, se movimenta dentro da tradição cristã. Assim, podemos chegar a diferentes conclusões acerca da natureza de Deus, mas – em nossa tradição –, nossas conclusões serão articuladas numa linguagem cristã. Para nós, essa linguagem cristã inclui as Escrituras, a tradição da Igreja, a filosofia ocidental, as descobertas científicas, as artes modernas, e o Espírito que dá vida à busca humana por verdade.

Nesta comunidade, encontramos pessoas dos mais diferentes tipos, dos mais diferentes backgrounds sociais e teológicos. Aqui há não-trinitaristas e trinitaristas, teístas e não-teístas, crentes e agnósticos. Entre nós há aqueles que enxergam os elementos da Eucaristia que partilharemos em alguns minutos como apenas símbolos dum ofício realizado por Jesus há dois milênios atrás, e há outros que os veem como portadores da presença de Cristo entre nós. Alguns de nós falam em sacramentos, outros em ritos. Alguns estenderão suas mãos para partilhar do pão e do vinho, outros preferirão receber uma benção. Há até pessoas não-exclusivamente cristãs entre nós, já que alguns de nós mantemos laços com a tradição judaica – alargando nossa linguagem cristã para uma linguagem judaico-cristã!

Toda essa liberdade, que pode ser muito confusa para alguém que tem um primeiro contato com os Unitaristas, exige um grande senso de integridade intelectual de nossos membros! O Unitarismo não oferece respostas fáceis! Geralmente não falamos em milagres, em salvação, e em vida após a morte, com a mesma frequência ou o mesmo sentido que em outras comunidades. Daqui deste púlpito, geralmente não tratamos de temas dogmáticos, em grande parte, em respeito pelas diferenças de opinião entre nós. Quando um Ministro desta igreja fala sobre algo deste púlpito, ela ou ele tem a responsabilidade de lembrar-se da diversidade teológica entre nós, e falar num tom de respeito para com aqueles que são parte de nossa família, ao mesmo tempo em que é íntegra e íntegro a suas próprias convicções pessoais. E isso pode ser muito assustador para alguém que vem de outra tradição. Mas esse é o espírito desta comunidade!

Ser Ministro duma congregação tão diversa como esta nem sempre é a coisa mais fácil do mundo, mas é o desafio mais surpreendentemente maravilhoso que qualquer Ministro cristão – especialmente um Unitarista Anglo-Luterano como eu – pode experienciar. E, até onde posso perceber, é uma experiência surpreendentemente maravilhosa para a maioria daqueles que fazem esta pequena família. Espero poder encontrá-los em nossa próxima aula, e poder conversar com alguns de você mais de perto!

+Gibson

(Congregação Unitarista de Pernambuco, 11 de novembro de 2012)