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domingo, 2 de agosto de 2015

Questionamentos Intelectuais e Moralidade Prática: uma resposta a outra provocação de Rebeca...


Cara Rebeca,

Não tenho nenhuma obrigação em defender minha vida pessoal aqui, mas, talvez seja importante fazer algumas observações sobre seu comentário.

Você comete um grande equívoco quando compra a opinião de outras pessoas de que o que eu faço aqui seja dar aos meus leitores “licença para pecar”. Em primeiro lugar, porque não sou senhor das ações de ninguém. E, em segundo lugar, porque tenho uma enorme preocupação moral/ética – é só você ler cuidadosamente o que publico aqui.

Questionar posições morais, historizando suas origens intelectuais, não é o mesmo que não ter “nenhum princípio moral” ou viver de forma descompromissada com princípios éticos – sejam esses baseados no que for. O questionamento que faço – seja em minha vida pessoal, em minha vida eclesiástica, em minha vida acadêmica ou em espaços mais “públicos”, como este – é, antes, um exercício de minha fé na liberdade de consciência que, em termos de minha fé cristã, equivale à “liberdade do cristão”.

Minha compreensão da liberdade cristã se assenta em minha herança teológica; exatamente da mesma forma como a visão de muitos que discordam de mim. Esses que discordam de minha visão, contudo, não podem condenar-me com base em minha vida pessoal – primeiro, porque as pessoas que você cita não me conhecem; segundo, porque elas, de fato, não têm autoridade para condenar-me.

Eles, e você, podem imaginar que eu leve uma vida “sórdida” “de pecado” (expressões que você utilizou) simplesmente porque não concordam com meus questionamentos acerca de posições morais ditas tradicionais, mas meus questionamentos intelectuais dizem muito pouco a respeito de minha própria vida.

Considerando o contexto da maioria dos que tão prontamente me condenam publicamente, por conta do que discordam em minhas opiniões, imagino que – como um cristão liberal – seja muito mais “conservador” na forma como vivo minha vida do que a maioria dos autoproclamados defensores da "moral conservadora". Questiono a “moral sexual” da Igreja, mas eu mesmo tenho um rígido código de comportamento sexual para minha própria vida. Critico a origem da “moralidade de fronteira” que os evangélicos brasileiros herdaram dos missionários americanos – com a condenação da bebida, do cigarro etc –, mas eu mesmo não faço uso dessas coisas. Como escrevi acima, questionar não é despir-me de minhas próprias regras morais – a diferença é que estou ciente das origens dessas regras e não as imponho a outras pessoas; elas são minhas regras para minha vida pessoal (não são “as regras de Deus” que devo obedecer inquestionavelmente).

Você se engana quando diz que eu seja um defensor do aborto. Por exemplo, não como carne porque sou contrário à ideia de matar um animal para comê-lo, se posso me alimentar de outra coisa – compreendo o consumo desnecessário de carne como um envolvimento num ato de violência não-defensivo. Acredito que a vida seja um dom divino e que, na maioria das circunstâncias, não devemos interferir para encerrá-la. Se tenho esse cuidado com outros seres vivos, como poderia apoiar algo como o aborto?…

Você nunca pode ter lido nenhum texto meu que defendesse o aborto, e aqueles que convivem comigo nunca me ouviram defender o aborto em minha fala. O que você já leu meu a respeito foi um questionamento da origem de nossas ideias sobre o aborto; ademais, pode já ter lido minha defesa política do direito da mulher decidir o que faz com seu corpo – e isso enraíza-se tanto em minha herança teológica quanto política liberais. Questionar a origem de ideias e a natureza das leis não é o mesmo que fazer apologia a algo. Nossas visões sobre o aborto são construções históricas. Mesmo a tradição cristã herda isso, mais objetivamente, de outras fontes, que não a Bíblia. Dizer isso, entretanto, não é dizer que eu seja a favor do aborto.

Seus argumentos, a propósito, falham gravemente quando tenta condenar o que pensa que defendo. Que moralidade, afinal, há em condenar o aborto e ser favorável à pena de morte? A lógica de que “o bebê é inocente” e um “assassino é culpado de morte, por isso pode pagar com sua própria vida” é horrenda para mim, teológica, política e humanamente. E isso, sim, é incoerente, e não o que digo – considerando que seu julgamento a meu respeito se baseia em premissas errôneas a meu respeito.

Bem, seja como for, fico feliz que você tenha me escrito a respeito da resposta que dei anteriormente. Se tiver mais provocações, estou aqui!

Grande abraço! E Paz!

+Gibson
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