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sábado, 15 de junho de 2019

Espiritualidade e Religião sem Deus? – Uma resposta a Eduardo


A bibliografia dum curso que ensino sobre história das religiões inclui um texto que afirma categoricamente que a diferença entre a religião e a ciência está no fato de a primeira exigir “fé submissa” numa divindade e no sobrenatural. Apesar de eu discordar daquela afirmação e de saber, por experiência própria, que há religiões que não se focam numa suposta realidade sobrenatural e que, assim, não exigem uma “fé submissa” numa divindade e no sobrenatural, ainda incluo tal texto em minhas aulas para que meus alunos possam refletir acerca da limitada compreensão que ainda temos sobre a experiência espiritual/religiosa humana.

Não sou um adepto do teísmo sobrenatural. Com isso quero dizer que, em minha compreensão e experiência, a crença/fé em Deus – ou em deuses – não é necessária para que experienciemos o transcendental, o numinoso, o espiritual, o místico, ou seja lá que outro termo utilizemos para nos referirmos àquela “dimensão misteriosa” tradicionalmente tratada pelas religiões. Essa “dimensão misteriosa” pode ser experienciada através das artes, da ciência, dos esportes, da filosofia, do trabalho, da relação com e do serviço aos outros seres deste mundo etc. Assim, se a religião representa um processo de “religação” com algo, esse “algo” pode ser a própria realidade palpável que experienciamos em nosso dia a dia – sem absolutamente nenhuma necessidade de crença no e devoção ao invisível. E, consequentemente, a própria religião pode ser identificada em atividades que não correspondem àquelas tradicionalmente realizadas em templos, igrejas ou outros “lugares sagrados”.

Dizer que não sou adepto do “teísmo sobrenatural” (termo tão usado pelo finado professor Marcus J. Borg) não significa dizer que sou ateu; significa que compreendo “Deus” de formas diferentes daquelas usualmente abraçadas por “teístas” tradicionais; significa também que, para mim, o “sobrenatural” é indiferente, que não é essencial para a forma como encaro o mundo e vivo minha vida. Por exemplo, se e quando faço algo que julgo ser “bom” e “certo”, não o faço porque temo a punição ou espero a recompensa de Deus, faço-o porque – para mim – viver com eticidade é como que o “cerne” da espiritualidade.

Nas culturas influenciadas pelas tradições jordânicas (ou, se preferir, “abraâmicas” – uso “jordânicas” como uma referência geográfica à origem dessas tradições) – especialmente os Judaísmos, os Cristianismos e os Islamismos –, pensar em religião equivale a pensar no(s) Deus(es) jordânico(s) – ou seja, significa pensar no que as formas ortodoxas dessas religiões jordânicas têm ensinado sobre Deus. Assim, as noções de espiritualidade, religião e mesmo Divindade têm sido, em nossa cultura, aprisionadas às compreensões ditas ortodoxas dos Judaísmos, dos Cristianismos e dos Islamismos. Esse aprisionamento é levado a cabo, infelizmente, inclusive pelo próprio discurso acadêmico sobre religião.

Por conta disso, é importante, para mim, enfatizar que as concepções ortodoxas de religião – e estou pensando especificamente nas tradições jordânicas – não são as únicas formas historicamente válidas de compreender Deus, fé, religião, espiritualidade, o numinoso, o transcendental etc. Todas as formas religiosas, ortodoxas ou heréticas – na verdade, todo o conhecimento e práticas humanas – são produtos históricos, condicionados às diferentes circunstâncias nas/das quais emergiram e se desenvolveram. O próprio Deus do teísmo sobrenatural – assim como o do meu tipo de compreensão – é um produto cultural, histórico, uma construção humana.

Como posso ser um religioso e dizer isso? Como ouso me dizer “cristão” e afirmar que Deus é uma construção humana, um produto da cultura?

Isso, obviamente, tem a ver com minhas próprias circunstâncias, com minha própria história e formação. Minha própria tradição religiosa me ensina que duvidar e questionar é necessário para construir uma fé relevante. Por isso, declarar crenças que não se conciliem com tudo o que já sei ou que julgo saber sobre o Universo representaria uma falta de integridade intelectual (=espiritual) de minha parte. Essa é uma das razões básicas pelas quais compreender o domínio numinoso de forma agnóstica, como o faço, não representa um problema para mim.

Como já disse e escrevi antes, creio na Realidade de Deus – apesar de não acreditar na existência dum Deus pessoal que governe monarquicamente o Universo a partir dum ponto específico do cosmos. Deus representa, para mim, uma Realidade com a qual me relaciono, mas que não sei quem/o que é. Essa Realidade pode se fazer ou se faz presente em meus relacionamentos com outras pessoas, em minha relação com o mundo, em meu trabalho, no entretenimento, em minha vida religiosa etc. Não finjo ser capaz de explicar de forma coerente essa Realidade ou a forma como a experiencio. Deus, assim, em minha compreensão e experiência, é uma metáfora – e não uma entidade objetiva.

Ora, metáforas são importantes para a construção do conhecimento, para a interpretação do mundo. Não são, contudo, “essenciais”, indispensáveis. Da mesma forma, se Deus é uma metáfora, e a religião é uma forma de conhecimento, uma forma de interpretação da experiência humana, então Deus não é essencial ou indispensável para a experiência religiosa.

Mas isso, claro, depende de (a) quem, quando e onde perguntar. Essa é minha perspectiva, até hoje pelo menos – a perspectiva dum cristão agnóstico religioso. Se as mesmas questões sobre Deus, espiritualidade e religião forem feitas a outra pessoa, você certamente terá respostas bem diferentes das que lhe ofereço aqui.

Grande abraço!

+Gibson


domingo, 30 de setembro de 2018

Entrevista concedida por e-mail a uma publicação estudantil


No mês de agosto de 2018, estudantes do programa de pós-graduação em Teologia duma instituição onde ensino publicaram em seu jornal uma resenha de meu último trabalho e, juntamente com ela, uma página com uma entrevista comigo, realizada através de e-mail. Abaixo, incluo três das perguntas que me foram feitas e as respostas que ofereci – já que essas perguntas estão aparentadas àquelas que recorrentemente recebo através deste e de outros canais.

Entendemos que o senhor, além de ministro unitarista, é também ministro da Igreja Unida e de outras igrejas protestantes. Como consegue lidar com essa aparente contradição?”

Bem, não considero isso uma contradição. E não é contradição porque não visto identidades religiosas conflitantes. As denominações das quais participo não são “minha religião”: são, sim, minhas comunidades – das quais herdo diferentes histórias e costumes religiosos. Assim, não sou um unitarista; não sou um episcopal/anglicano; não sou um luterano, etc – essas são identidades institucionais. Se tivesse de conceituar minha identidade religiosa, diria que sou, simplesmente, um seguidor de Jesus de Nazaré que vivencia a experiência religiosa em comunidades diferentes. Essas são as comunidades onde exerço o ministério ordenado e com as quais vivencio experiências comunais do Divino.

Com isso, obviamente, não quero dizer que as identidades denominacionais não sejam importantes. Em muitos aspectos, elas são. Contudo, não podem ser confundidas com o que é ser um “cristão” (se é que essa palavra ainda possua algum sentido espiritual relevante). E isso não deixa de ser reflexo da experiência pós-moderna da própria Igreja: um foco menor no denominacionalismo construído em eras anteriores. Francamente, como alguém envolvido profundamente com o espírito ecumênico, estou mais preocupado em me identificar – em palavras e ações – como um seguidor de Jesus de Nazaré do que como adepto duma tradição cristã específica. E justamente porque consigo fazer isso nessas diferentes comunidades, não há nenhuma contradição, para mim ou para elas, nisso. As identidades “paroquiais” dessas instituições específicas são, em minha vida, apenas acessórias; não são “essenciais”.


Já lemos textos seus nos quais se refere a crenças fundamentais cristãs como se fossem “mitos” ou “metáforas”. Isso significa que não aceita essas doutrinas cristãs como sendo verdades?”

Tenho um problema com o termo “fundamentais” em sua pergunta. O que significa falar em “crenças fundamentais”? Eu não sou um fundamentalista; e são os adeptos de compreensões fundamentalistas os que, nos Cristianismos protestantes, se preocupam em defender “crenças fundamentais”. Talvez devêssemos usar uma outra expressão para discutir esse tema; assim, proponho que troquemos “crenças fundamentais” em sua pergunta por “ideias consensuais”.

Estou muito mais preocupado com “teologia” do que com “doutrinas”. A diferença entre as duas – ao menos no contexto deste nosso diálogo – é que as doutrinas parecem se referir a declarações dogmáticas sobre problemas específicos, enquanto a teologia abrange um conjunto de linguagem, atitudes, ideias, narrativas e práticas que moldam uma tradição religiosa. De certa forma, o conceito de “doutrina” parece estar intrinsecamente associado àquela compreensão de que religião e denominação (=instituição religiosa) sejam sinônimos. Assim, para quem se preocupa com isso, uma denominação professa tais e tais doutrinas – uma lista de teses – que devem ser aceitas e defendidas por quem quiser ser membro de tal “religião” (que, estritamente, não é uma “religião” propriamente dita, mas apenas uma instituição/organização que se apresenta como representante duma religião).

Já a “teologia“ funciona de outra forma: não se limita a teses específicas; antes, consiste numa base mais ampla através da qual podemos construir (e alterar) visões de mundo. Dessa forma, as compreensões religiosas – que você chamou de “doutrinas” – não são imutáveis, escritas sobre diamante; são perspectivas que se alteram ao longo da experiência histórica (que, no contexto cristão, inclui a própria experiência do Divino).

Poderia citar, por exemplo, o caso da escravidão. A cristandade ocidental como um todo encontrou justificativas para a escravidão em suas próprias fontes teológicas durante séculos. Assim, muitos cristãos e muitas instituições eclesiásticas cristãs não viam nenhuma contradição entre ser cristão e escravizar, possuir, comprar e vender escravos. Até, obviamente, que suas ideias teológicas começassem a mudar! Quando a experiência social e as ideias filosóficas começaram a ser alteradas, a teologia também sofreu alterações: a escravidão deixou de ser a vontade de Deus e passou a ser vista como um erro repugnante dos humanos.

Essas alterações só demonstram, em minha compreensão, o quanto a religião, em geral, é humana. Não há nada de essencialmente divino na religião (enquanto sistema teológico: isto é, um conjunto de linguagem, atitudes, ideias, narrativas e práticas) – a religião é, sim, um reflexo de quem um determinado grupo humano é (ou pensa ser) em sua inter-relação e em relação à sua compreensão do Divino, mesmo que acreditem que sua religião seja um produto Divino (e mesmo que Deus, como consequência, acabe se tornando uma espécie de adepto dessa mesma religião).

É justamente por a religião ser uma construção humana – ou melhor, uma resposta humana ao mistério cósmico que a humanidade enfrenta –, que o que esta ensina é verdadeiro. Aquelas “doutrinas” cristãs são “verdades”, mas não são, necessariamente, “factualidades”. Elas são verdades no contexto histórico de certos grupos ou pessoas, em determinado momento – não o são, necessariamente, para outros ou durante todo o tempo. Em parte, é a confusão moderna entre “verdade” e “factualidade” que leva a essas compreensões binárias de certo-errado, verdadeiro-falso – que eu, de forma geral, rejeito.

Quando, ou se, penso em “verdade”, não estou pensando no contrário de “mentira”. Estou pensando, antes, numa interpretação da “realidade” (que nem sempre é objetiva/factual) que se altera ao longo da experiência histórica, mesmo quando não se perceba essa alteração. Os Cristianismos, e todas as demais tradições religiosas do mundo, sofrem alterações em suas compreensões e práticas, independentemente do quão dogmáticas sejam. Por exemplo, o “Cristo” – ou a compreensão acerca de Cristo – do Movimento de Jesus dos primeiros anos não é o mesmo “Cristo” dos cristãos helênicos ou romanos do segundo século de nossa era, nem é o mesmo “Cristo” dos diferentes grupos cristãos do período medievo europeu, nem é o mesmo “Cristo” dos cristãos assírios do Oriente do século XV, nem o mesmo “Cristo” dos unitaristas do século XIX, nem o mesmo “Cristo” dos pentecostais brasileiros do século XX, nem o mesmo “Cristo” dos católicos romanos progressistas do século XXI. Cada um desses contextos específicos conheceu variadas interpretações cristológicas – isto é, de quem era Jesus Cristo – que eram, até certo ponto, distintas de compreensões variadas de outros contextos históricos.

O que quero dizer é que nenhuma religião, incluindo os Cristianismos, é um objeto estático no tempo. Sempre sofre variações. Assim, a linguagem, as atitudes, as ideias, as narrativas e as práticas cristãs estão sempre sofrendo mudanças, mesmo que essas sejam operadas de forma muito sutil.

Essa historicidade da fé faz com que uma compreensão histórico-metafórica das narrativas religiosas funcione como “verdade” para mim, mas que não funcionem como “verdade” para outras pessoas que possuam, por exemplo, bases socioculturais diferentes das minhas. Isso não torna (parte de) nossas perspectivas “certas” ou “erradas”, em si, mas apenas diferentes. Como a religião, de forma geral, não lida com fatos mensuráveis (objetivos), mas, majoritariamente, com concepções da realidade, rejeito a visão binária de certo-errado, verdadeiro-falso, quando lido com a realidade religiosa.

O mito religioso – e “mito” não é sinônimo de “mentira” –, para mim, é um instrumento pedagógico, uma ferramenta que nos ajuda a construir uma compreensão daquilo que está além da explicação binária. Assim, verdadeiro-falso não diz muito sobre o mito (isto é, a narrativa que aponta para uma verdade além da factualidade, que ultrapassa os limites do que é objetivo/quantificável) – essa binaridade não funciona em minha compreensão da realidade religiosa em geral, nem da cristã em particular.

O senhor acredita em Deus?”

Penso que já tratei tantas vezes sobre esse tema que me restaria pouco a dizer. Há um ano, publiquei um texto no qual discuto a questão, e ele ainda representa, em grande parte, minha compreensão sobre o assunto [<https://cristianismoprogressista.blogspot.com/2017/09/minha-teontologia-ou-o-que-acredito.html>]. Mas, resumidamente, o problema se refere ao fato de que tenho um grande problema com o verbo “acreditar”, no sentido com o qual é geralmente usado.

Se tivesse de dar uma resposta direta, sem nenhuma explanação filosófico-teológica complexa, diria que CREIO em Deus – isto é, confio na e experiencio a realidade de Deus. O verbo “crer” parece guardar uma ligação mais explícita com o sentido de “confiar” que, para mim, é mais importante do que afirmar um assentimento intelectual. (Ou seja, não sou um ateu – se esta é a pergunta.)

Apesar de a discussão dos verbos utilizados parecer irrelevante para um leitor/ouvinte leigo, para um Ministro religioso, um teólogo, um filósofo da religião, etc, os termos utilizados dizem muita coisa. Por isso, quando falo sobre o Divino, reflito sobre a linguagem utilizada. Essa reflexão é parte integrante de meu ofício, e resulta, obviamente, de minha história pessoal. Minha educação religiosa e intelectual me ensinou o questionamento. Questionar é fazer perguntas – perguntas para algumas das quais nunca chegaremos a uma resposta objetiva. E o questionamento, esse processo reflexivo de fazer perguntas, é uma atividade essencialmente linguística. Daí a preocupação com a demarcação das fronteiras de sentido para os termos que utilizamos.

De qualquer forma, naquele texto explico minha compreensão sobre Deus.


Paz a todas e todos!

+ Gibson


quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Céu, inferno, vida após a morte?


Um dos problemas mais presentes na vida de qualquer ministro religioso e professor de Teologia, como eu, é o problema da morte. Isso porque a morte, mais até do que o nascimento, se faz presente na vida de qualquer família, de qualquer comunidade, e a religião sempre serviu como uma forma de lidar tanto com o mistério como com a dor da morte.

Frequentemente me perguntam se acredito em vida após a morte – se acredito em "céu" e "inferno" –, e alguns dos que me questionam parecem se perturbar ou surpreender com o fato de eu, mesmo sendo um ministro religioso, dizer que o assunto me é indiferente. Hoje, gostaria de responder a alguns questionamentos feitos por um leitor de São Paulo – que, infelizmente, não assinou sua mensagem, mas indicou sua cidade.

Realmente, não me importo com questões referentes a uma suposta vida após a morte (o que inclui temas como “céu” e “inferno”). Minha tradição religiosa tende a se centrar numa ética [judaico]cristã, e não em dogmas teológicos sobre temas específicos. Assim, minha preocupação religiosa é com a vida, com as relações humanas e com a Criação, relações através das quais encontro o Divino (Deus). Meu Cristianismo está focado na prática duma eticidade ensinada nas Escrituras: amor ao próximo – através do qual se demonstra amor a Deus –, serviço, compaixão, perdão, a construção do “shalom” de Deus aqui e agora.

Tendo a encarar “céu” e “inferno” não como realidades objetivas, mas, antes, como metáforas que apontam para esperanças e/ou desesperos humanos. São parte duma linguagem teológica que reflete uma visão de mundo que não se concilia com minha compreensão do Universo. Por isso, são temas que não me interessam – com os quais não gasto meu tempo (a não ser que seja para discutir a história desses conceitos, como se desenvolveram e se tornaram parte do repertório teológico cristão).

O que ocorre após a morte não pode ser conhecido por nós – pode, apenas, ser especulado. E, entre especular sobre algo que não pode ser desvendado e saber como lidar com o conhecível, prefiro este último. Quando nos centramos em reflexões teológicas acerca da vida em sociedade, acerca de como nos relacionarmos com a Criação, sobre como a prática religiosa pode contribuir para construir paz e justiça no mundo agora, isso é saber lidar com o conhecível (aquilo que temos a capacidade de conhecer).

Portanto, se alguma vez eu falei/escrevi sobre “céu” ou “inferno” – o que não me lembro de ter feito até hoje, a não ser em estudos históricos –, o fiz unicamente em linguagem metafórica, simbólica, provocadora, e não como uma realidade objetiva.

Alguém poderia apontar trechos da Bíblia nos quais são feitas referências ao “céu” ou “inferno”. É verdade, estão lá. Mas, para minha tradição, Bíblia e Cristianismo não são sinônimos. A Bíblia é (apenas) uma das fontes teológicas do Cristianismo; além dela, temos a Razão, a Tradição e a Experiência. Quando analiso o tema na Bíblia à luz das demais fontes teológicas, o considero irrelevante.

Além disso, é importante ressaltar que não há, no Novo Testamento cristão, nenhuma visão coerente e amplamente compartilhada em todos os escritos sobre “céu” ou “inferno”. O que podemos encontrar são apenas pequenos fragmentos duma descrição do que seriam esses dois; não há nenhuma passagem longa onde “céu” ou “inferno” sejam descritos de forma clara e dogmática. A visão cristã da vida pós-mortal se desenvolveu a partir do contato entre o judaísmo rabínico, dos escritos canônicos cristãos, e da cultura greco-romana – e é por isso que é mais ampla a preocupação com o tema por parte dos Padres da Igreja do que dos próprios escritos canônicos do Novo Testamento.

Isso explica porque há compreensões tão distintas sobre o que acontece após a morte em cada uma das tradições cristãs do mundo. Cristãos ortodoxos, católicos romanos, luteranos, reformados, anglicanos, unitaristas, universalistas, restauracionistas, pentecostais, etc, abraçam visões diferentes sobre o que acontece após a morte e como. E essa variação de visões tem existido desde a origem do(s) Cristianismo(s).

Por essas e por outras razões, não posso afirmar absolutamente nada sobre uma suposta vida pós-mortal. Pessoalmente, não me preocupo com isso; não é um tema “essencial”. Isso não me torna uma pessoa “sem esperança” ou “perdido”. Para mim, é suficiente crer que a vida dos que morreram, de alguma forma, continua na terra. É nesse sentido que a vida pós-mortal funciona como uma metáfora. Acreditar que irei para o céu ou o inferno não influenciaria em absolutamente nada a minha vida: minha compreensão de Deus, de ética, da teologia cristã, da minha relação com os demais seres humanos e com a Criação, da dignidade e valor humanos é o que guia minhas ações – não uma [des]crença em punição ou recompensa eternas.

Respeito a opinião dos que aceitam esses aspectos especulativos da teologia cristã, mas, para mim, eles não possuem nenhuma relevância para minha relação com o Divino e/ou com o mundo social.

+Gibson

sábado, 26 de agosto de 2017

Não à "tolerância"!



Você defenderá a justiça e a paz para todas as pessoas, e respeitará a dignidade de cada ser humano?
Sim, com a ajuda de Deus.
(Trecho da Aliança Batismal)


Como bem nos lembram as promessas que reafirmamos quando recitamos a Aliança Batismal, somos religiosamente educados para honrar a dignidade humana. O ser humano, nas tradições jordânicas – os judaísmos, os cristianismos, os islãs, os babismos etc –, é compreendido como tendo sido criado à “imagem de Deus”. Assim, respeitá-lo como uma criação divina e honrar sua dignidade e valor é indissociável das compreensões que nossas tradições têm do Divino.

Essa preocupação com o valor e a dignidade humana é, às vezes, rearticulado através daquela palavra tão repetida: “tolerância”. Assim, frequentemente, fala-se em “tolerar” outras pessoas, “tolerar” os que pensam diferentemente de nós, “tolerar” as outras tradições de fé (religiões), “tolerar”, “tolerar”.

Pessoalmente, tenho um enorme desconforto com a palavra “tolerância” e todos os verbos e adjetivos com os quais se relaciona. Mesmo compreendendo o sentido que muitos entre nós dão a esses termos, “tolerância”, “tolerar” e “tolerante” parecem ser exatamente o contrário do espírito que nossas tradições – e, mais especificamente, os cristianismos – nos convidam a materializar em nossas ações.

Afirmarmo-nos como “tolerantes”, para mim, seria o ápice da arrogância espiritual. Ora, ter “tolerância” por alguém é afirmar que me encontro numa posição mais elevada, mais avantajada do que ela, e que ofereço-a minha “misericórdia”. É dizer que sei mais do que ela e que, por isso, demonstro-lhe minha “piedade” para com seu estado de ignorância.

Isso, certamente, não é o que prometemos quando rezamos em comunidade nossa Aliança Batismal nas liturgias de Batismo e de Confirmação. O que prometemos é enxergar e servir a Deus uns nos outros e em todos os demais seres humanos, independentemente de quem sejam, de onde estejam em sua jornada espiritual e do que tenham feito na vida. E aquela promessa não nos exige “tolerância”: exige respeito, exige reconhecimento, exige apreciação, exige serviço, exige amor – não “tolerância”.

Respeitar, reconhecer, apreciar, servir, amar não equivalem a abandonarmos nossas crenças e princípios, a concordarmos com tudo o que os outros pensam. Equivale, sim, a aceitar que da mesma forma como temos o direito de buscar, de crer, de descrer, de ser, outras pessoas – especialmente aquelas de quem discordamos – também têm. E fazê-lo é reconhecer que nossa compreensão do Divino e de nós mesmos é limitada, e que Deus não é nossa propriedade. Demonstrar “tolerância”, por outro lado, é negar essa limitação à qual todos estamos sujeitos(as).

Não à "tolerância"! Deus nos livre da “tolerância”!

+Gibson


domingo, 30 de abril de 2017

Continuemos como “shalomistas”!




O jejum que eu quero é este: acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer jugo; repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu, e não se fechar à sua própria gente. (Isaías 58:6-7)


Não nos considero pacifistas, mas “shalomistas”. E isso porque a paz não se limita apenas à renúncia da guerra e da violência, mas, antes, compreende a promoção e a associação àquilo que fomenta um mundo construído sobre aquilo que nossa tradição de fé chama de “shalom” divina: o domínio de honra ao valor e dignidade da humanidade e de toda a Criação.

Esse “shalom” implica comida para os famintos, água para os sedentos, lar para os desabrigados, vestimenta para o desnudo, companhia para os solitários, alívio para os que sofrem, ajuda para os mais fracos, perdão para os que erraram, justiça para os desprotegidos. Implica ação consciente contra aquilo que se opõe ao valor e dignidade do ser humano e da Criação. Implica desafiar os Impérios deste mundo, o ódio, a violência, a guerra, as armas, a corrupção. Exige uma mudança em nós mesmos.

Nossa objeção consciente à guerra, à violência, às armas e à colaboração com a guerra, com a violência e com as armas é uma forma de nos abstermos da participação nos Impérios deste mundo, e de nos juntarmos ao “domínio de Deus”. Nossa tradição religiosa nos ensina que quando matamos ou destruímos outros seres humanos, estamos matando e destruindo um reflexo de Deus. E nossa escolha do caminho de “shalom” se baseia nisso.

Essa é uma escolha impopular neste mundo. No mundo dos jogos violentos, no mundo dos filmes de “ação”, no mundo das armas, no mundo onde ser homem é se divertir machucando outros homens, no mundo onde odiar outras pessoas por conta de suas visões políticas ou religiosas é a norma, renunciar o caminho da violência para se relacionar com Deus e com outros seres humanos é estupidez ou sinal de fraqueza. E por isso, talvez, escolher o “shalom” seja o caminho menos popular, mesmo entre muitas pessoas religiosas. Mas este é o único caminho que nos salvará da conformidade com os Impérios do mundo.

Pretender ser um “shalomista” é difícil porque é radical. Às vezes, é deveras solitário, porque é impopular. E, mais do que frequentemente, é um desafio porque, aparentemente, não é natural – isto é, exige esforço, exige humildade, exige reconhecimento de minhas próprias incoerências. Mas é possível porque tantas outras pessoas o fizeram – Jesus o fez, e tantas e tantos de seus seguidores o fizeram.

Assim, conscientemente escolhamos continuar a seguir este caminho de “shalom”, o “shalom de Deus”. Com certeza, continuaremos a tropeçar inúmeras vezes, mas com a ajuda de outras e outros “shalomistas”, poderemos nos reerguer e voltar ao caminho.

+Gibson


domingo, 22 de janeiro de 2017

Professando minha "fé"


Assim também é a fé: sem as obras, ela está completamente morta. […] Mostre-me a sua fé sem as obras, e eu, com as minhas obras, lhe mostrarei a minha fé.” (Tiago 2:17-18)

Frequentemente, as pessoas demonstram uma enorme preocupação com a “crença” enquanto cerne da fé religiosa. Para eles, a “” consiste numa função intelectual de aceitação duma formulação de crença correta (a “ortodoxia”). Sua “fé” define-se pelas coisas nas quais declaram acreditar – e mesmo que não tenham consciência disso, enfatizam aquele aspecto da fé chamado em latim, na tradição teológica luterana, de “assensus” (que se refere ao ato de assentir, concordar, aprovar). Isso é demonstrável, por exemplo, nas inúmeras vezes que outras pessoas me perguntam no que creio. Elas esperam que eu professe uma lista de declarações fixas sobre diferentes aspectos teológicos, para que, assim, possam avaliar minha “fé” como “ortodoxa” ou “herética”.

Esperar que eu professe uma compreensão intelectual acabada da Realidade de Deus, da dimensão misteriosa ou dum porvir eterno não funciona para minha fé pessoal. Sou um cristão moldado por diferentes tradições cristãs, ordenado ao sacerdócio/ministério de cinco diferentes comunhões cristãs, e minha teologia pessoal é cada vez mais abençoada pela influência de outras tradições – cristãs ou não. Minha relação com amigos de outras tradições religiosas me ensina o quanto temos em comum e me faz compreender a “verdade” religiosa como algo que se encontra além de qualquer função intelectual.

Gosto de pensar que minha fé é multitradicional, isto é, bebe duma catolicidade mais extensa do que os limites de qualquer comunhão denominacional. Assim, meu unitarismo se entrelaça ao meu anglicanismo que aprende com meu luteranismo que se ilumina com meu restauracionismo que se pacifica com meu quakerismo que se integram à minha herança judaica liberal. De todos eles, e de minha herança cultural, emerge minha compreensão do Sagrado – que inclui não apenas Deus, mas também a humanidade e o todo da criação. Assim, o aspecto intelectual de minha fé não pode ser descrito como algo acabado, imutável; minha compreensão de fé, minha teologia, é, antes, um processo, um caminho, uma via.

Acredito em revelação, que “Deus ainda está falando”, como diz o slogan de uma de minhas denominações. Só que isso pode significar algo totalmente diferente do que alguns poderiam pensar. Nunca ouvi, literalmente, a “voz de Deus” – ou seja, nunca ouvi uma voz mensurável falando comigo, vinda do céu. Mas, ainda assim, julgo ouvir a voz divina: a ouço quando me sinto compelido a ouvir alguém que precisa ser ouvida(o); a ouço quando escuto uma música que me inspira ou consola; a ouço quando sou inspirado por alguém a fazer o que certo; a ouço quando alguém me oferece o consolo que eu preciso. Esse tipo de audição é o que chamo de “influência divina” ou “presença do Espírito Santo”. Essa Presença divina é aquela influência que me convida a participar do “Tikkun olam” (a restauração, reparo, cura do mundo), ensinado por minha herança judaica liberal, ou da construção de “Sião” (comunidade de compaixão, solidariedade e honra do valor e dignidade de todas as pessoas), como ensina minha tradição cristã restauracionista.

É isso que prefiro enxergar como minha fé. Menos uma crença, e mais uma esperança que me compele a tornar o aqui e agora no templo para a habitação do Divino. Menos uma lista de declarações sobre o desconhecido, e mais um desafio para tornar toda a minha vida uma manifestação de minha “fé”. E confesso publicamente, aqui, que essa é a coisa mais difícil que se pode tentar – mas é um desafio transformador!

Como um unitarista, é óbvio que me ocupo da intelectualização de minha “fé”. Essa é também, a propósito, parte de minha ocupação no ministério religioso e no ensino teológico. Mas me preocupo muito mais em viver minha “fé” do que em articulá-la intelectualmente. Em minha tradição anglicana, temos uma expressão para isso: “lex orandi lex credendi” – a lei da oração [é] a lei da crença – ou seja, é na oração que expressamos nossa crença; e como nossa própria vida deve ser uma oração, é na forma como vivemos nossas vidas que expressamos nossa crença teológica (como bem afirma o autor da Carta de Tiago).

+Gibson

sábado, 24 de dezembro de 2016

Um significado para a narrativa do Natal


Frequentemente, utilizo as palavras “metáfora” e “mito” para me referir às narrativas bíblicas. Por conta disso, já me acostumei às reações que muitas pessoas têm a esse uso. Muitos, por exemplo, podem não se sentir desconfortáveis com o termo “metáfora”, mas reagem negativamente ao termo “mito” por compreendê-lo erroneamente: entendem “mito” como sinônimo de “mentira”; assim como entendem “verdade” erroneamente como sinônimo, apenas, de “factualidade”. Eu, obviamente, continuarei a utilizar esses termos para tratar de três grandes “mitos” cristãos – as narrativas sobre o nascimento, a morte e a ressurreição de Jesus de Nazaré – e hoje, especificamente, gostaria de tratar acerca do mito do Natal de Jesus.

No estudo da religião e da teologia, um “mito” não é uma “mentira”. Mitos sagrados, como aqueles que encontramos na Bíblia, por exemplo, são narrativas simbólicas sobre a relação entre a dimensão sagrada e aquela de nossa experiência comum. Esses mitos são verdadeiros, mesmo que não sejam relatos factuais do que aconteceu na realidade humana. Sua verdade encontra-se além de sua (não) factualidade. Mesmo que a linguagem utilizada na Bíblia cristã para falar sobre o nascimento de Jesus – uma mãe virgem, três reis do Oriente, uma nova estrela, etc – não represente factualidades históricas, isto é, coisas que factualmente aconteceram no mundo físico, ela aponta para o significado que Jesus tem para a narrativa cristã. É nesse sentido que – acompanhando autores como Rudolf Otto, Mircea Eliade, William James e Marcus J. Borg – chamo esses relatos de “mitos”.

Obviamente, talvez a maioria dos cristãos abrace uma interpretação apresentada como “literal” (ou seja, o que “está escrito” deve ser compreendido exatamente como está expresso no texto) – apesar de que, se formos intelectualmente íntegros, deveremos reconhecer que absolutamente ninguém razoável interpreta o todo das Escrituras Sagradas de forma literal, já que toda interpretação é sempre seletiva (mesmo as mais aparentemente “literais”). Assim, muitos cristãos insistirão que não é possível “ser cristão” sem acreditar na literalidade das narrativas bíblicas sobre o nascimento de Jesus, por exemplo. Essa visão factualista das Escrituras tem uma origem moderna, mas foi naturalizada de tal forma, por tantos cristãos, que nossa cultura a vê como a norma, ignorando as diferentes tradições interpretativas da Igreja cristã.

A necessidade de certezas absolutas, para aqueles que compreendem a história como um conflito entre a “verdade” e a “mentira”, faz com que só possa haver duas possibilidades: ou o nascimento de Jesus se deu como dizem os diferentes relatos do Novo Testamento cristão ou esses relatos são mentirosos – o que muitas dessas pessoas não se dão conta é que todos os relatos nos Evangelhos canônicos são diferentes, por mais que mantenham elementos em comum. Assim, o que se perde – com essa ênfase factualista – é o poder da linguagem metafórica que enriquece os elementos factuais da narrativa natalina. A arte linguística da metáfora, presente naquelas narrativas bíblicas não exige nossa “crença”: exige, sim, nossa “visão”; ou como já escreveu o falecido professor Marcus J. Borg: “O ponto não é acreditar em uma metáfora, mas ver à luz dela” (2001: 41).

“Ver à luz” da metáfora natalina é, em minha experiência espiritual, ser circundado por uma melodia que me convida à dança divina – uma dança que honra minha própria humanidade ao despertar em mim um senso de dependência e de compaixão. Esse senso não significa que eu tenha, de alguma forma, me “aperfeiçoado”; significa, sim, que sou ajudado a reconhecer a necessidade de me aproximar do “divino” através da aproximação a outras pessoas e ao resto da Criação.

Assim, pensar na narrativa dum “príncipe da paz” que nasceu em condições de exclusão (Lucas 2:7) e sob a ameaça da violência e que, por isso, teve de se refugiar em terra estrangeira (Mateus 2:13-15) – independentemente da (não) factualidade do relato – me faz pensar naqueles seres humanos que, hoje, realmente passarão o Natal se refugiando da violência humana. Esses seres humanos, para mim, são também “Deus conosco”, já que são a presença divina testemunhando contra nosso pecado de violência e indiferença ao sofrimento humano. O relato mais que factual sobre o nascimento do menino chamado de o “príncipe da paz”, no meu “ver à luz” da metáfora, é um lembrete de que eu – enquanto discípulo professo daquele personagem – não posso aceitar que outros seres humanos sejam tratados indignamente. Afinal, como diriam as palavras atribuídas àquele mesmo menino, já como adulto, “todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram” (Mateus 25:40).

Assim, ser envolto pela melodia narrativa do Natal é ser relembrado da visão de “shalom”/”salam” presente nas Escrituras. A visão de um menino que vem à terra como o “Deus conosco” e mostra que todos os seus “irmãos” são também “Deus conosco”, e que devemos tratá-los como trataríamos aquele que chamamos de nosso “Salvador”.

As celebrações desta noite são, para mim, um lembrete desta tarefa sagrada que nos foi imposta por nosso Profeta, Mestre, Messias, Senhor – sim, Jesus de Nazaré, chamado de Cristo. Esse é um dos mais importantes sentidos que encontro na narrativa natalina: um convite à “divinização” de toda a vida, de toda a humanidade, de toda a Criação – um lembrete de que Deus se faz presente em minha vida por meio de outras pessoas, de que suas faces são um reflexo da Presença divina e daquele que seria chamado de “Filho do homem”.

Minha sincera oração é que todos nós que professamos ser discípulos de Jesus Cristo tenhamos a ousadia de fazer ao nosso próximo o que faríamos a ele próprio. Que nos levantemos contra a violência, o descaso, a indiferença, o egoísmo e entremos naquela dança divina à qual somos convidados pelos cânticos natalinos. Como dizem as palavras daquela Oração de Despedida:

Cristo nasce em nós quando abrimos nossos corações à inocência e ao amor. Cristo vive em nós quando caminhamos a senda do perdão, reconciliação e compaixão. Cristo morre em nós quando nos rendemos à nossa própria arrogância, egoísmo e ódio. Cristo ressuscita em nós quando nossas almas se despertam da morte espiritual para se unirem à comunidade de amor, para entrar no reino divino aqui mesmo neste mundo. […]”

Feliz Natal a todos. Que a metáfora da narrativa natalina possa ajudar-nos a abrirmos nossos corações e a caminharmos a senda de Jesus.

+Gibson


Referência:

BORG, Marcus J. Reading the Bible again for the first time. Nova York: HarperCollins, 2001.


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Deus, criacionismo e outras polêmicas: uma resposta a provocações recentes – Parte 1



Pensar sobre Deus não é um substituto para a experiência com Deus, e falar sobre Deus não é um substituto para o oferecimento às pessoas de maneiras de experimentar Deus. (Matthew Fox)


Recentemente, tenho recebido, como resposta à prédica “Por que ‘Deus’ não é Deus?”, centenas de mensagens, tanto de pessoas que estavam presentes ao evento quanto de pessoas que simplesmente reagiram ao título (sem, de fato, terem ouvido uma única palavra do que disse). Aqui, tentarei responder, brevemente, a algumas daquelas provocações.


Deus” não é Deus

Tenho repetidamente dito que há, para mim, uma diferença entre a “realidade” e os conceitos que construímos ou abraçamos acerca dela. As generalizações que servem de base para a construção de nossos conceitos não dão conta do todo da realidade que observamos. Assim, quando identificamos uma pessoa, por exemplo, como “religiosa”, tendemos a atribuir a essa pessoa características gerais que imaginamos serem necessárias para que alguém seja “religiosa”. O termo “religiosa”, desta forma, se torna uma etiqueta que desconsidera as possibilidades de variação, que ignora a complexidade da experiência humana. A generalização é tornada um esteriótipo.

Nas teologias das diferentes tradições de fé, “Deus” é uma dessas generalizações. Especialmente no Cristianismo – assim como, talvez em menor grau, em outras tradições jordânicas, como o Judaísmo e o Islã –, há uma preocupação sistemática com a definição da deidade. Assim, no bojo da diversidade da teologia cristã, há diferentes visões teontológicas (i.e., sobre Deus) que, de acordo com o teólogo católico Peter C. Phan, giram em torno da doutrina da Trindade – algumas favoravelmente, outras contrariamente.

O ponto sobre o qual tenho sempre argumentado é que essas noções, doutrinas ou dogmas – ou seja lá como as chamemos – são construções históricas e, como tal, estão socioculturalmente condicionadas. Elas são diferentes da “realidade” que observamos. Assim, “Deus” enquanto noção teológica, enquanto nome, é diferente de Deus enquanto “Realidade”. É nesse sentido que “Deus” (noção) não é Deus (Realidade). O conceito não passa de uma redução instrumental. Ou, como escreveu Gregório de Nissa:


Qualquer um que tente descrever a Luz inefável com a língua é verdadeiramente um mentiroso; não porque odeie a verdade, mas por causa da inadequação de sua descrição.”


Nossas narrativas, metáforas e crenças religiosas são verdadeiras apenas por conta de sua historicidade. Ou seja, elas são verdadeiras apenas em relação às experiências que um indivíduo ou um grupo tem da/com a realidade. Por isso a “verdade” (enquanto conjunto de noções) é relativa: ela se relaciona com a forma como nos relacionamos com o mundo, e essa relação/experiência serve de filtro para a compreensão que construímos da realidade. Assim, nossas compreensões não são produto apenas de nossa razão, assim como também não são produto apenas de nossas experiências, elas resultam da interação entre ambos.

As compreensões que temos de Deus são moldadas conjuntamente pelas ideias que abraçamos e pelas experiências que temos. Mesmo quando alguém pensa que crê apenas no que as Escrituras de sua tradição ensinam, sua “leitura” (a compreensão que constrói) é condicionada por sua experiência de vida (seu background sociocultural, sua história familiar etc). É a isso que os termos “historicidade” e “relatividade” se referem, em meu discurso.

É isso que está “por trás” daquele título!


Os três Cs: Cristianismo, criacionismo, ciência

Nunca existiu e não existe um Cristianismo único, estático, a-histórico. Como bem escreveu o filósofo e historiador unitarista Arthur O. Lovejoy, “...pessoas que igualmente professaram o Cristianismo e chamaram a si mesmas de cristãs mantiveram, no curso da história, toda espécie de crenças distintas e conflitantes agrupadas sob esse nome...”. Assim, não é possível falar no Cristianismo como se fosse uma “verdade” unívoca e imutável. Ele não é, nunca foi e, provavelmente, nunca será.

O Cristianismo não é a religião professada por Jesus de Nazaré – ele era judeu! – e não é a religião de Deus! O Cristianismo é, antes, a resposta que nós cristãos damos à nossa experiência espiritual filtrada pela ótica de nossa herança sociocultural. Enquanto artefato humano, uma religião diz muito mais sobre seus adeptos do que sobre a divindade que dizem honrar. Não seria diferente com o Cristianismo! O Cristianismo somos nós que o professamos, e não Jesus ou Deus!

Não há nada de essencialmente anticientífico no Cristianismo. Também não há nada de científico na fé cristã. No mundo moderno, fé religiosa e ciência expressam preocupações para com dimensões distintas da realidade. A dimensão misteriosa – aquela que diz respeito àquilo que se encontra além do que pode ser objetivado, mensurado – é o objeto da fé religiosa. A dimensão objetiva – que diz respeito a tudo o que pode ser mensurado, analisado por meio de instrumentos científicos – é o objeto da ciência. O suposto conflito entre religião e ciência, enquanto tais, não passa de mito – mito que serve como instrumento para as intenções de certos indivíduos ou grupos.

O Cristianismo não prega o criacionismo. O Cristianismo ensina acerca da criação. Criação e criacionismo não são a mesma coisa. O criacionismo surgiu como uma tentativa, por parte de adeptos do fundamentalismo protestante, de cientificar uma crença tradicional pré-evolucionista.

Para responder diretamente a uma das questões que me foram feitas: Bíblia e Cristianismo não são a mesma coisa. Você teria de desconhecer a história do Cristianismo para imaginar que o mesmo se baseie unicamente nos textos da Bíblia. A maioria das tradições cristãs reconhecem que a própria Bíblia, originalmente, emergiu como um produto da “Tradição” (e não o contrário), e que essa Tradição foi posteriormente instruída pela autoridade bíblica.

Mas mesmo que se pense que a Bíblia seja a única fonte doutrinária cristã (o que não é o caso para as tradições católica romana, ortodoxa, anglicana, luterana, metodista, unitarista e outras), ela não ensina aquilo que ficou conhecido como “criacionismo”! A narrativa da criação, na Bíblia, não é uma teoria científica – até porque os autores daquela coleção de textos não expressavam a mesma preocupação com explicações objetivas das origens do Universo e da vida que nós temos atualmente.

As origens do criacionismo se encontram em outro lugar. Para compreendê-lo, temos de revisitar as origens do “Movimento Fundamentalista”. E faremos isso na segunda parte deste texto.

Até breve!

+Gibson da Costa

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

A espiritualidade do encontro humano


...Ele não está longe de cada um de nós, pois nele vivemos, nos movemos e existimos...
(Atos 17: 27-28)


Com frequência, alguns se surpreendem quando descobrem que, além de uma vida intelectual-profissional-social, mantenha uma “vida sacerdotal” – como a nomeia minha colega e amiga Christine. Talvez, a surpresa dessas pessoas se baseie numa construção equivocada do que seria uma pessoa religiosa. Para alguns deles, talvez, o sacerdócio/ministério signifique uma “santidade” que indique um desinteresse pelas coisas “mundanas”, incluindo o intelecto.

Não poderia haver um equívoco maior acerca da vida sacerdotal/ministerial, ao menos para mim.

A “santidade” sobre a qual alguns falam – termo esse, geralmente, que não se faz presente em meu próprio discurso sobre mim mesmo, por razões muito pragmáticas – tem, para mim, uma relação com aquilo que chamo de “espiritualidade” ou “reverência”. Pessoalmente, encontro minha espiritualidade na complexidade da existência. O sagrado, em minha compreensão e experiência, não se encontra exclusiva ou necessariamente numa entidade externa – em Deus. A sacralidade, a espiritualidade, a reverência e o próprio Deus se encontram em minhas relações com outros seres humanos e com o todo da criação.

Sim, como um devoto, encontro a Divindade em meus momentos de devoção silenciosa e solitária, em meus momentos ritualísticos com outros fiéis e em meus momentos de leitura e estudo das Escrituras Sagradas. Mas, como um humano, encontro o Divino, principalmente, em meu encontro com outros seres humanos – especialmente porque minha fé só pode ser praticada em comunidade.

Esse encontro com outros seres humanos se dá de várias maneiras. As artes sempre foram uma forma de encontro memorável: especialmente a música, a literatura e o cinema. A reflexão filosófica e teológica também. Pensar sobre o mundo, avaliar, criticar: todos são encontros sacramentais com o Divino. A emoção e a reflexão são, em união, um sacramento divino, um encontro com Deus.

É por essa razão que “acreditar em Deus” é dispensável. Os dois termos – “acreditar” e “Deus” – são, afinal, relativizáveis. O que significaria “acreditar”? E “Deus”? “Acreditar em Deus”, ao menos da forma como tantos utilizam a expressão, significa apenas conformar-se a uma visão que outra pessoa tem acerca da Divindade. Pessoalmente, prefiro experienciar a “Realidade” e a “Presença” que chamo de Deus.

Assim, posso experienciar essa “Realidade” e essa “Presença” quando ouço uma música que me faz lembrar que sou parte deste mundo “criado” por aquela Presença. Experiencio-as quando alguém responde ao meu cumprimento, ou mesmo quando não o faz. Experiencio-as quando dialogo com outra pessoa por meio da voz ou da escrita, quando a presença de outros me mostra que não estou sozinho num cenário de ilusão. Essa é a Presença, a Divindade, em sua forma mais humana, mais nítida.

É claro que Deus é real. Deus está presente em todos os momentos e em todos os lugares. Está presente quando amamos e quando somos amados, quando servimos e quando somos servidos, quando ouvimos e quando somos ouvidos, quando duvidamos e quando somos duvidados, quando cremos e quando descremos. Assim, não há contradição ou conflitos entre crer e criticar, entre o rito sacramental e o trabalho intelectual. Minha humanidade é a ponte entre os dois.

Não preciso dizer que acredito no que você acredita para me relacionar com o Divino. Sua própria voz é suficiente para me convencer que Deus fala comigo.

+Gibson


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Sola caritas e o dom de comunidade


O dom da comunidade consiste na absolvição que recebemos pelo pecado de fingir que somos completos sozinhos. Esse fingimento de “autocompletude” é um peso que nossa cultura nos impõe; um fingimento que limita nossa humanidade plena, fazendo-nos tolamente crer que possamos ser plenamente humanos sozinhos.

Na verdade, não podemos.

A plenitude de nossas existências só pode ser realmente realizada quando partilhamos o peso de nossa humanidade com outras pessoas. Esse é o dom e a benção da comunidade. Na linguagem cristã, é o dom e a benção de sermos “igreja” – uma comunidade que se engaja no amor e serviço mútuo, entre seus membros e, consequentemente – e eu diria, metaforicamente –, entre esses e Deus.

Frequentemente me lembro das inúmeras vezes em que esse dom se manifestou de forma explícita em minha vida. Das vezes em que, como forasteiro, fui recebido por comunidades que me ofereceram um lar, tanto físico quanto espiritual. Das vezes em que, como ofensor, fui perdoado pela compaixão ofertada por aqueles que formam e complementam minha humanidade, e que, como eu, embarcam num caminho de descoberta e oferecimento da Presença divina.

Não poderia ter iniciado minha formação humana sem comunidade. Primeiro, minha comunidade familiar. Depois, todas as outras que se juntaram a ela em minha formação como humano: a comunidade de fé, a comunidade de amigos, a comunidade profissional etc. Todas elas sempre foram e sempre serão cúmplices do Mistério na criação inacabada de minha humanidade. Criação que, segundo a tradição cristã, se completa apenas quando “retornamos” àquela Presença que chamamos de Deus – ou seja, quando nos juntamos em comunidade ao Divino, apesar de raramente ser essa a linguagem utilizada para se referir a esse processo “soteriológico”.

Não podemos ser humanos plenos sem comunidade. Mas também não podemos ser cristãos plenos sem comunidade. E isso porque a raiz de ser “cristão” está na ação de ser a materialização da Presença Divina – isto é, ser cristão é ser a face de Deus para os outros humanos e para o resto da Criação, e é ver a face de Deus em todos eles. O autor da carta de Paulo aos romanos, por exemplo, diz:

Abençoem os que perseguem vocês; abençoem e não amaldiçoem. Alegrem-se com os que se alegram, e chorem com os que choram. Vivam em harmonia uns com os outros. Não se deixem levar pela mania de grandeza, mas se afeiçoem às coisas modestas. Não se considerem sábios. Não paguem a ninguém o mal com o mal; a preocupação de vocês seja fazer o bem a todos os homens. Se for possível, no que depende de vocês, vivam em paz com todos. […] Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem.” (Romanos 12:14-18, 21)

São nossas ações, mais do que nossas declarações de crença, que representam nossa fé – para nós mesmos, para nosso próximo, e para Deus.

Comunidade, amor, serviço. Se pudesse redigir uma declaração de minha fé, essas seriam as palavras. Elas não representam o que sou, mas o que tenho recebido de outros e o que almejo praticar em minha vida.

Sola caritas. Só o amor salva. E o amor só pode ser alcançado em comunidade.

+Gibson


quinta-feira, 16 de junho de 2016

Cristianismo e violência homofóbica: respondendo a algumas provocações



“… se aperfeiçoem na prática da hospitalidade.” (Romanos 12:13)


Serei duro em minha resposta a algumas provocações que tenho recebido. Em hipótese nenhuma é minha intenção ferir qualquer um de meus leitores ou leitoras. Mas, a honestidade, às vezes, exige um tanto de rigidez.

Sim, é verdade que há muita falta de compaixão por parte de algumas igrejas e alguns fiéis cristãos para com diferentes grupos ou indivíduos que não se encaixem em suas expectativas. Essa falta de compaixão é, em minha compreensão teológica, pecaminosa, já que trai o espírito da mensagem do Evangelho.

Sim, é verdade que muitos indivíduos LGBT se sentem excluídos da comunidade cristã por conta da falta de compaixão de alguns que se declaram cristãos. Isso, para mim, é triste e inaceitável. Não acredito que pessoas tenham de mudar sua personalidade para sentirem-se respeitadas e protegidas enquanto seres humanos. Isso é algo que elas merecem pelo simples fato de serem humanas e de, na tradicional linguagem cristã, serem filhos e filhas de Deus.

Crer nisso, proclamar isso e viver isso, entretanto, não significa dizer que comunidades de fé (igrejas) não possam fazer exigências comportamentais de seus adeptos. Elas têm esse direito. A vida em comunidade só é possível sob acordos entre seus membros e, no caso de comunidades de fé, esses acordos baseiam-se sobre uma tradição teológica comum – partilhada se não por todos, pelo menos pela maioria.

Quando uma comunidade de fé, de qualquer tradição, acredita e ensina uma certa compreensão da sexualidade humana e das relações maritais que declare práticas homoafetivas como “pecaminosas”, ela não está, com base apenas nisso, sendo “homofóbica” ou cúmplice de “homofobia”. Está, apenas, vivendo suas próprias regras.

Em minha compreensão – e todos vocês sabem a partir de que posição falo nesse conflito –, e na compreensão da lei, a vida religiosa baseia-se, dentre tantas outras coisas, na voluntariedade. Em outras palavras, você só faz parte duma comunidade de fé à qual você queira se juntar. E essa – seja lá qual for – só recebe aqueles a quem queira receber. Uma igreja não é uma loja que venda “Deus” ou a “salvação – ou, pelo menos, não deveria ser –, é, antes, uma comunidade de fiéis.

Assim, mesmo eu sendo quem sou, e mesmo eu crendo no que creio no tocante ao valor e à dignidade humanos, não posso aceitar acusações generalizantes e falsas acerca de pessoas que não pensam como eu. Apesar de, para mim e para minha tradição de fé, a homossexualidade não ser um “pecado”, como o ensinam tantos outros cristãos, dizer que seja e exigir um comportamento “moral” que se afaste de “desejos e práticas homossexuais” não é sinônimo de “homofobia” – é, no máximo, sinônimo de ignorância e preconceito; mas se vamos falar sobre “ignorância” e “preconceito”, também deveremos falar sobre esses dois elementos na visão, declarações e comportamentos de certos ativistas.

Não é verdade que “todas as igrejas cristãs condenam a população LGBT ao inferno”. Na verdade, nem todas as igrejas cristãs pregam sobre o mito do “inferno” – algumas estão ocupadas demais pregando as boas novas de Jesus para se preocuparem com “o diabo”. Para nós, Deus é suficiente; não precisamos do diabo ou do inferno para nos preocuparmos com o serviço ao próximo e com a construção do Reino de Deus aqui e agora.

Sim, é verdade que as igrejas e movimentos mais belicosos no tocante a temas “delicados” como esse são as que têm maior audiência nos meios de comunicação. São elas que aparecem nos noticiários, que têm programas de TV, que vendem revistas nas bancas, e que elegem os tipos de legisladores de certas “bancadas” do Congresso. Elas, contudo, não são “o Cristianismo” – elas são uma parte apenas (a mais poderosa no Brasil atual, mas apenas uma parte).

O Cristianismo é multiforme e polifônico, assim, é injusto acusar-nos todos como coparticipantes duma visão teológica específica. Fazê-lo é não apenas reflexo de desinformação deliberada: é uma desonestidade imoral.

Aos que acreditam na retórica da não compaixão absoluta da Igreja cristã para com qualquer tipo de pessoa, convido-os a procurar com mais cuidado e atenção. Se de fato quiserem ser parte duma comunidade de fé onde possam se sentir bem-vindos, tenho certeza que encontrarão esse lugar. Só não se esqueçam de que da mesma forma como querem ser livres e ser respeitados, outras pessoas que, talvez, pensam de forma diferente da sua também o querem. É uma via de mão dupla! É o preço de construir comunidade!

Se precisar de ajuda em sua busca, ficarei feliz em ajudá-lo(a)!

Sinceramente,

Rev. Gibson da Costa

sábado, 9 de abril de 2016

Esta manhã, bebi água de coco com Deus


Mais uma vez, me perguntam se creio em Deus. Mais uma vez, lhes digo que não sei o que querem dizer. O que significa dizer “Creio em Deus”? Quando alguém diz que crê em Deus, não me diz nada sobre a Realidade Divina, me diz apenas sobre si próprio(a). Ele(a) me diz sobre o que faz, e não sobre a Realidade na qual “crê”.

Ultimamente têm me perguntado em que “Deus” creio: se meu “Deus” era o mesmo da Bíblia; se o meu “Deus” era o mesmo de Joseph Smith; se o meu “Deus” era o mesmo do Corão; ou se era ateu. A verdade é que alguns leitores parecem ter uma obsessão com minha “falta de claridade em definir” minha crença. E eu que sempre imaginei que o que escrevo aqui e que a forma como discuto minha fé – aqui, no púlpito ou em outros espaços – fossem suficientemente claros ou, pelo menos, sugestivos de minha visão teológica (e teontológica)!

Como já escrevi inúmeras vezes, a forma como encaramos questões sobre aquilo que chamo de “aspecto misterioso” da realidade é condicionada pela forma como compreendemos o resto da realidade. Se alguém se preocupa tanto em querer uma definição objetiva sobre quem ou o quê seja o Divino, ao menos em minha visão, é porque tem uma compreensão de “verdade” diferente daquela que abraço.

Para que eu fosse capaz de definir Deus nos termos utilizados por alguns daqueles que me fazem aquele tipo de pergunta, teria de compreender a Divindade como uma entidade objetiva, mensurável, antropomorfa. Essa, entretanto, não é a forma como compreendo “Deus”; é a forma como compreendo você e eu, mas não a Divindade. Logo, aquela pergunta não faz sentido pleno para mim.

Mas se querem tanto saber quem é Deus, para mim, posso lhes garantir que somos relativamente próximos. Na verdade, nos sentamos esta manhã à bancada dum quiosque no calçadão da praia e tomamos uma água de coco gelada, enquanto falávamos sobre sua vida. Como ele estava cansado, ofereci-me para acompanhá-lo até seu edifício, dois quarteirões dali. Ele está, afinal, com quase oitenta anos!... Naquele momento, Deus era, para mim, um homem idoso que me contou suas memórias sobre a exploração imobiliária em seu bairro, e sobre como sua vida estava após a morte de sua esposa (com quem fora casado por cinquenta anos). Conversar com aquele homem foi sentir Aquela Presença que chamo de Deus.

Essa é uma das formas como compreendo “Deus”. Minha fé exige que eu enxergue o Divino em outras pessoas, e que aja para com elas como se elas fossem o “próprio Deus” – algo que parece bem mais difícil do que “acreditar” numa ideia específica do que ou quem seja Deus.

Como a metáfora bíblica do homem ter sido criado “à imagem e semelhança” de Deus é essencial para minha compreensão teológica, amar o ser humano é amar a Deus, e ser violento para com o ser humano é negar o próprio Divino. Assim, para mim, nossa fé em Deus define-se, na verdade, através da forma como nos relacionamos com “sua imagem e semelhança” entre nós: o que inclui as outras pessoas e nós mesmos, além do resto da Criação.

Há variadas formas de compreender o Divino, e todas elas podem ser úteis em diferentes contextos. Mas, na maioria das vezes, Divindade, Presença e Realidade são minhas metáforas favoritas para falar acerca de [daquela outra metáfora] “Deus”.

+Gibson

domingo, 27 de março de 2016

O Jesus que salva: notas sobre temas pascais, dum ministro unitarista


A Paixão comercializada

Como muitos sabem, sou um cinéfilo e, como tal, tendo a não apenas assistir a muitos filmes assim como também a me envolver em conversas sobre eles com meus amigos. Hoje, lembrei-me das acirradas discussões que tivemos, em 2004, acerca do filme A Paixão de Cristo [The Passion of the Christ], de Mel Gibson. Lembro-me que quando o filme foi lançado nos Estados Unidos, centenas e centenas de igrejas cristãs das mais diferentes tradições organizavam idas coletivas ao cinema para assisti-lo. Para muitas daquelas pessoas aquele parecia ser um exercício espiritual, uma forma de experiência sacramental na qual se efetuava um encontro com Cristo. Eu, contrariamente, senti-me majoritariamente ofendido tanto pelo filme quanto pelo que percebi como uma comercialização explícita da fé. [De certa forma, não tão diferente do que ocorre hoje, no Brasil, com o filme Os Dez Mandamentos, de Alexandre Avancini, e não tão diferente do que ocorre com a Paixão de Cristo, de Nova Jerusalém, em Pernambuco.]

As críticas que fiz em 2004, em conversas informais e no púlpito, ainda são válidas. Quando a fé cede à força do consumismo, corre-se o risco de abrir mão do que há de mais belo na tradição, e de deixar de encontrar novos sentidos para o encontro com o Divino. Transformar as narrativas das tradições sagradas em mercadoria que possa ser vendida e comprada, num entretenimento fomentador duma “religiosidade” imediatista, é baratear a experiência com o Divino e, portanto, consigo mesmo – e para mim, como um unitarista, tal tipo de experiência (com o Divino e/ou consigo mesmo) deve envolver tanto as emoções quanto a razão.

Será, então, que filmes, a seleção de astros e estrelas do cinema ou da TV, e o merchandising produzido para acompanhá-los, são realmente feitos com a finalidade primordial de servirem de testemunho religioso e para a “edificação espiritual” dos espectadores?... Eu, com todo respeito às experiências de outras pessoas – e mesmo acreditando firmemente que toda e qualquer experiência possa ser espiritual –, duvido disso! Por mais que as obras possam, sim, ser utilizadas como instrumentos pedagógicos para a espiritualidade de alguém, e por mais que o trabalho dos participantes seja belo, agradável, inspirador e merecedor de reconhecimento, a forma como essas obras muitas vezes são promovidas pode contribuir para a espetacularização duma compreensão literalista da tradição cristã – se foram divulgadas, como muitas vezes o são, como expressão da “verdade da fé”.


A diversidade do Cristo

A observação aparentemente incompassiva que faço sobre esses tipos de entretenimento relaciona-se com as diferentes compreensões que os diferentes cristãos abraçam acerca de sua própria fé. Ela não reflete uma verdade inquestionável; reflete, antes, minhas percepções particulares. E as cito aqui por terem sido tema de conversas que mantive esta semana com amigos e paroquianos. Tenho sempre dito que a diversidade de compreensões na grande tenda da tradição cristã é o que a torna fascinantemente bela para mim. Essa diversidade é o que faz com que me refira a “Cristianismos”, no plural, em vez de “Cristianismo”, no singular. As diferentes tradições teológicas cristãs oferecem as mais variadas compreensões acerca dos mais variados temas, incluindo os concernentes à vida, ensinamentos, morte e ressurreição de Jesus – temas tão importantes para as diferentes celebrações do calendário da Igreja cristã, como a Páscoa.

Apesar de ser um cristão unitarista – e, por isso, poder ser visto pela maioria como um “heteredoxo” ou “herege” – e, assim, não poder concordar com aqueles meus irmãos cristãos que chamam Jesus Cristo de “Deus”, concordo com o que eles possivelmente queiram dizer quando o identificam dessa forma. Como afirmado pelo unitarista Rev. James Freeman Clarke, em 1841, em Jesus também identifico uma manifestação de Deus. Nele encontro Deus reconciliando o mundo a Si. Em Jesus encontro uma imagem do Deus invisível que não encontro de forma tão explícita em ninguém ou nada mais. Desta forma, as palavras, atos e caráter atribuídos a Jesus Cristo são as palavras, atos e caráter [que atribuo à minha compreensão] de Deus. Como um cristão, posso dizer que ver o Jesus retratado pela Tradição é ver Deus [¹]. Nesse aspecto, pelo menos, como um unitarista, compartilho da fé professada por cristãos de outras expressões – mesmo aqueles que me acusam de heresia e/ou apostasia.

É minha convicção que todas as nossas compreensões da Divindade só podem ser parciais. Nossas ideias sobre Deus e sua relação com a criação – o que inclui nossas ideias sobre Jesus – são contextuais e relativas; isto é, dependem de quem somos e de nossos contextos pessoais e/ou comunitários, sincrônica e diacronicamente considerados [*]. Assim, se você tiver mais de 35 anos, como eu, já deve ter percebido que suas compreensões acerca da Divindade – para não citar aquelas acerca do mundo ao seu redor – mudaram ao longo do tempo. Essas compreensões provavelmente emergiram do encontro entre suas experiências com o Divino e as coisas que você aprendeu sobre o mundo, das ideias teológicas/filosóficas/políticas/científicas às quais foi exposto(a), das comunidades de fé às quais se juntou, dos livros que leu, das pessoas com as quais conviveu ou conheceu, dos desafios que enfrentou, enfim, das suas experiências de vida. Por mais imutáveis que possam parecer nossas diferentes formas de fé religiosa, elas, na verdade, não o são.

Além dessa mutabilidade característica de nossas ideias pessoais, também não se pode desconsiderar a mutabilidade das ideias ensinadas pelas diferentes tradições de fé – o que inclui as diferentes comunhões/denominações cristãs ao redor do mundo e ao longo do tempo, em comparação com as demais e com as diferentes expressões em seu próprio interior. Assim, nunca poderemos conhecer plenamente todas as compreensões cristãs possíveis acerca da própria tradição cristã – a não ser, obviamente, que sejamos suficientemente arrogantes para supor que nossa expressão de fé seja a única “verdadeira”, que apenas a nossa tradição seja “a verdade” de Deus. Nós unitaristas tradicionalmente rejeitamos a essa visão – e eu, pessoalmente, não tenho nenhuma simpatia para com qualquer dogmatismo exclusivista, seja relativo ao(s) próprio(s) Cristianismo(s), seja no que tange à sua relação com outras tradições religiosas.


Jesus vive e salva

No(s) Cristianismo(s), a ideia de “salvação” relaciona-se diretamente à pessoa de Jesus Cristo. Dependendo da compreensão que se tenha sobre a identidade de Jesus e do sentido de sua morte e ressurreição, se professará uma compreensão soteriológica – isto é, de como ocorre/opera-se a “salvação”. Assim, não há uma visão única do sentido da Páscoa cristã, como, por exemplo, o filme de Mel Gibson ou as diferentes representações populares da “Paixão” Brasil afora poderiam sugerir; há diferentes formas legítimas de compreender Deus, Jesus Cristo, o Espírito Santo, a Páscoa, a salvação etc.

O falecido teólogo e professor Marcus J. Borg, sob quem tive o privilégio de estudar e aprender muitíssimo, discute, num de seus mais populares livros [²], três das grandes tradições teológicas cristãs acerca da morte e ressurreição de Cristo – discutidas pelo teólogo e bispo luterano sueco Gustaf Aulen, num livro publicado em 1931 [**]. A primeira dessas compreensões, chamada, em latim, de Christus Victor [Cristo Vitorioso], mantém uma relação com a narrativa bíblica do êxodo e aponta como a mais importante obra de Cristo sua vitória sobre aquilo que escraviza a humanidade, incluindo o pecado, a morte e o “diabo”. A segunda é chamada de substitutiva ou objetiva, para a qual a morte de Cristo é um sacrifício que possibilita o perdão de Deus, e na qual essa morte é enxergada através da narrativa sacerdotal/sacrificial. A terceira, correlacionada à narrativa do exílio, retrata a Jesus nem como alguém que triunfe sobre o que nos escraviza nem como um sacrifício pelos nossos pecados, mas como um revelador da verdade [***] – isto é, como revelador de Deus, como luz que nos salva da escuridão do exílio, de sua morte e ressurreição como uma revelação do caminho de retorno, como uma revelação do “processo espiritual interno que nos traz a uma relação experiencial com o Espírito de Deus”; ou seja, Jesus é compreendido como a encarnação do caminho de retorno do exílio. [³]

Não é necessário um grande conhecimento de História da Igreja para perceber qual conjunto de compreensões acima parece ser dominante tanto no meio cristão quanto na compreensão que a sociedade como um todo tem do(s) Cristianismo(s). A narrativa sacerdotal – aquela que vê a morte de Cristo como um sacrifício necessário ao perdão da humanidade por Deus, de forma substitutiva (em lugar de outros), isto é, que Jesus teria carregado sobre si a culpa dos pecadores e sofrido a pena que mereciam (a morte) – está explícita na maioria das representações da morte de Jesus (nos hinos, nas declarações de fé, nos sermões, nos filmes, nas peças teatrais etc). Apesar de essa linguagem sacerdotal/sacrificial já estar presente no próprio Novo Testamento, essa compreensão só se tornou dominante na Igreja ocidental a partir duma obra escrita por Anselmo, Cur Deus Homo?, de 1097. Ela resgata e cristianiza não apenas as antigas ideias sacrificiais de tradições religiosas mais antigas, mas também as ideias e linguagem do Direito Romano.

Obviamente, a linguagem sacrificial e legalista utilizada para se referir ao Divino em sua relação com a Criação – quando, por exemplo, se afirma que Deus exigiria a morte dum inocente para que sua ira não se voltasse contra a humanidade pecadora – é uma compreensão legítima da fé cristã. Essa é, também, a compreensão oficial da maioria das tradições cristãs ocidentais. Mas isso não muda o fato de que, para mim, é uma compreensão repulsiva. Pessoalmente, me recusaria a adorar uma deidade que expressasse “seu amor” através da exigência de sacrifícios de sangue – e isso porque, se esse fosse o caso, eu seria mais compassivo que essa deidade. Logo, a linguagem metafórica do “sacrifício” e do “sangue” não apela à minha espiritualidade nem à minha integridade intelectual – independentemente de onde se encontre e de quem a tenha utilizado. Tenho de utilizar outras imagens para me referir ao meu encontro com o Divino.

Como a metáfora do exílio é cara à minha compreensão do Divino – porque apela às minhas próprias experiências de vida –, você pode imaginar qual daqueles conjuntos de compreensões molda minha visão daquilo que é celebrado na Páscoa. Como tenho afirmado muitas vezes, compreender a fé cristã como uma Jornada ou um Caminho é muito importante para a forma como compreendo e falo sobre minha fé. Jesus, em minha compreensão, me salva não por ter sido imolado como sacrifício por meus pecados, mas porque os ensinamentos e as ações que lhes foram atribuídos me mostram o Caminho para Deus, e guiam minha Jornada.

Esse Jesus humano, que possivelmente experienciou muitas das limitações e desafios que eu mesmo experiencio – independentemente de quão factuais ou não factuais sejam os relatos a seu respeito –, é meu Salvador por ser minha janela para a “face de Deus” e minha porta para sua presença. É por isso que sou um cristão, é por isso que celebro a Páscoa. Jesus é meu Salvador porque a tradição a seu respeito faz com que queira abandonar minha indiferença ao sofrimento de migrantes paralegais e refugiados. Ele é meu Salvador porque as narrativas a seu respeito me fazem querer ser mais preocupado com os que sofrem rejeição por não corresponderem às minhas próprias expectativas. Ele é meu Salvador porque o que se diz a seu respeito me faz crer que tenha materializado o amor à humanidade de forma plena – e, assim, me ensina que essa é a única forma de “amar” o Eterno.

Hoje celebro a salvação oferecida pela companhia do homem Jesus em minha Jornada rumo a Deus. Jesus, refugiado, pobre, rabino compassivo e não sofisticado, profeta rejeitado, filho de Deus, Salvador de minha fé e de minha relação com a humanidade.

Ele verdadeiramente vive. Aleluia!

Cristo nasce em nós quando abrimos nossos corações à inocência e ao amor. Cristo vive em nós quando caminhamos a senda do perdão, reconciliação e compaixão. Cristo morre em nós quando nos rendemos à nossa própria arrogância, egoísmo e ódio. Cristo ressuscita em nós quando nossas almas se despertam da morte espiritual para se unirem à comunidade de amor, para entrar no reino divino aqui mesmo neste mundo. Saiamos em paz. Amém.”



Notas:

[*] Considerar algo de forma sincrônica significa considerá-lo(a) através de seus diferentes aspectos. Considerar algo de forma diacrônica significa vislumbrá-lo(a) através do seu desenvolvimento ao longo do tempo.

[**] A tradução em inglês é referenciada pelo próprio Borg: AULEN, Gustaf. Christus Victor. Tradução ao inglês de A. G. Hebert. Nova York, EUA: Macmillan, 1969. [Originalmente publicado em 1931.]

[***] Aulen a chamara de subjetiva, mas Borg não concordava com a forma como o teólogo sueco a descrevera.


Referências

[1] CLARKE, James Freeman. The Well-Instructed Scribe, or, Reform and Conservatism: A Sermon Preached at the Installation of Rev. George F. Simmons, and Rev. Samuel Ripley, as Pastor and Associate Pastor Over The Union Congregational Society in Waltham, Mass. October 27, 1841. Boston, EUA: Benjamin H. Greene, 1841. p.11.

[2] BORG, Marcus J. Meeting Jesus Again for the First Time: the Historical Jesus & the Heart of Contemporary Faith. Nova York, EUA: HarperCollins, 1994.

[3] Ibid., p.128.