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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Sola caritas e o dom de comunidade


O dom da comunidade consiste na absolvição que recebemos pelo pecado de fingir que somos completos sozinhos. Esse fingimento de “autocompletude” é um peso que nossa cultura nos impõe; um fingimento que limita nossa humanidade plena, fazendo-nos tolamente crer que possamos ser plenamente humanos sozinhos.

Na verdade, não podemos.

A plenitude de nossas existências só pode ser realmente realizada quando partilhamos o peso de nossa humanidade com outras pessoas. Esse é o dom e a benção da comunidade. Na linguagem cristã, é o dom e a benção de sermos “igreja” – uma comunidade que se engaja no amor e serviço mútuo, entre seus membros e, consequentemente – e eu diria, metaforicamente –, entre esses e Deus.

Frequentemente me lembro das inúmeras vezes em que esse dom se manifestou de forma explícita em minha vida. Das vezes em que, como forasteiro, fui recebido por comunidades que me ofereceram um lar, tanto físico quanto espiritual. Das vezes em que, como ofensor, fui perdoado pela compaixão ofertada por aqueles que formam e complementam minha humanidade, e que, como eu, embarcam num caminho de descoberta e oferecimento da Presença divina.

Não poderia ter iniciado minha formação humana sem comunidade. Primeiro, minha comunidade familiar. Depois, todas as outras que se juntaram a ela em minha formação como humano: a comunidade de fé, a comunidade de amigos, a comunidade profissional etc. Todas elas sempre foram e sempre serão cúmplices do Mistério na criação inacabada de minha humanidade. Criação que, segundo a tradição cristã, se completa apenas quando “retornamos” àquela Presença que chamamos de Deus – ou seja, quando nos juntamos em comunidade ao Divino, apesar de raramente ser essa a linguagem utilizada para se referir a esse processo “soteriológico”.

Não podemos ser humanos plenos sem comunidade. Mas também não podemos ser cristãos plenos sem comunidade. E isso porque a raiz de ser “cristão” está na ação de ser a materialização da Presença Divina – isto é, ser cristão é ser a face de Deus para os outros humanos e para o resto da Criação, e é ver a face de Deus em todos eles. O autor da carta de Paulo aos romanos, por exemplo, diz:

Abençoem os que perseguem vocês; abençoem e não amaldiçoem. Alegrem-se com os que se alegram, e chorem com os que choram. Vivam em harmonia uns com os outros. Não se deixem levar pela mania de grandeza, mas se afeiçoem às coisas modestas. Não se considerem sábios. Não paguem a ninguém o mal com o mal; a preocupação de vocês seja fazer o bem a todos os homens. Se for possível, no que depende de vocês, vivam em paz com todos. […] Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem.” (Romanos 12:14-18, 21)

São nossas ações, mais do que nossas declarações de crença, que representam nossa fé – para nós mesmos, para nosso próximo, e para Deus.

Comunidade, amor, serviço. Se pudesse redigir uma declaração de minha fé, essas seriam as palavras. Elas não representam o que sou, mas o que tenho recebido de outros e o que almejo praticar em minha vida.

Sola caritas. Só o amor salva. E o amor só pode ser alcançado em comunidade.

+Gibson


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