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terça-feira, 4 de agosto de 2015

Joseph, o Vidente: mais um ensaio historiográfico dos “mórmons” de Utah



Gibson da Costa


Para alguém que, como eu, pesquisa a história teológica da tradição do Movimento Restauracionista iniciada por Joseph Smith (tradição popularmente conhecido, para alguns inapropriadamente, como “Mormonismo”), a publicação de mais um ensaio historiográfico por parte de “A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias” (IJCSUD) foi uma relativamente boa “surpresa”.

Como vocês leram aqui, em 24 de outubro de 2014, a IJCSUD já havia publicado uma série de ensaios que lidavam com temas controversos de sua história – especificamente sobre Joseph Smith e o Casamento Plural (poligamia) em sua tradição. Na verdade, nos últimos anos, a denominação tem feito um esforço de lidar com sua história – pense no excelente Projeto “Joseph Smith Papers” [Os Papeis/Documentos de Joseph Smith] –, e a publicação daqueles artigos faz parte desse trabalho de relativa abertura ao mundo externo (obviamente, não se trata duma historiografia desvinculada das visões doutrinárias da denominação). Apesar das limitações decorrentes de os artigos terem sido escritos sob os auspícios da própria denominação, o fato de lidarem com os questionamentos e tratarem do tema foi, em si, um ato corajoso e louvável – independentemente das possíveis intenções políticas por trás disso (afinal de contas, se virmos a questão de forma mais cínica, não esqueceremos que o “Mormonismo”, em geral, e a IJCSUD, em particular, foram alvo de protestos durante a campanha de Mitt Romney à Presidência dos E.U.A., e vir às claras sobre o passado poderia melhorar a percepção pública para com a denominação).

Mas, então, temos o mais novo ensaio historiográfico da Igreja SUD, desta vez lidando com um outro aspecto polêmico para quem não é da tradição: “Joseph the Seer” [Joseph, o Vidente], que estará na edição de outubro da revista oficial da igreja em inglês, Ensign – mas já disponível online.

Gostaria, aqui, apenas de tecer breves observações sobre alguns trechos do ensaio. Lembro aos amigos SUD que minha intenção não é de atacar suas crenças, mas apenas lidar brevemente com um tema que me interessa enquanto pesquisador de Teologia Histórica. Todas as citações são extraídas do texto em discussão – a tradução livre é minha.

Visões” e “videntes” eram parte das culturas americana e da família nas quais Joseph Smith cresceu. Mergulhados na linguagem da Bíblia e numa mistura das culturas anglo-europeias trazidas por imigrantes à América do Norte, algumas pessoas no início do século XIX acreditavam que era possível que indivíduos dotados “vissem”, ou recebessem manifestações espirituais, por meio de objetos materiais como as pedras videntes.

O jovem Joseph Smith aceitou tais costumes populares de sua época, incluindo a ideia de utilizar pedras videntes para encontrar objetos perdidos ou escondidos. Como a narrativa bíblica mostrava que Deus usava objetos físicos para focar a fé das pessoas ou para comunicar-se espiritualmente nos tempos antigos, Joseph e outros presumiam o mesmo quanto ao seu tempo. Os pais de Joseph, Joseph Smith Sr. e Lucy Mack Smith, afirmavam a imersão da família nessa cultura e seu uso de objetos físicos para esses fins, e os habitantes de Palmyra e Manchester, Nova York, onde os Smith viviam, procuravam Joseph para que ele encontrasse objetos perdidos antes de ele se mudar para a Pensilvânia no final de 1827.1


Não há, aí, nenhuma surpresa para qualquer pessoa que tenha mesmo que um conhecimento apenas superficial da história religiosa de populações rurais menos privilegiadas dos E.U.A. naquela época. Na cultura rural de Nova York, especificamente, manifestações “espiritualistas” se mesclavam ao “carismatismo” marcante dos reavivamentos e dos cultos ao ar livre. Isso não é desconhecido de absolutamente ninguém que estude os movimentos religiosos da época. Só que, por conta dos contextos específicos da cultura dos santos dos últimos dias, parece ter sempre havido uma negação velada disso – especialmente quando se considera que isso era uma das acusações utilizadas por grupos cristãos para invalidar a autenticidade e a “irracionalidade” da narrativa de Joseph Smith sobre suas supostas visões e revelações.

O texto prossegue, agora, de forma apologética:

Para aqueles sem uma compreensão de como as pessoas do século XIX, na região de Joseph, viviam sua religião, pedras videntes podem ser coisas com as quais não estão familiarizados, e estudiosos têm, há muito, debatido esse período da vida dele. Em parte, como resultado do Iluminismo […], muitos nos dias de Joseph vieram a sentir que o uso de objetos físicos, como pedras ou varas, fosse supersticioso e inadequado para fins religiosos.

Nos anos posteriores, enquanto Joseph falava sobre sua notável história, ele enfatizou suas visões e outras experiências espirituais. Alguns de seus antigos companheiros focaram-se em seu antigo uso de pedras videntes, num esforço para destruir sua reputação num mundo que, cada vez mais, rejeitava tais práticas. Em seus esforços proselitistas, Joseph e outros dos membros iniciais escolheram não se focar na influência da cultura popular, já que muitos potenciais conversos estavam experienciando uma transformação em como entendiam a religião na Idade da Razão. […]2


Enquanto, no trecho anterior, é especialmente notório o reconhecimento de que Joseph, de fato, procurava objetos perdidos para outras pessoas utilizando pedras videntes (que, a partir de 1833, seriam chamadas de “Urim e Tumim”). Na cultura “mórmon”, os próprios membros da IJCSUD habituaram-se a desconsiderar esse tipo de acusações por vê-la apenas como ataques de inimigos de sua tradição religiosa. Curiosamente, essa visão é exposta no segundo parágrafo do trecho acima, quando afirma que alguns dos antigos companheiros de Joseph Smith falavam sobre seu anterior uso de pedras videntes “para destruir sua reputação”. Os fieis sempre utilizaram essa explicação para desconsiderar esse aspecto da juventude de seu profeta.

Obviamente, há décadas, se escreve entre os próprios “santos” – sejam os membros da IJCSUD, sediada em Salt Lake City (Utah), ou os membros de outros grupos minoritários do movimento, especialmente da Comunidade de Cristo, sediada em Independence (Missouri) [grupo que, há muito, tem abraçado uma visão historiográfica mais crítica sobre o passado de seu próprio movimento] – sobre esse envolvimento de Joseph Smith com tais práticas. Mas esse tipo de estudo historiográfico sempre esteve distante do “mórmon” comum, mesmo considerando o relativo nível de letramento cultural da maioria dos “santos dos últimos dias”.

Permitam-me, a propósito, explicar brevemente um fato ignorado por muitos “não-mórmons” no Brasil: não há apenas um grupo eclesiástico advindo da “Restauração” liderada por Joseph Smith Jr. Há várias denominações dentro do chamado “Movimento dos Santos dos Últimos Dias” – ao todo, cerca de 80 diferentes grupos. Entretanto, as duas maiores expressões são: [1] A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias – conhecida como a Igreja “Mórmon” pelos não-membros (aquela sobre a qual estou falando aqui e que publicou os artigos em questão) –, sendo, praticamente, o único desses grupos conhecido pelos brasileiros; e [2] a Comunidade de Cristo – conhecida, até 2001, como a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias Reorganizada – que mantém muito pouco em comum, doutrinária e socioculturalmente, com a IJCSUD (no Brasil, a denominação está oficialmente presente apenas no Estado de São Paulo e talvez, por isso, seja tão desconhecida para a maioria dos brasileiros). Esses dois principais grupos representam, em minha opinião, as expressões mais extremadamente opostas na tradição que chamo aqui, inadequadamente, de “mórmon”; tendo sempre se visto, mutuamente, como “apóstatas” da Restauração iniciada pelo – para ambos – profeta Joseph Smith. A Comunidade de Cristo, na maioria dos aspectos, está muito próxima a muitas outras igrejas cristãs liberais (com exceção de sua visão acerca das Escrituras e de revelação), e muito distante da IJCSUD.

Quanto à iniciativa da IJCSUD de discutir sua história – mesmo que de forma ainda limitada e institucionalmente enquadrada –, parece ser uma tentativa raquítica e atrasada dum lado, mas também intelectualmente íntegra, de conciliar o corpo de estudos historiográficos dos últimos 30 anos, produzidos por historiadores de seu próprio meio (muitos dos quais sofreram punições por levantarem questionamentos que contrariavam a doutrina oficial da denominação), com as posições oficiais da mesma. Mesmo que limitadamente, talvez seja um indicador das possíveis direções que os ventos estão soprando no Vale do Lago Salgado.

Há outros pontos interessantes no ensaio, mas os discutirei, talvez, numa outra ocasião.

Vejamos o que mais vem por aí!


Referências:

[1] TURLEY JR., Richard E.; JENSEN, Robin S.; ASHURST-MCGEE, Mark. Joseph the Seer. In: ENSIGN, outubro de 2015. Disponível em: . Acesso em: 4 ago 2015.

[2] Ibid.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O “tiro no pé” do Mormonismo ortodoxo em sua tentativa de silenciar o corajoso John Dehlin: quando discordar respeitosamente torna-se uma declaração de guerra


Gibson da Costa

[…] Os mórmons devem ser tratados como inimigos, e devem ser exterminados ou expulsos do estado, se necessário, para a paz pública – seus ultrajes estão além de qualquer descrição. […]

(Ordem Executiva nº 44, do Governador Lilburn W. Boggs, do Estado de Missouri – 27 de outubro de 1838)


Antes que você se choque com a citação acima nesta página, é bom que eu esclareça que não a incluí aqui por concordar com suas palavras. Se você não tiver ligação com a tradição dos “santos dos últimos dias” (SUD), conhecida popularmente como “mormonismo”, nem dedica-se ao estudo da tradição a partir de seu exterior, possivelmente desconhece a história de perseguição e sofrimento que seus primeiros adeptos sofreram. Não é exagero afirmar que os “mórmons” consistiram o grupo religioso mais brutalmente perseguido na história dos Estados Unidos – o que, de certa forma, ajuda a compreender seu senso de vitimização e exclusão enraizada especialmente na memória das comunidades “mórmons” de Utah e de estados vizinhos, e a cultura de intolerância institucional à não-conformidade doutrinária ou hierárquica n' A Igreja de Jesus Cristo dos Santos do Últimos Dias (AIJCSUD) [sim, o artigo definido feminino singular é parte do nome da denominação, por isso a não contração aqui].

Hoje, a vítima dessa cultura é John Dehlin, um prominente intelectual e blogueiro SUD que ousa defender publicamente posições sobre o tratamento de mulheres, de minorias étnicas e sexuais e de intelectuais, na AIJCSUD, que entram em conflito com as práticas da denominação com relação aos não conformistas em seu seio.

No próximo dia 8 de fevereiro, Dehlin será levado diante dum Conselho Disciplinar de sua igreja para ser julgado por sua “apostasia” (heresia). Seus líderes o julgarão com base em sua auto-apresentação, em sua página na internet, onde afirma:

Tenho um profundo amor pela igreja SUD, por seus membros e por seus ex-membros. Me considero como um mórmon não ortodoxo e não ortopráxico. Acredito em muitas dos ensinamentos morais centrais e não-distintivos do Mormonismo (por exemplo, amor, generosidade, caridade, perdão, fé, esperança), mas ou tenho sérias dúvidas sobre, ou não mais acredito em muitas das reivindicações de verdades fundamentais da igreja SUD (por exemplo, o Deus antropomórfico, “única igreja verdadeira com autoridade exclusiva”, que o atual profeta da igreja SUD recebe comunicações privilegiadas de Deus, que o Livro de Mórmon e o Livro de Abraão são traduções, poligamia, ensinamentos racistas no Livro de Mórmon, que ordenanças são exigências para a salvação, obras em favor dos mortos).
[…]
Creio que muitos líderes da igreja SUD têm boas intenções, mas me perturbo profundamente por seu tratamento histórico e atual das mulheres, de minorias raciais e sexuais, e de cientistas/intelectuais. Perturbo-me também por sua abordagem histórica e atual à fé/dúvida, sexualidade, pela busca de vastos interesses comerciais juntamento com sua não divulgação de seus dados financeiros, coerção/envergonhamento de membros por meio do impedimento de privilégios no templo e no sacerdócio, e a atual mentalidade de adoração à liderança na igreja SUD. Creio que o desencorajamento de críticas a líderes da igreja SUD é, possivelmente, o aspecto mais pernicioso e prejudicial da cultura da igreja SUD – e que a luz do sol e a candura sejam os melhores desinfetantes.

Dedicarei os anos restantes de minha vida a: 1) ajudar a minimizar o dano, e maximizar o bem, nas culturas secular e religiosa, e 2) ajudar aqueles que estão deixando a ortodoxia religiosa a encontrar alegria, sentido e satisfação em suas vidas, famílias e comunidades – seja dentro ou fora duma estrutura eclesiástica formal.
[…]

Esse é o pecado de John Dehlin. Sua grande apostasia e rebelião!

O julgamento perante um Conselho Disciplinar, a propósito, é um procedimento comum a todos aqueles que são acusados de pecados sérios no “mormonismo”, o que inclui o quase imperdoável pecado de questionar a doutrina ou discordar da hierarquia da AIJCSUD. Ocorre sob a presidência do Presidente de Estaca (“Estaca” é o correspondente a uma diocese nas tradições anglicana, luterana ou católica, por exemplo). A punição pode chegar ao máximo de excomunhão – que, na teologia mórmon, significa perda da “exaltação”, caso não haja um arrependimento pleno, e o isolamento social pleno (já que um excomunhado frequentemente é discriminado por seus amigos e familiares SUD – ou seja, como diria uma amiga minha que já passou por isso, “o mal é cortado pela raiz”).

Antes que você questione as motivações de Dehlin, vale a pena saber quem ele é.

Nascido na “mormoníssima” Boise, em Idaho – apesar de criado no Texas –, Dehlin vem duma tradicional família SUD. Após servir como missionário na Guatemala para sua igreja (1988-1990), frequentou a BYU (Universidade Brigham Young), onde se formou em Ciência Política. Depois de formado, trabalhou para várias empresas da área de computação, incluindo a Microsoft, e para a própria AIJCSUD. Trabalhou, ainda, para a Universidade Estadual de Utah e para o MIT, no desenvolvimento e coordenação de programas de educação online.

Na Universidade Estadual de Utah, também fez seu mestrado, pesquisando o desenvolvimento dum tratamento para o TOC baseado na experiência religiosa, com foco na população mórmon de orientação gay que se submetia a tentativas de mudança de orientação sexual. E, hoje, termina seu doutorado em Psicologia Clínica e Aconselhamento, aprofundando sua pesquisa sobre a relação entre religião e saúde mental.

É casado com Margaret – os dois foram ortodoxamente “selados” num templo SUD –, e é pai de três filhas e um filho.

Ele tem sido um personagem central no movimento de levar o “mormonismo” para o universo das discussões online com aqueles mórmons interessados em discutir a história e as ideias da tradição SUD. Seu trabalho tornou-se, desde o início dos anos 2000, um suporte especialmente àqueles SUD que se viam excluídos por não poderem discutir suas dúvidas, nem encontrarem uma rede de apoio dentre seu próprio povo. Participou na organização duma rede de mórmons para apoiarem jovens gays mórmons, que sofrem uma alta incidência de suicídio, especialmente em Utah e estados vizinhos. Tornou-se um bastião de esperança para muitos em sua própria denominação.

Dehlin disse hoje numa entrevista ao The Salt Lake Tribune que se for excomunhado, respeitará a decisão da igreja. Para ele, a igreja tem o direito de decidir quem pode continuar a ser membro.

O que os poderosíssimos líderes mórmons de Utah não se dão conta, entretanto, é que sua já longa perseguição a John Dehlin – baseada numa afirmação feita fora da igreja por um membro que não ocupa posições de liderança na mesma – poderá tornar-se um “tiro no pé” da própria igreja SUD. Imaginem ter de explicar isso ao eleitorado dos Estados Unidos do século XXI, se Mitt Romney se pré candidatar, mais uma vez, a Presidente dos EUA... É aguardar e ver o que acontece!

+Gibson

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Artigos sobre o Casamento Plural entre os "mórmons" no site oficial da Igreja SUD: lendo algumas das entrelinhas


Seus professores provavelmente não discutirão isso em suas aulas de História ou Teologia na universidade; e, se você for um “santo dos últimos dias”, possivelmente se ofenderá com meus comentários aqui. Ofender gratuitamente não é minha intenção, mas, como um pesquisador de Teologia Histórica, não posso evitar fazer breves comentários sobre o assunto aqui.

É bom afirmar desde agora que minha leitura é, obviamente, completamente distinta daquela que seria feita por um santo dos últimos dias que, provavelmente, não questionaria a autoridade e intenções de sua igreja e de sua liderança. Também é importante deixar claro que não sou um inimigo da tradição ou da Igreja SUD, logo, não invisto meu tempo em ataques à fé dos santos dos últimos dias – meus comentários aqui dizem respeito apenas à maneira como a Igreja SUD lida com sua história. A “historiografia” oficial da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias foi e continua a ser problemática, mas o passo tomado pela mesma esta semana toma um (meio)caminho até certo ponto surpreendente em sua abordagem de sua própria história – e é sobre isso que falo aqui.

Como alguém que se ocupa do estudo da história das ideias teológicas nos Estados Unidos do século XIX, tratar de assunto tão controverso quanto o tema do chamado “casamento plural” na tradição dos “santos dos últimos dias” (chamados popularmente de “mórmons”) é uma tarefa complicada. E é complicado por me forçar a, provavelmente, ofender convicções religiosas de alguns amigos membros da Igreja SUD (a sediada em Salt Lake City), para quem a “profecia” é algo factual; e também complicado por correr o risco de confundir um público não familiarizado com o tema, quando associam a crença de grupos como a “Comunidade de Cristo” ou outros “santos” (não tão comuns no Brasil), com as crenças e práticas da Igreja SUD – incluindo a forma como esses, os “santos dos últimos dias”, lidam com sua história.

Nesta última quarta-feira, 22 de outubro de 2014, foram publicados no site oficial da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (que aqui chamo de Igreja SUD), em inglês, três artigos tratando sobre o tema do “casamento plural”. Um introdutório é chamado [1] “Plural Marriage in the Church of Jesus Christ of Latter-day Saints” [Casamento Plural na Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias], o segundo chama-se [2] “Plural Marriage in Kirtland and Nauvoo” [Casamento Plural em Kirtland e Nauvoo], e outro chamado [3] “The Manifesto and the End of Plural Marriage” [O Manifesto e o Fim do Casamento Plural]. Esses têm causado um rebuliço nas discussões sobre o tema desta prática de muitos “mórmons” no século XIX. Esses artigos adicionam informações àquelas já disponibilizadas num artigo mais antigo, chamado [4] “Plural Marriage and Families in Early Utah” [Casamentos e Famílias Plurais nos Primórdios de Utah]. (A numeração é minha e serve apenas para facilitar minha referência a esses documentos mais adiante. Para evitar a repetição de seus títulos os chamarei de “artigo 1” etc.)

Os artigos, em minha opinião, apesar de expressarem um avanço em termos de reconhecimento da prática e de suas implicações sexuais, estão longe de ser uma obra historiográfica desatrelada do interesse em proteger a imagem da igreja SUD nas disputas políticas que se desenvolvem hoje nos Estados Unidos – em grande parte, após as discussões que se levantaram nos meios de comunicação americanos após a candidatura de Mitt Romney à Presidência dos Estados Unidos (e sua possível recandidatura nas próximas eleições). E seria tolice esperar que uma instituição que sempre desempenhou um papel tão autoritário, ao menos em minha opinião, na forma como se lida com sua história – por razões que seriam deveras complicadas para discutir aqui – mudasse sua atitude corporativa agora (e isso – quando olhado de fora, por pessoas que, como eu, se esforçam para ser mais compreensivas – é o desperdício duma grande oportunidade).

A primeira frase do artigo 1 já indica o caminho seguido por seu(s) autor(es):

Os santos dos últimos dias acreditam que o casamento de um homem e uma mulher é a lei permanente de casamento do Senhor.

Uma frase aparentemente tão inocente como esta explicita uma retórica anacrônica sobre um tema tão essencial para a história do movimento dos santos dos últimos dias. A frase aponta para uma preocupação com o presente, e não em esclarecer de forma honesta o passado. A declaração é tanto uma resposta a possíveis acusações desinformadas de que os “mórmons” sejam hoje polígamos, quanto uma afirmação da posição da Igreja SUD quanto à presente questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo (tanto nos Estados Unidos quanto em outros países). Uma afirmação, em minha opinião pessoal, desnecessária ao texto, se o que ele intentasse fosse o esclarecimento do passado da Igreja SUD.

Para qualquer pesquisador sério da história da tradição SUD, será importante observar algumas afirmações feitas nos textos, que corroboram aquilo defendido há muito por historiadores do movimento SUD não ligados à Igreja de Salt Lake City. É importante, por exemplo, a afirmação, no artigo 2, de que

A revelação sobre o casamento plural não foi escrita até 1843, mas seus primeiros versos sugerem que parte dela emergiu do estudo do Antigo Testamento por Joseph Smith em 1831. Pessoas que conheciam Joseph bem afirmaram, mais tarde, que ele recebera a revelação naquela época. […]

Mais adiante, no mesmo artigo 2, afirma-se o já conhecido fato de que Joseph Smith já havia “se casado pluralmente” com outra mulher na década de 1830 (supostamente obedecendo ao que lhe ordenara um anjo), ou seja, antes da revelação de 1843. Essa mulher, Fanny Alger, trabalhava na casa dos Smith durante a época em que moravam em Kirtland. O casamento acabou em separação e, após essa separação, Joseph só voltaria a tratar do tema em Nauvoo, na década seguinte.

O(s) autor(es) parece(m) se esforçar para evitar que a imagem de seu profeta – Joseph Smith – seja manchada de alguma forma e, para isso, recorrem a uma contextualização histórica, mesmo que limitada, das práticas matrimoniais no século XIX. Esse esforço se evidencia, por exemplo, quando se discute, no artigo 2, as práticas do próprio Joseph Smith:

A maioria daquelas seladas a Joseph Smith tinham entre 20 e 40 anos de idade na época de seu selamento a ele. A mais velha, Fanny Young, tinha 56 anos. A mais nova foi Helen Mar Kimball, filha dos amigos de Joseph, Heber C. [Kimball] e Vilate Murray Kimball, que foi selada a Joseph alguns meses antes de completar 15 anos. Casamento numa idade como essa, inapropriado para os padrões de hoje, era legal naquela época, e algumas mulheres se casavam em meados de sua adolescência. Helen Mar Kimball falou de seu selamento a Joseph como sendo “apenas para a eternidade”, sugerindo que o relacionamento não envolvia relações sexuais. Após a morte de Joseph, Helen se casou novamente e tornou-se uma articulada defensora do casamento plural.

Para mim, é marcante como se tenta diminuir o impacto da informação da idade de Helen, optando-se pela expressão “alguns meses antes de completar 15 anos”, em vez de simplesmente dizer que ela tinha 14 anos de idade. Logo em seguida, se contextualiza a questão da idade dos casamentos naquele ambiente de fronteira, ao mesmo tempo em que tenta-se poupar a imagem de Joseph, citando a afirmação de Helen de que seu selamento tivera sido “apenas para a eternidade”.

É importante, talvez, esclarecer aqui alguns dos termos presentes no artigo 2, citando a explicação dada no próprio texto:

Durante a era na qual o casamento plural foi praticado, os santos dos últimos dias distinguiram entre selamentos para o tempo e a eternidade e selamentos apenas para a eternidade. Selamentos para o tempo e para a eternidade incluíam compromissos e relacionamentos durante esta vida, geralmente incluíam a possibilidade de relações sexuais. Selamentos apenas para a eternidade indicavam relacionamentos na próxima vida apenas.

Os artigos trazem, além de várias informações que a Igreja SUD evitou discutir com o público não “mórmon” por tanto tempo (apesar de todas elas já serem conhecidas há muito), questões teológicas importantes, talvez invisíveis aos olhos leigos. Nesses artigos, a instituição e prática subsequente do casamento plural é identificado como fruto de “revelação”. Na tradição SUD, o “Profeta” (=Presidente da Igreja) recebe revelação direta de Deus para guiar a igreja; Joseph Smith foi um profeta e instituiu o casamento plural por meio de revelação. E foi por essa razão que tantos santos dos últimos dias se engajaram com essa prática até seu encerramento definitivo em 1904, ao menos nas comunidades que seguiam a liderança da Primeira Presidência da Igreja SUD. Contudo – voltando aos artigos –, quando os mesmos tratam do Manifesto de 1890, no qual Wilford Woodruff, então Presidente da Igreja (isto é, “Profeta”), se manifesta a favor da obediência às leis que proibiam o casamento plural nos Estados Unidos, o mesmo é identificado como um documento inspirado – não como uma “revelação”.

Obviamente, a escolha cuidadosa dos termos usados nos artigos é uma característica da preocupação tida pela liderança da Igreja SUD com correção doutrinária. Os artigos, mesmo com todo esse cuidado, já são suficientes para causar um debate sobre as contradições entre vários ensinamentos da Igreja SUD em suas primeiras décadas – contradições que são justificadas nos artigos mesmo que não sejam citadas explicitamente. Seja como for, os artigos, apesar de todos os seus problemas e limitações, são interessantíssimos para qualquer um que se interesse pela história da corrente do restauracionismo liderado por Joseph Smith; mas eu diria que são ainda mais interessantes para quem se interessa pelo “mormonismo” de hoje – já que, para mim, eles falam muito mais sobre a Igreja SUD de hoje, e suas preocupações políticas, do que dos antigos santos dos últimos dias.

Provavelmente, retornarei a este tema depois!

+Gibson

POST-SCRIPTUM: A IJCSUD publicou a tradução oficial dos artigos citados em língua portuguesa. Os mesmos encontram-se nos seguintes links:

O Casamento Plural em Kirtland e Nauvoo
O Casamento Plural e as Famílias Polígamas nos Primórdios de Utah

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Uma opção para uma "ex-mórmon" nos EUA: uma resposta a Dayla


[Recebi por meio da caixa de contato uma mensagem de Dayla, uma brasileira residente nos EUA, que compartilhou comigo sua história de abandono da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias – tradição frequentemente chamada de “mormonismo” – e o desafio para encontrar uma nova comunidade de fé. Aqui, tento oferecer uma resposta a algumas de suas colocações.]

Cara Dayla,

Sua experiência se repete nas vidas de inúmeras pessoas, não apenas daquelas saídas da tradição dos santos dos últimos dias, como também de outras tradições cristãs advindas do restauracionismo. Seu desconforto em outras comunidades cristãs – principalmente por lhe tratarem como uma “estranha” – são comuns às experiências de outras pessoas com as quais converso sobre o temo, e são plenamente compreensíveis.

Como compreendo a tradição SUD como sendo mais que apenas uma fé (é também uma cultura própria), para mim é perfeitamente normal que você se sinta desconfortável com a forma como outros cristãos compreendem sua fé, e a maneira como a vivem no mundo exterior à igreja. Especialmente porque você ainda acredita em pontos importantíssimos de sua herança de fé – no Livro de Mórmon, nas profecias atribuídas a Joseph Smith etc –, mesmo que discorde da forma como a Igreja na qual foi educada funcione e discorde de muitas de suas doutrinas.

Suponho que, já que me escreveu, saiba de meu trabalho com o grupo de apoio a “ex-mórmons” aqui. Assim, realmente posso imaginar pelo que você têm passado durante esse tempo. Algo que conta a seu favor é morar onde mora hoje, já que se ainda estivesse em Utah provavelmente sentiria uma dificuldade maior para lidar com seus amigos e conhecidos.

Meu primeiro conselho é simples: não tenha medo, você não está sozinha. Você encontrará – se ainda não o fez – muitas pessoas que atravessaram a dificuldade de romper laços sociais tão fortes em busca de novos rumos em sua vida eclesiástica. Com confiança, você conseguirá sobrepujar esses sentimentos sobre os quais fala. Tenho certeza disso, porque vejo isso se repetir com frequência. Você não está sozinha!

Você enumerou as três opções que encontrou: 1) lidar com suas dúvidas e retornar à Igreja SUD; 2) trair algumas de suas convicções e tentar ser aceita em outra igreja cristã; ou 3) continuar a sentir o que sente estando longe duma comunidade cristã. Essas realmente podem ser opções para você, mas não são as únicas. Você esqueceu que também poderia tentar encontrar outra comunidade na própria tradição restauracionista do movimento dos santos dos últimos dias! Não, não me refiro a encontrar outra ala ou estaca na Igreja SUD; me refiro a tentar encontrar outra denominação na tradição “mórmon”! A Comunidade de Cristo pode ser, talvez, uma opção para você.

Tendo morado em Utah por tanto tempo, você deve ter ao menos ouvido falar na Igreja Reorganizada de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias – a denominação, em 2001, mudou seu nome para “Comunidade de Cristo”. Muitas das convicções liberais que você abraçou ao longo do tempo são parte do que a Comunidade ensina em sua tradição. Ela é, na verdade, a única denominação do movimento dos santos dos últimos dias – não ligada à Salt Lake City – que além de se manter ligada à tradição “mórmon”, professa uma compreensão teológica muito próxima de outras igrejas protestantes liberais ou moderadas. A denominação, inclusive, mantém relações ecumênicas com outras igrejas cristãs membros do National Council of Churches, que você citou. Assim, nela, você encontra um pouco das duas perspectivas.

A Comunidade, que tem uma congregação onde você vive agora, apesar de haver mudado muito nas últimas décadas, ainda está enraizada na tradição restauracionista do movimento dos santos dos últimos dias; assim, o Livro de Mórmon ainda é visto, entre eles, como escritura; Joseph Smith é visto como profeta. Então, ao menos nesse aspecto, você não se sentiria uma “estranha”, encontraria elementos de sua identidade religiosa originária. Isso também pode, entretanto, trazer outros estranhamentos, já que você estaria muito próxima de recordações de sua antiga igreja, ao mesmo tempo em que experienciaria coisas novas. Mas, ainda penso que, em seu caso, é uma opção possível.

Se quiser, posso pedir que a pastora da congregação que existe aí em sua cidade entre em contato com você. Somos amigos e tenho certeza que ela ficaria muito feliz em tirar suas dúvidas e ajudá-la no que for possível, sem exercer nenhum tipo de pressão sobre você. Para tal, me envie um e-mail, e acertaremos como fazer isso.

Bem, Dayla, fique em paz. Agora que você chegou num lugar novo, poderá fazer novos amigos e se sentir mais livre para trilhar seu próprio caminho. Você não está sozinha, é só dar tempo para conhecer outras pessoas em seu novo lar. Mesmo que fisicamente longe, estou aqui para ajudá-la a encontrar outras pessoas por aí. Você estará em meus pensamentos e orações!

Grande abraço!
+Gibson