.

.
Mostrando postagens com marcador unitarismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador unitarismo. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Morte e o que vem depois: uma resposta às questões sobre uma suposta vida pós-mortal

Já escrevi muito que minha fé/espiritualidade se centra neste mundo e, por isso, chamo-a de “materialista”. Com isso quero dizer que a vida – e sua razão de ser – encontra-se neste mundo; ou seja, ter “fé”, em minha compreensão, significa ver-me como parte integrante deste mundo físico, material, concreto: assim, meu viver e agir é no físico/material/concreto, através do físico/material/concreto, pelo físico/material/concreto.

Sei o quanto dizer isso pode soar controverso para religiosos em geral, das mais diferentes tradições. Para muitos, afinal, religião, fé e espiritualidade referem-se ao sobrenatural, àquilo que está fora do mundo: e isso é bem demonstrado naquelas figuras discursivas que criam um conflito entre o que chamam de “material” e o que chamam de “espiritual” – identificando o espiritual como oposto do material.

Para muitos, das mais diferentes tradições religiosas, haveria um domínio invisível, habitado por entidades espirituais. Para essas tradições, apenas o corpo morre, as pessoas possuiriam um espírito – independentemente de ser esse o termo que utilizem ou outro qualquer – que continuaria vivo naquele domínio invisível. E é dessa crença num domínio espiritual invisível que advém a preocupação cristã, por exemplo, com o tema da “salvação”. “Céu” e “inferno” seriam como que duas localidades distintas nessa geografia da dimensão espiritual, e a chegada a um dos dois seria o resultado das coordenadas seguidas pelo andarilho humano – a recompensa ou punição dada pela rota percorrida na vida.

Uma outra versão dessa preocupação com uma existência pós-mortal compreende que o espírito humano passe por um processo de purificação, de aprendizagem ou de expiação através de múltiplas reencarnações, voltando ao mundo material com um outro corpo – ou em alguma variação dessa ideia.

Eu, como já deveriam saber a partir de tudo que falo e escrevo, penso nisso tudo como uma narrativa metafórica. A linguagem metafórica dum domínio invisível, de céu e inferno, de recompensas e punições pós-mortais, entretanto, não faz nada relevante por mim. A metáfora, a lenda, a promessa, que para muitos parece reconfortante, não me torna uma pessoa melhor, não me ensina a viver, nem torna o mundo melhor ou pior para mim – em outras palavras, é indiferente.

Não se trata de acreditar ou desacreditar no mito dum mundo invisível e na continuidade duma vida consciente noutra dimensão. Trata-se, sim, de uma absoluta não preocupação com esse tema, duma completa irrelevância do mesmo para minha fé e práticas espirituais/religiosas. (Espiritualidade, para mim, a propósito, refere-se à maneira como escolho ver, compreender e experienciar a existência, e não a alguma ligação com uma suposta realidade imaterial.)

A verdade é que não sei o que acontece com as pessoas após a morte. Não sei se, além do corpo e suas funções e fenômenos, possuímos uma parte invisível que permanecerá viva após a morte. E não me importo com isso.

A experiência no/do/pelo mundo concreto, aqui e agora, que é o que chamo de experiência espiritual (fé/religião), é graciosa – isto é, é vivificante no sentido mais amplo, porque é o que posso conhecer da existência, a breve e terminal existência concreta. É nesse mundo concreto, aqui e agora, que posso experienciar o todo de tudo, que posso conhecer o Divino e o humano, o sacro e o profano, o eterno e passageiro. É aqui e agora que posso amar alguém. É para o aqui e agora que posso e devo fazer o que deve ser feito. Não num suposto mundo pós-mortal.

Minha fé, assim, toma a brevidade da vida humana – na verdade, a brevidade da vida de todo o Universo, de acordo com cosmologia científica moderna – como elemento indispensável à minha espiritualidade. Como a vida é breve, e como não espero recompensas pós-mortais para como a vivo, vivê-la plenamente se torna o ponto central. Assim, divinizar a vida – trazer o Divino à experiência da vida – torna-se um exercício espiritual. Esse “divinizar” se expressa, na linguagem cristã, por exemplo, na busca pela justiça, pela misericórdia, pela paz, pelo cuidado com o estrangeiro e o mais pobre, pela defesa do mais fraco etc. É isso que quero dizer com uma espiritualidade “materialista”.

Quando penso naquelas pessoas que amava e que morreram, penso em como elas, de alguma forma, impactaram minha vida e de outras pessoas. Não sinto nenhuma necessidade de pensar que estejam numa outra dimensão. Meu conforto está em saber que [1] elas marcaram as vidas de outras pessoas e criaturas, e [2] seus corpos continuarão a ser fonte para a origem de mais vida neste mundo e continuarão a ser parte do ciclo de criação do Universo do qual somos parte. Essa é minha compreensão do que seja uma “vida pós-mortal”.

Essa não é uma compreensão que funciona para todos, mas funciona para mim. É uma compreensão coerente com minha teologia e com minha forma de compreender o mundo. Admiti-la é ser intelectualmente íntegro, e essa integridade intelectual comigo mesmo encontra suas raízes em minha formação religiosa.


+Gibson



quinta-feira, 16 de julho de 2020

Religioso liberal secularista-humanista?


É frequente a reação de espanto quando pessoas de fora de minha tradição religiosa descobrem que sou um ministro religioso. Seu espanto se dá por não entenderem como minha “visão de mundo” se encaixa na ideia de “religião” que têm – e, consequentemente, na ideia resultante do que seria tanto um praticante quanto um “ministro” de religião.

É para essas pessoas que escrevo agora.

Venho duma formação religiosa liberal de persuasão secularista-humanista. Sou um ministro unitarista, e fui religiosamente educado nas culturas do Cristianismo e do Judaísmo liberais. Questionar, duvidar, examinar criticamente e não aceitar explicações sobrenaturais para fenômenos naturais foi parte dessa educação religiosa que recebi. Assim, “religião” ou “fé”, para mim, não possuem o sentido de sobrenaturalidade e dogmatismo que frequentemente recebem no imaginário popular – mesmo entre outros que receberam uma formação acadêmico-científica.

Os termos “secularista” e “humanista”, em seu mais básico sentido, se referem – de acordo com um dos teólogos que mais me influenciaram, e que ficou equivocadamente conhecido como uma das vozes da “teologia da morte de Deus”, Gabriel Vahanian – à noção de que este mundo é o todo da realidade. Em outro aspecto, referem-se, também, àquele velho anseio unitarista de separação entre Igreja/religião e Estado; isto é, de instituições estatais laicas – governo, justiça, escola etc.

Isso significa, dentre tantas outras coisas, que minha fé se centra neste mundo e nas relações que possuo com os seres, coisas, processos e percepções deste mundo. Significa que não busco explicações no sobrenatural para os fenômenos da vida. Significa que não acredito que haja necessidade duma fé religiosa para que vivamos uma vida ética. Significa que não me preocupo com uma suposta existência fora deste mundo – isto é, com uma suposta continuidade da vida após minha morte numa outra dimensão ou neste mundo como outra pessoa. Neste sentido, “secularista” e “humanista” tornam-se, para mim, sinônimos.

Abraçar uma compreensão secularista e humanista, entretanto, não é o mesmo que dizer que sou ateu. Talvez seja mais exato dizer que não sou um “teísta do senso comum” – isto é, não acredito numa deidade antropomorfa sobrenatural que controla o Universo e os destinos de vivos e mortos a partir duma outra dimensão espácio-temporal. Não acredito em seres sobrenaturais que povoem regiões invisíveis do Cosmos, independentemente de como os chamem. E essa [des]crença, a propósito, não foi causada por nenhuma tragédia, decepção ou frustração pessoal: foi-me ensinada por minha própria religião.

Minha não adesão ao que chamei de teísmo do senso comum, entretanto, não é sinônimo de ateísmo (seja do tipo afirmativo ou negativo). Como já afirmei inúmeras vezes, em variadas ocasiões, minha compreensão do Divino é, apenas, diferente daquelas abraçadas pelos cristãos que abraçam uma compreensão dum Deus Pessoal – e todas as consequências teológicas de tal compreensão.

Na verdade, a [des]crença, em si, sequer chega a ser uma preocupação para mim. E isso porque as crenças ou percepções espirituais/religiosas, em minha compreensão, são moldadas por nossas experiências no mundo. Assim, nossos relacionamentos, nossa educação, nossa [i]maturidade, nossas experiências com as coisas mais simples e/ou mais complexas, etc, podem nos oferecer permanentemente novas perspectivas sobre nós mesmos, sobre o mundo e sobre o que nos é desconhecido.

Isto é, não há compreensão que permaneça comigo ou com outros para sempre. Mesmo que imperceptivelmente, estamos sempre alterando as formas como compreendemos certas questões em nossa visão de mundo – e, neste caso, na visão que tenhamos sobre Deus e/ou religião, por exemplo. Assim, a forma como eu, pessoalmente, articulo minha compreensão de minha “espiritualidade” não é permanente ou imutável – e, novamente, por “espiritualidade” não me refiro a uma suposta dimensão sobrenatural da realidade, mas, antes, à maneira como experiencio a existência.

Identificar-me como um religioso de persuasão humanista, ademais, significa dizer que os únicos que podem estabelecer justiça e paz neste mundo somos nós mesmos. Ninguém mais. Os únicos que podem resolver os problemas que criamos no mundo social ou natural somos nós mesmos. Ninguém mais. Violência, guerras, fome, pobreza, poluição e os males que a acompanham, autoritarismo, analfabetismo, desemprego e todos os problemas gerados no meio ambiente pelas ações antrópicas só podem ser resolvidos por nós mesmos. Ninguém mais.

Sim, é verdade que oro/rezo por paz, justiça e pelo bem do mundo. Mas minhas orações são uma metáfora do desejo que deve nos levar ao esforço de transformar o mundo através de nossos próprios esforços coletivos e individuais. É um símbolo da esperança que move minha ação no e pelo mundo, aqui e agora.

Chamo isso de religião/espiritualidade adulta e responsável. É o tipo de religião na qual acredito e o tipo de espiritualidade que me esforço para viver. Religião e espiritualidade, para mim, devem se manifestar numa eticidade intelectualmente íntegra – mesmo que não corresponda ao tipo de mito de “sobrenatural” ao qual outros aderem.

Assim, minha compreensão do Cristianismo pode, sim, ser chamada de secularista e humanista – ética e espiritual, sim, mas também profundamente materialista (ao menos na forma como compreendo este termo).

+Gibson



sexta-feira, 17 de abril de 2020

Ciência e religião: uma breve resposta a Eduardo C., MJB e Solange


Resolvi responder, hoje, às questões levantadas por três leitores que, de alguma forma, se referem à relação entre ciência e religião em minha experiência pessoal. Tentarei ser o mais direto e breve possível para que não fiquem com a impressão – como afirmou um daqueles leitores – de que esteja “tentando escapar das perguntas”.

Para começar, poderia afirmar o óbvio: a ciência e a religião lidam com aspectos distintos da realidade humana. Para mim, isso vai um pouco além: a religião não me serve como resposta para “os mistérios do Universo”, nem, muito menos, como “conforto” para alguma coisa. Entretanto, porque minha religião está profundamente entrelaçada à minha imaginação filosófica, ela se associa ao conhecimento científico que adquiro para moldar minha visão de mundo.

Como um unitarista, a religião, para mim, tem um sentido muito mais materialista do que para pessoas de outras tradições religiosas. Isto é, em minha vida pessoal, a religião tem muito mais a ver com práticas no mundo – com base numa ética religiosa – do que especificamente com crenças sobre um suposto porvir metafísico. Tem a ver com fazer e não com acreditar – especialmente se esse “acreditar” se referir a abraçar ideias inquestionáveis.

Já discuti, aqui, muito a questão de se acredito na existência de Deus. Para responder de forma direta: penso que a própria questão é/foi formulada de forma equivocada. Não acredito na existência de Deus porque existência implica materialidade, fisicalidade; e não acredito numa divindade material, física, nem pessoal. Acredito, sim, na Realidade de Deus – que se refere mais à relação humana com a ideia de Deus do que com Deus propriamente.

Deus, para mim, é uma metáfora. Ser uma metáfora implica na multiplicidade de interpretações, já que metáforas apontam para realidades/aspectos diferentes para pessoas diferentes. Obviamente, a divindade foi retratada pelos hebreus e cristãos do passado como um ser, uma entidade, com características de um soberano que habita um reino em algum lugar no espaço e criou e controla o mundo habitado pelos humanos. Esse é o deus produto da cultura de onde surgiram as tradições jordânicas (judaísmos, cristianismos, islãs, babismos etc). É o deus que criou tudo do nada, que causava os terremotos e as chuvas, que destruía cidades com incêndios etc. É o mesmo deus que se comportava como um humano amoroso e ciumento, perdoador e vingativo.

Eu nasci, cresci, fui educado (inclusive em minha fé religiosa) e vivo num mundo urbano onde existe uma ciência desenvolvida – se comparado ao mundo rural palestino de dois milênios atrás. Naquele mundo, pessoas que nascessem com diabetes, como eu, morreriam. No meu mundo, a insulina foi isolada e passou a ser fabricada em massa na década de 1920. Naquele mundo antigo, as nuvens eram o limite do Universo. No meu mundo, humanos – graças ao conhecimento científico – já começam a explorar outros planetas.

Ou seja, uma pessoa educada na mesma cultura que eu não poderia realmente esperar que eu fosse obrigado a abraçar a visão de mundo – o que inclui a noção de Deus – que as pessoas daquela época abraçavam. Não faria o mínimo sentido.

Assim, a Bíblia – que em minha tradição não é sinônimo de Cristianismo, já que os Cristianismos se baseiam em muito mais do que apenas na Bíblia – não constitui as lentes através das quais enxergo o mundo. Os textos bíblicos, contraditórios e incoerentes como são em sua historicidade, são apenas testemunhos das experiências que os primeiros hebreus e os primeiros cristãos tiveram em sua busca pelo Sagrado. A Bíblia não é um livro de ciência, nem é um oráculo de onde se possa tirar respostas para todas as questões possíveis. É, sim, para mim, um registro da busca pela compreensão daquela metáfora chamada “Deus”, construídos e moldados – tanto o registro quanto a compreensão – pelas culturas nas quais emergiram.

Como não é na Bíblia onde encontro respostas para minhas questões sobre a origem do Universo e da humanidade, essas questões são respondidas pela ciência. Meus estudos nos campos da Física e da Geografia me ajudam a construir questões e a alcançar respostas sobre a realidade objetiva. Meus estudos nos campos das Ciências Sociais, da História e da Filosofia me ajudam a fazer o mesmo quanto à vida social. A Bíblia, lida a partir de minha tradição, me ajuda a construir uma compreensão ética sobre a humanidade e sobre como me relacionar com outros seres humanos e com os demais seres n/deste mundo – além de me ajudar a construir minha compreensão sobre a Divindade (novamente, quando lida a partir de minha tradição e de minhas fontes para a compreensão do mundo). Dela saem os princípios que, lidos a partir de meu lugar sociocultural, moldam minha consciência religiosa.

Sobre a ciência, penso que Marcelo Gleiser consegue explicá-la muito bem quando escreve que “Ciência não é um sistema de crenças, mas um sistema de conhecimento desenvolvido com o objetivo de organizar a realidade à nossa volta” (2006, p. 336). Assim, crença, num sentido dogmático de não poder ser questionada, não tem muito a ver com ciência. Na verdade, sequer tem necessariamente a ver com religião – já que nem todas as tradições religiosas, incluindo o Unitarismo, mantêm-se em torno de dogmas inquestionáveis, sendo até teologicamente muito fluidas (os Judaísmos Reformista e Reconstrucionista, o Quakerismo, além da própria tradição Unitarista, são exemplos dessa fluidez teológica).

Tendo escrito tudo isso, já deve ficar óbvio que aceito as descobertas científicas. Assim, a evolução é a maneira como compreendo a origem humana – enquanto entidade física. Essa compreensão científica em nada contradiz minha fé, já que não abraço uma crença religiosa que se baseie no teísmo sobrenaturalista de algumas formas “ortodoxas” de Judaísmo ou Cristianismo.

Grande abraço a todos!

+Gibson


REFERÊNCIA

GLEISER, Marcelo. A Dança do Universo: dos Mitos de Criação ao Big-Bang. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

A filosofia política liberal e o segundo turno das eleições presidenciais brasileiras


Um amigo me perguntou se eu votaria no candidato à Presidência que se identifica como “liberal” (Jair Bolsonaro). A lógica por trás de sua pergunta era a de que já que eu me identifico como um “liberal democrata” (de persuasão “social”), e como “religioso liberal”, provavelmente votaria num candidato filiado a um partido com “social liberal” no nome e que diz defender uma política econômica “liberal”. Esse é um equívoco nominalista que gostaria de desfazer.

Liberalismo” é um termo complexo. Refere-se a diferentes conceitos, a depender dos contextos nos quais é utilizado. Há “liberalismos políticos” e “liberalismos econômicos” – a variedade teórica é tão grande que não se pode tratar desses como se fossem uma única forma de abordar a política ou a economia (exatamente como ocorre com conceitos como “socialismo” ou “marxismo”).

Politicamente, o liberalismo possui pelo menos duas faces:

A) Como tradição intelectual – enquanto filosofia moral e política –, o liberalismo representa um conjunto de ideias que têm se desenvolvido ao longo da modernidade. Encontra sua fundamentação inicial no pensamento de Locke e Montesquieu, mas se solidifica como uma filosofia específica apenas após a Revolução Francesa. Possui uma interligação histórica com o Unitarismo e com sua teologia, apesar de isso não significar que todos os unitaristas sejam politicamente liberais. Apresenta três princípios consensuais básicos, criticados por perspectivas mais à direita e/ou à esquerda do espectro político:

I. Ética individualista – isto é, o indivíduo como personagem central dos valores e direitos (por exemplo, a liberdade não é apenas um direito do ser humano, é um direito de cada indivíduo);
II. Respeito equitativo por todos os seres humanos, baseado na crença de que todos são igualmente capazes de se autogovernarem;
III. Liberdade de pensamento e expressão, baseada na confiança na autonomia irrestrita da razão (=capacidade racional do indivíduo) como única e suficiente fonte de verdade objetiva.

Esses princípios, obviamente, são criticados dentro da própria tradição liberal, mas têm servido de guia filosófico para o liberalismo enquanto filosofia moral e política.

B) Como ordenamento político-jurídico, o liberalismo têm se desenvolvido – para o bem ou para o mal – ao redor de três princípios gerais:

I. Liberdade equitativa para todos os cidadãos, o que inclui a liberdade de o indivíduo agir como escolher, desde que se sujeite às leis que protegem os direitos iguais dos outros;
II. A proteção da liberdade de pensamento e expressão desse pensamento;
III. A organização desses princípios num sistema jurídico que garanta a igualdade de cada cidadão perante a lei.

Perceberam que não incluí a noção de “democracia” nos princípios acima? E não o fiz porque a participação democrática do cidadão não esteve sempre presente na filosofia política liberal. É por isso que quando identifiquei meu ideário político o chamei de “liberal democrata” – para afirmar que a minha forma de liberalismo é democrática. Essa junção de “democracia” ao “liberalismo” é mais recente, tendo se desenvolvido apenas no século XX. Os antigos teóricos liberais temiam, muitas vezes, que a democracia irrestrita pudesse sabotar tanto os princípios filosóficos liberais quanto o ordenamento jurídico proposto por eles. [Essa preocupação fica mais clara se examinarem a chamada “psicologia das massas” e a “teoria das elites”.]

Há uma questão importante, entretanto, no que concerne aos princípios filosóficos que listei em [A] III – a razão como única e suficiente fonte de verdade objetiva. Filosoficamente, muitos liberais discordarão das implicações epistemológicas dessa afirmação – especialmente aqueles que, como eu, foram/são influenciados por uma perspectiva dita “pós-moderna”. Esses aceitam o princípio da liberdade de pensamento e expressão, mas podem rejeitar a epistemologia objetivista presente naquele princípio.

O que interessa aqui, entretanto, é refletir até que ponto o candidato do partido chamado “Social Liberal” se encaixaria nos princípios filosóficos que listei acima para o liberalismo [A]:

I. Até que ponto alguém que abertamente ataca indivíduos e/ou grupos sociais dos quais discorda – por exemplo, os identificados como LGBT+ ou como “esquerdistas” –, e cujo discurso cria todo um ambiente de ameaça e amedrontamento, exibe respeito pelo princípio de ética individualista (cada indivíduo tem valor e dignidade como ela/ele é ou está)?

II. Consequentemente, até que ponto esse mesmo candidato se ajusta ao princípio de que cada indivíduo, independentemente de quem seja, deva ser respeitado da mesma forma que os demais. Como exemplo: as(os) cidadã(o)s gays, feministas, comunistas, petistas, etc, não devem ser respeitados e honrados da mesma forma como os tradicionalistas, direitistas, cristãos, etc, o são?

III. Até que ponto alguém que apoia a aprovação de leis que restringem, por exemplo, a liberdade de cátedra, a liberdade de expressão de professores, representaria um ideário político liberal?

Eu poderia tratar aqui a respeito de, por exemplo, “ética distributiva para discutir a questão da Previdência Social ou do programa Bolsa Família. Entretanto, não existe um consenso sobre ela no liberalismo como um todo – existe esse consenso, entretanto, na tradição chamada de “liberalismo social” (que ao menos nomeadamente declara ser a tradição do partido do candidato, e é minha tradição política de origem). Por isso, não importa discuti-la aqui, até porque o candidato se apresenta como economicamente liberal – o que, em outras palavras, significa que ele seria um adepto daquilo que é comumente chamado de “neoliberalismo”: ou seja, uma ideologia político-econômica rígida que enfatiza o livre mercado, um estado pequeno e forte, a iniciativa privada e a responsabilidade individual.

Em outras palavras, enquanto adepto da filosofia política liberal, não posso encontrar razões para votar num candidato como Jair Bolsonaro. Vejo, neste Segundo Turno, uma proximidade muito maior com o candidato do PT – apesar das muitas discordâncias no que concerne ao seu partido e ao seu Plano de Governo original.

Respondendo àquele amigo, digo que meu ideário filosófico liberal democrata e minhas perspectivas religiosas me motivam, de todos os lados, a votar e torcer pela derrota dum candidato que, filosoficamente, representa o contrário duma utopia liberal. Mas, obviamente, isso não significa que espero que os meus leitores aceitem minha posição. Só espero, francamente, que se acreditam naqueles valores que representam nossa tradição religiosa, possam refletir antes do voto, e se escolherem o candidato do PSL, exijam seu compromisso com o respeito daqueles valores.

+Gibson


quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Céu, inferno, vida após a morte?


Um dos problemas mais presentes na vida de qualquer ministro religioso e professor de Teologia, como eu, é o problema da morte. Isso porque a morte, mais até do que o nascimento, se faz presente na vida de qualquer família, de qualquer comunidade, e a religião sempre serviu como uma forma de lidar tanto com o mistério como com a dor da morte.

Frequentemente me perguntam se acredito em vida após a morte – se acredito em "céu" e "inferno" –, e alguns dos que me questionam parecem se perturbar ou surpreender com o fato de eu, mesmo sendo um ministro religioso, dizer que o assunto me é indiferente. Hoje, gostaria de responder a alguns questionamentos feitos por um leitor de São Paulo – que, infelizmente, não assinou sua mensagem, mas indicou sua cidade.

Realmente, não me importo com questões referentes a uma suposta vida após a morte (o que inclui temas como “céu” e “inferno”). Minha tradição religiosa tende a se centrar numa ética [judaico]cristã, e não em dogmas teológicos sobre temas específicos. Assim, minha preocupação religiosa é com a vida, com as relações humanas e com a Criação, relações através das quais encontro o Divino (Deus). Meu Cristianismo está focado na prática duma eticidade ensinada nas Escrituras: amor ao próximo – através do qual se demonstra amor a Deus –, serviço, compaixão, perdão, a construção do “shalom” de Deus aqui e agora.

Tendo a encarar “céu” e “inferno” não como realidades objetivas, mas, antes, como metáforas que apontam para esperanças e/ou desesperos humanos. São parte duma linguagem teológica que reflete uma visão de mundo que não se concilia com minha compreensão do Universo. Por isso, são temas que não me interessam – com os quais não gasto meu tempo (a não ser que seja para discutir a história desses conceitos, como se desenvolveram e se tornaram parte do repertório teológico cristão).

O que ocorre após a morte não pode ser conhecido por nós – pode, apenas, ser especulado. E, entre especular sobre algo que não pode ser desvendado e saber como lidar com o conhecível, prefiro este último. Quando nos centramos em reflexões teológicas acerca da vida em sociedade, acerca de como nos relacionarmos com a Criação, sobre como a prática religiosa pode contribuir para construir paz e justiça no mundo agora, isso é saber lidar com o conhecível (aquilo que temos a capacidade de conhecer).

Portanto, se alguma vez eu falei/escrevi sobre “céu” ou “inferno” – o que não me lembro de ter feito até hoje, a não ser em estudos históricos –, o fiz unicamente em linguagem metafórica, simbólica, provocadora, e não como uma realidade objetiva.

Alguém poderia apontar trechos da Bíblia nos quais são feitas referências ao “céu” ou “inferno”. É verdade, estão lá. Mas, para minha tradição, Bíblia e Cristianismo não são sinônimos. A Bíblia é (apenas) uma das fontes teológicas do Cristianismo; além dela, temos a Razão, a Tradição e a Experiência. Quando analiso o tema na Bíblia à luz das demais fontes teológicas, o considero irrelevante.

Além disso, é importante ressaltar que não há, no Novo Testamento cristão, nenhuma visão coerente e amplamente compartilhada em todos os escritos sobre “céu” ou “inferno”. O que podemos encontrar são apenas pequenos fragmentos duma descrição do que seriam esses dois; não há nenhuma passagem longa onde “céu” ou “inferno” sejam descritos de forma clara e dogmática. A visão cristã da vida pós-mortal se desenvolveu a partir do contato entre o judaísmo rabínico, dos escritos canônicos cristãos, e da cultura greco-romana – e é por isso que é mais ampla a preocupação com o tema por parte dos Padres da Igreja do que dos próprios escritos canônicos do Novo Testamento.

Isso explica porque há compreensões tão distintas sobre o que acontece após a morte em cada uma das tradições cristãs do mundo. Cristãos ortodoxos, católicos romanos, luteranos, reformados, anglicanos, unitaristas, universalistas, restauracionistas, pentecostais, etc, abraçam visões diferentes sobre o que acontece após a morte e como. E essa variação de visões tem existido desde a origem do(s) Cristianismo(s).

Por essas e por outras razões, não posso afirmar absolutamente nada sobre uma suposta vida pós-mortal. Pessoalmente, não me preocupo com isso; não é um tema “essencial”. Isso não me torna uma pessoa “sem esperança” ou “perdido”. Para mim, é suficiente crer que a vida dos que morreram, de alguma forma, continua na terra. É nesse sentido que a vida pós-mortal funciona como uma metáfora. Acreditar que irei para o céu ou o inferno não influenciaria em absolutamente nada a minha vida: minha compreensão de Deus, de ética, da teologia cristã, da minha relação com os demais seres humanos e com a Criação, da dignidade e valor humanos é o que guia minhas ações – não uma [des]crença em punição ou recompensa eternas.

Respeito a opinião dos que aceitam esses aspectos especulativos da teologia cristã, mas, para mim, eles não possuem nenhuma relevância para minha relação com o Divino e/ou com o mundo social.

+Gibson

sábado, 23 de setembro de 2017

Minha teontologia – ou, o que acredito sobre “Deus”


+Gibson da Costa


[…] Ele não está longe de cada um de nós, pois nele vivemos, nos movemos e existimos […]” (Atos 17:27b-28a)

“Deus” frequentemente tem sido o assunto sobre o qual me escrevem de forma pouco compassiva. Enquanto, pessoalmente, me preocupo muito mais com o viver aquilo que chamo de “fé”, muitos de meus interlocutores se preocupam muito com declarações de crença que se encaixem em sua ortodoxia – seu conjunto de “crenças corretas” –, por isso, sempre me pedem que “defina” o que acredito sobre Deus, por exemplo.

Uma de minhas mais recorrentes provocações – e a mais atacada por leitores de outras tradições cristãs – é a de dizer que “não acredito em Deus”. Tenho repetidamente explicado que o verbo acreditar é muito limitado, pois coisifica Deus, tornando a Divindade um tipo de entidade pessoal que depende de meu esforço intelectual (a crença) para que seja “real”. Pessoalmente, também rejeito a noção de existência de Deus. Em minha experiência e compreensão, Deus não existe porque a existência é uma qualidade de objetos/entidades físico-espaciais. Prefiro falar em minha confiança em Deus, em vez de falar em crença em Deus – e mesmo “confiança”, assim como o próprio nome “Deus”, apresenta(m) limitações.

Não tenho absolutamente nenhum desejo em criar uma declaração teontológica própria. Minha compreensão sobre o Mistério Eterno é limitadíssima para que eu seja capaz de articular “definições” metafísicas a seu respeito. Deus, para mim, é inqualificável, já que “está” além de minhas limitações cognitivas e linguísticas. Toda e qualquer linguagem que use para referir-me à Divindade é apenas metafórica, simbólica, figurativa. E é assim que o que escrevo abaixo deve ser entendido:

  • Compreendo Deus como uma Unidade Absoluta. Por “Unidade”, refiro-me a um Mistério que está metaforicamente acima de tudo e de todos, para além de toda divisão, de toda compreensão, de toda classificação, de toda nomeação.
  • Compreendo Deus como absolutamente simples, sem nenhuma propriedade – incluindo personalidade, bondade, onipotência etc, – já que propriedades são atributos de seres espácio-temporais.
  • Compreendo Deus como absolutamente para além do tempo e do espaço e, como consequência, para além da própria existência.
  • Compreendo Deus como para além de causas e efeitos.
  • Compreendo Deus como para além de toda compreensão e imaginação humanas.

Assim, se e quando utilizo expressões como “Deus é amor”, “Deus é paz”, por exemplo, as tomo como uma linguagem metafórica, uma figura capaz de ser captada pela imaginação, e não como uma declaração que deva ser compreendida de forma literal.

Não tenho fé num Deus-Pessoa que espelha minhas próprias limitações humanas. Tenho esperança e interesse pelo Divino como “para além” do compreensível ao mesmo tempo em que “se manifesta” no comum. Os termos “para além” e “se manifesta” são a chave aqui: a preposição “para” indica um movimento; o termo “além” aponta para uma não-limitação; e “se manifesta” aponta para uma relação entre o Divino e o humano. Usá-los, ao falar da Divindade, é uma referência à “transcendência” e à “imanência” divinas: respectivamente, a alteridade e a proximidade desse Mistério que chamo de “Deus”.

Não tenho absolutamente nenhuma necessidade de caracterizar esse Mistério como uma entidade antropomorfa – isto é, não preciso acreditar num Deus com características humanas. Compreendo a linguagem tradicional do Deus abraâmico – nas tradições judaicas, cristãs, muçulmanas, babistas etc – como um Deus pessoal apenas como uma metáfora. Usamos essas metáforas porque nossa imaginação é limitada, e não porque a Divindade assim seja – para mim, como disse, a Divindade sequer “é”, já que “ser” é uma característica de seres ou coisas físico-espaciais e, logo, limitadas.

Acredito que mais importante do que me preocupar com definições acerca de Deus é me preocupar com o ser humano. Como Deus está além de minha compreensão, e como, ao mesmo tempo, se manifesta no mundo na face das pessoas que me cercam, é amando-as e servindo-as que posso amar e servir a Deus. E conseguir fazer isso já representa um desafio suficientemente grande para mim!


sábado, 26 de agosto de 2017

Não à "tolerância"!



Você defenderá a justiça e a paz para todas as pessoas, e respeitará a dignidade de cada ser humano?
Sim, com a ajuda de Deus.
(Trecho da Aliança Batismal)


Como bem nos lembram as promessas que reafirmamos quando recitamos a Aliança Batismal, somos religiosamente educados para honrar a dignidade humana. O ser humano, nas tradições jordânicas – os judaísmos, os cristianismos, os islãs, os babismos etc –, é compreendido como tendo sido criado à “imagem de Deus”. Assim, respeitá-lo como uma criação divina e honrar sua dignidade e valor é indissociável das compreensões que nossas tradições têm do Divino.

Essa preocupação com o valor e a dignidade humana é, às vezes, rearticulado através daquela palavra tão repetida: “tolerância”. Assim, frequentemente, fala-se em “tolerar” outras pessoas, “tolerar” os que pensam diferentemente de nós, “tolerar” as outras tradições de fé (religiões), “tolerar”, “tolerar”.

Pessoalmente, tenho um enorme desconforto com a palavra “tolerância” e todos os verbos e adjetivos com os quais se relaciona. Mesmo compreendendo o sentido que muitos entre nós dão a esses termos, “tolerância”, “tolerar” e “tolerante” parecem ser exatamente o contrário do espírito que nossas tradições – e, mais especificamente, os cristianismos – nos convidam a materializar em nossas ações.

Afirmarmo-nos como “tolerantes”, para mim, seria o ápice da arrogância espiritual. Ora, ter “tolerância” por alguém é afirmar que me encontro numa posição mais elevada, mais avantajada do que ela, e que ofereço-a minha “misericórdia”. É dizer que sei mais do que ela e que, por isso, demonstro-lhe minha “piedade” para com seu estado de ignorância.

Isso, certamente, não é o que prometemos quando rezamos em comunidade nossa Aliança Batismal nas liturgias de Batismo e de Confirmação. O que prometemos é enxergar e servir a Deus uns nos outros e em todos os demais seres humanos, independentemente de quem sejam, de onde estejam em sua jornada espiritual e do que tenham feito na vida. E aquela promessa não nos exige “tolerância”: exige respeito, exige reconhecimento, exige apreciação, exige serviço, exige amor – não “tolerância”.

Respeitar, reconhecer, apreciar, servir, amar não equivalem a abandonarmos nossas crenças e princípios, a concordarmos com tudo o que os outros pensam. Equivale, sim, a aceitar que da mesma forma como temos o direito de buscar, de crer, de descrer, de ser, outras pessoas – especialmente aquelas de quem discordamos – também têm. E fazê-lo é reconhecer que nossa compreensão do Divino e de nós mesmos é limitada, e que Deus não é nossa propriedade. Demonstrar “tolerância”, por outro lado, é negar essa limitação à qual todos estamos sujeitos(as).

Não à "tolerância"! Deus nos livre da “tolerância”!

+Gibson


domingo, 22 de janeiro de 2017

Professando minha "fé"


Assim também é a fé: sem as obras, ela está completamente morta. […] Mostre-me a sua fé sem as obras, e eu, com as minhas obras, lhe mostrarei a minha fé.” (Tiago 2:17-18)

Frequentemente, as pessoas demonstram uma enorme preocupação com a “crença” enquanto cerne da fé religiosa. Para eles, a “” consiste numa função intelectual de aceitação duma formulação de crença correta (a “ortodoxia”). Sua “fé” define-se pelas coisas nas quais declaram acreditar – e mesmo que não tenham consciência disso, enfatizam aquele aspecto da fé chamado em latim, na tradição teológica luterana, de “assensus” (que se refere ao ato de assentir, concordar, aprovar). Isso é demonstrável, por exemplo, nas inúmeras vezes que outras pessoas me perguntam no que creio. Elas esperam que eu professe uma lista de declarações fixas sobre diferentes aspectos teológicos, para que, assim, possam avaliar minha “fé” como “ortodoxa” ou “herética”.

Esperar que eu professe uma compreensão intelectual acabada da Realidade de Deus, da dimensão misteriosa ou dum porvir eterno não funciona para minha fé pessoal. Sou um cristão moldado por diferentes tradições cristãs, ordenado ao sacerdócio/ministério de cinco diferentes comunhões cristãs, e minha teologia pessoal é cada vez mais abençoada pela influência de outras tradições – cristãs ou não. Minha relação com amigos de outras tradições religiosas me ensina o quanto temos em comum e me faz compreender a “verdade” religiosa como algo que se encontra além de qualquer função intelectual.

Gosto de pensar que minha fé é multitradicional, isto é, bebe duma catolicidade mais extensa do que os limites de qualquer comunhão denominacional. Assim, meu unitarismo se entrelaça ao meu anglicanismo que aprende com meu luteranismo que se ilumina com meu restauracionismo que se pacifica com meu quakerismo que se integram à minha herança judaica liberal. De todos eles, e de minha herança cultural, emerge minha compreensão do Sagrado – que inclui não apenas Deus, mas também a humanidade e o todo da criação. Assim, o aspecto intelectual de minha fé não pode ser descrito como algo acabado, imutável; minha compreensão de fé, minha teologia, é, antes, um processo, um caminho, uma via.

Acredito em revelação, que “Deus ainda está falando”, como diz o slogan de uma de minhas denominações. Só que isso pode significar algo totalmente diferente do que alguns poderiam pensar. Nunca ouvi, literalmente, a “voz de Deus” – ou seja, nunca ouvi uma voz mensurável falando comigo, vinda do céu. Mas, ainda assim, julgo ouvir a voz divina: a ouço quando me sinto compelido a ouvir alguém que precisa ser ouvida(o); a ouço quando escuto uma música que me inspira ou consola; a ouço quando sou inspirado por alguém a fazer o que certo; a ouço quando alguém me oferece o consolo que eu preciso. Esse tipo de audição é o que chamo de “influência divina” ou “presença do Espírito Santo”. Essa Presença divina é aquela influência que me convida a participar do “Tikkun olam” (a restauração, reparo, cura do mundo), ensinado por minha herança judaica liberal, ou da construção de “Sião” (comunidade de compaixão, solidariedade e honra do valor e dignidade de todas as pessoas), como ensina minha tradição cristã restauracionista.

É isso que prefiro enxergar como minha fé. Menos uma crença, e mais uma esperança que me compele a tornar o aqui e agora no templo para a habitação do Divino. Menos uma lista de declarações sobre o desconhecido, e mais um desafio para tornar toda a minha vida uma manifestação de minha “fé”. E confesso publicamente, aqui, que essa é a coisa mais difícil que se pode tentar – mas é um desafio transformador!

Como um unitarista, é óbvio que me ocupo da intelectualização de minha “fé”. Essa é também, a propósito, parte de minha ocupação no ministério religioso e no ensino teológico. Mas me preocupo muito mais em viver minha “fé” do que em articulá-la intelectualmente. Em minha tradição anglicana, temos uma expressão para isso: “lex orandi lex credendi” – a lei da oração [é] a lei da crença – ou seja, é na oração que expressamos nossa crença; e como nossa própria vida deve ser uma oração, é na forma como vivemos nossas vidas que expressamos nossa crença teológica (como bem afirma o autor da Carta de Tiago).

+Gibson

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Sola caritas e o dom de comunidade


O dom da comunidade consiste na absolvição que recebemos pelo pecado de fingir que somos completos sozinhos. Esse fingimento de “autocompletude” é um peso que nossa cultura nos impõe; um fingimento que limita nossa humanidade plena, fazendo-nos tolamente crer que possamos ser plenamente humanos sozinhos.

Na verdade, não podemos.

A plenitude de nossas existências só pode ser realmente realizada quando partilhamos o peso de nossa humanidade com outras pessoas. Esse é o dom e a benção da comunidade. Na linguagem cristã, é o dom e a benção de sermos “igreja” – uma comunidade que se engaja no amor e serviço mútuo, entre seus membros e, consequentemente – e eu diria, metaforicamente –, entre esses e Deus.

Frequentemente me lembro das inúmeras vezes em que esse dom se manifestou de forma explícita em minha vida. Das vezes em que, como forasteiro, fui recebido por comunidades que me ofereceram um lar, tanto físico quanto espiritual. Das vezes em que, como ofensor, fui perdoado pela compaixão ofertada por aqueles que formam e complementam minha humanidade, e que, como eu, embarcam num caminho de descoberta e oferecimento da Presença divina.

Não poderia ter iniciado minha formação humana sem comunidade. Primeiro, minha comunidade familiar. Depois, todas as outras que se juntaram a ela em minha formação como humano: a comunidade de fé, a comunidade de amigos, a comunidade profissional etc. Todas elas sempre foram e sempre serão cúmplices do Mistério na criação inacabada de minha humanidade. Criação que, segundo a tradição cristã, se completa apenas quando “retornamos” àquela Presença que chamamos de Deus – ou seja, quando nos juntamos em comunidade ao Divino, apesar de raramente ser essa a linguagem utilizada para se referir a esse processo “soteriológico”.

Não podemos ser humanos plenos sem comunidade. Mas também não podemos ser cristãos plenos sem comunidade. E isso porque a raiz de ser “cristão” está na ação de ser a materialização da Presença Divina – isto é, ser cristão é ser a face de Deus para os outros humanos e para o resto da Criação, e é ver a face de Deus em todos eles. O autor da carta de Paulo aos romanos, por exemplo, diz:

Abençoem os que perseguem vocês; abençoem e não amaldiçoem. Alegrem-se com os que se alegram, e chorem com os que choram. Vivam em harmonia uns com os outros. Não se deixem levar pela mania de grandeza, mas se afeiçoem às coisas modestas. Não se considerem sábios. Não paguem a ninguém o mal com o mal; a preocupação de vocês seja fazer o bem a todos os homens. Se for possível, no que depende de vocês, vivam em paz com todos. […] Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem.” (Romanos 12:14-18, 21)

São nossas ações, mais do que nossas declarações de crença, que representam nossa fé – para nós mesmos, para nosso próximo, e para Deus.

Comunidade, amor, serviço. Se pudesse redigir uma declaração de minha fé, essas seriam as palavras. Elas não representam o que sou, mas o que tenho recebido de outros e o que almejo praticar em minha vida.

Sola caritas. Só o amor salva. E o amor só pode ser alcançado em comunidade.

+Gibson


quinta-feira, 16 de junho de 2016

Cristianismo e violência homofóbica: respondendo a algumas provocações



“… se aperfeiçoem na prática da hospitalidade.” (Romanos 12:13)


Serei duro em minha resposta a algumas provocações que tenho recebido. Em hipótese nenhuma é minha intenção ferir qualquer um de meus leitores ou leitoras. Mas, a honestidade, às vezes, exige um tanto de rigidez.

Sim, é verdade que há muita falta de compaixão por parte de algumas igrejas e alguns fiéis cristãos para com diferentes grupos ou indivíduos que não se encaixem em suas expectativas. Essa falta de compaixão é, em minha compreensão teológica, pecaminosa, já que trai o espírito da mensagem do Evangelho.

Sim, é verdade que muitos indivíduos LGBT se sentem excluídos da comunidade cristã por conta da falta de compaixão de alguns que se declaram cristãos. Isso, para mim, é triste e inaceitável. Não acredito que pessoas tenham de mudar sua personalidade para sentirem-se respeitadas e protegidas enquanto seres humanos. Isso é algo que elas merecem pelo simples fato de serem humanas e de, na tradicional linguagem cristã, serem filhos e filhas de Deus.

Crer nisso, proclamar isso e viver isso, entretanto, não significa dizer que comunidades de fé (igrejas) não possam fazer exigências comportamentais de seus adeptos. Elas têm esse direito. A vida em comunidade só é possível sob acordos entre seus membros e, no caso de comunidades de fé, esses acordos baseiam-se sobre uma tradição teológica comum – partilhada se não por todos, pelo menos pela maioria.

Quando uma comunidade de fé, de qualquer tradição, acredita e ensina uma certa compreensão da sexualidade humana e das relações maritais que declare práticas homoafetivas como “pecaminosas”, ela não está, com base apenas nisso, sendo “homofóbica” ou cúmplice de “homofobia”. Está, apenas, vivendo suas próprias regras.

Em minha compreensão – e todos vocês sabem a partir de que posição falo nesse conflito –, e na compreensão da lei, a vida religiosa baseia-se, dentre tantas outras coisas, na voluntariedade. Em outras palavras, você só faz parte duma comunidade de fé à qual você queira se juntar. E essa – seja lá qual for – só recebe aqueles a quem queira receber. Uma igreja não é uma loja que venda “Deus” ou a “salvação – ou, pelo menos, não deveria ser –, é, antes, uma comunidade de fiéis.

Assim, mesmo eu sendo quem sou, e mesmo eu crendo no que creio no tocante ao valor e à dignidade humanos, não posso aceitar acusações generalizantes e falsas acerca de pessoas que não pensam como eu. Apesar de, para mim e para minha tradição de fé, a homossexualidade não ser um “pecado”, como o ensinam tantos outros cristãos, dizer que seja e exigir um comportamento “moral” que se afaste de “desejos e práticas homossexuais” não é sinônimo de “homofobia” – é, no máximo, sinônimo de ignorância e preconceito; mas se vamos falar sobre “ignorância” e “preconceito”, também deveremos falar sobre esses dois elementos na visão, declarações e comportamentos de certos ativistas.

Não é verdade que “todas as igrejas cristãs condenam a população LGBT ao inferno”. Na verdade, nem todas as igrejas cristãs pregam sobre o mito do “inferno” – algumas estão ocupadas demais pregando as boas novas de Jesus para se preocuparem com “o diabo”. Para nós, Deus é suficiente; não precisamos do diabo ou do inferno para nos preocuparmos com o serviço ao próximo e com a construção do Reino de Deus aqui e agora.

Sim, é verdade que as igrejas e movimentos mais belicosos no tocante a temas “delicados” como esse são as que têm maior audiência nos meios de comunicação. São elas que aparecem nos noticiários, que têm programas de TV, que vendem revistas nas bancas, e que elegem os tipos de legisladores de certas “bancadas” do Congresso. Elas, contudo, não são “o Cristianismo” – elas são uma parte apenas (a mais poderosa no Brasil atual, mas apenas uma parte).

O Cristianismo é multiforme e polifônico, assim, é injusto acusar-nos todos como coparticipantes duma visão teológica específica. Fazê-lo é não apenas reflexo de desinformação deliberada: é uma desonestidade imoral.

Aos que acreditam na retórica da não compaixão absoluta da Igreja cristã para com qualquer tipo de pessoa, convido-os a procurar com mais cuidado e atenção. Se de fato quiserem ser parte duma comunidade de fé onde possam se sentir bem-vindos, tenho certeza que encontrarão esse lugar. Só não se esqueçam de que da mesma forma como querem ser livres e ser respeitados, outras pessoas que, talvez, pensam de forma diferente da sua também o querem. É uma via de mão dupla! É o preço de construir comunidade!

Se precisar de ajuda em sua busca, ficarei feliz em ajudá-lo(a)!

Sinceramente,

Rev. Gibson da Costa

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Minha resposta ao “Unitarista Mineiro”


Caro “Unitarista Mineiro”,

Li o que você escreveu e confesso que não sabia exatamente por onde começar. Decidi, então, iniciar minhas observações por definições simples – como se deveria fazer em qualquer debate de ideias.

É importantíssimo deixar claro que a razão para a sua suposta “confusão”, em minha opinião, é possuirmos um background religioso/intelectual/sociocultural bem diferente – o que faz com que mesmo que utilizemos os mesmos termos, atribuamo-lhes sentidos muito distintos.

Você me acusa, por exemplo, de rejeitar “a verdade” sobre Deus, citando alguns textos publicados aqui e em um de meus livros. Mas o que lhe pergunto é: você realmente leu minhas perspectivas sobre “verdade” e sobre “Deus”? Os argumentos que você utiliza como apoio às suas observações sugerem que você não tenha lido atentamente aqueles textos – parece, na verdade, ter apenas lido alguns comentários feitos por outros acerca do que eu supostamente penso (comentários esses que se tornaram comuns em alguns meios ditos “evangélicos”). Para mim, seria muito mais interessante dialogar sobre o que escrevi com alguém que tenha, de fato, lido o que escrevi.

Muitas vezes não escrevo de forma tão direta ou objetiva quanto alguns querem pelo simples fato de Deus e fé, por exemplo, não serem temas objetivos, quantificáveis, metrificáveis. Não acredito num Deus que possa ser pesado, metrificado, analisado sob as lentes dum microscópio, já que Deus não é – em minha experiência e compreensão – um objeto! Se uso uma linguagem provocadora é porque, no meu meio religioso e sociocultural, essa é mais compreensível – além de a mesma ser uma marca de minha personalidade. Por isso posso dizer que “não posso acreditar em Deus” – porque a maioria de meus leitores, provavelmente, compreendem minha escolha da metáfora como instrumento para falar sobre certos conceitos teológicos. Quando digo isso, eles entendem que estou fazendo uma crítica ao uso de certos conceitos acerca de Deus com os quais não concordo plenamente.

Sua tática de atacar minha vida pessoal é a menos merecedora de comentários, mas a comentarei assim mesmo. Não o conheço pessoalmente, o que implica que você também não me conhece pessoalmente – se alguma vez, mesmo que improvavelmente, tenhamos estado fisicamente no mesmo local, isso não significaria que você me conheça. Posso citar exatamente as fontes de seus comentários, onde estão e quem os fez originalmente (pessoas, a propósito, que também não me conhecem e que encontraram em teorias da conspiração uma forma infeliz de lidar com a pluralidade religiosa no mundo!).

O joguete de deslegitimar a opinião dum “oponente” com base em acusações contra sua vida pessoal – em meu caso explícito, com base em minha vida eclesiástica – é tão antigo quanto imoral. Foi usado no meio político romano; foi usado nos primórdios da Igreja cristã; foi usado ao longo das eras; e é, infelizmente, ainda usado em nossas sociedades ditas pós-modernas. Meu apelo é à civilidade: se você discorda de minhas ideias ou das ideias teológicas que defendo, ataque-as e não a mim – é isso que faço e que continuarei a fazer, se discordo de algo ou de alguém (deixo os ataques pessoais para as crianças que ainda estão aprendendo a viver em sociedade, e para aqueles que não se esforçam em percorrer a trilha da compaixão).

Sua mensagem é tão incoerente em termos conceituais que não consegui entender se você tenta se identificar como um “unitarista bíblico” ou como um “unitário-universalista”. Esses dois conceitos são contraditórios, mas você defende a ambos simultaneamente! Eu, pessoalmente, não me identifico como nenhum dos dois! Sou, eclesiasticamente, um unitarista – o que identifico, em minha experiência de fé e prática, como um “cristão liberal” herdeiro da tradição unitarista anglófona. Não tenho o mínimo interesse em definir o que isso seja para qualquer outra pessoa – seja membro de minha própria comunidade de fé, seja para alguém de fora. Assim, se você se diz um “unitarista”, mesmo que seu discurso esteja muito alheio à minha tradição e mesmo que você se mostre desinformado quanto à mesma, esse é seu direito – o que eu teria a ver com isso?… Mas, se você escreve para um Ministro de uma igreja unitarista, tentando ensinar-lhe sobre a tradição que você aparentemente desconhece, então você tem de estar preparado para uma resposta que talvez não lhe agrade muito!

Nunca menti sobre [ou omiti] minha história eclesiástica aos meus leitores (nem, muito menos, aos meus paroquianos!). Sempre deixei claro que tenho uma múltipla herança religiosa, já que venho de família multirreligiosa. Sou um unitarista-anglicano, com ligações também às tradições luterana, congregacional, restauracionista e quaker. Além de herdeiro do Judaísmo Reconstrucionista.

É óbvio que alguém com minha experiência religiosa e minha formação teológica não poderia pensar como você pensa acerca da Divindade. Em nenhuma das tradições que me formaram como ser religioso há o predomínio duma visão de Deus, da Bíblia, de Jesus como a que você afirma ser “a verdadeira”. Logo, eu estou sendo “verdadeiro” e “honesto” para com minha própria tradição de fé – que é, em si mesma, polifônica.

Não direi a você no que deve acreditar. Direi, sim, no que acredito eu. Acredito e confio na Realidade de Deus. Sobre essa Realidade, é dito nas Escrituras que é amor. Quando enfatizo essa definição de Deus, alguns insistem que com isso queira dizer que não há “certo” ou “errado”: estão errados – quando digo isso, apenas enfatizo minha compreensão das Escrituras e tradições judaico-cristãs que apontam Deus como cerne da compaixão capaz de nos tornar “humanos”, como “elemento” indispensável na construção das relações entre os seres humanos (os “filhos/as de Deus”). Meus leitores e ouvintes, incluindo você, podem construir suas próprias interpretações de minhas palavras para si, mas – com todo respeito – não podem querer dizer a mim o que minhas palavras devam significar!

Apesar de nossas discordâncias, continuarei a mantê-lo em minhas orações e, humildemente, peço o mesmo de você.

Respeitosamente,

Rev. Gibson da Costa

sábado, 9 de abril de 2016

Esta manhã, bebi água de coco com Deus


Mais uma vez, me perguntam se creio em Deus. Mais uma vez, lhes digo que não sei o que querem dizer. O que significa dizer “Creio em Deus”? Quando alguém diz que crê em Deus, não me diz nada sobre a Realidade Divina, me diz apenas sobre si próprio(a). Ele(a) me diz sobre o que faz, e não sobre a Realidade na qual “crê”.

Ultimamente têm me perguntado em que “Deus” creio: se meu “Deus” era o mesmo da Bíblia; se o meu “Deus” era o mesmo de Joseph Smith; se o meu “Deus” era o mesmo do Corão; ou se era ateu. A verdade é que alguns leitores parecem ter uma obsessão com minha “falta de claridade em definir” minha crença. E eu que sempre imaginei que o que escrevo aqui e que a forma como discuto minha fé – aqui, no púlpito ou em outros espaços – fossem suficientemente claros ou, pelo menos, sugestivos de minha visão teológica (e teontológica)!

Como já escrevi inúmeras vezes, a forma como encaramos questões sobre aquilo que chamo de “aspecto misterioso” da realidade é condicionada pela forma como compreendemos o resto da realidade. Se alguém se preocupa tanto em querer uma definição objetiva sobre quem ou o quê seja o Divino, ao menos em minha visão, é porque tem uma compreensão de “verdade” diferente daquela que abraço.

Para que eu fosse capaz de definir Deus nos termos utilizados por alguns daqueles que me fazem aquele tipo de pergunta, teria de compreender a Divindade como uma entidade objetiva, mensurável, antropomorfa. Essa, entretanto, não é a forma como compreendo “Deus”; é a forma como compreendo você e eu, mas não a Divindade. Logo, aquela pergunta não faz sentido pleno para mim.

Mas se querem tanto saber quem é Deus, para mim, posso lhes garantir que somos relativamente próximos. Na verdade, nos sentamos esta manhã à bancada dum quiosque no calçadão da praia e tomamos uma água de coco gelada, enquanto falávamos sobre sua vida. Como ele estava cansado, ofereci-me para acompanhá-lo até seu edifício, dois quarteirões dali. Ele está, afinal, com quase oitenta anos!... Naquele momento, Deus era, para mim, um homem idoso que me contou suas memórias sobre a exploração imobiliária em seu bairro, e sobre como sua vida estava após a morte de sua esposa (com quem fora casado por cinquenta anos). Conversar com aquele homem foi sentir Aquela Presença que chamo de Deus.

Essa é uma das formas como compreendo “Deus”. Minha fé exige que eu enxergue o Divino em outras pessoas, e que aja para com elas como se elas fossem o “próprio Deus” – algo que parece bem mais difícil do que “acreditar” numa ideia específica do que ou quem seja Deus.

Como a metáfora bíblica do homem ter sido criado “à imagem e semelhança” de Deus é essencial para minha compreensão teológica, amar o ser humano é amar a Deus, e ser violento para com o ser humano é negar o próprio Divino. Assim, para mim, nossa fé em Deus define-se, na verdade, através da forma como nos relacionamos com “sua imagem e semelhança” entre nós: o que inclui as outras pessoas e nós mesmos, além do resto da Criação.

Há variadas formas de compreender o Divino, e todas elas podem ser úteis em diferentes contextos. Mas, na maioria das vezes, Divindade, Presença e Realidade são minhas metáforas favoritas para falar acerca de [daquela outra metáfora] “Deus”.

+Gibson

sábado, 30 de janeiro de 2016

Somos inimigos por discordarmos em nossas crenças?




[*Correção da tradução: “Apenas um estranho no ônibus, tentando fazer seu caminho de casa” → “...tentando voltar para casa”.]


Sempre serei grato por duas pequenas [grandes] coisas que me foram ensinadas desde cedo: 1) que podemos pensar/acreditar de forma diferente de outras pessoas – essa é uma liberdade concedida por Deus e pela Declaração Universal dos Direitos Humanos; 2) que ninguém é meu inimigo simplesmente por discordar de minhas posições/crenças, e vice-versa.

Sendo quem sou, é difícil não olhar para o mundo ao meu redor sem me lembrar dos chamados “conflitos religiosos” que têm marcado a história humana. As aspas (“ ”), a propósito, indicam minha discordância com a adjetivação daqueles tipos de conflito que tão prontamente indicam como “religiosos”: isso porque chamá-los de “religiosos” implica num reconhecimento, mesmo que involuntário, ou de que a “religião” (que muitos interpretam como sendo uma “religação” ou “retorno” ao Divino) seja um fenômeno fundamentalmente violento, ou de que a violência possa ser legitimamente designada como “religiosa” (ou seja, que possamos nos relacionar com o Divino por meio da violência) – eu, obviamente, rejeito as duas premissas.

Observando o que tem ocorrido ao meu redor, não posso deixar de perceber o quão difícil é ver aqueles dois princípios que me foram ensinados sendo aplicados no mundo, e o quão difícil é manter a lealdade a eles. Isso porque hoje, mais do que em qualquer outra época em minha relativamente curta vida, pensar/crer diferentemente de outros parece ser encarado como uma ameaça beligerante – seja em termos de fé religiosa, em termos de política ou de qualquer outra coisa.

Pessoalmente, aprecio muito a diversidade do [e no] mundo. Prefiro uma realidade multicolor à bicoloridade que alguns impõem ao mundo. Tudo é muito mais “belo” por haver cores, formas, sons, aromas, crenças diferentes. A vida espiritual é muito mais rica por haver milhares de formas diferentes de compreender a relação entre o “objetivo” e o “misterioso”, entre a “Criação” e o “Criador”. Mesmo o Cristianismo é muito mais belo, e muito mais vivo, justamente por haver centenas de formas distintas de compreendê-lo e de praticá-lo.

Quando olho para essa diversidade e me reconheço como um dos elementos para as diferenças de tonalidade, não posso ver outras pessoas como minhas inimigas – por mais que discorde de suas crenças e, intelectualmente, as critique. Como eu, no que tange à experiência “religiosa”, elas são viajantes numa trilha de descoberta do Divino. Elas mesmas podem não interpretar suas e minhas experiências dessa forma, mas, ao menos em nossa experiência de busca, compartilhamos semelhanças.

Pessoalmente, acredito em revelação divina. Acredito que aquela Realidade que chamo de Deus se revela ao ser humano de inúmeras formas. A maioria dos cristãos, talvez, diria que Deus se revela por meio das Escrituras (a Bíblia). Eu também acredito nisso. Mas, para mim, Deus se revela também por meio de nossas relações com as outras pessoas; por meio da comunidade de fé; por meio da natureza; por meio da oração; por meio do trabalho; por meio da arte e do entretenimento; por meio da ciência e do conhecimento intelectual; enfim, por meio da história humana.


Deus está sempre falando. Nós, talvez, é que não ouvimos. Deus fala, algumas vezes, inclusive por meio das vozes daqueles de quem discordamos. Por isso, não posso vê-los como meus inimigos.

+Gibson

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Uma resposta a Anderson



Acidentalmente, deletei um comentário em vez de publicá-lo. Seu autor – se for uma pessoa real, já que tanto seu perfil quanto comentários me parecem surreais – leu uma das referências que apontei em minha última publicação, e escreveu um comentário. Republico seu comentário abaixo (já que uma cópia foi enviada ao meu e-mail):

Bom com exceção de Jesus ter sido criado (o verbo certo é Gerar, como gerar um filho) e eu acredito que ele foi Gerado antes de tudo e de todas as coisas como ele mesmo disse eu sou o princípio e o fim o primeiro e último o alfa e omega, mas ainda assim ele não existia antes de o pai ter dado vida a ele, e depois eu não acredito em Céu e Inferno Romano mais sim na Eternidade da nova Jerusalém e da Eternidade no fogo do Lago das trevas AP 20:15 diz exatamente claramente a punição daqueles que negaram a salvação por Jesus pois o salário do pecado é a morte Rm 6:23 e a morte é estar longe de Deus que nesse caso será no lago do infern o ou vocês acham que se Deus é Justo não vai julgar aqueles que cuspiram na cara de Jesus e mataram os mártires e morreram blasfemando contra a Deus, cada um receberá o fogo conforme o seu pecado, pois o inferno foi destinado aos anjos caídos e não aos homens que vão entrar la de incheridos mesmo, portanto Deus é amor mas é também um fogo consumidor e Deus é justo e sua justiça não é compreensiva para nós, se há regeneração pós Inferno o único que tem direito de fazer isso é o próprio Deus e não a pessoa que perdeu seu direito de Salvação ou do contrario Jesus não precisaria morrer na Cruz e existira purgatório ao invés de condenação.
Sou Unitário e não pertenço a Eclesiologia Unitária mas a uma Igreja livre de Doutrinas pós-bíblica ou heresias.">>

Autor: Anderson https://www.blogger.com/profile/13898657024110626494



Respondendo a algumas de suas colocações:

Não sou um "Unitário", sou um "Unitarista".

Sua cristologia – isto é, a maneira como você compreende quem é Jesus Cristo ou sua "natureza" – é chamada de ariana; eu não sou um ariano. A maneira como você compreende a Bíblia é também muito diferente da forma como eu a compreendo.

Você diz que pertence a uma igreja livre de doutrinas pós-bíblicas ou de heresias. Há dois grandes problemas em sua afirmação:

1) Seu comentário adveio de sua leitura do “Manual de Crença Unitarista”, publicado em 1884, por James Freeman Clarke, um ministro unitarista americano; o texto é bem “bíblico”, isto é, os argumentos do autor são recheados de citações bíblicas. Não se trata de um texto que proclame uma teologia pós-bíblica. Até porque esse termo começou a ser utilizado após a década de 1960, apontando para a teologia pós-moderna – James Freeman Clarke escreveu quase um século antes, e seus argumentos estão longe de ser “pós-bíblicos”. Ou seja, você não contextualizou o texto; simplesmente transferiu os comentários apologéticos de certos grupos cristãos de hoje para algo escrito há mais de um século atrás.

2) A maioria esmagadora dos cristãos do mundo leria suas afirmações acima como heréticas – mas faria o mesmo com as minhas também. Assim, dizer que sua igreja é livre de heresias é uma questão deveras relativa – depende de quem está olhando para a questão, e a partir de qual perspectiva (?). Sua afirmação soa, no mínimo, nem um pouco humilde – e humildade me parece ser um princípio bíblico!

Para finalizar, não vejo minha fé como uma questão de disputa sobre quem é mais cristão ou quem está mais próximo de Deus etc – como se isso pudesse ser medido, e como se nós pudéssemos receber uma estrelinha colorida na testa por estarmos no caminho que achamos ser certo. Para mim, Deus não é uma exclusividade dos cristãos; muito pelo contrário, a própria Bíblia aponta para um Deus que ultrapassa nossa compreensão, ao mesmo tempo em que, em alguns momentos, fala de um Deus vingativo e ciumento – logo, é uma questão de escolher qual daquelas mensagens são mais importantes para nós. Eu fiz minha escolha há muito tempo.

Quanto aos outros cristãos e, na verdade, a todas as outras tradições de fé, eu os respeito, os amo, e não acredito estar numa situação espiritual supostamente melhor ou pior que da de nenhum deles. Acredito que tanto a Bíblia quanto a tradição cristã nos ensinam que não devamos julgar ao próximo. Mas tenho certeza que você já conhece essas passagens!

Grande abraço!

+Gibson

domingo, 5 de julho de 2015

Unitaristas, Bíblia e Doutrinas: Resposta a João Pedro


Caro João Pedro,

Obrigado pelo seu e-mail. Desde já desculpo-me por haver demorado em respondê-lo. Você me fez muitas perguntas interessantes, e, aqui, tentarei respondê-las de forma breve, considerando que você pode encontrar – ao longo deste blog – respostas para todas essas suas questões em postagens mais antigas.

Em um trecho de sua mensagem, você escreveu:

- Bom, o unitarismo vê a Bíblia de forma bem diferente da qual fui ensinado, eu queria saber da visão que você tem sobre a Bíblia, das passagens que costuma-se relacionar com assuntos que a tua opinião diverge como, por exemplo, a conversa de Cristo na cruz com os outros dois condenados. Aproveito para perguntar a tua opinião e a visão unitarista sobre demônios, e se possível exemplificar a pergunta anterior sobre o uso da Bíblia com esse assunto.
"Marcos, 5:12 - Rogaram-lhe, pois, os demônios, dizendo: Manda-nos para aqueles porcos, para que entremos neles.
Marcos, 5:13 - E ele lho permitiu. Saindo, então, os espíritos imundos, entraram nos porcos; e precipitou-se a manada, que era de uns dois mil, pelo despenhadeiro no mar, onde todos se afogaram."
- Quanto a crença de o encontro com Deus, após a morte, ser universal, como o unitarismo lida com esta situação de "salvação" como os evangélicos dizem?
- Onde está a base no unitarismo levando em conta que, por exemplo, a base do catolicismo está na Bíblia?

Para respondê-lo, permita-me organizar minha resposta em tópicos numerados, seguindo a ordem que você mesmo utilizou.

1) BÍBLIA:

De fato, o Cristianismo Unitarista – mas também as outras tradições cristãs que me formaram conjuntamente, como a ala liberal do Episcopalismo/Anglicanismo, por exemplo – compreende a Bíblia de formas bem diversas daquelas associadas à tradição na qual você cresceu (a tradição teológica da Assembleia de Deus). Para a maioria de nós, a Bíblia é uma coleção de textos que se tornaram sagrados a partir de um processo de canonização – essa compreensão é também partilhada, por exemplo, pelas tradições católicas, reformadas, luteranas, e anglicanas. Nos textos bíblicos podemos encontrar a “Palavra de Deus” não porque, em sua origem, eles sejam divinos, mas porque aqueles textos apontam para a experiência que outros seres humanos como nós tiveram com o Divino. Assim, talvez seja seguro afirmar que não buscamos 100% de compatibilidade entre o que dizem os textos bíblicos e aquilo que entendemos hoje sobre a realidade física ou espiritual – buscamos, sim, “pistas” que nos apontem para aquele Mistério que chamamos de “Deus”.

Pessoalmente, não leio os textos bíblicos isolados uns dos outros, nem isolados das tradições das quais emergiram (a israelita, a dos primeiros seguidores de Jesus, e a da tradição da Igreja cristã). É por isso que, para mim – mas também para a maioria daqueles que compartilham comigo minha tradição de fé –, uma leitura histórico-metafórica das Escrituras é indispensável. Assim, para ler aqueles textos aos quais você se refere, não consigo desassociá-los dos contextos nos quais estão inseridos – ou seja, o que aquelas pessoas acreditavam sobre a relação existente entre o mundo físico e uma suposta realidade espiritual, a dualidade ou divisão do universo entre bem e mal, e, especialmente, os conceitos de “satanás”, “diabo” e “demônio” que abraçavam. Também não posso desassociar minha interpretação do conhecimento contemporâneo no qual fui formado enquanto cristão: hoje, por exemplo, tenho acesso a conhecimentos que os autores dos relatos dos Evangelhos não tinham; eu sei de onde vêm muitos dos conceitos que eles utilizaram em seus relatos, e sei que muitas vezes sua visão entra em conflito com os relatos e conceitos bíblicos mais antigos; eles, entretanto, não sabiam disso! Penso que os autores dos Evangelhos, por exemplo, e eu partilhamos a influência do mesmo Espírito divino guiando nossa fé, mas nem sempre isso significa que partilharíamos a mesma compreensão intelectual se pudéssemos conversar sobre o que eles escreveram. Levando isso em consideração, é relativamente fácil conciliar as Escrituras com minhas compreensões teológicas.

Ou seja, respondendo à sua questão sobre aquelas passagens de forma mais objetiva, posso dizer que não nos preocupamos em oferecer uma interpretação única, válida para todas as pessoas em todos os tempos, sobre o que elas significam. Diferentes pessoas podem compreendê-las de forma diversa. Os unitaristas e outros cristãos liberais respeitam o princípio de que diferentes cristãos, em diferentes contextos, construirão diferentes interpretações sobre um mesmo texto bíblico ou sobre um ponto teológico específico. Entre nós não há uma lista impositiva de crenças ou doutrinas que deva ser inteiramente aceita para que alguém se torne parte da comunidade. Isso é parte do que entendemos ser nossa liberdade de consciência – ou a liberdade do fiel –, o que está ligado à nossa compreensão de que Deus continua a se revelar à mente e ao coração humano – seja por meio do conhecimento “espiritual”, seja por meio do conhecimento “secular”.


2) SALVAÇÃO:

Já tratei, em outros textos destas páginas, muito sobre este tema. Em minha tradição, Deus é amor, e esse amor, que criou a tudo e todos, é capaz de salvar, de regenerar, de reconciliar, de sanar, sem cobrar preço, sem disputar com forças paralelas. Assim, teologicamente, Deus vence o mal e restaura sua criação à forma original. A tradição unitarista, unindo-se à universalista neste aspecto, proclama um Deus de salvação universal que redimirá toda a humanidade e toda a criação. Essa crença está bem enraizada na Tradição da Igreja cristã – Orígenes escreveu sobre isso, assim como Karl Barth, John A. T. Robinson, para não citar autores especificamente ligados às tradições unitarista e universalista – e na Bíblia.


3) O UNITARISMO SE BASEIA NA BÍBLIA?

Onde está a base no unitarismo levando em conta que, por exemplo, a base do catolicismo está na Bíblia?

Deixe-me começar dizendo que discordo da forma como você trata a relação entre o Catolicismo (Romano) e as Escrituras. A maneira como você formulou sua pergunta faz parecer que o Catolicismo (Romano) ensine que a Bíblia seja sua única fonte doutrinária, o que não é o caso. No Catolicismo, há uma explícita relação entre Escritura e Tradição – o que também ocorre, em menor grau, nas formas mais tradicionais de Protestantismo (especialmente o Anglicanismo/Episcopalismo e o Luteranismo). Essa relação, na tradição católica romana, implica que a fé é expressa por meio das Escrituras como interpretada através da Tradição e da autoridade da Igreja. Logo, não é exato dizer que o Catolicismo se baseie nas Escrituras – a chamada “Tradição apostólica” é um elemento-chave para a teologia católica –, assim como também não é correto dizer que o Protestantismo se baseie nas Escrituras (só algumas tradições evangelicais afirmariam isso). Em todas as tradições cristãs, a Bíblia é interpretada a partir dum contexto teológico específico – absolutamente nenhuma tradição pode afirmar que sua tradição leia a Bíblia plenamente de forma literal e que ela seja sua única “regra de fé”.

O Unitarismo, enquanto tradição cristã protestante – também chamado de Cristianismo Unitarista –, tem suas origens na tradição protestante do “sola scriptura”, ou seja, para os primeiros unitaristas a Bíblia era essencial para a forma como compreendiam questões doutrinárias. A grande diferença entre unitaristas e alguns outros grupos protestantes, neste ponto, é o fato de os unitaristas terem emergido, explicitamente, da cultura iluminista, para a qual a “razão” desempenhava uma função importantíssima. É importante destacar, também, que os diferentes grupos unitaristas europeus se desenvolveram em contextos muito diferentes – tendo emergido de tradições distintas. E isso, obviamente, impactaria suas compreensões teológicas. Assim, os unitaristas italianos, alemães, húngaros, transilvanos, poloneses, neerlandeses (ou holandeses, se preferir), ingleses, escoceses, irlandeses, e, posteriormente, aqueles na América do Norte – entre os séculos XVI e XX – desenvolveram compreensões teológicas e/ou práticas muitas vezes distintas umas das outras, em muitos pontos (como ocorreu com todo e qualquer grupo religioso que tenha adeptos em culturas diversas).

Agora, no tocante às Escrituras, qualquer cristão unitarista entenderia que a Bíblia desempenha um papel primordial em sua tradição. É da Bíblia – interpretada a partir de nossa tradição teológica – que emerge nossa compreensão de Deus, de Jesus, da humanidade ou de qualquer outro ponto teológico. Para nós, as Escrituras, a Tradição e a Razão se entrelaçam para dar forma à maneira como entendemos a fé cristã. Em nossa tradição, a razão, obviamente, sempre recebeu um foco especial, e é justamente por isso que o Unitarismo tende a atrair pessoas menos pacientes com formas de “autoritarismo dogmático” (por exemplo, com uma comunidade ou líder que imponha certas crenças como exigência para ser cristão).

Para os que desejam explicações bíblicas para o Unitarismo, a tradição teológica do Cristianismo Unitarista se assenta sobre uma variedade de interpretações da Bíblia que, para alguns de nós, justifica, biblicamente, as razões para acreditarmos ou deixarmos de acreditar em certas coisas. Esse tipo de discussão, entretanto, não é mais visto como necessário entre nós – ou seja, muito raramente um unitarista discutiria com outro cristão suas crenças, tentando “provar” com passagens bíblicas que suas crenças estão certas (eu não faço isso aqui). Já publiquei aqui, antes, textos que tratam especificamente sobre isso. Se você tiver interesse em explorar mais a relação entre os unitaristas e as Escrituras, leia os seguintes textos presentes aqui neste blogue:

Cristianismo Unitarista (1819) – William Ellery Channing
Manual de Crença Unitarista (1884) – de James Freeman Clarke


___________

Bem, espero ter conseguido tirar algumas de suas dúvidas. Grande abraço e paz!

+Gibson