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quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Um convite para este Natal!


O Natal é um período realmente especial para mim. Sempre aguardo, ansiosamente, o ano inteiro por ele. Para as diferentes tradições cristãs, é multiplamente rico em significado. Para a Igreja cristã, em todas as suas diferentes expressões, é a celebração da chegada daquele que os cristãos chamariam de “Cristo”. Para todos os cristãos, independentemente das compreensões teológicas que abracem, é um testemunho da relação que mantemos com o Deus no qual vivemos, nos movemos e existimos.

A tradição cristã celebra, no Natal, a encarnação do Divino entre os seres humanos. Para mim, é uma recordação do elo que temos com a Presença Eterna, fonte de nosso ser, e, ademais, do elo que todos os seres humanos têm uns com os outros.

Nossas celebrações são belas e importantes; mas não são os presentes, os banquetes, as festas, as luzes, etc, o que realmente importa no Natal. Para mim, é a recordação de que o Divino pode adentrar nossa realidade, e que podemos recepcioná-lo em nossos irmãos e irmãs, o que importa nesta data. Como ensinam as Escrituras, “amemo-nos uns aos outros; porque o amor é de Deus; e qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus” (1 João 4:7).

Neste Natal, convido-lhes para que se juntem comigo em oração e serviço em favor daqueles homens, mulheres e crianças que enfrentam a escuridão das fronteiras estrangeiras, e que, como Maria, José e o bebê Jesus, só buscam um abrigo em sua jornada. Que possamos estar abertos a todos os “estrangeiros” (factuais ou metafóricos), como se eles fossem a família de Jesus em sua jornada. Que possamos permitir que a narrativa de Natal transforme nossos corações e ações. Esta é minha oração para este Natal.

Feliz Natal a todas e todos!

+Gibson


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Por um Natal musical... Feliz Natal!

Some of my favorites... Algumas de minhas favoritas...



Don Francisco, Wendy Francisco, e Jerry Palmer - "What Child is This?"



Mormon Tabernacle Choir - "Carol of the Bells"



The Piano Guys - "O Come, Emmanuel"



Pentatonix - "Little Drummer Boy"



Pentatonix - "Mary, Did You Know?"



Josh Groban e Andy McKee - "Little Drummer Boy"



Choir of New College Oxford - "Ding Dong! Merrily on High"



Feliz Natal! Merry Christmas!...

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A doutrina dos Cristãos Unitaristas: uma resposta a Rosilene


Cara Rosilene,

Tento oferecer, aqui, uma resposta à sua pergunta “qual é a doutrina dos unitaristas?”; espero que possa ser útil à sua pesquisa. A utilização de tópicos numéricos é só para organizar meu pensamento, e facilitar sua leitura.


1. Definindo os grupos:

Responder a essa pergunta não é algo tão simples e direto quanto pode parecer. Para respondê-la, preciso saber a que “unitaristas” você se refere. Há, pelo menos, três grupos que fazem uso desse adjetivo para se referirem a si próprios:

a) os “Unitaristas” – minha tradição –, também chamados de “Cristãos Unitaristas”, que tiveram sua origem moderna na Reforma Protestante no século XVI, e cuja história e teologia está entrelaçada às dos Socinianos e Arminianos. No Unitarismo, por sua vez, temos algumas tradições diferentes: a) os unitaristas húngaros e transilvanos, cujas igrejas são episcopais e fazem uso de confissões e catecismos doutrinalmente mais definidos; b) os unitaristas dos Países Baixos, unidos à Igreja Remonstrante; c) os unitaristas britânicos, que geralmente são congregacionais ou anglicanos que sempre foram menos preocupados com definições doutrinárias; d) os unitaristas americanos (dos quais descendem os brasileiros), também pouco preocupados com definições doutrinárias; e) as Igrejas Batistas Gerais da Inglaterra, que mesmo não usando o nome “unitarista”, são parte de nossa tradição; f) a Igreja Presbiteriana Não-Subscrevente da Irlanda, que também faz parte de nossa tradição; g) os “metodistas unitaristas” da Inglaterra e Escócia. No Brasil, há apenas três congregações desta tradição e alguns pequenos grupos espalhados pelo país (aqui, nossas igrejas são tradicionalmente igrejas de imigração);

b) os “Unitário-universalistas”, um grupo que descende dos Unitaristas e Universalistas norte-americanos e tornou-se mais numeroso nas antigas igrejas unitaristas dos Estados Unidos (no Brasil, há alguns simpatizantes virtuais, mas nenhuma igreja unitário-universalista). Esses, de forma geral, não se identificam mais como cristãos, assumindo uma espiritualidade humanista – apesar de haver cristãos em suas igrejas. São dominantes hoje no Movimento Unitarista dos EUA, mas contam com grupos em outras partes do mundo;

c) os “Unitaristas Bíblicos”, um movimento de diferentes grupos cristãos evangelicais que pregam uma cristologia geralmente sociniana (apesar de alguns grupos abraçarem uma visão cristológica ariana), mas rejeitam o liberalismo teológico dos Unitaristas. Esses têm uma origem mais recente e, geralmente, não se identificam como parte do Movimento Unitarista – muitos desses grupos se identificam como “judeus messiânicos”.

Tratarei, aqui, dos Unitaristas (ou Cristãos Unitaristas), já que imagino ter sido essa a razão pela qual você me escreveu.


2. Doutrina – mais uma vez, a questão semântica:

Comecei o tópico anterior dizendo que precisaria saber a qual grupo unitarista você se referia em sua pergunta, já que havia diferentes grupos que se identificavam como “unitaristas”. O problema se repete quando utilizamos o termo “doutrina”. O que, exatamente, você quer dizer por “doutrina”?

a) princípios gerais que guiam a compreensão de fé?
ou
b) dogmas, interpretações fundamentais inquestionáveis?

A maioria dos Unitaristas – e Unitário-universalistas – provavelmente rejeitaria o sentido (b), da doutrina enquanto dogmas inquestionáveis e imutáveis que todos os fiéis devem professar para que sejam membros de nossas comunidades.

A tradição Unitarista tem, desde suas origens no século XVI, desenvolvido uma compreensão da liberdade de consciência individual e da autoridade do indivíduo que nos têm feito rejeitar a imposição de fórmulas teológicas como condição para a vida na Igreja. A maioria de nós compreende a doutrina como sendo princípios gerais que se desenvolvem num ambiente de abertura para diferentes compreensões, mesmo que discordantes. Assim, entre nós, não há apenas uma forma de pensar sobre Deus, sobre Jesus Cristo, sobre a salvação, sobre o que ocorre após a morte, sobre como as Escrituras devam ser interpretadas etc. Por causa disso, os cristãos unitaristas sempre rejeitaram a compreensão de que todos os cristãos devessem acreditar exatamente nas mesmas coisas e fazer tudo do mesmo jeito para serem aceitos como cristãos.

Por causa dessa liberdade e diversidade, não é possível dizer qual seja a doutrina oficial dos unitaristas a respeito de todos os temas possíveis. O que é possível é, como sempre foi feito entre nós, falar sobre aquelas compreensões que a maioria de nós abraça sobre determinados tópicos teológicos – ou, ao menos, falar sobre as diferentes compreensões abraçadas por diferentes grupos unitaristas. Historicamente, muitas declarações de fé têm sido utilizadas por cristãos unitaristas para dar voz às compreensões mais comuns entre nós, mas lembre-se que nenhuma delas tem poder impositivo ou definitivo. Tradicionalmente, nós unitaristas entendemos que ser cristão é seguir Jesus, que nossa fé é “a religião de Jesus, e não sobre Jesus”. Nossa tradição cristã livre sempre desejou que a Igreja cristã estivesse além do dogma e que nela fossem bem-vindos todos aqueles que desejassem, sem impor-lhes um controle intelectual.

Para exemplificar, porém, a forma como diferentes grupos unitaristas expressam sua fé, observe as seguintes declarações professadas por diferentes grupos unitaristas, incluindo o Credo Apostólico – lembrando-se que nem todos os unitaristas que as professam entendem suas palavras da mesma forma:

Credo Apostólico
Creio em Deus, Pai todo-poderoso,
Criador do céu e da terra.
E em Jesus Cristo, seu Filho unigênito, nosso Senhor,
o qual foi concebido pelo Espírito Santo,
nasceu da virgem Maria,
padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos,
foi crucificado, morto e sepultado,
desceu ao mundo dos mortos,
ressuscitou no terceiro dia,
subiu ao céu, e está sentado à direita de Deus Pai, todo-poderoso,
de onde virá para julgar os vivos e os mortos.
Creio no Espírito Santo,
na santa Igreja católica, na comunhão dos santos,
na remissão dos pecados,
na ressurreição do corpo e na vida eterna. Amém.

Confissão da Igreja Unitarista da Hungria
Creio em um Deus, o criador da vida, nosso Pai providencial.
Creio em Jesus, o melhor entre os filhos de Deus, nosso verdadeiro Mestre.
Creio no Espírito Santo.
Creio na missão da Igreja Unitarista.
Creio no arrependimento e na vida eterna.

Declaração de Fé Unitarista
Cremos em um Deus, o criador do céu e da terra, o Pai dos espíritos, o justo Governador e Juiz do mundo;
Cremos em Jesus Cristo, o eterno Filho de Deus, a imagem expressa do Pai, em quem estava toda a plenitude da divindade, e que para nós é o Caminho e a Verdade e a Vida;
Cremos no Espírito Santo, procedente do Pai e do Filho, o mestre, renovador, e guia da humanidade;
Cremos na Santa Igreja Católica como o corpo e forma do Espírito Santo, e a presença de Cristo em todas as eras;
Cremos na Regeneração do coração humano, que, sendo criado reto, mas corrompido pelo pecado, é renovado e restaurado pelo poder da verdade cristã;
Cremos na constante Expiação por meio da qual Deus, em Cristo, está reconciliando o mundo a Si;
Cremos na Ressurreição da morte à imortalidade, num futuro julgamento e na Vida Eterna;
Cremos no vindouro Reino de Deus, e no triunfo final da verdade cristã.

As Bases da Fé Cristã para os Unitaristas
A paternidade de Deus;
a irmandade da humanidade;
a liderança de Jesus;
a vitória do Bem;
o Reino de Deus;
a Vida Eterna.

A Confissão de Fé
Estamos conscientes e afirmamos:

que não encontramos a nossa paz na certeza do que confessamos,
mas na maravilha do que nos acontece e naquilo que nos é dado;

que não encontramos nosso destino na indiferença e na ganância,
mas na vigilância e na ligação com tudo o que vive;

que a nossa existência não é realizada por quem somos e por aquilo que possuímos,
mas pelo que é infinitamente maior do que podemos conter.

Guiados por esta consciência, acreditamos no Espírito de Deus,
que transcende tudo o que divide as pessoas
e as inspira para o que é santo e bom,
que no cantar e no silêncio,
na oração e no trabalho,
elas adoram e servem a Deus.

Acreditamos em Jesus, um ser humano cheio do Espírito Santo,
o rosto de Deus, vendo-nos e perturbando-nos.
Ele amou a humanidade e foi crucificado
mas ele vive, além de sua própria morte e da nossa.
Ele é o nosso santo exemplo de sabedoria e coragem
e ele traz o amor eterno de Deus para perto de nós.

Cremos em Deus, o Eterno,
que é amor insondável, o fundamento do ser,
que nos mostra o caminho da liberdade e da justiça
e nos conclama a um futuro de paz.

Acreditamos que
fracos e falíveis como somos,
somos chamados a ser a Igreja,
ligados a Cristo e a todos os que creem,
no sinal da esperança.

Pois acreditamos no futuro de Deus e do mundo,
em uma paciência divina que dá tempo
para viver e para morrer e ressuscitar,
no reino que é e virá,
onde Deus será para a eternidade: tudo em todos.

A Deus seja a glória e honra
no tempo e na eternidade.

Amém
__________________________________

Nos próximos tópicos tentarei esclarecer a compreensões da maioria dos unitaristas sobre certos pontos – mas, desde já, esclareço que isso não significa que todos os unitaristas concordariam com isso, ou que professar isso seja exigido dos unitaristas.


3. Deus:

Como você pode ver acima, a tradição unitarista professa fé em Deus. Entretanto, não há a imposição dum dogma teontológico – isto é, a maneira como articulamos nossa fé em Deus não é necessariamente a mesma para todos nós. Não tentamos esgotar definições teológicas de Deus, como se a Divindade fosse um objeto que pudesse ser posto sob as lentes dum microscópio, ou como se pudéssemos plenamente compreender aquilo que está além de nosso mundo físico.

A maioria dos cristãos unitaristas – não, necessariamente, todos – é “antitrinitarista”, ou seja, rejeita o dogma da Trindade da forma como professado pela maioria dos demais cristãos (isto é, Deus em três pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo), sendo essa a razão pela qual foram chamados de “unitaristas” durante os primórdios de sua história na Europa. Historicamente, nossa tradição tem professado fé na unicidade de Deus, apesar de não definirmos Deus – assim, muitos de nós podem entender Deus de maneiras diversas.

No que concerne à doutrina enquanto princípios gerais que guiam nossa compreensão de fé, nós unitaristas temos muito em comum com outros cristãos. Apesar de a maioria de nós não aceitar imposições teológicas, de forma geral compartilhamos a fé expressa pelos outros cristãos. Deus, para a maioria de nós, é aquele “em quem vivemos, nos movemos e existimos” (Atos 17:28). Um de nossos catecismos afirma: “Quando dizemos 'Creio em um Deus', expressamos nossa convicção de que Deus existe, e que Deus, tanto em essência quanto em pessoa, é apenas Um”; e, “...Compreendemos Deus como Espírito e como Amor”.


4. Jesus Cristo:

Já esclareci que o fato de os primeiros unitaristas serem antitrinitaristas (rejeitarem o dogma atanasiano da Trindade) foi o que lhes rendeu o adjetivo “unitaristas”. Rejeitar esse dogma é afirmar algo importante sobre a compreensão cristológica da maioria dos unitaristas: para a maioria de nós, Jesus não é “consubstancial” (da mesma substância, igual) a Deus.

Para a maioria de nós, Jesus é nosso Mestre e Salvador. Mestre porque olhamos para seu exemplo como modelo que devemos seguir; Salvador, porque seus ensinamentos e exemplos são o caminho que nos levam a Deus.

Para a maioria de nós, Jesus foi plenamente humano, símbolo duma vida plena do Divino, sem preexistência (noção chamada de “socinianismo”). Para outros, Jesus, apesar de humano, foi o primeiro a ser criado por Deus, preexistindo antes de encarnar como Jesus de Nazaré, sendo, contudo, distinto de Deus (noção comumente chamada de “arianismo”). Outros poucos professam a mesma fé ortodoxa da Trindade.

Muitos de nós consideram Jesus como divino sem acreditar que ele fosse Deus ou sem negar sua humanidade. A divindade, nesse sentido, representa a humanidade em seu sentido mais pleno. Assim, ele é filho de Deus no mesmo sentido em que todos nós somos filhos e filhas de Deus; Deus estava encarnado nele no mesmo sentido em que Deus está encarnado em toda a humanidade.

Independentemente das explicações teológicas que diferentes unitaristas abracem para expressar sua fé em Jesus, todos compartilham a visão de que viver os princípios de amor e boa vontade ensinados e vividos por Jesus são necessários para ser um discípulo dele. Ser cristão, assim, é seguir seus ensinamentos e exemplos em nossa adoração a Deus e serviço à humanidade.

Em nosso catecismo mais tradicional, por exemplo, podemos encontrar uma declaração com a qual talvez a maioria de nós concorde: “Quando dizemos 'Creio em Jesus', expressamos nossa convicção de que Jesus é o maior filho e profeta de Deus, e que seus ensinamentos são o caminho mais certo através do qual podemos chegar a um real conhecimento de Deus”.


5. O Espírito Santo:

A maioria dos unitaristas compreende o Espírito Santo como sendo a presença ou o poder de Deus, que ilumina o intelecto, limpa o coração, fortalece a vontade, acalma, encoraja e traz alegria. Assim, a maioria de nós não o compreende como sendo uma pessoa.


6. A humanidade:

Os unitaristas têm proclamado, ao longo de seus quase cinco séculos de história, uma fé no valor e dignidade de cada indivíduo. Apesar de o foco que outros cristãos dão à nossa tradição sempre se centrar em nossas cristologias antitrinitaristas, a maior diferença doutrinária entre unitaristas e a maioria dos outros cristãos ocidentais está, em minha opinião, na forma como compreendemos a humanidade.

Nós unitaristas rejeitamos a doutrina do pecado original. Não acreditamos que por meio do pecado dos primeiros humanos tenhamos todos nos tornado corruptos. Para nós, acreditar nisso contradiria nossa crença no amor e justiça de Deus, já que significaria que pessoas receberiam a culpa pelos pecados (erros cometidos conscientemente) de outras. Os humanos, para nós, não nascem em pecado – eles se corrompem pelo pecado ao longo da vida.


7. A vida eterna:

Como com todos os outros pontos que discuti antes, a compreensão do que acontece além desta vida é muito variada entre nós. A maioria de nós, talvez, acredita que temos um espírito que vive além do corpo. Não se pregam entre nós doutrinas como a reencarnação, por exemplo, mas muitos de nós, talvez a maioria, acreditam que haverá uma ressurreição dos mortos. Entretanto, a grande maioria de nós rejeita a crença num lugar de tormento infinito pós-mortal, já que, para nós, a bondade e misericórdia Divina será sempre vitoriosa.

Seja como for, é muito incomum a discussão de temas como este em nosso meio.


8. A Bíblia:

Como cristãos, os unitaristas aceitam e honram a Bíblia como Escrituras Sagradas. É nela onde encontramos a base de nossa compreensão de fé. Como outros cristãos liberais, contudo, a maioria de nós compreende a Bíblia como um conjunto de livros escritos por humanos, e que, posteriormente, passou por um processo de canonização. Logo, a maioria de nós não compreende a Bíblia como um livro perfeito, sem erros; a maioria de nós não compreende seus registros como registros factuais, mas como um testemunho humano de Deus, e da fé que herdamos.


9. Sacrifício expiatório:

A grande maioria dos unitaristas rejeita a noção de que a morte de Jesus na cruz fosse uma exigência divina para que pudéssemos ser perdoados por Deus. Para a maioria de nós, essa é uma ideia ofensiva à compreensão que temos da Deidade. Assim, Jesus nos salvaria mostrando-nos o caminho a seguir, e não sendo sacrificado em favor da humanidade. É nesse sentido que a maioria de nós utilizaria o termo “salvador” para se referir a Jesus.


10. Concluindo temporariamente...

Discussões teológicas sobre pormenores doutrinários é praticamente inexistente em nossas igrejas, ao menos em sermões, por exemplo. Porque nossas igrejas tendem a estar comprometidas com o respeito à diversidade teológica, e não utilizamos credos ou confissões como condições para ser membro, cada unitarista é incentivado a construir sua própria compreensão teológica. Como você notou nas declarações que incluí aqui, há doutrinas específicas em nosso meio, mas essas representam apenas aquilo que a maioria de nós aceita, e não algo que seja exigido que os unitaristas aceitem.

Bem, espero que o que escrevi aqui seja útil à sua pesquisa. Se precisar de algo mais, ficarei feliz em ajudá-la.

Grande abraço!
+Gibson

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Uma reflexão talmúdica


Quando o povo de Israel cruzou o Mar Vermelho, os anjos estavam prestes a cantar de alegria, mas o Santíssimo reprovou-os, dizendo: “Meus filhos [os egípcios] estão se afogando e vocês se alegram?” (Talmud Megillah 10b)

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O Papa é pop?... A Igreja, as Ciências e os noticiários


Os noticiários anunciaram o que parecia bombástico. O líder da Igreja Católica Apostólica Romana, segundo as manchetes, endorsava as teorias da evolução e do Big Bang. Parecia que, dessa vez, o Papa tinha realmente se tornado “pop”!

Acompanhando todo o rebuliço causado pelas manchetes ao redor do mundo, tinha-se a impressão que a Igreja Romana, de uma hora para outra, abandonava a fé e rendia-se à ciência. Deus dava lugar – ao menos nas reações de fiéis e daqueles nem tão ligados assim à fé católica – aos experimentos de laboratório: era como se lêssemos uma nova versão de “Anjos e Demônios”, de Dan Brown.

Bem, nem tanto.

Na verdade, o discurso do Papa Francisco na sessão plenária da Pontifícia Academia de Ciências, em 27 de outubro, no Vaticano, foi um pronunciamento em linha com aquilo que a própria Igreja Romana tem ensinado sobre a Criação. E, para ser exato, está longe de ser um endorso daquilo que a maioria dos cientistas ensina sobre as duas teorias (a Evolução e o Big Bang). Nada que justifique o sentimento de escândalo sobre o qual alguns amigos católicos comentaram comigo esses últimos dias.

Vale a pena ler alguns trechos do pronunciamento do Papa, que se encontra aqui, em francês, ou aqui, em italiano, para observar aquilo que as manchetes deixaram de fora quando retrataram que o Papa agora é “pop” (tradução e ênfases são minhas):

[...] Quando lemos, no Gênesis, o relato da criação, corremos o risco de imaginar que Deus fosse um mago, com uma varinha mágica capaz de fazer tudo. Mas não é assim. […] Ele criou os seres e permitiu-lhes que se desenvolvessem de acordo com as leis internas que deu a cada um […] O início do mundo não é obra do caos, que deve a um outro a sua origem, mas deriva-se diretamente de um Princípio supremo que cria por amor. O Big Bang, que hoje é visto como a origem do mundo, não contradiz a intervenção criadora divina, mas a exige. A evolução na natureza não contradiz a noção da Criação, porque a evolução pressupõe a criação dos seres que evoluem. […]”

O resto do pronunciamento é ainda mais interessante. Não por trazer qualquer coisa nova, em termos de doutrina, mas por fazer uso duma linguagem que, aparentemente, não é muito comum à percepção da maioria daqueles que não compreendem a visão que o Catolicismo Romano tem de algumas posições científicas. Seu pronunciamento, por exemplo, fala sobre a liberdade humana – liberdade que tem uma ligação com aquelas “leis internas” que permitiriam aos seres seu desenvolvimento, segundo o Papa – e a maneira como a utilizamos para destruir a Criação, nos colocando no lugar do Criador.

Assim, faltou a todas aquelas notícias, e a todo o rebuliço nas redes sociais, tratar sobre o ponto principal do pronunciamento papal, a responsabilidade humana para com a Criação – ou natureza, se preferir. Tenho certeza que, com isso, qualquer um pode concordar!

+Gibson

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Artigos sobre o Casamento Plural entre os "mórmons" no site oficial da Igreja SUD: lendo algumas das entrelinhas


Seus professores provavelmente não discutirão isso em suas aulas de História ou Teologia na universidade; e, se você for um “santo dos últimos dias”, possivelmente se ofenderá com meus comentários aqui. Ofender gratuitamente não é minha intenção, mas, como um pesquisador de Teologia Histórica, não posso evitar fazer breves comentários sobre o assunto aqui.

É bom afirmar desde agora que minha leitura é, obviamente, completamente distinta daquela que seria feita por um santo dos últimos dias que, provavelmente, não questionaria a autoridade e intenções de sua igreja e de sua liderança. Também é importante deixar claro que não sou um inimigo da tradição ou da Igreja SUD, logo, não invisto meu tempo em ataques à fé dos santos dos últimos dias – meus comentários aqui dizem respeito apenas à maneira como a Igreja SUD lida com sua história. A “historiografia” oficial da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias foi e continua a ser problemática, mas o passo tomado pela mesma esta semana toma um (meio)caminho até certo ponto surpreendente em sua abordagem de sua própria história – e é sobre isso que falo aqui.

Como alguém que se ocupa do estudo da história das ideias teológicas nos Estados Unidos do século XIX, tratar de assunto tão controverso quanto o tema do chamado “casamento plural” na tradição dos “santos dos últimos dias” (chamados popularmente de “mórmons”) é uma tarefa complicada. E é complicado por me forçar a, provavelmente, ofender convicções religiosas de alguns amigos membros da Igreja SUD (a sediada em Salt Lake City), para quem a “profecia” é algo factual; e também complicado por correr o risco de confundir um público não familiarizado com o tema, quando associam a crença de grupos como a “Comunidade de Cristo” ou outros “santos” (não tão comuns no Brasil), com as crenças e práticas da Igreja SUD – incluindo a forma como esses, os “santos dos últimos dias”, lidam com sua história.

Nesta última quarta-feira, 22 de outubro de 2014, foram publicados no site oficial da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (que aqui chamo de Igreja SUD), em inglês, três artigos tratando sobre o tema do “casamento plural”. Um introdutório é chamado [1] “Plural Marriage in the Church of Jesus Christ of Latter-day Saints” [Casamento Plural na Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias], o segundo chama-se [2] “Plural Marriage in Kirtland and Nauvoo” [Casamento Plural em Kirtland e Nauvoo], e outro chamado [3] “The Manifesto and the End of Plural Marriage” [O Manifesto e o Fim do Casamento Plural]. Esses têm causado um rebuliço nas discussões sobre o tema desta prática de muitos “mórmons” no século XIX. Esses artigos adicionam informações àquelas já disponibilizadas num artigo mais antigo, chamado [4] “Plural Marriage and Families in Early Utah” [Casamentos e Famílias Plurais nos Primórdios de Utah]. (A numeração é minha e serve apenas para facilitar minha referência a esses documentos mais adiante. Para evitar a repetição de seus títulos os chamarei de “artigo 1” etc.)

Os artigos, em minha opinião, apesar de expressarem um avanço em termos de reconhecimento da prática e de suas implicações sexuais, estão longe de ser uma obra historiográfica desatrelada do interesse em proteger a imagem da igreja SUD nas disputas políticas que se desenvolvem hoje nos Estados Unidos – em grande parte, após as discussões que se levantaram nos meios de comunicação americanos após a candidatura de Mitt Romney à Presidência dos Estados Unidos (e sua possível recandidatura nas próximas eleições). E seria tolice esperar que uma instituição que sempre desempenhou um papel tão autoritário, ao menos em minha opinião, na forma como se lida com sua história – por razões que seriam deveras complicadas para discutir aqui – mudasse sua atitude corporativa agora (e isso – quando olhado de fora, por pessoas que, como eu, se esforçam para ser mais compreensivas – é o desperdício duma grande oportunidade).

A primeira frase do artigo 1 já indica o caminho seguido por seu(s) autor(es):

Os santos dos últimos dias acreditam que o casamento de um homem e uma mulher é a lei permanente de casamento do Senhor.

Uma frase aparentemente tão inocente como esta explicita uma retórica anacrônica sobre um tema tão essencial para a história do movimento dos santos dos últimos dias. A frase aponta para uma preocupação com o presente, e não em esclarecer de forma honesta o passado. A declaração é tanto uma resposta a possíveis acusações desinformadas de que os “mórmons” sejam hoje polígamos, quanto uma afirmação da posição da Igreja SUD quanto à presente questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo (tanto nos Estados Unidos quanto em outros países). Uma afirmação, em minha opinião pessoal, desnecessária ao texto, se o que ele intentasse fosse o esclarecimento do passado da Igreja SUD.

Para qualquer pesquisador sério da história da tradição SUD, será importante observar algumas afirmações feitas nos textos, que corroboram aquilo defendido há muito por historiadores do movimento SUD não ligados à Igreja de Salt Lake City. É importante, por exemplo, a afirmação, no artigo 2, de que

A revelação sobre o casamento plural não foi escrita até 1843, mas seus primeiros versos sugerem que parte dela emergiu do estudo do Antigo Testamento por Joseph Smith em 1831. Pessoas que conheciam Joseph bem afirmaram, mais tarde, que ele recebera a revelação naquela época. […]

Mais adiante, no mesmo artigo 2, afirma-se o já conhecido fato de que Joseph Smith já havia “se casado pluralmente” com outra mulher na década de 1830 (supostamente obedecendo ao que lhe ordenara um anjo), ou seja, antes da revelação de 1843. Essa mulher, Fanny Alger, trabalhava na casa dos Smith durante a época em que moravam em Kirtland. O casamento acabou em separação e, após essa separação, Joseph só voltaria a tratar do tema em Nauvoo, na década seguinte.

O(s) autor(es) parece(m) se esforçar para evitar que a imagem de seu profeta – Joseph Smith – seja manchada de alguma forma e, para isso, recorrem a uma contextualização histórica, mesmo que limitada, das práticas matrimoniais no século XIX. Esse esforço se evidencia, por exemplo, quando se discute, no artigo 2, as práticas do próprio Joseph Smith:

A maioria daquelas seladas a Joseph Smith tinham entre 20 e 40 anos de idade na época de seu selamento a ele. A mais velha, Fanny Young, tinha 56 anos. A mais nova foi Helen Mar Kimball, filha dos amigos de Joseph, Heber C. [Kimball] e Vilate Murray Kimball, que foi selada a Joseph alguns meses antes de completar 15 anos. Casamento numa idade como essa, inapropriado para os padrões de hoje, era legal naquela época, e algumas mulheres se casavam em meados de sua adolescência. Helen Mar Kimball falou de seu selamento a Joseph como sendo “apenas para a eternidade”, sugerindo que o relacionamento não envolvia relações sexuais. Após a morte de Joseph, Helen se casou novamente e tornou-se uma articulada defensora do casamento plural.

Para mim, é marcante como se tenta diminuir o impacto da informação da idade de Helen, optando-se pela expressão “alguns meses antes de completar 15 anos”, em vez de simplesmente dizer que ela tinha 14 anos de idade. Logo em seguida, se contextualiza a questão da idade dos casamentos naquele ambiente de fronteira, ao mesmo tempo em que tenta-se poupar a imagem de Joseph, citando a afirmação de Helen de que seu selamento tivera sido “apenas para a eternidade”.

É importante, talvez, esclarecer aqui alguns dos termos presentes no artigo 2, citando a explicação dada no próprio texto:

Durante a era na qual o casamento plural foi praticado, os santos dos últimos dias distinguiram entre selamentos para o tempo e a eternidade e selamentos apenas para a eternidade. Selamentos para o tempo e para a eternidade incluíam compromissos e relacionamentos durante esta vida, geralmente incluíam a possibilidade de relações sexuais. Selamentos apenas para a eternidade indicavam relacionamentos na próxima vida apenas.

Os artigos trazem, além de várias informações que a Igreja SUD evitou discutir com o público não “mórmon” por tanto tempo (apesar de todas elas já serem conhecidas há muito), questões teológicas importantes, talvez invisíveis aos olhos leigos. Nesses artigos, a instituição e prática subsequente do casamento plural é identificado como fruto de “revelação”. Na tradição SUD, o “Profeta” (=Presidente da Igreja) recebe revelação direta de Deus para guiar a igreja; Joseph Smith foi um profeta e instituiu o casamento plural por meio de revelação. E foi por essa razão que tantos santos dos últimos dias se engajaram com essa prática até seu encerramento definitivo em 1904, ao menos nas comunidades que seguiam a liderança da Primeira Presidência da Igreja SUD. Contudo – voltando aos artigos –, quando os mesmos tratam do Manifesto de 1890, no qual Wilford Woodruff, então Presidente da Igreja (isto é, “Profeta”), se manifesta a favor da obediência às leis que proibiam o casamento plural nos Estados Unidos, o mesmo é identificado como um documento inspirado – não como uma “revelação”.

Obviamente, a escolha cuidadosa dos termos usados nos artigos é uma característica da preocupação tida pela liderança da Igreja SUD com correção doutrinária. Os artigos, mesmo com todo esse cuidado, já são suficientes para causar um debate sobre as contradições entre vários ensinamentos da Igreja SUD em suas primeiras décadas – contradições que são justificadas nos artigos mesmo que não sejam citadas explicitamente. Seja como for, os artigos, apesar de todos os seus problemas e limitações, são interessantíssimos para qualquer um que se interesse pela história da corrente do restauracionismo liderado por Joseph Smith; mas eu diria que são ainda mais interessantes para quem se interessa pelo “mormonismo” de hoje – já que, para mim, eles falam muito mais sobre a Igreja SUD de hoje, e suas preocupações políticas, do que dos antigos santos dos últimos dias.

Provavelmente, retornarei a este tema depois!

+Gibson

POST-SCRIPTUM: A IJCSUD publicou a tradução oficial dos artigos citados em língua portuguesa. Os mesmos encontram-se nos seguintes links:

O Casamento Plural em Kirtland e Nauvoo
O Casamento Plural e as Famílias Polígamas nos Primórdios de Utah

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Presença e Fé


Há inúmeras coisas que podemos ganhar, e outras inúmeras que podemos perder, quando discutimos nossa fé com toques de racionalidade autodeclarada. Essa é, ao menos, minha experiência. Ensinar teologia, participar de discussões acadêmicas sobre minha fé, escrever para um público que não necessariamente partilha de minhas convicções, dentre tantas outras coisas, parece funcionar como um empecilho para expressar aquilo que, para mim, é tão simples e sublime: minha própria fé – sem aquela necessidade de recorrer às argumentações da Teologia Histórica para explicar isso ou aquilo.

Muitas vezes me perguntam, por exemplo, se acredito nisto ou naquilo. Sempre repito, para enfatizar a importância do valor semântico em discussões teológicas, que depende do que se quer dizer com os verbos e/ou substantivos utilizados naquela pergunta. Aqueles que não compreendem a complexidade de minha posição automaticamente veem-me como um relativista sem convicções. Esse é um risco que corro por raramente falar sobre minha fé de forma direta.

Em uma de minhas passagens favoritas do Novo Testamento (Atos 17), narra-se um sermão do apóstolo Paulo no Areópago, em Atenas, no qual ele recorre à sabedoria dos não judeus daquele local para ensinar-lhes sobre “o Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe” (v.24). O que sempre admirei naquele relato é o aspecto de ele haver utilizado o que estava ao alcance da compreensão de seu público – a referência ao “Deus desconhecido” e a citação dum texto do poeta Arato de Solos (“Aparências”) – para compartilhar sua fé. Assim, aprendi que quando falamos com diferentes públicos, e quando temos diferentes intenções, fazemos uso de diferentes recursos.

Como nem todos os que vêm a essas páginas buscam a mesma coisa, gostaria de compartilhar minha fé de forma mais direta hoje.

Geralmente, recuso-me a utilizar verbos que limitem minhas convicções a noções muito determinadas ou que tragam em si a noção de que eu seja o operador de minha relação com o Divino; assim, evito o verbo “acreditar”, preferindo o verbo “confiar” quando falo sobre Deus. Eu confio em Deus; acredito em Deus – se com esse verbo quiser exprimir a noção de que minha confiança se estende à minha compreensão intelectual. Confio e escolho seguir Jesus. Não penso, entretanto, que a fé enquanto “assensus” – isto é, enquanto assentimento ou concordância intelectual –, seja essencial para minha confiança em Deus ou em Jesus.

Em minha experiência, Jesus é irresistível. Os ensinamentos e os exemplos atribuídos a ele são irresistíveis. Seu espírito de compaixão é irresistível. E isso independe de sua factualidade histórica pretérita. Mesmo que Jesus de Nazaré tenha sido só um personagem criado por um movimento judaico no primeiro século de nossa era – o que tenho fortes razões para crer não ser o caso –, que não tenha existido na “vida real”, ainda assim ele seria um poder irresistível em minha vida espiritual. E ele é irresistível porque tem o poder de transformar algo dentro de mim, tornando-se, assim, uma realidade presente no tempo presente.

Essa presença à qual me referi é muito mais importante que qualquer sofisticação teológica ou correção dogmática. É aquela presença que experiencio em meus momentos de oração privada, em meus momentos de celebrações litúrgicas, quando estou compartilhando momentos de alegria ou tristeza com outras pessoas, quando leio algo edificante, quando converso com alguém em busca de ajuda, ou quando eu mesmo recebo o apoio de alguém. É essa presença que chamo de “milagre”, porque é quando Deus se faz presente – mesmo que naquelas aparentemente pequenas coisas da vida. É essa presença que se torna fé. É assim que escolho confiar ou crer em Deus.

A paz dessa Presença, que chamo Deus, pode ser compartilhada com todos, independentemente de suas crenças ou descrenças, independentemente de quem sejam ou de como sejam suas vidas; e é por isso que o dogma se torna tão secundário em minha fé. Se isso é não ter convicções, então, que seja – prefiro ter confiança em Deus e Jesus do que certeza dogmática incompassiva, algo que me esforço muito para abandonar.

+Gibson

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Uma opção para uma "ex-mórmon" nos EUA: uma resposta a Dayla


[Recebi por meio da caixa de contato uma mensagem de Dayla, uma brasileira residente nos EUA, que compartilhou comigo sua história de abandono da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias – tradição frequentemente chamada de “mormonismo” – e o desafio para encontrar uma nova comunidade de fé. Aqui, tento oferecer uma resposta a algumas de suas colocações.]

Cara Dayla,

Sua experiência se repete nas vidas de inúmeras pessoas, não apenas daquelas saídas da tradição dos santos dos últimos dias, como também de outras tradições cristãs advindas do restauracionismo. Seu desconforto em outras comunidades cristãs – principalmente por lhe tratarem como uma “estranha” – são comuns às experiências de outras pessoas com as quais converso sobre o temo, e são plenamente compreensíveis.

Como compreendo a tradição SUD como sendo mais que apenas uma fé (é também uma cultura própria), para mim é perfeitamente normal que você se sinta desconfortável com a forma como outros cristãos compreendem sua fé, e a maneira como a vivem no mundo exterior à igreja. Especialmente porque você ainda acredita em pontos importantíssimos de sua herança de fé – no Livro de Mórmon, nas profecias atribuídas a Joseph Smith etc –, mesmo que discorde da forma como a Igreja na qual foi educada funcione e discorde de muitas de suas doutrinas.

Suponho que, já que me escreveu, saiba de meu trabalho com o grupo de apoio a “ex-mórmons” aqui. Assim, realmente posso imaginar pelo que você têm passado durante esse tempo. Algo que conta a seu favor é morar onde mora hoje, já que se ainda estivesse em Utah provavelmente sentiria uma dificuldade maior para lidar com seus amigos e conhecidos.

Meu primeiro conselho é simples: não tenha medo, você não está sozinha. Você encontrará – se ainda não o fez – muitas pessoas que atravessaram a dificuldade de romper laços sociais tão fortes em busca de novos rumos em sua vida eclesiástica. Com confiança, você conseguirá sobrepujar esses sentimentos sobre os quais fala. Tenho certeza disso, porque vejo isso se repetir com frequência. Você não está sozinha!

Você enumerou as três opções que encontrou: 1) lidar com suas dúvidas e retornar à Igreja SUD; 2) trair algumas de suas convicções e tentar ser aceita em outra igreja cristã; ou 3) continuar a sentir o que sente estando longe duma comunidade cristã. Essas realmente podem ser opções para você, mas não são as únicas. Você esqueceu que também poderia tentar encontrar outra comunidade na própria tradição restauracionista do movimento dos santos dos últimos dias! Não, não me refiro a encontrar outra ala ou estaca na Igreja SUD; me refiro a tentar encontrar outra denominação na tradição “mórmon”! A Comunidade de Cristo pode ser, talvez, uma opção para você.

Tendo morado em Utah por tanto tempo, você deve ter ao menos ouvido falar na Igreja Reorganizada de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias – a denominação, em 2001, mudou seu nome para “Comunidade de Cristo”. Muitas das convicções liberais que você abraçou ao longo do tempo são parte do que a Comunidade ensina em sua tradição. Ela é, na verdade, a única denominação do movimento dos santos dos últimos dias – não ligada à Salt Lake City – que além de se manter ligada à tradição “mórmon”, professa uma compreensão teológica muito próxima de outras igrejas protestantes liberais ou moderadas. A denominação, inclusive, mantém relações ecumênicas com outras igrejas cristãs membros do National Council of Churches, que você citou. Assim, nela, você encontra um pouco das duas perspectivas.

A Comunidade, que tem uma congregação onde você vive agora, apesar de haver mudado muito nas últimas décadas, ainda está enraizada na tradição restauracionista do movimento dos santos dos últimos dias; assim, o Livro de Mórmon ainda é visto, entre eles, como escritura; Joseph Smith é visto como profeta. Então, ao menos nesse aspecto, você não se sentiria uma “estranha”, encontraria elementos de sua identidade religiosa originária. Isso também pode, entretanto, trazer outros estranhamentos, já que você estaria muito próxima de recordações de sua antiga igreja, ao mesmo tempo em que experienciaria coisas novas. Mas, ainda penso que, em seu caso, é uma opção possível.

Se quiser, posso pedir que a pastora da congregação que existe aí em sua cidade entre em contato com você. Somos amigos e tenho certeza que ela ficaria muito feliz em tirar suas dúvidas e ajudá-la no que for possível, sem exercer nenhum tipo de pressão sobre você. Para tal, me envie um e-mail, e acertaremos como fazer isso.

Bem, Dayla, fique em paz. Agora que você chegou num lugar novo, poderá fazer novos amigos e se sentir mais livre para trilhar seu próprio caminho. Você não está sozinha, é só dar tempo para conhecer outras pessoas em seu novo lar. Mesmo que fisicamente longe, estou aqui para ajudá-la a encontrar outras pessoas por aí. Você estará em meus pensamentos e orações!

Grande abraço!
+Gibson

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

"Descristianizando" a fé cristã?... Uma resposta a Fernando


Prezado Fernando,

Obrigado por compartilhar a história de sua jornada espiritual comigo. Aparentemente, você teve a oportunidade de descobrir diferentes respostas aos anseios de sua alma, por mais que hoje você perceba limitações no que você encontrou anteriormente.

Bem, não enxergo nenhuma religião como sendo uma resposta perfeita e não-contraditória a todos os nossos anseios ou questões; em minha experiência, isso é especialmente verdadeiro no que tange aos Cristianismos (isso mesmo, no plural) – e isso por serem eles meu lar espiritual e, assim, posso enxergar algumas das fontes de conflito em seu interior. Assim, independentemente da alternativa teológica cristã que se escolha, sempre haverá questões não respondidas, dúvidas não esclarecidas, algo contraditório. E isso pela simples razão, em minha opinião, de a religião (aqui, os Cristianismos) não ser algo pronto, acabado.

Falo em Cristianismos, no plural, por desde o início serem plurais as manifestações cristãs. Desde seu início, enquanto apenas um movimento judaico marginal, a grande tradição cristã teve inúmeras vozes em seu meio, tendo levado séculos até que se pudesse falar numa fé cristã “oficial”. Assim, absolutamente nenhum de nós (católicos romanos, ortodoxos “orientais”, protestantes liberais, protestantes evangelicais, cristãos restauracionistas etc) pode, de fato, reclamar um status de veracidade exclusivista para nossa versão da fé cristã. Em minha visão, todos nós abraçamos a fé plena e apenas uma pequena parcela dessa plenitude ao mesmo tempo – e é justamente isso que torna a tradição cristã tão fascinante para mim.

Entretanto, se perceber o que já escrevi tantas vezes, afirmo o mesmo no tocante ao Judaísmo – parte de minha herança familiar. Não pratico o “Judaísmo” como minha fé pessoal, mas o compreendo com uma fé plural que oferece desafios e fascínios semelhantes àqueles dos “Cristianismos” (no que tange à diversidade e incompletude). Enxergo o mesmo no que tange ao Islã, ao Budismo ou a qualquer outra tradição de fé.

Tendo dito isso, posso me referir mais diretamente às questões que você levantou.

Abandonar algumas daquelas concepções teológicas ditas tradicionais – como o do sacrifício expiatório de Cristo – implicaria numa “descristianização” do Cristianismo? Em minha opinião, isso depende de a qual dos “Cristianismos” você se refere, e a quem, quando e onde você faça essa pergunta.

Sou um protestante liberal, ancorado nas tradições do Unitarismo e Anglicanismo norte-americanos. A liturgia tradicional cristã desempenha um papel muito importante em minha vida devocional, mas meu universo teológico pode ser muito distinto daqueles do Catolicismo Romano, do Cristianismo Ortodoxo ou do Protestantismo Evangelical. Para mim, a fé é uma jornada de perguntas, não um destino de respostas. Logo, as “respostas” são sempre transitórias – e isso, ao menos em minhas tradições de fé, não implica numa “descristianização” da fé, mas numa centralização no Divino (isto é, as respostas não precisam ser plenamente coerentes e certeiras para que eu possa encontrar-me com Deus e percorrer o caminho de Jesus, já que não estou em busca de respostas). Assim, se você fizesse essa pergunta a mim como um indivíduo, minha resposta seria “NÃO”, a diversidade teológica no meio cristão não implica numa “descristianização”, já que diferentes cristãos expressam diferentes concepções acerca de sua fé (e compreendem suas expressões teológicas individuais como sendo autenticamente cristãs).

Você perguntou: “...se abandonarmos ensinamentos como o do sacrifício na Cruz pelos nossos pecados o que pregaremos? O que você prega na sua igreja?

Para minha fé pessoal, a tradição cristã ensina que Jesus fez coisas que considero mais importantes e mais relevantes que apenas morrer numa cruz. Para os contextos de sua própria época, ele parece ter sido um rabino muito compassivo e caridoso. Ele parece ter sido muito radical em sua prática da hospitalidade, por exemplo. As palavras e exemplos que lhes foram atribuídos – sim, porque não poderíamos garantir que Jesus fez ou disse isto ou aquilo – são, em minha tradição teológica e em minha prática homilética, o “Cristianismo”. Particularmente, em minha prática homilética, deixo de lado pormenores teológicos sobre o quê, como, quando, onde, quem, pois isso contribui muito pouco para a vida espiritual da congregação à qual sirvo como ministro, e à minha própria. Em nosso meio, cada um de nós pode construir sua compreensão pessoal sobre temas teológicos como esses, então, não faria nenhum sentido, para mim, tentar impor esta ou aquela visão a meus paroquianos, por exemplo.

Minha experiência, entretanto, não é a mesma da de outros cristãos, de outros membros do clero cristão. E eles/as – sejam fieis individuais ou membros do clero – necessitarão articular sua fé de forma que faça sentido para si. Assim, para a maioria, aquilo que entendo como metáforas (como a linguagem sacrificial, por exemplo) ganhará um sentido mais factual. Para mim pode não fazer sentido, ou ser desnecessário, mas se funciona para eles, então qual o problema? Não vejo problema com isso. O problema existiria se quiséssemos impor nossas visões teológicas uns sobre os outros, agredindo a dignidade da fé alheia. Durante os dois milênios de história cristã, tem havido cristãos que abraçam visões opostas para cada pormenor teológico imaginável e, provavelmente, enquanto o(s) Cristianismo(s) existir(em), sempre haverá, já que diferentes seres humanos articulam suas crenças de diferentes formas.

Grande abraço!

+Gibson


domingo, 14 de setembro de 2014

A hibernação da inteligência dos militantes da “religião civil”


A coisa mais triste a respeito do período eleitoral – e, em minha experiência, isso vale tanto para o Brasil quanto para os EUA – é que a inteligência de militantes partidários parece entrar em hibernação. Frequentemente, parece haver uma explicitação de incoerências entre o que geralmente afirmam, em outros momentos, e aquilo ou aqueles que tão vorazmente defendem em sua tola militância partidária.

Bem, como não devo favores políticos a absolutamente ninguém, me permitam ousar dizer o que penso sobre essa hibernação da inteligência militante. Utilizarei o padrão da língua portuguesa e, todos os pronomes, substantivos, adjetivos etc que aparecerem em sua forma masculina também se referem ao feminino.

Para iniciar, é importante deixar claro que, com a idade, background sociocultural, experiência de vida e formação que tenho, não acredito em heróis. Nenhum homem ou mulher que ocupe uma posição política é um herói ou salvador da pátria. No máximo, admiro uma certa posição política num dado contexto. Nem mesmo os autores filosóficos que me influenciaram, por exemplo, são ídolos intelectuais que reverenciaria de forma absoluta. Para mim, todos os “heróis” políticos têm pés de barro.

Isso já é suficiente para me separar desses ativistas que posam como intelligentsia política, afirmando sua religião civil, com seus dogmas políticos sacrossantos, seus rituais revolucionários e suas divindades partidárias (ao mesmo tempo em que, geralmente, condenam as pessoas que professam uma fé religiosa como se essas fossem seres irracionais e ignorantes).

Esses militantes partidários são os que idolatram certos personagens políticos nacionais ou d'alhures, colocando-os sobre altares, onde devem estar intocáveis. Esses ídolos políticos passam, então, por um processo de sacralização ainda em vida, e seus dizeres – independentemente de quão absurdos sejam – passam por um rápido processo de canonização e se tornam dogma da “religião civil” que esses ativistas partidários constroem.

A esta altura, já imagino que tenham dado uma face ao meu comentário (é... se você for um partidário do establishment do dia no Brasil, deve ter se ofendido e imaginado que me refiro a Lula da Silva). Bem, se a carapuça serviu, então que seja! Mas não me refiro apenas a ele, nem apenas ao Brasil. Abraham Lincoln, Getúlio Vargas, John F. Kennedy, Fidel Castro, Che Guevara, Ulysses Guimarães, Fernando Henrique Cardoso, Hugo Chávez, George W. Bush, Barack Obama, Dilma Rousseff, Eduardo Campos, Marina da Silva, Aécio Neves... escolha você mesmo um nome! Todos eles podem estar – e, de facto, estão – sobre o altar de algum devoto partidário.

Bem, se você já se irritou com minha metáfora religiosa, dê-me um desconto. Não consigo subtrair minha formação teológica da linguagem que escolho utilizar para falar daquilo que vejo como uma “religião civil”. Como um teólogo liberal, e como um ministro unitarista, frequentemente critico o dogmatismo cego. Então, você não pode esperar que não criticaria o dogmatismo cego da “religião civil” também.

Voltando ao fanatismo – não, me desculpem, à “hibernação da inteligência” – dos militantes partidários, lembrem-se do que tem ocorrido nos últimos doze anos no Brasil e nos últimos oito anos em Pernambuco.

O Brasil tem sido governado pelo PT desde 2003. O executivo federal tem contado com uma esmagadora aliança no Congresso Nacional, e nos governos e legislaturas estaduais. Os vassalos dos partidos de base dominam as estruturas da máquina pública, dos sindicatos e dos chamados movimentos sociais. Ou seja, o PT e seus aliados reinam quase que absoluta e inquestionavelmente. Mesmo que minha afirmação lhes irrite, isso é um fato.

Agora, pode realmente alguém, em sã consciência, acusar a inútil, ineficiente e patética “oposição” – na verdade, eles nem são dignos dessa alcunha – como os “culpados” pelo que não funciona no país? Que tipo de cegueira estúpida encobre a visão desses militantes partidários?

Só para que se recordem, quem governava o Brasil durante as últimas greves dos diferentes grupos de servidores federais? Eram os “conservadores”, a “direita”, os “fundamentalistas”? Bem, se você também vive no Brasil, terá de concordar comigo e reconhecer que era Dilma Rousseff, com o PT e seus aliados. E se você vive em Pernambuco, terá de reconhecer que nas últimas greves de diferentes grupos de servidores estaduais, era Eduardo Campos (ou seu substituto de última hora), com o PSB (que, na prática, era ele mesmo) e seus aliados.

A crítica, aliás, se estende aos governadores daquilo que por aqui chamam equivocadamente de “direita”, isto é o PSDB, e seus aliados do DEM; assim como de todos os outros partidos nacionais. Se me referi diretamente ao PT e ao PSB, é pelo simples fato de o Governo Federal estar com o PT há três mandatos, e o estadual em Pernambuco estar com o PSB há dois mandatos.

Como os militantes de todos esses grupos podem, honestamente, falar em “mudança”, em “será melhor” etc, quando esses partidos e aliados, e seus candidatos, estão no poder há tanto tempo e, na prática, sem oposição? Quem pode ser tão estúpido a ponto de não perceber que há algo errado na narrativa histórica feita por esses grupos de militantes partidários (de absolutamente todos os partidos)?

Recentemente, li comentários de treze pessoas afirmando que eu estava distorcendo a história quando sarcasticamente postei em minha conta do Twitter: “Em 2013, incendeiam o país protestando contra a corrupção; em 2014, fazem propaganda gratuita p/o Governo protestado... Quem entende isso?

Obviamente, não podia escrever mais que “contra a corrupção” em minha postagem, já que os limites do Twitter não permitiriam mais palavras. Os que se doeram com meu comentário eram militantes da “religião civil” do establishment. Eu, obviamente, havia ofendido a sacralidade de seus ídolos e de seus dogmas. Sua inteligência, aparentemente, fora atingida pelo estado de hibernação do período eleitoral.

Quando, em 2013, o populacho saiu às ruas para “protestar” (e destruir, e queimar, e roubar, e violar direitos, e desobedecer às leis, e desrespeitar a Constituição Federal, etc, etc, etc), contra quem protestavam? Contra alguma entidade imaginária ou contra quem detinha o poder? E quem detinha o poder? Se queriam mais “educação e saúde” e não a “Copa”, contra quem protestavam? Se queriam mais ações governamentais em nome dum “bem-estar social”, contra quem protestavam?... Bem, os militantes que me enviaram mensagens pensam que protestavam contra todos menos os seus respectivos partidos políticos! Não é brilhante isso?!... Para essas pessoas, eu sou ou um ignorante ou um manipulador à serviço “da direita”!... Bravo para eles! Não imaginam o quão envergonhado me sinto por sua letargia cognitiva!

Esses militantes da “religião civil” brasileira são os mesmos que exigem a punição dos envolvidos com a violência da ditadura anuladora das liberdades individuais, como a expressão de opinião, ao mesmo tempo em que exigem a criação de leis que limitariam a liberdade da imprensa que ousa opinar (independentemente do valor de sua opinião) contra as divindades partidárias. Curioso, não?!... Talvez, a melhor classificação para a atitude desses serviçais do Poder seja: HIPOCRISIA. Pura e simples!

O que essa gente não parece compreender é que os governantes e legisladores não nos fazem favores quando realizam obras de qualquer natureza – nas áreas de educação, saúde, segurança, cobertura social etc. Eles simplesmente cumprem a lei – isto é, quando o fazem. Assim, um partido político e um governante não são patriarcas da moralidade; eles são servidores dos cidadãos. Mesmo que, em meu caso, não se tenha votado em quem governa, a partir do momento em que ele ou ela sobe ao poder, estará lá para servir-me enquanto cidadão – e não apenas aos adeptos de sua “religião civil”. Logo, não fazem nada mais além de cumprir com sua obrigação constitucional.

É uma pena que esses militantes – isto é, aqueles que servem entusiasticamente como serviçais gratuitos da máquina eleitoral – não se deem conta das bobagens que gritam por aí, e do papel de tolos que fazem em nome de gente sedenta pelo poder!

+Gibson da Costa

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Oração dos feitores da Paz

Mistério Eterno,
tome esta minha voz e preenche-na com tua presença.
Que ela possa trazer esperança
a todas as pessoas que ouvirem-na.
Tome esta voz, ó Presença Eterna,
e preenche-na Contigo.

Ó Deus,
tome minha vida e preenche-na com tua paz.
Ajude-me a sempre dizer palavras de paz
e a ser um feitor de paz neste mundo.
Tome esta vida, ó Eterno,
e preenche-na Contigo.

Ó Pai de toda a Criação,
tome este lugar e faze dele um abrigo pacífico.
Que ele possa ser um domínio de Tua paz.
Tome este lugar, ó Deus da Vida,
e preenche-no com tua Presença de Paz,
para que seja um refúgio para todos aqueles que buscam
a Tua Paz.


+Gibson

Uma canção para inspirar... Hillsong United canta "Oceans"




Você me chama sobre as águas
O grande desconhecido onde meus pés podem falhar
E lá te encontro no mistério
Nos oceanos profundos
Minha fé continuará

E chamarei teu nome
e manterei meus olhos por sobre as ondas
quando os oceanos se elevarem
minha alma descansará em teu abraço
pois sou teu e tu és meu
 
Teu abraço abunda nas águas profundas
tua mão soberana
será meu guia
onde os pés falham e o mede me cerca
nunca falhaste e não será agora

Então chamarei teu nome
e manterei meus olhos por sobre as ondas
quando os oceanos se elevarem
minha alma descansará em teu abraço
pois sou teu e tu és meu

Espírito, me leve para onde minha confiança não tem limites
Deixe-me andar por sobre as águas
Para onde quer que me chames
Me leve para (um lugar) mais profundo do que meus pés poderiam vagar
E minha fé se tornará mais forte
Na presença de meu Salvador

Chamarei teu nome
manterei meus olhos por sobre as ondas
minha alma descansará em teu abraço
sou teu e tu és meu!

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Sobre o Unitarismo, parte 3


Caro Edgar,

Recebi sua mensagem esta manhã, e aqui tento responder, mais uma vez, aos seus questionamentos – sem esquecer que ainda tenho outras questões que não foram respondidas por falta de tempo.

Se pareço repetitivo, em alguns de meus comentários, é pelo simples fato de minhas respostas serem públicas e por, supostamente, muitos de meus leitores não estarem tão familiarizados assim com a história ou o pensamento teológico unitarista.

Já expliquei, neste blog, a razão pela qual respondo a questões teológicas de forma pública, mas vale repetir aqui. Como todos os questionamentos que frequentemente recebo dos visitantes deste blog se relacionam, majoritariamente, ao que leram aqui, então creio ser razoável supor que outras pessoas poderiam ter questionamentos semelhantes. Ademais, uma comunicação pública ajuda a evitar o alastramento de compreensões errôneas sobre algo que tenha escrito e publicado aqui: alguém poderá sempre se referir ao que escrevi publicamente, e eu não poderei dizer que não escrevi aquilo!

Você me compreende equivocadamente se pensa que tenho uma “antipatia pelo unitário-universalismo”. Não tenho uma “antipatia” pela tradição do Universalismo Unitarista (é assim que traduzo a expressão “Unitarian Universalism”) -, em termos de origens históricas, sou parte dessa tradição. Tenho críticas à maneira como a mesma é compreendida pelos, chamemos, “recém-conversos” à tradição e à maneira como uma tradição de fé se tornou apenas uma ideologia sociopolítica. Minha crítica é de natureza teológica e, especificamente, eclesiológica. No que concerne à fé e à teologia, vejo um grande problema quando se desconstrói demais, e não se constrói nada relevante e duradouro no lugar; quando se faz questão de abrir mão duma identidade própria para fazer com que os “novos” se sintam bem-vindos em nossa própria casa. Novamente, para que você compreenda isso, tem de se dedicar a compreender a história de nossas tradições de fé – assim compreenderia a natureza de minha crítica e de muitos outros.

O termo “Universalismo Unitarista” (ou “unitário-universalismo”, como queira), hoje, se refere a uma tradição desassociada de suas raízes cristãs. O termo Unitarismo, por outro lado, continua a ser – para nós cristãos unitaristas liberais – uma afirmação de nossa lealdade à tradição cristã liberal da qual nossa tradição emergiu. Isso não significa, entretanto, ser adepto de posições teontológicas (sobre Deus) ou cristológicas (sobre Cristo) específicas. O que significa, para mim, é que Universalismo Unitarista é diferente de Unitarismo, e diferente de Universalismo; o fato de haver emergido duma mescla das tradições unitarista e universalista não tornam a tradição “unitário-universalista” sinônimo daquelas duas, que são tradições cristãs. Isso é o que alguns chamariam de “fato” histórico!

Quanto a mim, como já discuti algumas vezes aqui, faço muita pouca questão de me identificar estritamente como membro desta ou daquela tradição cristã – isso em consequência de minhas múltiplas heranças cristãs. Se o faço aqui é para afirmar minha herança teológica. Prefiro reconhecer minha dívida para com todas essas tradições cristãs que moldaram minha fé pessoal (a anglicana, a unitarista, a universalista, a luterana); e, por isso mesmo, me identificar como um cristão livre. E mesmo essa atitude, que marca minha compreensão do Cristianismo, advém da própria tradição unitarista. James Martineau, por exemplo, um teólogo e ministro unitarista inglês do século XIX, usava o termo “cristão livre” com o sentido de ser livre duma imposição de ortodoxia religiosa – ele sugeria que os unitaristas deixassem de usar o adjetivo “unitarista” (que, lembre-se, fora imposto por outros que, equivocadamente, imaginavam que todos os unitaristas fossem adeptos duma compreensão teontológica e cristológica específica) como identificador, em favor da expressão “cristão livre”, que ele acreditava ser mais inclusiva. Assim, as igrejas “unitaristas” poderiam se tornar o lar de cristãos das mais diversas teologias, onde todos seriam bem-vindos. Resta dizer que isso, até certo ponto, realmente aconteceu, mas trouxe consigo um efeito indesejado para os cristãos unitaristas no mundo anglófono: a “descristianização” de nossa tradição. Nos Estados Unidos, especificamente, emergiriam outros movimentos nos meios unitaristas: O Movimento da Religião Livre, e o Movimento Humanista, que influenciariam a união entre as igrejas universalistas e unitaristas, e a formação daquilo que hoje é chamado de Universalismo Unitarista (que não deve ser confundido, em absoluto, com os tradicionais Unitarismo e Universalismo, enquanto tradições cristãs).

Logo, se você perceber, há paralelos entre o que ocorreu com o Movimento do Universalismo Unitarista ("UUismo") e o Unitarismo, um de seus berços. O Unitarismo se esforçou para demolir os edifícios que o separava de outras formas de Cristianismo liberal – assim, podemos ler, por exemplo, um batista como Harry Emerson Fosdick defender, no início do século XX, uma teologia liberal defendida pelos unitaristas há mais de um século, sem, no entanto, se identificar como unitarista; assim, me atrevo a dizer que unitaristas, universalistas, anglicanos, batistas, presbiterianos, e metodistas, por exemplo, ensinavam, na prática, a mesma coisa até meados do século XX (durante o auge da teologia liberal no meio protestante nos Estados Unidos). O “Uuismo”, posteriormente, foi além e derrubou o edifício teológico cristão para tornar-se uma tradição multirreligiosa, na qual, paradoxalmente, a própria identidade religiosa se tornaria sinônimo de quase nada – ou seja, na prática, a tradição do Universalismo Unitarista se fundamenta em negações a, e não em afirmações de. Algo semelhante ao universalismo multirreligioso do (polêmico) Rev. Kirby J. Hensley, fundador da “Igreja da Vida Universal”, cujo dogma era “fazer apenas aquilo que é certo”.

Por isso, faço questão de enfatizar que Universalismo Unitarista e Unitarismo (e Universalismo) não são idênticos. O Cristianismo é a raiz da qual emergiu a tradição unitarista – e também a universalista. Foi daí que emergiu nossa compreensão de Deus, de Jesus, das Escrituras, da dignidade humana, da liberdade espiritual e de consciência, etc. Nossa histórica compreensão de Deus se baseia nos ensinamentos das Escrituras judaico-cristãs sobre a unicidade de Deus. Nosso compromisso com a liberdade espiritual vem da noção de que “onde se encontra o Espírito do Senhor, aí está a liberdade” (2 Coríntios 3:17). Nossa crença na dignidade humana e, consequentemente, nossa história de inclusão radical se assenta sobre o espírito das Escrituras que dizem que “não há mais diferença entre judeu e grego, entre escravo e homem livre, entre homem e mulher, pois todos vocês são um só em Jesus Cristo” (Gálatas 3:28).

Ou seja, as afirmações unitaristas são afirmações cristãs. Nossas compreensões teológicas específicas podem não ser partilhadas por todos os cristãos, mas elas emergem das raízes cristãs. Sua linguagem é cristã, sua narrativa é cristã, sua identidade é cristã. E essa identidade é maior que nossas filiações eclesiásticas particulares – assim, os unitaristas que são membros de igrejas cristãs não-unitaristas não veem isso como um desafio a suas convicções (ao menos no mundo anglófono, já que no Brasil as filiações eclesiásticas tendem a estar atreladas à aceitação de afirmações teológicas específicas, e tendem a não permitir a duplicidade de membresia eclesiástica). Eu, como a maioria dos outros cristãos unitaristas que conheço – sejam eles, nos Estados Unidos, membros de congregações da UUA ou de outras igrejas unitaristas, ou da Igreja Episcopal, da Igreja Unida de Cristo; ou, no Brasil, membros de congregações especificamente unitaristas –, identifico um unitarista como um cristão liberal e livre, mas, mesmo assim, fiel à sua tradição de quase cinco séculos. Não preciso negar essa tradição para ser receptivo a outras pessoas. Prefiro estar aberto e receptivo a todos, ao mesmo tempo em que me mantenho fiel à minha identidade religiosa.

Estero ter conseguido responder à sua mensagem de hoje. Grande abraço!

+Gibson