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quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Céu, inferno, vida após a morte?


Um dos problemas mais presentes na vida de qualquer ministro religioso e professor de Teologia, como eu, é o problema da morte. Isso porque a morte, mais até do que o nascimento, se faz presente na vida de qualquer família, de qualquer comunidade, e a religião sempre serviu como uma forma de lidar tanto com o mistério como com a dor da morte.

Frequentemente me perguntam se acredito em vida após a morte – se acredito em "céu" e "inferno" –, e alguns dos que me questionam parecem se perturbar ou surpreender com o fato de eu, mesmo sendo um ministro religioso, dizer que o assunto me é indiferente. Hoje, gostaria de responder a alguns questionamentos feitos por um leitor de São Paulo – que, infelizmente, não assinou sua mensagem, mas indicou sua cidade.

Realmente, não me importo com questões referentes a uma suposta vida após a morte (o que inclui temas como “céu” e “inferno”). Minha tradição religiosa tende a se centrar numa ética [judaico]cristã, e não em dogmas teológicos sobre temas específicos. Assim, minha preocupação religiosa é com a vida, com as relações humanas e com a Criação, relações através das quais encontro o Divino (Deus). Meu Cristianismo está focado na prática duma eticidade ensinada nas Escrituras: amor ao próximo – através do qual se demonstra amor a Deus –, serviço, compaixão, perdão, a construção do “shalom” de Deus aqui e agora.

Tendo a encarar “céu” e “inferno” não como realidades objetivas, mas, antes, como metáforas que apontam para esperanças e/ou desesperos humanos. São parte duma linguagem teológica que reflete uma visão de mundo que não se concilia com minha compreensão do Universo. Por isso, são temas que não me interessam – com os quais não gasto meu tempo (a não ser que seja para discutir a história desses conceitos, como se desenvolveram e se tornaram parte do repertório teológico cristão).

O que ocorre após a morte não pode ser conhecido por nós – pode, apenas, ser especulado. E, entre especular sobre algo que não pode ser desvendado e saber como lidar com o conhecível, prefiro este último. Quando nos centramos em reflexões teológicas acerca da vida em sociedade, acerca de como nos relacionarmos com a Criação, sobre como a prática religiosa pode contribuir para construir paz e justiça no mundo agora, isso é saber lidar com o conhecível (aquilo que temos a capacidade de conhecer).

Portanto, se alguma vez eu falei/escrevi sobre “céu” ou “inferno” – o que não me lembro de ter feito até hoje, a não ser em estudos históricos –, o fiz unicamente em linguagem metafórica, simbólica, provocadora, e não como uma realidade objetiva.

Alguém poderia apontar trechos da Bíblia nos quais são feitas referências ao “céu” ou “inferno”. É verdade, estão lá. Mas, para minha tradição, Bíblia e Cristianismo não são sinônimos. A Bíblia é (apenas) uma das fontes teológicas do Cristianismo; além dela, temos a Razão, a Tradição e a Experiência. Quando analiso o tema na Bíblia à luz das demais fontes teológicas, o considero irrelevante.

Além disso, é importante ressaltar que não há, no Novo Testamento cristão, nenhuma visão coerente e amplamente compartilhada em todos os escritos sobre “céu” ou “inferno”. O que podemos encontrar são apenas pequenos fragmentos duma descrição do que seriam esses dois; não há nenhuma passagem longa onde “céu” ou “inferno” sejam descritos de forma clara e dogmática. A visão cristã da vida pós-mortal se desenvolveu a partir do contato entre o judaísmo rabínico, dos escritos canônicos cristãos, e da cultura greco-romana – e é por isso que é mais ampla a preocupação com o tema por parte dos Padres da Igreja do que dos próprios escritos canônicos do Novo Testamento.

Isso explica porque há compreensões tão distintas sobre o que acontece após a morte em cada uma das tradições cristãs do mundo. Cristãos ortodoxos, católicos romanos, luteranos, reformados, anglicanos, unitaristas, universalistas, restauracionistas, pentecostais, etc, abraçam visões diferentes sobre o que acontece após a morte e como. E essa variação de visões tem existido desde a origem do(s) Cristianismo(s).

Por essas e por outras razões, não posso afirmar absolutamente nada sobre uma suposta vida pós-mortal. Pessoalmente, não me preocupo com isso; não é um tema “essencial”. Isso não me torna uma pessoa “sem esperança” ou “perdido”. Para mim, é suficiente crer que a vida dos que morreram, de alguma forma, continua na terra. É nesse sentido que a vida pós-mortal funciona como uma metáfora. Acreditar que irei para o céu ou o inferno não influenciaria em absolutamente nada a minha vida: minha compreensão de Deus, de ética, da teologia cristã, da minha relação com os demais seres humanos e com a Criação, da dignidade e valor humanos é o que guia minhas ações – não uma [des]crença em punição ou recompensa eternas.

Respeito a opinião dos que aceitam esses aspectos especulativos da teologia cristã, mas, para mim, eles não possuem nenhuma relevância para minha relação com o Divino e/ou com o mundo social.

+Gibson

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Deus e minha ética espiritual: divagações teológicas

Frequentemente sou interpretado erroneamente por meus leitores ou ouvintes no que tange à minha compreensão do Divino e da fé religiosa. Compreendo que muito dessa confusão se deva ao meu (proposital) hábito de brincar com as palavras, às quais atribuo uma elasticidade que nem todos estão dispostos a atribuir; mas, por outro lado, também acredito que deva-se à falta de disposição que alguns têm de se esforçarem para entender o que penso.

Deus, enquanto noção, é uma dessas palavras que compreendo como possuidora duma elasticidade que estou disposto a explorar o quanto posso. Como tenho repetido há alguns anos, “Deus”, em minha compreensão, é a mais bela metáfora já criada pela mente humana; uma metáfora tão real para a experiência humana que, infeliz e contraditoriamente, chegamos a nos matar para defendermos nossas interpretações particulares dela.

Deus – o Divino, a Realidade, a Providência, o Eterno etc – é uma realidade inquestionavelmente presente em minha experiência pessoal. Não que eu compreenda esta realidade como sendo um Ser – Deus, para mim, não é um Ser. Deus também não tem uma natureza pessoal, apesar de eu não ter problema nenhum em fazer uso duma linguagem metaforicamente pessoal para referir-me ao Divino. Compreendo essa realidade como se tratando mais dum Processo Transpessoal do que duma pessoa. Mas essa é apenas minha interpretação pessoal – bem, na verdade, não propriamente “minha interpretação”, mas a interpretação de muitos outros que adotei (com minhas próprias adaptações) como minha.

Que diferença faz minha visão para a forma como escolho viver minha fé? Muita. As ideias ortodoxas sobre a relação entre Divino e humanidade, que se espelham, por exemplo, nas leis religiosas que regem o comportamento dos fieis, não fazem muito sentido para mim – isto é, se forem usadas como bases únicas para nossas escolhas comportamentais. Prefiro enxergar minha relação com a Criação – e, consequentemente, com Deus (não que eu equalize Deus à Criação; o que creio é que a Criação esteja no interior de Deus = “panenteísmo”) – como regida por uma “ética espiritual”. Essa “ética espiritual” consiste nas lentes através das quais interpreto minha relações com os demais seres e com o Divino.

Escolho acreditar que a “ética espiritual” judaico-cristã-islâmica, ou “jordânica” para abreviar (uso essa nomeclatura [tradição jordânica], em vez de “abraâmica”, como reconhecimento de que essas três fés irmãs se desenvolveram a partir das ideias teológicas desenvolvidas na região banhada pelo Rio Jordão), baseia-se na “regra de ouro”: fazer ao outro aquilo que esperamos para nós mesmos, demonstrando “amor” ao próximo como a nós mesmos, e assim, demonstrando que amamos a Deus. Chamo essa minha compreensão de “sola caritas” – novamente, esta não é “minha compreensão” no sentido de eu ser o originador da mesma, ela está enraizada na tradição jordânica. Consequentemente, é a maneira como me relaciono com os demais (incluindo aí o todo da Criação) o que realmente importa. Apesar de eu crer em (a realidade de) Deus, julgo ser possível abraçar uma “ética espiritual” sem factualizar uma metáfora como Deus – no que eu não estaria distante de minha própria tradição unitarista.

Hoje, para evitar o teologuês, tenho preferido usar o termo COMPAIXÃO, em lugar da frase latina que resume minha compreensão teológica. Minha fé pode melhor ser resumida como compaixão. É essa a base de minha fé pessoal, o alvo que intento para minhas ações. Acredito ser esse o caminho apontado pelos profetas, por Jesus, e por aqueles que testificaram sobre seus ensinamentos.

+Gibson