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domingo, 18 de março de 2018

Uma fé política?!


Esta semana, recebi um e-mail dum leitor furioso do Chronicle, que – dentre palavras que não ousaria repetir aqui – me “acusava” de ser um “esquerdista” que pregava o que ele chamou de “evangelho de Marx”, e não o de Jesus! Seus comentários pouco compassivos obviamente emergiram em decorrência do que eu escrevera sobre o brutal assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes, no Brasil, e do ativismo de estudantes pelo controle de acesso às armas de fogo, nos Estados Unidos.

O que escrevi, anteriormente, mantenho aqui. Nossas autoridades políticas e policiais falharam com Marielle e Anderson, e falham com a sociedade. E agora, mais do que nunca, deveríamos demiti-los. Isso porque não têm cumprido com suas obrigações enquanto agentes do Estado. Igualmente, somos todos culpados por seus crimes, já que deles não cobramos suficientemente por suas faltas e erros. Assim, temos nossas mãos sujas com o sangue de todos os que morrem em nossa sociedade: ou porque escolhemos erroneamente nossos governantes, ou porque não exigimos que façam o trabalho para o qual foram eleitos e pelo qual pagamos.

Foram essas as ideias que compartilhei e que levaram aquele leitor a fazer certas acusações contra mim. E, por educação, farei alguns esclarecimentos:

1. POLITICAMENTE: “Esquerdista”, para mim, não é um termo pejorativo; logo, chamar-me de tal não chega a ser uma ofensa. Na verdade, só evidencia que talvez aquele leitor devesse pesquisar um pouco mais o sentido do termo na teoria política. Politicamente, a propósito, sempre me identifiquei com um ideário “liberal democrata”; sempre fui um ardente partidário das liberdades civis, da separação entre Estado e Igreja, da resistência não violenta, da paz, dos direitos humanos, do respeito à vida de toda a Criação, da proteção àqueles que são agredidos pelos poderes deste mundo – e isso, sim, realmente me localizaria à esquerda no espectro político retilíneo (que, de qualquer forma, não é a maneira como retrato o mundo político ao meu redor). Essas ideias e escolhas que abraço, a propósito, não têm origem nos escritos de Marx – por cujo pensamento “positivista” sempre tive pouquíssima simpatia –; sua origem está em minha teologia política cristã, unitarista, não conformista (deveras “liberal burguesa” para ser caracterizada como “marxista”).

2. TEOLOGICAMENTE: Aquelas características de meu ideário político não advêm dos escritos de Marx ou de cartilhas políticas de partidos de “esquerda”. Elas são provenientes de minha teologia. Elas são a forma como aprendi a interpretar os ensinamentos tanto de minha herança judaica reformista quanto de minha fé cristã liberal. Não são invenção de Marx – apesar de poder encontrar muita proximidade com algumas de suas ideias –, e não são apenas ideários de partidos políticos. São, antes, a soma de séculos de reflexão por parte de pensadores religiosos e políticos, artistas, mães e pais, poetas, professores e tantos outros, cujas palavras e ações influenciaram a forma como compreendo o mundo. São ideias que estão presentes nos escritos sagrados e textos litúrgicos de minhas tradições religiosas, filtrados pelas lentes de meu meio sociocultural.

Os esclarecimentos acima não são uma justificativa para me afastar da visão que compartilho com meus irmãos e irmãs “esquerdistas” (para usar a linguagem daquele interlocutor). São, antes, uma tentativa de ensiná-lo e a outros que o mundo não é uma tela em preto e branco, mas sim uma mistura de diferentes cores em múltiplas tonalidades. Na verdade, fico muitíssimo feliz de encontrar pontos de concórdia com pessoas que, em outros assuntos, possivelmente discordariam de mim – e vice-versa. Fico feliz em misturar minhas cores às delas. Estarei sempre disposto a caminhar ao lado daqueles que buscam um mundo de concórdia, de paz, de compreensão, de compaixão, de vida – independentemente de sua localização em qualquer espectro político ou religioso.

O que realmente importa, em minha compreensão, não é a etiqueta que prendemos às nossas crenças e/ou descrenças. O que importa, o que realmente importa, é o que fazemos no dia a dia, é a forma como tratamos aqueles que compartilham este mundo conosco. Se não encontrarmos um meio de viver com a diferença, acabaremos nos matando uns aos outros e destruindo o que restou deste planeta. E isso seria a derrota definitiva de nossa “humanidade”.

Finalizo esta, compartilhando um trecho da Bíblia cristã que está sempre diante de mim, em meu escritório, para me lembrar de minhas promessas batismais e das promessas que fiz quando de minha ordenação:

Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, que age por meio de todos e está presente em todos.” (Efésios 4:6)

É, enfim, cuidando das pessoas que estão ao nosso redor que podemos encontrar o Divino. Esta é a única maneira de vivificar nossa fé e curar – ou, se preferir, “salvar” – o mundo!

+Gibson

domingo, 30 de abril de 2017

Continuemos como “shalomistas”!




O jejum que eu quero é este: acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer jugo; repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu, e não se fechar à sua própria gente. (Isaías 58:6-7)


Não nos considero pacifistas, mas “shalomistas”. E isso porque a paz não se limita apenas à renúncia da guerra e da violência, mas, antes, compreende a promoção e a associação àquilo que fomenta um mundo construído sobre aquilo que nossa tradição de fé chama de “shalom” divina: o domínio de honra ao valor e dignidade da humanidade e de toda a Criação.

Esse “shalom” implica comida para os famintos, água para os sedentos, lar para os desabrigados, vestimenta para o desnudo, companhia para os solitários, alívio para os que sofrem, ajuda para os mais fracos, perdão para os que erraram, justiça para os desprotegidos. Implica ação consciente contra aquilo que se opõe ao valor e dignidade do ser humano e da Criação. Implica desafiar os Impérios deste mundo, o ódio, a violência, a guerra, as armas, a corrupção. Exige uma mudança em nós mesmos.

Nossa objeção consciente à guerra, à violência, às armas e à colaboração com a guerra, com a violência e com as armas é uma forma de nos abstermos da participação nos Impérios deste mundo, e de nos juntarmos ao “domínio de Deus”. Nossa tradição religiosa nos ensina que quando matamos ou destruímos outros seres humanos, estamos matando e destruindo um reflexo de Deus. E nossa escolha do caminho de “shalom” se baseia nisso.

Essa é uma escolha impopular neste mundo. No mundo dos jogos violentos, no mundo dos filmes de “ação”, no mundo das armas, no mundo onde ser homem é se divertir machucando outros homens, no mundo onde odiar outras pessoas por conta de suas visões políticas ou religiosas é a norma, renunciar o caminho da violência para se relacionar com Deus e com outros seres humanos é estupidez ou sinal de fraqueza. E por isso, talvez, escolher o “shalom” seja o caminho menos popular, mesmo entre muitas pessoas religiosas. Mas este é o único caminho que nos salvará da conformidade com os Impérios do mundo.

Pretender ser um “shalomista” é difícil porque é radical. Às vezes, é deveras solitário, porque é impopular. E, mais do que frequentemente, é um desafio porque, aparentemente, não é natural – isto é, exige esforço, exige humildade, exige reconhecimento de minhas próprias incoerências. Mas é possível porque tantas outras pessoas o fizeram – Jesus o fez, e tantas e tantos de seus seguidores o fizeram.

Assim, conscientemente escolhamos continuar a seguir este caminho de “shalom”, o “shalom de Deus”. Com certeza, continuaremos a tropeçar inúmeras vezes, mas com a ajuda de outras e outros “shalomistas”, poderemos nos reerguer e voltar ao caminho.

+Gibson


sábado, 18 de março de 2017

Pela Resistência da Compaixão: um convite aos meus irmãos e irmãs judeus, cristãos e muçulmanos

Nossa época evidencia o quanto nossas tradições de fé têm sido sequestradas pela retórica do medo, da desconfiança, da intolerância, do fanatismo e do ódio. Outro dia, por exemplo, ouvi um pregador falar tão entusiasticamente da “ira de deus” que suas palavras me causaram náusea. Ele proclamava um suposto ódio de seu “deus” a todos aqueles que não abraçavam sua visão teológica – e o mais assustador é que se tratava de um pregador duma tradicional igreja cristã.

A retórica daquele cristão, infelizmente, é compartilhada por muitos outros cristãos, judeus e muçulmanos – além de irmãs e irmãos de outras tradições de fé. O Deus que nossas tradições proclamam como “amor” é substituído por um deus faccioso de ódio, violência e vingança. Abandonamos o Deus do Universo e nos apegamos ao deus nacional; trocamos o Deus do amor e da paz pelo deus das metralhadoras e da guerra.

Como sempre repito, rejeito a ligação entre Igreja/Religião e Estado – justamente porque essa ligação subentende uma deidade e uma fé nacionais, tribalistas. Isso, contudo, não equivale a dizer que minha fé não seja política. Tudo o que se estabelece na convivência entre seres humanos é político – e isso inclui, necessariamente, tanto nossas comunidades de fé quanto as convicções e práticas que os membros dessas comunidades partilham entre si.

Já imaginaram o quão político é o mandamento judaico, cristão e muçulmano de amar e cuidar dos demais humanos? E ele é “político” principalmente porque só pode ser cumprido através de nossa relação com outras pessoas. É convivendo com elas e nos portando de certa maneira para com elas que podemos cumprir o espírito de nossa fé. Essa é uma exigência das tradições de fé judaicas, cristãs e muçulmanas.

Nas Escrituras dessas três tradições, encontramos exemplos claros desses mandamentos. Quando nos voltamos à Bíblia Hebraica, por exemplo, encontramos:

Não explore o imigrante nem o oprima… Não maltrate a viúva nem o órfão… Se você emprestar dinheiro a alguém do meu povo, a um pobre que vive ao seu lado, você não se comportará como agiota: vocês não devem cobrar juros. (Êxodo 22:20-24)

Não faça declarações falsas e não entre em acordo com o culpado para testemunhar em favor de uma injustiça. Não tome o partido dos poderosos para fazer o mal. E, num processo, não preste depoimento inclinando-se em favor dos poderosos, a fim de torcer o direito; nem favoreça o poderoso em seu processo. Se você encontrar, extraviados, o boi ou jumento de seu adversário, leve-os ao dono. … (Êxodo 23:1-4)

No Novo Testamento cristão, encontramos:

Vocês ouviram o que foi dito aos antigos: 'Olho por olho e dente por dente!' Eu porém lhes digo: não se vinguem de quem faz mal a vocês. Pelo contrário: se alguém lhe dá um tapa na face direita, ofereça também a esquerda! Se alguém faz um processo para tomar de você a túnica, deixe também o manto! Se alguém obriga você a andar um quilômetro, caminhe dois quilômetros com ele! Dê a quem lhe pedir, e não vire as costas a quem lhe pedir emprestado. (Mateus 5:38-42)

Não paguem a ninguém o mal com o mal; a preocupação de vocês seja fazer o bem a todos. Se for possível, no que depende de vocês, vivam em paz com todos. … se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber… Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem. (Romanos 12:17-21)

Se alguém pensa que é religioso e não sabe controlar a língua, está enganando a si mesmo, e sua religião não vale nada. Religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em aflição, e manter-se livre da corrupção do mundo. (Tiago 1:26-27)

E se formos até o texto do Alcorão, lemos:

Em nome de Deus, o Compassivo, o Misericordioso. (1:1)

Piedoso é aquele … que dá dos seus pertences... aos parentes, aos órfãos, aos necessitados, aos viajantes, aos mendigos; é aquele que resgata os cativos, que faz suas orações e que paga a contribuição destinada aos pobres, que cumpre com suas obrigações e é resistente nas dificuldades, no infortúnio e no perigo. Esses é que são os crentes e os piedosos. (2:177)

E Deus ordena a justiça, o fazer o bem aos outros e a generosidade para com os parentes; e proíbe a indecência, o ilícito e a opressão. E Ele ordena que vocês se lembrem disso! (16:90)

Deus está com os piedosos e com os que fazem o bem. (16:128)

É hora de nos voltarmos àquela fé proclamada em nossos textos sagrados. A fé do serviço, do amor, da reconciliação, da paz, da compaixão. Essa fé é incompatível com a retórica de ódio e violência que tem se tornado a linguagem política e religiosa mais ouvida nos meios de comunicação. É uma questão de sobrevivência para nossa dignidade comunal.

Se nos calarmos diante do que acontece, nos tornamos cúmplices da insanidade e da imoralidade política deste mundo. Voltar as costas a quem sofre, fechar as portas aos desabrigados e famintos, se aliar aos poderosos, clamar por armas, apoiar guerras e cultuar o poder do dinheiro e das corporações é rejeitar tudo o que nossas tradições nos ensinam sobre o Divino e sobre a compaixão.

É hora de escolhermos que caminho seguiremos: o caminho da paz ou das armas? Do perdão ou da vingança? Da compaixão ou do ódio?

+Gibson