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quarta-feira, 26 de abril de 2017

Economia de mercado e reforma trabalhista: notas soltas dum liberal impaciente


Sempre compreendi que uma “economia livre” – isto é, aquela abstração ideológica que se refere a um sistema econômico no qual os consumidores podem escolher livremente de quem obter produtos e serviços, e no qual os produtores/provedores podem concorrer pela venda de seus produtos/serviços – seja a mais eficiente maneira de oferecer as melhores oportunidades e mais liberdade democrática aos cidadãos. Ainda estou convencido disso.

Entretanto, devo deixar claro que não compreendo a noção de “economia livre” como sinônimo necessário de “economia de mercado”. Essa segunda expressão me parece muito mais conectada à abstração de “mercado” como uma força a-histórica que regeria as relações sociais – e essa ideia me soa muita mais a um discurso ideológico dogmático do que a um retrato da realidade. Mais do que acreditar no “mercado” e defendê-lo, acredito no ser humano e defendo a sua liberdade e os seus interesses – e o “mercado” mais do que frequentemente não representa os interesses do ser humano e não corresponde à sua liberdade.

Lendo e ouvindo os argumentos a favor do tal projeto de reforma trabalhista em curso no Congresso brasileiro – imposto por um Executivo moralmente ilegítimo que abertamente tenta controlar o já desmoralizado Legislativo federal –, reconheço os traços dogmáticos da religião econômica neoliberal: para a qual o deus “mercado” é o senhor de tudo e de todos.

Os apóstolos da tal divindade insistem que “reformar” as leis trabalhistas – assim como as previdenciárias – é oferecer mais “liberdade” ao trabalhador. Abolir as leis antiquadas – e, sim, elas são até certo ponto deveras antiquadas (mas não são justamente os “conservadores” que pregam que o “antiquado” é o melhor?!) –, para eles, seria abrir novas oportunidades econômicas!… Minha pergunta é: Para quem, afinal?!

O “mercado” – o que é ele, afinal? –, em si, não é capaz de proteger os interesses dos consumidores, muito menos dos trabalhadores. É só olhar para as investigações da “Operação Lava Jato”. Não é justamente o “mercado” – nesse caso específico representado pelas grandes empreiteiras/construtoras brasileiras – que está sendo acusado pelo financiamento da corrupção política brasileira (e internacional)? Os discípulos crédulos das cartilhas econômicas de think tanks “direitistas” americanos – e, no Brasil, elas viraram moda entre um certo grupo de pessoas que tenta compensar seu parco poder socioeconômico com um ar de superioridade ideológica – dirão que isso não é o “mercado”, porque o “mercado” é “racional”; e, em resposta, direi: olhem ao seu redor!

Pense num/a trabalhador/a qualquer que não aceite as “propostas” (imposições) da empresa onde trabalha, de acordo com as regras trabalhistas agora em votação. O que aconteceria com ele/a se não as aceitasse e não tivesse as proteções da lei?... Ora, sofreria as consequências do “mercado”: se não quer as condições “propostas” (leia-se “impostas”), há muitos/as outros/as que as querem!

O fato é que, para que uma economia seja relativamente livre – especialmente no contexto brasileiro –, é indispensável haver leis de proteção ao trabalhador (e ao consumidor). O “mercado” sozinho é incapaz de proteger os interesses dos mais fracos (a saber, os trabalhadores e os consumidores), e isso é claramente demonstrável na história econômica do mundo contemporâneo – até porque o “mercado” não é uma entidade, é, antes, um artefacto humano.

É também verdade que os pequenos empreendedores sofrem como consequência duma burocratização excessiva, mas isso não pode ser desculpa para que o trabalhador comum perca certas proteções. O que seria desse trabalhador ou trabalhadora se não houvesse limites à exploração de seu labor por aquele que o/a emprega?... Estão os brasileiros prontos para viver como os trabalhadores americanos – em geral com pouquíssima proteção, com quase nenhum direito?... Pois é exatamente isso que o Executivo moralmente ilegítimo agora propõe: uma “americanização” (ou seria “americanalhação”, na linguagem do finado Paulo Francis) das relações de trabalho no Brasil – em outras palavras: se o trabalhador não aceita o que o empregador impõe, há outros que o aceitarão!

É isso, a propósito, o que pregam as cartilhas dos chamados “conservadores” americanos. E aqueles brasileiros que citei anteriormente recitam essas cartilhas como jovens recém-conversos recitam os livros sagrados de sua mais nova religião. O deus “mercado”, assim, se torna mais importante do que o ser humano e a sua condição!

É importante reconhecer que as leis trabalhistas são, sim, anacrônicas, e precisam ter certos aspectos atualizados. Mas não é interessante que os políticos brasileiros pensem no anacronismo das leis trabalhistas, mas não no anacronismo, por exemplo, das leis que regulam a vida eleitoral?... Esse, a propósito, é o perfil do político padrão brasileiro (e dos do resto do mundo): os princípios que valem para seus interesses não podem ser aplicados aos interesses da maioria dos cidadãos!

Resta-nos ver, nos dias que seguem, o que será do trabalhador brasileiro no império do “mercado”, no processo de “americanalhação” do ator mais fraco no cenário das relações de trabalho. Restarão os subempregos a la americana?! É esperar e ver!

+Gibson

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A Páscoa e o Caminho de Jesus: o caminho do amor, da justiça, do serviço, do perdão, da compaixão, da paz


Como um cristão, partilho com outros cristãos a centralidade de Jesus para minha compreensão da dimensão espiritual da existência e de minha relação com Deus. Como um cristão liberal, contudo, enfatizo outros aspectos da narrativa cristã acerca da vida de Jesus de Nazaré: para mim, Jesus é Salvador por conta de seus ensinamentos, de seus exemplos e de sua convocação para vivermos uma vida de compaixão, serviço, amor e paz radicais – ou seja, ele é meu Salvador por causa de sua vida, e não por causa de sua morte. É vivendo como ele – independentemente de os relatos a seu respeito serem factuais ou não – que somos salvos, e não apenas fazendo um esforço intelectual para acreditar em certas coisas a seu respeito.

Somos ensinados a encontrar Jesus e servir a Deus no mundo. Esse ensinamento é repetido todas as vezes em que saímos das celebrações da Eucaristia, quando recitamos aquela benção final – que, pessoalmente, levo muito a sério:


Cristo nasce em nós quando abrimos nossos corações à inocência e ao amor. Cristo vive em nós quando caminhamos a senda do perdão, da reconciliação e da compaixão. Cristo morre em nós quando nos rendemos à nossa própria arrogância, egoísmo e ódio. Cristo ressuscita em nós quando nossas almas se despertam da morte espiritual para se juntarem à comunidade de amor, para entrarem no reino divino no meio do mundo. Saiamos em paz. Amém.


Essas palavras sempre tiveram um poder incrível para me fazer refletir sobre o sentido de minha fé. Elas me relembram que minha fé deve ser expressa por meio de minhas ações, em minha vida com outras pessoas. Elas refletem aqueles dois pequenos trechos da Carta de Tiago, que aprendi a amar ainda na adolescência:


Se alguém pensa que é religioso e não sabe controlar a língua, está enganando a si mesmo, e sua religião não vale nada. Religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em aflição, e manter-se livre da corrupção do mundo. (Tiago 1:26-27)

Assim também é a fé: sem as obras, ela está completamente morta. (Tiago 2:17)


A fé dos seguidores de Jesus, o Cristo, é a fé que deve se materializar no mundo real, dentre outros seres humanos e com toda a Criação. Se é verdade que os seres humanos são “imagem” de Deus, então não há como servirmos a Deus sem servirmos aos outros seres humanos; se os seres humanos foram feitos “à imagem e semelhança” de Deus, então não há como amarmos ao Deus invisível sem amarmos aos seres visíveis, como bem nos ensina aquele trecho neotestamentário:


Se alguém diz: “Eu amo a Deus”, e, no entanto, odeia o seu irmão, esse tal é mentiroso; pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê. E este é justamente o mandamento que dele recebemos: quem ama a Deus, ame também o seu irmão. (1 João 4:20-21)


Apesar disso parecer uma simplificação do que é ser um discípulo de Jesus, posso afirmar – por experiência própria – que é o maior desafio que se pode enfrentar. Ser seguidor de Jesus significa, nesse contexto, tomar o seu “hodos” – o seu “caminho”, a sua “via” (em grego). Significa rejeitar tudo e todos os que oferecem um caminho paralelo que nos afaste desse “hodos” de Jesus.

Assim, nossa liturgia, novamente nos mostra que caminho é esse que nos comprometemos a trilhar quando nos tornamos parte da comunidade cristã – a Igreja. As promessas que fazemos na Aliança Batismal rezam:


Você permanecerá nos ensinamentos dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações?
Sim, com a ajuda de Deus.

Você perseverará na resistência ao mal e, sempre que pecar, se arrependerá e retornará ao Senhor?
Sim, com a ajuda de Deus.

Você proclamará, por meio de palavras e exemplo, as Boas Novas de Deus em Cristo?
Sim, com a ajuda de Deus.

Você buscará e servirá Cristo em todas as pessoas, amando o seu próximo como a si mesmo?
Sim, com a ajuda de Deus.

Você defenderá a justiça e a paz para todas as pessoas, e respeitará a dignidade de cada ser humano?
Sim, com a ajuda de Deus.


Com essas palavras, nos comprometemos a seguir o caminho de Jesus, ao mesmo tempo em que reconhecemos que não somos capazes de fazê-lo sozinhos. Afirmar que o faremos “com a ajuda de Deus” é afirmar que essa ajuda nos é concedida em comunidade, na “comunhão” da comunidade de fé – mas também na comunhão de todas aquelas pessoas que igualmente se comprometem a servir, a cuidar e a defender outros seres humanos.

E o que isso significa, no mundo real? Significa muitas coisas. Se olharmos para o mundo ao nosso redor, e nos lembrarmos das promessas que fizemos quando fomos batizados ou confirmados, e que reafirmamos todas as vezes que partilhamos da Eucaristia/Santa Comunhão, saberemos o que devemos escolher.

Será que virar as costas aos desempregados e mais pobres, supostamente em defesa da economia de mercado, está plenamente de acordo com as promessas que fizemos na Aliança Batismal ou com as passagens das Escrituras que falam sobre o amor e o cuidado para com o próximo?

Será que defender o direito ao porte de armas, apoiar guerras, expor ideias racialistas/racistas, fechar as fronteiras aos mais fracos, submeter-se a ideologias nacionalistas, dar voz à xenofobia, manifestar homofobia, ou discriminar pessoas por quaisquer outras razões está de acordo com os ensinamentos de nossa fé e com a Aliança que fizemos com Deus e com nossa comunidade de fé?

A única resposta que posso encontrar para essas perguntas é um retumbante “Não!”. Nenhuma ideologia política, nenhuma nação, nenhum partido, nenhuma organização (incluindo a própria igreja institucional), nenhuma religião, nenhuma etnia, nenhuma cor de pele, nenhuma orientação emotivossexual, nenhum sistema econômico, nenhum interesse corporativista, etc, é mais importante do que o ser humano e a Criação – que são a “imagem” de Deus.

Se isso soa político demais ao seu ouvido, resta-me reafirmar que a fé cristã é uma fé política. Ela só pode ser praticada em comunidade. Por isso ela é política. Os ensinamentos sobre amar ao próximo só podem ser materializados em nossas relações, na Igreja e no mundo. E todos os que ensinam algo que contradiz esse ensinamento básico da fé cristã, de amor e serviço ao próximo, só podem estar errados – ou, do contrário, eles estão certos e as Escrituras e a tradição cristã estão erradas!

Minha oração é que nesta Páscoa nos lembremos do “caminho” de Jesus. Que nos recordemos das promessas que fazemos na Aliança Batismal. Que nos lembremos que não podemos, coerentemente, “servir a dois senhores” opostos.

Deus nos ajude a seguirmos o caminho do Nazareno: o caminho do amor, da justiça, do serviço, do perdão, da compaixão, da paz.

Feliz Páscoa e bençãos a todas e todos!

+Gibson


sábado, 18 de março de 2017

Pela Resistência da Compaixão: um convite aos meus irmãos e irmãs judeus, cristãos e muçulmanos

Nossa época evidencia o quanto nossas tradições de fé têm sido sequestradas pela retórica do medo, da desconfiança, da intolerância, do fanatismo e do ódio. Outro dia, por exemplo, ouvi um pregador falar tão entusiasticamente da “ira de deus” que suas palavras me causaram náusea. Ele proclamava um suposto ódio de seu “deus” a todos aqueles que não abraçavam sua visão teológica – e o mais assustador é que se tratava de um pregador duma tradicional igreja cristã.

A retórica daquele cristão, infelizmente, é compartilhada por muitos outros cristãos, judeus e muçulmanos – além de irmãs e irmãos de outras tradições de fé. O Deus que nossas tradições proclamam como “amor” é substituído por um deus faccioso de ódio, violência e vingança. Abandonamos o Deus do Universo e nos apegamos ao deus nacional; trocamos o Deus do amor e da paz pelo deus das metralhadoras e da guerra.

Como sempre repito, rejeito a ligação entre Igreja/Religião e Estado – justamente porque essa ligação subentende uma deidade e uma fé nacionais, tribalistas. Isso, contudo, não equivale a dizer que minha fé não seja política. Tudo o que se estabelece na convivência entre seres humanos é político – e isso inclui, necessariamente, tanto nossas comunidades de fé quanto as convicções e práticas que os membros dessas comunidades partilham entre si.

Já imaginaram o quão político é o mandamento judaico, cristão e muçulmano de amar e cuidar dos demais humanos? E ele é “político” principalmente porque só pode ser cumprido através de nossa relação com outras pessoas. É convivendo com elas e nos portando de certa maneira para com elas que podemos cumprir o espírito de nossa fé. Essa é uma exigência das tradições de fé judaicas, cristãs e muçulmanas.

Nas Escrituras dessas três tradições, encontramos exemplos claros desses mandamentos. Quando nos voltamos à Bíblia Hebraica, por exemplo, encontramos:

Não explore o imigrante nem o oprima… Não maltrate a viúva nem o órfão… Se você emprestar dinheiro a alguém do meu povo, a um pobre que vive ao seu lado, você não se comportará como agiota: vocês não devem cobrar juros. (Êxodo 22:20-24)

Não faça declarações falsas e não entre em acordo com o culpado para testemunhar em favor de uma injustiça. Não tome o partido dos poderosos para fazer o mal. E, num processo, não preste depoimento inclinando-se em favor dos poderosos, a fim de torcer o direito; nem favoreça o poderoso em seu processo. Se você encontrar, extraviados, o boi ou jumento de seu adversário, leve-os ao dono. … (Êxodo 23:1-4)

No Novo Testamento cristão, encontramos:

Vocês ouviram o que foi dito aos antigos: 'Olho por olho e dente por dente!' Eu porém lhes digo: não se vinguem de quem faz mal a vocês. Pelo contrário: se alguém lhe dá um tapa na face direita, ofereça também a esquerda! Se alguém faz um processo para tomar de você a túnica, deixe também o manto! Se alguém obriga você a andar um quilômetro, caminhe dois quilômetros com ele! Dê a quem lhe pedir, e não vire as costas a quem lhe pedir emprestado. (Mateus 5:38-42)

Não paguem a ninguém o mal com o mal; a preocupação de vocês seja fazer o bem a todos. Se for possível, no que depende de vocês, vivam em paz com todos. … se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber… Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem. (Romanos 12:17-21)

Se alguém pensa que é religioso e não sabe controlar a língua, está enganando a si mesmo, e sua religião não vale nada. Religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em aflição, e manter-se livre da corrupção do mundo. (Tiago 1:26-27)

E se formos até o texto do Alcorão, lemos:

Em nome de Deus, o Compassivo, o Misericordioso. (1:1)

Piedoso é aquele … que dá dos seus pertences... aos parentes, aos órfãos, aos necessitados, aos viajantes, aos mendigos; é aquele que resgata os cativos, que faz suas orações e que paga a contribuição destinada aos pobres, que cumpre com suas obrigações e é resistente nas dificuldades, no infortúnio e no perigo. Esses é que são os crentes e os piedosos. (2:177)

E Deus ordena a justiça, o fazer o bem aos outros e a generosidade para com os parentes; e proíbe a indecência, o ilícito e a opressão. E Ele ordena que vocês se lembrem disso! (16:90)

Deus está com os piedosos e com os que fazem o bem. (16:128)

É hora de nos voltarmos àquela fé proclamada em nossos textos sagrados. A fé do serviço, do amor, da reconciliação, da paz, da compaixão. Essa fé é incompatível com a retórica de ódio e violência que tem se tornado a linguagem política e religiosa mais ouvida nos meios de comunicação. É uma questão de sobrevivência para nossa dignidade comunal.

Se nos calarmos diante do que acontece, nos tornamos cúmplices da insanidade e da imoralidade política deste mundo. Voltar as costas a quem sofre, fechar as portas aos desabrigados e famintos, se aliar aos poderosos, clamar por armas, apoiar guerras e cultuar o poder do dinheiro e das corporações é rejeitar tudo o que nossas tradições nos ensinam sobre o Divino e sobre a compaixão.

É hora de escolhermos que caminho seguiremos: o caminho da paz ou das armas? Do perdão ou da vingança? Da compaixão ou do ódio?

+Gibson


sábado, 4 de março de 2017

Cristianismo e masculinidade: uma brevíssima resposta


Não, o Jesus das Escrituras não convida os homens a serem mais “masculinos”, nem as mulheres a serem mais “femininas” – seja lá o que esses termos signifiquem nas teologias daqueles que defendem essa visão –; antes, ele convida homens e mulheres a serem como ele. Assim, esse Jesus exige que seus seguidores – homens e mulheres – sejam mansos, gentis, humildes, compassivos, caridosos, corajosos, justos, humanos. Isso é completamente diferente desse discurso centrado no binômio masculino-feminino, que tem dominado a mentalidade bélica dessa pobre teologia política (agora na moda), herdeira da “Guerra Fria”.

+Gibson

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

O pecado patriótico

Hmmm... Para mim, o patriotismo e o nacionalismo são pecados: eles colocam o Estado-nação à frente do ser humano e, assim, a criação do homem se torna mais digna e mais valorosa do que a "criação divina".

Deus nos salve do patriotismo e do nacionalismo!

+Gibson

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Novamente, a verdade


Para responder, de forma muito breve, a uma pergunta que me foi feita:

Como alguém que trabalha nos campos da História, da Teologia e da Filosofia, realmente não acredito que a História, a Teologia ou a Filosofia nos ajudem a encontrar a “verdade”. O que elas podem fazer é nos ajudar a compreender a “mudança” e a elaborar e organizar “conceitos”. Mas nem a “mudança” nem os “conceitos” são “a verdade”. Se é “a verdade” que buscamos, é muito mais provável que a encontremos na poesia, na ficção, nas artes em geral e nas relações com outros seres humanos (que chamo de “espiritualidade”) – expressões essas que transcendem as limitações de nossa humanidade. A “verdade” sobre a dimensão misteriosa de nossa existência, sobre o Sagrado, assim, não se encontra nos conceitos humanos – nesses conceitos encontramos apenas pistas que apontam para um caminho, e não a “verdade” em si.

+Gibson

domingo, 22 de janeiro de 2017

Professando minha "fé"


Assim também é a fé: sem as obras, ela está completamente morta. […] Mostre-me a sua fé sem as obras, e eu, com as minhas obras, lhe mostrarei a minha fé.” (Tiago 2:17-18)

Frequentemente, as pessoas demonstram uma enorme preocupação com a “crença” enquanto cerne da fé religiosa. Para eles, a “” consiste numa função intelectual de aceitação duma formulação de crença correta (a “ortodoxia”). Sua “fé” define-se pelas coisas nas quais declaram acreditar – e mesmo que não tenham consciência disso, enfatizam aquele aspecto da fé chamado em latim, na tradição teológica luterana, de “assensus” (que se refere ao ato de assentir, concordar, aprovar). Isso é demonstrável, por exemplo, nas inúmeras vezes que outras pessoas me perguntam no que creio. Elas esperam que eu professe uma lista de declarações fixas sobre diferentes aspectos teológicos, para que, assim, possam avaliar minha “fé” como “ortodoxa” ou “herética”.

Esperar que eu professe uma compreensão intelectual acabada da Realidade de Deus, da dimensão misteriosa ou dum porvir eterno não funciona para minha fé pessoal. Sou um cristão moldado por diferentes tradições cristãs, ordenado ao sacerdócio/ministério de cinco diferentes comunhões cristãs, e minha teologia pessoal é cada vez mais abençoada pela influência de outras tradições – cristãs ou não. Minha relação com amigos de outras tradições religiosas me ensina o quanto temos em comum e me faz compreender a “verdade” religiosa como algo que se encontra além de qualquer função intelectual.

Gosto de pensar que minha fé é multitradicional, isto é, bebe duma catolicidade mais extensa do que os limites de qualquer comunhão denominacional. Assim, meu unitarismo se entrelaça ao meu anglicanismo que aprende com meu luteranismo que se ilumina com meu restauracionismo que se pacifica com meu quakerismo que se integram à minha herança judaica liberal. De todos eles, e de minha herança cultural, emerge minha compreensão do Sagrado – que inclui não apenas Deus, mas também a humanidade e o todo da criação. Assim, o aspecto intelectual de minha fé não pode ser descrito como algo acabado, imutável; minha compreensão de fé, minha teologia, é, antes, um processo, um caminho, uma via.

Acredito em revelação, que “Deus ainda está falando”, como diz o slogan de uma de minhas denominações. Só que isso pode significar algo totalmente diferente do que alguns poderiam pensar. Nunca ouvi, literalmente, a “voz de Deus” – ou seja, nunca ouvi uma voz mensurável falando comigo, vinda do céu. Mas, ainda assim, julgo ouvir a voz divina: a ouço quando me sinto compelido a ouvir alguém que precisa ser ouvida(o); a ouço quando escuto uma música que me inspira ou consola; a ouço quando sou inspirado por alguém a fazer o que certo; a ouço quando alguém me oferece o consolo que eu preciso. Esse tipo de audição é o que chamo de “influência divina” ou “presença do Espírito Santo”. Essa Presença divina é aquela influência que me convida a participar do “Tikkun olam” (a restauração, reparo, cura do mundo), ensinado por minha herança judaica liberal, ou da construção de “Sião” (comunidade de compaixão, solidariedade e honra do valor e dignidade de todas as pessoas), como ensina minha tradição cristã restauracionista.

É isso que prefiro enxergar como minha fé. Menos uma crença, e mais uma esperança que me compele a tornar o aqui e agora no templo para a habitação do Divino. Menos uma lista de declarações sobre o desconhecido, e mais um desafio para tornar toda a minha vida uma manifestação de minha “fé”. E confesso publicamente, aqui, que essa é a coisa mais difícil que se pode tentar – mas é um desafio transformador!

Como um unitarista, é óbvio que me ocupo da intelectualização de minha “fé”. Essa é também, a propósito, parte de minha ocupação no ministério religioso e no ensino teológico. Mas me preocupo muito mais em viver minha “fé” do que em articulá-la intelectualmente. Em minha tradição anglicana, temos uma expressão para isso: “lex orandi lex credendi” – a lei da oração [é] a lei da crença – ou seja, é na oração que expressamos nossa crença; e como nossa própria vida deve ser uma oração, é na forma como vivemos nossas vidas que expressamos nossa crença teológica (como bem afirma o autor da Carta de Tiago).

+Gibson

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Jesus, Cristianismo e Política: um protesto


Eu confesso que cada vez mais me escandalizo com a incoerência e irrelevância do “testemunho” explicitado por aqueles que se apresentam como “verdadeiros cristãos”, “crentes bíblicos”, “católicos devotos” nas redes sociais. Essa legião de gritadores de refrões políticos – com máscaras de devoção religiosa – sequestram o vocabulário cristão a fim de legitimar seu fanatismo político reacionário, e acabam fazendo o contrário do que dizem defender: transformam seu suposto Deus, seu suposto Cristo e sua suposta fé num artefato de violência, de egoísmo, de maldade e de subserviência aos “poderes deste mundo”.

Isso fica claro, por exemplo, no caso da bajulação patética à figura do novo Presidente eleito dos Estados Unidos por parte desses tolos brasileiros. Os autoproclamados “servos de Deus” defendem a figura de Donald Trump – o grande idiota que utiliza impropérios e agressividade contra a dignidade humana como baluarte padrão de sua relação com o público – como se fora um novo messias enviado para salvá-los dos anjos do mal. Da mesma maneira, defendem o idiota nacional da mesma estirpe (i)moral, Jair Bolsonaro, como se o mesmo fosse uma espécie de retorno a uma “moralidade” que nunca existiu.

É vergonhoso! Faz-me pensar nas palavras atribuídas a Jesus, pelos autores do Evangelho de Mateus: “[...] Pois eu garanto a vocês: os cobradores de impostos e as prostitutas vão entrar antes de vocês no Reino do Céu.” (Mateus 21:31b)

O que teria a mensagem atribuída a Jesus de Nazaré pelos autores dos Evangelhos a ver com as mensagens de Donald Trump ou Jair Bolsonaro? Ou melhor ainda, o que teria o Jesus daqueles textos a ver com qualquer um dos políticos do mundo?

O que Jesus tem a ver com pena de morte e posse de armas? Sim, aquele Jesus que supostamente ensinou que deveríamos amar aos nossos inimigos; o mesmo Jesus que ensinou que seu reino não era deste mundo.

Querem defender suas ideias de reação à cultura liberal? Façam-no explicitando que suas ideias saem de seus próprios medos e preconceitos, dos manuais políticos dos séculos XVIII e XIX que acabaram de descobrir, dos ideários de simpatizantes da ditadura pelos quais nutrem simpatia, dos vídeos de pseudofilósofos emigrados e dos blogs de gente que lê pouco. Não falsifiquem sua proclamada fé – ao fazê-lo, vocês, além de desqualificarem sua visão política, sabotam a mensagem política da tradição cristã.

O Jesus refugiado, que exaltou “estrangeiros” em sua prédica; o Jesus que quebrou uma tradição androcêntrica ao mencionar o mundo e as relações femininas em seus ensinamentos; o Jesus que, como judeu, preocupa-se em seus ensinamentos com o pobre, o fraco e o oprimido; o Jesus que transforma a criança no símbolo daquilo que seus seguidores devem ser; o Jesus que rejeita a revolução sanguinolenta, a violência e os poderes deste mundo. Esta é a figura “política” que se pode extrair das narrativas sobre Jesus: não a imagem de alguém que defende o capitalismo ou o socialismo; a homofobia ou o movimento LGBT; o machismo ou o feminismo. As palavras atribuídas a Jesus proclamam o amor à humanidade e a Deus: não o amor ao capital, ao ódio e às armas!

+Gibson

sábado, 24 de dezembro de 2016

Um significado para a narrativa do Natal


Frequentemente, utilizo as palavras “metáfora” e “mito” para me referir às narrativas bíblicas. Por conta disso, já me acostumei às reações que muitas pessoas têm a esse uso. Muitos, por exemplo, podem não se sentir desconfortáveis com o termo “metáfora”, mas reagem negativamente ao termo “mito” por compreendê-lo erroneamente: entendem “mito” como sinônimo de “mentira”; assim como entendem “verdade” erroneamente como sinônimo, apenas, de “factualidade”. Eu, obviamente, continuarei a utilizar esses termos para tratar de três grandes “mitos” cristãos – as narrativas sobre o nascimento, a morte e a ressurreição de Jesus de Nazaré – e hoje, especificamente, gostaria de tratar acerca do mito do Natal de Jesus.

No estudo da religião e da teologia, um “mito” não é uma “mentira”. Mitos sagrados, como aqueles que encontramos na Bíblia, por exemplo, são narrativas simbólicas sobre a relação entre a dimensão sagrada e aquela de nossa experiência comum. Esses mitos são verdadeiros, mesmo que não sejam relatos factuais do que aconteceu na realidade humana. Sua verdade encontra-se além de sua (não) factualidade. Mesmo que a linguagem utilizada na Bíblia cristã para falar sobre o nascimento de Jesus – uma mãe virgem, três reis do Oriente, uma nova estrela, etc – não represente factualidades históricas, isto é, coisas que factualmente aconteceram no mundo físico, ela aponta para o significado que Jesus tem para a narrativa cristã. É nesse sentido que – acompanhando autores como Rudolf Otto, Mircea Eliade, William James e Marcus J. Borg – chamo esses relatos de “mitos”.

Obviamente, talvez a maioria dos cristãos abrace uma interpretação apresentada como “literal” (ou seja, o que “está escrito” deve ser compreendido exatamente como está expresso no texto) – apesar de que, se formos intelectualmente íntegros, deveremos reconhecer que absolutamente ninguém razoável interpreta o todo das Escrituras Sagradas de forma literal, já que toda interpretação é sempre seletiva (mesmo as mais aparentemente “literais”). Assim, muitos cristãos insistirão que não é possível “ser cristão” sem acreditar na literalidade das narrativas bíblicas sobre o nascimento de Jesus, por exemplo. Essa visão factualista das Escrituras tem uma origem moderna, mas foi naturalizada de tal forma, por tantos cristãos, que nossa cultura a vê como a norma, ignorando as diferentes tradições interpretativas da Igreja cristã.

A necessidade de certezas absolutas, para aqueles que compreendem a história como um conflito entre a “verdade” e a “mentira”, faz com que só possa haver duas possibilidades: ou o nascimento de Jesus se deu como dizem os diferentes relatos do Novo Testamento cristão ou esses relatos são mentirosos – o que muitas dessas pessoas não se dão conta é que todos os relatos nos Evangelhos canônicos são diferentes, por mais que mantenham elementos em comum. Assim, o que se perde – com essa ênfase factualista – é o poder da linguagem metafórica que enriquece os elementos factuais da narrativa natalina. A arte linguística da metáfora, presente naquelas narrativas bíblicas não exige nossa “crença”: exige, sim, nossa “visão”; ou como já escreveu o falecido professor Marcus J. Borg: “O ponto não é acreditar em uma metáfora, mas ver à luz dela” (2001: 41).

“Ver à luz” da metáfora natalina é, em minha experiência espiritual, ser circundado por uma melodia que me convida à dança divina – uma dança que honra minha própria humanidade ao despertar em mim um senso de dependência e de compaixão. Esse senso não significa que eu tenha, de alguma forma, me “aperfeiçoado”; significa, sim, que sou ajudado a reconhecer a necessidade de me aproximar do “divino” através da aproximação a outras pessoas e ao resto da Criação.

Assim, pensar na narrativa dum “príncipe da paz” que nasceu em condições de exclusão (Lucas 2:7) e sob a ameaça da violência e que, por isso, teve de se refugiar em terra estrangeira (Mateus 2:13-15) – independentemente da (não) factualidade do relato – me faz pensar naqueles seres humanos que, hoje, realmente passarão o Natal se refugiando da violência humana. Esses seres humanos, para mim, são também “Deus conosco”, já que são a presença divina testemunhando contra nosso pecado de violência e indiferença ao sofrimento humano. O relato mais que factual sobre o nascimento do menino chamado de o “príncipe da paz”, no meu “ver à luz” da metáfora, é um lembrete de que eu – enquanto discípulo professo daquele personagem – não posso aceitar que outros seres humanos sejam tratados indignamente. Afinal, como diriam as palavras atribuídas àquele mesmo menino, já como adulto, “todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram” (Mateus 25:40).

Assim, ser envolto pela melodia narrativa do Natal é ser relembrado da visão de “shalom”/”salam” presente nas Escrituras. A visão de um menino que vem à terra como o “Deus conosco” e mostra que todos os seus “irmãos” são também “Deus conosco”, e que devemos tratá-los como trataríamos aquele que chamamos de nosso “Salvador”.

As celebrações desta noite são, para mim, um lembrete desta tarefa sagrada que nos foi imposta por nosso Profeta, Mestre, Messias, Senhor – sim, Jesus de Nazaré, chamado de Cristo. Esse é um dos mais importantes sentidos que encontro na narrativa natalina: um convite à “divinização” de toda a vida, de toda a humanidade, de toda a Criação – um lembrete de que Deus se faz presente em minha vida por meio de outras pessoas, de que suas faces são um reflexo da Presença divina e daquele que seria chamado de “Filho do homem”.

Minha sincera oração é que todos nós que professamos ser discípulos de Jesus Cristo tenhamos a ousadia de fazer ao nosso próximo o que faríamos a ele próprio. Que nos levantemos contra a violência, o descaso, a indiferença, o egoísmo e entremos naquela dança divina à qual somos convidados pelos cânticos natalinos. Como dizem as palavras daquela Oração de Despedida:

Cristo nasce em nós quando abrimos nossos corações à inocência e ao amor. Cristo vive em nós quando caminhamos a senda do perdão, reconciliação e compaixão. Cristo morre em nós quando nos rendemos à nossa própria arrogância, egoísmo e ódio. Cristo ressuscita em nós quando nossas almas se despertam da morte espiritual para se unirem à comunidade de amor, para entrar no reino divino aqui mesmo neste mundo. […]”

Feliz Natal a todos. Que a metáfora da narrativa natalina possa ajudar-nos a abrirmos nossos corações e a caminharmos a senda de Jesus.

+Gibson


Referência:

BORG, Marcus J. Reading the Bible again for the first time. Nova York: HarperCollins, 2001.


sábado, 17 de dezembro de 2016

Confissão e oração de Advento


Amo o simbolismo do Natal, apesar de não compreender a narrativa natalina como um relato histórico factual. Obviamente, para mim, sua concepção não foi virginal e não houve, literalmente, uma estrela nova no céu anunciando o nascimento do menino Jesus. O bebê, plenamente humano, seria posteriormente mergulhado no mito que o deificaria como a encarnação literal de Deus; e ser cristão, para os novos “ortodoxos” – especialmente a partir do século XX –, seria sinônimo de acreditar naquela narrativa metafórica neotestamentária como se fora o relato de uma factualidade inquestionável.

As narrativas bíblicas são um misto de memória histórica e linguagem metafórica. E como um cristão liberal, preocupo-me muito mais com outros aspectos da memória histórica metaforizada pela linguagem dos autores dos Evangelhos do que aquela duma concepção sobrenatural e nascimento anunciado por anjos e estrela. Jesus como “mamzer”, como refugiado, como perdoador, como desafiador duma cultura androcêntrica ao incluir o mundo feminino em sua linguagem, como praticante de suas palavras: esse Jesus plenamente humano personifica o símbolo da Divindade e, assim, pode ser visto e sentido como “Deus conosco”. Mas essa personificação é uma metáfora – uma verdade que se encontra apenas além da factualidade.

É a humanidade de Jesus, mais do que a divindade do Cristo, o que continua a me alimentar espiritualmente na tradição cristã. O Nazareno, posso amar plenamente: afinal, ele é humano como eu. E, enquanto humano, personificou a presença divina para os seus seguidores. O Cristo etéreo dos cristãos helenistas – construído para conseguir o respeito de intelectuais gregos – não me interessa tanto. Prefiro o rabino galileu. Ele é mais desafiador. É o seu nascimento que celebro no Natal: o homem que me ensina a ser humano e, assim, a transformar o aqui e agora no “basileia tou theou” [o reino/domínio de Deus] dos Evangelhos.

Sim. Vem Jesus; vem Cristo: em minhas ações, em minhas palavras, na forma como vivo minha vida e em como me relaciono com as outras pessoas e com o resto da Criação. Vem na forma como trato os diferentes de mim e os mais fracos. Vem para que eu também saiba compartilhar o meu pão com os famintos. Vem em meu rosto e mãos para receber o forasteiro. É minha oração de Advento. Amém.

+Gibson