sábado, 7 de novembro de 2009

Verdade Relativa?

Um desconhecido enviou-me uma mensagem que demonstrava uma certa preocupação com o que ele chamou de “relativização da verdade” - o fato de o cristianismo liberal não pregar uma “verdade absoluta”, válida para todos os tempos.


Por uma razão bem compreensível, o termo “relativo” soa muito negativo aos ouvidos de cristãos ditos “tradicionais” (devo dizer que esta forma de identificação soa extremamente simplista e ingênua, já que eu mesmo me vejo como um cristão tradicional – um cristão tradicional liberal, é verdade, mas tradicional assim mesmo! Seja como for, por falta de termo mais abrangente, utilizarei este mesmo.), tendo para alguns o mesmo sentido de “mentira”. Então quando falo em alguns ensinos ou tradições cristãs como sendo uma “verdade relativa” (ou mesmo uma “verdade metafórica”), alguns pensam que com isso queira dizer que são mentira pura e simples.


Uso “relativo” com o sentido de “relacionado”, ou seja, as declarações de crenças dos primeiros cristãos, contidos no Novo Testamento, nos credos, etc, não são um conjunto de verdades absolutas válidos para todos os tempos e lugares; são, antes de tudo, a maneira como aqueles primeiros cristãos deram voz às suas convicções a respeito das coisas que pareciam ser mais importantes para eles. São verdades relativas por estarem relacionadas ao seu tempo e circunstâncias. Algumas daquelas declarações, se entendidas como verdades absolutas e incontestáveis, não fazem o mínimo sentido para muitas pessoas ou sociedades hoje em dia, e seriam e são rejeitadas como algo primitivo. Entretanto, quando se olha para aquelas declarações como um produto humano, condicionado por seu tempo e pelas circunstâncias que cercavam seus autores, ao mesmo tempo em que se reconhece a “inspiração” divina lá, podemos compreender mais plenamente sua importância.


O desconforto que aquele correspondente desconhecido sente com a noção de “verdade relativa” ou “verdade metafórica” tem mais a ver com sua própria compreensão de “inspiração” – como demonstrado ao longo de sua mensagem. Para ele, as palavras da Bíblia são palavras inspiradas por Deus – em sua visão, Deus, de alguma forma, ditou as palavras aos autores dos textos bíblicos.


Para nós, cristãos liberais, entretanto, a inspiração se refere ao mover do Divino nas vidas dos autores dos textos bíblicos, e na resposta que essas pessoas e comunidades deram a esse mover divino. No primeiro século, e em todos os séculos subsequentes, a igreja deu sua resposta ao que sentia ser o mover de Deus entre eles; e hoje, da mesma maneira, nós cristãos liberais também sentimos que podemos dar nossa resposta àquilo que sentimos ser o movimento divino entre nós – como é o caso quando pensamos a respeito da posição das mulheres na igreja, na recepção de pessoas que antes eram rejeitadas por serem parte de um grupo estigmatizado, como gays e lésbicas, por exemplo.


Como indivíduo, faço escolhas quanto àquelas coisas que sinto serem verdades válidas para mim (à propósito, é isso que quero dizer quando digo que sou um cristão herege - “heresia”, em sua origem grega, quer dizer “escolha”; a partir do momento que faço escolhas teológicas, não aceitando imposições dogmáticas, torno-me um “herege”). Renuncio muitas das antigas crenças cristãs, por percebê-las como produto de uma época e circunstância específica – muitas delas estão na Bíblia, algumas outras estão nos credos e nas declarações de fé e confissões da igreja cristã. Para outras pessoas, ou grupos, essas declarações continuam válidas, e por isso mesmo, são vistas como verdades absolutas e inquestionáveis. Novamente, o que nos distingue é a compreensão distinta que damos a muitos termos, como “verdade”, “história”, “realidade”, “relativo”, “condicionado”, “temporário”, etc.


Nossa noção de verdade está sempre condicionada ao tempo e circunstâncias nas quais vivemos. A história humana, e aquilo que é parte dessa história, como a religião, por exemplo, é um produto humano, é uma fabricação humana. Há várias motivações para esse produto – no caso da religião, há aquilo que chamamos de “inspiração divina” (que pode significar uma quantidade quase infinita de diferentes coisas, dependendo de quem dê uma explicação) – mas nada jamais mudará o fato (nem mesmo as afirmações dogmáticas feitas por muitos devotos religiosos) de que nossas Escrituras, nossas tradições, nossas crenças, e até mesmo “nosso Deus” (isso é, a imagem que fazemos de Deus), não passam de construções humanas (construções que apontam para uma verdade maior, mas mesmo assim, construções!).

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Morte e Ressurreição

Um dos temas que mais aparecem nas mensagens que recebo de meus interlocutores virtuais é a questão da “vida pós-mortal”. Por inúmeras razões, esse é um tema central na teologia dessas pessoas. Na verdade, esse tema – a vida pós-mortal e o que acreditar e/ou fazer para ser salvo – é uma das bases da teologia cristã dita tradicional e ortodoxa.


Como a maioria já sabe, ideias tão abstratas e dogmáticas como noções de “vida pós-mortal”, “céu”, “inferno”, “ressurreição”, e coisas semelhantes, não são interpretadas por mim como verdades factuais ou mesmo como elementos essenciais à minha fé (se entendidas de forma literal). Sempre prefiro enxergar essas ideias como verdades metafóricas – imagens que representam de forma acessível uma verdade maior que não pode ser esgotada pela linguagem verbal.


Por essa razão, crer que a vida consciente do “espírito” humano continuará após a morte física é um supérfluo para minha fé pessoal. Na verdade, até mesmo crer que haja espacialmente um outro componente que constitua minha personalidade e que não pode ser espacialmente confirmado, e que geralmente chamam de “espírito” ou “alma” - o verdadeiro “eu”, é um supérfluo em minha teologia pessoal. Com “supérfluo”, refiro-me a algo completamente irrelevante, algo que, se retirado, não altera muita coisa e não faz falta.


Eu, obviamente, compreendo as razões que levam as pessoas, mesmo em nosso tempo, a se preocuparem com temas como esse. Também compreendo plenamente porque esse mesmo tema se torna tão essencial para a teologia dominante no meio cristão. Teologicamente falando, nossas noções a respeito da natureza de Deus, de Cristo, do homem e de seu destino, se entrelaçam e são interdependentes, tornando a crença numa vida após a morte física e as exigências para se assegurar a “salvação” (que variam de grupo para grupo) um ponto essencial.


Resta-me reconhecer que essas noções estão bem enraizadas na tradição cristã. Tome o texto em I Coríntios 15:19 como exemplo. Lá o autor, discutindo a respeito da ressurreição, afirma que “se nossa esperança em Cristo é somente para esta vida, nós somos os mais infelizes de todos os homens”.


Eu não poderia discordar do autor daquele texto da Primeira Carta aos Coríntios. Jesus simboliza, para nós cristãos, o caminho da vida eterna – é por meio dele, seguindo seus passos, que encontramos Deus; e se encontramos Deus, e Deus é a vida, logo, a esperança que nos é oferecida por Jesus é a de uma outra vida após a vida que agora vivemos (uma vida que é alcançada percorrendo-se o caminho da morte e da ressurreição, o caminho metaforicamente percorrido pelo próprio Jesus).


Morte e ressurreição são elementos essenciais na teologia cristã. Não se pode entender plenamente a mensagem cristã sem citar essas duas importantes metáforas tão repetidas em nossa tradição. O caminho para Deus, como ensinado e exemplificado por Jesus, é o caminho da “morte” e da “ressurreição”. A morte do eu interior – que não pode e não deve ser confundida com uma repressão ao “eu” e aos seus desejos legítimos – e o renascimento para uma nova forma de ser e para uma nova identidade centrada no Divino. Esse caminho de morte e de ressurreição não é apenas ensinado pelo cristianismo. Todas as grandes tradições espirituais da humanidade falam a respeito desse processo de morrer espiritualmente antes de morrer fisicamente, e de ressurgir para uma nova vida. A beleza dessa verdade metafórica é obscurecida pela (in)compreensão dogmática literalista, que interpreta esse processo de morrer e ressurgir como algo factual, como algo físico e espacial. Ou seja, o foco em uma morte e uma ressurreição que aconteceriam fisicamente no futuro subtrai de nossas vidas a experiência de morrer para nós mesmos e de ressurgir para uma nova maneira de ser, ver, e viver a vida aqui e agora.


Morte e ressurreição tornam-se, assim, uma metáfora para um processo de profunda transformação pessoal. E essa metáfora está profundamente enraizada na tradição teológica e litúrgica cristã. O sacramento ou ritual do batismo, por exemplo, personifica esse processo, quando simboliza a morte do antigo eu e o nascimento de uma nova identidade, usando elementos e movimentos físicos.


Se pensarmos nas divisões presentes no mundo greco-romano e judaico do primeiro século de nossa era – as divisões nacionais, raciais, econômicas, sexuais, etc – e observarmos, por exemplo, a mensagem do autor da Carta aos Gálatas, alargaremos nossa visão de morte e ressurreição:


“De fato, vocês todos são filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo, pois todos vocês, que foram batizados em Cristo, se revestiram de Cristo. Não há mais diferença entre judeu e grego, entre escravo e homem livre, entre homem e mulher, pois todos vocês são um só em Jesus Cristo.” (Gálatas 3:26-28)


Se nos “revestirmos de Cristo”, e pudermos afirmar como faz o autor (2:20) que Cristo vive em nós, então estaremos derrubando as paredes que nos separam, as paredes de discriminação que destroem esperanças e constroem o medo entre nós. Somos “filhos de Deus” quando reconhecemos que absolutamente todos o são, quando alargamos as entradas de nossos corações, quando escancaramos as portas para receber a absolutamente todos. E assim, nos revestindo de Cristo, ou seja, fazendo aquilo que nossa tradição ensina que Jesus ensinou por meio de suas palavras e ações, demonstramos nossa fé nele, e demonstramos que entendemos a sua mensagem e desejamos segui-la.


Na época na qual aquele texto foi escrito, aquele mundo social estava profundamente dividido entre livres e escravos, homens e mulheres, este ou aquele grupo nacional. Até certo ponto, essas mesmas divisões permanecem, e muitas vezes até se alargam. Em se tratando de morrer e ressuscitar hoje, o que poderia a comunidade cristã (a igreja) fazer?


Pessoalmente, creio que além das propostas em Gálatas, poderíamos adicionar ainda mais, e por isso mesmo reescrevo em meu coração aquele trecho:


“De fato, todos somos filhos de Deus em nossa própria natureza, pois ao nascermos, nos revestimos da presença divina. Não há absolutamente nenhuma diferença entre cristãos e não cristãos, entre ricos e pobres, entre os humanos das mais diferentes cores e origens, entre instruídos e não instruídos, entre homem e mulher, entre heterossexuais e homossexuais ou qualquer outra expressão emociono-sexual humana, entre crentes e descrentes, pois todos somos membros de uma grande família e temos nossa existência no mesmo Deus.” (Minha reconstrução de Gálatas 3:26-28)


Como morrer e ressuscitar representam, metaforicamente falando, um processo, creio ser necessário morrer e ressuscitar muitas vezes. Sempre haverá novas paredes a serem derrubadas para que possamos receber a Deus entre nós – já que toda vez que recebemos alguém, estamos, metaforicamente, recebendo o próprio Deus.


Hoje reconheço que não apenas a maneira como cuido de outros seres humanos reflete um processo de morte e ressurreição. A maneira como cuido deste planeta também deve ser fruto de um alargamento de visão desse processo. Aproveitar o tempo que tenho neste mundo para aprender e apreciar mais deve ser um dos frutos disso. Desfrutar a beleza e profundidade da vida deve ser um dos frutos disso. Enriquecer minha vida com os sons, sabores, movimentos, imagens, aromas, etc, da vida deve ser um dos frutos disso. E ajudar outras pessoas a fazerem o mesmo também deve ser um fruto desse alargamento de visão do processo de morrer e ressuscitar. Esse é o caminho que nos leva a Deus – independentemente da concepção individual que tenhamos a respeito de Deus e da espiritualidade.


+Gibson