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sábado, 31 de março de 2018

Feliz Páscoa: por uma fé viva em nossas ações

Nós somos um povo pascal. E isso, apesar de poder significar muitas coisas diferentes para diferentes pessoas, para a maioria de nós significa que estamos comprometidos com o espírito daquilo que cremos ter sido ensinado e exemplificado nos relatos sobre Jesus que lemos nas Escrituras cristãs.

Como todos vocês sabem, a maioria de nós unitaristas não compreende aqueles relatos da mesma forma que os cristãos que abraçam uma compreensão dita “ortodoxa”. Eu, certamente, me encontro entre esses. Como um unitarista, não compreendo a morte de Jesus de Nazaré como um sacrifício em favor da humanidade – essa doutrina, a propósito, é altamente ofensiva para mim, já que (entre outras coisas), para aceitá-la, teria de acreditar numa divindade moralmente antropomorfizada que não é capaz de perdoar sem exigir um pagamento por isso (um pagamento de sangue feito por uma pessoa inocente).

Não é isso que vejo e celebro na Páscoa.

Repetidamente, ao longo do Novo Testamento cristão, aprendemos que ser seguidor de Jesus é uma questão de ação no mundo. O autor do Evangelho de Mateus, por exemplo, atribui a Jesus as seguintes palavras:

Tudo o que vocês desejam que os outros façam a vocês, façam vocês também a eles. Pois nisso consistem a Lei e os Profetas” (7:12).

E ainda:

“… ‘eu estava com fome, e vocês me deram de comer; eu estava com sede, e me deram de beber; eu era estrangeiro, e me receberam em sua casa; eu estava sem roupa, e me vestiram; eu estava doente, e cuidaram de mim; eu estava na prisão, e vocês foram me visitar’. Então lhe perguntarão: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos como estrangeiro e te recebemos em casa, e sem roupa e te vestimos? Quando foi que te vimos doente ou preso, e fomos te visitar?’ Então o Rei lhes responderá: ‘Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram’.” (7:35-40)

Em outro livro do Novo Testamento, encontramos:

Se alguém pensa que é religioso e não sabe controlar a língua, está enganando a si mesmo, e sua religião não vale nada. Religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em aflição, e manter-se livre da corrupção do mundo” (Tiago 1:26-27).

E mais adiante:

Assim também é a fé: sem as obras, ela está completamente morta” (Tiago 2:17).

Em outras palavras, é nas nossas relações com outras pessoas no dia a dia que vivemos nossa fé. É seguindo aquelas admoestações e mandamentos de amar e servir e cuidar que demonstramos nosso compromisso como seguidores e discípulos de Jesus. Não importa que perspectivas teológicas abracemos sobre quem é Jesus: o que realmente importa é se estamos realmente praticando aqueles ensinamentos que os autores das Escrituras atribuíram a ele.

Minha oração é que todos possamos “divinizar” nossas relações com as pessoas com as quais compartilhamos este planeta, e possamos encarnar em nossas ações o poder vivificante do testemunho pascoal.

Desejo a todos uma Feliz Páscoa, compartilhando aquelas conhecidas palavras de nossa oração de despedida da liturgia da Comunhão:

Cristo nasce em nós quando abrimos nossos corações à inocência e ao amor. Cristo vive em nós quando caminhamos a senda do perdão, reconciliação e compaixão. Cristo morre em nós quando nos rendemos à nossa própria arrogância, egoísmo e ódio. Cristo ressuscita em nós quando nossas almas se despertam da morte espiritual para se unirem à comunidade de amor, para entrar no reino divino aqui mesmo neste mundo. Saiamos em paz. Amém.

+Gibson

domingo, 18 de março de 2018

Uma fé política?!


Esta semana, recebi um e-mail dum leitor furioso do Chronicle, que – dentre palavras que não ousaria repetir aqui – me “acusava” de ser um “esquerdista” que pregava o que ele chamou de “evangelho de Marx”, e não o de Jesus! Seus comentários pouco compassivos obviamente emergiram em decorrência do que eu escrevera sobre o brutal assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes, no Brasil, e do ativismo de estudantes pelo controle de acesso às armas de fogo, nos Estados Unidos.

O que escrevi, anteriormente, mantenho aqui. Nossas autoridades políticas e policiais falharam com Marielle e Anderson, e falham com a sociedade. E agora, mais do que nunca, deveríamos demiti-los. Isso porque não têm cumprido com suas obrigações enquanto agentes do Estado. Igualmente, somos todos culpados por seus crimes, já que deles não cobramos suficientemente por suas faltas e erros. Assim, temos nossas mãos sujas com o sangue de todos os que morrem em nossa sociedade: ou porque escolhemos erroneamente nossos governantes, ou porque não exigimos que façam o trabalho para o qual foram eleitos e pelo qual pagamos.

Foram essas as ideias que compartilhei e que levaram aquele leitor a fazer certas acusações contra mim. E, por educação, farei alguns esclarecimentos:

1. POLITICAMENTE: “Esquerdista”, para mim, não é um termo pejorativo; logo, chamar-me de tal não chega a ser uma ofensa. Na verdade, só evidencia que talvez aquele leitor devesse pesquisar um pouco mais o sentido do termo na teoria política. Politicamente, a propósito, sempre me identifiquei com um ideário “liberal democrata”; sempre fui um ardente partidário das liberdades civis, da separação entre Estado e Igreja, da resistência não violenta, da paz, dos direitos humanos, do respeito à vida de toda a Criação, da proteção àqueles que são agredidos pelos poderes deste mundo – e isso, sim, realmente me localizaria à esquerda no espectro político retilíneo (que, de qualquer forma, não é a maneira como retrato o mundo político ao meu redor). Essas ideias e escolhas que abraço, a propósito, não têm origem nos escritos de Marx – por cujo pensamento “positivista” sempre tive pouquíssima simpatia –; sua origem está em minha teologia política cristã, unitarista, não conformista (deveras “liberal burguesa” para ser caracterizada como “marxista”).

2. TEOLOGICAMENTE: Aquelas características de meu ideário político não advêm dos escritos de Marx ou de cartilhas políticas de partidos de “esquerda”. Elas são provenientes de minha teologia. Elas são a forma como aprendi a interpretar os ensinamentos tanto de minha herança judaica reformista quanto de minha fé cristã liberal. Não são invenção de Marx – apesar de poder encontrar muita proximidade com algumas de suas ideias –, e não são apenas ideários de partidos políticos. São, antes, a soma de séculos de reflexão por parte de pensadores religiosos e políticos, artistas, mães e pais, poetas, professores e tantos outros, cujas palavras e ações influenciaram a forma como compreendo o mundo. São ideias que estão presentes nos escritos sagrados e textos litúrgicos de minhas tradições religiosas, filtrados pelas lentes de meu meio sociocultural.

Os esclarecimentos acima não são uma justificativa para me afastar da visão que compartilho com meus irmãos e irmãs “esquerdistas” (para usar a linguagem daquele interlocutor). São, antes, uma tentativa de ensiná-lo e a outros que o mundo não é uma tela em preto e branco, mas sim uma mistura de diferentes cores em múltiplas tonalidades. Na verdade, fico muitíssimo feliz de encontrar pontos de concórdia com pessoas que, em outros assuntos, possivelmente discordariam de mim – e vice-versa. Fico feliz em misturar minhas cores às delas. Estarei sempre disposto a caminhar ao lado daqueles que buscam um mundo de concórdia, de paz, de compreensão, de compaixão, de vida – independentemente de sua localização em qualquer espectro político ou religioso.

O que realmente importa, em minha compreensão, não é a etiqueta que prendemos às nossas crenças e/ou descrenças. O que importa, o que realmente importa, é o que fazemos no dia a dia, é a forma como tratamos aqueles que compartilham este mundo conosco. Se não encontrarmos um meio de viver com a diferença, acabaremos nos matando uns aos outros e destruindo o que restou deste planeta. E isso seria a derrota definitiva de nossa “humanidade”.

Finalizo esta, compartilhando um trecho da Bíblia cristã que está sempre diante de mim, em meu escritório, para me lembrar de minhas promessas batismais e das promessas que fiz quando de minha ordenação:

Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, que age por meio de todos e está presente em todos.” (Efésios 4:6)

É, enfim, cuidando das pessoas que estão ao nosso redor que podemos encontrar o Divino. Esta é a única maneira de vivificar nossa fé e curar – ou, se preferir, “salvar” – o mundo!

+Gibson

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Natal: Jesus, refúgio e a hospitalidade


Todos os anos, durante o período do Advento (as quatro semanas que antecedem o Natal, no calendário cristão), preparo-me para celebrar a data na qual comemoramos o nascimento de Jesus de Nazaré – aquele que a maioria dos cristãos prefere chamar de “Cristo”, e cujo nascimento celebra como aquele dum membro duma família real, com cânticos, árvores iluminadas com luzes coloridas, estrelas que simbolizam sua grandeza cósmica, jantares caros e trocas de presentes.

Apesar de eu gostar muito das tradições natalinas – especialmente das celebrações litúrgicas e das cantatas às quais estou acostumado –, o Natal, para mim, não é a celebração do nascimento dum membro da realeza celestial (ou terrestre). A data é, em minha vida, um memorial à experiência da busca de refúgio – um lembrete da experiência do “êxodo”, que, metaforicamente, pode tornar-se a experiência de toda a humanidade.

Se tivermos de entender a narrativa do “êxodo” de Jesus – em Mateus 2:13-23 – como factual, então a vida do menino começa como a vida dum refugiado em terra estrangeira. Não como a dum príncipe ou rei. É se refugiando em outra terra, para escapar daqueles que o perseguem, que Jesus inicia sua vida.

Isso pode parecer irrelevante para muitos, mas, para mim, é o que há de mais importante na narrativa natalina. E não importa o quão pouco factual seja a narrativa do êxodo de Jesus – considerando que a mesma pode ter sido construída apenas para transformar a figura de Jesus na dum novo Moisés –; o que realmente importa é que ela o proclama como igual às crianças, mulheres e homens que deixam seus lares em busca de segurança e de vida, nas mais diferentes regiões do mundo, sob os mais diversos contextos.

O Jesus que aguardo no Advento, e que celebro no Natal, é um Jesus que sofre e busca refúgio e que, assim, é dependente da hospitalidade e compaixão dos humanos. É o Jesus que diz que quando alimentamos, damos de beber, vestimos, visitamos, somos hospitaleiros com os estrangeiros, é a ele que fazemos essas coisas (Mateus 25:35-45).

Esse é o Jesus que aprendi a celebrar. É o Jesus com a face de Ada, Concepción, Ibrahim, Mahmood, Moji, Alejandro e tantos outros. Para mim, o Natal só é comemorado para que eu me lembre que era deles e delas que Jesus falava, que era eles e elas que deveriam ser “celebrados” em minha vida, nesta data. Só assim eu poderia realmente viver o que Jesus ensinou.

O Natal, para mim, é uma celebração do refúgio – do refúgio que os seres humanos devem encontrar nos braços, corações e casas de seus irmãos e irmãs.

Minha oração é que possamos estar abertos e prontos para receber esse Jesus – esse Jesus que se manifesta nas faces dos seres humanos – neste Natal.

Vem, Mestre galileu!

Feliz Natal!

+Gibson


sábado, 23 de setembro de 2017

Minha teontologia – ou, o que acredito sobre “Deus”


+Gibson da Costa


[…] Ele não está longe de cada um de nós, pois nele vivemos, nos movemos e existimos […]” (Atos 17:27b-28a)

“Deus” frequentemente tem sido o assunto sobre o qual me escrevem de forma pouco compassiva. Enquanto, pessoalmente, me preocupo muito mais com o viver aquilo que chamo de “fé”, muitos de meus interlocutores se preocupam muito com declarações de crença que se encaixem em sua ortodoxia – seu conjunto de “crenças corretas” –, por isso, sempre me pedem que “defina” o que acredito sobre Deus, por exemplo.

Uma de minhas mais recorrentes provocações – e a mais atacada por leitores de outras tradições cristãs – é a de dizer que “não acredito em Deus”. Tenho repetidamente explicado que o verbo acreditar é muito limitado, pois coisifica Deus, tornando a Divindade um tipo de entidade pessoal que depende de meu esforço intelectual (a crença) para que seja “real”. Pessoalmente, também rejeito a noção de existência de Deus. Em minha experiência e compreensão, Deus não existe porque a existência é uma qualidade de objetos/entidades físico-espaciais. Prefiro falar em minha confiança em Deus, em vez de falar em crença em Deus – e mesmo “confiança”, assim como o próprio nome “Deus”, apresenta(m) limitações.

Não tenho absolutamente nenhum desejo em criar uma declaração teontológica própria. Minha compreensão sobre o Mistério Eterno é limitadíssima para que eu seja capaz de articular “definições” metafísicas a seu respeito. Deus, para mim, é inqualificável, já que “está” além de minhas limitações cognitivas e linguísticas. Toda e qualquer linguagem que use para referir-me à Divindade é apenas metafórica, simbólica, figurativa. E é assim que o que escrevo abaixo deve ser entendido:

  • Compreendo Deus como uma Unidade Absoluta. Por “Unidade”, refiro-me a um Mistério que está metaforicamente acima de tudo e de todos, para além de toda divisão, de toda compreensão, de toda classificação, de toda nomeação.
  • Compreendo Deus como absolutamente simples, sem nenhuma propriedade – incluindo personalidade, bondade, onipotência etc, – já que propriedades são atributos de seres espácio-temporais.
  • Compreendo Deus como absolutamente para além do tempo e do espaço e, como consequência, para além da própria existência.
  • Compreendo Deus como para além de causas e efeitos.
  • Compreendo Deus como para além de toda compreensão e imaginação humanas.

Assim, se e quando utilizo expressões como “Deus é amor”, “Deus é paz”, por exemplo, as tomo como uma linguagem metafórica, uma figura capaz de ser captada pela imaginação, e não como uma declaração que deva ser compreendida de forma literal.

Não tenho fé num Deus-Pessoa que espelha minhas próprias limitações humanas. Tenho esperança e interesse pelo Divino como “para além” do compreensível ao mesmo tempo em que “se manifesta” no comum. Os termos “para além” e “se manifesta” são a chave aqui: a preposição “para” indica um movimento; o termo “além” aponta para uma não-limitação; e “se manifesta” aponta para uma relação entre o Divino e o humano. Usá-los, ao falar da Divindade, é uma referência à “transcendência” e à “imanência” divinas: respectivamente, a alteridade e a proximidade desse Mistério que chamo de “Deus”.

Não tenho absolutamente nenhuma necessidade de caracterizar esse Mistério como uma entidade antropomorfa – isto é, não preciso acreditar num Deus com características humanas. Compreendo a linguagem tradicional do Deus abraâmico – nas tradições judaicas, cristãs, muçulmanas, babistas etc – como um Deus pessoal apenas como uma metáfora. Usamos essas metáforas porque nossa imaginação é limitada, e não porque a Divindade assim seja – para mim, como disse, a Divindade sequer “é”, já que “ser” é uma característica de seres ou coisas físico-espaciais e, logo, limitadas.

Acredito que mais importante do que me preocupar com definições acerca de Deus é me preocupar com o ser humano. Como Deus está além de minha compreensão, e como, ao mesmo tempo, se manifesta no mundo na face das pessoas que me cercam, é amando-as e servindo-as que posso amar e servir a Deus. E conseguir fazer isso já representa um desafio suficientemente grande para mim!


terça-feira, 19 de setembro de 2017

Todas as pessoas

Ao longo de meu trabalho pastoral entre migrantes paralegais, desenvolvi um carinho especial pelas palavras das promessas que fazemos na Aliança Batismal. É verdade que aquelas palavras sempre foram muito importantes para minha espiritualidade, mas a convivência com a desumanidade da “fronteira” (um termo que uso com um sentido metafórico especial) as reveste dum significado renovado. Penso especialmente nas seguintes palavras:

[…]
Você buscará e servirá a Cristo em todas as pessoas, amando o seu próximo como a si mesmo?
Sim, com a ajuda de Deus.
Você trabalhará pela justiça e pela paz entre todas as pessoas, e respeitará a dignidade de todo ser humano?
Sim, com a ajuda de Deus.

Essas palavras exercem um poder convocatório sem igual. E, por serem parte da Aliança Batismal, carregam em si um senso de obrigatoriedade mais potente do que qualquer outra palavra sagrada em minha vida espiritual. Elas exigem, de mim, uma reflexão profunda sobre “todas as pessoas”, e sobre o que significa “servir”, “amar”, “trabalhar” e “respeitar” – os verbos que rezamos naquela Aliança.

O que fazemos daquelas palavras quando nos deparamos com os pecados etnocêntricos do tribalismo, do nacionalismo e do patriotismo? O que fazemos com aquelas promessas se e/ou quando decidimos fazer com que todos os povos se tornem discípulos de Cristo – o problemático convite feito pelo Cristo do Evangelho de Mateus 28:19-20? Até que ponto respeitamos “a dignidade de todo ser humano” quando esperamos que todos sejam como nós – ou quando supomos que Deus seja propriedade de nossa tradição religiosa?

Ou o que fazemos daquelas palavras quando nos calamos diante da injustiça e assistimos silenciosa e passivamente à violência perpetrada contra outros seres humanos, como o que ocorre contra grupos étnicos minoritários, refugiados e migrantes mundo afora? Ou quando nos calamos e não agimos quando atacam – em nome de qualquer Deus, homem ou nação – pessoas que abracem outras crenças religiosas, crença religiosa nenhuma ou certa ideologia política? Ou quando permitimos que, em nome de Deus ou da “nação”, pessoas tenham sua dignidade humana desrespeitada por qualquer motivo?

O que fazemos daquelas palavras quando sabemos que outras pessoas estão com fome na rua, e pensamos que não há nada de errado em comermos num restaurante caro, pois, afinal, isso é uma “questão de mérito”? Ou, ainda, o que fazemos daquelas palavras quando continuamos a votar em políticos corruptos que atentarão contra a “dignidade” humana dos demais membros de nossa sociedade ou de qualquer outra sociedade?

A verdade é que aquelas promessas são o maior desafio que nos podem ser feitos em nossa jornada espiritual. Elas são um testemunho de que a “fé cristã” exige ação no mundo: não ação para convencer ou converter pessoas, mas ação para curar e vivificar a vida humana.

+Gibson


sábado, 26 de agosto de 2017

Não à "tolerância"!



Você defenderá a justiça e a paz para todas as pessoas, e respeitará a dignidade de cada ser humano?
Sim, com a ajuda de Deus.
(Trecho da Aliança Batismal)


Como bem nos lembram as promessas que reafirmamos quando recitamos a Aliança Batismal, somos religiosamente educados para honrar a dignidade humana. O ser humano, nas tradições jordânicas – os judaísmos, os cristianismos, os islãs, os babismos etc –, é compreendido como tendo sido criado à “imagem de Deus”. Assim, respeitá-lo como uma criação divina e honrar sua dignidade e valor é indissociável das compreensões que nossas tradições têm do Divino.

Essa preocupação com o valor e a dignidade humana é, às vezes, rearticulado através daquela palavra tão repetida: “tolerância”. Assim, frequentemente, fala-se em “tolerar” outras pessoas, “tolerar” os que pensam diferentemente de nós, “tolerar” as outras tradições de fé (religiões), “tolerar”, “tolerar”.

Pessoalmente, tenho um enorme desconforto com a palavra “tolerância” e todos os verbos e adjetivos com os quais se relaciona. Mesmo compreendendo o sentido que muitos entre nós dão a esses termos, “tolerância”, “tolerar” e “tolerante” parecem ser exatamente o contrário do espírito que nossas tradições – e, mais especificamente, os cristianismos – nos convidam a materializar em nossas ações.

Afirmarmo-nos como “tolerantes”, para mim, seria o ápice da arrogância espiritual. Ora, ter “tolerância” por alguém é afirmar que me encontro numa posição mais elevada, mais avantajada do que ela, e que ofereço-a minha “misericórdia”. É dizer que sei mais do que ela e que, por isso, demonstro-lhe minha “piedade” para com seu estado de ignorância.

Isso, certamente, não é o que prometemos quando rezamos em comunidade nossa Aliança Batismal nas liturgias de Batismo e de Confirmação. O que prometemos é enxergar e servir a Deus uns nos outros e em todos os demais seres humanos, independentemente de quem sejam, de onde estejam em sua jornada espiritual e do que tenham feito na vida. E aquela promessa não nos exige “tolerância”: exige respeito, exige reconhecimento, exige apreciação, exige serviço, exige amor – não “tolerância”.

Respeitar, reconhecer, apreciar, servir, amar não equivalem a abandonarmos nossas crenças e princípios, a concordarmos com tudo o que os outros pensam. Equivale, sim, a aceitar que da mesma forma como temos o direito de buscar, de crer, de descrer, de ser, outras pessoas – especialmente aquelas de quem discordamos – também têm. E fazê-lo é reconhecer que nossa compreensão do Divino e de nós mesmos é limitada, e que Deus não é nossa propriedade. Demonstrar “tolerância”, por outro lado, é negar essa limitação à qual todos estamos sujeitos(as).

Não à "tolerância"! Deus nos livre da “tolerância”!

+Gibson


sábado, 29 de julho de 2017

Um cristão agnóstico?: Uma resposta às provocações de Soraya Pontes



[Sobre o texto “Um cristão agnóstico?”, de minha autoria – publicado neste blog em 8 de setembro de 2010.]

Escrevi aquele texto há cerca de sete (7) anos. Ao longo desse tempo, obviamente, mudei intelectual e espiritualmente. Reformulei algumas de minhas compreensões. Tive novas experiências de vida que me fizeram compreender a Realidade que chamo “Deus” a partir de outras perspectivas. Mas continuo a rejeitar o dogmatismo quando penso, falo ou escrevo sobre Deus.

Deus é Real. Mas não é uma coisa ou uma entidade. Assim, não uso o verbo “existir” para me referir a Deus. Não posso quantificar Deus como o faria ao ar, à água, ao computador diante do qual me sento agora ou a mim mesmo. Essa é uma questão muito mais profunda do que você imagina. Compreendo a razão pela qual isso lhe parece uma “ignorância”, Soraya: para você é assim porque você lê o mundo com lentes diferentes daquelas que uso; assim, não consegue compreender a relevância da linguagem para discussões teológicas. Isso não a torna menos certa do que eu – apenas torna sua perspectiva diferente da minha; e vice-versa.

Tenho a impressão de que você não tenha compreendido que aquele texto é uma provocação. O uso do termo “agnóstico” é proposital. Acaso não percebeu o uso duma interrogação ao fim do título? O próprio texto pode esclarecer, para qualquer leitor atento, o que quis dizer com aquelas palavras.

Deus, para mim, é uma Realidade que está além de qualquer formulação dogmática de qualquer tradição religiosa. Assim, Deus não é judeu, não é cristão, não é muçulmano, não é budista, não é xintoísta, não é hindu, nem mesmo ateu. Deus não é propriedade de qualquer religião, filosofia, credo, ou grupo exclusivista. Deus é o nome que muitos de nós damos àquela Realidade que está além de nossa compreensão. Porque não a compreendemos, utilizamos figuras metafóricas próximas às nossas experiências culturais para nos referirmos a ela. Assim, muitos chamam essa Realidade de Deus, de Pai, de Mãe, de Grande Espírito, de Poder, de Hashem, de Allah, ou de qualquer outro nome que possa exprimir – mesmo que imperfeitamente – aquilo que sentem.

Atribuir um nome a essa Realidade, contudo, não significa necessariamente abraçar uma noção dogmática sobre quem ou o quê seja “Deus” – isto é, não significa pensar que possamos saber, humanos como somos, tudo o que se possa saber sobre “aquele” que já foi chamado de “Mistério”. Foi isso que quis dizer com aquele texto provocativo.

Se aquelas palavras me tornam um “ignorante” ou menos “cristão” que você... bem, não me preocupo. Em minha tradição religiosa, questionar, perguntar, duvidar é sempre um caminho para construir pontes de compreensão, sempre um caminho para se chegar a Deus. Não tenho interesse algum pelo conforto do dogma inquestionável e petrificado – prefiro o caos do serviço e do discipulado, que é onde encontro a Deus.

Que bom que você já está tão além de minha compreensão sobre Deus e já consegue compreender o Mistério Divino com tamanha segurança, a ponto de não questionar os verbos, substantivos e adjetivos que utiliza. Eu ainda não cheguei a este ponto – na verdade, como escrevi antes, não tenho, hoje, interesse em fazê-lo. Mas fico feliz que você possa fazê-lo.

Paz!

+Gibson


terça-feira, 4 de julho de 2017

Por que não faço vídeos para este blog?


Alguns dos leitores deste blog já me pediram, várias vezes – e por motivos variados –, que eu fizesse vídeos para postar aqui, em vez de escrever textos (que, na opinião de alguns, são frequentemente “muito longos”). Hoje, gostaria de responder às suas provocações e enumerar algumas razões pelas quais tenho me recusado, até aqui, a fazer vídeos para este espaço.

  1. Não quero me tornar um vlogueiro. Não tenho talento para isso, nem tenho interesse em me preocupar com aparência e voz, com iluminação e cenário, etc. Prefiro que meu tempo “livre” seja gasto com o pensar sobre aquilo acerca do qual escrevo – escrever, afinal, exige a reflexão da parte de quem escreve. Escrevendo, eu mesmo aprendo muito mais do que seria capaz de “ensinar” a quem quer que seja.

  2. Apesar de não ser inimigo da tecnologia – o que se evidencia pelo meu uso deste espaço –, tenho uma imensa antipatia pelas respostas fáceis e irrefletidas. Os vídeos online tendem a levar a esse tipo de comportamento – considerando que o ouvinte, e muitas vezes o próprio vlogueiro, não têm tempo suficiente para parar e refletir sobre o que ouviram/disseram, como teriam se estivessem lendo/escrevendo.

  3. Quando escrevo, o faço para um “público” específico. O que espero desse “público” é que, pelo menos, esteja disposto a ler – disposto a parar diante da tela ou do papel e ler o que escrevi, independentemente de sua reação ao texto. Assim, o simples fato de produzir textos escritos (ou seriam “digitados”?) funciona como um processo de filtragem de interesses para ambos os lados: eu seleciono com quem dialogo, e os meus leitores decidem se o que tenho a dizer lhes interessa ou não.

  4. Não estou aqui para me promover como a uma mercadoria. Explico-me: Quando escrevo, o faço para compartilhar ou discutir ideias, para provocar outras pessoas de forma respeitável, e não para me oferecer como “a resposta”. Não sou um candidato a cargo eletivo. Não sou um artista. Não estou oferecendo, aqui, absolutamente nada em troca de dinheiro ou ganhos materiais. (Percebeu que não há anúncios de produtos neste blog?! Eu poderia adicioná-los aqui se quisesse ganhar dinheiro.) Meu interesse é com o conteúdo e com as pessoas que o receberão: o conteúdo duma perspectiva da fé cristã e aquelas pessoas que queiram refletir sobre a fé de forma aberta. Para isso, você não precisa de minha voz ou de minha imagem – além daquela que pode encontrar no perfil desta página.

  5. A decisão de não utilizar as linguagens audiovisuais, aqui, não é definitiva; é, antes, utilitária: por enquanto, atende aos meus anseios e necessidades e àqueles da maioria, talvez, de meus leitores. Se, no futuro, perceber que seria mais proveitoso utilizá-las, poderei fazê-lo. Por enquanto, contudo, não tenho essa intenção.


Paz a todas e todos!

+Gibson

domingo, 21 de maio de 2017

E o Império do czar Putin persegue mais um grupo: as Testemunhas de Jeová na Rússia


Em 20 de abril último, a Suprema Corte da Rússia decidiu favoravelmente à ação aberta pelo Ministério da Justiça contra a organização das Testemunhas de Jeová no país. Desde então, a denominação é considerada um “grupo extremista” no país, o que tem piorado e legitimado a perseguição que o grupo já sofria na Federação Russa. De acordo com relatos da própria Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados da Pensilvânia (a principal organização das Testemunhas de Jeová no mundo), membros da denominação têm sido atacados na rua, suas contas bancárias têm sido bloqueadas e seus salões de culto têm sido dessacralizados.

A acusação contra as Testemunhas de Jeová é a de que quebraram uma lei de 2002, frequentemente usada contra grupos que o governo encara como inimigos. A lei proíbe que grupos religiosos – com exceção da Igreja Ortodoxa Russa – afirmem pregar a única verdade (o que fazem as testemunhas de Jeová, e muitos outros). Além disso, o pacifismo e não envolvimento com a vida eleitoral ensinados pelo grupo é a razão para que seja classificado como “extremista”. Assim, as testemunhas de Jeová estão na mesma classificação da al-Qa'ida e do Estado Islâmico, por exemplo!

Não sou um Testemunha de Jeová e, pessoalmente, não tenho nenhuma simpatia por suas crenças, mas seria inaceitável me calar diante de tamanha violação aos seus direitos humanos básicos. A acusação e a pena contra as Testemunhas de Jeová na Rússia é uma afronta à humanidade de todos nós – assim como o é a perseguição sofrida por todos os grupos religiosos dissidentes na Rússia e em todas as outras partes do mundo, apenas por suas práticas pacíficas e de não participação com a vida “secular” serem percebidas como um desafio ao cetro do poder estabelecido.

O direito humano de acreditar no que quer e de expressar essa crença de forma não violenta é mais importante do que qualquer lei que o subtraia. Essa é a base de minha fé religiosa e de meu credo político. E realmente não importa o quanto eu discorde das ideias defendidas pelos demais: se eles têm seu direito violado, o meu próprio se foi com eles. É uma vergonha que isso ocorra em pleno século XXI.

+Gibson


domingo, 30 de abril de 2017

Continuemos como “shalomistas”!




O jejum que eu quero é este: acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer jugo; repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu, e não se fechar à sua própria gente. (Isaías 58:6-7)


Não nos considero pacifistas, mas “shalomistas”. E isso porque a paz não se limita apenas à renúncia da guerra e da violência, mas, antes, compreende a promoção e a associação àquilo que fomenta um mundo construído sobre aquilo que nossa tradição de fé chama de “shalom” divina: o domínio de honra ao valor e dignidade da humanidade e de toda a Criação.

Esse “shalom” implica comida para os famintos, água para os sedentos, lar para os desabrigados, vestimenta para o desnudo, companhia para os solitários, alívio para os que sofrem, ajuda para os mais fracos, perdão para os que erraram, justiça para os desprotegidos. Implica ação consciente contra aquilo que se opõe ao valor e dignidade do ser humano e da Criação. Implica desafiar os Impérios deste mundo, o ódio, a violência, a guerra, as armas, a corrupção. Exige uma mudança em nós mesmos.

Nossa objeção consciente à guerra, à violência, às armas e à colaboração com a guerra, com a violência e com as armas é uma forma de nos abstermos da participação nos Impérios deste mundo, e de nos juntarmos ao “domínio de Deus”. Nossa tradição religiosa nos ensina que quando matamos ou destruímos outros seres humanos, estamos matando e destruindo um reflexo de Deus. E nossa escolha do caminho de “shalom” se baseia nisso.

Essa é uma escolha impopular neste mundo. No mundo dos jogos violentos, no mundo dos filmes de “ação”, no mundo das armas, no mundo onde ser homem é se divertir machucando outros homens, no mundo onde odiar outras pessoas por conta de suas visões políticas ou religiosas é a norma, renunciar o caminho da violência para se relacionar com Deus e com outros seres humanos é estupidez ou sinal de fraqueza. E por isso, talvez, escolher o “shalom” seja o caminho menos popular, mesmo entre muitas pessoas religiosas. Mas este é o único caminho que nos salvará da conformidade com os Impérios do mundo.

Pretender ser um “shalomista” é difícil porque é radical. Às vezes, é deveras solitário, porque é impopular. E, mais do que frequentemente, é um desafio porque, aparentemente, não é natural – isto é, exige esforço, exige humildade, exige reconhecimento de minhas próprias incoerências. Mas é possível porque tantas outras pessoas o fizeram – Jesus o fez, e tantas e tantos de seus seguidores o fizeram.

Assim, conscientemente escolhamos continuar a seguir este caminho de “shalom”, o “shalom de Deus”. Com certeza, continuaremos a tropeçar inúmeras vezes, mas com a ajuda de outras e outros “shalomistas”, poderemos nos reerguer e voltar ao caminho.

+Gibson