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quarta-feira, 12 de março de 2014

Sobre ser cristão e "homossexual"

[De vez em quando, recebo um ou outro e-mail, ou uma ou outra mensagem aqui no blog, que me deixa acordado durante a madrugada, pensando sobre a pessoa que me escreveu e como ajudá-la. Isso aconteceu na noite passada. Recebi uma mensagem através do blog e meu correspondente (que se identificou como “R”, um batista formado em teologia num seminário “evangélico” e, hoje, distanciado de sua igreja por ser homossexual) não deixou um e-mail para contato, então tentarei respondê-lo aqui mesmo. O que segue é uma resposta a cada um dos pontos levantados por “R”.]

Caro “R”:

Não, você não está sozinho! Há inúmeras pessoas, homens e mulheres, na Igreja cristã como um todo, que se reconhecem como “homossexuais” e como cristãs ao mesmo tempo. E por que deveria ser diferente? Por que elas deveriam separar uma coisa da outra?

Você me relatou sobre a conversa que teve com o ministro da igreja que costumava frequentar. Tenho certeza que ele acreditava estar lhe dando os melhores conselhos, e que aquilo o ajudaria a ser mais feliz. Mas, ao que parece, ele confundiu homossexualidade com crime – e isso é, no mínimo, uma opinião teológica, filosófica, sociológica, psicológica e juridicamente desinformada.

Os seres humanos são extremamente complexos. Somos, no que tange aos aspectos biológicos, muito semelhantes aos outros mamíferos; mas, em outros aspectos – ao menos aparentemente –, somos muito diferentes. Nós temos a capacidade – supostamente, única entre os seres deste planeta – de refletir criticamente sobre nós mesmos e sobre nossa relação com o visível e o invisível. Temos a capacidade de aprender diferentes tipos de linguagens, técnicas, métodos, ideias, etc, etc, etc. Somos seres espirituais, que buscam sentido para nossa existência e ações. Somos, em minha compreensão cristã, “filhos de Deus” – ou seja, mantemos uma ligação com uma Realidade que ultrapassa nossa compreensão racional.

Mas além de tudo isso que somos, somos – todos nós – seres sexuais. Mesmo monges que vivam celibatariamente em mosteiros nos Montes Athos ou no Himalaia, são seres sexuais. Isso quer dizer que nossos corpos e nossas mentes lidam, no mínimo, com atrações, desejos, interesses, etc, de “natureza” sexual – mesmo que esses não sejam materializados em ações voluntárias.

Não posso dizer o que seja certo ou errado na compreensão que outras pessoas, ou outras tradições cristãs, tenham da fé cristã. Acredito na verdade relativa das diferentes tradições teológicas – ou seja, o que uma comunidade pentecostal, por exemplo, aceita como “verdade” cristã será, para eles, verdade, da mesma forma como o que outra comunidade cristã veria como sendo verdade para si mesma. Logo, o que penso ser certo ou errado é válido apenas para mim mesmo ou, no máximo (e apenas em certos pontos, talvez), para aqueles que compartilhem de [parte de] minha visão teológica.

Discordo do que aquele ministro lhe disse quando falou que ser homossexual é uma escolha, por, pelo menos, duas razões. A primeira razão é que não sei até que ponto se possa dizer que se “é homossexual”, e não que se “está homossexual”. Não sei se o “ser” homossexual – que me parece referir-se a algo permanente – acontece com todos, ou se podemos dizer que alguns “estejam” homossexuais em algum período de sua vida e em outros não. Essa é uma questão muito complexa para discutirmos aqui, mas creio que algumas pessoas possam não se sentir num estado de permanência, e sim, num estado de questionamento de sua orientação emociono-sexual – converso com muitos jovens que passam por esse questionamento.

A segunda razão, e a mais importante, é que, em minha experiência, você não escolhe ter uma determinada orientação emociono-sexual – seja esta heterossexual, homossexual ou bissexual. Você pode escolher o que faz, uma vez se dê conta dela, mas não pode escolher a orientação em si. Ao menos, essa tem sido minha experiência. Desde muito jovem já sabia que me sentia emocional e sexualmente atraído por rapazes, e não por moças. Isso foi algo que descobri, e não que escolhi. Não me acordei, numa manhã de verão, e decidi que a partir dali me interessaria por outros rapazes. Isso foi algo que fui descobrindo a meu respeito com o passar dos anos, desde a infância. Só na adolescência me dei conta do que aqueles sentimentos significavam. Não escolhi me sentir daquele jeito, nem aprendi a ser assim de outra pessoa. O que escolhi foi apenas a forma como lidaria com aqueles sentimentos.

Para mim, é importante não falar apenas em “orientação sexual”, mas em “orientação emociono-sexual”. Por isso, sinto um grande desconforto com o uso dos termos “homossexual” ou “heterossexual”, etc, já que esses apontam para esse aspecto humano como sendo apenas algo mecânico. Quando você diz que ama seu companheiro – um outro homem –, você não está dizendo que apenas tem um interesse sexual por ele; você está dizendo muito mais que isso – acredito que o aspecto sexual seja apenas um elemento do que você sente por ele. Isso vale para pessoas de todas as orientações emociono-sexuais. Um homem que ame sua companheira – uma mulher –, sente muito mais que apenas atração sexual por ela; novamente, o componente sexual é apenas uma parte de seus sentimentos por ela. Amar romanticamente é estar ligado a outra pessoa de forma muito mais complexa e profunda do que apenas sentir-se atraído física ou sexualmente por ela. Qualquer pessoa que ame ou já tenha amado outra, romanticamente, sabe disso. [À propósito, falo em amor romântico pois acredito haver diferentes tipos de amor – o amor que sinto pelos meus pais ou irmãos não envolve todos os elementos que o amor que sentiria por meu cônjuge envolveria, por exemplo.]

Assim, quando alguém se refere ao amor entre dois homens ou duas mulheres como sendo algo apenas físico ou sexual, está, em minha opinião, sendo intelectualmente desonesto – ao menos, supondo que essa pessoa já tenha experienciado o amor romântico em sua vida. Qualquer pessoa, heterossexual ou homossexual, que já tenha amado romanticamente alguém sabe quão complexa é a ligação que sente pelo objeto de seu afeto. Obviamente, há relacionamentos que não envolvem amor mútuo, envolvimentos entre pessoas que não passam de parceiras sexuais – e isso, à propósito, acontece com pessoas de toda e qualquer orientação emociono-sexual –, mas esse tipo de relacionamentos não é o objeto de nossa conversa! Entendo que sexualizar a conversa sobre relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo seja um instrumento discursivo dos que querem desmoralizar tais relacionamentos – levando em consideração sua compreensão do que seja pecado e sua noção de moralidade, é muito fácil convencer que a relação entre pessoas do mesmo sexo seja uma “abominação” –; mas, por outro lado, a sexualização do debate também por parte daqueles que se apresentam ou são vistos como “representantes” de todos os outros “homossexuais” só reforça essa visão distorcida e intelectualmente desonesta.

Em se tratando da questão mais explicitamente teológica sobre esse tema, é importante que eu reafirme o que já é notório aqui: não sou um protestante evangelical, ou seja, não afirmo encontrar minhas justificativas teológicas exclusivamente nas Escrituras. Ademais, também não faço uma leitura supostamente literal das Escrituras. Como um protestante liberal, faço uso conjunto das Escrituras (a Bíblia), da Tradição, da razão, da experiência pessoal, de certos princípios teológicos específicos, etc, como instrumentos para minha compreensão teológica. Minha leitura das Escrituras é moldada por aqueles outros elementos. E, na verdade, não acredito que absolutamente ninguém faça uma leitura literal das Escrituras. Nenhuma igreja, nenhum teólogo, nenhum ministro cristão, que afirme fazer uma leitura literal da Bíblia, conseguiria inquestionavelmente harmonizar todas as afirmações, interditos etc, bíblicos, já que o conjunto desses textos se contradiria se fosse lido literalmente e de forma comparativa.

Outra coisa importante é que não tenho interesse algum em me envolver em discussões sobre passagens específicas na Bíblia – especialmente na Bíblia Hebraica – que, supostamente, fariam referência à homossexualidade. Meu conhecimento das Escrituras, em hebraico e grego, e meu conhecimento das discussões teológicas e eclesiásticas que envolvem esses escritos, é suficiente para me convencer de que, pastoralmente, discuti-los é irrelevante para a vida cristã da maioria das pessoas. A compreensão linguística, histórica e teológica que tenho daquelas passagens é extremamente distinta das que você aprendeu no seminário onde se formou e na comunidade da qual era parte. Logo, penso que discutir o sentido desta ou daquela palavra, deste ou daquele hábito cultural da antiga Israel ou da Igreja primitiva, etc, etc, etc, provavelmente não fará nenhuma diferença na maneira como você se sente sobre você mesmo e sua relação com o Divino e com outras pessoas; e, não fará nenhuma diferença sobre a forma como sua antiga comunidade compreende a sexualidade humana. Considero mais importante refletir sobre sua vida à luz de sua própria compreensão de sua fé, construindo uma autonomia espiritual em relação ao que outras pessoas lhe digam ser certo ou errado – essa é, devo enfatizar, uma das características históricas do Protestantismo, especialmente de sua própria tradição batista.

O Cristianismo, em minha opinião é – e não apenas o Cristianismo – uma fé ética, uma fé que enfatiza as relações humanas com outros humanos, com o todo da Criação e com Deus. E é com base nessas relações que se estabelecem, na tradição cristã, as noções de pecado e retidão. Assim, pecado é aquilo que agride ao próprio indivíduo, aos demais seres humanos, ao resto da Criação e a Deus. Pecar é violar o valor e a dignidade do ser humano e da criação, já que todos fomos, metaforicamente, “feitos à imagem de Deus”. É assim que compreendo o sentido de “pecado”. Logo, amar, respeitar, honrar, valorizar, apreciar outro ser humano, e se relacionar com alguém que, voluntária e legalmente, entre num relacionamento com outra não pode ser descrito como pecado, apenas porque os parceiros são pessoas do mesmo sexo. [Falo em “legalmente”, já que as leis brasileiras atuais estabelecem tipos de relacionamentos que são abusivos, como, por exemplo, a pedofilia – na qual um adulto pode estar se aproveitando da inexperiência ou desvantagem dum menor, mesmo que o menor em questão pense estar envolvido por sua própria escolha.]

Em se tratando da classificação de relacionamentos como sendo “morais” ou “imorais”, me preocuparia com outros detalhes. Quão “moral” seria a relação entre um homem e uma mulher casados, se entre eles houvesse desrespeito, desonra ou agressão? Quão “imoral” seria a relação entre dois homens ou duas mulheres, se entre eles houvesse respeito, honra e cuidado? Contrapor dois casos extremos assim pode parecer uma comparação injusta – e é –, mas é essa a lógica utilizada na conversa que você me relatou. Prefiro pensar que, em termos da moralidade cristã, a preocupação se centre na presença do “amor” naquela relação – i.e., amor como respeito, devoção, cuidado, atenção, honra, lealdade etc. Acredito numa ética do relacionamento, na honra e no valor do compromisso mútuo.

Se estivéssemos tendo uma conversa acadêmica sobre este tema, faria questão de apontar as origens históricas das variadas opiniões teológicas cristãs sobre o tema – inclusive das opiniões teológicas que defendo –, mas, como escrevi antes, você saber como essas opiniões se desenvolveram, no fim das contas, não alteraria a maneira como outros compreenderão a questão. Você não pode mudar a forma como os outros sentem o mundo. O que você pode mudar é a si mesmo: a forma como você enxerga a si mesmo; como se relaciona consigo mesmo, com outras pessoas e com o resto do mundo.

Para finalizar, se você realmente quer saber o que penso sobre cada uma daquelas coisas sobre as quais escreveu, deixe-me dizer que minha fé me ensina que cada um de nós, você inclusive, é imensuravelmente importante. Cada um de nós nasce com a capacidade de fazer tanto o bem quanto o mal, de amar e odiar, de ser feliz ou infeliz. Eu, pessoalmente, não acredito na noção de que o ser humano seja depravado e mau por natureza. Acredito, sim, que certos relacionamentos sejam inapropriados, mas o status moral dum relacionamento romântico não advém do sexo daqueles que se relacionam. Esse tipo de discussão, entretanto, sempre causará conflitos entre diferentes pessoas ou grupos – e não apenas entre aqueles que professem uma religião. Também não acredito que grupos religiosos devam mudar suas doutrinas para que pessoas sintam-se bem-vindas; afinal de contas, a filiação a uma comunidade de fé é voluntária, e aqueles que escolhem ser parte de qualquer uma supostamente estão cientes (ou deveriam estar) dos compromissos que estão assumindo com aquela comunidade e consigo mesmos. Então, não posso dizer muita coisa que possa ajudá-lo a lidar com os conflitos com a disciplina duma outra comunidade de fé, mas posso garantir como há igrejas protestantes aí em São Paulo onde seria muito bem-vindo independentemente de sua orientação emociono-sexual e de seu relacionamento conjugal com outro homem. Se tiver interesse em contatar tais comunidades, envie-me seu endereço de e-mail ou me escreva diretamente por meio do e-mail de contato em meu perfil.

Grande abraço!


+Gibson

segunda-feira, 25 de março de 2013

Homossexualidade no piegas e desinformado discurso sobre “o mundo, o pecado, e o Diabo”!


Sempre evito, o quanto posso, entrar nas discussões idiotas sobre homossexualidade que viraram uma “darling” nos meios cristãos brasileiros nos últimos anos. E isso por inúmeras razões. A primeira delas, claro, é que sou um homem gay, e tenho uma ética teológica que dirige meu ministério. Em segundo lugar, sou um Unitarista, e, assim, minhas prioridades e compreensões religiosas, assim como minha compreensão de “moralidade”, entram em contradição sonora com aquelas da maioria dos cristãos brasileiros que têm espaço nos meios de comunicação e no palco político. Ademais, minhas crenças políticas e minha cultura pessoal geralmente são muito distintas daquelas abraçadas pela maioria daqueles nos dois lados do embate político quanto ao tema no país. Logo, a não ser que o tema seja trazido à minha atenção, por alguma razão, nunca trato disso em meus escritos públicos – a não ser pelo fato de que pesquiso a história do pensamento teológico sobre sexualidade na tradição cristã, o que me faz lidar continuamente com o questões sobre homossexualidade [o que é muitíssimo natural em meu trabalho como teólogo].

Religiosamente, sou um protestante liberal – um Unitarista também ligado à Igreja Episcopal e à Igreja Unida de Cristo [para os que desconhecem, esses são bastiões da tradição teológica liberal nos EUA]. É importante afirmar isso para que compreendam de onde vem minha formação teológica, de onde vem minha compreensão sobre ética cristã. Cristãos como eu não abraçam injunções absolutas sobre certos comportamentos – por exemplo, beber, fumar, dançar não são comportamentos proibidos em nosso meio, como ocorre com certos grupos majoritários no meio protestante brasileiro. Acreditamos que a obsessão com esses costumes sociais é produto daquilo que nos EUA é chamado de “igreja da fronteira”i e que tal obsessão prescritiva não possua base nem nas Escrituras nem na tradição cristã em geral. Acreditamos que todas as coisas venham de Deus e que, assim, são boas – mas que devam ser usadas com responsabilidade e sabedoria: ou seja, devam ser consistentes com nosso chamado a fazer o bem ao próximo, à criação e a nós mesmos. Qualquer coisa boa, quando abusada [quando usada sem cuidado e sem sabedoria], pode tornar-se algo mau, e é por essa razão que o mandamento de amar [a Deus, ao próximo e a nós mesmos] é o princípio que deve guiar nossas relações com o todo da criação – talvez isso seja uma boa forma de resumir nossa compreensão sobre moralidade.

Como isso se relaciona com a questão da homossexualidade? Ou melhor, como já me foi perguntado antes por um amigo: “Como cristãos de diferentes grupos, que afirmam honrar as mesmas Escrituras, podem chegar a conclusões tão diferentes sobre questões de moralidade sexual?” [A questão tratada entre meu amigo e eu era a celebração do casamento – religioso – entre duas pessoas do mesmo sexo em minha comunidade de fé, no qual um dos pares era um ex-membro de sua comunidade de fé.]

Falando sobre minha compreensão teológica particular, talvez partilhada pela maioria de outros membros de minha comunidade de fé, esta está fundamentada sobre a tradição bíblica, apesar de eu utilizar diferentes princípios hermenêuticos daqueles utilizados por outras tradições cristãs. Há uma clara diferença interpretativa entre a forma como um cristão liberal como eu e um “evangélico”, por exemplo, interpretamos as Escrituras. Em minha tradição, damos à experiência [individual e comunitária] uma importante função no processo exegético e hermenêutico – o que permite que desafiemos, reinterpretemos e abandonemos certas passagens bíblicas como produtos culturalmente condicionados ou mesmo irrelevantes. Comumente, refletimos teologicamente sobre certas questões, começando pela experiência da situação sobre a qual refletimos [por exemplo, a questão de casamentos de pessoas do mesmo sexo na igreja], depois discutindo as Escrituras [i.e., a Bíblia] mais em termos de sua totalidade do que de trechos isolados – as tradições “evangélicas” majoritárias no Brasil, entretanto, começam seu processo interpretativo pelas Escrituras, rejeitando [no caso específico da presença de pessoas gays na igreja] o papel da experiência nesse processo.

A posição teológica em minha tradição é, em parte, moldada pela presença de pessoas de orientação emociono-sexual gay no processo de discernimento da Escritura, enquanto que no caso das chamadas “igrejas evangélicas” essa presença está, na maioria das vezes, plenamente ausente. Entre os membros de minha igreja local, por exemplo, há indivíduos gays e lésbicas – inclusive no Ministério, no meu caso –, e suas famílias, o que faz com que nossa experiência como indivíduos e como fiéis, e a experiência de nossa comunidade conosco, seja parte integrante do processo de discernimento teológico. Aqueles de nós que têm relacionamentos românticos, por exemplo, encontram nos demais membros da comunidade testemunhas para sua vida – ou seja, em nossa comunidade de fé, um casal homossexual encontrará amigos que os tratarão com o mesmo respeito devido a um casal heterossexual. A vivência entre pessoas de diferentes experiências faz, consequentemente, com que elas se vejam de forma mais respeitosa, compreensiva e apreciativa. Como me disse um membro de minha comunidade de fé, após a celebração do casamento que citei anteriormente: “Como poderia ser contra a união de duas pessoas que conheço há tanto tempo e cujo amor vi crescer”. A experiência faz toda a diferença: a experiência dos indivíduos e a experiência de sua comunidade – é uma via de mão dupla!

A questão das relações entre pessoas do mesmo sexo não envolve apenas a questão de relações sexuais. O problema da incompreensão, em minha visão, vem em parte da desumanização da questão. Quando se fala em pessoas gays, por exemplo, utilizamos o infeliz termo “homossexual”, que em si parece trazer a miopia para o fato de que o lado sexual não é o único aspecto numa relação entre pessoas do mesmo sexo – há um lado emocional nessa questão, da mesma forma como quando falamos de pessoas utilizando o também infeliz termo “heterossexual”. Somos todos seres sexuais, mas esse não é o nosso único aspecto como pessoas – também somos pessoas que amamos, tememos, sofremos, nos alegramos, cremos, descremos, trabalhamos, aprendemos, desaprendemos, sorrimos, choramos etc [todos nós, “heterossexuais” ou “homossexuais”]. Em nossa experiência religiosa, por exemplo, todas as pessoas podem experienciar o mesmo Mistério Divino, e são chamadas ao serviço da mesma forma – independentemente de como se identificam, de quem amam e de por quem são amadas. Esse lado humano pleno – de ver “homossexuais” como pessoas que tem vidas familiares, profissionais (professores, médicos, pesquisadores, políticos, engenheiros, policiais etc, e não apenas como aquelas figuras estereotípicas as quais culturalmente somos acostumados), religiosas etc – entretanto, parece ser ignorado tanto pela mídia quanto pelo próprio chamado “movimento gay”, quando sexualizam o sentido de ser gay [é só ver a maneira como gays são comumente exibidos na mídia, ou pior, como “vendem sua imagem” nas chamadas “paradas” da diversidade] para a visão pública, o que consiste num infeliz equívoco constantemente repetido em nossa sociedade.

Em minha experiência, já está mais do que na hora de mudarem o foco quando abordarem teológica, política e culturalmente a realidade dos indivíduos gays e de suas famílias. Em nome do bom senso, olhem pare seus filhos e filhas, amigos e amigas, vizinhos e vizinhas. Somos muito mais do que insinuam as novelas televisivas, os discursos políticos ou certas pregações religiosas. Assim como a teologia cristã é muito mais ampla do que o discurso biblicista pode sugerir. É tudo uma questão de boa vontade para percebermos a variedade. Então, quando quiserem ter um diálogo teológico que inclua as vozes de pessoas como eu, quem sabe não estarei disposto a participar?!

+Gibson


iAs comunidades de fé que se formaram nas áreas de fronteira interiorana norte-americanas desenvolveram uma visão estrita sobre moralidade na qual certos hábitos sociais aceitos nos meios cristãos urbanos – a exemplo da bebida, do fumo, da dança, do jogo de cartas etc – foram vistos como pecaminosos. Essa visão foi trazida por missionários “evangélicos” advindos dessas tradições protestantes norte-americanas que, apesar de lá sempre terem sido minoritárias, aqui no Brasil sempre terem sido majoritárias – logo, a associação automática de Protestantismo, no Brasil, com essas injunções “morais”.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Sair do Armário - uma resposta à provocação de um amigo desconhecido


Caro Amigo,

Sou gay. Isso é algo sabido por todos, mas que preciso reafirmar aqui. E a razão para isso é simplesmente por questão de integridade pessoal. Quero que fique muito claro a partir de que lugar falo.

Eu sou muito mais do que apenas minha orientação emociono-sexual. Sou um ser humano pleno, e minha emociono-sexualidade é apenas um aspecto de minha humanidade. Como um ser humano, é importante ter esse meu lado apreciado por outras pessoas de minha comunidade, da mesma maneira que ter todos os outros meus lados apreciados é importante. Quando digo “apreciado”, quero, em verdade, dizer “respeitado, reconhecido, afirmado, personalizado”. Não necessito que outras pessoas “aceitem” minha orientação emociono-sexual como algo belo e magnífico, quero apenas que aceitem o fato de essa orientação ser uma parte de minha identidade, da mesma forma que sua orientação emociono-sexual é parte de sua própria identidade.

Vejo o “sair do armário”, assim, como um rito de passagem para o ser um humano mais pleno, e sou feliz por ser parte de uma tradição religiosa que honra o “sair do armário” como um ritual sacramental. No Unitarismo, todos nós “saímos do armário” - heterossexuais, homossexuais, bissexuais ou transsexuais. Todos somos livres para, se quisermos, declarar à nossa comunidade o que descobrimos ser nossa orientação ou identidade sexual, já que a vemos como um dom divino.

“Sair do armário”, para alguns no “mundo lá fora”, parece ser sair à rua com uma bandeira colorida na mão, ao som de música eletrônica, circundado de personagens caricatos. Ou, talvez, seja essencialmente uma questão política. “Sair do armário” para um unitarista é ter a oportunidade de estar diante de sua comunidade e poder dizer “é este ou esta que eu sou e peço a vocês que me abençoem e fiquem do meu lado”. Em uma comunidade unitarista, um jovem gay, por exemplo, pode conhecer um outro jovem e pode contar com o cuidado, apreciação e apoio que qualquer outro jovem teria. Ele não precisa se esconder, como se estivesse fazendo algo errado e inaceitável, algo horrendo e maldito. Não. E é exatamente por isso que ele, assim como um jovem heterossexual também, tem a oportunidade de “sair do armário”, se quiser.

"Sair do armário" em minha visão política, religiosa, ideológica, não é forçar a minha verdade a outras pessoas. É simplesmente poder ser quem eu sou, e não ser discriminado legalmente nem agredido por isso. Não é ter direitos especiais, mas simplesmente ter os mesmos direitos, e estar sob as mesmas obrigações, que todas as outras pessoas têm e estão.


É bom que eu diga aqui que me oponho à criminalização de ideias homofóbicas. Apoio, sim, a criminalização da violência contra toda e qualquer pessoa - incluindo gays, lésbicas, bissexuais, transsexuais e heterossexuais -, mas, para isso, não precisamos duma nova lei, já que a Constituição Federal afirma que todos são iguais perante a Lei. Acredito na liberdade de expressão e opinião. Acredito que as comunidades religiosas possam, sim, discriminar entre aqueles que delas queiram ser parte. Elas podem decidir que determinados comportamentos ou perfis não sejam condizentes com suas ideias. Logo, discordo de sua perspectiva a respeito do que deveria ser feito legalmente para punir a discriminação.

Creio que devamos sair, todos nós, de “nossos armários”. Nossos “armários” de medo. Nossos “armários” de dor. Nossos “armários” de receio. Nossos “armários” de solidão. Saiamos de nossos “casulos” de separação e nos afirmemos como membros de uma única família: a família humana – aquela família unida pelas mais diversas cores, línguas, nacionalidades, culturas, crenças, orientações emocionais e sexuais, idades, rendas financeiras, etc. Essas diferenças não deveriam nos separar, mas sim nos fortalecer. Elas são um dom divino.

Bençãos, e tudo de bom!

Rev. Gibson da Costa