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domingo, 30 de setembro de 2018

Entrevista concedida por e-mail a uma publicação estudantil


No mês de agosto de 2018, estudantes do programa de pós-graduação em Teologia duma instituição onde ensino publicaram em seu jornal uma resenha de meu último trabalho e, juntamente com ela, uma página com uma entrevista comigo, realizada através de e-mail. Abaixo, incluo três das perguntas que me foram feitas e as respostas que ofereci – já que essas perguntas estão aparentadas àquelas que recorrentemente recebo através deste e de outros canais.

Entendemos que o senhor, além de ministro unitarista, é também ministro da Igreja Unida e de outras igrejas protestantes. Como consegue lidar com essa aparente contradição?”

Bem, não considero isso uma contradição. E não é contradição porque não visto identidades religiosas conflitantes. As denominações das quais participo não são “minha religião”: são, sim, minhas comunidades – das quais herdo diferentes histórias e costumes religiosos. Assim, não sou um unitarista; não sou um episcopal/anglicano; não sou um luterano, etc – essas são identidades institucionais. Se tivesse de conceituar minha identidade religiosa, diria que sou, simplesmente, um seguidor de Jesus de Nazaré que vivencia a experiência religiosa em comunidades diferentes. Essas são as comunidades onde exerço o ministério ordenado e com as quais vivencio experiências comunais do Divino.

Com isso, obviamente, não quero dizer que as identidades denominacionais não sejam importantes. Em muitos aspectos, elas são. Contudo, não podem ser confundidas com o que é ser um “cristão” (se é que essa palavra ainda possua algum sentido espiritual relevante). E isso não deixa de ser reflexo da experiência pós-moderna da própria Igreja: um foco menor no denominacionalismo construído em eras anteriores. Francamente, como alguém envolvido profundamente com o espírito ecumênico, estou mais preocupado em me identificar – em palavras e ações – como um seguidor de Jesus de Nazaré do que como adepto duma tradição cristã específica. E justamente porque consigo fazer isso nessas diferentes comunidades, não há nenhuma contradição, para mim ou para elas, nisso. As identidades “paroquiais” dessas instituições específicas são, em minha vida, apenas acessórias; não são “essenciais”.


Já lemos textos seus nos quais se refere a crenças fundamentais cristãs como se fossem “mitos” ou “metáforas”. Isso significa que não aceita essas doutrinas cristãs como sendo verdades?”

Tenho um problema com o termo “fundamentais” em sua pergunta. O que significa falar em “crenças fundamentais”? Eu não sou um fundamentalista; e são os adeptos de compreensões fundamentalistas os que, nos Cristianismos protestantes, se preocupam em defender “crenças fundamentais”. Talvez devêssemos usar uma outra expressão para discutir esse tema; assim, proponho que troquemos “crenças fundamentais” em sua pergunta por “ideias consensuais”.

Estou muito mais preocupado com “teologia” do que com “doutrinas”. A diferença entre as duas – ao menos no contexto deste nosso diálogo – é que as doutrinas parecem se referir a declarações dogmáticas sobre problemas específicos, enquanto a teologia abrange um conjunto de linguagem, atitudes, ideias, narrativas e práticas que moldam uma tradição religiosa. De certa forma, o conceito de “doutrina” parece estar intrinsecamente associado àquela compreensão de que religião e denominação (=instituição religiosa) sejam sinônimos. Assim, para quem se preocupa com isso, uma denominação professa tais e tais doutrinas – uma lista de teses – que devem ser aceitas e defendidas por quem quiser ser membro de tal “religião” (que, estritamente, não é uma “religião” propriamente dita, mas apenas uma instituição/organização que se apresenta como representante duma religião).

Já a “teologia“ funciona de outra forma: não se limita a teses específicas; antes, consiste numa base mais ampla através da qual podemos construir (e alterar) visões de mundo. Dessa forma, as compreensões religiosas – que você chamou de “doutrinas” – não são imutáveis, escritas sobre diamante; são perspectivas que se alteram ao longo da experiência histórica (que, no contexto cristão, inclui a própria experiência do Divino).

Poderia citar, por exemplo, o caso da escravidão. A cristandade ocidental como um todo encontrou justificativas para a escravidão em suas próprias fontes teológicas durante séculos. Assim, muitos cristãos e muitas instituições eclesiásticas cristãs não viam nenhuma contradição entre ser cristão e escravizar, possuir, comprar e vender escravos. Até, obviamente, que suas ideias teológicas começassem a mudar! Quando a experiência social e as ideias filosóficas começaram a ser alteradas, a teologia também sofreu alterações: a escravidão deixou de ser a vontade de Deus e passou a ser vista como um erro repugnante dos humanos.

Essas alterações só demonstram, em minha compreensão, o quanto a religião, em geral, é humana. Não há nada de essencialmente divino na religião (enquanto sistema teológico: isto é, um conjunto de linguagem, atitudes, ideias, narrativas e práticas) – a religião é, sim, um reflexo de quem um determinado grupo humano é (ou pensa ser) em sua inter-relação e em relação à sua compreensão do Divino, mesmo que acreditem que sua religião seja um produto Divino (e mesmo que Deus, como consequência, acabe se tornando uma espécie de adepto dessa mesma religião).

É justamente por a religião ser uma construção humana – ou melhor, uma resposta humana ao mistério cósmico que a humanidade enfrenta –, que o que esta ensina é verdadeiro. Aquelas “doutrinas” cristãs são “verdades”, mas não são, necessariamente, “factualidades”. Elas são verdades no contexto histórico de certos grupos ou pessoas, em determinado momento – não o são, necessariamente, para outros ou durante todo o tempo. Em parte, é a confusão moderna entre “verdade” e “factualidade” que leva a essas compreensões binárias de certo-errado, verdadeiro-falso – que eu, de forma geral, rejeito.

Quando, ou se, penso em “verdade”, não estou pensando no contrário de “mentira”. Estou pensando, antes, numa interpretação da “realidade” (que nem sempre é objetiva/factual) que se altera ao longo da experiência histórica, mesmo quando não se perceba essa alteração. Os Cristianismos, e todas as demais tradições religiosas do mundo, sofrem alterações em suas compreensões e práticas, independentemente do quão dogmáticas sejam. Por exemplo, o “Cristo” – ou a compreensão acerca de Cristo – do Movimento de Jesus dos primeiros anos não é o mesmo “Cristo” dos cristãos helênicos ou romanos do segundo século de nossa era, nem é o mesmo “Cristo” dos diferentes grupos cristãos do período medievo europeu, nem é o mesmo “Cristo” dos cristãos assírios do Oriente do século XV, nem o mesmo “Cristo” dos unitaristas do século XIX, nem o mesmo “Cristo” dos pentecostais brasileiros do século XX, nem o mesmo “Cristo” dos católicos romanos progressistas do século XXI. Cada um desses contextos específicos conheceu variadas interpretações cristológicas – isto é, de quem era Jesus Cristo – que eram, até certo ponto, distintas de compreensões variadas de outros contextos históricos.

O que quero dizer é que nenhuma religião, incluindo os Cristianismos, é um objeto estático no tempo. Sempre sofre variações. Assim, a linguagem, as atitudes, as ideias, as narrativas e as práticas cristãs estão sempre sofrendo mudanças, mesmo que essas sejam operadas de forma muito sutil.

Essa historicidade da fé faz com que uma compreensão histórico-metafórica das narrativas religiosas funcione como “verdade” para mim, mas que não funcionem como “verdade” para outras pessoas que possuam, por exemplo, bases socioculturais diferentes das minhas. Isso não torna (parte de) nossas perspectivas “certas” ou “erradas”, em si, mas apenas diferentes. Como a religião, de forma geral, não lida com fatos mensuráveis (objetivos), mas, majoritariamente, com concepções da realidade, rejeito a visão binária de certo-errado, verdadeiro-falso, quando lido com a realidade religiosa.

O mito religioso – e “mito” não é sinônimo de “mentira” –, para mim, é um instrumento pedagógico, uma ferramenta que nos ajuda a construir uma compreensão daquilo que está além da explicação binária. Assim, verdadeiro-falso não diz muito sobre o mito (isto é, a narrativa que aponta para uma verdade além da factualidade, que ultrapassa os limites do que é objetivo/quantificável) – essa binaridade não funciona em minha compreensão da realidade religiosa em geral, nem da cristã em particular.

O senhor acredita em Deus?”

Penso que já tratei tantas vezes sobre esse tema que me restaria pouco a dizer. Há um ano, publiquei um texto no qual discuto a questão, e ele ainda representa, em grande parte, minha compreensão sobre o assunto [<https://cristianismoprogressista.blogspot.com/2017/09/minha-teontologia-ou-o-que-acredito.html>]. Mas, resumidamente, o problema se refere ao fato de que tenho um grande problema com o verbo “acreditar”, no sentido com o qual é geralmente usado.

Se tivesse de dar uma resposta direta, sem nenhuma explanação filosófico-teológica complexa, diria que CREIO em Deus – isto é, confio na e experiencio a realidade de Deus. O verbo “crer” parece guardar uma ligação mais explícita com o sentido de “confiar” que, para mim, é mais importante do que afirmar um assentimento intelectual. (Ou seja, não sou um ateu – se esta é a pergunta.)

Apesar de a discussão dos verbos utilizados parecer irrelevante para um leitor/ouvinte leigo, para um Ministro religioso, um teólogo, um filósofo da religião, etc, os termos utilizados dizem muita coisa. Por isso, quando falo sobre o Divino, reflito sobre a linguagem utilizada. Essa reflexão é parte integrante de meu ofício, e resulta, obviamente, de minha história pessoal. Minha educação religiosa e intelectual me ensinou o questionamento. Questionar é fazer perguntas – perguntas para algumas das quais nunca chegaremos a uma resposta objetiva. E o questionamento, esse processo reflexivo de fazer perguntas, é uma atividade essencialmente linguística. Daí a preocupação com a demarcação das fronteiras de sentido para os termos que utilizamos.

De qualquer forma, naquele texto explico minha compreensão sobre Deus.


Paz a todas e todos!

+ Gibson


quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Céu, inferno, vida após a morte?


Um dos problemas mais presentes na vida de qualquer ministro religioso e professor de Teologia, como eu, é o problema da morte. Isso porque a morte, mais até do que o nascimento, se faz presente na vida de qualquer família, de qualquer comunidade, e a religião sempre serviu como uma forma de lidar tanto com o mistério como com a dor da morte.

Frequentemente me perguntam se acredito em vida após a morte – se acredito em "céu" e "inferno" –, e alguns dos que me questionam parecem se perturbar ou surpreender com o fato de eu, mesmo sendo um ministro religioso, dizer que o assunto me é indiferente. Hoje, gostaria de responder a alguns questionamentos feitos por um leitor de São Paulo – que, infelizmente, não assinou sua mensagem, mas indicou sua cidade.

Realmente, não me importo com questões referentes a uma suposta vida após a morte (o que inclui temas como “céu” e “inferno”). Minha tradição religiosa tende a se centrar numa ética [judaico]cristã, e não em dogmas teológicos sobre temas específicos. Assim, minha preocupação religiosa é com a vida, com as relações humanas e com a Criação, relações através das quais encontro o Divino (Deus). Meu Cristianismo está focado na prática duma eticidade ensinada nas Escrituras: amor ao próximo – através do qual se demonstra amor a Deus –, serviço, compaixão, perdão, a construção do “shalom” de Deus aqui e agora.

Tendo a encarar “céu” e “inferno” não como realidades objetivas, mas, antes, como metáforas que apontam para esperanças e/ou desesperos humanos. São parte duma linguagem teológica que reflete uma visão de mundo que não se concilia com minha compreensão do Universo. Por isso, são temas que não me interessam – com os quais não gasto meu tempo (a não ser que seja para discutir a história desses conceitos, como se desenvolveram e se tornaram parte do repertório teológico cristão).

O que ocorre após a morte não pode ser conhecido por nós – pode, apenas, ser especulado. E, entre especular sobre algo que não pode ser desvendado e saber como lidar com o conhecível, prefiro este último. Quando nos centramos em reflexões teológicas acerca da vida em sociedade, acerca de como nos relacionarmos com a Criação, sobre como a prática religiosa pode contribuir para construir paz e justiça no mundo agora, isso é saber lidar com o conhecível (aquilo que temos a capacidade de conhecer).

Portanto, se alguma vez eu falei/escrevi sobre “céu” ou “inferno” – o que não me lembro de ter feito até hoje, a não ser em estudos históricos –, o fiz unicamente em linguagem metafórica, simbólica, provocadora, e não como uma realidade objetiva.

Alguém poderia apontar trechos da Bíblia nos quais são feitas referências ao “céu” ou “inferno”. É verdade, estão lá. Mas, para minha tradição, Bíblia e Cristianismo não são sinônimos. A Bíblia é (apenas) uma das fontes teológicas do Cristianismo; além dela, temos a Razão, a Tradição e a Experiência. Quando analiso o tema na Bíblia à luz das demais fontes teológicas, o considero irrelevante.

Além disso, é importante ressaltar que não há, no Novo Testamento cristão, nenhuma visão coerente e amplamente compartilhada em todos os escritos sobre “céu” ou “inferno”. O que podemos encontrar são apenas pequenos fragmentos duma descrição do que seriam esses dois; não há nenhuma passagem longa onde “céu” ou “inferno” sejam descritos de forma clara e dogmática. A visão cristã da vida pós-mortal se desenvolveu a partir do contato entre o judaísmo rabínico, dos escritos canônicos cristãos, e da cultura greco-romana – e é por isso que é mais ampla a preocupação com o tema por parte dos Padres da Igreja do que dos próprios escritos canônicos do Novo Testamento.

Isso explica porque há compreensões tão distintas sobre o que acontece após a morte em cada uma das tradições cristãs do mundo. Cristãos ortodoxos, católicos romanos, luteranos, reformados, anglicanos, unitaristas, universalistas, restauracionistas, pentecostais, etc, abraçam visões diferentes sobre o que acontece após a morte e como. E essa variação de visões tem existido desde a origem do(s) Cristianismo(s).

Por essas e por outras razões, não posso afirmar absolutamente nada sobre uma suposta vida pós-mortal. Pessoalmente, não me preocupo com isso; não é um tema “essencial”. Isso não me torna uma pessoa “sem esperança” ou “perdido”. Para mim, é suficiente crer que a vida dos que morreram, de alguma forma, continua na terra. É nesse sentido que a vida pós-mortal funciona como uma metáfora. Acreditar que irei para o céu ou o inferno não influenciaria em absolutamente nada a minha vida: minha compreensão de Deus, de ética, da teologia cristã, da minha relação com os demais seres humanos e com a Criação, da dignidade e valor humanos é o que guia minhas ações – não uma [des]crença em punição ou recompensa eternas.

Respeito a opinião dos que aceitam esses aspectos especulativos da teologia cristã, mas, para mim, eles não possuem nenhuma relevância para minha relação com o Divino e/ou com o mundo social.

+Gibson

domingo, 18 de março de 2018

Uma fé política?!


Esta semana, recebi um e-mail dum leitor furioso do Chronicle, que – dentre palavras que não ousaria repetir aqui – me “acusava” de ser um “esquerdista” que pregava o que ele chamou de “evangelho de Marx”, e não o de Jesus! Seus comentários pouco compassivos obviamente emergiram em decorrência do que eu escrevera sobre o brutal assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes, no Brasil, e do ativismo de estudantes pelo controle de acesso às armas de fogo, nos Estados Unidos.

O que escrevi, anteriormente, mantenho aqui. Nossas autoridades políticas e policiais falharam com Marielle e Anderson, e falham com a sociedade. E agora, mais do que nunca, deveríamos demiti-los. Isso porque não têm cumprido com suas obrigações enquanto agentes do Estado. Igualmente, somos todos culpados por seus crimes, já que deles não cobramos suficientemente por suas faltas e erros. Assim, temos nossas mãos sujas com o sangue de todos os que morrem em nossa sociedade: ou porque escolhemos erroneamente nossos governantes, ou porque não exigimos que façam o trabalho para o qual foram eleitos e pelo qual pagamos.

Foram essas as ideias que compartilhei e que levaram aquele leitor a fazer certas acusações contra mim. E, por educação, farei alguns esclarecimentos:

1. POLITICAMENTE: “Esquerdista”, para mim, não é um termo pejorativo; logo, chamar-me de tal não chega a ser uma ofensa. Na verdade, só evidencia que talvez aquele leitor devesse pesquisar um pouco mais o sentido do termo na teoria política. Politicamente, a propósito, sempre me identifiquei com um ideário “liberal democrata”; sempre fui um ardente partidário das liberdades civis, da separação entre Estado e Igreja, da resistência não violenta, da paz, dos direitos humanos, do respeito à vida de toda a Criação, da proteção àqueles que são agredidos pelos poderes deste mundo – e isso, sim, realmente me localizaria à esquerda no espectro político retilíneo (que, de qualquer forma, não é a maneira como retrato o mundo político ao meu redor). Essas ideias e escolhas que abraço, a propósito, não têm origem nos escritos de Marx – por cujo pensamento “positivista” sempre tive pouquíssima simpatia –; sua origem está em minha teologia política cristã, unitarista, não conformista (deveras “liberal burguesa” para ser caracterizada como “marxista”).

2. TEOLOGICAMENTE: Aquelas características de meu ideário político não advêm dos escritos de Marx ou de cartilhas políticas de partidos de “esquerda”. Elas são provenientes de minha teologia. Elas são a forma como aprendi a interpretar os ensinamentos tanto de minha herança judaica reformista quanto de minha fé cristã liberal. Não são invenção de Marx – apesar de poder encontrar muita proximidade com algumas de suas ideias –, e não são apenas ideários de partidos políticos. São, antes, a soma de séculos de reflexão por parte de pensadores religiosos e políticos, artistas, mães e pais, poetas, professores e tantos outros, cujas palavras e ações influenciaram a forma como compreendo o mundo. São ideias que estão presentes nos escritos sagrados e textos litúrgicos de minhas tradições religiosas, filtrados pelas lentes de meu meio sociocultural.

Os esclarecimentos acima não são uma justificativa para me afastar da visão que compartilho com meus irmãos e irmãs “esquerdistas” (para usar a linguagem daquele interlocutor). São, antes, uma tentativa de ensiná-lo e a outros que o mundo não é uma tela em preto e branco, mas sim uma mistura de diferentes cores em múltiplas tonalidades. Na verdade, fico muitíssimo feliz de encontrar pontos de concórdia com pessoas que, em outros assuntos, possivelmente discordariam de mim – e vice-versa. Fico feliz em misturar minhas cores às delas. Estarei sempre disposto a caminhar ao lado daqueles que buscam um mundo de concórdia, de paz, de compreensão, de compaixão, de vida – independentemente de sua localização em qualquer espectro político ou religioso.

O que realmente importa, em minha compreensão, não é a etiqueta que prendemos às nossas crenças e/ou descrenças. O que importa, o que realmente importa, é o que fazemos no dia a dia, é a forma como tratamos aqueles que compartilham este mundo conosco. Se não encontrarmos um meio de viver com a diferença, acabaremos nos matando uns aos outros e destruindo o que restou deste planeta. E isso seria a derrota definitiva de nossa “humanidade”.

Finalizo esta, compartilhando um trecho da Bíblia cristã que está sempre diante de mim, em meu escritório, para me lembrar de minhas promessas batismais e das promessas que fiz quando de minha ordenação:

Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, que age por meio de todos e está presente em todos.” (Efésios 4:6)

É, enfim, cuidando das pessoas que estão ao nosso redor que podemos encontrar o Divino. Esta é a única maneira de vivificar nossa fé e curar – ou, se preferir, “salvar” – o mundo!

+Gibson

sábado, 23 de setembro de 2017

Minha teontologia – ou, o que acredito sobre “Deus”


+Gibson da Costa


[…] Ele não está longe de cada um de nós, pois nele vivemos, nos movemos e existimos […]” (Atos 17:27b-28a)

“Deus” frequentemente tem sido o assunto sobre o qual me escrevem de forma pouco compassiva. Enquanto, pessoalmente, me preocupo muito mais com o viver aquilo que chamo de “fé”, muitos de meus interlocutores se preocupam muito com declarações de crença que se encaixem em sua ortodoxia – seu conjunto de “crenças corretas” –, por isso, sempre me pedem que “defina” o que acredito sobre Deus, por exemplo.

Uma de minhas mais recorrentes provocações – e a mais atacada por leitores de outras tradições cristãs – é a de dizer que “não acredito em Deus”. Tenho repetidamente explicado que o verbo acreditar é muito limitado, pois coisifica Deus, tornando a Divindade um tipo de entidade pessoal que depende de meu esforço intelectual (a crença) para que seja “real”. Pessoalmente, também rejeito a noção de existência de Deus. Em minha experiência e compreensão, Deus não existe porque a existência é uma qualidade de objetos/entidades físico-espaciais. Prefiro falar em minha confiança em Deus, em vez de falar em crença em Deus – e mesmo “confiança”, assim como o próprio nome “Deus”, apresenta(m) limitações.

Não tenho absolutamente nenhum desejo em criar uma declaração teontológica própria. Minha compreensão sobre o Mistério Eterno é limitadíssima para que eu seja capaz de articular “definições” metafísicas a seu respeito. Deus, para mim, é inqualificável, já que “está” além de minhas limitações cognitivas e linguísticas. Toda e qualquer linguagem que use para referir-me à Divindade é apenas metafórica, simbólica, figurativa. E é assim que o que escrevo abaixo deve ser entendido:

  • Compreendo Deus como uma Unidade Absoluta. Por “Unidade”, refiro-me a um Mistério que está metaforicamente acima de tudo e de todos, para além de toda divisão, de toda compreensão, de toda classificação, de toda nomeação.
  • Compreendo Deus como absolutamente simples, sem nenhuma propriedade – incluindo personalidade, bondade, onipotência etc, – já que propriedades são atributos de seres espácio-temporais.
  • Compreendo Deus como absolutamente para além do tempo e do espaço e, como consequência, para além da própria existência.
  • Compreendo Deus como para além de causas e efeitos.
  • Compreendo Deus como para além de toda compreensão e imaginação humanas.

Assim, se e quando utilizo expressões como “Deus é amor”, “Deus é paz”, por exemplo, as tomo como uma linguagem metafórica, uma figura capaz de ser captada pela imaginação, e não como uma declaração que deva ser compreendida de forma literal.

Não tenho fé num Deus-Pessoa que espelha minhas próprias limitações humanas. Tenho esperança e interesse pelo Divino como “para além” do compreensível ao mesmo tempo em que “se manifesta” no comum. Os termos “para além” e “se manifesta” são a chave aqui: a preposição “para” indica um movimento; o termo “além” aponta para uma não-limitação; e “se manifesta” aponta para uma relação entre o Divino e o humano. Usá-los, ao falar da Divindade, é uma referência à “transcendência” e à “imanência” divinas: respectivamente, a alteridade e a proximidade desse Mistério que chamo de “Deus”.

Não tenho absolutamente nenhuma necessidade de caracterizar esse Mistério como uma entidade antropomorfa – isto é, não preciso acreditar num Deus com características humanas. Compreendo a linguagem tradicional do Deus abraâmico – nas tradições judaicas, cristãs, muçulmanas, babistas etc – como um Deus pessoal apenas como uma metáfora. Usamos essas metáforas porque nossa imaginação é limitada, e não porque a Divindade assim seja – para mim, como disse, a Divindade sequer “é”, já que “ser” é uma característica de seres ou coisas físico-espaciais e, logo, limitadas.

Acredito que mais importante do que me preocupar com definições acerca de Deus é me preocupar com o ser humano. Como Deus está além de minha compreensão, e como, ao mesmo tempo, se manifesta no mundo na face das pessoas que me cercam, é amando-as e servindo-as que posso amar e servir a Deus. E conseguir fazer isso já representa um desafio suficientemente grande para mim!


terça-feira, 19 de setembro de 2017

Todas as pessoas

Ao longo de meu trabalho pastoral entre migrantes paralegais, desenvolvi um carinho especial pelas palavras das promessas que fazemos na Aliança Batismal. É verdade que aquelas palavras sempre foram muito importantes para minha espiritualidade, mas a convivência com a desumanidade da “fronteira” (um termo que uso com um sentido metafórico especial) as reveste dum significado renovado. Penso especialmente nas seguintes palavras:

[…]
Você buscará e servirá a Cristo em todas as pessoas, amando o seu próximo como a si mesmo?
Sim, com a ajuda de Deus.
Você trabalhará pela justiça e pela paz entre todas as pessoas, e respeitará a dignidade de todo ser humano?
Sim, com a ajuda de Deus.

Essas palavras exercem um poder convocatório sem igual. E, por serem parte da Aliança Batismal, carregam em si um senso de obrigatoriedade mais potente do que qualquer outra palavra sagrada em minha vida espiritual. Elas exigem, de mim, uma reflexão profunda sobre “todas as pessoas”, e sobre o que significa “servir”, “amar”, “trabalhar” e “respeitar” – os verbos que rezamos naquela Aliança.

O que fazemos daquelas palavras quando nos deparamos com os pecados etnocêntricos do tribalismo, do nacionalismo e do patriotismo? O que fazemos com aquelas promessas se e/ou quando decidimos fazer com que todos os povos se tornem discípulos de Cristo – o problemático convite feito pelo Cristo do Evangelho de Mateus 28:19-20? Até que ponto respeitamos “a dignidade de todo ser humano” quando esperamos que todos sejam como nós – ou quando supomos que Deus seja propriedade de nossa tradição religiosa?

Ou o que fazemos daquelas palavras quando nos calamos diante da injustiça e assistimos silenciosa e passivamente à violência perpetrada contra outros seres humanos, como o que ocorre contra grupos étnicos minoritários, refugiados e migrantes mundo afora? Ou quando nos calamos e não agimos quando atacam – em nome de qualquer Deus, homem ou nação – pessoas que abracem outras crenças religiosas, crença religiosa nenhuma ou certa ideologia política? Ou quando permitimos que, em nome de Deus ou da “nação”, pessoas tenham sua dignidade humana desrespeitada por qualquer motivo?

O que fazemos daquelas palavras quando sabemos que outras pessoas estão com fome na rua, e pensamos que não há nada de errado em comermos num restaurante caro, pois, afinal, isso é uma “questão de mérito”? Ou, ainda, o que fazemos daquelas palavras quando continuamos a votar em políticos corruptos que atentarão contra a “dignidade” humana dos demais membros de nossa sociedade ou de qualquer outra sociedade?

A verdade é que aquelas promessas são o maior desafio que nos podem ser feitos em nossa jornada espiritual. Elas são um testemunho de que a “fé cristã” exige ação no mundo: não ação para convencer ou converter pessoas, mas ação para curar e vivificar a vida humana.

+Gibson


sábado, 26 de agosto de 2017

Não à "tolerância"!



Você defenderá a justiça e a paz para todas as pessoas, e respeitará a dignidade de cada ser humano?
Sim, com a ajuda de Deus.
(Trecho da Aliança Batismal)


Como bem nos lembram as promessas que reafirmamos quando recitamos a Aliança Batismal, somos religiosamente educados para honrar a dignidade humana. O ser humano, nas tradições jordânicas – os judaísmos, os cristianismos, os islãs, os babismos etc –, é compreendido como tendo sido criado à “imagem de Deus”. Assim, respeitá-lo como uma criação divina e honrar sua dignidade e valor é indissociável das compreensões que nossas tradições têm do Divino.

Essa preocupação com o valor e a dignidade humana é, às vezes, rearticulado através daquela palavra tão repetida: “tolerância”. Assim, frequentemente, fala-se em “tolerar” outras pessoas, “tolerar” os que pensam diferentemente de nós, “tolerar” as outras tradições de fé (religiões), “tolerar”, “tolerar”.

Pessoalmente, tenho um enorme desconforto com a palavra “tolerância” e todos os verbos e adjetivos com os quais se relaciona. Mesmo compreendendo o sentido que muitos entre nós dão a esses termos, “tolerância”, “tolerar” e “tolerante” parecem ser exatamente o contrário do espírito que nossas tradições – e, mais especificamente, os cristianismos – nos convidam a materializar em nossas ações.

Afirmarmo-nos como “tolerantes”, para mim, seria o ápice da arrogância espiritual. Ora, ter “tolerância” por alguém é afirmar que me encontro numa posição mais elevada, mais avantajada do que ela, e que ofereço-a minha “misericórdia”. É dizer que sei mais do que ela e que, por isso, demonstro-lhe minha “piedade” para com seu estado de ignorância.

Isso, certamente, não é o que prometemos quando rezamos em comunidade nossa Aliança Batismal nas liturgias de Batismo e de Confirmação. O que prometemos é enxergar e servir a Deus uns nos outros e em todos os demais seres humanos, independentemente de quem sejam, de onde estejam em sua jornada espiritual e do que tenham feito na vida. E aquela promessa não nos exige “tolerância”: exige respeito, exige reconhecimento, exige apreciação, exige serviço, exige amor – não “tolerância”.

Respeitar, reconhecer, apreciar, servir, amar não equivalem a abandonarmos nossas crenças e princípios, a concordarmos com tudo o que os outros pensam. Equivale, sim, a aceitar que da mesma forma como temos o direito de buscar, de crer, de descrer, de ser, outras pessoas – especialmente aquelas de quem discordamos – também têm. E fazê-lo é reconhecer que nossa compreensão do Divino e de nós mesmos é limitada, e que Deus não é nossa propriedade. Demonstrar “tolerância”, por outro lado, é negar essa limitação à qual todos estamos sujeitos(as).

Não à "tolerância"! Deus nos livre da “tolerância”!

+Gibson


sábado, 18 de março de 2017

Pela Resistência da Compaixão: um convite aos meus irmãos e irmãs judeus, cristãos e muçulmanos

Nossa época evidencia o quanto nossas tradições de fé têm sido sequestradas pela retórica do medo, da desconfiança, da intolerância, do fanatismo e do ódio. Outro dia, por exemplo, ouvi um pregador falar tão entusiasticamente da “ira de deus” que suas palavras me causaram náusea. Ele proclamava um suposto ódio de seu “deus” a todos aqueles que não abraçavam sua visão teológica – e o mais assustador é que se tratava de um pregador duma tradicional igreja cristã.

A retórica daquele cristão, infelizmente, é compartilhada por muitos outros cristãos, judeus e muçulmanos – além de irmãs e irmãos de outras tradições de fé. O Deus que nossas tradições proclamam como “amor” é substituído por um deus faccioso de ódio, violência e vingança. Abandonamos o Deus do Universo e nos apegamos ao deus nacional; trocamos o Deus do amor e da paz pelo deus das metralhadoras e da guerra.

Como sempre repito, rejeito a ligação entre Igreja/Religião e Estado – justamente porque essa ligação subentende uma deidade e uma fé nacionais, tribalistas. Isso, contudo, não equivale a dizer que minha fé não seja política. Tudo o que se estabelece na convivência entre seres humanos é político – e isso inclui, necessariamente, tanto nossas comunidades de fé quanto as convicções e práticas que os membros dessas comunidades partilham entre si.

Já imaginaram o quão político é o mandamento judaico, cristão e muçulmano de amar e cuidar dos demais humanos? E ele é “político” principalmente porque só pode ser cumprido através de nossa relação com outras pessoas. É convivendo com elas e nos portando de certa maneira para com elas que podemos cumprir o espírito de nossa fé. Essa é uma exigência das tradições de fé judaicas, cristãs e muçulmanas.

Nas Escrituras dessas três tradições, encontramos exemplos claros desses mandamentos. Quando nos voltamos à Bíblia Hebraica, por exemplo, encontramos:

Não explore o imigrante nem o oprima… Não maltrate a viúva nem o órfão… Se você emprestar dinheiro a alguém do meu povo, a um pobre que vive ao seu lado, você não se comportará como agiota: vocês não devem cobrar juros. (Êxodo 22:20-24)

Não faça declarações falsas e não entre em acordo com o culpado para testemunhar em favor de uma injustiça. Não tome o partido dos poderosos para fazer o mal. E, num processo, não preste depoimento inclinando-se em favor dos poderosos, a fim de torcer o direito; nem favoreça o poderoso em seu processo. Se você encontrar, extraviados, o boi ou jumento de seu adversário, leve-os ao dono. … (Êxodo 23:1-4)

No Novo Testamento cristão, encontramos:

Vocês ouviram o que foi dito aos antigos: 'Olho por olho e dente por dente!' Eu porém lhes digo: não se vinguem de quem faz mal a vocês. Pelo contrário: se alguém lhe dá um tapa na face direita, ofereça também a esquerda! Se alguém faz um processo para tomar de você a túnica, deixe também o manto! Se alguém obriga você a andar um quilômetro, caminhe dois quilômetros com ele! Dê a quem lhe pedir, e não vire as costas a quem lhe pedir emprestado. (Mateus 5:38-42)

Não paguem a ninguém o mal com o mal; a preocupação de vocês seja fazer o bem a todos. Se for possível, no que depende de vocês, vivam em paz com todos. … se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber… Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem. (Romanos 12:17-21)

Se alguém pensa que é religioso e não sabe controlar a língua, está enganando a si mesmo, e sua religião não vale nada. Religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em aflição, e manter-se livre da corrupção do mundo. (Tiago 1:26-27)

E se formos até o texto do Alcorão, lemos:

Em nome de Deus, o Compassivo, o Misericordioso. (1:1)

Piedoso é aquele … que dá dos seus pertences... aos parentes, aos órfãos, aos necessitados, aos viajantes, aos mendigos; é aquele que resgata os cativos, que faz suas orações e que paga a contribuição destinada aos pobres, que cumpre com suas obrigações e é resistente nas dificuldades, no infortúnio e no perigo. Esses é que são os crentes e os piedosos. (2:177)

E Deus ordena a justiça, o fazer o bem aos outros e a generosidade para com os parentes; e proíbe a indecência, o ilícito e a opressão. E Ele ordena que vocês se lembrem disso! (16:90)

Deus está com os piedosos e com os que fazem o bem. (16:128)

É hora de nos voltarmos àquela fé proclamada em nossos textos sagrados. A fé do serviço, do amor, da reconciliação, da paz, da compaixão. Essa fé é incompatível com a retórica de ódio e violência que tem se tornado a linguagem política e religiosa mais ouvida nos meios de comunicação. É uma questão de sobrevivência para nossa dignidade comunal.

Se nos calarmos diante do que acontece, nos tornamos cúmplices da insanidade e da imoralidade política deste mundo. Voltar as costas a quem sofre, fechar as portas aos desabrigados e famintos, se aliar aos poderosos, clamar por armas, apoiar guerras e cultuar o poder do dinheiro e das corporações é rejeitar tudo o que nossas tradições nos ensinam sobre o Divino e sobre a compaixão.

É hora de escolhermos que caminho seguiremos: o caminho da paz ou das armas? Do perdão ou da vingança? Da compaixão ou do ódio?

+Gibson


domingo, 22 de janeiro de 2017

Professando minha "fé"


Assim também é a fé: sem as obras, ela está completamente morta. […] Mostre-me a sua fé sem as obras, e eu, com as minhas obras, lhe mostrarei a minha fé.” (Tiago 2:17-18)

Frequentemente, as pessoas demonstram uma enorme preocupação com a “crença” enquanto cerne da fé religiosa. Para eles, a “” consiste numa função intelectual de aceitação duma formulação de crença correta (a “ortodoxia”). Sua “fé” define-se pelas coisas nas quais declaram acreditar – e mesmo que não tenham consciência disso, enfatizam aquele aspecto da fé chamado em latim, na tradição teológica luterana, de “assensus” (que se refere ao ato de assentir, concordar, aprovar). Isso é demonstrável, por exemplo, nas inúmeras vezes que outras pessoas me perguntam no que creio. Elas esperam que eu professe uma lista de declarações fixas sobre diferentes aspectos teológicos, para que, assim, possam avaliar minha “fé” como “ortodoxa” ou “herética”.

Esperar que eu professe uma compreensão intelectual acabada da Realidade de Deus, da dimensão misteriosa ou dum porvir eterno não funciona para minha fé pessoal. Sou um cristão moldado por diferentes tradições cristãs, ordenado ao sacerdócio/ministério de cinco diferentes comunhões cristãs, e minha teologia pessoal é cada vez mais abençoada pela influência de outras tradições – cristãs ou não. Minha relação com amigos de outras tradições religiosas me ensina o quanto temos em comum e me faz compreender a “verdade” religiosa como algo que se encontra além de qualquer função intelectual.

Gosto de pensar que minha fé é multitradicional, isto é, bebe duma catolicidade mais extensa do que os limites de qualquer comunhão denominacional. Assim, meu unitarismo se entrelaça ao meu anglicanismo que aprende com meu luteranismo que se ilumina com meu restauracionismo que se pacifica com meu quakerismo que se integram à minha herança judaica liberal. De todos eles, e de minha herança cultural, emerge minha compreensão do Sagrado – que inclui não apenas Deus, mas também a humanidade e o todo da criação. Assim, o aspecto intelectual de minha fé não pode ser descrito como algo acabado, imutável; minha compreensão de fé, minha teologia, é, antes, um processo, um caminho, uma via.

Acredito em revelação, que “Deus ainda está falando”, como diz o slogan de uma de minhas denominações. Só que isso pode significar algo totalmente diferente do que alguns poderiam pensar. Nunca ouvi, literalmente, a “voz de Deus” – ou seja, nunca ouvi uma voz mensurável falando comigo, vinda do céu. Mas, ainda assim, julgo ouvir a voz divina: a ouço quando me sinto compelido a ouvir alguém que precisa ser ouvida(o); a ouço quando escuto uma música que me inspira ou consola; a ouço quando sou inspirado por alguém a fazer o que certo; a ouço quando alguém me oferece o consolo que eu preciso. Esse tipo de audição é o que chamo de “influência divina” ou “presença do Espírito Santo”. Essa Presença divina é aquela influência que me convida a participar do “Tikkun olam” (a restauração, reparo, cura do mundo), ensinado por minha herança judaica liberal, ou da construção de “Sião” (comunidade de compaixão, solidariedade e honra do valor e dignidade de todas as pessoas), como ensina minha tradição cristã restauracionista.

É isso que prefiro enxergar como minha fé. Menos uma crença, e mais uma esperança que me compele a tornar o aqui e agora no templo para a habitação do Divino. Menos uma lista de declarações sobre o desconhecido, e mais um desafio para tornar toda a minha vida uma manifestação de minha “fé”. E confesso publicamente, aqui, que essa é a coisa mais difícil que se pode tentar – mas é um desafio transformador!

Como um unitarista, é óbvio que me ocupo da intelectualização de minha “fé”. Essa é também, a propósito, parte de minha ocupação no ministério religioso e no ensino teológico. Mas me preocupo muito mais em viver minha “fé” do que em articulá-la intelectualmente. Em minha tradição anglicana, temos uma expressão para isso: “lex orandi lex credendi” – a lei da oração [é] a lei da crença – ou seja, é na oração que expressamos nossa crença; e como nossa própria vida deve ser uma oração, é na forma como vivemos nossas vidas que expressamos nossa crença teológica (como bem afirma o autor da Carta de Tiago).

+Gibson

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Deus, criacionismo e outras polêmicas: uma resposta a provocações recentes – Parte 1



Pensar sobre Deus não é um substituto para a experiência com Deus, e falar sobre Deus não é um substituto para o oferecimento às pessoas de maneiras de experimentar Deus. (Matthew Fox)


Recentemente, tenho recebido, como resposta à prédica “Por que ‘Deus’ não é Deus?”, centenas de mensagens, tanto de pessoas que estavam presentes ao evento quanto de pessoas que simplesmente reagiram ao título (sem, de fato, terem ouvido uma única palavra do que disse). Aqui, tentarei responder, brevemente, a algumas daquelas provocações.


Deus” não é Deus

Tenho repetidamente dito que há, para mim, uma diferença entre a “realidade” e os conceitos que construímos ou abraçamos acerca dela. As generalizações que servem de base para a construção de nossos conceitos não dão conta do todo da realidade que observamos. Assim, quando identificamos uma pessoa, por exemplo, como “religiosa”, tendemos a atribuir a essa pessoa características gerais que imaginamos serem necessárias para que alguém seja “religiosa”. O termo “religiosa”, desta forma, se torna uma etiqueta que desconsidera as possibilidades de variação, que ignora a complexidade da experiência humana. A generalização é tornada um esteriótipo.

Nas teologias das diferentes tradições de fé, “Deus” é uma dessas generalizações. Especialmente no Cristianismo – assim como, talvez em menor grau, em outras tradições jordânicas, como o Judaísmo e o Islã –, há uma preocupação sistemática com a definição da deidade. Assim, no bojo da diversidade da teologia cristã, há diferentes visões teontológicas (i.e., sobre Deus) que, de acordo com o teólogo católico Peter C. Phan, giram em torno da doutrina da Trindade – algumas favoravelmente, outras contrariamente.

O ponto sobre o qual tenho sempre argumentado é que essas noções, doutrinas ou dogmas – ou seja lá como as chamemos – são construções históricas e, como tal, estão socioculturalmente condicionadas. Elas são diferentes da “realidade” que observamos. Assim, “Deus” enquanto noção teológica, enquanto nome, é diferente de Deus enquanto “Realidade”. É nesse sentido que “Deus” (noção) não é Deus (Realidade). O conceito não passa de uma redução instrumental. Ou, como escreveu Gregório de Nissa:


Qualquer um que tente descrever a Luz inefável com a língua é verdadeiramente um mentiroso; não porque odeie a verdade, mas por causa da inadequação de sua descrição.”


Nossas narrativas, metáforas e crenças religiosas são verdadeiras apenas por conta de sua historicidade. Ou seja, elas são verdadeiras apenas em relação às experiências que um indivíduo ou um grupo tem da/com a realidade. Por isso a “verdade” (enquanto conjunto de noções) é relativa: ela se relaciona com a forma como nos relacionamos com o mundo, e essa relação/experiência serve de filtro para a compreensão que construímos da realidade. Assim, nossas compreensões não são produto apenas de nossa razão, assim como também não são produto apenas de nossas experiências, elas resultam da interação entre ambos.

As compreensões que temos de Deus são moldadas conjuntamente pelas ideias que abraçamos e pelas experiências que temos. Mesmo quando alguém pensa que crê apenas no que as Escrituras de sua tradição ensinam, sua “leitura” (a compreensão que constrói) é condicionada por sua experiência de vida (seu background sociocultural, sua história familiar etc). É a isso que os termos “historicidade” e “relatividade” se referem, em meu discurso.

É isso que está “por trás” daquele título!


Os três Cs: Cristianismo, criacionismo, ciência

Nunca existiu e não existe um Cristianismo único, estático, a-histórico. Como bem escreveu o filósofo e historiador unitarista Arthur O. Lovejoy, “...pessoas que igualmente professaram o Cristianismo e chamaram a si mesmas de cristãs mantiveram, no curso da história, toda espécie de crenças distintas e conflitantes agrupadas sob esse nome...”. Assim, não é possível falar no Cristianismo como se fosse uma “verdade” unívoca e imutável. Ele não é, nunca foi e, provavelmente, nunca será.

O Cristianismo não é a religião professada por Jesus de Nazaré – ele era judeu! – e não é a religião de Deus! O Cristianismo é, antes, a resposta que nós cristãos damos à nossa experiência espiritual filtrada pela ótica de nossa herança sociocultural. Enquanto artefato humano, uma religião diz muito mais sobre seus adeptos do que sobre a divindade que dizem honrar. Não seria diferente com o Cristianismo! O Cristianismo somos nós que o professamos, e não Jesus ou Deus!

Não há nada de essencialmente anticientífico no Cristianismo. Também não há nada de científico na fé cristã. No mundo moderno, fé religiosa e ciência expressam preocupações para com dimensões distintas da realidade. A dimensão misteriosa – aquela que diz respeito àquilo que se encontra além do que pode ser objetivado, mensurado – é o objeto da fé religiosa. A dimensão objetiva – que diz respeito a tudo o que pode ser mensurado, analisado por meio de instrumentos científicos – é o objeto da ciência. O suposto conflito entre religião e ciência, enquanto tais, não passa de mito – mito que serve como instrumento para as intenções de certos indivíduos ou grupos.

O Cristianismo não prega o criacionismo. O Cristianismo ensina acerca da criação. Criação e criacionismo não são a mesma coisa. O criacionismo surgiu como uma tentativa, por parte de adeptos do fundamentalismo protestante, de cientificar uma crença tradicional pré-evolucionista.

Para responder diretamente a uma das questões que me foram feitas: Bíblia e Cristianismo não são a mesma coisa. Você teria de desconhecer a história do Cristianismo para imaginar que o mesmo se baseie unicamente nos textos da Bíblia. A maioria das tradições cristãs reconhecem que a própria Bíblia, originalmente, emergiu como um produto da “Tradição” (e não o contrário), e que essa Tradição foi posteriormente instruída pela autoridade bíblica.

Mas mesmo que se pense que a Bíblia seja a única fonte doutrinária cristã (o que não é o caso para as tradições católica romana, ortodoxa, anglicana, luterana, metodista, unitarista e outras), ela não ensina aquilo que ficou conhecido como “criacionismo”! A narrativa da criação, na Bíblia, não é uma teoria científica – até porque os autores daquela coleção de textos não expressavam a mesma preocupação com explicações objetivas das origens do Universo e da vida que nós temos atualmente.

As origens do criacionismo se encontram em outro lugar. Para compreendê-lo, temos de revisitar as origens do “Movimento Fundamentalista”. E faremos isso na segunda parte deste texto.

Até breve!

+Gibson da Costa

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Sola caritas e o dom de comunidade


O dom da comunidade consiste na absolvição que recebemos pelo pecado de fingir que somos completos sozinhos. Esse fingimento de “autocompletude” é um peso que nossa cultura nos impõe; um fingimento que limita nossa humanidade plena, fazendo-nos tolamente crer que possamos ser plenamente humanos sozinhos.

Na verdade, não podemos.

A plenitude de nossas existências só pode ser realmente realizada quando partilhamos o peso de nossa humanidade com outras pessoas. Esse é o dom e a benção da comunidade. Na linguagem cristã, é o dom e a benção de sermos “igreja” – uma comunidade que se engaja no amor e serviço mútuo, entre seus membros e, consequentemente – e eu diria, metaforicamente –, entre esses e Deus.

Frequentemente me lembro das inúmeras vezes em que esse dom se manifestou de forma explícita em minha vida. Das vezes em que, como forasteiro, fui recebido por comunidades que me ofereceram um lar, tanto físico quanto espiritual. Das vezes em que, como ofensor, fui perdoado pela compaixão ofertada por aqueles que formam e complementam minha humanidade, e que, como eu, embarcam num caminho de descoberta e oferecimento da Presença divina.

Não poderia ter iniciado minha formação humana sem comunidade. Primeiro, minha comunidade familiar. Depois, todas as outras que se juntaram a ela em minha formação como humano: a comunidade de fé, a comunidade de amigos, a comunidade profissional etc. Todas elas sempre foram e sempre serão cúmplices do Mistério na criação inacabada de minha humanidade. Criação que, segundo a tradição cristã, se completa apenas quando “retornamos” àquela Presença que chamamos de Deus – ou seja, quando nos juntamos em comunidade ao Divino, apesar de raramente ser essa a linguagem utilizada para se referir a esse processo “soteriológico”.

Não podemos ser humanos plenos sem comunidade. Mas também não podemos ser cristãos plenos sem comunidade. E isso porque a raiz de ser “cristão” está na ação de ser a materialização da Presença Divina – isto é, ser cristão é ser a face de Deus para os outros humanos e para o resto da Criação, e é ver a face de Deus em todos eles. O autor da carta de Paulo aos romanos, por exemplo, diz:

Abençoem os que perseguem vocês; abençoem e não amaldiçoem. Alegrem-se com os que se alegram, e chorem com os que choram. Vivam em harmonia uns com os outros. Não se deixem levar pela mania de grandeza, mas se afeiçoem às coisas modestas. Não se considerem sábios. Não paguem a ninguém o mal com o mal; a preocupação de vocês seja fazer o bem a todos os homens. Se for possível, no que depende de vocês, vivam em paz com todos. […] Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem.” (Romanos 12:14-18, 21)

São nossas ações, mais do que nossas declarações de crença, que representam nossa fé – para nós mesmos, para nosso próximo, e para Deus.

Comunidade, amor, serviço. Se pudesse redigir uma declaração de minha fé, essas seriam as palavras. Elas não representam o que sou, mas o que tenho recebido de outros e o que almejo praticar em minha vida.

Sola caritas. Só o amor salva. E o amor só pode ser alcançado em comunidade.

+Gibson


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Deus e nossas compreensões a seu respeito


[…] Na vida, na morte, na vida além da morte, Deus está conosco.
Não estamos sozinhos. Graças a Deus.”


Recentemente, fui convidado a participar dum debate promovido por uma emissora de rádio acerca daquilo que chamaram de “fundamentalismo” religioso. Ao aceitar, já imaginava o possível caminho seguido pelo facilitador do debate, uma vez já havia sido entrevistado por ele antes. Assim mesmo, resolvi aceitar.

É engraçado como, em alguns pontos, alguns que se declaram como “ateus” se assemelham a alguns daqueles que se declaram como “crentes bíblicos”. A visão de Cristianismo que defendem ou recusam é exclusivista e engessada – ou seja, para que seus argumentos façam sentido, têm de reprovar e negar todas as outras possíveis expressões da fé cristã, mesmo aquelas com uma longa história.

Tratamos sobre Deus e Jesus, obviamente. Não tenho muita certeza da razão pela qual um cristão unitarista, como eu, seria convidado a um diálogo se os demais participantes, incluindo o próprio facilitador, excluem da identidade cristã aqueles que não abraçam uma visão teontológica (i.e., sobre Deus) e cristológica (i.e., sobre Jesus Cristo) ortodoxa. Para meus companheiros de debate, só seria possível “ser cristão” se você entende Deus como uma entidade pessoal que habita algum lugar no espaço (o “Céu”). E, para ser cristão, eu deveria crer em Jesus como “Deus em carne, que morreu” por mim!

Esse tipo de perspectiva, devo enfatizar, esperaria da maioria dos cristãos – afinal de contas, a maioria dos cristãos se declara “trinitarista”. Mas ela também foi defendida por um “cientista” que se declarou como “ateu”!… Lá estavam eles, talvez sem perceber, coparticipando – no mesmo lado – dum antigo e contínuo conflito epistemológico.

Expliquei aos meus colegas o sentido delimitado que atribuo ao termo “fundamentalismo”. Expliquei que o termo, para mim, não deveria ser utilizado da forma pouco clara e generalizada como o é pela maioria das pessoas que o utilizam. Expliquei que, apesar de eu ser um opositor do “fundamentalismo” (enquanto tradição teológica cristã), não utilizo o termo com um sentido pejorativo. Ser “fundamentalista” não é ser “intolerante” em si; mas, sim, as bases ideológicas daquela tradição são exclusivistas – mas “exclusivismo” e “intolerância” não são necessariamente sinônimos! [O ambiente político é o que tem sinonimizado os termos.]

Sim, também irritei os demais – especialmente o facilitador e o declarado “ateu”. Disse-lhes que era uma incoerência que atacassem o “fundamentalismo” ao mesmo tempo em que utilizassem a base mais importante da tradição para criticar as minhas posições: a ideia de que só há uma forma válida de crer.

Foi, ademais, interessante como se referiam a mim. Os demais – com exceção do “cientista” – eram “pastores” e “padre”. Eu era o “teólogo”.

Essa distinção poderia parecer irrelevante aos leigos, mas sob ela se escondia um preconceito acerca de minha fé. Obviamente, enfatizei isso. Disse aos demais que fora convidado àquele debate como um “Ministro cristão” – o que eu sou e o que era reconhecido por escrito no convite que recebera. O uso que faziam do termo “teólogo”, que creio ser inapropriado para se referir a mim – já que minha formação ou minhas atividades pastorais ou teológicas não me tornam um “teólogo” per se –, reforçava sua crença exclusivista de que minha fé não era cristã, minha comunidade de fé não era cristã e eu, por isso, teria menos dignidade ministerial que os demais. Mais uma incoerência para um evento que se apresentara como um debate sobre os riscos do “fundamentalismo religioso”.

Como já tenho dito e escrito há muitos anos, tendo a ter um grande cuidado no uso que faço de certos termos. Penso, por exemplo, que dizer “Deus existe” seja menos que apropriado para falar sobre minha fé. A existência é uma qualidade atribuída a entidades materiais, físicas, objetivas/mensuráveis. Deus, em minha compreensão não é nenhuma delas. É por isso que não proclamo a “existência” de Deus – mas meus colegas de debate foram, aparentemente, incapazes de compreender isso!

Em vez de falar em “existência” de Deus, prefiro proclamar sua “realidade”. Utilizo, inclusive, o nome “Realidade” para me referir ao Divino. Recorrendo à minha herança judaica, gosto de usar “o Nome”, “o Eterno”, “a Realidade” para me referir a Deus.

Deus, para mim, é mais que uma entidade pessoal. Deus enquanto “pessoa” é apenas uma metáfora para que possamos começar a compreender o Mistério Eterno. Se Deus fosse uma “pessoa”, estaria limitado pelo tempo e pelo espaço, já que a qualidade de pessoa é finita e condicional. Então, claramente, a “personalidade” (a qualidade de pessoa) de Deus seria apenas uma metáfora para que pudéssemos humanizar nossa relação com o Divino – da mesma forma como fazemos com nosso uso do termo “Pai”.

Assim, não posso dizer que tenho esperança de encontrar Deus ao fim de minha vida temporal. Não poderia ter esperança disso porque, para mim, Deus não é uma pessoa como você e eu. Deus não está num lugar específico do cosmo; o cosmo é que está em Deus – incluindo você e eu (Atos 17:28). Minha esperança não se centra num destino final; centra-se, antes, num encontro na jornada: ou seja, minha esperança é encontrar Deus no processo de viver minha existência. Assim, Deus, de fato, está comigo – porque O encontro no dia a dia.

Isso, contudo, é minha compreensão presente de Deus. Minha compreensão e todas as demais compreensões da Divindade não são o mesmo que Deus – se o fossem, seríamos todos idólatras, ao menos para a tradição cristã (já que estaríamos idolatrando nossas próprias compreensões). Deus é Deus. E Deus, que é Deus, é Eterno – e minha mente não consegue compreender plenamente a Eternidade, já que estou condicionado pelo tempo e pelo espaço.

E é exatamente por isso que me basta declarar que confio em Deus.

+Gibson

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Deus, Cristianismo, Inferno, Homossexualidade: Uma breve resposta a múltiplas provocações das últimas semanas



Infelizmente, por razões pessoais, tenho tido pouco tempo para responder à maioria das mensagens das últimas semanas. Por essa razão, responderei aqui, de forma breve e conjunta, a algumas das “provocações” de meus correspondentes. Assim que tiver tempo, oferecerei uma resta mais ampla. Perdoem-me pela brevidade.





Deus e Cristianismo



Como um cristão, encontro minha “janela” ou meu “caminho” para Deus na tradição cristã (na comunidade da Igreja, nas Escrituras, na Liturgia, na narrativa cristã, etc). Mas o Cristianismo é a resposta humana à Realidade que chamamos “Deus”, e não o contrário. Eu sou cristão, mas isso não significa que Deus seja cristão!





O Inferno



Não acredito na existência dum lugar objetivo para onde espíritos sejam enviados como condenação por seus pecados. O “inferno”, em minha visão, é uma metáfora para um estado espiritual/mental de alguém. Não se trata dum espaço geográfico no Universo. A crença na existência dum “inferno” físico contradiz minha compreensão acerca do Divino e da natureza do Universo.





Igreja e Homossexualidade



Tenho uma filosofia muito simples para resolver essa questão de compatibilidade: qualquer comunidade de fé é uma sociedade humana, com suas tradições e regras. Se você quiser fazer parte dessa sociedade, terá de se submeter às suas regras. Caso contrário, pode não ser membro de qualquer uma, pode buscar uma outra sociedade ou, quem sabe?, fundar sua própria.



Se uma determinada comunidade de fé ensina que isso ou aquilo é pecaminoso e que a punição pela "desobediência" às regras seja sua exclusão, você tem a escolha de se submeter às regras da mesma ou não – mas não terá poder para escolher as consequências por suas escolhas, no que tange à comunidade em si. Lembre-se que a filiação religiosa é uma associação voluntária, ou seja, ser membro duma comunidade de fé é voluntariamente se submeter às suas regras. Você não pode esperar que uma comunidade mude em função de você se isso contraria à compreensão que ela tem de si mesma. Mas você, por outro lado, pode encontrar uma outra comunidade!... Fazer esse tipo de escolha pode ser complicado e doloroso, mas é uma escolha justa para com os demais membros duma comunidade que não o aceite e íntegra consigo mesmo!





Ainda sobre Homossexualidade



Para mim, as pessoas são “humanas” (e tudo o que isso implica no contexto teológico e sociocultural) antes de serem qualquer outra coisa. As identidades que ou abraçamos ou nos são impostas – sejam as identidades nacionais, religiosas, políticas, ou emotivo-sexuais – são apenas partes dum todo muito maior. Nós somos muito mais do que essas partes separadas – e mais do que sua soma. Assim, tratar de si próprio ou de outra pessoa como se sua orientação emotivo-sexual fosse sua “essência” é negar a si próprio ou a outrem sua humanidade – que, na perspectiva teológica que abraço equivaleria a negar nossa origem na “dança divina” da Criação.





+Gibson

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Cristianismo Progressista? Filosofia de vida? – uma resposta aos ouvintes do “Graçacast #69”


Ontem, recebi uma mensagem duma visitante (Rebeca) que me fazia perguntas com base num podcast que acompanha, no qual os apresentadores tratavam sobre o Movimento Progressista cristão e haviam citado coisas que publiquei aqui. Após ouvir a transmissão, respondo a algumas das provocações da visitante sobre o que disseram no programa. Meus comentários não seguem a mesma ordem seguida no podcast, que dura mais de uma hora.

Devo começar dizendo que os apresentadores têm um programa interessantíssimo, apesar de termos visões de mundo bem distintas e/ou até conflitantes. Soam como pessoas relativamente bem informadas e bem intencionadas, e eu respeito o seu ministério online. Penso que seu esforço é louvável. Entretanto, tenho críticas (negativas) a respeito de muitas de suas colocações nesse podcast específico (#69).

Antes de comentar sobre o que disseram, é bom enfatizar que o risco que qualquer um corre quando não se informa suficientemente sobre um tema antes de tratá-lo publicamente é que acaba criando o deslocamento nocional que, em alguns momentos, criaram no programa. Muitas das afirmações feitas pelos apresentadores do programa são fruto duma falta de pesquisa cuidadosa sobre o tema. Os apresentadores, por exemplo, iniciam o programa citando o trecho duma antiga publicação neste blog, e depois misturam os dados daqui com aqueles de um texto escrito pelo Rev. Hal Taussig, e acabam construindo uma informação equivocada sobre o “Cristianismo Progressista”. Para eles, o movimento progressista parece ser, em alguns momentos, uma denominação protestante e, em outros momentos, um movimento teológico uniforme. Eles não poderiam estar mais equivocados.

Num determinado trecho do podcast, um dos apresentadores se refere ao movimento como se esse fosse uma denominação (ele não usa esse termo), dizendo, inclusive, que a primeira “igreja progressista” teria surgido apenas em 2005. Na verdade, esse título – Cristianismo Progressista – é apenas o nome dado a um movimento organizado, nos Estados Unidos, no TCPC (The Center for Progressive Christianity), que foi fundado em 1996 (mil novecentos e noventa e seis) pelo Rev. James Adams – um sacerdote episcopal. O “progressivismo” já existia, no interior de denominações protestantes; o que o nome e o TCPC fizeram foi apenas ajudar a todos aqueles grupos se sentarem juntos e compartilharem sua mensagem. O TCPC é uma rede não-denominacional de igrejas locais (congregações) pertencentes a diferentes denominações cristãs – episcopais, luteranos, congregacionais, unitaristas, universalistas, batistas, metodistas, restauracionistas, presbiterianos, pentecostais, católicos independentes etc. Ou seja, nunca existiu uma “primeira igreja progressista” – se por “igreja” se estiver pensando numa denominação ou numa forma de Cristianismo. Também não se criou mensagem nova nenhuma: o movimento proclama crenças e práticas que estão enraizadas nas diferentes tradições que se juntaram na organização do TCPC e de outras associações semelhantes, que foram organizadas para proclamar publicamente o “progressivismo cristão” – que surgiu ainda no início do século XX. O que as congregações que formam o TCPC fazem é, simplesmente, criar uma rede de colaboração que nunca havia existido fora das denominações específicas.

O movimento não é o mesmo ao redor do mundo. E, na verdade, sequer existe fora do mundo anglófono (os países de língua inglesa e as igrejas de língua inglesa em países onde se falam outras línguas). No Brasil, por exemplo, só quatro congregações colaboram formalmente num movimento brasileiro semelhante – todas elas são igrejas anglófonas (de língua inglesa), incluindo aquela da qual sou Ministro (e essas estão envolvidas com o movimento norte-americano). O movimento norte-americano (nos E.U.A. e Canadá) tem características diferentes dos movimentos britânico, australiano, neozelandês, sul-africano e das igrejas anglófonas da Europa continental – e todos esses são diferentes entre si. As alianças são diferentes, as tradições teológicas são diferentes, as maneiras como se organizam são diferentes, suas declarações são diferentes etc.

O texto que um dos apresentadores cita como se fosse os supostos “cinco pontos” do Movimento Progressista, na realidade, não é uma declaração oficial de nenhuma organização do movimento, logo, não pode ser utilizado como se o fosse. O texto refere-se apenas a uma reflexão pessoal do professor e ministro Rev. Hal Taussig sobre o tema, na qual ele aponta o que ele entende ser as cinco principais características do progressivismo cristão – nem todos os cristãos envolvidos com o movimento concordariam com sua visão. Institucionalmente, o movimento americano, com o qual tenho me envolvido nos últimos 15 anos, proclama oito pontos – que estão traduzidas aqui neste blog desde, pelo menos, 7 de outubro de 2007. Se quiser falar sobre o que o Movimento, oficial e institucionalmente, afirma, deve-se citar aquele documento.

Quando levantam suposições sobre o sentido do termo “progressista”, por exemplo, alguém afirma que “o progressista sugere que, como a própria palavra diz, ela sugere um progresso, significa que você avançou na interpretação da Bíblia, na interpretação das Escrituras, e sobre aquilo que elas diziam…”. Essa é outra afirmação descontextualizada, para alguém que não seja membro duma igreja fundamentalista do Bible Belt dos Estados Unidos (o que não é o caso deles!). E ela é descontextualizada teológica e historicamente (dois fatores que se correlacionam aqui). Vejamos.

TEOLOGICAMENTE: Para dizer o que ele disse, você teria de supor que a única fonte teológica do Cristianismo seja a Bíblia. Ora, as denominações nas quais há congregações ou indivíduos envolvidos com movimentos como o Cristianismo Progressista não são tradições que preguem ser a Bíblia a única fonte teológica cristã. Na verdade, apenas uma ínfima minoria das tradições protestantes ensina isso oficialmente. Por exemplo, para anglicanos/episcopais, luteranos, presbiterianos, metodistas, congregacionais, unitaristas, universalistas, restauracionistas, quakers, e mesmo batistas, a Bíblia não é a única fonte para se entender o Cristianismo – eu, a propósito, discuti isso aqui nos dois textos anteriores a este. Os protestantes mais tradicionais utilizam como recurso para a reflexão teológica a Bíblia, a Tradição, a Razão e, especialmente os herdeiros do Metodismo, a Experiência pessoal. Mesmo o antigo Movimento Fundamentalista fazia menção a essas fontes teológicas. Só grupos minoritários afirmam que a Bíblia seja a única fonte teológica cristã. E, se você atentar cuidadosamente, observará que as congregações que se envolvem com o Movimento Progressista são, geralmente (pode haver, talvez, uma ou outra exceção), parte daquelas tradições que citei. Logo, a ideia de que se refiram, com o adjetivo “progressista”, a um suposto avanço na interpretação das Escrituras não faz absolutamente nenhum sentido!

HISTORICAMENTE: Pessoalmente, também não simpatizo com o termo “progressista”, já que penso ser ele inapropriado em português; mas seu uso deve ser contextualizado no ambiente cultural onde emergiu e é utilizado. O termo, em nosso meio, não se iniciou – como se disse no programa – por conta daqueles movimentos políticos de liberação da década de 1960. Ele também não tem origem no “pós-modernismo” filosófico. O problema com essa interpretação é que ela se baseia unicamente no uso do adjetivo “progressista”, já que, comumente, os movimentos de esquerda – especialmente herdeiros de tradições socialistas – são chamados de “progressistas”. O Progressismo cristão americano está enraizado na tradição do Evangelho Social. Desde o início do século XX já se usava, em inglês, o termo “progressista” para se falar sobre uma perspectiva na qual o trabalho pelo estabelecimento do Reino de Deus na Terra hoje mesmo é uma forma de proclamar o Evangelho e se preparar para a Segunda Vinda. [A soteriologia universalista, que serviu de base ao movimento do Evangelho Social, falava da “salvação” como um “progresso” rumo à construção do Reino de Deus aqui na Terra, antes que Cristo retornasse e completasse o processo de salvação. Essa ideia, por sua vez, fundamentava-se numa compreensão escatológica pós-milenarista, que fora dominante nas igrejas reformadas americanas até o período entre a 1ª e a 2ª Guerras Mundiais. Ou seja, não é olhando para as tradições políticas marxistas que você entenderá o contexto do surgimento do movimento; é, antes, olhando para as tradições teológicas calvinistas!]

Ademais, não foram os adeptos que criaram o termo – o termo foi dado por quem estava de fora. Esses cristãos aceitaram o uso. Quando aceitaram o uso do termo, não pretendiam então, como nossos contemporâneos não pretendem hoje, ver-se como superiores aos demais cristãos. Para entender isso, você tem de compreender o termo em língua inglesa:

“Progressive”, em inglês, não significa, no contexto do movimento, que você “progrediu” mais que outros. O sentido é que você está em movimento rumo a um dado destino. No meio teológico anglófono, como já expliquei, o termo está tradicionalmente associado à herança do Evangelho Social. Quando se fala em “progressista”, uma pessoa teologicamente informada, nos E.U.A., conseguirá fazer a ligação – assim como fará a ligação a uma perspectiva política na história nacional. No Brasil, entretanto, não há essa conexão. Assim, o termo se torna vazio ou até ofensivo. É bom lembrar, contudo, que o mesmo termo é também utilizado por um movimento dentro do Judaísmo desde o início do século XX, exatamente o mesmo momento no qual as teologias do Evangelho Social (no Cristianismo Protestante americano) e do Tikkun Olam (no Judaísmo Reformista) estão se difundindo em igrejas protestantes (unitaristas, universalistas, batistas, congregacionais, presbiterianos, luteranos, anglicanos e metodistas foram os grupos mais influenciados pelo Evangelho Social) e templos judaicos reformistas.

[E você, então, poderia me perguntar a razão de o endereço deste blog ser “cristianismoprogressista”; a razão é simples: em primeiro lugar, iniciei este blog ainda nos E.U.A., para um público de estudantes que falavam português e que frequentava a igreja da qual eu era ministro; em segundo lugar, não havia a disponibilidade do nome que eu queria. Acabei utilizando um título que eu mesmo não apreciava tanto.]

E aí vem a próxima correção que os apresentadores teriam ouvido de mim, se estivéssemos conversando: liberal e progressista não são a mesma coisa! Um protestante evangelical poderia se identificar, sem muito desconforto, como um progressista; mas, talvez, tivesse mais problemas para abraçar uma perspectiva teológica liberal. Mas, sim, é verdade que muitas das ideias abraçadas pelo Movimento Progressista são comuns também aos “liberais” – a mais importante delas, que eles aparentemente não entendem: a soteriologia universalista (isto é, a antiquíssima crença cristã de que Deus, de alguma forma, salvará a todos os seus filhos – ideia defendida por alguns dos Padres da Igreja, como Orígenes e Gregório de Nissa [e eu os cito aqui apenas para demonstrar quão antiga é essa visão dentre alguns cristãos; não se trata de uma invenção recente, de uma novidade!]).

Quando condena o Universalismo, um dos apresentadores diz que isso – isto é, a crença na soteriologia universalista (que ele, obviamente, desconhece) – está expresso nos “cinco pontos” do movimento (ele mais uma vez se equivoca: são oito pontos; os “cinco pontos” sobre os quais fala são apenas as características apontadas pelo Rev. Taussig, que já citei acima), e passa a ideia de que esta seja uma ideia nova. Falando sobre os 8 Pontos (lembre-se que, para ele, são 5), ele diz que “…o principal argumento deles: não tem limite de gênero, não tem ideologia de gênero” [sic]. Ora, a expressão “ideologia de gênero” não aparece no texto, e a noção de “ideologia de gênero” abarca coisas que ultrapassam o que diz o ponto 4, que é o que Taussig discute em seu texto, e que o apresentador cita como se fosse um dos “pontos” defendidos pelo movimento. Reproduzo o texto do “Ponto 4” abaixo:

4) Convidamos todas as pessoas a participarem em nossa comunidade e em nossa vida de adoração, sem insistir que elas se tornem como nós para serem aceitas, incluindo, mas não se limitando a:
* crentes e agnósticos;
* cristãos convencionais e céticos;
* mulheres e homens;
* aqueles de todas as orientações sexuais e identidades de gênero;
* aqueles de todas as raças e culturas;
* aqueles de todas as classes e habilidades;
* aqueles que esperam um mundo melhor e aqueles que perderam a esperança;


Teologicamente, mais uma vez, o que alimenta essa compreensão é a soteriologia universalista abraçada pelo movimento – o termo “soteriologia”, a propósito, é um termo teológico que se refere às doutrinas referentes à “salvação”. Assim, apesar de parecer apenas uma afirmação de ideologias de gênero, trata-se da afirmação duma compreensão teológica milenar entre alguns cristãos. Mas, novamente, quando se fala publicamente de certos temas sem se fazer uma pesquisa séria, é nisso que dá: afirma-se enganos que poderiam ser evitados se conhecessem um pouco mais de teologia e história protestantes.

A questão da relativização. Na realidade, escrevi recentemente sobre isso aqui, então tentarei ser breve. Um dos apresentadores diz que o maior questionamento contra os cristãos progressistas – questionamento que ele partilha – é “não interpretar a Bíblia da forma correta”!… Bem, alguém poderia escrever uma tese a respeito do que está por trás dessa frase. Você tem de perceber a partir de qual perspectivas falam os apresentadores do programa: aparentemente – o que é o caso também de minha leitora, a julgar pelo que me escreveu –, eles acreditam que a Bíblia e o Cristianismo sejam a mesma coisa, e acreditam nas teorias da “infalibilidade” e “inerrância” do texto bíblico. Eu – como a maioria dos protestantes herdeiros de tradições mais antigas do Protestantismo – não partilho nem nunca partilhei dessa ideia.

Essa equalização entre Bíblia e Cristianismo, ou vice versa – o que quer dizer, para quem acredita nisso, que só é cristão aquele que supostamente acredita em/faz absolutamente tudo o que as Escrituras ensinam (ou seja, trata-se da recusa em aplicar o pensamento crítico à Bíblia, ao menos declaradamente) –, e as teorias da “inerrância” e “infalibilidade” têm uma data de nascimento: a segunda e a terceira gerações dos reformadores, que criaram a teoria da inspiração plenária da Bíblia (isto é, que os textos bíblicos foram diretamente inspirados – “ditados” – por Deus).

Johann Quenstedt, um luterano, é o principal nome na origem dessa compreensão de inspiração plenária. Para ele, qualquer coisa presente nas Escrituras deveria ser entendida como verdadeira e inquestionável, fosse a respeito do que fosse. Não haveria espaço para metáforas, por exemplo – algo que a Igreja sempre levou em consideração. Também não haveria espaço para a compreensão ensinada por Martinho Lutero de que a Bíblia se tornava revelação de Deus no momento em que era pregada e ouvida; para Quenstedt, era o que estava escrito que importava.

Assim, essa visão de “inspiração plenária” ignora toda a diversidade de tradições hermenêuticas e exegéticas da Igreja, especialmente aquelas tradições antiquíssimas das escolas alexandrina e antioquina de exegese bíblica – que, respectivamente, fazia uma interpretação literal suplementada por um apelo à metáfora/alegoria, enquanto a outra interpretava a Bíblia com base no exame do contexto histórico das Escrituras. Não estou falando aqui duma novidade “pós-moderna”; essas tradições estavam ativas nos primeiros séculos da história cristã e, de certa forma, continuam vivas ainda hoje nas diferentes tradições cristãs. Mas, obviamente, quando alguém pensa que conhece a única resposta válida, e ignora as histórias e as teologias cristãs, nada disso é relevante!

Essa ideia de “inspiração plenária” retorna com maior força a partir da organização do Movimento Fundamentalista, no século XX, e é essa ideia que adentra o Evangelicalismo brasileiro. É por essa razão que, talvez, a maioria dos evangélicos brasileiros acredite/pregue isso. Suas comunidades de fé herdaram a teologia que emergiu no período de conflito entre liberais e fundamentalistas há cerca de um século atrás. Eles nunca conheceram outra visão. Para eles, isso é o Protestantismo.

Escrevo isso para demonstrar o quão mal fundamentada está a argumentação da “relativização”. Ela faz sentido apenas para quem sempre acreditou que houvesse apenas uma compreensão válida. Se esse fosse realmente o caso, então o próprio meio evangélico teria (ainda mais) sérios problemas: se só há uma interpretação válida, o que dizer sobre todos os outros evangélicos que compreendem as coisas de outra forma? Todos seriam “hereges” (ou sei lá que qualificativo utilizam)?… Pergunto isso porque batistas, presbiterianos, metodistas e assembleianos, por exemplo, não interpretam a Bíblia da mesma forma em todos os aspectos! Quem teria razão, então?… Essa variação de interpretação entre esses grupos, e no interior de cada um deles, é chamada de “relativização” (=contextualização)!… Mas já expliquei muito sobre isso nas duas últimas postagens neste blog, então penso não ser necessário acrescentar mais nada.

Contextualizando ou relativizando a posição dos apresentadores, eles dizem o que disseram no programa porque sua compreensão teológica baseia-se numa visão da Bíblia como sendo plenariamente inspirada e, consequentemente, inerrante e infalível. Ora, apenas uma minoria dos cristãos do mundo acredita nisso; e mesmo se formos nos referir apenas aos grupos protestantes, só aqueles que descendem de igrejas enraizadas na tradição teológica fundamentalista (o termo não é pejorativo – trata-se da tradição que se opunha aos liberais/modernistas/progressistas no início do século XX) ensina isso hoje no mundo (apesar de serem, provavelmente, a maioria no Brasil, por razões históricas específicas).

O que eu quero dizer é: você não pode realmente pensar que alguém que não acredite numa crença minoritária seja um herege! Cristãos liberais e cristãos progressistas tendem a reconhecer sua limitação humana, afirmando que “nós podemos estar errados, então é por isso mesmo que não julgaremos aqueles que não pensam como nós”. Mas os apresentadores do programa, aparentemente, não compartilham desse reconhecimento de suas próprias limitações humanas. Para eles, se você não acredita na inspiração plenária, na inerrância e na infalibilidade da Bíblia, então você é qualquer coisa, menos cristão!

Ah, mas como uma resposta ao que um deles disse, já próximo ao fim do programa: sim, ser tolerante é ser relativista! [Ele dizia o oposto disso.] O problema com o uso que fazem do verbo “relativizar” ou de termo “relativo” é que demonizam a noção de relativização, sem perceber que a relativização faz parte de absolutamente tudo o que fazemos na Igreja e na sociedade. Quando você tem de tomar uma decisão que entre em conflito com o que é habitual, por exemplo, você relativiza: tenho de estar na igreja na manhã de domingo, mas meu vizinho quebra a perna e me pede para levá-lo ao hospital – se eu for, ficarei lá até ele ser atendido –, o que faço? Vou à igreja e não socorro ao meu vizinho? Bem, o próprio Jesus, de acordo com as Escrituras, deu a resposta a isso: Marcos 3:1-6. O que ele faz ali, de acordo com o relato em Marcos, é relativizar um mandamento. Um exemplo que parece tolamente óbvio, mas é um exemplo de relativização nas próprias Escrituras. Quando somos tolerantes, até um certo nível, colocamos o “outro” numa posição maior do que o que pensamos sobre nossas próprias convicções; o que fazemos, então, é relativizar nossas crenças para que possamos construir um outro ambiente. Relativizar é criar uma relação com nossas próprias crenças – assim, você só pode ser tolerante se a tolerância tiver uma relação com sua visão de mundo; é isso que torna possível a tolerância, e é por isso que a tolerância é uma forma de relativização.

É nesse ponto que reside a importância da compreensão da relativização da verdade, sobre a qual eles se debruçaram tanto sem compreender a visão que temos. Quando eu, por exemplo, falo em “verdade relativa” não estou afirmando que não haja uma verdade absoluta. Para mim, há. O que eu não posso dizer, contudo, é que aquilo que entendo como verdade seja a mesma à qual outra pessoa chegará. E seria prepotência e orgulho dizer que eu conheço a verdade que todos devem abraçar – e, em minha fé, o orgulho é um pecado. Por isso falo sempre em “para mim”, “em minha opinião”, “em minha visão” etc. Essa é uma forma de relativizar a verdade – ou seja, afirmo que aquilo é verdade para mim, mas você é livre para acreditar em outra coisa. Tenho uma visão de Deus e de Jesus Cristo que são próprias de minha tradição unitarista. Os argumentos para minha crença se baseiam, em parte, nas Escrituras. Aquela visão é verdade para mim. Um católico romano que segue a doutrina oficial de sua comunhão, contudo, tem uma outra compreensão teontológica e cristológica. Ele é um cristão. Sua crença é majoritária. Não posso esperar que ele deva acreditar no que acredito, ou não será um cristão. O que acredito sobre Deus me faz pensar que Deus está além de nossa compreensão humana finita. Os autores da Bíblia, por exemplo, mesmo inspirados, utilizaram uma língua humana finita. Eu sou um humano finito. Meu vizinho católico também. E aí, o que faço para lidar com isso? Não se pode esperar que eu mude minha crença para ser aceitável ao meu vizinho. Também não posso esperar que ele mude para que eu o aceite… É aí que entra o papel da relativização na convivência humana: a relativização e a tolerância se entrelaçarão, e ele e eu poderemos viver nossa fé em respeito um ao outro. O que eu acredito ser a verdade ainda será, e vice versa. É isso que significa “relativizar a verdade”, no que tange à nossa relação com outras pessoas: não é abandonar nossa verdade, é apenas lembrar que outras pessoas também têm o direito a entender a verdade de sua fé da forma como acharem melhor.

A questão da Filosofia. Num certo momento, um dos apresentadores, falando sobre a suposta influência do “liberalismo teológico” no Cristianismo Progressista, diz que a teologia liberal “relativiza a autoridade da Bíblia, né?, aquilo que a gente já sabe sobre o liberalismo teológico, né?, que mescla filosofia, consciência e religião...” – fazendo seu comentário, obviamente, num tom pejorativo (expressando o característico anti-intelectualismo do evangelicalismo dominante no Brasil, que torna “filosofia” um palavrão), e seguindo os estereótipos típicos construídos por alguns apologistas do meio evangelical brasileiro.

A “psicologia de fila de banco” [a expressão irônica, a propósito, é minha, não deles] – que se relaciona ainda à questão da filosofia – utilizada para explicar a razão porque cristãos abraçariam visões “progressistas” é ridícula. Eu, por exemplo, não sou um liberal e progressista porque me cansei de “legalismo” na Igreja ou porque queira licença para pecar. Minha posição teológica não é de reação. Eu estou enraizado numa tradição teológica que ensina essa visão. Foi essa a visão que aprendi na Igreja, no seminário, em casa e em minha vida cristã. O Cristianismo não é, para mim (como afirmou um dos apresentadores a meu respeito, num característico tom anti-intelectualista) apenas “uma filosofia” – ele é, sim, uma “filosofia”, se com o termo nos referirmos a uma “visão de mundo”: minha relação com o Divino, minha visão religiosa de mundo, meu imaginário religioso, minha linguagem religiosa se assentam no Cristianismo, logo, o Cristianismo é minha “filosofia” de vida. O Cristianismo é minha fé. Novamente, o problema parece ser que compreendemos a noção de “fé” de formas bem distintas. A fé não é uma crença morta; é uma esperança que produz frutos, como bem explicita Tiago 2:14-26. Mas eles, como supostos conhecedores dos textos bíblicos, já devem saber o que uma outra passagem bíblica diz sobre esses frutos, Gálatas 5:22. [A propósito, é bom contextualizar o que escrevi, e que ele cita de forma seletiva que pode desvirtuar o sentido de meu texto; então, leia minha declaração completa, publicado aqui em 12 de maio de 2009 – ela é o trecho de um livro que publiquei em 2003, nos Estados Unidos: O MEU CRISTIANISMO.]

O que uma pessoa informada poderia perguntar a ele, contudo, é se ele realmente pensa que ele mesmo não mescle “filosofia” (=uma visão de mundo) e “consciência”(=razão) em suas visões teológicas(?). Como tratei disso longamente nas duas últimas publicações neste blog, não responderei a esta questão aqui. Mas posso encontrar a gênese do que ele disse em sua visão da natureza e papel da Bíblia no Cristianismo, que já discuti brevemente anteriormente.

Sexualidade. O tema é enfatizado no podcast – novamente, uma característica do Evangelicalismo majoritário brasileiro, isto é, a ênfase em “moralidade sexual” –, mas eu, a não ser que seja uma discussão inteligível sobre o tema, não discuto isso aqui. Logo, não farei comentários sobre o que disseram, a não ser este: querer comparar a aceitação do relacionamento entre duas pessoas do mesmo sexo por um cristão à aceitação do aborto ou do incesto é, no mínimo, de uma desonestidade intelectual incrível!… Por essa e por outras, não perderei meu tempo comentando teologicamente os argumentos que ouvi!

Jesus. Não consigo levar à sério os comentários que fizeram sobre o que os “cristãos progressistas” acreditariam acerca de Jesus. Isso só mostra o quanto leram pouco antes de tratarem o tema em seu programa. A raiz do que disseram encontra-se, como já disse antes, em sua visão da natureza e papel da Bíblia, mas também em sua compreensão de como a teologia protestante tem sido historicamente construída. Falta em seus argumentos, ademais, uma familiarização com a história tanto da teologia cristã quanto da Igreja – sem falar, obviamente, no desconhecimento dos pensamentos teológicos presentes no movimento que tratam em seu programa.

Cristianismo light?... Pensar que viver a fé que cristãos liberais e/ou progressistas comprometidos vivem em suas vidas diárias é light é tolice, já que não considera que nossas diferentes tradições exigem um “processo de conversão contínuo”. No meu caso específico, como um unitarista, mente, coração e ações, metaforicamente falando, se unem no trabalho de compreender a Deus e a lidar com o meu “próximo” aqui e agora. Isso significa pautar minhas ações por uma convicção de que aquilo que faço é – na melhor compreensão que posso ter do que seja verdadeiro e de qual seja a vontade de Deus – certo (sim, porque diferentemente do que se pode pensar, para nós há “certo” e “errado”, nossa fé não é um “vale tudo”). Um dos apresentadores faz um comentário muito certo quando diz que ser cristão é um processo que se estende ao longo da vida – isso é, inclusive, algo que já escrevi aqui muitas vezes. Minha tradição me ensina que “mudar de ideia” é aceitável e natural.

Autoridade. Quando falam sobre autoridade, referem-se, primeiramente ao contexto católico – citando Leonardo Boff –, para discutir o contexto protestante, falando sobre o questionamento da autoridade de líderes eclesiásticos. O que eles, aparentemente, ignoram é que nem todas as tradições protestantes abraçam essa visão de autoridade que eles abraçam. É só lembrarmo-nos dos quakers [ou quacres], por exemplo, para quem o indivíduo é o eixo da autoridade – o cristão se relaciona com Deus por meio da influência direta do Espírito ao seu coração/mente (sem precisar de intermediários, como pastores, sacerdotes etc). Ou, lembrarmo-nos, como exemplo, do movimento batista anglófono não ligado à tradição do sul dos E.U.A. – sim, porque essa tradição tem uma compreensão de autoridade diferente –, a autoridade se centra na consciência do indivíduo (a razão), enquanto recipiente do Espírito Santo em sua leitura das Escrituras. Nas tradições anglicana/episcopal, unitarista, universalista, metodista e congregacional, o indivíduo, mais uma vez, é o eixo dessa autoridade – não seu líder eclesiástico. Então, falar no questionamento da autoridade como se isso fosse uma violação da Bíblia ou da fé cristã é desconhecer a multiplicidade no meio protestante!

A questão do “joio e do trigo”. Isso tem a ver, mais uma vez, com a perspectiva teológica que se abrace. Para os apresentadores do programa, a resposta está em sua visão da Bíblia e seu não reconhecimento de que essa sua visão emerge de uma série de outras “visões de mundo”, concernentes tanto à própria teologia quanto ao dito mundo secular. Assim, eles já sabem que é o “joio” e quem é o “trigo”: o “joio” será sempre aquele que pensa de forma que conflitue com o que eles mesmos acreditam ser a verdade – algo que, de certa forma e infelizmente, é comum a todos nós.

O belicismo ideológico. Sim, é verdade que há muitas pessoas que falam em respeito e tolerância, mas que, na vida real, esperam que todas as pessoas e grupos pensem exatamente como eles. Nos meios ditos “progressistas” e “liberais” protestantes isso acontece. Mas é importante notar que isso não é o que se prega. A generalização de que todos nós – e quando falo em “nós” me refiro apenas àquelas igrejas locais ou indivíduos que estejam, de alguma forma, relacionados ao TCPC, não me refiro a outras coisas que aconteçam entre protestantes brasileiros e que desconheço – sejamos militantes que desrespeitam a fé de outros cristãos é uma acusação inverídica e soa muito mais à mentalidade da vitimização.

Eu, por exemplo, enquanto a sociedade atacava o citado Silas Malafaia por suas posições contrárias à homossexualidade, escrevi aqui mesmo em defesa de seu direito de acreditar no que acreditava e de pregar o que pregava. Deixei claro que discordava de suas posições, mas que não podia acusá-lo de “homofóbico” apenas porque discordava de minha posição. Não fiz isso porque sou bonzinho e perfeito. Fiz porque é isso que minha tradição de fé ensina e o que ensino àqueles a quem ministro – como também o fiz porque a liberdade de opinião e expressão é o cerne de minha tradição política. Aprendi, desde criança, em casa e na Igreja, que não posso ter liberdade de opinião e expressão se outras pessoas não o tiverem. Eu continuo a defender isso, tanto publicamente quanto em minhas atitudes pessoais, seja como cristão ou cidadão. Então, a generalização feita por um dos apresentadores, de que os cristãos progressistas” ou “liberais” não sejam tolerantes para com os cristãos “conservadores”, e de que haja uma perseguição de nossa parte àqueles, não corresponde à realidade – especialmente porque na maioria das igrejas às quais estamos ligados, seja como fiéis ou como Ministros, convivemos com os dois grupos.

Falta apenas mencionar a falta de compreensão que os apresentadores têm sobre o que seja a tradição liberal protestante (estou falando “liberal” agora, e não “progressista”) – que não tem absolutamente nada a ver com as descrições que fizeram. Essa antipatia para com a tradição liberal e a má vontade em compreendê-la tem muito mais a ver com a história das igrejas presbiterianas e batistas em meados do século XX, no Brasil, do que com qualquer outra coisa (refletindo o conflito entre liberais e fundamentalistas nos E.U.A.). E essa herança se estendeu a todo o meio protestante brasileiro até hoje. Mas isso mereceria uma discussão à parte.

Para finalizar, respeitosamente, posso usar as palavras de um dos apresentadores, que podem servir como conselho para seus ouvintes no que tange ao que eles próprios disseram em muitos pontos de seu podcast:

Toda generalização é burra. Toda. Sem exceção!

Paz a todos!

+Rev. Gibson da Costa